Conhecendo Jesus seus pensamentos, disse-lhes: "Por que vocês pensam maldosamente em seus corações?
1. Introdução
Há um momento em Mateus 9 em que o texto muda de registro. Jesus acabou de perdoar os pecados de um paralítico. Os mestres da lei reagiram internamente — sem dizer uma palavra em voz alta — com a acusação de blasfêmia. E então Jesus os olha e responde ao que ninguém havia dito.
Mateus 9:4 é o versículo que registra esse momento. Ele começa com uma afirmação desconcertante: Jesus conhecia os pensamentos deles. Não suspeitava, não deduzia, não adivinhava. Conhecia. E com base nesse conhecimento, fez uma pergunta que não era uma pergunta — era um diagnóstico: "Por que vocês pensam maldosamente em seus corações?"
Esse versículo é curto, mas carrega três afirmações de peso considerável. A primeira é cristológica: Jesus tem acesso ao interior humano, o que o texto bíblico atribui exclusivamente a Deus. A segunda é antropológica: o coração humano é capaz de abrigar o mal de forma deliberada e persistente, mesmo em pessoas religiosas. A terceira é pastoral: Jesus não ignora o que está no coração — ele o confronta, com precisão e com uma pergunta que convida ao autoexame.
Compreender Mateus 9:4 é compreender algo essencial sobre a natureza de Jesus e sobre a natureza do coração humano diante dele.
2. Contexto Histórico e Cultural
A sequência narrativa em Mateus 9
Mateus 9:4 está inserido num episódio que começa no versículo 1, com a chegada de Jesus a Cafarnaum, e culmina na cura do paralítico nos versículos 6 e 7. O versículo 3 registrou a acusação silenciosa dos mestres da lei; o versículo 4 é a resposta de Jesus a esse silêncio. Essa estrutura narrativa — acusação não verbalizada seguida de resposta direta de Jesus — é significativa: ela evidencia que Jesus não estava reagindo a palavras, mas a pensamentos.
Cafarnaum como palco do conflito
Cafarnaum, situada à margem noroeste do Mar da Galileia, era uma cidade com presença militar romana, sinagoga ativa e intensa vida comercial. Para Jesus, ela funcionava como base de operações em sua região de atuação. O fato de que mestres da lei estavam presentes nesse episódio — provavelmente deslocados de Jerusalém ou de outras regiões — indica que sua fama havia chegado aos círculos de poder religioso, e que esses líderes haviam se organizado para observá-lo de perto.
A relação entre Jesus e os mestres da lei
No contexto do judaísmo do primeiro século, os mestres da lei eram guardiões da interpretação ortodoxa das Escrituras. Sua presença junto a Jesus não era neutra — era fiscalizatória. Eles vinham verificar se ele estava em conformidade com a Lei, se suas afirmações eram legítimas, se representava uma ameaça à ordem religiosa estabelecida. O episódio de Mateus 9 é um dos primeiros confrontos registrados por Mateus entre Jesus e esses líderes — e a resposta de Jesus no versículo 4 inaugura um padrão que se repetirá ao longo de todo o Evangelho: ele não foge do conflito, mas o enfrenta com uma combinação de autoridade, clareza e questionamento socrático.
O coração no pensamento bíblico e no mundo antigo
Tanto na cultura hebraica quanto no pensamento greco-romano, o coração — lev em hebraico, kardia em grego — não era apenas um órgão físico. Era o centro da vida interior de uma pessoa: o lugar onde se tomavam decisões, onde residiam as emoções profundas, onde se formavam os julgamentos morais. Para a tradição bíblica, o coração era a sede da vontade humana — e, portanto, o lugar onde o pecado ou a fé se enraizavam de forma mais duradoura. Quando Jesus pergunta "por que pensam maldosamente em seus corações?", ele não está usando uma metáfora poética — está identificando o centro da vida moral dos escribas como o lugar onde o problema reside.
3. Análise Teológica do Versículo
"Conhecendo Jesus seus pensamentos"
Essa expressão destaca a onisciência divina de Jesus — uma característica que o distingue como o Filho de Deus. Ao longo dos Evangelhos, Jesus demonstra repetidamente sua capacidade de perceber os pensamentos e as intenções dos outros, como se vê em João 2:24-25, onde se afirma que ele conhecia o que havia no ser humano. Essa capacidade cumpre profecias do Antigo Testamento sobre o Messias, como Isaías 11:2-3, que fala do Espírito do Senhor repousando sobre ele, concedendo-lhe sabedoria e entendimento. O conhecimento que Jesus tem dos pensamentos alheios também reforça sua autoridade e a veracidade de seus ensinamentos, pois ele é capaz de discernir os motivos ocultos do coração.
"disse-lhes: 'Por que vocês pensam maldosamente em seus corações?'"
Nesta parte do versículo, Jesus confronta diretamente os escribas e fariseus, que frequentemente criticavam seu ministério. O termo "pensam maldosamente" sugere uma adesão deliberada e persistente a pensamentos pecaminosos, refletindo o endurecimento do coração dos líderes religiosos. Esse confronto é coerente com as frequentes repreensões de Jesus aos fariseus por sua hipocrisia e legalismo, como se vê em Mateus 23. Na linguagem bíblica, o coração é o centro do ser humano, abrangendo mente, vontade e emoções. Jeremias 17:9 descreve o coração como enganoso e profundamente doente, sublinhando a necessidade de intervenção e transformação divinas. A pergunta de Jesus desafia os líderes a examinarem seus motivos interiores e a reconhecerem sua necessidade de arrependimento e fé nele.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus O personagem central da passagem. Jesus demonstra seu conhecimento divino e sua autoridade ao perceber os pensamentos daqueles ao seu redor — uma capacidade que, no pensamento bíblico, pertence exclusivamente a Deus.
2. Fariseus e mestres da lei Líderes religiosos que frequentemente se opuseram a Jesus. Nesse contexto, questionam internamente sua autoridade, abrigando ceticismo e descrença em seus corações — sem verbalizar nada.
3. Cafarnaum A cidade onde o episódio acontece. Funcionava como centro importante do ministério de Jesus na Galileia e palco de muitos de seus milagres e confrontos com as autoridades religiosas.
4. O paralítico O homem cuja cura provoca os pensamentos questionadores dos fariseus e mestres da lei. Sua cura é ao mesmo tempo física e espiritual — Jesus perdoa seus pecados antes de restaurar seu corpo.
5. A multidão Testemunha do milagre e do confronto entre Jesus e os líderes religiosos. Sua reação é de admiração e glorificação a Deus — o contraste com a reação dos escribas não poderia ser mais marcante.
5. Pontos de Ensino
O conhecimento divino A capacidade de Jesus de conhecer os pensamentos dos fariseus demonstra sua natureza divina. Como cristãos, devemos ter consciência de que Deus conhece nossos pensamentos e intenções mais íntimas — e viver com a transparência que essa realidade exige.
Guardar o coração O verbo grego utilizado para "pensar" neste contexto implica consideração profunda e deliberada. É preciso vigilância sobre o que permitimos que habite em nosso coração, garantindo que nossos pensamentos estejam alinhados com a verdade de Deus.
Confrontar o ceticismo Jesus enfrenta o ceticismo dos fariseus de forma direta. Os cristãos são chamados a lidar com a dúvida e a descrença — próprias e alheias — com verdade e graça, sem evasão.
Fé e perdão A cura do paralítico ilustra a ligação entre fé e perdão. Somos chamados a confiar no poder de Jesus para curar e perdoar — não apenas em dimensão física, mas na necessidade mais profunda de restauração espiritual.
Testemunhar as obras de Deus A reação da multidão nos lembra de glorificar a Deus quando testemunhamos sua ação — em nossas próprias vidas e nas vidas dos outros.
6. Aspectos Filosóficos
O problema da privacidade do pensamento
A cena de Mateus 9:4 levanta uma questão filosófica fundamental: o pensamento é privado? Na tradição filosófica ocidental, desde Descartes, o interior da mente tem sido considerado o único domínio verdadeiramente privado do ser humano — o lugar onde nenhuma autoridade externa pode entrar sem consentimento. "Penso, logo existo" pressupõe que o pensamento é o reduto último da autonomia pessoal.
Mas Mateus 9:4 rompe com essa suposição de forma direta. Jesus conhecia os pensamentos dos escribas sem que eles os tivessem verbalizado. Isso não é apresentado como uma habilidade extraordinária de leitura de linguagem corporal ou de dedução lógica — é apresentado como conhecimento direto. O texto usa o verbo eidōs (particípio de oida) — não "percebendo" ou "suspeitando", mas "sabendo". E esse saber é a base para a pergunta que se segue.
Do ponto de vista filosófico, isso coloca o ser humano numa posição radicalmente diferente da que a modernidade acostumou: não somos agentes autônomos com um interior inviolável. Somos seres conhecidos — completamente, interiormente, sem reserva — pelo Deus diante de quem existimos.
O mal no coração: escolha ou condição?
A expressão "pensam maldosamente" levanta outra questão clássica da filosofia moral: o mal que habita o coração humano é uma escolha deliberada ou uma condição da qual não se pode escapar sem auxílio externo?
A tradição filosófica se divide aqui. Pelágio, no século V, argumentou que o ser humano tem capacidade moral suficiente para escolher o bem por conta própria. Agostinho respondeu que o pecado original corrompeu tão profundamente a vontade humana que ninguém escolhe o bem sem a graça de Deus. Immanuel Kant, séculos depois, identificou o que chamou de "mal radical" — a tendência profunda da vontade humana de subordinar o dever moral ao interesse próprio, mesmo em pessoas de boa educação e intenções declaradas.
Mateus 9:4 não resolve esse debate filosófico, mas o ilumina com precisão: os mestres da lei não eram pessoas de má reputação. Eram estudiosos das Escrituras, guardiões da Lei, líderes morais da sociedade. E ainda assim Jesus identificou mal em seus corações. Isso sugere que a questão do coração não é resolvida pelo conhecimento religioso acumulado, nem pela posição social respeitável — ela exige algo mais profundo.
A pergunta como instrumento filosófico
Jesus não faz uma afirmação — ele faz uma pergunta. "Por que vocês pensam maldosamente em seus corações?" Essa escolha retórica é filosoficamente sofisticada. A pergunta não pode ser respondida com uma negação simples — ela pressupõe que o pensamento já aconteceu e convida o interlocutor a examiná-lo. É um movimento socrático clássico: em vez de declarar a verdade de fora para dentro, Jesus cria as condições para que os próprios escribas a descubram por dentro — se estiverem dispostos.
O método socrático parte do princípio de que a verdade não é imposta, mas despertada. A pergunta de Jesus tem essa estrutura: ela não os condena formalmente, mas os coloca diante de si mesmos. A recusa em responder honestamente é, em si, uma escolha moral com consequências.
7. Aplicações Práticas
1. Viver com consciência de ser conhecido por Deus A consciência de que Deus conhece nossos pensamentos antes de os expressarmos — como afirma o Salmo 139 — não é uma ameaça, mas um convite à autenticidade. Viver sob esse olhar significa abandonar a distinção entre o que mostramos publicamente e o que cultivamos interiormente. A integridade começa quando o interior e o exterior se alinham.
2. Examinar os pensamentos antes que se solidifiquem em posições Os escribas não haviam dito nada em voz alta — mas seus pensamentos já haviam formado um veredicto. O mal no coração começa pequeno: uma suspeita não examinada, um julgamento precipitado, uma resistência não reconhecida. O hábito de examinar os próprios pensamentos — especialmente os que surgem em situações de conflito, desconfiança ou resistência espiritual — é uma prática de higiene moral que o texto bíblico recomenda repetidamente.
3. Não confundir conhecimento religioso com coração transformado Os mestres da lei conheciam as Escrituras com profundidade. Mas esse conhecimento não os protegeu do mal no coração — ao contrário, pode até tê-lo refinado, tornando-o mais sofisticado e menos visível. O conhecimento teológico é valioso, mas não é suficiente por si só. O coração precisa ser trabalhado com a mesma seriedade com que a mente é treinada.
4. Receber as perguntas de Deus como instrumentos de crescimento A pergunta de Jesus aos escribas não era punitiva — era diagnóstica e transformadora. Quando a Escritura, o Espírito Santo ou uma voz de consciência formula uma pergunta sobre nossas motivações internas, a resposta correta não é a defesa imediata, mas o exame honesto. Perguntas como "por que estou reagindo assim?", "o que estou realmente buscando nesta situação?" ou "há ressentimento ou orgulho por trás desta posição?" são formas de participar do mesmo movimento que Jesus iniciou com os escribas.
5. Distinguir ceticismo legítimo de resistência do coração Há uma diferença entre a dúvida intelectual honesta e a resistência do coração que já decidiu não ceder. Os escribas não tinham dúvidas genuínas sobre Jesus — eles tinham uma conclusão pronta e buscavam confirmá-la. Reconhecer essa distinção em si mesmo é um passo importante na caminhada espiritual: nem toda questão teológica é uma busca pela verdade — algumas são formas sofisticadas de manter o coração fechado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo
1. Como o conhecimento que Jesus tem dos pensamentos dos fariseus desafia nossa compreensão de sua natureza divina?
O conhecimento direto dos pensamentos alheios é, no pensamento bíblico, uma prerrogativa exclusiva de Deus. O Salmo 139 descreve o Senhor como aquele que conhece os pensamentos "de longe"; 1 Samuel 16:7 afirma que Deus vê o coração quando os homens veem apenas a aparência. Quando Mateus registra que Jesus "conhecia" os pensamentos dos escribas — usando o particípio eidōs, que implica conhecimento pleno e direto — ele está fazendo uma afirmação cristológica precisa: Jesus age com a mesma capacidade que o Antigo Testamento atribui a Deus. Isso não é uma exibição de poder — é uma revelação de identidade. E essa revelação responde, antes que seja feita, à pergunta que os escribas faziam: quem tem autoridade para perdoar pecados? Aquele que conhece o interior humano da mesma forma que o Criador.
2. De que formas podemos garantir que não estamos abrigando o "mal" em nossos corações, como fizeram os fariseus?
A primeira medida é reconhecer que ninguém está automaticamente imune. Os fariseus eram homens religiosos, estudiosos e socialmente respeitáveis — e ainda assim Jesus identificou mal em seus corações. Isso elimina qualquer zona de conforto baseada em posição religiosa ou reputação social. Práticas concretas de vigilância interior incluem: a leitura das Escrituras com disposição para ser confrontado, não apenas confirmado; a oração honesta que inclui confissão de pensamentos, não apenas de ações; a abertura a pessoas de confiança que possam observar padrões de comportamento que não enxergamos em nós mesmos; e o exame regular das motivações por trás das próprias resistências espirituais.
3. Como a cura do paralítico ilustra a relação entre fé e perdão em nossas próprias vidas?
A sequência do episódio é instrutiva: o paralítico é trazido por outros, não chega por conta própria. Sua condição física o impede de agir de forma independente. Jesus vê essa situação e responde primeiro ao que está mais fundo — o peso espiritual — antes de atender à necessidade física visível. Isso comunica que a fé que recebe o perdão não precisa ser perfeita ou heroica; ela pode ser exercida por outros em nosso nome, pode existir no meio da fragilidade e da dependência. A ligação entre fé e perdão em Mateus 9 não é transacional — não é uma troca em que a fé compra o perdão. É relacional: a fé é a disposição de se colocar diante de Jesus, e o perdão é a resposta de Jesus a essa disposição.
4. Que passos práticos podemos dar para enfrentar o ceticismo ou a dúvida em nossa caminhada de fé?
Há uma distinção importante entre dúvida honesta e ceticismo endurecido. A dúvida honesta busca respostas; o ceticismo endurecido já as tem e recusa novas evidências. Para quem enfrenta dúvida genuína, os passos incluem: levar as perguntas a sério, sem fingir certeza que não existe; buscar comunidade com pessoas que já passaram por crises de fé e saíram delas com fé mais madura; expor-se à evidência histórica, filosófica e experiencial da fé cristã; e agir conforme o que já se crê, mesmo na presença da dúvida — porque a fé frequentemente cresce no exercício, não na espera por certeza total.
5. Como cultivar um coração de adoração e glorificação como o da multidão quando testemunhamos a obra de Deus em nossas vidas?
A multidão de Mateus 9 reagiu com admiração e glorificação a Deus. Essa reação não foi ensinada naquele momento — ela brotou do reconhecimento de algo extraordinário. Cultivar essa disposição exige, primeiro, um coração que ainda se deixa surpreender — que não normalizou a presença e a ação de Deus a ponto de deixar de notá-las. Práticas como o registro de respostas a orações, o hábito de nomear as graças cotidianas e a participação em comunidades que celebram a obra de Deus mantêm viva a capacidade de admiração. A adoração não é apenas um sentimento espontâneo — ela pode ser cultivada como um hábito do coração.
9. Conexão com Outros Textos
Hebreus 4:12-13
"Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada do que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e expostas aos olhos daquele a quem temos de prestar contas."
Assim como a Palavra de Deus discerne os pensamentos e as intenções do coração, Jesus percebe o que os escribas estavam pensando sem que tivessem dito uma palavra. Hebreus 4:13 é especialmente preciso: "não há criatura alguma encoberta diante dele" — o mesmo princípio que Mateus 9:4 ilustra em ação. O que a carta aos Hebreus declara como doutrina, o episódio do paralítico demonstra como realidade concreta. A Palavra que penetra e discerne o interior é a mesma que se encarnou em Jesus de Nazaré.
1 Samuel 16:7
"Mas o Senhor disse a Samuel: 'Não consideres a sua aparência, nem a sua alta estatura, porque eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem vê: o homem vê o que está diante dos olhos, mas o Senhor vê o coração.'"
Deus instrui Samuel a não julgar pelo exterior — porque ele vê o coração quando os seres humanos veem apenas a aparência. Esse princípio do Antigo Testamento encontra sua expressão mais direta no Novo Testamento precisamente em Mateus 9:4: Jesus não reage ao que os escribas mostram publicamente, mas ao que carregam interiormente. A continuidade teológica entre os dois textos é clara — o Deus que vê o coração em 1 Samuel é o mesmo que conhece os pensamentos em Mateus 9.
Salmo 139:1-4
"Senhor, tu me sondas e me conheces. Tu sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Observas o meu caminhar e o meu deitar; todos os meus caminhos te são familiares. Ainda não está a palavra em minha língua, e tu, Senhor, já a conheces totalmente."
Davi reconhece o conhecimento completo de Deus sobre sua vida — incluindo os pensamentos antes de serem verbalizados. O versículo 4 é especialmente significativo: "ainda não está a palavra em minha língua, e tu, Senhor, já a conheces totalmente." Isso descreve com precisão o que acontece em Mateus 9:4 — os escribas não chegaram a verbalizar seus pensamentos, e Jesus já os conhecia. O Salmo 139 é a afirmação poética do que Mateus 9:4 demonstra narrativamente: o Deus que conhece o pensamento antes da palavra é o mesmo que age em Jesus de Nazaré.
10. Original Grego e Análise
Versículo em português: "Conhecendo Jesus seus pensamentos, disse-lhes: 'Por que vocês pensam maldosamente em seus corações?'"
Texto em grego: Καὶ ἰδὼν ὁ Ἰησοῦς τὰς ἐνθυμήσεις αὐτῶν εἶπεν· Ἱνατί ἐνθυμεῖσθε πονηρὰ ἐν ταῖς καρδίαις ὑμῶν;
Transliteração: Kai idōn ho Iēsous tas enthumēseis autōn eipen: Hinati enthumeisthe ponēra en tais kardiais humōn?
Análise palavra por palavra:
Καὶ (Kai) — "e". Conjunção coordenativa que conecta este versículo ao anterior, mantendo o fluxo narrativo.
ἰδὼν (idōn) — "conhecendo", "vendo", "percebendo". Particípio aoristo de horaō (ver, perceber, conhecer). No grego bíblico, horaō frequentemente transcende a visão física e designa percepção interior ou conhecimento direto. O aoristo indica que o conhecimento precede a fala — Jesus primeiro conheceu, depois falou. A escolha desse particípio é significativa: o narrador não usa akoúsas (tendo ouvido) ou gnous (tendo compreendido por raciocínio), mas idōn — uma percepção direta, imediata, sem mediação.
ὁ Ἰησοῦς (ho Iēsous) — "Jesus". O artigo definido ho antes do nome próprio é comum no grego do Novo Testamento e indica o Jesus conhecido, o sujeito central da narrativa.
τὰς ἐνθυμήσεις (tas enthumēseis) — "os pensamentos", "as reflexões interiores". Substantivo feminino plural, acusativo, de enthumēsis — derivado de en (dentro) + thumos (ânimo, ardor, disposição interior). Enthumēsis designa não um pensamento casual ou passageiro, mas uma deliberação interior profunda — algo que foi considerado com intensidade dentro da mente e do coração. É uma palavra que carrega peso emocional e volitivo, não apenas intelectual.
αὐτῶν (autōn) — "deles". Pronome pessoal genitivo plural de terceira pessoa — indica posse: "os pensamentos deles". O genitivo especifica de quem eram os pensamentos que Jesus conhecia.
εἶπεν (eipen) — "disse". Aoristo indicativo ativo de legō — ação pontual e completa. Jesus disse algo específico, num momento específico, em resposta direta ao que conhecia.
Ἱνατί (Hinati) — "por que?", "com que propósito?". Palavra interrogativa composta de hina (para que, com o propósito de) + ti (o quê). Diferente do simples ti (o quê) ou dia ti (por qual razão), hinati aponta para propósito ou intenção — não apenas pede uma explicação causal, mas questiona a finalidade do pensamento. A pergunta não é apenas "como isso aconteceu?" mas "para onde esse pensamento está apontando?".
ἐνθυμεῖσθε (enthumeisthe) — "vocês pensam", "vocês deliberam interiormente". Presente indicativo médio de enthumeomai — a forma verbal da mesma raiz de enthumēsis. O presente indica uma ação em curso — não um pensamento que passou, mas uma deliberação que persiste. A voz média sugere reflexividade: os escribas estavam pensando para si mesmos, num processo interno. O uso do mesmo radical em enthumēseis e enthumeisthe cria uma conexão lexical precisa: Jesus conheceu as enthumēseis deles e os questiona sobre o enthumeomai que estavam praticando.
πονηρὰ (ponēra) — "maldosamente", "coisas más", "o mal". Adjetivo neutro plural de ponēros, que significa mau, maligno, moralmente perverso. No Novo Testamento, ponēros é frequentemente usado para descrever o mal em sua dimensão ativa e deliberada — não apenas a ausência do bem, mas a presença de algo que se opõe a Deus. A posição do adjetivo na frase — antes do verbo locativo — lhe confere ênfase: é o "mal" que está em destaque na pergunta de Jesus.
ἐν ταῖς καρδίαις ὑμῶν (en tais kardiais humōn) — "em seus corações". A preposição en (em, dentro de) + artigo + kardia (coração) + pronome possessivo genito plural humōn (de vocês). Kardia no grego bíblico, assim como lev no hebraico, designa o centro da vida interior — o lugar onde residem a vontade, as emoções e as decisões morais profundas. A expressão localiza o problema com precisão: o mal não estava nas mãos, nas palavras ou nas ações dos escribas — estava no centro de sua vida interior.
11. Conclusão
Mateus 9:4 é um versículo de uma única pergunta — mas ela contém um dos momentos mais reveladores de todo o Evangelho de Mateus. Jesus responde ao que não foi dito. Ele conhece o que não foi verbalizado. E com base nesse conhecimento, formula uma questão que não pede explicação — pede exame interior.
A análise do grego iluminou nuances essenciais: o particípio idōn que designa não uma dedução, mas um conhecimento direto; o substantivo enthumēsis que aponta para deliberação interior profunda, não para pensamento superficial; o advérbio ponēra que descreve o mal em sua dimensão ativa e volitiva; e a expressão en tais kardiais que localiza o problema no centro da vida moral dos escribas, não em suas ações externas.
O versículo revela dois retratos simultâneos: o de Jesus, que age com a onisciência que o Antigo Testamento atribui exclusivamente a Deus; e o dos mestres da lei, que demonstram como é possível conhecer muito sobre Deus e ainda abrigar o mal no coração. Esses dois retratos não são apenas históricos — eles falam de uma realidade permanente.
Diante de um Jesus que conhece os pensamentos antes das palavras, a única resposta coerente não é a defesa ou a dissimulação — é o mesmo movimento que o próprio Davi descreve no Salmo 139: "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno."










