Então o SENHOR disse a Moisés: “Vá a Faraó, porque eu tornei pesado o coração dele e o coração dos seus servos, para pôr estes meus sinais no meio dele,
1. Introdução
O capítulo abre com Deus mandando Moisés entrar outra vez na sala do rei, e o motivo que ele dá é uma frase que o leitor acabou de ver atribuída a outra pessoa. No fim do capítulo anterior quem tornou pesado o coração foi Faraó; aqui quem diz tê-lo feito é Deus, em primeira pessoa, no passado, com o mesmo verbo e a mesma dupla — "ele e os seus servos". A ordem de ir vem presa a essa informação por um "porque", e isso é estranho: a recusa do rei aparece como razão para procurá-lo, não como obstáculo. O objetivo declarado também não é convencer ninguém, mas "pôr estes meus sinais no meio deles". O que segue trata da frase, das leituras que ela recebeu ao longo dos séculos e do que o texto deixa sem resposta.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quando um rei ia mal, o mundo antigo procurava a decisão de um deus
No Egito e na Mesopotâmia, o que acontecia com um rei não se explicava só por política. Derrota, doença, uma decisão desastrosa — tudo isso era remetido à vontade de algum deus, e a investigação disso era um serviço formal, feito por especialistas pagos.
O caso mais claro que sobrou está numa tabuinha acádia conhecida pelo nome que os estudiosos lhe deram: O Pecado de Sargão. O texto foi publicado em 1989 por Hayim Tadmor, Benno Landsberger e Simo Parpola, três assiriólogos, a partir de cópias fragmentárias.
O caso de Sargão II
Sargão II reinou na Assíria no fim do século VIII antes da era comum. Em 705 ele morreu em campanha, no planalto da Anatólia, e o corpo não foi recuperado. Foi o único rei assírio conhecido que caiu em batalha e ficou sem o sepultamento devido a um rei.
A tabuinha é escrita em primeira pessoa, na voz do filho e sucessor, Senaqueribe, e põe uma pergunta aos adivinhos: qual foi o pecado do meu pai, e que deus ele ofendeu, para ter acabado daquele jeito.
As respostas que aparecem no que sobrou do documento vão por dois caminhos: Sargão teria honrado o deus Assur acima do deus Marduque, de Babilônia, ou teria quebrado um juramento feito em nome dos deuses. A discussão entre os estudiosos sobre qual das duas o texto sustenta continua aberta.
Três coisas desse procedimento importam para ler Êxodo 10:1. A catástrofe de um rei era lida como ato de um deus. A leitura vinha depois do acontecido, como explicação. E quem a fazia era o lado que tinha perdido, tentando entender o que lhe caíra em cima.
O texto do Êxodo faz as três coisas ao contrário
A frase de Êxodo 10:1 vem antes — os gafanhotos ainda não chegaram. Vem do lado que está vencendo. E não pergunta qual deus agiu: nomeia o agente e o propósito na mesma oração.
O lado do vencedor também escrevia assim
A explicação pela vontade divina não era só consolo de derrotado. Ela servia igualmente para legitimar quem ganhou, e há um documento célebre disso.
O Cilindro de Ciro é um barril de argila com inscrição em acádio, redigido em Babilônia depois de 539 antes da era comum, quando o rei persa tomou a cidade. Nele, quem decide não é Ciro: é o deus Marduque, que — diz o texto — percorreu todas as terras procurando um governante justo, achou Ciro e o tomou pela mão, enquanto o rei anterior, Nabonido, perdia o favor do deus por ter descuidado do culto.
Havia ritual para amolecer o coração de quem mandava
Um último dado desse mundo ajuda a medir a estranheza do versículo. Entre as tabuinhas acádias existe um grupo de rituais designado pela expressão suméria egalkura ("entrar no palácio", isto é, conseguir ser bem recebido lá dentro). Eram procedimentos — fórmulas para recitar, substâncias para levar junto, gestos a fazer antes da audiência — destinados a tornar favorável o ânimo do rei ou do superior diante de quem a pessoa ia se apresentar.
Em Êxodo 10:1 a operação é a inversa e não tem contrapartida técnica nenhuma. O ânimo do rei foi tornado pesado, quem o fez foi Deus, e não há ritual, presente nem fórmula que Moisés possa levar na mão para desfazer aquilo. Ele vai à audiência sabendo de antemão como ela vai terminar.
Os textos do Antigo Oriente que anunciam de antemão o que vai acontecer — as chamadas profecias acádias — foram tratados no estudo de Êxodo 7:3.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então o SENHOR disse a Moisés: 'Vá a Faraó'"
A ordem já foi dada várias vezes neste livro, e nada nela chama atenção. O que é novo vem colado atrás dela.
"porque eu tornei pesado o coração dele e o coração dos seus servos"
Três coisas mudam de uma vez aqui. A primeira é a pessoa. Até aqui, o Êxodo dissera que Deus tornaria firme o coração do rei, no futuro, e registrara várias vezes que o rei tornou pesado o próprio coração, no passado. Esta é a primeira vez em que Deus diz, em primeira pessoa e no passado, que foi ele quem o fez. Não é anúncio do que virá: é declaração do que já está feito.
A segunda é o verbo. O hebraico tem três verbos diferentes para o coração de Faraó, e o daqui é o do peso — o mesmo que o capítulo anterior usou. Compare-se com Êxodo 9:34: "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração, ele e os seus servos". Ali o sujeito é Faraó. Aqui a construção é a mesma, o verbo é o mesmo, e o sujeito é Deus.
Por que o texto liga a ordem à recusa com um "porque"?
Primeira leitura: o "porque" é mesmo causal, e a razão de ir é a recusa. Moisés é mandado ao rei justamente porque o rei não vai ceder — e é de uma recusa que a sequência de sinais precisa para continuar. O custo dessa leitura é alto: ela transforma a audiência numa formalidade, e o pedido "deixe o meu povo ir", que Moisés fará dois versículos adiante, num pedido que ninguém espera ver atendido.
Segunda leitura: o "porque" deveria ser traduzido por "ainda que". Ficaria: "vá a Faraó, ainda que eu tenha tornado pesado o coração dele". Essa saída tem defensores antigos — John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) a registra, e Joseph Benson (pregador metodista inglês do mesmo século) a defende abertamente, dizendo que o propósito de Deus não era endurecer Faraó, mas humilhá-lo. A palavra hebraica em questão, ki, tem de fato um uso concessivo em outros textos. O custo é que esse uso é minoritário, e que a leitura alivia exatamente a frase que incomoda — o que é motivo para desconfiar dela, não para adotá-la.
Terceira leitura: o "porque" não governa "vá", e sim o que vem depois. A oração de finalidade — "para pôr estes meus sinais no meio dele" — seria o verdadeiro centro, e o endurecimento entraria como condição dela. Lido assim, o versículo não explica por que Moisés vai; explica por que os sinais ainda são possíveis. O custo é que a ordem das palavras em hebraico não favorece essa divisão, e a leitura depende de uma reorganização da frase.
Não é possível decidir entre as três com o que o versículo oferece. O que se pode dizer é que nenhuma delas desfaz a informação principal, que é a mesma nas três.
O que o versículo não resolve
A pergunta que todo leitor faz — se Deus tornou pesado o coração, Faraó ainda responde pelo que faz? — não recebe resposta aqui. A história da interpretação, em compensação, é longa, e está organizada em três posições.
A leitura penal. Deus endurece quem já se endureceu; o ato divino confirma e leva ao fim uma escolha que o homem fez antes. Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX, editor de um comentário bíblico muito usado) escreve exatamente isso sobre este versículo: os servos de Faraó "tinham primeiro endurecido os próprios corações", e por isso mereceram o endurecimento que veio de Deus. A favor da leitura está a ordem dos capítulos: nos capítulos 7 a 9, o rei endurece a si mesmo antes de o texto dizer que Deus o endureceu. Contra ela está que este versículo não faz a ressalva. Ele diz "eu", e não "eu, depois que ele".
A leitura da causa única. O hebraico atribui a Deus tudo o que acontece, inclusive o que ele apenas deixa acontecer; "eu tornei pesado" significaria "eu permiti que ficasse pesado". A favor está o fato de a Bíblia hebraica usar mesmo essa forma de falar em outros lugares. Contra está o preço: a frase mais direta do versículo vira figura de linguagem, e nada no contexto pede isso.
A leitura que recusa a pergunta. O Êxodo não está construindo uma doutrina sobre liberdade e causalidade; ele alterna sujeitos e verbos sem sistema aparente porque o interesse dele é outro — mostrar o que aconteceu com o Egito e por quê. A favor está a própria irregularidade da distribuição. Contra está que a leitura deixa o leitor sem resposta; o que talvez seja o resultado honesto.
Uma imagem antiga costuma ser lembrada nesse debate. Orígenes, escritor cristão de Alexandria do século III, propôs em Sobre os princípios que o mesmo sol endurece o barro e derrete a cera: a causa é uma só, e o efeito depende daquilo em que ela bate. A imagem é engenhosa e teve vida longa, mas é preciso dizer o que ela é — uma solução proposta por um leitor, e não algo que o texto afirme. O sistema dos três verbos do coração e a distribuição irregular dos seus sujeitos estão no estudo de Êxodo 4:21.
A terceira é a companhia. "Ele e os seus servos", em Êxodo 9:34; "o coração dele e o coração dos seus servos", aqui. O texto repete a dupla com as mesmas palavras e troca quem a produziu — e essa coincidência não parece descuido de cópia.
"para pôr estes meus sinais no meio dele"
A finalidade declarada não é a rendição do rei. É a exibição dos sinais.
"Estes meus sinais" aponta para a frente, não para trás. O demonstrativo cobre o que ainda vem: os gafanhotos e as trevas. Sete pragas já passaram; o endurecimento declarado aqui serve ao que falta.
"no meio dele"
O texto hebraico conservado pelos massoretas — os copistas que fixaram a Bíblia hebraica entre os séculos VII e X — traz o singular: "no meio dele". A Bíblia de Cambridge ("Cambridge Bible", série de comentários da universidade inglesa) registra a existência da leitura no plural, "no meio deles", e Nachmânides, rabino catalão do século XIII, cita o versículo no plural no seu comentário.
A diferença muda o alvo. No singular, os sinais são postos no meio do Egito, o país — ou, numa leitura mais forçada, dentro do próprio Faraó. No plural, são postos entre os egípcios, as pessoas. Não há como decidir; a nossa versão seguiu o singular do texto hebraico conservado, e a alternativa fica registrada aqui.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Recebe a ordem sozinho. Arão só aparece no versículo 3, quando os dois entram juntos diante do rei. É o padrão do livro: a palavra chega a um, e a audiência é de dois.
Faraó
O Êxodo nunca diz o nome do rei do Egito. Chama-o sempre pelo título. Isso é escolha do livro, não falta de informação da nossa parte: os textos egípcios nomeiam os seus reis o tempo todo, e a Bíblia hebraica nomeia outros faraós em outros lugares, como Neco e Sisaque. Aqui, o homem é o cargo.
"Os seus servos"
A expressão não designa criadagem. No Egito, "servo do rei" era como se chamava todo funcionário do Estado, do vizir ao escriba de província; o título aparecia com orgulho em túmulos e estelas, porque servir ao rei era a única carreira que existia.
Quando o texto diz "o coração dos seus servos", portanto, está falando do corpo que governava o país — os homens que executavam as ordens, administravam os distritos, comandavam as tropas e o trabalho forçado. É por isso que a inclusão deles pesa: uma decisão do rei que a corte inteira sustenta é outra coisa que uma teimosia pessoal.
Eles não são um bloco. No capítulo anterior, parte dos servos temeu o aviso do granizo e recolheu gente e animais, e outra parte não deu atenção. Desde o versículo 34 daquele capítulo, o texto voltou a tratá-los como um só.
O que acabou de acontecer
O granizo caiu, arrasou o que estava de pé no campo e parou a pedido de Moisés. O rei confessou o erro enquanto a tempestade caía e voltou atrás assim que o céu limpou.
A lavoura não ficou toda perdida: o texto registrou que o linho e a cevada foram feridos porque já estavam adiantados, e que o trigo e a espelta escaparam por serem tardios. É esse resto que o versículo 5 deste capítulo vai mencionar.
O que ainda não aconteceu
Nada, nesta cena, foi feito. Não há praga no versículo 1: há uma ordem, uma informação e um propósito. A oitava praga só será anunciada no versículo 4 e só cairá no versículo 13.
5. Pontos de Ensino
O texto guarda uma tensão em vez de resolvê-la
Um leitor que chega a Êxodo 10:1 vindo do capítulo anterior encontra duas frases que não se encaixam, feitas com as mesmas palavras. O Êxodo poderia ter aparado uma delas, e não aparou. Quem lê a Bíblia esperando um texto sem arestas precisa contar com isto: as arestas estão lá, e foram conservadas por quem copiou o texto durante séculos.
Uma ordem pode vir sem promessa de sucesso
Moisés é mandado a uma audiência cujo resultado lhe foi dito de antemão. Ele vai assim mesmo, e no versículo seguinte fala como quem espera resposta. O livro não comenta o que ele sentiu; registra que ele foi.
O propósito declarado não é o que se esperaria
"Para pôr estes meus sinais no meio deles" põe o acento na demonstração, não na conversão do rei. Quem lê a sequência das pragas como uma negociação que dá errado dez vezes está lendo contra esta frase.
A corte entra na conta
Não é só o rei. O versículo inclui os homens que governavam com ele, e o faz sem explicar. Um regime não se sustenta com uma vontade só, e o texto trata a corte como parte do problema desde o capítulo anterior.
Há perguntas que o texto levanta e não responde
Este é o ponto que o leitor tende a forçar. O versículo não diz se Faraó ainda podia ceder, nem quando o endurecimento começou, nem se era reversível. As três respostas que circulam foram construídas por intérpretes, e cada uma paga um preço. Ler com honestidade é saber de qual preço se está falando.
6. Aspectos Filosóficos
Uma frase como esta põe um problema que a filosofia trata há muito tempo, e que não é religioso por natureza: alguém pode ser responsabilizado por um ato cuja causa está fora dele?
A intuição comum diz que não: culpamos quem podia ter feito diferente, e quando o empurrão vem de fora deslocamos a culpa para quem empurrou. O debate filosófico sobre isso está organizado, há séculos, em torno de três respostas.
As três posições clássicas
O determinismo duro aceita a premissa e tira a conclusão: se todo ato tem causa anterior suficiente, ninguém é responsável por nada, e a responsabilidade é uma ilusão útil. Aplicada aqui, essa posição diz que a cobrança feita a Faraó nos capítulos seguintes é retórica.
O compatibilismo nega que causa e responsabilidade se excluam. Para ele, ser livre não é estar sem causa: é agir de acordo com os próprios desejos, sem coação externa. Um homem que quer o que quer e faz o que quer é livre, ainda que se possa explicar de onde vieram os seus desejos. Aplicada aqui, essa posição diz que Faraó fez o que quis — e que o endurecimento não é uma coação de fora, mas a fixação do que ele já queria.
O libertarismo — no sentido filosófico do termo, que não tem relação com a doutrina política de mesmo nome — nega a premissa: há atos genuinamente não determinados, e é neles que mora a responsabilidade. Aplicada aqui, essa posição exige que Faraó pudesse, naquele momento, ter dito sim; e então "eu tornei pesado o coração dele" precisa ser lido como outra coisa que não uma causa suficiente.
O segundo problema: usar alguém
Há uma dificuldade diferente, e mais desconfortável, escondida na oração final. O endurecimento é declarado com uma finalidade — "para pôr estes meus sinais no meio deles". Isto é, a condição de um homem é mantida num certo estado para que um efeito se produza sobre outros.
A objeção que a filosofia moral faz a esse tipo de arranjo é conhecida: tratar uma pessoa apenas como meio para um fim que não é dela. A objeção é forte, e não se desfaz observando que Faraó era um opressor — porque a frase não diz que ele foi endurecido como castigo pela opressão, diz que foi endurecido para que os sinais acontecessem.
O terceiro problema: saber antes e decidir antes
Saber de antemão o que alguém vai fazer não é, por si, causar. Um pai que conhece bem o filho antecipa a resposta dele sem a provocar. Se o versículo dissesse apenas "eu sei que ele vai recusar", a dificuldade seria bem menor — seria a dificuldade, já bastante discutida, de conciliar conhecimento antecipado e liberdade.
Não é isso que está escrito. O verbo é ativo e o sujeito é Deus: ele diz que fez, não que previu. A distinção entre prever e produzir, que resolveria o caso, é justamente a que o texto não oferece.
O que resta, honestamente, é uma frase que sustenta as duas pontas ao mesmo tempo, e um livro que segue adiante sem juntá-las.
7. Aplicações Práticas
Ir quando não se espera resultado
Moisés recebe a ordem com a resposta do outro lado já anunciada, e vai. A situação tem correspondente comum: falar de novo com quem já disse não várias vezes, apresentar de novo uma proposta que foi recusada, procurar de novo um parente que não atende.
O que o texto sugere aqui não é otimismo. É que a razão de ir pode não ser a expectativa de convencer. Moisés vai porque foi mandado, e o valor da ida não depende de o rei mudar. Quem só age quando calcula ganho tende a abandonar cedo demais as conversas que levam tempo.
Saber o diagnóstico e não usá-lo como arma
Moisés fica sabendo em que estado está o coração do rei — e não usa a informação. No versículo 3 ele faz o pedido como quem espera resposta, e não diz a Faraó "não adianta, você já foi endurecido".
Isso tem aplicação direta numa relação real. Quando alguém conclui que o outro "não vai mudar nunca", essa conclusão costuma vazar para o tom de voz e para o modo de pedir, e aí ela se cumpre sozinha. Moisés não trata o rei como caso encerrado, mesmo tendo motivo para isso.
O limite desta aplicação
Há um uso deste versículo que convém recusar: o de diagnosticar outras pessoas. Dizer de alguém que "Deus endureceu o coração dele" é uma afirmação que ninguém tem como verificar, e que serve quase sempre para encerrar uma relação com aparência de piedade. O texto diz isso de um rei específico, numa situação específica, e por boca de quem tinha como saber.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O endurecimento declarado aqui vale para trás também, ou só para o que falta?
O demonstrativo "estes meus sinais" aponta para a frente — para os gafanhotos e as trevas. Mas o verbo está no passado, e o passado não tem marco. Se o endurecimento vale desde o começo, as sete pragas anteriores mudam de sentido. Se vale só a partir de agora, o texto não explica o que mudou. Não há elemento no versículo para escolher.
Por que os servos só agora?
Em toda a sequência das pragas, o coração endurecido era o do rei. A corte entrou pela primeira vez no fim do capítulo anterior, e aqui aparece de novo. Uma hipótese é que a inclusão prepare o que vem no versículo 7 deste capítulo, quando os servos falarão contra o rei pela primeira vez. É apenas hipótese: o Êxodo não liga as duas coisas.
Faraó chegou a saber disto?
Pelo que o livro mostra, não. A informação é dada a Moisés em particular, e Moisés não a repassa. O rei segue negociando, ameaçando e confessando como quem se julga dono das próprias decisões. O Êxodo não comenta esse desencontro.
Se o objetivo é pôr os sinais, para que continuar pedindo?
A pergunta é forte e não tem resposta no texto. Duas saídas são propostas. Uma diz que o pedido é o que dá sentido ao sinal: sem exigência recusada, o que cai sobre o Egito seria desastre, e não resposta a uma recusa. Outra diz que o pedido existe para o leitor, não para o rei — para que fique documentado que a saída foi oferecida. As duas são leituras de intérpretes.
Alguma outra passagem da Bíblia fala assim de um rei estrangeiro?
Sim, e é útil saber. Deuteronômio 2:30 diz de Seom, rei de Hesbom, que ele não deixou Israel passar porque Deus "endureceu o espírito dele e tornou firme o coração dele". Josué 11:20 diz que os reis de Canaã vieram à guerra porque a coragem deles foi endurecida. A fórmula, portanto, não é exclusiva de Faraó — o que não resolve a questão, mas mostra que ela é maior que este episódio.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase com o sujeito trocado
Êxodo 9:34 — "Quando Faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões tinham cessado, continuou a pecar e tornou pesado o seu coração, ele e os seus servos."
É o par direto deste versículo, e a poucas linhas dele. Mesmo verbo, mesma dupla, sujeito oposto.
O anúncio que este versículo cumpre
Êxodo 4:21 — "E o SENHOR disse a Moisés: 'Quando você voltar ao Egito, veja que faça diante de Faraó todos os prodígios que pus na sua mão. Eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir.'"
Êxodo 7:3 — "Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios na terra do Egito."
O coração que ficou firme sem sujeito
Êxodo 7:13 — "E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
A finalidade declarada antes
Êxodo 9:16 — "Mas foi para isto que eu o mantive de pé: para lhe mostrar a minha força, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra."
A frase é do capítulo anterior e diz algo parecido com a oração final deste versículo, com uma diferença: lá o alvo é o nome anunciado em toda a terra; aqui, os sinais postos no meio dos egípcios.
Outros reis tratados com a mesma fórmula
Deuteronômio 2:30 — "Mas Seom, rei de Hesbom, não quis que passássemos por ele, porque o SENHOR, o seu Deus, endureceu o espírito dele e tornou firme o coração dele, para o entregar na sua mão, como hoje se vê."
Josué 11:20 — "Porque veio do SENHOR que eles endurecessem o coração para saírem à guerra contra Israel, a fim de que fossem destruídos sem misericórdia."
A leitura que o Novo Testamento faz
Romanos 9:17-18 — "Porque a Escritura diz a Faraó: 'Para isto mesmo te levantei: para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.' Portanto, tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer."
Paulo cita Êxodo 9:16, e não este versículo, mas a conclusão que ele tira cobre os dois. O verbo grego que ele usa vem da tradução grega antiga do Êxodo, que achatou em uma só as três palavras hebraicas do livro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então o SENHOR disse a Moisés: “Vá a Faraó, porque eu tornei pesado o coração dele e o coração dos seus servos, para pôr estes meus sinais no meio dele,
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה בֹּא אֶל־פַּרְעֹה כִּי־אֲנִי הִכְבַּדְתִּי אֶת־לִבּוֹ וְאֶת־לֵב עֲבָדָיו לְמַעַן שִׁתִי אֹתֹתַי אֵלֶּה בְּקִרְבּוֹ׃
Transliteração
wa-yomer YHWH el-Mosheh: bo el-Par'oh, ki-ani hikhbadti et-libbo we-et-lev avadaw, lema'an shiti ototai elleh be-qirbo.
Análise palavra por palavra
בֹּא אֶל־פַּרְעֹה — bo el-Par'oh, "venha a Faraó".
Imperativo masculino singular do verbo bo, cuja carga básica é a de entrar, chegar, vir. O verbo de "ir" em hebraico é outro, halakh, e é ele que aparece, por exemplo, na ordem de Êxodo 4:19.
כִּי־אֲנִי — ki-ani, "porque eu".
Ki é a conjunção mais usada da Bíblia hebraica e a mais elástica. Ela introduz causa ("porque"), conteúdo ("que"), tempo ("quando"), condição ("se") e, em alguns contextos, concessão ("ainda que"). Só o contexto decide, e aqui o contexto é justamente o que está em disputa.
Ani, "eu", é dispensável: a terminação do verbo já marca a primeira pessoa. Estando ali, ele é enfático. O hebraico põe o pronome solto quando quer sublinhar quem fez — e é esse acréscimo que a nossa versão tenta reproduzir mantendo "eu" antes do verbo.
הִכְבַּדְתִּי — hikhbadti, "eu tornei pesado".
A raiz é kaved, cujo sentido primeiro é ser pesado, ter peso. Dela vem também o substantivo kavod, "glória" — porque, nessa língua, o que tem peso é o que tem importância. E dela vem o nome do fígado, kaved, o órgão mais pesado do corpo.
A forma aqui é o Hifil (a conjugação causativa do hebraico: fazer com que alguma coisa seja ou se torne), no perfeito — a forma da ação concluída —, primeira pessoa do singular. Ao pé da letra: "eu fiz pesar", "eu tornei pesado".
Três coisas na forma merecem registro.
1. É perfeito, não imperfeito. A ação está dada. Compare-se com achazzeq, "tornarei firme", em Êxodo 4:21, que é imperfeito e olha para a frente. Aqui não há promessa: há relatório.
2. É exatamente a forma de Êxodo 9:34, onde se lê wa-yakhbed libbo, "e tornou pesado o seu coração". Lá o Hifil é de terceira pessoa e o sujeito é o rei; aqui é de primeira pessoa e o sujeito é Deus. Nenhuma tradução portuguesa corrente deixa isso visível, porque quase todas trazem "endurecer" nos dois lugares.
3. É o segundo dos três verbos do coração. O livro usa chazaq (tornar firme), kaved (tornar pesado) e qashah (tornar duro), com imagens distintas — o reforço, o peso, a rigidez. O sistema inteiro, com a lista de ocorrências e a distribuição dos sujeitos, está no item 10 de Êxodo 4:21. O que é próprio deste versículo é o cruzamento da pessoa com o tempo verbal: primeira pessoa no passado.
אֶת־לִבּוֹ וְאֶת־לֵב עֲבָדָיו — et-libbo we-et-lev avadaw, "o coração dele e o coração dos seus servos".
Lev é o coração, e na Bíblia hebraica ele é a sede do pensamento e da decisão, não do sentimento. Quem "diz no seu coração" está pensando; quem tem "coração sábio" é hábil; quem "põe no coração" resolve fazer.
לְמַעַן שִׁתִי — lema'an shiti, "para o meu pôr", isto é, "para que eu ponha".
Lema'an é a conjunção de finalidade: a fim de, com o propósito de. Não é consequência; é objetivo declarado.
Shiti é o infinitivo do verbo shit, "pôr, colocar", com sufixo de primeira pessoa funcionando como sujeito. A construção é pouco comum, e Rashi para nela para explicá-la: shiti, diz ele, é "o meu pôr — que eu ponha".
אֹתֹתַי אֵלֶּה — ototai elleh, "estes meus sinais".
Ot, no plural otot, é o sinal — a marca que aponta para fora de si, garante uma afirmação, serve de prova. É a palavra do arco nas nuvens em Gênesis 9 e da circuncisão em Gênesis 17.
O demonstrativo elleh, "estes", é o que aponta para o próximo, não para o distante. Ele cobre o que ainda vem no capítulo.
בְּקִרְבּוֹ — be-qirbo, "no meio dele".
Qerev é o interior, o meio, as entranhas; com a preposição be forma a expressão corrente para "no meio de", "dentro de". É a mesma de Êxodo 3:20, "as maravilhas que farei no meio dele".
Aqui está o problema de texto do versículo. O sufixo do texto hebraico conservado pelos massoretas é singular: be-qirbo, "no meio dele" — do Egito, presumivelmente, ou do próprio rei. A nossa versão segue esse singular; o plural, "no meio deles", corresponderia a be-qirbam.
Não há como decidir. O sentido geral muda pouco; o alvo muda um pouco. Fica registrado que a nossa versão segue o singular do texto hebraico majoritário, e que há quem leia no plural.
11. Conclusão
Do que foi examinado decorrem quatro conclusões.
A primeira: o livro do Êxodo conserva, de propósito ou não, duas atribuições do mesmo ato a agentes diferentes, e não as concilia. A frase de Êxodo 9:34 e a frase de Êxodo 10:1 usam o mesmo verbo, a mesma construção e a mesma dupla de sujeitos afetados, e trocam quem agiu. Quem copiou o texto por séculos não aparou a aresta. Qualquer leitura que a desfaça está acrescentando alguma coisa — e as leituras que a desfazem foram todas construídas depois, por intérpretes, cada uma com um preço declarado.
A segunda: a finalidade declarada desloca o eixo da narrativa. Se o objetivo é pôr sinais, a recusa do rei deixa de ser o fracasso de uma negociação e passa a ser a condição de continuidade da sequência. Isso não anula o pedido que Moisés fará adiante, mas muda o que se pode esperar dele.
A terceira: quem recebe a informação é o mensageiro, não o rei. Faraó segue agindo como quem decide, e o Êxodo não o desmente em nenhum momento. Ele continua sendo interpelado, advertido e cobrado depois desta frase, exatamente como antes dela. Seja qual for a leitura adotada sobre o endurecimento, o livro não a usa para aliviar o rei de coisa nenhuma.
A quarta: a pergunta filosófica que o leitor moderno traz não é respondida aqui, e provavelmente não é a pergunta do texto. O versículo não distingue prever de produzir, não define liberdade e não discute responsabilidade. Ele afirma um ato, nomeia o agente e declara um propósito. O resto — determinismo, compatibilidade, permissão, castigo — é trabalho de quem lê, e o mais honesto é dizer isso em voz alta em vez de fazer o texto dizer o que ele não diz.













