📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 10:2

›
✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 22 acessos
e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR.”
um homem idoso conta uma história a um menino e a um menor ainda, sentados no chão de uma casa antiga

Estudo


e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR.”

1. Introdução

A segunda finalidade do que foi dito a Moisés não tem a ver com o Egito: tem a ver com o que se vai contar em casa, décadas depois. O texto manda transmitir o episódio ao filho e ao filho do filho, e define o conteúdo da transmissão com um verbo que quase nenhuma tradução conserva — "como zombei do Egito". A palavra é dura, fala de troça e de escárnio, e as versões costumam trocá-la por "o que fiz". Encerrando a frase vem a cláusula que percorre o livro inteiro, "e vocês saberão que eu sou o SENHOR", agora dita a quem ainda não nasceu. O que segue trata do verbo, da ordem de contar e do que resulta de o conhecimento chegar pela boca de um parente e não pelos olhos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Ensinar o filho era um gênero literário no Egito

A ordem de contar ao filho não soaria exótica a ninguém no mundo em que a cena se passa. No Egito, o ensino de pai para filho tinha forma literária própria, com nome, regras e séculos de tradição: são os textos que os egiptólogos chamam de sebayt ("ensinamento", em egípcio).

Só que o "filho" egípcio nem sempre era filho

O molde é sempre o mesmo: um homem velho, que ocupou cargo, se dirige ao filho e lhe passa o que aprendeu — como falar diante de um superior, como se portar à mesa, como lidar com dinheiro, quando calar. E aqui está a diferença que importa para ler Êxodo 10:2: nos ensinamentos egípcios, "filho" quer dizer, muitas vezes, o sucessor no cargo. Ptah-hotep pede ao rei permissão para instruir quem vai assumir o posto depois dele, e o texto circulou durante mais de mil anos como material de cópia nas escolas de escriba. O que se transmitia era ofício: um saber de carreira, que ia do experiente ao aprendiz.

Êxodo 10:2 nomeia duas gerações de sangue — "o seu filho e o filho do seu filho" —, e o que se transmite não é técnica nenhuma. É um acontecimento.

A Instrução de Ani, e o filho que responde

Há um texto egípcio em que o quadro fica ainda mais próximo da cena doméstica. É a Instrução de Ani, conservada sobretudo no Papiro Boulaq 4, hoje no Museu do Cairo; a composição é situada no Império Novo, e as cópias que temos são mais tardias.

Ani era escriba de um templo, não vizir, e escreve para um filho comum, sobre a vida comum: manda honrar a mãe que o carregou e que depois o levou à escola todos os dias com pão e cerveja na mão, manda casar cedo, manda não beber demais em lugar público. E o fim do texto não tem paralelo no gênero: o filho, Khonsuhotep, responde ao pai — e responde reclamando: isso que o senhor pede é alto demais para um homem comum, cada um nasce com o seu caráter e não se muda ninguém com palavras. O pai contesta, argumentando que se ensina o animal a obedecer e o estrangeiro a falar egípcio, e que portanto se ensina também um filho.

Do outro lado: a mesma ordem no Deuteronômio

Dentro da Bíblia hebraica, a instrução do filho aparece com outro formato. Não é o pai que abre a conversa: é o filho que pergunta.

Deuteronômio 6:20-25 monta a cena inteira: "Quando, amanhã, o seu filho lhe perguntar: 'Que são os testemunhos, os estatutos e os juízos que o SENHOR, o nosso Deus, ordenou a vocês?', você dirá ao seu filho: 'Éramos escravos de Faraó no Egito, e o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte.'"

Repare no que a resposta contém e no que ela não contém. Não há explicação jurídica, nem doutrina. A resposta a uma pergunta sobre leis é uma história, e uma história em que o pai se inclui: "éramos escravos", embora o pai que fala não tenha sido escravo de ninguém.

A pergunta do filho vira regra de mesa

Essa estrutura teve consequência prática duradoura no judaísmo.

A Mishná — a primeira coletânea da lei oral judaica, posta por escrito por volta do ano 200 da era comum — regula a ceia da Páscoa no tratado Pessachim. No capítulo 10, regra 4, está escrito: servem-lhe a segunda taça, e aqui o filho pergunta ao pai; e, se o filho não tiver entendimento para perguntar, o pai lhe ensina a pergunta. Em seguida vêm as perguntas sobre o que há de diferente naquela noite.

Duas frases dessa regra são notáveis. Uma diz que o pai ensina "conforme o entendimento do filho" — a transmissão se ajusta a quem recebe, e não ao conteúdo. A outra manda "começar pela vergonha e terminar pelo louvor": a narração da noite deve partir da humilhação e só depois chegar à salvação, e não o contrário.

Há aí um detalhe que merece atenção. A regra prevê o caso do filho que não sabe perguntar e manda o pai fabricar a pergunta. A curiosidade do filho, que Deuteronômio pressupõe, a Mishná trata como coisa a ser produzida quando não vier sozinha.

3. Análise Teológica do Versículo

"e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho"

A finalidade do versículo anterior olhava para o Egito. Esta olha para dentro de casa, e para daqui a trinta ou quarenta anos.

"Aos ouvidos de" não é enfeite. Em hebraico, falar "aos ouvidos" de alguém é falar de modo que a pessoa efetivamente ouça — a expressão se usa para leitura pública de documento, para juramento feito diante de testemunhas, para recado que não pode se perder no caminho. O que se pede não é que o pai saiba a história: é que o filho a tenha escutado.

O verbo também é escolhido. É o da narração desenvolvida, não o do resumo — o mesmo que se usa para contar por extenso uma viagem, um sonho, um julgamento. O que se manda transmitir não cabe numa frase.

E são duas gerações: o filho e o filho do filho. Não é a fórmula genérica de "seus descendentes". É a distância exata que um homem alcança em vida — quem tem neto conhece o neto. O alvo é a memória que ainda tem uma testemunha viva na sala.

"como zombei do Egito"

Aqui está a palavra que as traduções escondem.

A maioria das versões em português traz "o que fiz no Egito", "como me tornei terrível", "as coisas que operei". O verbo hebraico não diz isso. Ele pertence a um campo de sentido áspero: fazer troça de alguém, tratar com escárnio, usar alguém como quem usa um brinquedo. O mesmo verbo é o que Balaão usa contra a jumenta em Números 22:29 — "porque você zombou de mim" —, e o que Saul teme em 1 Samuel 31:4, quando pede ao escudeiro que o mate antes que os inimigos façam dele o que quiserem.

Os comentaristas não disfarçam. A Bíblia de Cambridge ("Cambridge Bible", série de comentários da universidade inglesa) escreve, sobre este versículo, que a palavra "não pode significar 'operei'", que em árabe a raiz correspondente é a de divertir-se, e que em hebraico ela se aplica em mau sentido — divertir-se às custas de outro, fazer de alguém um brinquedo, escarnecer. E acrescenta, com franqueza incomum, que isso é uma maneira humana demais de falar de Deus, que não combina com a concepção cristã mais elevada. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) definem o verbo como "ter tratos com alguém, geralmente em mau sentido: fazer-lhe mal".

Ibn Ezra tinha dado, séculos antes, a saída que a tradição judaica mais repetiu: a Torá fala na linguagem dos homens, e a palavra pinta Deus como um homem que arma as coisas para se vingar de outro. É uma explicação, não uma tradução — e é bom não confundir as duas.

O que se pode e o que não se pode tirar do verbo

A pergunta que o leitor faz é direta: o texto está dizendo que Deus se divertiu com o Egito?

Primeira leitura: sim, e é escárnio mesmo. O verbo é o do troço com quem não pode revidar, e a escolha seria proposital — o império que escravizou um povo é tratado como coisa de brincar. A favor está o uso da palavra em todos os outros lugares em que ela aparece. Contra está que o versículo não descreve nenhuma cena de riso, e que a leitura arrisca projetar crueldade onde o texto só põe um verbo.

Segunda leitura: o sentido aqui é "agi duramente com", "maltratei". É por onde vão Keil e Delitzsch. A favor está que o campo do verbo comporta o mau trato sem a ideia de riso. Contra está que essa leitura amacia justamente o que a palavra tem de específico: há verbos hebraicos comuns para maltratar, e não foi nenhum deles que entrou aqui.

Terceira leitura: o verbo descreve o exercício de poder arbitrário — "fiz o que quis com". A favor está o contexto: a frase seguinte fala de sinais postos entre os egípcios, isto é, de uma demonstração. Contra está que esta leitura é a mais confortável das três, e o conforto é sempre motivo de suspeita.

Não é possível decidir com segurança. O que se pode afirmar é o mínimo, e o mínimo já é bastante: o verbo escolhido é ofensivo ao alvo, e quem traduz por "o que fiz" está apagando uma informação que o hebraico dá.

"e os meus sinais que pus entre eles"

O que se conta ao filho tem duas partes: a troça e os sinais. A segunda metade repete o final do versículo anterior, com uma diferença. Ali os sinais foram postos "no meio deles"; aqui, "entre eles", com a preposição comum. O verbo de pôr é outro, e as duas frases não são idênticas no hebraico — embora quase todas as traduções as igualem.

"e vocês saberão que eu sou o SENHOR"

A frase também muda de número no meio: "você conte" está no singular, "vocês saberão" está no plural, e o hebraico não explica a troca. Mais interessante é quem vai saber. Ao longo do livro, essa mesma cláusula aparece com dois destinatários diferentes: em Êxodo 7:5 são os egípcios que saberão, quando a mão se estender sobre o Egito; em Êxodo 6:7 é Israel, quando for tirado de debaixo das cargas. Aqui o sujeito são os que ouviram a história em casa.

Disso decorre uma coisa que costuma passar batida. O conhecimento prometido aqui não vem de ver: vem de ouvir contar. O filho e o neto não estiveram no Egito. O que eles vão ter é o relato de um parente — e o texto trata isso como suficiente para o verbo "saber". A fórmula inteira, com as suas ocorrências, é tratada no estudo de Êxodo 6:7.

Convém ainda registrar o que o versículo não diz. Ele não diz que a história deve ser contada com exatidão, não manda escrevê-la, não institui rito nenhum e não nomeia ocasião. Tudo isso vem depois, nos capítulos 12 e 13. Aqui há uma ordem de contar, e mais nada.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

"O seu filho e o filho do seu filho"

São os dois primeiros personagens deste versículo, e nenhum dos dois existe ainda quando a frase é dita. O Êxodo os introduz como destinatários de uma narração futura.

A escolha das duas gerações não é aleatória. Numa sociedade antiga, o avô era com frequência o membro mais velho da casa, e a casa reunia três gerações sob o mesmo teto ou no mesmo pátio. Contar ao filho e ao neto é cobrir a totalidade de quem um homem alcança pessoalmente.

Quanto ao que vem depois disso, o versículo nada diz. A terceira geração já não ouve a história de quem ouviu de quem viveu.

Moisés

É a ele que a ordem é dirigida, no singular, e ele está ouvindo sozinho — Arão só entra no versículo seguinte. O Êxodo não registra que Moisés tenha contado isso a alguém, nem que tenha tido filhos presentes na cena. Ele tem dois filhos, Gérson e Eliézer, nomeados no livro, e não há notícia de que qualquer dos dois tenha recebido esta narração.

O Egito

No hebraico, o nome do país e o nome do povo são a mesma palavra. Quando o versículo diz que houve troça "do Egito", cabe tanto a terra quanto os seus habitantes, e as traduções escolhem conforme o gosto.

Isso tem consequência para o leitor. A frase não isola o rei: ela nomeia o país. Quem ouve a história em casa, décadas depois, vai ouvir que a troça foi feita com o Egito inteiro, e não apenas com o homem que se recusou a ceder.

O que já aconteceu, e que é o material da narração

Sete sinais, até aqui: a água do Nilo, as rãs, os piolhos, os enxames, a peste do gado, as feridas e o granizo. Dois ainda virão neste capítulo.

A ordem de contar é dada antes de a série terminar. A história a ser transmitida ainda está sendo feita quando o mandamento de transmiti-la é dado.

5. Pontos de Ensino

A transmissão é parte do acontecimento, não um apêndice dele

A ordem de contar não vem depois da saída do Egito, como um balanço. Vem no meio da sequência, entre a sétima e a oitava praga. Pelo desenho do texto, o episódio já nasce destinado a ser narrado.

O destinatário do relato é doméstico

Não se manda gravar em pedra, escrever em rolo nem proclamar em praça. Manda-se contar ao filho e ao neto, dentro de casa, de boca. O canal escolhido é o mais frágil que existe — e é o único que o versículo menciona.

A palavra dura foi conservada

Quem copiou este versículo por séculos podia ter trocado o verbo por outro mais decoroso, e não trocou. A troça ficou no texto hebraico, e foram os tradutores, muito depois, que a amaciaram. Ler a Bíblia como ela é inclui receber as palavras que incomodam.

Saber pode vir de ouvir

A promessa final é feita a quem não vai ver nada. O neto não esteve no Egito, e mesmo assim a frase diz que ele saberá. Isso desmonta a ideia, muito repetida, de que só vale o que se experimenta em primeira mão.

Há um limite no alcance

Duas gerações é o que o versículo cobre. Não se promete memória perpétua, e o resto do Antigo Testamento mostra por quê: os livros dos Reis são cheios de gerações que não souberam. O mandamento é para quem está na sala, e vale uma vez por geração.

6. Aspectos Filosóficos

Um povo guarda o seu passado onde? A pergunta parece simples e não é, e este versículo dá uma resposta que surpreende: dentro de casa, na boca de um parente, uma vez por geração.

Não se manda escrever, nem gravar em pedra, nem entregar a especialistas.

Paul Connerton e as duas maneiras de guardar o passado

O sociólogo inglês Paul Connerton dedicou a esse problema o livro How Societies Remember ("Como as sociedades recordam", publicado em Cambridge em 1989), e a distinção central dele serve aqui.

Connerton separa duas famílias de práticas pelas quais o passado se conserva.

De um lado estão as que ele chama de práticas de inscrição: escrever, registrar, arquivar, fotografar. Elas põem a informação num suporte fora do corpo. O suporte guarda sozinho, e pode ser consultado por quem nunca viu o acontecido.

De outro lado estão as práticas de incorporação: gestos, posturas, maneiras de falar, cerimônias. Elas só existem enquanto alguém as executa. Não há onde consultá-las: ou o corpo repete, ou o conteúdo desaparece.

Por que isso ilumina o versículo

Êxodo 10:2 manda uma prática de incorporação pura. Uma pessoa fala, outra ouve, e nada fica depositado em lugar nenhum. Se a geração seguinte não contar, acabou.

Connerton observa ainda duas coisas que se encaixam no que a Bíblia faz com esta ordem depois. A primeira é que as cerimônias de memória costumam ter calendário e fórmula verbal fixa — dia marcado e palavras que se repetem sem variar. A segunda é que elas não descrevem o passado de fora: elas o encenam, e quem participa fala como se estivesse lá.

As duas coisas acontecem nos capítulos seguintes do Êxodo, que dão data, refeição e palavras à narração ordenada aqui. E a resposta que Deuteronômio 6:21 manda dar ao filho começa por "éramos escravos" — na primeira pessoa do plural, incluindo quem nunca foi escravo.

O que essa leitura não autoriza

Connerton escreve sobre sociedades modernas, com exemplos do século XX, e as categorias dele são ferramenta de análise, não descoberta no texto. O Êxodo não tem teoria da memória e não discute suportes. Aplicar as duas famílias de práticas a este versículo é uma leitura, e é preciso dizer que é.

O preço do método escolhido

Há uma objeção óbvia à memória transmitida assim, e ela não deve ser escondida: é o modo menos verificável de guardar um acontecimento. O que passa de boca em boca muda, encolhe, ganha detalhe que não tinha. Um arquivo pode ser conferido; a fala do avô, não.

Quem defende a escolha do texto responde por outro caminho, e o argumento é forte: o que se pretende transmitir aqui não é um conjunto de dados. É uma relação — pertencer a um povo a quem aconteceu aquilo. E relação não se arquiva. O filho que lê um relato num rolo aprende um fato; o filho que ouve o pai dizer "éramos escravos" recebe uma posição no mundo.

7. Aplicações Práticas

Contar em casa o que aconteceu com a família

A aplicação mais direta deste versículo é também a mais esquecida: existem coisas que só se sabem se alguém contar, e quem pode contar tem prazo.

Vale para histórias de família — de onde vieram os avós, por que se mudaram, o que perderam, o que conseguiram. Vale para episódios duros: uma falência, uma doença, uma separação, uma prisão. O silêncio sobre isso costuma ser apresentado como proteção, e é quase sempre outra coisa: vergonha, ou preguiça de reabrir o assunto.

O versículo é exigente num ponto específico. Ele não manda contar a versão boa. O conteúdo que ele determina é aquele que envolve humilhação de um lado e desforra de outro — e manda contar com a palavra áspera, não com a palavra arrumada.

Falar "aos ouvidos", não perto

A expressão hebraica pede que o outro efetivamente ouça. Isso tem tradução prática imediata em qualquer casa: contar uma história importante com a televisão ligada, no corredor, entre uma coisa e outra, é cumprir a forma e perder o conteúdo.

Ajustar ao entendimento de quem ouve

A regra da Mishná — o pai ensina "conforme o entendimento do filho" — é conselho prático de primeira ordem e vale fora de qualquer religião. Contar a uma criança de seis anos o que se conta a um adolescente de quinze é garantir que nada fique.

E há o caso, previsto na mesma regra, do filho que não pergunta nada. A solução antiga foi fabricar a pergunta. Quem espera a curiosidade aparecer sozinha costuma esperar para sempre.

O limite

Duas gerações. O versículo não promete que a história sobreviva além disso, e a experiência confirma. Quem quer que alguma coisa dure mais que o neto precisa de outro recurso além da boca — e esse recurso o texto não dá aqui.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a ordem de contar vem agora, e não no fim?

Faltam duas pragas e a saída do Egito inteira. O mandamento de narrar chega quando a narrativa ainda está pela metade. Uma hipótese é que a ordem prepare Moisés para o que vem — dizendo-lhe, na prática, que aquilo vai acabar. Outra é que a frase pertença a um acréscimo posterior, feito por quem organizou o livro; a Bíblia de Cambridge levanta essa possibilidade a respeito do conjunto formado pelos dois primeiros versículos. Nenhuma das duas é demonstrável.

Moisés chegou a cumprir esta ordem?

O Êxodo não conta. Ele tem dois filhos nomeados, Gérson e Eliézer, e o livro nunca os mostra ouvindo nada. A ordem é dada no singular a um homem e é cumprida, no resto da Bíblia, por um povo — o que reforça a leitura de que Moisés está sendo tratado como representante.

Por que o verbo duro não foi trocado pelos copistas?

A pergunta é boa e não tem resposta documentada. O que se sabe é que os tradutores gregos antigos não o amaciaram — eles escolheram um verbo grego que também significa escarnecer. Quem amaciou foram tradutores muito posteriores, em línguas modernas. Por que as versões atuais recuam onde as antigas não recuaram é assunto de história da tradução, não do texto.

O que exatamente o filho deve saber no fim?

"Que eu sou o SENHOR." A frase é curta e o seu conteúdo é discutido: pode ser reconhecimento de identidade (quem é este Deus), reconhecimento de poder (do que ele é capaz) ou reconhecimento de relação (de quem este povo é). O hebraico permite os três, e o livro usa a fórmula nos três sentidos em lugares diferentes.

E se o neto não acreditar?

O versículo não prevê o caso. Prevê o contar e afirma o saber, sem nada no meio. A literatura egípcia de ensinamento, que é do mesmo mundo, prevê: a Instrução de Ani termina com o filho contestando o pai. O Êxodo não tem esse diálogo.

9. Conexão com Outros Textos

As outras vezes em que a Bíblia manda contar ao filho

Êxodo 12:26-27 — "E, quando os seus filhos lhes perguntarem: 'Que rito é este?', vocês dirão: 'É o sacrifício da Páscoa do SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas.'"

Êxodo 13:8 — "E, naquele dia, você contará ao seu filho, dizendo: 'É por causa do que o SENHOR me fez quando saí do Egito.'"

Deuteronômio 6:20-21 — "Quando, amanhã, o seu filho lhe perguntar: 'Que são os testemunhos, os estatutos e os juízos que o SENHOR, o nosso Deus, ordenou a vocês?', você dirá ao seu filho: 'Éramos escravos de Faraó no Egito, e o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte.'"

Nas três, quem abre a conversa é o filho. Em Êxodo 10:2, quem abre é o pai — e é a única das quatro que não está ligada a um rito.

Onde a transmissão vira poema

Salmo 78:3-4 — "O que ouvimos e aprendemos, e os nossos pais nos contaram, não esconderemos dos seus filhos, contando à geração seguinte os louvores do SENHOR, e a sua força, e as maravilhas que fez."

A mesma engenharia aplicada a um monumento

Josué 4:6-7 — "Para que isto seja um sinal entre vocês. Quando, amanhã, os seus filhos perguntarem: 'Que significam para vocês estas pedras?', dirão a eles que as águas do Jordão se dividiram diante da arca da aliança."

Aqui há objeto, e o objeto serve para provocar a pergunta. É o desenho inverso do de Êxodo 10:2, onde não há objeto nenhum.

Quem usou o verbo duro depois

Números 22:29 — "Balaão respondeu à jumenta: 'Porque você zombou de mim. Se houvesse espada na minha mão, agora eu a mataria.'"

1 Samuel 6:6 — "Por que endureceriam vocês o coração, como o Egito e Faraó endureceram o seu? Depois que ele agiu duramente com eles, não os deixaram ir, e eles partiram?"

A cláusula do conhecimento

Êxodo 6:7 — "Eu os tomarei para mim como povo e serei o Deus de vocês; e vocês saberão que eu sou o SENHOR, o Deus de vocês, que os tira de debaixo das cargas do Egito."

Êxodo 7:5 — "E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando eu estender a minha mão sobre o Egito e tirar os filhos de Israel do meio deles."

A mesma frase, com dois povos diferentes como sujeito. Em Êxodo 10:2 o sujeito são os netos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR.”

Texto hebraico

וּלְמַעַן תְּסַפֵּר בְּאָזְנֵי בִנְךָ וּבֶן־בִּנְךָ אֵת אֲשֶׁר הִתְעַלַּלְתִּי בְּמִצְרַיִם וְאֶת־אֹתֹתַי אֲשֶׁר־שַׂמְתִּי בָם וִידַעְתֶּם כִּי־אֲנִי יְהוָה׃

Transliteração

u-lema'an tesapper be-oznei binkha u-ven-binkha et asher hit'allalti be-Mitsrayim, we-et-ototai asher-samti vam; wi-yda'tem ki-ani YHWH.

Análise palavra por palavra

וּלְמַעַן — u-lema'an, "e para que".

A mesma conjunção de finalidade do versículo anterior, agora com o "e" na frente. São duas finalidades encadeadas: pôr os sinais no Egito e fazer com que se conte a história em casa. A segunda não é consequência da primeira; é outro objetivo da mesma operação.

תְּסַפֵּר — tesapper, "você conte".

Verbo safar na forma intensiva do hebraico (o Piel), imperfeito, segunda pessoa masculina do singular. No Qal — a forma simples — a raiz significa contar no sentido de numerar, e dela vêm sofer, escriba, e sefer, livro.

No Piel, o sentido se desloca para contar no sentido de narrar — e é a narração desenvolvida, não o resumo. É o verbo de Gênesis 24:66, quando o servo conta a Isaque tudo o que aconteceu, e o de Gênesis 40:8-9, quando os presos contam os seus sonhos a José.

בְּאָזְנֵי — be-oznei, "aos ouvidos de".

Preposição be mais ozen, "orelha", na forma dual — porque orelhas vêm em par. A expressão é idiomática e frequente. Ela aparece quando um documento é lido em voz alta diante do povo, quando um juramento é feito diante de testemunhas, quando uma notícia é levada a alguém que precisa ouvi-la pessoalmente. Traduzir por "diante de" ou "para" perde a nuance: o hebraico marca que o conteúdo foi efetivamente recebido pelo ouvido de alguém.

בִנְךָ וּבֶן־בִּנְךָ — binkha u-ven-binkha, "o seu filho e o filho do seu filho".

Ben, filho, com sufixo de segunda pessoa; depois a mesma palavra em cadeia, construindo o neto por composição. O hebraico não tem palavra própria para neto.

Os dois estão no singular. A Bíblia hebraica dispõe de expressões para "descendência" e "gerações", e nenhuma delas foi usada aqui.

אֵת אֲשֶׁר הִתְעַלַּלְתִּי — et asher hit'allalti, "o que eu zombei", isto é, "como zombei".

Esta é a palavra decisiva do versículo. A raiz é ʿ-l-l, e a forma é o Hitpael — a conjugação reflexiva e recíproca do hebraico —, perfeito, primeira pessoa do singular. O Hitpael dessa raiz é o que carrega o sentido de tratar alguém de maneira abusiva, fazer troça, usar alguém para o próprio divertimento.

Todas as ocorrências do Hitpael desta raiz na Bíblia hebraica são desagradáveis:

Números 22:29 — Balaão à jumenta: "porque você zombou de mim".

1 Samuel 6:6 — os filisteus lembrando o que foi feito ao Egito, que é este mesmo episódio visto de fora.

1 Samuel 31:4 — Saul ferido, pedindo ao escudeiro que o mate "para que estes incircuncisos não venham e façam de mim o que quiserem".

Em nenhum desses lugares a ação é leve.

O que o grego fez com este verbo

A tradução grega antiga, feita em Alexandria a partir do século III antes da era comum, não amaciou nada. Ela usa aqui empepaicha, perfeito de empaízō, que significa escarnecer, caçoar, fazer de alguém motivo de riso.

Esse verbo grego tem uma carreira notável. É o que aparece em Mateus 2:16, quando Herodes percebe que foi ludibriado pelos magos, e é o dos soldados que zombam de Jesus em Mateus 27:29 e 27:31. Os tradutores gregos do Êxodo escolheram, portanto, uma palavra sem atenuação — e foram tradutores muito posteriores, em línguas modernas, que passaram a escrever "o que fiz".

בְּמִצְרַיִם — be-Mitsrayim, "no Egito" ou "com o Egito".

A preposição be aqui pode indicar lugar ("no Egito") ou o alvo do verbo ("com os egípcios"), porque o verbo desta raiz costuma reger justamente esta preposição. O nome próprio, no hebraico, tem forma de dual — provavelmente pelo Alto e pelo Baixo Egito — e designa ao mesmo tempo a terra e o povo.

וְאֶת־אֹתֹתַי אֲשֶׁר־שַׂמְתִּי בָם — we-et-ototai asher-samti vam, "e os meus sinais que pus entre eles".

O verbo é sim, "pôr", no perfeito de primeira pessoa — e não shit, que era o do versículo 1. São dois verbos de pôr diferentes em duas linhas consecutivas, e nenhuma tradução corrente os distingue.

Vam é a preposição be com sufixo de terceira pessoa masculina do plural: "neles", "entre eles". Note-se que aqui o plural é indiscutível, ao contrário do fim do versículo 1.

וִידַעְתֶּם — wi-yda'tem, "e vocês saberão".

Verbo yada, conhecer, no perfeito com o "e" que encadeia a narrativa e projeta o sentido para a frente — a forma que a gramática hebraica usa para o resultado de uma ordem.

Está no plural, ao contrário de "você conte", que estava no singular. A troca é abrupta e o texto não a explica. Ela sustenta a leitura de que a ordem é dirigida a Israel através de Moisés; a tradução grega antiga resolveu a irregularidade pondo tudo no plural, o que é sinal de que ela já incomodava os antigos.

Yada não é saber de informação apenas. O verbo cobre conhecer por experiência, reconhecer, e também a relação íntima. Quando o Êxodo diz que alguém "saberá que eu sou o SENHOR", o conteúdo do saber é discutido, e o próprio livro usa a fórmula com os egípcios, com Israel e — aqui — com netos que não viram nada.

כִּי־אֲנִי יְהוָה — ki-ani YHWH, "que eu sou o SENHOR".

O nome divino aparece aqui nas suas quatro consoantes, que a nossa versão verte por "o SENHOR", em maiúsculas, seguindo o costume adotado desde as traduções antigas.

11. Conclusão

Quatro conclusões saem do que foi examinado.

A primeira: o episódio do Egito foi destinado à narração antes de terminar. A ordem de contar é dada entre a sétima e a oitava praga, quando ainda faltava o essencial. Isso muda o que a sequência das pragas é dentro do livro: não uma série de castigos que depois alguém resolveu registrar, mas um acontecimento que já nasce com destinatário futuro.

A segunda: a palavra que resume o que se deve contar é ofensiva ao Egito, e foi conservada. O verbo hebraico fala de troça, e os tradutores gregos antigos o traduziram por um verbo grego de escárnio. Quem lê "o que fiz no Egito" numa tradução moderna está recebendo uma versão mais educada do que o texto. Se é escárnio, mau trato ou exercício de poder arbitrário, não é possível decidir com o que temos — mas nenhuma das três é neutra.

A terceira: o canal escolhido para a memória é o mais frágil disponível. Sem pedra, sem rolo, sem sacerdote: um pai falando, um filho ouvindo, e o neto na sala. A escolha tem custo — é o modo menos verificável de guardar um acontecimento — e tem um ganho que o custo não anula: o que passa assim não é um dado, é um pertencimento. O "éramos escravos" que o Deuteronômio põe na boca de quem nunca foi escravo mostra o efeito pretendido.

A quarta: o conhecimento prometido é atribuído a quem não viu nada. "Vocês saberão que eu sou o SENHOR" é dito, aqui, a netos que ouvirão a história de segunda mão. O Êxodo usa essa mesma fórmula, em outros lugares, para quem viu as pragas de perto. Pôr as duas coisas sob o mesmo verbo é uma decisão do texto, e ela desautoriza tratar o testemunho direto como a única forma legítima de saber.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 10:2

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%