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Êxodo 18:1

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 39 acessos
Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés, ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel, seu povo: que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito.
À porta de uma tenda em Midiã, um homem idoso de barba grisalha, com manto de sacerdote, escuta atento um viajante empoeirado que acabou de chegar com um camelo, enquanto ao fundo uma mulher e dois rapazes observam a conversa.

Estudo


Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés, ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel, seu povo: que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito.

1. Introdução

Um capítulo depois da guerra com Amaleque, o Êxodo muda de estrangeiro: entra em cena um sacerdote de Midiã que não ataca ninguém, apenas ouve. O versículo diz que Jetro ouviu "tudo o que Deus tinha feito", mas não diz o que chegou aos ouvidos dele, e a tradição judaica discute há quase dois mil anos se foi o mar, a guerra ou a Lei. A frase dá a Jetro dois títulos, um de cargo e outro de parentesco, e põe Moisés antes de Israel na lista dos que Deus beneficiou. Usa também dois nomes de Deus: o que Jetro ouviu é obra de "Deus", e o fato central tem o nome próprio, "o SENHOR tirou Israel do Egito". É o versículo que abre a leitura que as sinagogas chamam pelo nome de um estrangeiro.

2. Contexto Histórico e Cultural

O sogro como aliança entre duas casas

No mundo do Êxodo, casar uma filha não era assunto só do casal. Era um laço entre duas casas, e o parentesco que nascia dali tinha peso público. A palavra "sogro" aparecia em cartas de reis com o valor de um tratado.

Os arquivos de Amarna, no Egito (as cartas diplomáticas recebidas pelos faraós no século XIV a.C.), mostram isso com clareza. Tushratta, rei de Mitani, no norte da Síria, deu a filha Taduhepa em casamento a Amenotep III. Daí em diante as cartas dele se dirigem ao faraó como "meu irmão, meu genro". "Irmão" é o tratamento entre reis do mesmo nível; "genro" acrescenta o vínculo de família, que obriga a presentes, visitas de mensageiros e lealdade.

Mais de três séculos antes, em Mari, no Eufrates, o rei Zimri-Lim casou com Shibtu, filha de Yarim-Lim, rei de Alepo. O sogro era o soberano mais forte da região e o apoio dele pesou na permanência de Zimri-Lim no trono. O próprio Zimri-Lim, depois, casou filhas com reis vassalos para prendê-los a Mari pelo mesmo tipo de laço.

Nada disso descreve Jetro e Moisés, que não são reis. Mas mostra o que o título carregava. Quando o versículo chama Jetro de "sogro de Moisés", não está só lembrando um parentesco: está dizendo de que lado ele chega. Ele vem como membro da outra casa, com direitos e deveres que o casamento criou. A viagem que começa aqui é, antes de tudo, a de um sogro que traz de volta a filha e os netos.

A leitura que leva o nome dele

As sinagogas leem a Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia) em porções semanais, cada uma chamada por uma palavra marcante do seu começo. A porção que começa neste versículo e vai até o fim de Êxodo 20 se chama Yitro ("Jetro", em hebraico). É a porção que contém os Dez Mandamentos.

O nome não é homenagem calculada, é só o costume de batizar a leitura pelas primeiras palavras. Mas o resultado ficou: a semana do ano em que se lê a revelação do Sinai tem o nome de um sacerdote midianita. A tradição rabínica percebeu o efeito e o aproveitou, como se verá nas leituras do item 3, que fazem de Jetro um modelo de quem ouve e se aproxima.

O título de sacerdote

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas da Antiguidade) não chama Jetro de "sacerdote": usa rabba ("o grande", "o chefe"). A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado por volta do século III) registra as duas opiniões: para Rabi Josué, ele era sacerdote mesmo; para Rabi Elazar de Modiim, era um alto funcionário, como os "filhos de Davi" de 2 Samuel 8:18, chamados pela mesma palavra. A tradução aramaica escolheu o segundo sentido e evitou pôr um sacerdote de outro deus no primeiro versículo da porção. O fundo desse uso civil da palavra está no estudo de Êxodo 2:16.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés"

O versículo apresenta Jetro duas vezes antes de deixá-lo agir: pelo cargo e pelo parentesco. A ordem conta. Primeiro vem o que ele é na terra dele; depois, o que ele é em relação a Moisés. E é o segundo título que o capítulo vai repetir até o fim; "sacerdote de Midiã" não volta a aparecer.

A Mekhilta leu essa repetição como uma inversão de prestígio. Em Êxodo 4:18, Moisés "voltou a Jetro, seu sogro": era o fugitivo quem se apoiava no nome do sogro, chefe em Midiã. Agora é o sogro quem se apresenta pelo genro. Quando lhe perguntavam quem era, diz a Mekhilta, ele respondia: "Sou o sogro de Moisés". Rashi (Salomão ben Isaque, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) repete a leitura com uma palavra a mais: "o sogro do rei".

"ouviu"

O capítulo começa por um ouvido, não por um encontro. Jetro está longe e recebe notícia. Obadias Sforno (comentarista judeu italiano do século XVI) observa que a Torá costuma usar "ouvir" para o que aconteceu em outro lugar ou em outro tempo, e às vezes "ver" para notícia recebida, como quando Jacó "soube que havia trigo no Egito" (Gênesis 42:1; no hebraico, "viu") sem ter ido lá. Aqui o verbo é o da distância: Jetro não presenciou nada.

Isso tem uma consequência para o resto do capítulo. Jetro vai ouvir tudo de novo, agora da boca de Moisés, três versículos adiante. O versículo 1 é o boato; o versículo 8 é o testemunho. O livro registra as duas vias e deixa ao leitor a diferença entre saber por ouvir dizer e saber por quem viveu.

Shemot Rabá (coleção medieval de sermões rabínicos sobre o Êxodo), no capítulo 27, lê o verbo contra o capítulo anterior. Esaú — isto é, Amaleque, o seu descendente — "ouviu" que Israel saíra do Egito e veio fazer guerra; Jetro ouviu a mesma notícia e veio juntar-se. A coleção abre a comparação com Provérbios 27:10, "mais vale um vizinho perto do que um irmão longe": o irmão de sangue é o inimigo, e o estranho é o que se aproxima. A mesma notícia produziu dois movimentos opostos, e o que decidiu não foi o que se ouviu, mas quem ouviu.

"tudo o que Deus tinha feito"

"Tudo" não diz o quê. O versículo resume e não especifica, e foi nesse vazio que a tradição entrou. A Mekhilta e o Talmude babilônico, no tratado Zevachim (116a, o tratado sobre os sacrifícios), registram três respostas, de três mestres do século II.

Primeira resposta: Jetro ouviu a guerra com Amaleque. É a de Rabi Josué, e o argumento dele é de posição: o capítulo 18 vem colado ao capítulo 17. O Talmude cita como prova o último ato da batalha, "Josué abateu Amaleque e o seu povo ao fio da espada" (Êxodo 17:13). O que fez Jetro sair de casa teria sido a notícia de que aquele povo, recém-saído da escravidão, venceu uma guerra.

Segunda resposta: Jetro ouviu a abertura do mar. É a de Rabi Eliezer, e a prova vem de fora do Êxodo. Josué 5:1 diz que todos os reis dos amorreus "ouviram" que o SENHOR secara as águas, e Raabe diz aos espiões, em Josué 2:10: "ouvimos que o SENHOR secou as águas do mar". Se a notícia do mar chegou a Jericó, chegou a Midiã.

Terceira resposta: Jetro ouviu a entrega da Lei. É a de Rabi Elazar de Modiim, e vem com uma história. Quando a Torá foi dada, a voz de Deus correu o mundo de ponta a ponta, e os reis tremeram nos seus palácios. Reuniram-se em torno de Balaão e perguntaram se vinha outro dilúvio. Balaão respondeu que não: Deus jurara a Noé não mandar outro dilúvio, e o que se ouvia era Deus dando "força ao seu povo" (Salmo 29:11), e a força era a Lei. Os reis responderam "o SENHOR abençoe o seu povo com paz" e voltaram cada um para o seu lugar.

As três respostas não são piedosas à toa. Cada uma põe a viagem de Jetro numa data diferente, e o Talmude, no mesmo trecho de Zevachim, liga a disputa sobre o que ele ouviu à disputa sobre quando ele chegou, antes ou depois do Sinai. A data da visita é o assunto do estudo de Êxodo 18:5.

Rashi, séculos depois, junta as duas primeiras: Jetro ouviu "a abertura do mar e a guerra de Amaleque". O Chizkuni (comentário de Ezequias ben Manoá, rabino francês do século XIII) pergunta pelo meio e arrisca uma resposta prosaica: alguém escapou da batalha e levou a notícia. O texto não diz o que chegou a Midiã nem como chegou. Diz que chegou tudo.

"por Moisés e por Israel, seu povo"

A lista dos beneficiados começa por um homem e só depois chega ao povo. O hebraico não pede essa ordem por gramática; ela é uma escolha. E a escolha incomodou e interessou.

A Mekhilta lê na ordem uma equivalência: "Moisés foi igualado a Israel, e Israel a Moisés — o mestre ao discípulo, o discípulo ao mestre". Rashi diz mais curto: Moisés sozinho pesa tanto quanto Israel inteiro.

Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII, neto de Rashi) pergunta o que, concretamente, Deus fez "por Moisés", à parte o que fez por Israel. E responde: Faraó nunca conseguiu tocar nele, e Deus lhe deu, diante de Faraó e da corte, uma figura que impunha respeito. O Chizkuni lista três coisas: Deus o salvou de Faraó, fez dele chefe de um grande povo e o fez chegar a isso no mesmo país que antes queria executá-lo.

Para Jetro, a ordem é natural. Ele conhece Moisés, não conhece Israel. A notícia chega a ele pelo homem que morou na sua casa, e é por esse homem que ela lhe interessa. O versículo 9, adiante, mostrará a alegria dele só "por Israel", já sem Moisés: o caminho do capítulo vai do genro ao povo.

Há ainda uma ambiguidade em "seu povo". O pronome pode referir-se a Deus (o povo de Deus) ou a Moisés (o povo de Moisés). A leitura natural é a primeira, e é a das traduções antigas. Mas a segunda não é absurda: mais adiante, no episódio do bezerro de ouro, o próprio Deus dirá a Moisés que "o seu povo, que você fez subir do Egito" se corrompeu (Êxodo 32:7). Aqui, na boca de quem conta a história a um sogro, o pronome fica aberto.

"que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito"

No mesmo versículo, dois nomes de Deus. O que Jetro ouviu foi obra de "Deus", palavra comum a qualquer língua religiosa da época. O fato que resume tudo é atribuído ao nome próprio, YHWH, que a ABC traduz por "o SENHOR".

Há duas maneiras de ler a alternância. A primeira é a dos estudiosos que reconstroem as fontes do Pentateuco: o Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) atribui o capítulo quase inteiro a uma fonte que prefere "Deus", e trata os nomes como marca de autoria. A segunda é de leitura: o versículo vai do genérico ao particular. Um estrangeiro ouve que "Deus" fez coisas, e o conteúdo da notícia tem um nome. A segunda leitura ganha força com o resto do capítulo, em que Jetro passa a dizer o nome próprio pela própria boca, no versículo 10. As duas não se excluem, e não é possível provar a segunda.

Por que destacar a saída do Egito, se "tudo" já a incluía? A Mekhilta responde que ela pesa contra todos os outros milagres juntos; Rashi, que era o maior de todos. Sforno propõe outra leitura da conjunção: não "que o SENHOR tirou", e sim "quando o SENHOR tirou" — Jetro ouviu tudo o que Deus fez no tempo da saída, as pragas, o mar, os carros afogados. As duas leituras são possíveis no hebraico. Na primeira, a saída é o resumo de tudo; na segunda, é a moldura de tempo do que se ouviu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro

Sacerdote de Midiã e sogro de Moisés. Foi ele quem recebeu o fugitivo do Egito à mesa, a pedido das filhas, deu-lhe Zípora por mulher (Êxodo 2:20-21) e foi o dono do rebanho que Moisés apascentava quando viu a sarça (Êxodo 3:1). Em Êxodo 4:18 deixou o genro partir com duas palavras, "vá em paz", sem saber o motivo verdadeiro da viagem. Desde então o livro não o menciona. Reaparece aqui como quem ficou para trás e recebe notícias.

No capítulo 18 ele terá fala longa, bênção, sacrifício e conselho. Neste versículo ainda não fala: é só o sujeito de "ouviu". A Mekhilta lhe atribui sete nomes, cada um com uma explicação piedosa (Jéter, Jetro, Hobabe, Reuel, Héber, Putiel e Queni); o que a Bíblia de fato registra sobre os nomes do sogro, e a discussão sobre se são a mesma pessoa, está no estudo de Êxodo 2:18.

Moisés

No momento em que a notícia corre, Moisés é o chefe de um povo em marcha pelo deserto. Desde que deixou a casa do sogro, esteve diante de Faraó praga após praga, conduziu a saída, atravessou o mar, enfrentou três crises de água e comida (Mara, o deserto de Sim, Refidim) e acabou de ver o povo vencer Amaleque com as mãos dele erguidas no alto do monte. O homem que Jetro conheceu como pastor de ovelhas alheias volta a ele como o homem por meio de quem "Deus fez" tudo isso.

Israel, "seu povo"

A palavra designa os descendentes de Jacó que saíram do Egito. É a primeira vez que um estrangeiro, no Êxodo, aparece ligado a Israel por uma notícia boa. Os egípcios conheceram Israel como mão de obra; Amaleque, como presa.

Midiã

A terra de Jetro, onde Moisés passou os anos entre a fuga e a sarça. O versículo não diz quanto tempo a notícia levou para chegar lá, nem quanto Jetro levou para vir.

Os acontecimentos que "tudo" resume

Entre a partida de Moisés de Midiã e este versículo, o Êxodo narrou: o encontro com Arão no monte de Deus (Êxodo 4:27), as negociações e as dez pragas (capítulos 5 a 12), a saída de noite (capítulo 12), a travessia do mar (capítulo 14), o cântico (capítulo 15), a água amarga de Mara, o maná e as codornizes (capítulos 15 e 16), a água da rocha e a guerra com Amaleque (capítulo 17). É esse o conteúdo possível do "tudo" que Jetro ouviu, e é dentro dele que os rabinos escolheram o mar, a guerra ou, um passo à frente, o Sinai.

5. Pontos de Ensino

1. O capítulo começa por quem estava longe. Depois de dezessete capítulos dentro do Egito e do deserto, o Êxodo muda o ponto de vista e olha para Israel a partir de Midiã. O que aconteceu ao povo vira notícia na casa de outro.

2. A mesma notícia não produz a mesma resposta. Amaleque soube da saída do Egito e atacou; Jetro soube e veio. A tradição rabínica pôs as duas reações lado a lado, e o livro as põe em capítulos vizinhos. O que se ouve não decide sozinho o que se faz.

3. O versículo não diz o que Jetro ouviu. "Tudo" é resumo. Os mestres do século II deram três respostas — a guerra, o mar, a Lei — e cada uma muda a data da visita. O texto preferiu não escolher, e quem ensina o versículo deve dizer isso antes de escolher uma.

4. Moisés antes de Israel. A notícia chega ao sogro pelo homem que ele conhece. É a ordem natural de quem recebe a história de fora: primeiro o parente, depois o povo. O capítulo fará depois o caminho inverso.

5. Dois nomes de Deus na mesma frase. O que se ouve é obra de "Deus"; o fato central tem nome próprio, "o SENHOR". O versículo deixa plantado, na boca de quem conta a Jetro, o nome que ele mesmo dirá no versículo 10.

6. Aspectos Filosóficos

Ser alcançado por uma notícia

O versículo põe uma pergunta que a filosofia moderna demorou a formular: o que acontece com quem ouve? A tradição filosófica tratou o ouvir como o menos ativo dos sentidos, o que recebe sem escolher. Jetro, aqui, não faz nada além de ouvir, e é isso que o põe em movimento.

Eugen Rosenstock-Huessy (1888-1973), historiador do direito e pensador alemão que se exilou nos Estados Unidos em 1933, construiu boa parte da obra em torno dessa pergunta. Para ele, a fala não é antes de tudo um meio de descrever o mundo; é o que forma as pessoas e as põe em relação. E a ordem em que a fala nos atinge importa.

Primeiro somos chamados

Em Angewandte Seelenkunde ("Ciência aplicada da alma", 1924) e depois em Speech and Reality ("Fala e realidade", 1970), Rosenstock-Huessy sustenta que ninguém começa dizendo "eu". Antes de falar, cada um é chamado: recebe um nome, ouve uma ordem, é interpelado. A primeira forma da linguagem, na vida de uma pessoa, é o vocativo e o imperativo — "você", "ouça", "venha". Só depois de ter sido chamado alguém responde na primeira pessoa; só depois conta o que viveu com outros, num "nós"; e só por último fala das coisas de fora, em terceira pessoa, como quem constata.

A divisa que ele adotou resume a ideia: Respondeo etsi mutabor ("respondo, ainda que eu seja mudado", em latim). Quem responde a um chamado verdadeiro não sai igual. Ouvir não é registrar; é ficar exposto à possibilidade de ter de mudar de lugar.

O capítulo de Jetro na ordem de Rosenstock-Huessy

Lido com essa chave, o capítulo 18 faz o percurso inteiro. No versículo 1, Jetro é alcançado de fora: ouve. Nos versículos 5 e 6 responde, e a resposta é deslocamento e primeira pessoa — ele vai, e se anuncia dizendo "eu". No versículo 8 ouve uma narrativa, a de Moisés, que conta o que "nós" passamos. E só no versículo 11 chega à frase de constatação, em terceira pessoa, sobre o SENHOR e os deuses. Do ouvido à sentença geral, a ordem é a que Rosenstock-Huessy descreveu.

A divisa também cabe. A tradição rabínica conta que Jetro ouviu e se converteu, e que voltou à terra dele para converter os seus. O texto bíblico não usa essa linguagem; diz que ele ouviu, veio, bendisse, sacrificou e partiu. Mas registra que o homem que volta a Midiã no fim do capítulo não é o mesmo que estava lá no começo: saiu sacerdote de Midiã e passou o capítulo inteiro sendo chamado de sogro de Moisés.

Onde a comparação para

Rosenstock-Huessy escrevia sobre a fala humana e, como cristão de família judia, sobre a fala de Deus que chama. O versículo é mais modesto: Jetro não ouve Deus, ouve uma notícia sobre o que Deus fez. O chamado chega a ele de segunda mão, pela boca de quem contou. A comparação vale para a forma do percurso, não para o conteúdo, e o encaixe do capítulo na sequência dele é leitura do comentarista, não intenção declarada do texto.

Ainda assim, o filósofo ajuda a ver uma coisa que o versículo faz sem comentar. Ele começa por um verbo passivo na aparência e ativo nos efeitos. Tudo o que Jetro fará no capítulo — a viagem, a bênção, o sacrifício, o conselho que reorganiza a justiça de Israel — sai de um "ouviu".

7. Aplicações Práticas

A notícia sobre quem foi embora. Jetro deixou o genro partir sem explicações (Êxodo 4:18) e ficou anos sem notícia direta. Quando a notícia chega, ela é boa para o outro e não traz nada para ele. A reação dele é ir ao encontro. Muita gente recebe a notícia do sucesso de quem saiu da sua casa, da sua empresa ou da sua vida, e reage com distância ou ressentimento. O versículo mostra outra possibilidade, sem fazer dela obrigação: tratar a boa notícia do outro como motivo para se aproximar.

Ouvir dizer não é o mesmo que ouvir de quem viveu. Jetro ouve "tudo" à distância e, mesmo assim, faz a viagem e escuta Moisés contar de novo (Êxodo 18:8). O que se sabe por boato serve para mover alguém, mas não basta para formar juízo. Antes de concluir sobre o que aconteceu com outra pessoa, vale ir ouvi-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Como a notícia chegou a Midiã?

O texto não diz. Os midianitas aparecem no Gênesis como gente de caravana, levando mercadoria entre Canaã e o Egito (Gênesis 37:28, 36), e é plausível que a notícia tenha viajado pelas mesmas rotas. Mas isso é dedução sobre o mundo da época, não informação do versículo. O Êxodo registra que a notícia chegou e não se interessa pelo caminho dela.

Jetro veio por causa de Deus ou por causa da família?

O versículo 1 dá como motivo a notícia; o versículo 2 mostra Jetro trazendo a filha e os netos. As duas razões estão no texto, e ele não as põe em ordem. Sforno resolve pelo detalhe da viagem: se o objetivo fosse só devolver a mulher e os filhos a Moisés, bastaria mandá-los com um acompanhante; Jetro foi em pessoa porque queria conhecer o Deus de quem ouvira falar. É uma leitura possível, e diz mais sobre o comentarista do que sobre o versículo. O texto só mostra que as duas coisas vieram juntas.

Jetro já sabia que Moisés chefiava Israel?

Quando Moisés deixou Midiã, disse ao sogro apenas que queria ver se os irmãos ainda estavam vivos (Êxodo 4:18). O versículo 1 é o primeiro sinal de que Jetro ficou sabendo do resto, e ficou sabendo por terceiros. A notícia, ao que parece, chegou com o nome de Moisés junto: é "por Moisés" antes de ser "por Israel".

Neste ponto, Jetro já crê no SENHOR?

O versículo não permite dizer. Ele ouviu o que se contava, e o que se contava atribuía os fatos ao SENHOR. Ouvir uma atribuição não é aderir a ela. O que Jetro pensa do assunto só aparece quando ele mesmo fala, no versículo 10, e é ali que a pergunta pode ser respondida.

9. Conexão com Outros Textos

A última vez que Jetro apareceu

Êxodo 4:18 — "Moisés voltou a Jetro, seu sogro, e lhe disse: 'Deixe-me voltar aos meus irmãos que estão no Egito, para ver se ainda estão vivos.' E Jetro respondeu a Moisés: 'Vá em paz.'"

A despedida em que Moisés disse pouco. O versículo 1 do capítulo 18 é a outra ponta: o sogro ficou sabendo do resto por notícia.

Os outros que "ouviram"

Êxodo 15:14 — "Os povos ouviram e tremeram; dores de parto tomaram os que habitam a Filístia."

O cântico do mar diz que os povos ouviram e tremeram. Jetro é o primeiro estrangeiro que o livro mostra ouvindo, e a reação dele não é a do cântico: em vez de tremer, ele vem.

Josué 2:10-11 — "Porque ouvimos que o SENHOR secou as águas do mar diante de vocês quando saíram do Egito [...]. Quando ouvimos isso, o nosso coração se derreteu."

A prova de Rabi Eliezer de que Jetro ouviu o mar. Raabe ouve o mesmo que Jetro e chega, por outro caminho, a uma confissão parecida com a dele.

Josué 9:9 — "Os seus servos vieram de uma terra muito distante, por causa do nome do SENHOR, o seu Deus; porque ouvimos a fama dele e tudo o que fez no Egito."

Os gibeonitas também vêm de longe "porque ouviram". A diferença é que eles vêm disfarçados e com mentira; Jetro vem com a família e se anuncia pelo nome.

A notícia que fez os reis tremerem

Salmo 29:10-11 — "O SENHOR se assentou sobre o dilúvio; o SENHOR se assenta como rei para sempre. O SENHOR dá força ao seu povo; o SENHOR abençoa o seu povo com paz."

O salmo em que Rabi Elazar de Modiim apoiou a leitura de que Jetro ouviu a entrega da Lei: a "força" dada ao povo seria a Torá, e a paz, a resposta dos reis que temiam outro dilúvio.

O vizinho e o irmão

Provérbios 27:10 — "Não abandone o seu amigo nem o amigo do seu pai; não entre na casa do seu irmão no dia da sua desgraça. Mais vale um vizinho perto do que um irmão longe."

O versículo com que Shemot Rabá abre o comentário a Êxodo 18: o vizinho perto é Jetro, que não era parente de Israel; o irmão longe é Esaú, pai de Amaleque.

"O seu povo"

Êxodo 32:7 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Vá, desça, porque o seu povo, que você fez subir da terra do Egito, se corrompeu.'"

O caso em que o próprio Deus chama Israel de "povo de Moisés". Mostra que o "seu povo" de Êxodo 18:1 podia, gramaticalmente, ser lido dos dois jeitos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés, ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel, seu povo: que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito.

Texto hebraico

וַיִּשְׁמַע יִתְרוֹ כֹהֵן מִדְיָן חֹתֵן מֹשֶׁה אֵת כָּל־אֲשֶׁר עָשָׂה אֱלֹהִים לְמֹשֶׁה וּלְיִשְׂרָאֵל עַמּוֹ כִּי־הוֹצִיא יְהוָה אֶת־יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרָיִם׃

Transliteração

va-yishma Yitro kohen Midyan choten Moshe et kol-asher asah Elohim le-Moshe u-le-Yisrael ammo, ki-hotsi YHWH et-Yisrael mi-Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיִּשְׁמַע — va-yishma, "e ouviu".

Verbo shama, "ouvir", no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa do masculino singular. Shama cobre em hebraico um campo maior que o "ouvir" português: é também entender ("ouvir uma língua") e obedecer ("ouvir a voz de alguém").

O capítulo usa o verbo duas vezes como abertura de movimento, e as duas se respondem. Aqui, "e ouviu Jetro". No versículo 24, "e ouviu Moisés a voz do seu sogro". O capítulo começa com o sogro ouvindo falar do genro e chega ao ponto em que o genro ouve o sogro.

יִתְרוֹ — Yitro, "Jetro".

Nome ligado à raiz y-t-r, "sobrar, exceder": yeter é "o resto, o excedente", e também "abundância". A Mekhilta joga com isso ao dizer que, quando Jetro "acrescentou" boas obras, acrescentou-se uma letra ao nome dele, de Jéter a Jetro, como Abrão virou Abraão. A alternância das duas formas no próprio texto hebraico está tratada no estudo de Êxodo 4:18.

כֹהֵן מִדְיָן — kohen Midyan, "sacerdote de Midiã".

Substantivo em construção com o nome da terra: "sacerdote de". É a mesma fórmula de Êxodo 2:16 e 3:1. A escolha do Targum de Ônquelos por "chefe" está no item 2.

חֹתֵן מֹשֶׁה — choten Moshe, "sogro de Moisés".

Choten é particípio da raiz ch-t-n, que nomeia o parentesco criado pelo casamento. Da mesma raiz vêm chatan, "genro" e também "noivo" — a palavra de Zípora em Êxodo 4:25, "noivo de sangue" — e chotenet, "sogra" (Deuteronômio 27:23). O verbo, na forma reflexiva, significa "aparentar-se pelo casamento": é o que os siquemitas propõem a Jacó em Gênesis 34:9 e o que Deuteronômio 7:3 proíbe com os povos de Canaã. E é o verbo de 1 Reis 3:1, quando Salomão "se aparentou com Faraó", tomando a filha dele por mulher — o uso político do laço, do mesmo tipo que o item 2 mostra nas cartas de Amarna. O acádio, a língua da Babilônia e da Assíria, tem a mesma raiz em ḫatanu, "genro, parente por casamento".

O particípio descreve uma condição permanente: o sogro é "o que fez de Moisés seu parente". É pela ação de ter dado a filha que ele é definido.

אֵת כָּל־אֲשֶׁר עָשָׂה אֱלֹהִים — et kol-asher asah Elohim, "tudo o que Deus tinha feito".

Et marca o objeto direto; kol é "tudo"; asher, "o que"; asah, "fez", no perfeito, que aqui equivale ao nosso mais-que-perfeito, porque o fazer é anterior ao ouvir. Elohim é a palavra comum para "Deus", com forma de plural e verbo no singular.

As duas traduções antigas mais importantes apagaram a diferença entre os dois nomes de Deus que o item 3 discute. O Targum de Ônquelos escreve aqui o nome próprio, abreviado, e não a palavra comum. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito entre os séculos III e II antes de Cristo) põe Kyrios ("Senhor") nas duas metades do versículo. Só o hebraico conserva a passagem de "Deus" para "o SENHOR".

לְמֹשֶׁה וּלְיִשְׂרָאֵל עַמּוֹ — le-Moshe u-le-Yisrael ammo, "por Moisés e por Israel, seu povo".

A preposição le, repetida antes de cada nome, indica a quem o ato se destina: "para", "a favor de". Ammo é "o povo dele", com o pronome colado ao substantivo, sem indicar se "dele" é Deus ou Moisés.

Aqui a Septuaginta faz mais do que traduzir. O texto grego diz: "tudo o que o Senhor fez a Israel, o seu próprio povo". Moisés desapareceu da frase, e o "seu" ganhou um reforço (heautou, "de si mesmo") que só pode referir-se ao Senhor. A tradução resolveu ao mesmo tempo as duas coisas que o hebraico deixa abertas: quem vem primeiro e de quem é o povo. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) mantém Moisés, mas chama Jetro de cognatus ("parente"), não de sogro.

כִּי־הוֹצִיא יְהוָה אֶת־יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרָיִם — ki-hotsi YHWH et-Yisrael mi-Mitsrayim, "que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito".

Hotsi é o Hifil (a forma causativa do verbo hebraico) de yatsa, "sair": "fazer sair", "tirar". É o verbo da fórmula que resume o Êxodo e que abrirá os Dez Mandamentos: "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito" (Êxodo 20:2). Mi-Mitsrayim é "do Egito", com a preposição de origem.

A conjunção ki admite três leituras, e cada tradição escolheu uma. A ABC entende "que", e a frase final explica o conteúdo do "tudo". Sforno propõe "quando": tudo o que Deus fez no tempo da saída. A Septuaginta escreve "pois" (gar), e a frase vira uma razão separada: Jetro ouviu tudo o que o Senhor fez, porque o Senhor tinha tirado Israel do Egito. As três são gramaticalmente possíveis, e não é possível decidir entre elas pelo hebraico.

11. Conclusão

Com base no que o versículo diz e no que ele cala, a primeira conclusão é que o capítulo de Jetro nasce de uma notícia incompleta. O texto afirma que ele ouviu "tudo" e não diz o quê, e essa reticência é o que permitiu a três mestres do século II pôr a viagem em três datas diferentes. Quem quer saber exatamente o que moveu Jetro não encontra a resposta no Êxodo; encontra uma escolha deixada em aberto.

A segunda é que Jetro entra na história de Israel pelo parentesco. Ele tem cargo e tem deus próprio, e o capítulo prefere chamá-lo pelo vínculo com Moisés. A ordem "por Moisés e por Israel" é a ordem de quem conhece o homem antes de conhecer o povo — e é por ela que um estrangeiro chega ao acampamento sem ser inimigo.

A terceira é que o versículo já carrega, em miniatura, o movimento do capítulo inteiro. Começa com um estrangeiro ouvindo falar de "Deus" e termina com o nome próprio, "o SENHOR". Começa com Jetro ouvindo sobre Moisés e prepara o momento em que Moisés ouvirá Jetro. Antes de qualquer conselho, sacrifício ou bênção, o que põe tudo em marcha é alguém, de longe, prestando atenção ao que aconteceu a outro.

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Êxodo 18:1

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