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Êxodo 2:18

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 34 acessos
Quando elas voltaram a Reuel, seu pai, ele perguntou: “Por que vocês voltaram tão cedo hoje?”
Homem mais velho, sentado à entrada de uma tenda no fim da tarde, erguendo o olhar para um grupo de mulheres que chega com o rebanho.

Estudo


Quando elas voltaram a Reuel, seu pai, ele perguntou: “Por que vocês voltaram tão cedo hoje?”

1. Introdução

Um nome próprio e uma pergunta sobre o horário. É tudo o que há neste versículo, e as duas coisas dão trabalho.

O nome é Reuel, e é a primeira vez que alguém em Midiã é chamado por nome. O Êxodo 2 nomeia quatro pessoas ao todo, e três delas — Reuel, Zípora e Gérson — entram na história aqui, longe do Egito.

O problema é que a Bíblia não mantém esse nome: em Êxodo 3:1 e 18:1 o sogro de Moisés se chama Jetro, em Êxodo 4:18 o hebraico traz a forma curta Jéter, em Números 10:29 Reuel aparece como pai de Hobabe, e em Juízes 4:11 quem é chamado de sogro é Hobabe. São quatro nomes para uma posição que só pode ser de um homem. A questão é antiga, real e não está resolvida; o item 2 reúne os dados e as saídas propostas, com o custo de cada uma, e não decide entre elas.

A pergunta é a segunda coisa. "Por que vocês voltaram tão cedo hoje?" O pai não pergunta o que aconteceu, não pergunta se estão bem, não pergunta pelo rebanho: pergunta pelo horário. E é o que ele pergunta que denuncia o que era normal — chegar cedo é a anomalia, chegar tarde era a rotina, e o leitor acaba de ver, no versículo anterior, por quê. Vale registrar desde já uma coisa que o texto não comenta: o pai nota o dia bom, e nunca notou os outros.

2. Contexto Histórico e Cultural

O problema do nome do sogro de Moisés

Este é um dos casos de dificuldade textual mais discutidos do Pentateuco, e ele é real: não é aparência de contradição que se desfaz com um pouco de contexto.

Os dados

Êxodo 2:18 chama o pai das sete moças de Reuel, e Êxodo 2:21 acrescenta que ele deu a Moisés "a sua filha Zípora" — de modo que este versículo e o 21 apontam para o mesmo homem, que é o sogro.

Êxodo 3:1 diz que Moisés apascentava o rebanho de Jetro, "seu sogro, sacerdote de Midiã", e Êxodo 18:1 repete a fórmula. Mesmo cargo, mesma relação, outro nome.

Êxodo 4:18 traz uma terceira forma: o texto hebraico conservado escreve Jéter, variante curta, e só depois, no mesmo versículo, volta a "Jetro". Quase todas as traduções uniformizam sem avisar o leitor.

Números 10:29 introduz um quarto nome: "Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés". Aqui Reuel é pai de alguém, e a expressão "sogro de Moisés" vem depois dos dois nomes, de modo que a gramática permite ligá-la tanto a Hobabe quanto a Reuel.

Juízes 4:11 resolve a ambiguidade para o lado oposto ao esperado: fala dos "filhos de Hobabe, sogro de Moisés". E acrescenta complicação de povo, porque chama esse grupo de queneu, e não de midianita. Juízes 1:16 faz o mesmo.

A palavra que está no centro da confusão

O termo hebraico traduzido por "sogro" é o particípio de uma raiz que significa aparentar-se por casamento — a mesma que dá as palavras para noivo e para genro. O particípio masculino designa, na esmagadora maioria dos casos, o pai da esposa, mas o campo semântico da raiz é mais largo e cobre o parentesco por aliança em geral.

É desse alargamento que nasce uma das saídas propostas: em Números 10:29 e Juízes 4:11 a palavra poderia significar "cunhado", e não sogro. As traduções antigas para o grego usam nesses lugares um termo igualmente genérico, o que mostra que a dificuldade é anterior a qualquer discussão moderna.

As saídas propostas, e o que cada uma custa

1. Um homem, dois nomes. Reuel seria o nome próprio e Jetro um título de dignidade — a palavra tem parentesco com uma raiz que significa "sobra, excesso, excelência". É a solução de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e, com variações, de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX). Custo: não há caso documentado em que "Jetro" funcione como título, dentro ou fora da Bíblia, e a solução deixa Hobabe sobrando.

2. Reuel é o avô. "Pai", em hebraico, designa com frequência o antepassado, e não só o genitor imediato. Reuel seria o avô das moças, e Jetro, o pai — leitura de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), apoiada em Números 10:29. Custo: o versículo diz "Reuel, seu pai", e três versículos adiante o mesmo homem entrega "a sua filha Zípora"; é preciso estender o sentido de "pai" e de "filha" na mesma cena, sem nenhum sinal no texto.

3. Tradições diferentes conservadas lado a lado. Explicação dominante nos estudos acadêmicos desde o século XIX: os textos que dizem Reuel viriam de uma linha de transmissão, e os que dizem Jetro, de outra. Custo: ela explica a diferença postulando documentos que ninguém tem em mãos, e não responde à pergunta mais incômoda — por que um organizador que percebia a divergência a deixaria visível em vez de uniformizar.

4. Reuel é nome de clã. Grupos do deserto carregavam o nome do antepassado, e "voltar a Reuel" seria voltar à casa de Reuel. Custo: o versículo escreve "Reuel, seu pai", com a relação explícita; e Reuel é nome pessoal comum — Gênesis 36:4 o dá a um filho de Esaú, e Números 2:14 a um homem da tribo de Gade.

5. Hobabe é cunhado, não sogro. Lendo a palavra hebraica no sentido largo, ele seria filho de Reuel e irmão de Zípora. É a proposta de Keil e Delitzsch. Custo: Juízes 4:11 fala de "Hobabe, sogro de Moisés" numa construção difícil de esvaziar, e a saída depende de escolher o sentido mais raro da palavra.

6. "Reuel" entrou aqui por engano de copista. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) sugere que o nome neste versículo seja acréscimo posterior, nascido de uma leitura equivocada de Números 10:29. Custo: não há apoio de manuscrito nenhum — "Reuel" está em todas as testemunhas —, e a proposta resolve o problema criando um erro que ninguém pode verificar.

Um dado sobre transmissão, que ilustra sem resolver

Um caso vizinho mostra que o tipo de acidente que se costuma invocar aqui de fato acontece. Números 1:14 apresenta o chefe da tribo de Gade como "Eliasafe, filho de Deuel"; Números 2:14, o mesmo homem, como "Eliasafe, filho de Reuel". As duas letras hebraicas envolvidas são quase idênticas no traçado, as versões antigas se dividem, e Números 7:42 e 10:20 voltam a "Deuel".

É um caso limpo de troca de letra na cópia. E ele não resolve o nosso problema: nenhuma testemunha do texto oferece "Deuel" para o sogro de Moisés, e a diferença entre Reuel e Jetro não se explica por semelhança gráfica nenhuma.

Onde isso fica

Não é possível decidir. As seis saídas têm defensores sérios, nenhuma cobre todos os dados sem forçar alguma coisa, e não há inscrição, manuscrito ou documento midianita que arbitre. Quem apresentar qualquer uma delas como a resposta estará afirmando mais do que se sabe.

O que se pode afirmar é modesto: a Bíblia hebraica chama o sogro de Moisés por mais de um nome, chama o grupo dele por mais de um nome de povo, e nunca explica. O texto não trata isso como problema — o que é, por si, uma informação sobre como esses livros foram montados.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando elas voltaram a Reuel, seu pai"

Duas informações numa frase curta, e as duas são do texto, não das personagens: o nome do homem e o parentesco. O Êxodo poderia ter escrito "voltaram ao pai", como fez no versículo 16 ao falar do rebanho, e escolheu nomear — a primeira vez que alguém em Midiã ganha nome.

Essa dupla informação é justamente o que cria a dificuldade que o item 2 examina. Se o versículo dissesse só "voltaram ao pai delas", nada haveria a resolver: Êxodo 3:1 chamaria esse pai de Jetro e o assunto morreria ali. É porque este versículo nomeia, e nomeia dizendo "seu pai", que o resto da Bíblia entra em atrito consigo mesmo. Vale registrar, porém, que nenhuma das saídas propostas muda coisa alguma na cena: o homem que recebe as moças é o dono do rebanho e será o sogro de Moisés. O impasse é de identificação, não de enredo.

Repare também no verbo. O hebraico diz que elas "vieram", e não que "voltaram"; a nossa tradução escolheu "voltaram" porque o português pede o movimento de retorno para casa. A pergunta do pai tem uma escolha parecida, e maior: o item 10 trata das duas.

"ele perguntou"

É a primeira fala em Midiã, e é dele. As sete atravessaram três versículos trabalhando, sendo expulsas e sendo socorridas, e não disseram nada; Moisés também não falou. O primeiro a abrir a boca nesta parte do capítulo é o pai — e fala em casa, no fim do dia, sobre um assunto doméstico. Na primeira metade do capítulo as falas eram de uma filha de rei, de uma menina negociando uma ama e de um hebreu acusando Moisés de assassinato.

"Por que vocês voltaram tão cedo hoje?"

A pergunta é curta e diz muito mais do que pergunta.

Primeiro, o que ela pressupõe. Ninguém estranha o horário habitual; estranha-se o desvio. Ao perguntar por que chegaram cedo, o pai informa que o normal era chegarem tarde — e o leitor acaba de descobrir, no versículo anterior, o motivo do atraso. O Êxodo não afirma que a expulsão fosse rotina; a pergunta é que faz supor.

Segundo, a palavra "hoje". Ela marca o dia como exceção dentro de uma série. Sem ela, a frase seria pergunta sobre um acontecimento; com ela, é pergunta sobre uma quebra de padrão.

Terceiro, e mais desconfortável: o que ele nota. O pai percebeu o dia em que elas chegaram cedo. Nada no texto sugere que tenha perguntado, alguma vez, por que chegavam tarde — pode ser que soubesse e nada pudesse fazer, pode ser que não tivesse reparado. O Êxodo não diz. O que fica registrado é a assimetria: a rotina ruim passou sem pergunta, e a exceção boa não passou.

Quarto, o que ele não pergunta. Não pergunta se estão bem, não pergunta o que aconteceu, não pergunta pelo rebanho. Ler frieza nisso é possível, e é leitura, não texto: a atenção dele está no funcionamento da casa, e é essa pergunta prática que abre a porta pela qual Moisés vai entrar.

E há o desencontro que começa aqui: a pergunta é sobre a hora, e a resposta, em Êxodo 2:19, será sobre um homem. Elas não respondem o que foi perguntado — e é por isso que o pai terá de fazer a segunda pergunta no versículo 20.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Reuel

O sacerdote de Midiã apresentado em Êxodo 2:16, agora com nome. Pai das sete moças, dono do rebanho, e o homem que dará Zípora a Moisés em Êxodo 2:21.

O nome significa, aproximadamente, "amigo de Deus" — a formação está no item 10 —, e é comum na Bíblia: Gênesis 36:4 dá-o a um filho de Esaú, e Números 2:14 a um homem da tribo de Gade.

Sobre a alternância entre Reuel, Jetro, Jéter e Hobabe, ver o item 2. Ela não afeta o que este homem faz na história: acolhe um estrangeiro, dá-lhe casa, trabalho e uma filha, e reaparecerá em Êxodo 18 para propor a Moisés a organização judiciária de Israel.

Hobabe

Não aparece neste versículo, mas entra na discussão por causa dele. Números 10:29 o apresenta como filho de Reuel, o midianita; Juízes 4:11 o chama de sogro de Moisés e liga a ele o clã queneu de Héber, do qual sairá Jael. É a peça que nenhuma das explicações do item 2 acomoda sem esforço.

Midianitas e queneus

Êxodo 2 situa a família em Midiã; Juízes 1:16 e 4:11 chamam os descendentes do sogro de Moisés de queneus. Os dois nomes podem designar grupos distintos, grupos aparentados ou um subgrupo dentro do outro — não há como decidir, e a questão dos queneus está tratada no estudo de Gênesis 15:19.

O que aconteceu antes

Em Êxodo 2:16 as sete foram ao poço tirar água para o rebanho do pai. Em Êxodo 2:17 pastores as expulsaram, e Moisés, sentado ali desde a fuga narrada em Êxodo 2:15, levantou-se, defendeu-as e deu água ao rebanho. Elas chegam em casa sem saber quem ele é, e é por isso que a resposta do versículo 19 sai como sai.

5. Pontos de Ensino

Uma pergunta pode revelar mais do que uma descrição

O Êxodo não escreveu "as moças costumavam chegar tarde porque os pastores as expulsavam todo dia". Escreveu a pergunta de um pai surpreso com a hora.

O efeito é o mesmo, e é mais econômico. Vale como chave de leitura para a Bíblia hebraica inteira: boa parte do que ela informa não vem em frase declarativa, e sim no que as personagens pressupõem quando falam.

A exceção boa é a que chama atenção

Ele nota o dia em que elas chegam cedo. O texto não registra pergunta nenhuma sobre os dias em que chegaram tarde. Não é possível dizer se ele sabia do problema, se não reparava ou se não podia fazer nada. O que fica é a observação, e ela é incômoda: rotina ruim tende a virar paisagem.

O texto conserva um problema em vez de aparar

A Bíblia chama o mesmo homem por nomes diferentes em livros diferentes, e nunca harmoniza. É um dado sobre o que essa literatura é: ela não foi montada para passar num exame de coerência, e reconhecer isso não a enfraquece.

Nomear é o gesto raro deste capítulo

Reuel é a segunda pessoa nomeada em Êxodo 2, depois de Moisés. O pai, a mãe e a irmã de Moisés não têm nome; a filha de Faraó não tem; o Faraó não tem; os pastores não têm; as sete moças não têm.

E as três nomeações que restam no capítulo — Reuel, Zípora e Gérson — acontecem todas em Midiã. O Êxodo dá nome a quem acolhe o fugitivo, e não a quem o criou.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão que interessa a quem pensa em como se conhece uma situação: o que precisa acontecer para que alguém repare em alguma coisa.

A pergunta do pai é sobre um desvio. Ele não pergunta pelo horário; pergunta por que o horário foi outro. Isso significa que a informação "elas chegam tarde" estava disponível para ele todos os dias, e nunca virou pergunta. O que produz a pergunta não é o dado — é a quebra.

Há aí um problema conhecido e mal resolvido. O que se repete deixa de ser percebido como acontecimento e passa a ser percebido como fundo. Não é distração: é como a atenção funciona, e sem esse mecanismo seria impossível viver, porque cada gesto repetido exigiria exame. O preço é que a regularidade fica invisível exatamente na proporção em que é regular.

A consequência incomoda quando se aplica a situações ruins. Uma injustiça que acontece uma vez é episódio, e chama atenção. A mesma injustiça, todos os dias, vira o modo como as coisas são. Quem sofre também para de contar, porque contar exige que haja algo a contar, e o que sempre acontece não parece notícia. As sete não disseram nada ao pai, todos aqueles dias; só falam quando o dia sai diferente.

Isso põe em xeque um pressuposto muito usado: o de que quem está por perto sabe. Reuel morava com sete mulheres que passavam por aquilo diariamente, e o texto não dá sinal de que soubesse; não é preciso supor indiferença para explicar, basta a regularidade.

Fica em aberto a pergunta que o leitor faz pelo versículo: como se toma conhecimento de um problema que não tem interrupção? A resposta que o capítulo oferece é decepcionante e verdadeira — pela interrupção.

7. Aplicações Práticas

O versículo tem uma pergunta doméstica e um problema de nomes. As aplicações abaixo são as que decorrem de fato do que está escrito.

Perguntar pelo desvio, e também pela regra

O pai pergunta por que o dia foi diferente. Ninguém, na cena, perguntou nunca por que os outros dias eram como eram.

A aplicação serve para quem coordena qualquer coisa — uma casa, uma equipe, uma sala de aula. As perguntas que se fazem naturalmente são sobre exceções: por que atrasou, por que caiu, por que faltou. As que quase nunca são feitas são sobre o padrão: por que isso sempre demora tanto? Quem só pergunta pelo desvio recebe informação sobre acidentes, e nenhuma sobre o funcionamento.

Quem sofre todo dia costuma não contar

As sete não relataram nada nos dias em que foram expulsas. Falam no dia em que foram socorridas. Vale reter, sem transformar em regra psicológica: o silêncio de alguém sobre um problema não é sinal de que o problema não existe, e o relato costuma vir quando a situação muda, não quando ela está no pior.

Conviver com o que não se resolve

Há dificuldades que se resolvem com informação, e há as que não se resolvem — e a diferença entre um leitor honesto e um leitor apressado é o que ele faz com as segundas. Fechar a questão por conforto é o que produz a defesa frágil, aquela que desmorona no primeiro contato com quem estudou o assunto.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Isso significa que o texto tem um erro?

"Erro" pressupõe um padrão que o próprio texto talvez não adotasse. O Pentateuco conserva mais de um nome para o mesmo homem sem sinal de incômodo, e os copistas que o transmitiram por séculos, tendo toda a oportunidade de uniformizar, não uniformizaram. A leitura mais econômica é que a exigência de nome único e estável é nossa, e não do texto. Isso não resolve a dificuldade; muda a pergunta que se faz diante dela.

Por que as filhas não contaram antes o que acontecia no poço?

O Êxodo não diz. Nem sequer afirma que a expulsão fosse rotina — isso é dedução a partir da pergunta do pai, dedução razoável e não afirmação do texto. Se elas se calavam, se ele sabia e nada podia fazer, se ninguém tinha reparado: nada disso está escrito.

O pai não perguntou se estavam bem. Isso é frieza?

O texto não permite dizer. Ele registra uma pergunta prática sobre o horário, e no versículo 20 esse mesmo homem repreenderá as filhas por terem deixado o estrangeiro para trás e mandará chamá-lo para comer. Ler frieza aqui é possível; ler atenção ao funcionamento da casa também. O Êxodo não fornece o tom de voz, e essa é limitação real de qualquer leitura de diálogo antigo.

9. Conexão com Outros Textos

Os outros nomes do mesmo homem

Êxodo 3:1 — "E Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e levou o rebanho para além do deserto e chegou ao monte de Deus, a Horebe."

Êxodo 4:18 — "Então Moisés foi e voltou para Jéter, seu sogro, e disse-lhe: Deixe-me ir, para que eu volte a meus irmãos que estão no Egito."

O mesmo cargo e a mesma relação, com dois nomes diferentes — e o segundo, numa forma curta que quase todas as traduções apagam.

Números 10:29 — "Disse então Moisés a Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés: Estamos caminhando para o lugar de que o SENHOR disse: Eu o darei a vocês."

Juízes 4:11 — "E Héber, o queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés."

Aqui Reuel é pai de Hobabe, e Hobabe é que é chamado de sogro. A discussão está no item 2.

Reuel como nome de outras pessoas

Números 2:14 — "E a tribo de Gade; e o príncipe dos filhos de Gade será Eliasafe, filho de Reuel."

O nome é comum — Gênesis 36:4 também o dá a um filho de Esaú. E este caso é o que Números 1:14 escreve "filho de Deuel", com a troca de letra examinada no item 2.

O que este homem fará depois

Êxodo 18:17-18 — "O sogro de Moisés lhe disse: ‘Não é bom o que você está fazendo. Você vai se esgotar, você e também este povo que está com você; porque a tarefa é pesada demais para você; não pode fazê-la sozinho."

O homem que aqui pergunta pelo horário das filhas será quem dirá a Moisés que a maneira de julgar Israel está errada — e Moisés atenderá.

"Pai" no sentido de antepassado

Gênesis 28:13 — "Eu sou o SENHOR, o Deus de Abraão, seu pai, e o Deus de Isaque."

A fala é dirigida a Jacó, e Abraão é o avô dele.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quando elas voltaram a Reuel, seu pai, ele perguntou: “Por que vocês voltaram tão cedo hoje?”

Texto hebraico

וַתָּבֹאנָה אֶל־רְעוּאֵל אֲבִיהֶן וַיֹּאמֶר מַדּוּעַ מִהַרְתֶּן בֹּא הַיּוֹם

Transliteração

wa-tavonah el Re'u'el avihen; wa-yomer maddua miharten bo ha-yom

Análise palavra por palavra

וַתָּבֹאנָה — wa-tavonah, "e vieram".

É a mesma forma verbal com que Êxodo 2:16 abriu a ação delas — o verbo bo, vir, chegar, entrar, na terceira pessoa feminina plural. O texto usa a mesma palavra para a ida ao poço e para a chegada em casa.

A nossa tradução escreveu "voltaram", e é escolha nossa. O hebraico tem verbo próprio para voltar, shuv, e não o usou. Em português, "quando elas vieram a Reuel" soa estranho; o custo é que se perde a repetição entre os dois versículos.

אֶל־רְעוּאֵל אֲבִיהֶן — el Re'u'el avihen, "a Reuel, o pai delas".

O nome tem dois elementos: o primeiro vem de uma raiz ligada a companheirismo e amizade, a mesma que dá a palavra hebraica para "companheiro" e "próximo"; o segundo é El, o termo semítico geral para "deus", que entra em dezenas de nomes bíblicos. As traduções correntes dão "amigo de Deus" ou "Deus é amigo"; a construção não permite decidir qual dos dois elementos é o sujeito da frase que o nome resume. O dossiê sobre a alternância com Jetro, Jéter e Hobabe está no item 2.

"Pai delas" traz o mesmo sufixo feminino plural de Êxodo 2:16, e não o masculino que apareceu em Êxodo 2:17 — a flutuação já registrada ali.

וַיֹּאמֶר — wa-yomer, "e disse".

O verbo mais comum da narrativa hebraica, no masculino singular. Note que o texto não repete o sujeito: não escreve "e Reuel disse", escreve só "e disse", porque o nome acabou de aparecer. A pergunta vem colada na chegada, sem pausa.

מַדּוּעַ — maddua, "por quê".

Vale distinguir da outra palavra hebraica para "por quê", porque a distinção é real e some na tradução. Maddua se formou, muito provavelmente, da junção de "o que" com o particípio passivo do verbo "saber" — algo como "que se sabe disso?" —, e pergunta pela causa de um fato ocorrido. Já lammah é "para quê", pergunta pelo propósito e muitas vezes carrega reclamação: é a palavra dos protestos do povo no deserto.

Reuel usa a primeira. Não está reclamando nem exigindo justificativa: está perguntando o que houve. É detalhe pequeno, e ajuda a calibrar um tom que o texto não fornece de outro modo.

מִהַרְתֶּן — miharten, "vocês se apressaram".

Verbo mahar na forma intensiva piel, segunda pessoa feminina plural — forma rara, porque a Bíblia hebraica quase sempre trata grupos no masculino. O sentido é apressar-se, fazer depressa, antecipar.

Aqui está o ponto de tradução do versículo. O hebraico não diz "vocês voltaram cedo": diz "vocês se apressaram a vir hoje". A diferença não é só de estilo — "chegar cedo" descreve o horário, "apressar-se" descreve a conduta delas. Reuel não pergunta por que o dia foi mais curto; pergunta por que elas correram.

A nossa ABC preferiu "voltaram tão cedo", que é o português natural e a escolha da maioria das traduções. Registre-se o custo: some a ideia de pressa, e a pergunta passa a soar como observação sobre a hora, quando o hebraico a faz sobre o ritmo delas.

בֹּא — bo, "vir".

Infinitivo do mesmo verbo que abriu o versículo. A construção é "apressaram-se a vir", com o verbo principal indicando a pressa e o infinitivo indicando a ação apressada — o mesmo desenho de "correu a atender" em português.

הַיּוֹם — ha-yom, "hoje".

Ao pé da letra, "o dia", com artigo; em hebraico é assim que se diz "hoje". A palavra faz o trabalho mais importante da frase: marca este dia como diferente dos outros, e portanto informa que havia outros e que eles eram de outro jeito. Sem ela, a pergunta seria sobre um acontecimento isolado; com ela, é sobre uma exceção — e a exceção é o que denuncia a regra.

11. Conclusão

Três conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.

A primeira é sobre o nome. Este versículo é a única vez em toda a Bíblia em que o sogro de Moisés se chama Reuel e é apresentado como pai das moças; em outros lugares ele é Jetro, Jéter, ou pai de um Hobabe que também é chamado de sogro. Seis explicações circulam, todas com defensores respeitáveis, e nenhuma acomoda os dados sem forçar alguma coisa. Não é possível decidir — e é honesto acrescentar que o próprio texto nunca se incomodou com isso, o que já é informação sobre como esses livros foram compostos e transmitidos.

A segunda é sobre o que a pergunta revela. Reuel não descreve nada; ele estranha. E o estranhamento é a única fonte de informação que o leitor tem sobre como eram os outros dias: se chegar cedo espanta, chegar tarde era a norma — e o versículo anterior mostrou por quê. O Êxodo economiza a frase declarativa e deixa a rotina aparecer no que uma personagem pressupõe ao falar.

A terceira é sobre o que ninguém pergunta. O pai nota o dia bom. Não há registro de que tenha perguntado, alguma vez, pelos dias ruins, e as filhas não os relataram. Se isso é desatenção, impotência ou simples efeito da repetição, o texto não diz — mas a assimetria fica de pé, e ela é o achado mais desconfortável deste versículo: a interrupção de um problema chamou mais atenção do que o problema.

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