Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?
1. Introdução
Depois de mandar amar o inimigo e de dar a razão — a imitação do Pai que ama sem distinção —, Jesus faz uma pergunta que desmonta qualquer autoengano: "se amardes os que vos amam, que recompensa tereis?". É uma pergunta cortante. Amar quem nos ama é fácil, natural, e por isso mesmo não prova nada. Não há mérito em retribuir afeto: é o que qualquer um faz, inclusive as pessoas mais desprezadas da sociedade.
O versículo expõe a diferença entre o amor comum e o amor do Reino. O primeiro é reativo — responde ao que recebe. O segundo é livre — ama independentemente da resposta. Ao citar os publicanos como exemplo, Jesus escolhe de propósito a categoria mais malvista de gente para dizer: até eles amam quem os ama. Se o amor do crente não for além disso, não passa do padrão comum, e não tem nada de cristão.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para entender a força do exemplo, é preciso saber quem eram os publicanos. Eram judeus que trabalhavam na cobrança de impostos para Roma, o poder ocupante. Aos olhos do povo, eram traidores duplos: serviam ao inimigo estrangeiro e enriqueciam extorquindo os próprios compatriotas, pois costumavam cobrar mais do que o devido e ficar com a diferença. Por isso eram agrupados com os "pecadores" e excluídos da vida religiosa. Chamar alguém de publicano era um insulto.
Ao usar justamente essa figura, Jesus produz um choque calculado. É como dizer: "até o pior sujeito que vocês conhecem faz isso". O amor recíproco — amar quem me ama, tratar bem quem me trata bem — não é virtude, é instinto; existe até onde a moral está no chão. A cultura da época, como a de sempre, funcionava por trocas: favor por favor, lealdade por lealdade. Jesus reconhece que essa lógica é universal e comum a todos, e exatamente por ser comum ela não pode ser a marca de quem segue a Ele. Vale lembrar a ironia da história: o próprio autor deste evangelho, Mateus, era um publicano antes de ser chamado por Jesus.
3. Análise Teológica do Versículo
"Pois se amardes os que vos amam,"
Esta frase desafia a tendência humana comum de retribuir amor apenas a quem o demonstra em troca. No contexto cultural da época de Jesus, as relações eram muitas vezes transacionais, e as normas sociais enfatizavam o benefício mútuo. Jesus chama os seus seguidores a um padrão mais alto de amor, que espelha o amor incondicional de Deus. Este ensino se alinha ao tema bíblico mais amplo do amor ágape, que é altruísta e sacrificial, como se vê em 1 Coríntios 13.
"que recompensa tereis?"
O conceito de recompensa aqui não é necessariamente material ou terreno, mas espiritual e eterno. Jesus falava com frequência de recompensas celestiais, ressaltando que o verdadeiro discipulado envolve buscar a aprovação de Deus, e não o reconhecimento humano. Isso ecoa o ensino de Mateus 6:1-4, em que Jesus adverte contra a prática de atos de justiça em busca da admiração pública.
"Não fazem os publicanos também o mesmo?"
Os publicanos, na época de Jesus, eram frequentemente desprezados pelo povo judeu porque trabalhavam para as autoridades romanas e eram conhecidos por corrupção e ganância. Ao usar os publicanos como exemplo, Jesus destaca que até os considerados moralmente questionáveis são capazes de amar quem os ama. Essa comparação sublinha o chamado a superar a justiça das normas sociais comuns, como se vê em Mateus 5:20. A menção aos publicanos também antecipa o poder transformador do ministério de Jesus, visto na conversão de Mateus, um antigo publicano, em um dos seus discípulos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — quem pronuncia estas palavras, ao proferir o Sermão do Monte, ensino fundante da ética e da conduta cristãs.
Os discípulos e seguidores — o público principal do Sermão do Monte, que representa todos os que buscam seguir os ensinos de Cristo.
Os publicanos — vistos de forma muito negativa na sociedade judaica da época, eram tomados por traidores e pecadores por causa da colaboração com as autoridades romanas e da reputação de desonestidade.
Lugares e Eventos
O Sermão do Monte — o cenário deste ensino, coleção de palavras de Jesus centrada na ética do Reino dos céus.
5. Pontos de Ensino
O chamado ao amor radical
Jesus desafia os seus seguidores a amar para além da inclinação humana natural de amar somente quem retribui. Esse amor radical reflete o caráter de Deus e distingue os que creem do restante do mundo.
Entender a "recompensa"
A palavra grega para "recompensa" (misthos) implica retribuição ou salário. Jesus ensina que a verdadeira recompensa vem de amar como Deus ama, e não do reconhecimento ou da reciprocidade humana.
O exemplo dos publicanos
Ao citar os publicanos, Jesus mostra que até os considerados moralmente questionáveis amam quem os ama. Os que creem são chamados a um padrão mais alto, que espelha o amor incondicional de Deus.
Amor prático em ação
Amar quem não nos ama de volta exige intenção e dependência do Espírito Santo. Envolve atos de bondade, perdão e oração pelos que se opõem a nós ou nos ferem.
Refletir o amor de Deus
Como cristãos, o nosso amor deve ser reflexo do amor de Deus, que é incondicional e sacrificial. Esse amor serve de testemunho do poder transformador do Evangelho.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe em xeque a moral da reciprocidade, aquela que se resume à regra "trate bem quem o trata bem". Essa moral é natural, universal e, à sua maneira, justa — mas é fechada em si mesma, um sistema de trocas que nunca ultrapassa o próprio círculo. Jesus não a condena por ser má; condena-a por ser insuficiente. Se o amor apenas responde ao amor recebido, ele nunca cria nada novo: só devolve o que entrou. A pergunta "que recompensa tereis?" revela o problema — um amor calculado já foi pago no ato, e não gera nada além de si.
Há aqui uma reflexão sobre o que dá valor moral a uma ação. Amar quem me ama pode ser agradável, mas não é meritório, porque não custa e não vence resistência alguma. O valor moral aparece justamente onde o ato contraria o interesse imediato — amar sem retorno, fazer bem a quem não retribui. É o amor gratuito, e não o amor negociado, que revela o caráter de quem ama. Por isso Jesus mede os seus seguidores não pelo que fazem em comum com todos, mas pelo que fazem "de mais", pelo excedente que só o amor livre produz.
7. Aplicações Práticas
Desconfie do amor que só retribui. Se o seu círculo de bondade coincide exatamente com o círculo de quem lhe faz bem, você ainda está no padrão comum. Pergunte-se por quem você faz algo sem esperar nada de volta.
Não terceirize o mérito para o sentimento. Gostar de quem gosta de nós é fácil e não prova amor cristão. O amor que Jesus pede começa onde o afeto natural termina — com quem é difícil, indiferente ou hostil.
Busque a recompensa certa. Quem ama para ser reconhecido já recebeu o seu pagamento. Faça o bem em silêncio, sabendo que a recompensa que importa vem de Deus, não do aplauso.
Trate o "publicano" da sua vida. Todos temos a categoria de gente que julgamos indigna do nosso amor. É exatamente essa pessoa que o versículo coloca no centro: comece por ela.
Faça algo "de mais". O padrão comum é retribuir; o extraordinário é iniciar o bem sem que o outro tenha começado. Procure, esta semana, um gesto que ninguém esperaria de você.
Lembre-se de Mateus. O amor de Jesus alcançou um publicano e fez dele um apóstolo. Ninguém está fora do alcance desse amor — nem quem você atende, nem você mesmo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como o ensino de Jesus em Mateus 5:46 desafia as nossas inclinações naturais quanto ao amor e às relações?
Ele denuncia como insuficiente aquilo que consideramos normal: amar quem nos ama. A nossa inclinação é retribuir e nada mais; Jesus mostra que isso não distingue o crente de ninguém, nem do publicano. O desafio é amar onde não há retorno previsto.
2. De que maneiras podemos demonstrar amor, na prática, a quem não o retribui, segundo os ensinos de Jesus?
Com atos de bondade sem cobrança, perdão de ofensas, oração pelos que se opõem e iniciativa de fazer o bem antes que o outro o mereça. O amor cristão se prova em gesto concreto, e sobretudo naquele que não espera pagamento.
3. Como o exemplo dos publicanos, neste versículo, ajuda a destacar o que há de distinto no amor cristão?
Ao escolher a figura mais desprezada da sociedade e dizer que até ela ama quem a ama, Jesus deixa claro que o amor recíproco é o piso comum da humanidade, não o teto do crente. O que distingue o cristão é justamente o amor que vai além desse piso.
4. Quais situações concretas da sua vida pedem que você aplique o princípio de amar além dos que o amam?
O colega hostil, o parente com quem há mágoa, o desconhecido que nada tem a oferecer, a pessoa de quem discordo. São os pontos em que a reciprocidade não funciona e onde, por isso, o amor do Reino se torna visível.
5. Como os textos de Lucas 6:32-36, Romanos 12:9-21 e 1 João 4:7-21 aprofundam o chamado ao amor descrito em Mateus 5:46?
Lucas repete a pergunta e conclui que devemos amar sem esperar retorno, como filhos do Altíssimo; Paulo detalha esse amor em atos — abençoar, servir, vencer o mal com o bem; João o enraíza em Deus, que é amor, e faz do amor ao próximo a prova de que conhecemos a Deus. Juntos, mostram que o amor sem reciprocidade é a assinatura da vida cristã.
9. Conexão com Outros Textos
"E se amardes aos que vos amam, que mérito tereis? Pois também os pecadores amam os que os amam." (Lucas 6:32)
O paralelo de Lucas diz o mesmo com outra palavra: onde Mateus fala de "publicanos", Lucas fala de "pecadores". A ideia é idêntica — amar quem nos ama não tem mérito algum.
"O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso; o amor não é orgulhoso, não é arrogante." (1 Coríntios 13:4)
Paulo descreve o amor que Jesus tem em vista: não uma emoção reativa, mas uma postura ativa e paciente que não depende do retorno do outro.
"Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor." (1 João 4:8)
João leva o argumento à raiz: amar como Jesus pede é conhecer a Deus, porque esse amor sem cálculo é a própria natureza de Deus.
"Porque eu vos digo que se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, de maneira nenhuma entrareis no Reino dos céus." (Mateus 5:20)
O versículo ecoa o princípio que rege todo o Sermão: a justiça do Reino tem de superar a comum. Amar só quem nos ama é ficar no nível comum que Jesus declara insuficiente.
"Ficai atentos para que não façais vossa boa ação diante das pessoas a fim de que sejais vistos por elas; de outra maneira não tereis recompensa de vosso Pai que está nos céus." (Mateus 6:1)
Esclarece a "recompensa" de que fala o versículo: ela vem do Pai, não do reconhecimento humano, e se perde quando o bem é feito para ser visto.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Pois, se vocês amam os que os amam, que recompensa terão? Não fazem os publicanos também o mesmo?
Texto grego: ἐὰν γὰρ ἀγαπήσητε τοὺς ἀγαπῶντας ὑμᾶς, τίνα μισθὸν ἔχετε; οὐχὶ καὶ οἱ τελῶναι τὸ αὐτὸ ποιοῦσι;
Transliteração: ean gar agapēsēte tous agapōntas hymas, tina misthon echete? ouchi kai hoi telōnai to auto poiousi?
Análise palavra por palavra:
agapēsēte / agapōntas (ἀγαπήσητε / ἀγαπῶντας) — "amardes / os que amam": o mesmo verbo agapaō dos versículos anteriores, o amor-decisão. O jogo é proposital: até quando aplicado à reciprocidade, o termo elevado agape não salva o gesto, porque o que o esvazia não é a palavra, mas o cálculo por trás.
tina misthon (τίνα μισθὸν) — "que recompensa": misthos é o salário, o pagamento pelo trabalho. A pergunta é comercial de propósito: um amor que só devolve o que recebe já foi pago no ato, e nada resta a receber de Deus.
echete (ἔχετε) — "tendes": presente, "que recompensa já tendes?". O amor calculado não gera crédito futuro; ele se esgota em si mesmo no instante em que é retribuído.
hoi telōnai (οἱ τελῶναι) — "os publicanos": os cobradores de impostos a serviço de Roma, o exemplo social do desprezo. A escolha do termo é um choque: até o mais malvisto pratica o amor recíproco.
to auto poiousi (τὸ αὐτὸ ποιοῦσι) — "fazem o mesmo": a expressão iguala o crente que só ama quem o ama ao publicano. Nada os distingue — e essa igualdade é o argumento.
Nota teológica: o versículo funda uma ideia central da ética de Jesus, a do "que fazeis de mais" — o excedente que distingue o discípulo. O amor recíproco é o piso comum de toda a humanidade, inclusive dos que ela despreza; por isso não pode ser a medida do crente. A palavra misthos, "recompensa", não deve ser lida como troca mercenária: Jesus não ensina a amar para lucrar, e sim que o amor gratuito, por não ser pago pelo outro, permanece nas mãos de Deus. Com bom grau de certeza, o sentido é este — a recompensa está no fato de o amor livre espelhar o próprio Deus, não num prêmio negociado.
11. Conclusão
Mateus 5:46 é uma pergunta que não dá para desviar: se você ama só quem o ama, o que há de especial nisso? Jesus responde por dentro da própria pergunta — nada. Até os publicanos, a gente mais desprezada da época, fazem o mesmo. O amor recíproco é o mínimo comum da humanidade, e o mínimo comum não pode ser a marca de quem segue a Cristo.
O versículo não despreza o afeto entre os que se querem bem; apenas nega que ele baste. O que Jesus busca é o amor que ninguém é obrigado a ter — o que se dirige a quem não retribui, o "de mais" que só existe quando o cálculo é abandonado. E, no fim, há uma esperança escondida no próprio exemplo: se o amor de Jesus alcançou um publicano e fez dele um discípulo, então o amor que Ele pede não é um ideal impossível, mas algo que Ele mesmo produz em quem o segue.













