Então Moisés despediu o seu sogro, e ele foi para a sua terra.
1. Introdução
O capítulo termina como começou: Jetro chegou e agora vai embora, e o verbo da despedida é o mesmo da volta de Zípora no versículo 2. Quem despede é Moisés, o genro que, anos antes, tinha pedido licença ao sogro para partir. O texto diz só que Jetro "foi para a sua terra", sem uma palavra sobre o que ele levou, o que pensou ou o que fez depois. Em Números 10:29-32, Moisés implora a Hobabe, "sogro de Moisés", que não os deixe, e a resposta do texto é um silêncio. A tradição preencheu o silêncio de dois modos: Jetro voltou para converter os seus, dizem a Mekhilta e Rashi; ou nunca foi de vez, e os seus descendentes ficaram em Israel.
2. Contexto Histórico e Cultural
O sacerdote que volta para pregar ao seu povo
A Bíblia não conta o que Jetro fez quando chegou em casa. Duas tradições religiosas, separadas por séculos e por fé, contam a mesma coisa: ele foi pregar o Deus único aos midianitas.
A tradição judaica. A Mekhilta de Rabi Ismael (comentário rabínico ao Êxodo, da terra de Israel, dos primeiros séculos da era comum) põe na boca de Jetro uma resposta a Moisés, que lhe pedia para ficar. Jetro diz: "Por acaso a vela serve para alguma coisa fora do lugar escuro? Que pode fazer uma vela entre o sol e a lua? Você, Moisés, é o sol, e Arão, o seu irmão, é a lua. Que fará a vela entre os dois? Vou para a minha terra, converto todos os do meu país, trago-os ao estudo da Torá e os aproximo debaixo das asas da Presença divina". Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista francês do século XI) resume a leitura no seu comentário a este versículo: Jetro foi "para converter os da sua família". O Targum Pseudo-Jônatas (tradução aramaica livre da Torá, com acréscimos, de redação tardia) a incorporou à própria tradução: "e foi para tornar prosélitos todos os filhos da sua terra".
A Mekhilta pergunta, em seguida, se Jetro fez o que disse, e responde com Juízes 1:16: "os filhos do queneu, sogro de Moisés, subiram da cidade das palmeiras com os filhos de Judá… e foram habitar com o povo". A prova da missão é que os descendentes de Jetro estão, séculos depois, vivendo no meio de Israel. A Mekhilta vai além e liga esses queneus aos escribas de 1 Crônicas 2:55, "os queneus, que vieram de Hamate, pai da casa de Recabe" — e, por eles, aos recabitas que Jeremias apresentará como modelo de fidelidade. Na leitura rabínica, a família do sacerdote de Midiã termina como família de estudiosos da Torá.
A tradição islâmica. O Alcorão (o livro sagrado do islã, do século VII) fala de um profeta enviado a Madiã — o nome árabe de Midiã — chamado Xuaib. "E aos madianitas enviamos o seu irmão Xuaib, que lhes disse: Ó povo meu, adorai a Deus, porque não tereis outra divindade além d'Ele" (Alcorão 7:85, na tradução de Samir El-Hayek). Xuaib prega o Deus único e a honestidade nos pesos e nas medidas; os chefes da cidade o ameaçam de expulsão (Alcorão 7:88), e o povo, que o rejeita, é destruído (Alcorão 7:91-93). Relatos semelhantes estão em Alcorão 11:84-95 e Alcorão 26:176-191.
O Alcorão não diz que Xuaib é o sogro de Moisés. Em outra passagem (Alcorão 28:23-28), Moisés foge do Egito, chega ao poço de Madiã, ajuda duas moças a dar de beber ao rebanho e se casa com uma delas, filha de um "pai idoso" que não é nomeado. Muitos comentaristas muçulmanos identificaram esse pai com Xuaib; outros recusaram a identificação. A própria tradução portuguesa de El-Hayek escreve "Xuaib (Jetro)" em Alcorão 11:84, mostrando como a equivalência se tornou comum para os leitores. A tradição drusa a assume sem reservas: o túmulo de Nabi Xuaib ("o profeta Xuaib"), perto de Hittin, na Galileia, é o principal lugar santo dos drusos de Israel, e a peregrinação anual, de 25 a 28 de abril, é feriado religioso reconhecido pelo Estado.
O que as duas tradições compartilham
Mekhilta e Alcorão têm em comum a imagem de um homem de Midiã que conhece o Deus único e volta para anunciá-lo ao seu povo. Divergem no desfecho: na Mekhilta, a missão dá certo, e a prova são os descendentes que vivem com Israel; no Alcorão, o povo de Madiã rejeita o profeta e é castigado. Não há como saber se as duas tradições dependem uma da outra ou se nasceram do mesmo texto bíblico lido de modos parecidos. O que o versículo do Êxodo garante é bem menos: o sacerdote de Midiã "foi para a sua terra". O resto é história da leitura. Quem são os queneus, e como eles se ligam ao sogro de Moisés, está no estudo de Êxodo 2:18.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Moisés despediu o seu sogro"
A última vez que os dois se separaram, os papéis estavam invertidos. Em Êxodo 4:18, Moisés voltou a Jetro e pediu: "Deixe-me voltar aos meus irmãos que estão no Egito", e Jetro respondeu: "Vá em paz". Quem dava licença era o sogro; quem pedia era o genro, pastor do rebanho alheio. Agora é Moisés quem despede, e o sogro quem vai. O texto não registra pedido de Jetro nem fala de Moisés. Registra só o ato, com o genro como sujeito.
O verbo "despedir" é o mesmo do versículo 2, onde Zípora tinha sido "despedida". O capítulo abre e fecha com ele, e o que ele significa no caso de Zípora — divórcio, envio de volta, ou outra coisa — é a pergunta do estudo de Êxodo 18:2. Aqui o sentido é mais claro, e os comentaristas o leram como honra. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) escreve: "por cortesia, como em 'Abraão ia com eles, para acompanhá-los'" (Gênesis 18:16). Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) vai na mesma direção: Moisés acompanhou o sogro na saída, como tinha aprendido de Abraão. A Mekhilta conserva duas opiniões sobre o que a despedida incluiu: para um mestre, Moisés o despediu "com a honra que se costuma dar", isto é, com provisões para a viagem e companhia no começo do caminho; para outro, deu-lhe muitos presentes.
Há uma leitura menos calorosa do verbo. Em hebraico, a mesma forma serve para "mandar embora", e é o verbo que Moisés repetiu a Faraó durante dez capítulos: "deixe ir o meu povo". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) usa esse sentido para um argumento: Moisés "despediu" Jetro sem resistência, enquanto em Números 10 implora a Hobabe que fique; logo, os dois não podem ser a mesma pessoa. A conclusão depende de ler "despediu" como "deixou ir de bom grado", e o verbo não obriga a isso. Ele diz que Moisés encerrou a visita, não com que sentimento.
"e ele foi para a sua terra"
O hebraico diz literalmente "e foi-se para si, para a sua terra". O pequeno "para si", que o português dispensa, dá à partida um tom de volta ao que é próprio: Jetro vai embora por conta dele, para o que é dele. A mesma construção abre a história de Abraão, em sentido inverso: "Saia da sua terra" (Gênesis 12:1) — no hebraico, "vá-se para si, da sua terra". Abraão deixa a terra e a parentela para entrar na história de Israel; Jetro, depois de entrar nela por um capítulo, volta para a terra de onde veio.
Outros estrangeiros que cruzam a história de Israel saem de cena com uma fórmula parecida. Labão, depois de fazer aliança com Jacó, "voltou para a sua terra" (Gênesis 31:55). Balaão, depois de abençoar Israel três vezes, "voltou para o seu lugar" (Números 24:25). O encontro termina e cada um volta ao seu mundo. Jetro sai da mesma maneira, sem cerimônia descrita e sem retorno anunciado.
O outro fim de Jetro: Números 10:29-32
A Torá conta uma segunda despedida, e ela não fecha. No segundo ano depois da saída do Egito, quando o acampamento vai deixar o Sinai, Moisés fala a "Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés": "Estamos partindo para o lugar que o SENHOR prometeu nos dar. Venha conosco, e nós lhe faremos bem". Hobabe responde: "Não irei; voltarei para a minha terra e para a minha parentela". Moisés insiste: "Por favor, não nos deixe, porque você sabe onde devemos acampar no deserto, e será os nossos olhos. Se vier conosco, o bem que o SENHOR nos fizer, nós lhe faremos" (Números 10:29-32). E o texto passa à partida do acampamento. A resposta final de Hobabe não é registrada.
A frase de Hobabe usa a mesma palavra do nosso versículo: "a minha terra". Em Êxodo 18:27, o sogro vai "para a sua terra" e o texto não mostra resistência de Moisés; em Números 10:30, o sogro quer ir "para a minha terra" e Moisés tenta segurá-lo. Como as duas cenas se relacionam? Há três leituras.
Primeira leitura: é a mesma partida, contada duas vezes. A Mekhilta lê assim: o diálogo de Números 10 é o que aconteceu na despedida de Êxodo 18:27, e a parábola da vela entre o sol e a lua (item 2) é a resposta de Jetro ao "não nos deixe". Nessa leitura, o capítulo 18 antecipa um fato posterior, e Jetro ficou com Israel até o segundo ano.
Segunda leitura: são duas pessoas. Jetro, o sogro, foi embora aqui; Hobabe, filho de Reuel, cunhado de Moisés, é outro, e foi a ele que Moisés pediu para ficar. É a leitura de Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e do Pulpit Commentary. Ibn Ezra, ao contrário, acha mais razoável que Hobabe e Jetro sejam o mesmo homem, e lembra que a palavra hebraica de "sogro" também serve para cunhado. O problema dos nomes que ela pressupõe é o mesmo que atravessa o livro desde o capítulo 2.
Terceira leitura: Jetro foi e voltou, ou foi e mandou os seus. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) identifica Hobabe com Jetro — "Hobabe" seria o nome novo que ele recebeu ao aderir à Torá — e entende que, no fim, ele aceitou o convite de Números 10 e foi com Israel para a terra. Como prova, cita o Talmude de Jerusalém (Bikkurim 1:4): os filhos do queneu, sogro de Moisés, traziam ao templo as primícias da sua colheita, como qualquer israelita com terra. Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) prefere outra combinação: Jetro, velho, voltou para morrer na sua terra, como o idoso Barzilai recusou acompanhar Davi a Jerusalém (2 Samuel 19:37); os filhos dele é que seguiram com Israel (Juízes 1:16).
O Sifrei (comentário rabínico a Números) dá ao "não nos deixe" de Moisés um motivo inesperado, que Rashi transmite: se Jetro fosse embora naquele momento, as pessoas diriam que ele só tinha se convertido na esperança de ganhar terra, e que, ao ver que os convertidos não teriam herança, abandonou Israel. Moisés insiste para proteger a reputação do sogro.
Nenhuma das três leituras é demonstrável. O que se pode afirmar é que a Torá tem duas cenas de despedida do sogro de Moisés, uma em que ele vai e outra em que ele quer ir e é chamado a ficar, e não diz como a segunda terminou. O versículo 27, lido sozinho, é o fim simples: Jetro foi para casa.
O que o versículo não diz
Não diz se Jetro voltou adorando o SENHOR, nem se continuou sacerdote de Midiã. Não diz se Zípora e os filhos ficaram com Moisés, embora o silêncio sugira que sim. Não diz que Jetro tenha convertido alguém. A ideia de que ele voltou para pregar é da Mekhilta e de Rashi, e o Targum a incorporou; o hebraico conta só uma viagem de volta. Depois deste versículo, o sogro de Moisés não aparece mais no livro do Êxodo. O capítulo seguinte começa com Israel chegando ao Sinai — sem o estrangeiro que ajudou a organizar o povo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Sujeito do primeiro verbo, o que despede. É a última ação dele no capítulo, e fecha o círculo aberto quando ele saiu ao encontro do sogro (Êxodo 18:7): recebeu-o na chegada e o acompanha na partida.
O sogro
Sujeito do segundo verbo, o que vai. O capítulo o chama pelo nome, Jetro, até o versículo 12; dali em diante, só "o sogro". Sai do Êxodo sem uma fala de despedida. Se for a mesma pessoa que o Hobabe de Números 10:29, ainda reaparece uma vez, no momento em que Israel deixa o Sinai.
A sua terra
Midiã, onde Jetro era sacerdote. O versículo não nomeia o lugar; diz só "a sua terra", a mesma expressão com que Hobabe recusa o convite de Moisés em Números 10:30. Onde ficava Midiã, e o que se sabe do povo midianita, está no estudo de Gênesis 25:2.
Os ausentes
Zípora e os dois filhos, Gérson e Eliézer, chegaram com Jetro (Êxodo 18:5-6) e não são mencionados na partida. Pela lógica da narrativa, ficaram. Mas nenhum dos três volta a ter papel no Êxodo.
Os descendentes
Fora do versículo, mas dentro da sua história de leitura: os "filhos do queneu, sogro de Moisés" de Juízes 1:16, que subiram com Judá; Héber, o queneu, marido de Jael (Juízes 4:11, 17); e os queneus que Saul poupou por causa da bondade que tinham mostrado a Israel na saída do Egito (1 Samuel 15:6).
O evento
A partida do sogro e o fim do episódio. No texto hebraico, depois deste versículo vem a marca de parágrafo aberto: a história de Jetro termina aqui, e o capítulo 19 começa a do Sinai.
5. Pontos de Ensino
1. Quem ajuda não precisa ficar. Jetro chega, ouve, bendiz, sacrifica, aconselha e vai embora. O texto não lhe dá cargo, terra nem lugar permanente no acampamento. A contribuição dele vale por si, e o capítulo não exige que ele se torne israelita para que ela seja aceita.
2. Os papéis entre Moisés e Jetro mudaram. Em Êxodo 4:18, Moisés pedia licença ao sogro; aqui, o sogro é despedido pelo genro. A relação familiar continua, mas a posição de cada um mudou com o que Deus fez no meio.
3. A Torá deixa histórias sem fim. Números 10 mostra Moisés pedindo ao sogro que fique, e não registra a resposta. O leitor fica sem saber se o estrangeiro mais próximo de Moisés foi ou ficou. A Bíblia não fecha todas as portas que abre.
4. A tradição preenche os silêncios, e é bom saber o que é de quem. "Foi para a sua terra" virou, na Mekhilta, "foi converter os seus", e no Alcorão um profeta de Madiã pregou ao seu povo. Nada disso está no versículo. Distinguir o texto da sua leitura é o primeiro passo para entender as duas coisas.
5. Despedir bem faz parte do acolher. Os comentaristas leram no verbo a cortesia de acompanhar o hóspede na saída. O capítulo que começou com Moisés saindo ao encontro do sogro termina com Moisés acompanhando-o na partida.
6. Aspectos Filosóficos
Um estrangeiro que reconhece o Deus de Israel precisa se tornar israelita? Ou pode voltar para a sua terra e continuar sendo quem era? O versículo responde só com um fato — Jetro foi para casa —, e a pergunta que ele deixa é das mais discutidas no pensamento judaico moderno: a relação entre a vocação particular de um povo e a verdade que ele diz ser para todos.
Leo Baeck (1873-1956), rabino em Berlim e principal pensador do judaísmo liberal alemão, tratou essa questão no livro que o tornou conhecido, A essência do judaísmo (1905). O livro nasceu como resposta a A essência do cristianismo (1900), do teólogo protestante Adolf von Harnack, que apresentava o judaísmo como religião de leis exteriores, superada pelo Evangelho. Baeck respondeu que o centro do judaísmo é o monoteísmo ético: a fé num Deus único que se manifesta como exigência moral, e cuja verdade, por isso mesmo, não pertence a um povo só. Israel, para Baeck, foi escolhido não para ter Deus de modo exclusivo, mas para dar testemunho dele diante da humanidade. A eleição é tarefa, não privilégio.
Nesse quadro, o "foi para a sua terra" admite duas leituras, e as duas cabem em Baeck. Na primeira, Jetro é o justo de outro povo. Ele reconhece que o SENHOR é maior que todos os deuses (Êxodo 18:11), bendiz, sacrifica e aconselha com sabedoria — e volta para Midiã sem que o texto lhe exija circuncisão, adesão ou mudança de povo. A ética e o reconhecimento de Deus não dependem, aqui, de pertencer a Israel. É a ideia que a tradição rabínica formalizou ao dizer que os justos das nações têm parte no mundo vindouro, e a que Baeck recorre para mostrar o caráter universal do judaísmo.
Na segunda leitura, a da Mekhilta, Jetro volta como missionário: vai levar aos midianitas o que aprendeu no acampamento. E aqui Baeck surpreende. Em 1949, quatro anos depois de sair vivo do campo de concentração de Theresienstadt, para onde tinha sido deportado em 1943, ele fez em Londres, no congresso da União Mundial para o Judaísmo Progressista, uma palestra intitulada "A missão do judaísmo". Nela propôs que os judeus voltassem a procurar ativamente convertidos, como tinham feito na Antiguidade, e que oferecessem o judaísmo ao mundo como mensagem, não apenas como herança de família. Foi uma proposta controversa e pouco seguida, mas mostra que, para Baeck, a verdade de que Israel dá testemunho é, por natureza, transmissível.
As duas leituras do versículo correspondem, assim, às duas faces do pensamento de Baeck: o respeito pelo justo que continua no seu povo e o desejo de que a verdade se espalhe. O Jetro que volta a Midiã é ao mesmo tempo o estrangeiro que não precisa deixar de ser estrangeiro e o portador de uma notícia para os seus. A Mekhilta escolheu a segunda face e precisou de Juízes 1:16 para dizer que a missão funcionou. O texto do Êxodo não escolheu nenhuma.
Baeck pensava a partir da situação dos judeus na Europa do século XX, em diálogo e em polêmica com o cristianismo alemão, e depois diante da destruição. O Êxodo descreve um sacerdote midianita da Idade do Bronze. Aplicar a Jetro a ideia de "missão" é anacronismo, e o próprio versículo não fala em pregação. O que a comparação mostra é a estrutura da pergunta: o capítulo 18 é um caso raro, no Pentateuco, de um estrangeiro que reconhece o Deus de Israel, participa de um sacrifício com os anciãos, contribui para a lei do povo — e vai embora. A Torá deixou a pergunta "e agora, o que ele é?" sem resposta, e é esse silêncio que Baeck ajuda a ler.
7. Aplicações Práticas
Acompanhar quem vai embora. Os comentaristas leram no verbo "despedir" o gesto de ir junto até a saída. Uma visita que termina mal acompanhada apaga parte do bem que fez. Levar alguém até a porta, ou até o carro, é dizer com o corpo que a presença dele contou.
Deixar partir quem ajudou. Moisés não prende Jetro ao acampamento, não o transforma em conselheiro permanente nem o faz depender do cargo. Há ajudas que só funcionam porque quem ajuda vai embora depois. Saber agradecer e soltar é parte de receber ajuda.
Não exigir que o outro se torne igual a você para reconhecer o bem que ele fez. O texto não pede a Jetro que fique, nem que adote os costumes de Israel, para que o seu conselho valha. Quem recebe ajuda de alguém de outra fé, de outra cultura ou de outra família pode honrá-la sem cobrar adesão.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jetro ficou para a entrega da Lei no Sinai?
Na ordem do livro, não: ele parte no fim do capítulo 18, e o povo chega ao Sinai no começo do 19. Mas a ordem dos capítulos pode não ser a dos fatos, e a tradição rabínica discutiu se a visita foi antes ou depois do Sinai. Se a partida de Êxodo 18:27 for a mesma de Números 10, Jetro esteve no acampamento durante quase um ano, inclusive na revelação. O texto não permite decidir.
Zípora e os filhos foram com ele?
O versículo diz só "ele foi". Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) observa um detalhe: se a visita de Jetro foi depois do Sinai, Zípora e os filhos de Moisés não estavam presentes à entrega da Lei; e os dois meninos nunca mais são mencionados por nome na Torá. Chizkuni toma o silêncio como indício, não como prova.
Jetro se converteu?
O Êxodo não usa nenhuma palavra de conversão para ele. Ele bendiz o SENHOR, declara que o SENHOR é maior que todos os deuses e oferece sacrifícios, mas o texto não diz que tenha deixado de ser sacerdote de Midiã. A tradição rabínica o fez prosélito e até lhe deu um nome novo; essa é uma leitura que o versículo não confirma nem nega.
Por que Moisés não insiste para ele ficar, como em Números 10?
Talvez porque não fosse necessário: o povo ainda não estava partindo, e a ajuda de Jetro como guia no deserto só faria falta quando o acampamento se pusesse em marcha, que é exatamente o momento de Números 10. Ou porque são duas pessoas diferentes. Ou porque Êxodo 18:27 resume, num verbo, o que Números conta em diálogo. As três explicações são plausíveis (item 3).
Os descendentes de Jetro foram sempre aliados de Israel?
Os queneus aparecem como amigos de Israel em Juízes 1:16 e 1 Samuel 15:6, e Jael, mulher de um queneu, mata o general cananeu Sísera (Juízes 4:17-21). Mas Midiã, a terra para onde Jetro voltou, se torna inimiga de Israel em Números 25 e 31 e no tempo de Gideão (Juízes 6-8). A família do sogro e o povo do sogro tiveram destinos opostos.
9. Conexão com Outros Textos
A despedida anterior, com os papéis trocados
Êxodo 4:18 — "Moisés voltou a Jetro, seu sogro, e lhe disse: 'Deixe-me voltar aos meus irmãos que estão no Egito, para ver se ainda estão vivos.' E Jetro respondeu a Moisés: 'Vá em paz.'"
Lá, o genro pede e o sogro despede. Aqui, o genro despede, e o sogro não pede nada.
Despedir como acompanhar
Gênesis 18:16 — "Depois os homens se levantaram dali e olharam para os lados de Sodoma; e Abraão ia com eles, para acompanhá-los."
O verbo de "acompanhá-los" é o mesmo de "despediu". Ibn Ezra e Chizkuni leem Êxodo 18:27 por este versículo: Moisés acompanhou o sogro como Abraão acompanhou os visitantes.
A outra despedida do sogro
Números 10:29-32 — "Moisés disse a Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés: 'Estamos partindo para o lugar de que o SENHOR disse: Eu o darei a vocês. Venha conosco, e nós lhe faremos bem, porque o SENHOR prometeu o bem a Israel.' Ele respondeu: 'Não irei; voltarei para a minha terra e para a minha parentela.' Moisés disse: 'Por favor, não nos deixe, porque você sabe onde devemos acampar no deserto, e será os nossos olhos. Se vier conosco, o bem que o SENHOR nos fizer, nós lhe faremos.'"
O pedido sem resposta registrada. "A minha terra" de Hobabe é "a sua terra" de Êxodo 18:27.
Ir para a própria terra, ou sair dela
Gênesis 12:1 — "O SENHOR disse a Abrão: 'Saia da sua terra, da sua parentela e da casa de seu pai, para a terra que eu lhe mostrarei.'"
A mesma construção hebraica de "foi-se para si", em direção contrária. Abraão deixa "a sua terra e a sua parentela"; Hobabe quer voltar para "a minha terra e a minha parentela"; Jetro vai "para a sua terra".
Rute 1:15-16 — "Noemi disse: 'Veja, a sua cunhada voltou para o seu povo e para os seus deuses; volte você também com ela.' Mas Rute respondeu: 'Não insista comigo para que eu a deixe e volte para trás; aonde você for, eu irei; onde você pousar, eu pousarei; o seu povo será o meu povo, e o seu Deus será o meu Deus.'"
Duas moabitas na mesma encruzilhada: Orfa volta para o seu povo, Rute fica. Jetro, no Êxodo, faz o caminho de Orfa; a tradição rabínica quis que os filhos dele fizessem o de Rute.
Estrangeiros que saem de cena
Gênesis 31:55 — "De manhã cedo, Labão beijou os seus netos e as suas filhas, e os abençoou; depois partiu e voltou para a sua terra."
Números 24:25 — "Então Balaão se levantou, foi e voltou para o seu lugar; e Balaque também seguiu o seu caminho."
Dois estrangeiros que cruzaram a história de Israel e voltaram para casa com uma frase. Labão sai depois de uma aliança; Balaão, depois de abençoar quem foi pago para amaldiçoar. Jetro sai depois de bendizer e aconselhar.
O velho que prefere morrer em casa
2 Samuel 19:37 — "Deixe o seu servo voltar, para que eu morra na minha cidade, junto ao túmulo de meu pai e de minha mãe."
Barzilai, idoso, recusa ir com Davi a Jerusalém. Sforno explica a recusa de Hobabe, e a partida de Jetro, por este versículo.
Os que ficaram
Juízes 1:16 — "Os filhos do queneu, sogro de Moisés, subiram da cidade das palmeiras com os filhos de Judá, ao deserto de Judá, que está ao sul de Arade; e foram habitar com o povo."
Se Jetro foi para a sua terra, os seus descendentes acabaram na terra de Israel. É o versículo com que a Mekhilta prova que a viagem de volta não foi o fim da história.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então Moisés despediu o seu sogro, e ele foi para a sua terra.
Texto hebraico
וַיְשַׁלַּח מֹשֶׁה אֶת־חֹתְנוֹ וַיֵּלֶךְ לוֹ אֶל־אַרְצוֹ׃
Transliteração
va-yeshallach Moshe et-chotno, va-yelekh lo el-artso.
Análise palavra por palavra
וַיְשַׁלַּח — va-yeshallach, "e despediu".
Verbo shalach, "enviar", no Piel (a forma intensiva do verbo hebraico), terceira pessoa do masculino singular, na forma que encadeia a narrativa. No Qal, a forma simples, shalach é "mandar" alguém ou algo a algum lugar. No Piel, o sentido se desloca para "deixar ir, soltar, despedir", e o verbo cobre uma gama ampla: o Faraó que "deixa ir" o povo (Êxodo 5:1 e dezenas de vezes nas pragas), o marido que "despede" a mulher no divórcio (Deuteronômio 24:1), o anfitrião que "acompanha" o hóspede na saída (Gênesis 18:16), a família que "despede" Rebeca com bênçãos (Gênesis 24:59). Qual desses tons está aqui, só o contexto decide, e o contexto é de honra. Ibn Ezra e Chizkuni escolhem o de Gênesis 18:16.
A palavra liga as duas pontas do capítulo. No versículo 2, Zípora vem "depois que ele a tinha despedido", com um substantivo da mesma raiz no Piel; aqui, o verbo. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) traduziu por exapesteilen, "enviou para fora", o verbo grego que ela também usa para Faraó deixando o povo ir. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas) escolheu ve-shallach, cognato do hebraico; o Pseudo-Jônatas, u-fetar, "e despediu, liberou".
מֹשֶׁה — Moshe, "Moisés".
אֶת־חֹתְנוֹ — et-chotno, "o seu sogro".
Et marca o objeto direto e não se traduz. Chotno é o particípio de chatan, "aparentar-se por casamento", com o pronome "dele": a mesma palavra de Êxodo 18:24, a décima terceira ocorrência do título no capítulo.
וַיֵּלֶךְ — va-yelekh, "e foi".
Verbo halakh, "ir, andar", Qal, terceira pessoa do masculino singular, na forma narrativa encadeada. O sujeito muda sem aviso: Moisés despede, o sogro vai. O hebraico não precisa repetir o nome, porque a mudança de quem age é clara pelo sentido.
לוֹ — lo, "para si".
A preposição le, "para", com o pronome da terceira pessoa: "para ele, para si". Depois de verbos de movimento, essa construção não indica destino; dá à ação um tom de interesse próprio ou de afastamento — "foi-se", "foi embora por sua conta". É a construção de lekh lekha, "vá-se", em Gênesis 12:1 e 22:2. A sequência exata va-yelekh lo, "e foi-se", com este pronome, só ocorre aqui em toda a Bíblia hebraica. A ABC não a traduz, porque o português "foi para a sua terra" já contém a ideia de volta ao que é seu.
אֶל־אַרְצוֹ — el-artso, "para a sua terra".
El, "para, em direção a", e artso, "a sua terra", de erets, "terra, país", com o pronome "dele". É a palavra com que Hobabe recusa o convite de Moisés: el-artsi ve-el-moladti elekh, "irei para a minha terra e para a minha parentela" (Números 10:30) — o mesmo par, terra e parentela, que Deus manda Abraão deixar em Gênesis 12:1 (me-artsekha u-mi-moladtekha).
A marca de parágrafo
Depois da última palavra, o texto massorético (o texto hebraico padrão, fixado pelos escribas da Idade Média) traz a letra pe, sinal de "parágrafo aberto": o resto da linha fica em branco no rolo da Torá. É a divisão mais forte do rolo, e ela separa a história de Jetro da chegada ao Sinai.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a visita de Jetro termina com a relação entre os dois homens invertida. O fugitivo que pedia licença ao sogro agora é quem encerra a visita, e o faz com honra. O capítulo não precisa dizer quem se tornou maior; o verbo diz.
A segunda: o Êxodo deixa Jetro ir sem resolver o que ele é. Não o faz israelita, não lhe dá lugar no povo, não diz o que ele levou para Midiã. Esse silêncio, somado à cena sem desfecho de Números 10, gerou leituras que vão do missionário da Mekhilta ao profeta de Madiã do Alcorão e ao velho que prefere morrer em casa de Sforno. Todas são construções sobre um versículo que conta só uma partida.
A terceira: a organização da justiça de Israel ficou, e quem a propôs foi embora. Quando o povo chega ao Sinai, no capítulo seguinte, os chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez já existem, e o estrangeiro que os imaginou não está lá. O que o capítulo 18 conserva de Jetro não é a presença dele, é o que ele deixou.













