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Gênesis 1:1

✍️ Por Alberto Adriano·2 de março de 2025·⏱️ 17 min de leitura·👁 1535 acessos
No princípio, Deus criou os céus e a terra.
Cena cinematográfica do princípio da criação: luz surgindo sobre as águas e a terra ainda sem forma, sob céu vasto.

Estudo


No princípio, Deus criou os céus e a terra.

1. Introdução

Sete palavras em hebraico abrem a Bíblia — e sobre elas se assenta tudo o que vem depois. Antes que exista um povo, uma promessa, uma lei ou um templo, existe uma afirmação: Deus criou. O primeiro versículo das Escrituras não argumenta a favor de Deus nem tenta prová-lo; simplesmente o apresenta agindo. Não há defesa, não há debate. Há um Criador e há uma criação. Essa é a base de tudo.

O leitor moderno costuma chegar a este versículo cheio de perguntas científicas — quando, como, em quantos anos. Mas o texto não foi escrito para responder a isso. Ele responde a outra pergunta, mais antiga e mais profunda: de quem é o mundo? A resposta muda tudo. Se o mundo tem um autor, então tem um sentido; se foi criado, então pertence a alguém e caminha para algum lugar. Genesis 1:1 não é apenas o começo de um livro. É a chave que abre a maneira bíblica de enxergar a realidade inteira.

Este primeiro versículo também nos coloca diante de uma escolha de leitura. Ele pode ser lido como o resumo de tudo o que os versículos seguintes vão detalhar, ou como o primeiro ato de uma sequência. Como veremos, essa pequena diferença de leitura carrega séculos de discussão — e o texto, com honestidade, comporta mais de um caminho.

2. Contexto Histórico e Cultural

Gênesis nasceu num mundo cercado de outras histórias de criação. Os povos vizinhos de Israel — babilônios, cananeus, egípcios — tinham os seus próprios relatos sobre a origem do mundo, e é diante deles que o texto bíblico ganha o seu peso real. O mais conhecido é o poema babilônico Enuma Elish, no qual o mundo surge de uma guerra entre deuses: o deus Marduk mata a deusa Tiamat, que representa as águas do caos, e faz o céu e a terra dos dois pedaços do corpo dela. A criação, ali, é o resultado de violência divina, e os seres humanos são feitos do sangue de um deus derrotado para servir de escravos aos vencedores.

Contra esse pano de fundo, a sobriedade de Gênesis é revolucionária. Não há luta, não há vários deuses, não há um mundo feito de cadáveres divinos. Há um só Deus que fala e as coisas passam a existir. O sol e a lua, adorados como divindades pelos vizinhos, aparecerão no relato bíblico como simples objetos que Deus pendura no céu para marcar o tempo — a Bíblia sequer os nomeia, chamando-os apenas de "luzeiro maior" e "luzeiro menor", como quem se recusa a dar-lhes o status de deuses. O mar e o abismo, temidos como forças caóticas e divinas, aqui são apenas água que obedece. O relato de Gênesis é, em boa parte, uma resposta polêmica: uma recusa firme da visão de mundo dos povos ao redor.

Sobre a origem histórica do texto, é justo apresentar o que a erudição discute. A tradição atribui os cinco primeiros livros da Bíblia a Moisés. A maioria dos estudiosos modernos, no entanto, entende que o Pentateuco foi composto ao longo de séculos, reunindo tradições de épocas diferentes que só depois foram costuradas num só livro. Muitos situam a forma final deste primeiro relato de criação no período próximo ao exílio na Babilônia (século VI a.C.) — o que explicaria por que ele dialoga tão de perto com as histórias babilônicas: teria sido, em parte, a afirmação da fé de Israel justamente quando o povo vivia cercado por aquela cultura. É uma reconstrução, não uma certeza; mas ajuda a entender por que o texto soa como soa. O que nenhuma teoria sobre a data apaga é a força da afirmação central, que atravessa os séculos: um só Deus, e o mundo inteiro é obra sua.

3. Análise Teológica do Versículo

“No princípio”

Esta expressão marca o começo do tempo e do universo. Assinala o início da obra criadora de Deus e prepara o cenário para toda a narrativa bíblica. A ideia de "princípio" ecoa em João 1:1, onde o Verbo é descrito como já presente no começo, indicando a natureza eterna de Cristo. A palavra hebraica bereshit sugere um começo absoluto, enfatizando que Deus existia antes da criação e deu início a todas as coisas.

“Deus”

A palavra hebraica usada aqui é Elohim, uma forma plural que sugere a majestade e a plenitude de Deus. Essa pluralidade é entendida por muitos como um indício da Trindade, doutrina fundamental do cristianismo, ainda que a revelação plena da Trindade só se desenvolva mais adiante nas Escrituras. O uso de Elohim ressalta a soberania e o poder de Deus como único criador. Isso estabelece o tom monoteísta da Bíblia, em contraste com as crenças politeístas das culturas ao redor, no antigo Oriente Próximo.

“criou”

O verbo hebraico bará é usado exclusivamente para a atividade divina, indicando que a criação é obra de Deus apenas. O termo implica a criação a partir do nada, destacando a onipotência de Deus. O ato de criar é tema central em toda a Escritura, com Deus como fonte última de toda vida e existência. Esse poder criador se demonstra ainda em passagens como o Salmo 33:6 e Hebreus 11:3.

“os céus e a terra”

Esta expressão abrange a totalidade do universo, indicando que Deus é o criador tanto do reino espiritual quanto do físico. "Céus" refere-se ao firmamento e aos corpos celestes, enquanto "terra" designa o solo e tudo o que ele contém. Esse relato abrangente da criação estabelece a autoridade de Deus sobre toda a criação, tema reiterado em passagens como Isaías 45:18 e Apocalipse 4:11. A expressão também prepara o terreno para o relato detalhado da criação que se segue em Gênesis 1, onde a ordem e o propósito da criação são desenvolvidos.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Deus (Elohim) — o Ser supremo e eterno, criador do universo. A palavra hebraica Elohim é um substantivo plural, que pode indicar a majestade e a plenitude de Deus, e é muitas vezes entendida como um indício da Trindade na teologia cristã.

Lugares

O Princípio — refere-se ao começo do tempo e da criação. Marca o início do universo tal como o conhecemos, dado pelo ato criador de Deus.

Eventos

A Criação — o ato de Deus trazendo o universo à existência. Inclui tudo o que há nos céus e na terra, indicando a totalidade da criação.

Os Céus — representam o céu, o espaço e o reino espiritual. Abrangem tudo o que está acima da terra.

A Terra — refere-se ao mundo físico, o planeta em que vivemos. É o foco de boa parte do relato bíblico.

5. Pontos de Ensino

Deus como Criador

Reconhecer Deus como a fonte última de toda vida e existência. Essa compreensão deve conduzir a uma postura de adoração e reverência.

O começo do tempo

Refletir sobre o tempo como uma criação de Deus, o que nos lembra da sua natureza eterna e do nosso lugar dentro da linha do tempo que Ele estabelece.

A majestade da criação

Apreciar a complexidade e a beleza do universo como testemunho do poder e da criatividade de Deus. Isso pode inspirar admiração e o cuidado com a terra.

As implicações teológicas de Elohim

Considerar a forma plural de "Elohim" como um indício precoce da Trindade, o que estimula uma exploração mais profunda da natureza de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo.

Fundamento para a fé

Usar Gênesis 1:1 como verdade fundante da fé, afirmando que Deus é a origem de todas as coisas e tem um propósito para a sua criação.

6. Aspectos Filosóficos

Gênesis 1:1 responde à pergunta que a filosofia chama de fundamental: por que existe algo em vez de nada? A resposta bíblica não é um mecanismo, mas uma vontade. O mundo existe porque Alguém quis que existisse. Isso separa a visão bíblica tanto do acaso puro quanto de um universo eterno e sem causa. Aqui há um começo, e o começo tem um autor livre.

Uma pergunta antiga acompanha este versículo: Deus criou a partir do nada, ou organizou uma matéria que já estava lá? O verbo bará e a tradição cristã posterior firmaram a ideia de criação do nada — não havia matéria bruta anterior a Deus, esperando ser trabalhada. Mas é honesto reconhecer que o versículo seguinte já descreve a terra "sem forma e vazia", com trevas e águas. Alguns leitores, por isso, entendem o versículo 1 como um resumo (o título do capítulo) e o versículo 2 como o estado inicial que Deus então organiza. Outros o leem como o primeiro ato: Deus cria o universo do nada no versículo 1, e os versículos seguintes descrevem como Ele o ordena. O texto sustenta as duas leituras, e a diferença entre elas é mais sobre como as sete palavras se encaixam no que vem depois do que sobre negar o poder criador de Deus. O que a fé afirma com clareza, e o restante da Escritura confirma, é que nada existe à parte de Deus e nada lhe é anterior.

Há ainda uma consequência que se costuma esquecer: se o tempo começou com a criação, então Deus não está preso dentro do tempo. Ele não é o primeiro elo de uma corrente; é quem faz a corrente existir. "No princípio" não é o princípio de Deus — é o princípio de tudo o mais.

7. Aplicações Práticas

Reconhecer de quem é a vida. Se Deus criou tudo, então nada que você tem é totalmente seu por direito próprio — o corpo, o tempo, os talentos, o mundo ao redor são recebidos, não fabricados. Viver como quem recebeu muda a relação com tudo: da gratidão ao cuidado.

Encontrar sentido antes de encontrar respostas. O versículo não explica o "como" da criação, e mesmo assim traz paz. Nem toda pergunta precisa de resposta técnica para que a vida tenha direção. Saber de quem o mundo é já orienta como andar nele.

Cuidar da terra como algo confiado. Se o mundo é obra de Deus e não um acidente sem dono, destruí-lo ou desperdiçá-lo deixa de ser neutro. O cuidado com a criação nasce naturalmente de crer no Criador.

Descansar na soberania. Quem começou tudo também sustenta tudo. Diante do medo e da incerteza, o primeiro versículo da Bíblia é um chão firme: a história tem um autor, e Ele não perdeu o controle do que criou.

Recuperar o assombro. A rotina embota o olhar. Parar diante de um céu estrelado ou de um corpo que respira e lembrar "isto foi criado" devolve a admiração que o hábito rouba.

Deixar Deus ser o primeiro. Se Ele está no princípio de tudo, faz sentido colocá-lo no princípio das decisões, do dia, das prioridades — não como um apêndice, mas como origem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual é o significado de Gênesis 1:1?

É a afirmação de que Deus, único e eterno, é a origem de todo o universo. Estabelece que o mundo não é acaso nem obra de muitos deuses, mas criação de um só Deus soberano — e que, por isso, tudo pertence a Ele e tem propósito.

2. O que "No princípio" revela sobre a existência de Deus antes da criação?

Revela que Deus não faz parte do universo criado: Ele já existia antes que houvesse tempo, espaço ou matéria. O princípio é o começo das coisas, não o começo de Deus.

3. Como Gênesis 1:1 se conecta com João 1:1 sobre a natureza eterna de Deus?

João 1:1 abre com as mesmas palavras — "No princípio" — e coloca o Verbo, Cristo, já presente na criação. O Novo Testamento lê Gênesis 1 e afirma que aquele mesmo Deus criador agiu por meio do Verbo, ligando o começo de tudo à pessoa de Cristo.

4. Como reconhecer Deus como Criador pode influenciar as suas decisões diárias?

Se tudo é dele, cada escolha passa a ter um dono a quem prestar contas e um propósito maior do que a própria conveniência. Reconhecer o Criador reordena prioridades: o que antes parecia só "meu" passa a ser administrado diante dele.

5. Como Gênesis 1:1 se alinha com as explicações científicas sobre a origem do universo?

O versículo responde a "quem" e "por quê", não a "como" e "quando" — que são o terreno da ciência. Ele afirma que o universo teve um começo e uma causa; a ciência descreve os mecanismos desse começo. Um trata do sentido, o outro do processo, e não precisam se anular.

6. O que "No princípio" implica sobre o tempo e a eternidade?

Implica que o tempo é parte da criação, e não uma realidade eterna dentro da qual Deus estivesse. Deus é eterno; o tempo começou. Ele age no tempo, mas não está limitado por ele.

7. De que maneira Gênesis 1:1 sustenta a ideia de um Deus único?

Ao apresentar um só sujeito — Deus — criando tudo, sozinho, sem rivais nem auxiliares divinos, o versículo funda o monoteísmo bíblico e rejeita, de forma silenciosa mas firme, o mundo dos muitos deuses que cercava Israel.

8. Como este versículo pode inspirar adoração e reverência?

Contemplar que tudo o que existe é obra de um único Deus naturalmente conduz ao assombro. A adoração nasce quando percebemos a grandeza de quem fez os céus e a terra e, ainda assim, se importa com cada criatura.

9. Conexão com Outros Textos

“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Esta estava no princípio junto de Deus. Por esta foram feitas todas as coisas, e sem ela não se fez coisa nenhuma do que foi feito.” (João 1:1-3)

João abre o seu evangelho com as mesmas palavras de Gênesis para dizer que o Verbo, Cristo, estava presente e ativo na criação. O começo de tudo tem o rosto de Cristo.

“Antes que os montes surgissem, e tu produzisses a terra e o mundo, desde à eternidade até a eternidade tu és Deus.” (Salmo 90:2)

Confirma que Deus é anterior a toda a criação e eterno dos dois lados — antes e depois do tempo que Ele mesmo iniciou.

“O SENHOR me adquiriu no princípio de seu caminho; desde antes de suas obras antigas.” (Provérbios 8:22-23)

A Sabedoria personificada estava com Deus antes das obras da criação, reforçando que o mundo foi feito com propósito e ordem, não ao acaso.

“A ti te foi mostrado, para que soubesses que o SENHOR ele é Deus; não há mais além dele.” (Deuteronômio 4:35)

Ecoa o monoteísmo fundado em Gênesis 1:1: há um só Deus, e nenhum outro.

“porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis... todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm.” (Colossenses 1:16-17)

O Novo Testamento amplia Gênesis: tudo foi criado não só por Deus, mas por meio de Cristo e para Cristo — e continua se sustentando nele.

“Pela fé entendemos que o universo foi aprontado pela palavra de Deus, de maneira que as coisas que se veem não foram feitas de algo visível.” (Hebreus 11:3)

Explicita a criação pela palavra e a partir do não visível — a leitura clássica de que o mundo não foi feito de matéria preexistente.

“Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus; e todo o seu exército foi feito pelo sopro de sua boca.” (Salmo 33:6)

A criação acontece pela palavra falada, exatamente como em Gênesis 1: "E disse Deus... e assim foi."

“Todavia para nós há só um Deus, o Pai, do qual são todas as coisas... e um só Senhor Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas.” (1 Coríntios 8:6)

Une o Pai, de quem tudo procede, e Cristo, por quem tudo foi feito — a criação como obra do Deus único.

“Porque assim diz o SENHOR, que criou os céus, o Deus que formou a terra... não a criou para ser vazia, ao contrário, criou para que fosse habitada.” (Isaías 45:18)

Deixa claro o propósito por trás da criação: o mundo foi feito para ser habitado, não abandonado ao vazio.

“Desde muito antes fundaste a terra; e os céus são obra de tuas mãos.” (Salmo 102:25)

Reafirma que a terra e os céus são obra pessoal de Deus, feitos por suas próprias mãos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português: No princípio, Deus criou os céus e a terra.

Texto hebraico: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃

Transliteração: bereshit bará Elohim et hashamáyim ve'et ha'árets.

Análise palavra por palavra:

bereshit (בְּרֵאשִׁית) — "no princípio": formada pela preposição be ("em") e reshit ("começo, primícia"), da raiz rosh, "cabeça". Não indica um ponto qualquer no tempo, mas o começo de tudo. Há aqui um detalhe gramatical famoso: a palavra pode ser lida de forma absoluta ("No princípio, Deus criou...") ou de forma construta, ligada ao que vem depois ("Quando Deus começou a criar..."). A primeira leitura, tradicional, apresenta o versículo como uma declaração independente. A segunda, defendida por muitos hebraístas, liga o versículo 1 ao versículo 2 como uma longa introdução. A diferença é sutil, mas real, e explica por que traduções modernas divergem já na primeira frase da Bíblia. Adotamos aqui a leitura tradicional, mais fiel ao peso da abertura.

bará (בָּרָא) — "criou": verbo que, no Antigo Testamento, tem sempre Deus por sujeito. Nenhum ser humano jamais "bará" — homens fabricam, moldam, constroem a partir de algo; só Deus bará. Por isso a tradição entende o verbo como o termo próprio da criação do nada, um agir que não tem paralelo humano.

Elohim (אֱלֹהִים) — "Deus": substantivo de forma plural com verbo no singular ("criou"). Esse plural não indica muitos deuses — o verbo singular fecha essa porta — mas expressa majestade e plenitude, como um título de grandeza. É o nome do Deus soberano usado por todo o relato da criação, ainda não o nome pessoal da aliança (YHWH), que aparecerá adiante.

et (אֵת) — partícula que marca o objeto direto, sem tradução própria em português. Aparece duas vezes, diante de "os céus" e "a terra", delimitando com precisão o que foi criado.

hashamáyim ve'et ha'árets (הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ) — "os céus e a terra": a expressão une dois opostos para dizer "tudo". É uma figura de linguagem hebraica em que se nomeiam os dois extremos para abarcar o conjunto inteiro — como quem diz "do céu à terra" para dizer "absolutamente tudo". Não é uma lista de duas coisas, mas o modo hebraico de dizer "o universo".

Nota teológica: a forma plural Elohim ao lado do verbo no singular já foi lida, na tradição cristã, como um sussurro precoce da Trindade — um Deus, e ainda assim uma riqueza interior que a plena revelação só esclareceria mais tarde. É preciso honestidade: para o autor e o leitor originais, o plural expressava majestade, e não três pessoas divinas; a leitura trinitária é uma releitura à luz do Novo Testamento, legítima como aprofundamento, mas que não deve ser imposta ao sentido original do versículo. As duas coisas convivem: o texto afirma um só Deus soberano, e a fé cristã, mais tarde, reconhece nesse mesmo Deus o Pai, o Filho e o Espírito.

11. Conclusão

Gênesis 1:1 é curto, mas nada nele é pequeno. Em sete palavras, o texto derruba o mundo dos muitos deuses, funda o monoteísmo, coloca Deus antes do tempo e declara que o universo tem um dono. Tudo o que a Bíblia dirá depois — sobre o homem, o pecado, a promessa, a redenção — repousa sobre esta base: existe um Criador, e a criação é dele.

Vimos que o versículo carrega discussões honestas: o sentido exato do "no princípio", a relação entre criação do nada e a terra já vazia do versículo 2, a data e a formação do texto. Nenhuma dessas questões abala a afirmação central; ao contrário, mostra um texto vivo, que os séculos leram e releram sem esgotar. O que a fé recebe aqui não é uma teoria sobre mecanismos, mas uma certeza sobre origem e sentido: o mundo não se fez sozinho, e não é órfão.

Se o primeiro versículo da Bíblia estiver certo, então nada em sua vida é acaso e nada está fora do alcance de quem começou tudo. E o convite silencioso que ele faz é o mesmo desde a primeira palavra: reconhecer, no princípio de cada coisa, Aquele que estava no princípio de todas as coisas.

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