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Êxodo 19:1

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✍️ Por Alberto Adriano·5 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 35 acessos
No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, neste dia, chegaram ao deserto do Sinai.
Uma multidão de homens, mulheres e crianças com rebanhos e tendas enroladas chega ao fim da tarde a uma planície de pedra, sob uma fina lua nova, diante de uma grande montanha de granito avermelhado.

Estudo


No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, neste dia, chegaram ao deserto do Sinai.

1. Introdução

Israel chega ao deserto do Sinai, e o versículo abre pela data: “no terceiro mês”, “neste dia”. Só que a data vem incompleta — dá o mês e não dá o dia —, e foi dessa falta que a tradição judaica tirou o calendário da revelação: lua nova de Sivã na chegada, seis ou sete de Sivã no monte. O “neste dia” do hebraico, sem antecedente, virou também programa de leitura, porque Rashi o leu como se a Lei fosse dada hoje. E a festa que hoje celebra o Sinai, Shavuot, é na Torá uma festa da colheita: a ligação entre as duas coisas foi feita depois, e o caminho dela está documentado. O versículo é o portal do capítulo que prepara o Decálogo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma festa de trigo que não fala do Sinai

Quem lê a Torá procurando a festa da revelação não a encontra. A festa que cai nesta época do ano tem quatro nomes e nenhum deles lembra o monte. Em Êxodo 23:16 é a “festa da colheita”, a dos primeiros frutos do que se semeou no campo. Em Êxodo 34:22 é a “festa das semanas”, das primícias da colheita do trigo. E Levítico 23:15-21 manda contar sete semanas a partir do feixe de cevada oferecido na semana da Páscoa e, no quinquagésimo dia, apresentar dois pães novos. Nenhum desses textos dá uma data no calendário: a festa se acha contando, não olhando o mês.

Deuteronômio 16:9-12 é o único que acrescenta uma memória histórica, e ela não é o Sinai: “lembre-se de que você foi escravo no Egito”. A Torá não liga Shavuot (“semanas”, em hebraico — o nome da festa) ao monte em nenhum versículo. Liga ao trigo, à contagem e ao Egito.

Por onde a ligação entrou

O primeiro sinal está em 2 Crônicas 15:10-15. No reinado de Asa, o povo se reúne em Jerusalém “no terceiro mês”, entra em aliança para buscar o SENHOR e jura em voz alta; e “todo Judá se alegrou com o juramento”. Uma aliança renovada no terceiro mês, sob juramento. Alguns estudiosos apontam que em hebraico “semanas” (shavu'ot) e “juramentos” (shevu'ot) se escrevem com as mesmas consoantes, e veem aqui a festa já entendida como dia de jurar a aliança. É hipótese: o texto de Crônicas não nomeia a festa.

O segundo é explícito. O Livro dos Jubileus (reescrita do Gênesis e do começo do Êxodo, do século II antes de Cristo) abre com Moisés subindo ao monte “no terceiro mês, no dia dezesseis desse mês” (Jubileus 1:1). E no capítulo 6 transforma a festa das Semanas em festa da aliança: ela estaria escrita nas tábuas do céu para ser celebrada “uma vez por ano, para renovar a aliança a cada ano” (Jubileus 6:17), e teria sido guardada por Noé, depois por Abraão e Jacó, antes de ser esquecida e restabelecida no Sinai. Para Jubileus, o Sinai não inventa a festa; devolve-a.

O terceiro vem das cavernas de Qumran. Uma das cópias do Documento de Damasco achadas ali (a regra de uma comunidade judaica separada, do século I antes de Cristo) manda que todos os que moram nos acampamentos se reúnam “no terceiro mês” para amaldiçoar quem se desviar da Lei, à direita ou à esquerda (4Q266, fragmento 11). Uma cerimônia anual de entrada e renovação da aliança, no mês do Sinai.

O quarto é rabínico, e é o que ficou. O Talmude (Pesachim 68b) registra Rabi Elazar: todos concordam que na festa das Semanas é preciso comer e alegrar-se, porque “é o dia em que a Torá foi dada”. A leitura da sinagoga acompanhou: a baraita de Meguilá 31a conhece duas práticas para a festa, ler “Sete semanas contarás” (Deuteronômio 16:9) ou ler “No terceiro mês” — este capítulo. Venceu o Êxodo 19, que hoje se lê no primeiro dia da festa, junto com o Decálogo. E a oração do dia, já nos livros de reza do século IX, chama a festa de “tempo da entrega da nossa Torá”.

Quem conta os meses manda no tempo

A Mekhilta de Rabi Ishmael (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), no começo do tratado Bachodesh, lê “depois que saíram da terra do Egito” como regra de calendário: os meses e os anos de Israel se contam a partir da saída. E segue a linha até o fim. Contaram da saída até o Templo (1 Reis 6:1); do Templo construído, enquanto ele durou; da cidade destruída, depois (Ezequiel 40:1); e, quando “não mereceram contar por si mesmos”, passaram a contar pelos reis dos outros — “no segundo ano de Dario” (Ageu 1:15). Quem fixa o ano zero é quem manda.

Para ilustrar, a Mekhilta conta que Rabi Yochanan ben Zakai, depois da destruição do Templo, viu uma moça judia catando grãos de cevada no esterco do cavalo de um árabe, e disse aos discípulos: vocês não quiseram pagar meio siclo por cabeça ao Céu, pagam agora quinze siclos ao inimigo. O calendário que este versículo inaugura é, na leitura rabínica, um termômetro de liberdade. A conta com que a mesma Mekhilta chega ao dia da revelação, partindo da chegada ao deserto de Sim, está no estudo de Êxodo 16:1.

3. Análise Teológica do Versículo

“No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito”

Compare com as etapas anteriores. Em Êxodo 16:1 e 17:1 o texto diz primeiro de onde o povo partiu e depois aonde chegou. Aqui a ordem se inverte: a data vem antes de tudo, a chegada vem logo depois, e a partida de Refidim só aparece no versículo seguinte, fora do lugar. Nachmânides (Ramban, rabino catalão do século XIII) percebeu a inversão e deu a ela um motivo: a chegada ao Sinai era dia de festa. O povo vinha esperando por ela desde a saída, porque Moisés tinha dito a Faraó que iriam ao deserto servir a Deus, e a promessa da sarça marcava o lugar: “vocês servirão a Deus neste monte” (Êxodo 3:12). Quando se chega aonde se queria chegar, a data é dita primeiro.

O que a frase não diz é o dia. Ela dá o mês e para. Toda vez que a Torá data um acontecimento pelo mês, diz também o dia — “no décimo quinto dia do segundo mês” (Êxodo 16:1). Aqui, nada. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) concluem que a data exata não se pode saber. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) vai além e supõe que o número do dia tenha caído do texto em algum momento da cópia. É hipótese sem manuscrito que a apoie.

“neste dia”

Em Êxodo 12:41 e 12:51 o hebraico diz “no osso deste dia”, a fórmula solene das datas que dividem a história, e a ABC traduz ali “naquele mesmo dia” (o estudo de Êxodo 12:51 a analisa). Aqui diz apenas “neste dia” — sem a palavra “osso”, e com um demonstrativo que aponta para um dia que a frase não nomeou. É essa falta de antecedente que abriu as leituras. A pergunta de todas é a mesma: que dia é “este dia”?

Primeira leitura: é o primeiro dia do mês, a lua nova. É a da Mekhilta (“era lua nova”) e a do Talmude. Em Shabbat 86b, Rava diz que todos concordam nisso e prova por comparação de palavras: em Êxodo 12:2, “este mês” se refere à lua nova; logo, “este dia” aqui também. Um rabino que Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) chama apenas de Rabi Moisés chega ao mesmo lugar por outro caminho, sem precisar de comparação: a palavra hebraica para mês quer dizer, antes de tudo, “lua nova”, como em 1 Samuel 20:18, “amanhã é lua nova”. A frase se leria então “na terceira lua nova depois da saída, neste dia, chegaram”. É a leitura mais aceita e a que o calendário judaico adotou.

Segunda leitura: é o dia em que partiram de Refidim. Ibn Ezra a propõe como alternativa e deixa claro que não está seguro da primeira. Refidim e o Sinai ficavam mais distantes um do outro do que as outras etapas, e o texto registraria que, mesmo assim, o povo fez o trecho num só dia. Contra ela pesa a posição da frase: a partida de Refidim só aparece no versículo 2.

Terceira leitura: “este dia” é hoje. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) aceita a lua nova e acrescenta uma pergunta de estilo: se o texto fala de um dia passado, deveria ter dito “naquele dia”; por que diz “neste”? Porque as palavras da Torá devem ser para você, a cada dia, novas, como se tivessem sido dadas hoje. Rashi não está negando a data — ele a aceitou na frase anterior. Está dizendo que o demonstrativo de perto transforma uma data em presente. É leitura de pregador, e foi a que ficou na memória de quem estuda.

O calendário que saiu daqui

Shabbat 86b registra a disputa que fixou a data da revelação. Os sábios dizem que os Dez Mandamentos foram dados no dia seis do terceiro mês; Rabi Yosei diz que no dia sete. O Talmude mostra que os dois lados concordam em quase tudo: o povo chegou na lua nova, e a Lei foi dada num sábado, porque o mandamento “lembre-se do dia de sábado” ecoaria o “lembrem-se deste dia” de Êxodo 13:3, dito no próprio dia da saída. A divergência é só sobre o dia da semana em que caiu a lua nova — domingo para Rabi Yosei, segunda-feira para os sábios. Daí cada um monta uma agenda: um dia de descanso da viagem, um dia para a proposta da aliança, um dia para os limites do monte, a separação dos casais, e o sábado.

A conta tem uma consequência curiosa. Se a lua nova caiu no domingo e a Lei no dia sete, a revelação aconteceu no quinquagésimo primeiro dia depois da saída, não no quinquagésimo. O Magen Avraham (comentário de Abraham Gombiner ao código Shulchan Aruch, século XVII) fez essa conta e perguntou por que, então, a festa cai no quinquagésimo. A resposta do Talmude, no folio seguinte, é que Moisés acrescentou um dia por conta própria à preparação, e Deus concordou. O dia da festa e o dia do monte não coincidem exatamente nem na própria tradição que os uniu.

“chegaram ao deserto do Sinai”

O verbo é simples e o sujeito são “os filhos de Israel”, no plural. É a última vez, por algumas linhas, que o povo aparece como soma de muitos; no versículo seguinte, ao acampar diante do monte, ele vira “Israel”, no singular. A chegada é ao deserto, não ao monte: o monte só entra em cena no versículo 2, “diante do monte”. O texto avança em dois tempos, como quem se aproxima.

E chega sem nenhum incidente. Mara teve águas amargas, Sim teve fome, Refidim teve sede e guerra. A etapa do Sinai é a primeira desde o mar em que o texto não registra queixa. Para Nachmânides, é o efeito da alegria de ter chegado. O texto apenas não conta problema nenhum, e não explica por quê.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os filhos de Israel

O povo que saiu do Egito, homens, mulheres, crianças e a “mistura de gente” que saiu com eles (Êxodo 12:38). Nesta frase aparece no plural, como a soma de todos os que fizeram a marcha. Desde a travessia do mar, passaram por Mara, Elim, o deserto de Sim e Refidim.

O terceiro mês

Contado a partir do mês da saída, que Êxodo 12:2 fez o primeiro do ano. É o mês que o calendário judaico chama de Sivã, nome de origem babilônica que a Bíblia usa uma única vez, em Ester 8:9. Corresponde mais ou menos a maio-junho. Em Canaã, é o tempo da colheita do trigo; no deserto, é o começo do calor forte. Do dia quinze do primeiro mês, quando saíram, até a lua nova do terceiro, passaram-se cerca de quarenta e cinco dias.

O deserto do Sinai

A região de pasto e pedra que se estende diante do monte, e que dá nome a ele ou dele recebe o nome. Não é o monte: o versículo chega ao deserto, e o versículo seguinte põe o acampamento “diante do monte”. O deserto do Sinai será a casa de Israel por quase um ano — até o vigésimo dia do segundo mês do segundo ano (Números 10:11-12) — e é o cenário de todo o resto do Êxodo, do Levítico inteiro e dos dez primeiros capítulos de Números. A localização do monte é discutida desde a Antiguidade, e as quatro propostas principais estão no estudo de Êxodo 3:1.

5. Pontos de Ensino

A data vem antes da chegada. Diferentemente das etapas anteriores, este versículo começa pelo tempo e só depois diz o lugar. A ordem das palavras marca que o acontecimento importa pelo quando.

O texto dá o mês e cala o dia. “Neste dia” aponta para um dia que a frase não nomeou. Toda a datação da revelação — lua nova, seis ou sete do terceiro mês — é construção dos leitores sobre essa lacuna, feita com argumentos à vista e com divergência registrada.

Rashi transformou o demonstrativo em programa. “Este dia”, e não “aquele dia”: a Lei deve ser nova a cada leitura. A leitura não nega a data; acrescenta-lhe um presente.

A Torá não liga Shavuot ao Sinai. A festa das Semanas é, nos cinco livros, festa do trigo e da contagem, com uma única memória histórica — o Egito (Deuteronômio 16:12). A ligação com a revelação aparece em Crônicas como possibilidade, em Jubileus e em Qumran como renovação da aliança, e no Talmude como dado firmado. É um exemplo documentado de como uma festa recebe um sentido novo.

Calendário é soberania. A Mekhilta lê a contagem a partir da saída como sinal de quem manda no tempo, e a perda desse calendário, como sinal de servidão. Um povo que data a vida pela própria libertação já está dizendo quem é.

6. Aspectos Filosóficos

Uma data pode obrigar para sempre? O versículo prende o encontro com Deus a um mês do calendário, e Rashi o solta do calendário ao ler “neste dia” como “hoje”. As duas coisas puxam para lados opostos: se a revelação é um acontecimento, ela envelhece como todo acontecimento; se é presente perpétuo, por que datá-la? Quem enfrentou esse problema de frente, no judaísmo moderno, foi Nachman Krochmal.

Quem foi

Krochmal (1785-1840) viveu na Galícia, então território austríaco, e quase não publicou em vida. O seu livro saiu onze anos depois da morte, editado por Leopold Zunz, com um título que remete de propósito ao Guia dos perplexos, o clássico medieval da filosofia judaica: Moreh Nevukhei ha-Zman (“Guia dos perplexos do tempo”). Os perplexos do século XII eram os que não conciliavam a Bíblia com a filosofia grega. Os de Krochmal são os que não conciliam a Bíblia com a história — os judeus que tinham aprendido, com a filosofia alemã e com a crítica dos textos, que tudo o que existe nasceu numa época e muda com ela.

A resposta dele

Krochmal aceita a história inteira. Todo povo, diz ele, vive de um princípio espiritual próprio, e todo povo passa por três fases: crescimento, força e decadência. Os gregos, por exemplo, tiveram a sabedoria e a beleza; e cada povo morre quando o seu princípio se esgota. Israel passou pelas mesmas fases, e mais de uma vez: um ciclo que vai dos patriarcas à destruição do primeiro Templo, outro que vai da volta da Babilônia à revolta de Bar Kochba, e um terceiro que chega à crise do século XVII. A diferença é que o princípio de Israel não é um valor particular — é o próprio espírito absoluto, aquilo que não se esgota. Por isso, depois de cada decadência, o ciclo recomeça. Israel envelhece como todos os povos e renasce como nenhum.

Aplicado a este versículo, o esquema separa as duas coisas que Rashi juntou. O que aconteceu “no terceiro mês” é um fato do primeiro ciclo, da fase de crescimento, e pode ser datado, estudado e até criticado como qualquer fato antigo — Krochmal foi dos primeiros judeus tradicionais a admitir que partes de Isaías e dos Salmos eram tardias e que a lei oral tinha uma história. O que se torna presente a cada leitura não é o acontecimento: é o princípio que o acontecimento revelou. “Neste dia”, em Krochmal, não quer dizer que o Sinai se repete; quer dizer que aquilo que se mostrou no Sinai é o que torna possível recomeçar depois de cada queda.

O preço

A objeção mais séria é de método. O esquema dos ciclos é feito olhando para trás: é fácil achar crescimento, força e decadência num passado que já se conhece, e impossível testá-lo no futuro. Krochmal não previu nada; organizou o que sabia. E a ideia de um “espírito do povo” que se desenvolve em fases é emprestada da filosofia alemã do tempo dele, com tudo o que ela tem de vago.

A segunda objeção vem do lado religioso. Ao tratar o Sinai como fato de um ciclo histórico, Krochmal abriu a porta para ler a Torá como produto da história de um povo, e muitos dos seus herdeiros atravessaram essa porta para chegar a um judaísmo sem revelação nenhuma. Ele próprio não foi por aí: para ele, o princípio era divino e a história era o lugar onde o divino se mostra. E o Êxodo, é bom lembrar, não conhece ciclos nem espírito dos povos; o que se faz aqui é aplicar Krochmal ao problema que o “neste dia” levanta, não ler Krochmal no texto.

7. Aplicações Práticas

Ler o texto antigo como se fosse de hoje, sem fingir que é de hoje. Rashi tirou do demonstrativo uma regra de leitura: a Lei deve chegar nova a cada vez. E o mesmo Rashi, na frase anterior, aceitou a data. As duas atitudes cabem juntas. Quem lê a Bíblia pode saber que ela tem três mil anos e, ainda assim, ler cada página como se o assunto fosse com ele. O erro é escolher só uma das metades: tratar o texto como peça de museu, ou apagar a distância e pôr na boca dele o que ele não disse.

Datar o que importa. O povo saído da escravidão passa a contar o tempo a partir da própria libertação. É um gesto simples, e a Mekhilta o lê como sinal de liberdade. Pessoas e comunidades fazem o mesmo quando guardam a data de uma mudança decisiva — o dia em que pararam de beber, o aniversário de uma reconciliação. A data não acrescenta nada ao fato, mas impede que ele se dissolva na rotina.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que os cristãos celebram Pentecostes sempre num domingo, e os judeus celebram Shavuot em qualquer dia da semana?

Por causa de uma briga antiga sobre uma frase de Levítico 23:15: a contagem das sete semanas começa “no dia seguinte ao sábado”. Os fariseus, e depois os rabinos, entenderam “sábado” como o primeiro dia da festa da Páscoa, que é dia de descanso mesmo quando não cai no sábado; a contagem começa então no dia 16 do primeiro mês, e a festa cai sempre na mesma data, em qualquer dia da semana. A Septuaginta (a tradução grega da Torá, feita no Egito no século III antes de Cristo) já traduzia assim: “no dia seguinte ao primeiro dia”. Outros grupos judeus — os boetusianos, que o Talmude combate em Menachot 65a, e depois os caraítas — liam “sábado” ao pé da letra, e a festa caía sempre num domingo. Os cristãos contam os cinquenta dias a partir do domingo da Páscoa cristã, e por isso o Pentecostes deles é sempre domingo. A diferença não vem do Sinai; vem da leitura de uma palavra do Levítico.

Quanto tempo levou a viagem de Refidim ao Sinai?

O texto não diz. A lista de etapas de Números 33:15 põe as duas paradas em sequência direta, sem nada entre elas. Ibn Ezra sugere, como possibilidade, que “neste dia” queira dizer que o trecho foi feito num único dia, embora fosse mais longo que os outros. A distância real depende de onde se põem Refidim e o monte, e nenhum dos dois tem localização segura.

O Talmude diz que o primeiro dia no Sinai foi de descanso. Isso está no texto?

Não. É dedução de Shabbat 86b, para fazer caber a agenda da semana entre a lua nova e o sábado da revelação: o povo estaria cansado da viagem, e Deus não lhe disse nada naquele dia. O texto passa direto da chegada à subida de Moisés, sem marcar dia nenhum. A leitura é coerente com a cronologia rabínica e não pode ser confirmada nem negada pelo versículo.

9. Conexão com Outros Textos

O monte marcado antes da viagem

Êxodo 3:12 — “E Deus respondeu: ‘Eu estarei com você; e este será o sinal de que fui eu que o enviei: quando você tirar o povo do Egito, vocês servirão a Deus neste monte.’”

A chegada do terceiro mês cumpre o sinal dado na sarça. É sobre esta promessa que Nachmânides apoia a leitura da chegada como dia de festa.

O “este” que dá a data

Êxodo 12:2 — “Este mês será para vocês o princípio dos meses; será o primeiro dos meses do ano para vocês.”

O versículo de que o Talmude (Shabbat 86b) tira a lua nova: “este mês” lá, “este dia” aqui.

O nome do mês e a lista das etapas

Ester 8:9 — “Foram então chamados os escribas do rei, no terceiro mês, que é o mês de Sivã, no dia vinte e três.”

A única vez em que a Bíblia dá o nome babilônico do terceiro mês — o nome que o calendário judaico conserva até hoje.

Números 33:15 — “Partiram de Refidim e acamparam no deserto do Sinai.”

A mesma etapa na lista das paradas do deserto, sem data e sem nada no meio.

A festa nas leis

Levítico 23:15-16 — “Contem, a partir do dia seguinte ao sábado, desde o dia em que vocês trouxerem o feixe da oferta movida, sete semanas completas; até o dia seguinte ao sétimo sábado contem cinquenta dias.”

A contagem que dá nome à festa, sem data no calendário e sem menção ao Sinai.

Deuteronômio 16:12 — “Lembre-se de que você foi escravo no Egito, e guarde e cumpra estes estatutos.”

A única memória histórica que a Torá associa à festa das Semanas: o Egito, não o monte.

Uma aliança no terceiro mês

2 Crônicas 15:10, 12 — “Reuniram-se em Jerusalém no terceiro mês do décimo quinto ano do reinado de Asa. […] E entraram em aliança para buscar o SENHOR, o Deus dos seus pais, de todo o coração e de toda a alma.”

A primeira renovação da aliança que a Bíblia data no mês do Sinai. O texto não nomeia a festa.

Tobias 2:1 — “Na nossa festa de Pentecostes, que é a festa santa das sete semanas, prepararam-me um bom jantar.”

O nome grego da festa, guardando a contagem dos cinquenta dias.

A recepção cristã: Pentecostes

Atos 2:1-4 — “Quando chegou o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E apareceram a eles línguas como de fogo, que se repartiam e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.”

Lucas situa a vinda do Espírito na festa das Semanas e descreve som, fogo e palavra — elementos que lembram a cena do Sinai. Mas ele não cita o Sinai nem o Êxodo neste capítulo. A leitura de Pentecostes como “novo Sinai” é da tradição cristã posterior: Agostinho, na Carta 55, faz a conta dos cinquenta dias da Páscoa à Lei escrita “pelo dedo de Deus” e dos cinquenta dias da Ressurreição à vinda do Espírito, que ele também chama de dedo de Deus. O paralelo encontra eco rabínico independente: em Shabbat 88b, Rabi Yochanan diz que cada palavra saída da boca de Deus no Sinai se dividiu em setenta línguas. Que Lucas tivesse o Sinai em mente é leitura possível, não demonstrável.

A cronologia em volta

Êxodo 18:5 — “Jetro, sogro de Moisés, veio com os filhos e a mulher de Moisés até ele, no deserto onde estava acampado, no monte de Deus.”

O versículo que obriga a perguntar se a visita de Jetro aconteceu antes ou depois desta chegada. A discussão está no estudo de Êxodo 18:5.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, neste dia, chegaram ao deserto do Sinai.

Texto hebraico

בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁלִישִׁי לְצֵאת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם בַּיּוֹם הַזֶּה בָּאוּ מִדְבַּר סִינָי׃

Transliteração

ba-chódesh ha-shelishí le-tsét benei-Yisra'él me-érets Mitsráyim ba-yóm ha-zéh bá'u midbár Sinái.

Análise palavra por palavra

בַּחֹדֶשׁ — ba-chódesh, “no mês”. A preposição be-, “em”, fundida com o artigo, e o substantivo chodesh, da raiz de “novo”. A palavra tem dois sentidos na Bíblia: o mês inteiro e o dia em que ele começa, a lua nova. O segundo está em 1 Samuel 20:5 e 20:18 (“amanhã é lua nova”, machar chodesh). É nesse segundo sentido que se apoia a leitura que Ibn Ezra atribui a Rabi Moisés: “na terceira lua nova”. A gramática permite as duas; o versículo não decide.

הַשְּׁלִישִׁי — ha-shelishí, “o terceiro”. Numeral ordinal de shalosh, “três”, com artigo, posto depois do substantivo, como o hebraico faz com os ordinais. Os meses, na Torá, quase sempre se chamam por número, não por nome. Os nomes que o calendário judaico usa — Nisã, Iyar, Sivã — vieram da Babilônia, e só aparecem nos livros escritos depois do exílio.

לְצֵאת — le-tsét, “do sair”, “desde a saída”. Infinitivo da raiz yatsa', “sair”, com a preposição le-, no sentido de contagem a partir de um ponto. É a fórmula de datar pela saída que volta em Números 1:1 e 33:38 e em 1 Reis 6:1. O povo é o sujeito: “o sair dos filhos de Israel”. A forma causativa, em que Deus é quem faz sair, não aparece aqui.

בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל — benei-Yisra'él, “os filhos de Israel”. A forma ligada de banim, “filhos”, unida ao nome pelo traço de ligação. É o sujeito do infinitivo, e não do verbo principal: o verbo “chegaram”, no fim, não repete o sujeito.

מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם — me-érets Mitsráyim, “da terra do Egito”. A preposição de origem min, encurtada em me-, e erets, “terra”, em forma ligada com o nome do país.

בַּיּוֹם הַזֶּה — ba-yóm ha-zéh, “neste dia”. Yom, “dia”, com a preposição e o artigo, e o demonstrativo ha-zeh, “este”, o de perto. O hebraico tem também o demonstrativo de longe, ha-hu, “aquele”, e a expressão ba-yom ha-hu, “naquele dia”, é comum na narrativa. A pergunta de Rashi nasce dessa escolha. Falta também a palavra etsem, “osso”, “o próprio”, que forma a expressão solene be-etsem ha-yom ha-zeh de Êxodo 12:41 e 12:51.

A construção ba-yom ha-zeh depois de uma data tem um paralelo exato em Gênesis 7:11: “no ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês, no dia dezessete do mês, neste dia, romperam-se todas as fontes do grande abismo”. Lá, o “neste dia” retoma uma data completa — ano, mês e dia. Aqui retoma uma data sem dia. É o melhor argumento a favor de quem pensa que o número do dia caiu do texto, e também a favor de quem pensa que chodesh, sozinho, já era o dia: a lua nova.

בָּאוּ — bá'u, “chegaram”, “vieram”. Raiz b-w-', “vir, entrar”, no perfeito do Qal (a forma simples do verbo hebraico), terceira pessoa do plural. Repare na forma. A narrativa hebraica costuma encadear os fatos com o verbo no começo da frase, ligado por “e” (“e partiram… e chegaram…”), e é assim que o versículo 2 vai fazer. Aqui o verbo vem no fim, depois de toda a data, e no perfeito, sem o “e”. Essa ordem é a que se usa quando algo é posto à frente para dar relevo. É o dado gramatical que sustenta a observação de Nachmânides: neste versículo, o tempo vem primeiro.

מִדְבַּר סִינָי — midbár Sinái, “o deserto do Sinai”. Midbar, em forma ligada, é a terra de pasto, sem cidade e sem lavoura. Sem preposição: o hebraico diz “chegaram o deserto do Sinai”, usando o lugar como objeto direto do verbo de movimento, o que é normal com bo. A origem do nome Sinai é discutida, e as propostas estão no estudo de Êxodo 3:2.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o Sinai é um acontecimento datado, e datado de modo incompleto. O texto quis prender o encontro a um mês do calendário da libertação, e deixou o dia em aberto. Tudo o que se sabe sobre “seis de Sivã” é dedução honesta de leitores que discutiram em público e conservaram a divergência.

A segunda é que o “neste dia” permite as duas leituras ao mesmo tempo: a do historiador, que pergunta qual dia foi, e a do leitor que ouve a Lei como se fosse hoje. Rashi fez as duas na mesma linha, e não há contradição nisso.

A terceira é que a festa que hoje celebra este versículo chegou a ele por um caminho que se pode seguir — do trigo de Levítico à aliança de Jubileus e Qumran, e daí ao “dia em que a Torá foi dada” do Talmude. A Torá não fez essa ligação; a tradição fez, com o capítulo 19 na mão. Saber disso não tira da festa o seu sentido: mostra de onde ele veio.

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