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Êxodo 20:1

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 48 acessos
Então Deus falou todas estas palavras, dizendo:
Ao pé de um monte de pedra envolto em nuvem escura, uma multidão de homens, mulheres e crianças em túnicas de lã cor de terra está imóvel e em silêncio, com os rostos voltados para o alto, enquanto do cume, entre fumaça e clarões, parece descer uma voz.

Estudo


Então Deus falou todas estas palavras, dizendo:

1. Introdução

Depois de um capítulo inteiro de preparação, o Sinai finalmente ouve a voz, e o primeiro versículo é só a moldura: quem fala, o que fala e um "dizendo" que abre aspas. O que Deus pronuncia não é chamado de lei nem de mandamento, e sim de "palavras" — e é desse termo que nasce o nome que a própria Bíblia dá ao conjunto, "as dez palavras". O "todas" provocou cedo uma disputa: Deus disse as dez, ou só as primeiras? A frase abre um texto que a Bíblia guarda em duas versões, aqui e em Deuteronômio 5, que não coincidem palavra por palavra. E a história de como esse texto entrou na oração diária e depois foi retirado dela também começa aqui.

2. Contexto Histórico e Cultural

Nenhum livro da Bíblia hebraica chama este texto de "Dez Mandamentos". Quando o conjunto ganha nome, o nome é "as dez palavras": em Êxodo 34:28, em Deuteronômio 4:13 e em Deuteronômio 10:4. Os outros nomes que ele recebe também falam de fala e de acordo, não de código: "as palavras da aliança" (Êxodo 34:28) e "o testemunho", isto é, o documento que seria guardado dentro da arca (Êxodo 25:16). "Mandamentos" é palavra das traduções e da catequese.

O termo "Decálogo" vem do grego. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito nos séculos III e II a.C.) verteu "as dez palavras" por toùs déka lógous, e da dupla nasceu o substantivo dekálogos, "o dez-palavras". A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) aponta Clemente de Alexandria, mestre cristão do fim do século II, entre os primeiros a usá-lo. O nome que pegou no Ocidente, portanto, conserva o "palavras" do hebraico, embora quase ninguém o perceba.

No tempo do Templo, os sacerdotes recitavam as dez palavras todas as manhãs, e a recitação foi depois afastada da oração das sinagogas por causa dos que diziam que só elas vinham de Deus — o relato e as suas fontes estão no estudo de Mateus 19:18. O que o Talmude Babilônico conta em seguida, no mesmo tratado Berakhot ("Bênçãos", 12a), é que a história não terminou com a proibição. Houve duas tentativas de trazer o Decálogo de volta. Rabba bar bar Hana quis instituir a recitação em Sura, e Rav Hisda o impediu. Ameimar quis fazer o mesmo em Nehardea, e Rav Ashi, a maior autoridade da sua geração, o impediu também. Os dois ouviram a mesma frase: "já a aboliram por causa da alegação dos hereges".

Sura e Nehardea eram as duas grandes escolas de estudo dos judeus da Babilônia entre os séculos III e V. A repetição do episódio mostra que a vontade de recitar o Decálogo todos os dias não morreu com a proibição: ela voltava a cada geração, e a cada geração foi barrada pelo mesmo motivo. O que se temia não era o texto, e sim o lugar que ele ocuparia. Recitado sozinho, todos os dias, ele podia parecer a única parte da Torá que importava.

O Talmude de Jerusalém, compilado na terra de Israel por volta do ano 400, guarda uma explicação que ajuda a entender por que a perda foi tolerada. No tratado Berakhot (1:5), Rabi Levi afirma que as dez palavras estão contidas no Shemá (a confissão "Ouve, Israel", de Deuteronômio 6:4-9, recitada de manhã e à noite), e faz o mapa, item por item. "Eu sou o SENHOR, o teu Deus" corresponde a "Ouve, Israel, o SENHOR é o nosso Deus". "Não terás outros deuses" corresponde a "o SENHOR é um". "Não tomarás em vão o nome" corresponde a "Amarás o SENHOR, o teu Deus" — porque, diz ele, quem ama o rei não jura em falso pelo nome do rei. "Não adulterarás" corresponde a "não sigam o seu coração e os seus olhos" (Números 15:39), porque o coração e os olhos são os dois agentes do pecado. A oração que ficou levava dentro dela a que saiu.

Oito séculos depois, Maimônides (Moisés ben Maimon, médico, filósofo e jurista judeu nascido em Córdoba, no século XII) recebeu no Egito uma consulta sobre um costume que se espalhava: a congregação ficava de pé quando o leitor chegava ao Decálogo, na leitura pública da Torá. A resposta dele, conservada na coleção das suas cartas jurídicas (edição de Blau, número 263), é dura. O certo é ficar sentado; onde se costuma levantar, é preciso impedir, porque o gesto dá a entender que há graus dentro da Torá e que uma parte é mais alta que as outras — "e isso é coisa muito ruim". Ele cita o mesmo motivo de Berakhot, a alegação dos hereges. O costume de ficar de pé, mesmo assim, sobreviveu em muitas comunidades, e a discussão entre o uso popular e o parecer de Maimônides continua aberta nos livros de lei judaica até hoje.

A tradição judaica conhece também a atitude oposta. Saadia Gaon (chefe da academia de Sura no século X, nascido no Egito) compôs azharot ("advertências", poemas litúrgicos que enumeram os mandamentos da Torá e eram lidos na festa de Shavuot) em que distribuiu os 613 mandamentos debaixo das dez palavras, como galhos de dez troncos. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) registra a obra e a aprova em parte. As duas posições — o Decálogo como resumo de toda a Lei, o Decálogo como uma parte entre iguais — conviveram dentro do judaísmo medieval, e o versículo que abre o texto é o ponto em que ambas começam.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Deus falou"

O capítulo anterior terminou com Moisés dizendo algo que o texto não registra. Este começa com outro sujeito, e o sujeito não é o nome próprio que dominou o capítulo 19 — "o SENHOR" —, e sim o título comum, "Deus". A mudança chamou a atenção dos leitores antigos.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), seguida por Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI), lê o título como palavra de tribunal. "Deus", nessa leitura, é o nome do juiz. Há trechos da Torá, explica Rashi, em que quem cumpre recebe recompensa e quem não cumpre não é punido; alguém poderia pensar que as dez palavras fossem desse tipo, conselhos com prêmio e sem pena. O título "Deus" no versículo de abertura avisa que não: quem fala aqui é o juiz que cobra.

A crítica moderna leu a mesma troca de outro modo. Desde o século XIX, muitos estudiosos usaram a alternância dos nomes divinos para distribuir os relatos do Pentateuco entre fontes diferentes, e o "Deus" deste versículo entrou nessa conta. A atribuição do Decálogo a uma fonte determinada é discutida e não há consenso; a fala que começa no versículo seguinte usa "o SENHOR" já na primeira frase, o que mostra que os dois nomes convivem dentro do mesmo texto.

O versículo também não diz a quem Deus falou. Em Êxodo 19:3 a fala vinha endereçada: "assim você dirá à casa de Jacó". Em Êxodo 20:22, quando o Decálogo termina, volta o endereço: "o SENHOR disse a Moisés". Aqui não há destinatário nenhum, nem Moisés, nem o povo. É o único ponto da sequência em que a fala divina não passa nominalmente por ninguém, e Deuteronômio 5:22 preenche a lacuna dizendo que Deus falou "a toda a assembleia".

"todas estas palavras"

O que o "todas" acrescenta? Os comentaristas deram três respostas, e cada uma lê a palavra numa direção.

Primeira leitura: Deus disse todas de uma vez. É a da Mekhilta, que Rashi resume: Deus pronunciou as dez palavras num único som, coisa impossível a uma boca humana. Mas, se foi assim, por que o texto as apresenta uma depois da outra? Porque, depois de dizê-las juntas, Deus repetiu cada uma separadamente — e a Mekhilta pensa sobretudo nas duas primeiras, "Eu sou" e "Não terás". A leitura transforma o "todas" num prodígio de simultaneidade.

Segunda leitura: Deus disse todas, e não só algumas. É a de Ibn Ezra. Ele conhecia quem defendesse que Deus pronunciou apenas as duas primeiras e que o resto veio por meio de Moisés, com um argumento gramatical: a partir da terceira, Deus fala de si mesmo na terceira pessoa — "o SENHOR não deixará impune", "em seis dias o SENHOR fez". Ibn Ezra responde que o "todas" deste versículo diz o contrário, e que a mudança de pessoa não prova nada, porque o hebraico a faz o tempo todo dentro de uma mesma fala divina. O exemplo dele é Êxodo 23:18-19, em que Deus diz "a gordura da minha festa" e, uma linha abaixo, "a casa do SENHOR, o teu Deus". E acrescenta que as dez foram escritas pelo dedo de Deus nas tábuas; se ele as escreveu todas, também as disse todas.

Terceira leitura: todas, e nada mais. O "todas" fecha um conjunto. É assim que Deuteronômio conta a cena: Deus falou estas palavras a toda a assembleia "e nada acrescentou" (Deuteronômio 5:22). O que veio depois — as leis de Êxodo 20:22 em diante — chegou ao povo por meio de Moisés. Nessa leitura, o "todas" marca uma fronteira entre o que foi dito a todos e o que foi dito a um. Ibn Ezra nota um detalhe que a reforça: quando Moisés recita o Decálogo em Deuteronômio, escreve "estas palavras", sem o "todas". A razão, para ele, é que a versão de Deuteronômio já mistura as palavras de Deus com as de Moisés.

"palavras", e não "mandamentos"

O versículo escolhe o termo mais amplo que a língua oferecia. Uma "palavra", em hebraico, cobre a frase dita, o assunto e o acontecimento. Isso permite incluir no conjunto o que não é ordem: a primeira das dez, "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito", não manda nada. Se o versículo tivesse dito "mandamentos", ela ficaria de fora do título. A escolha da palavra é o que deixou aberta a pergunta que o versículo seguinte vai enfrentar: a autoapresentação conta ou não conta como uma das dez?

As duas versões

O texto que este versículo introduz aparece de novo em Deuteronômio 5:6-21, na boca de Moisés, quarenta anos depois. Ibn Ezra fez o inventário das diferenças com cuidado de escrivão. Da primeira frase até o fim do mandamento sobre o nome, as duas versões são praticamente iguais. Do sábado em diante, quase tudo muda alguma coisa.

O sábado começa com "lembra-te" no Êxodo e com "guarda" no Deuteronômio, e a razão dada para ele é outra: aqui, a criação; lá, a escravidão no Egito. O Deuteronômio acrescenta o boi e o jumento à lista dos que descansam. O mandamento sobre pai e mãe ganha ali "como o SENHOR, o teu Deus, te ordenou" e uma segunda promessa, "para que te vá bem". As quatro proibições curtas aparecem ligadas por "e" — "e não adulterarás, e não furtarás". O falso testemunho é "testemunho de mentira" no Êxodo e "testemunho vão" no Deuteronômio. E o último mandamento troca a ordem: aqui a casa vem antes da mulher; lá a mulher vem antes da casa, com outro verbo para a casa, e o campo entra na lista.

Como explicar duas versões de um texto que se apresenta como fala direta de Deus? A solução rabínica clássica afirma que as duas formas do sábado foram ditas num único pronunciamento, e ela tem tratamento próprio no estudo de Êxodo 20:8. Ibn Ezra a considera, tomada ao pé da letra, a mais difícil de todas as respostas, sustenta que os sábios não a entendiam assim e propõe outra. A versão do Êxodo é a das tábuas, palavra por palavra; a do Deuteronômio é Moisés recontando, com as explicações dele, e por isso traz duas vezes "como o SENHOR, o teu Deus, te ordenou" — a fórmula de quem cita. O princípio que ele enuncia ficou famoso: "as palavras são como corpos, e os sentidos, como almas". Quem reconta guarda o sentido e muda as palavras, e o próprio Gênesis faz isso: Isaque diz a Esaú "a fim de que eu o abençoe antes de morrer" (Gênesis 27:4), e Rebeca, ao repetir a frase a Jacó, acrescenta "diante do SENHOR" (Gênesis 27:7). Para Ibn Ezra, ela não falsificou nada; explicou.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) chegam a uma conclusão parecida por outro caminho: o Êxodo é o texto original, e o Deuteronômio o reproduz com a liberdade de quem prega. Boa parte dos estudiosos modernos foi mais longe e propôs que cada mandamento tivesse uma forma primitiva curta, como "Não matarás", e que as duas versões tenham crescido cada uma com os seus acréscimos de motivo e explicação. A hipótese é plausível e não é demonstrável, porque nenhum manuscrito preserva essa forma curta.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Deus

O sujeito do versículo, nomeado pelo título comum e não pelo nome próprio. É a última vez, até o fim do Decálogo, que o texto fala dele na terceira pessoa: do versículo seguinte em diante é ele quem fala, e fala de si.

O povo de Israel

Destinatário que o versículo não nomeia. Está ao pé do monte, atrás do limite marcado, no terceiro dia de preparação. O Deuteronômio o chamará de "assembleia", e chamará aquele dia de "o dia da assembleia" (Deuteronômio 10:4).

Moisés

Ausente da frase. O versículo anterior o deixou embaixo, com o povo; este não diz onde ele está quando Deus começa a falar, e o assunto foi tratado no estudo de Êxodo 19:25.

Rabba bar bar Hana e Rav Hisda; Ameimar e Rav Ashi

Mestres do Talmude Babilônico. Rabba bar bar Hana, do fim do século III, ficou conhecido pelas histórias de viagem que conta no tratado Bava Batra; Rav Hisda dirigiu a academia de Sura. Ameimar e Rav Ashi pertencem ao fim do século IV e ao começo do V; Rav Ashi é tido pela tradição como o principal organizador do Talmude Babilônico. Os quatro aparecem em Berakhot 12a como os protagonistas das duas tentativas frustradas de devolver o Decálogo à oração diária.

Saadia Gaon

Saadia ben Yosef (882-942), nascido no Egito, chefe da academia de Sura a partir de 928. Traduziu a Bíblia para o árabe, escreveu a primeira grande obra de filosofia judaica medieval e compôs poemas litúrgicos, entre eles as advertências que distribuem os 613 mandamentos debaixo das dez palavras.

Abraão ibn Ezra

Poeta, gramático, astrônomo e comentarista bíblico (por volta de 1089-1164), nascido em Tudela, na Espanha muçulmana, e andarilho pela Itália, França e Inglaterra na segunda metade da vida. O seu comentário a este versículo é um dos mais longos que escreveu: um inventário das diferenças entre Êxodo 20 e Deuteronômio 5, seguido da sua teoria sobre por que elas existem.

Maimônides

Moisés ben Maimon (1138-1204), nascido em Córdoba, exilado pela perseguição almôada e radicado no Egito, onde foi médico da corte e chefe da comunidade judaica. Respondia por carta a consultas de comunidades de todo o mundo judaico; a que trata de ficar de pé durante o Decálogo é uma delas.

5. Pontos de Ensino

1. O texto se chama "palavras", não "mandamentos". O nome que a Bíblia dá ao conjunto é "as dez palavras". É um nome que cabe a uma fala dirigida a alguém, e que acolhe até uma frase que não manda nada, como a primeira.

2. O versículo apresenta a fala sem intermediário. Não há "a Moisés", nem "ao povo", nem "assim você dirá". Em toda a sequência do Sinai, esta é a fala divina que não passa nominalmente por ninguém.

3. O "todas" foi lido como marca de unidade. Para uns, as dez foram ditas de uma só vez; para outros, todas por Deus e nenhuma por Moisés; para outros ainda, todas e nada mais. Em qualquer das três leituras, o conjunto é tratado como um bloco que se distingue do resto da Lei.

4. A Bíblia guarda o texto em duas versões, e não as uniformiza. Êxodo 20 e Deuteronômio 5 concordam no começo e divergem do sábado em diante. As soluções propostas — um pronunciamento milagroso, Moisés recontando, crescimento do texto ao longo do tempo — são leituras. O dado é que os dois textos foram conservados lado a lado.

5. Dar relevo a uma parte pode diminuir o resto. Os rabinos retiraram o Decálogo da oração diária, e Maimônides combateu o costume de ficar de pé durante a sua leitura, pelo mesmo motivo: o destaque de um trecho fazia pensar que os outros valiam menos. A preocupação não era com o Decálogo, e sim com a Torá inteira.

6. Há também a leitura oposta, e ela é igualmente antiga. Rabi Levi viu as dez palavras dentro do Shemá, e Saadia Gaon pendurou nelas os 613 mandamentos. Ver no Decálogo um resumo e vê-lo como uma parte entre iguais são duas atitudes que a tradição manteve juntas.

6. Aspectos Filosóficos

Um código de leis costuma começar pelo título, pela autoridade que o promulga e pelo artigo primeiro. Este começa por uma cena de fala: alguém falou, disse palavras, e o que vem depois são aspas. A pergunta filosófica que o versículo levanta é a diferença entre uma norma escrita sobre alguém e uma palavra dita a alguém — e se essa diferença muda a natureza do que é dito.

Ferdinand Ebner (1882-1931) fez dessa diferença o centro do seu pensamento. Era professor primário em Gablitz, uma vila perto de Viena, doente dos pulmões durante quase toda a vida adulta, e publicou em 1921 o livro que o tornou conhecido: Das Wort und die geistigen Realitäten ("A palavra e as realidades espirituais"), com o subtítulo de "fragmentos pneumatológicos", isto é, notas sobre o espírito. É um livro de anotações curtas, escrito por um católico solitário que desconfiava dos grandes sistemas da filosofia alemã.

A tese de Ebner é simples de enunciar. O "eu" humano não existe sozinho, como uma coisa que depois entra em relação com outras. Ele só existe diante de um "tu", e o que o põe diante do "tu" é a palavra. O ser humano fala porque foi falado: alguém se dirigiu a ele antes que ele soubesse dizer "eu". Para Ebner, a doença da filosofia moderna era o que ele chamava de "solidão do eu" — o pensador que começa por si mesmo e tenta reconstruir o mundo a partir da própria consciência, sem nunca ter sido interpelado.

Dessa tese sai uma distinção que serve diretamente a este versículo. Há a palavra que fala sobre alguma coisa, na terceira pessoa, e há a palavra que fala a alguém, na segunda. A primeira descreve; a segunda chama. Para Ebner, a segunda é a mais originária, e a primeira é uma derivação dela: só aprendemos a falar das coisas porque antes alguém falou conosco. Ele aplicava a distinção a Deus de modo radical — não se fala de Deus como se fala de um objeto; fala-se com ele, ou se ouve o que ele diz.

O versículo do Sinai está construído do lado da segunda palavra. Não diz "estas são as leis de Israel", como diria um código, e sim "Deus falou… dizendo". O que vem depois não é um regulamento em terceira pessoa, mas uma fala em primeira pessoa dirigida a uma segunda. Lido com Ebner, o fato de o conjunto se chamar "palavras" e não "leis" deixa de ser detalhe de vocabulário: o Decálogo começa como interpelação, e só depois vira texto. A história contada no item 2 mostra o movimento inverso — as palavras viraram recitação, depois liturgia, depois objeto de disputa sobre a posição do corpo durante a leitura.

Ebner não ficou sem leitores. Martin Buber reconheceu, num ensaio de 1954 sobre a história do que chamava "princípio dialógico", que Ebner tinha chegado a ideias muito próximas das suas por caminho independente, e Emil Brunner, teólogo suíço, tirou dele parte da sua teologia do encontro. A sua obra, curta e fragmentária, ficou como uma das origens do chamado pensamento dialógico.

O limite da aproximação é claro. Ebner escrevia sobre a constituição da pessoa humana, não sobre legislação, e não comentou este versículo. O texto do Êxodo, por sua vez, não tem teoria nenhuma sobre o "eu" e o "tu"; tem uma cena em que Deus fala e um povo ouve. O que o filósofo oferece é uma maneira de ver por que a forma da cena importa: uma lei que começa como palavra dirigida não pede apenas cumprimento, pede resposta — e é exatamente isso que o povo dará, para o bem e para o mal, nos versículos 18 a 21 deste capítulo.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar do resumo que toma o lugar do todo. Os rabinos retiraram o Decálogo da oração diária não porque o desprezassem, mas porque perceberam o efeito de recitá-lo sozinho: o resto da Lei começava a parecer acessório. O mesmo acontece com qualquer conjunto de normas, numa família, numa empresa ou numa comunidade religiosa. A lista curta que todos sabem de cor facilita a vida, e com o tempo passa a ser lida como a única coisa que importa. Ter um resumo é útil; tratá-lo como se dispensasse o resto é o que os mestres de Sura e Nehardea quiseram evitar.

Ler uma regra como fala de alguém. O versículo apresenta o que vem como palavras ditas, e não como regulamento. Diante de uma norma — uma cláusula de contrato, uma orientação médica, uma regra de casa —, perguntar quem a disse, a quem e por quê costuma mudar a maneira de cumpri-la. Uma ordem lida como frase solta pede obediência; a mesma ordem lida como fala de alguém pede também compreensão.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que estava escrito nas tábuas: a versão do Êxodo ou a do Deuteronômio?

O texto não diz, e as opiniões se dividiram. Saadia Gaon, segundo Ibn Ezra, propôs que "lembra-te" estivesse numa tábua e "guarda" na outra. Ibn Ezra recusa e sustenta que as tábuas traziam o texto do Êxodo, palavra por palavra, e que o Deuteronômio é Moisés recontando. Não há como decidir: as tábuas, segundo a própria Bíblia, foram guardadas na arca, e a arca desapareceu com a destruição do primeiro Templo.

Se são dez, onde termina cada uma?

O número dez é da Bíblia: Êxodo 34:28 e Deuteronômio 4:13 o dizem com todas as letras. A divisão não é. O texto não numera as palavras, e judeus, católicos, luteranos, reformados e ortodoxos as contam de modos diferentes, todos com algum apoio no próprio texto. As três numerações estão expostas no estudo de Êxodo 20:3.

O Decálogo é mais antigo do que as leis que vêm depois dele?

É uma hipótese frequente entre os estudiosos modernos, apoiada na forma curta e geral das proibições, que se distinguem das leis de caso detalhadas dos capítulos 21 a 23. Mas forma curta não é prova de idade: textos breves também podem ser resumos tardios de tradições longas. A datação do Decálogo é discutida e não há consenso.

9. Conexão com Outros Textos

O nome que a Bíblia dá ao conjunto

Êxodo 34:28 — "Ele esteve ali com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão nem bebeu água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras."

Deuteronômio 4:13 — "Ele anunciou a vocês a sua aliança, que lhes ordenou cumprir: as dez palavras; e as escreveu em duas tábuas de pedra."

Deuteronômio 10:4 — "Ele escreveu nas tábuas, como na primeira escrita, as dez palavras que o SENHOR lhes tinha falado no monte, do meio do fogo, no dia da assembleia; e o SENHOR as deu a mim."

Os três lugares em que o número aparece. Em todos, o substantivo é "palavras"; em nenhum, "mandamentos". O segundo junta o termo à aliança; o terceiro, ao "dia da assembleia".

"E nada acrescentou"

Deuteronômio 5:22 — "Estas palavras o SENHOR falou a toda a assembleia de vocês no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridão, com voz forte, e nada acrescentou. Ele as escreveu em duas tábuas de pedra e as deu a mim."

A releitura que fecha o conjunto: o que Deus disse a todos termina ali. É o texto em que se apoia a terceira leitura do "todas" (item 3).

Êxodo 20:22 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Assim você dirá aos filhos de Israel: Vocês mesmos viram que eu falei com vocês do céu.'"

Quando o Decálogo termina, a fala volta a ter destinatário, e o destinatário é Moisés. O contraste com Êxodo 20:1, que não nomeia ninguém, é imediato.

A mudança de pessoa dentro da mesma fala

Êxodo 23:18-19 — "Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem a gordura da minha festa ficará até a manhã. As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do SENHOR, o teu Deus."

O exemplo de Ibn Ezra: na mesma fala, Deus diz "meu sacrifício" e, em seguida, "a casa do SENHOR". A passagem da primeira para a terceira pessoa não indica outro orador.

As dez palavras dentro do Shemá

Deuteronômio 6:4-5 — "Ouve, Israel: o SENHOR é o nosso Deus, o SENHOR é um. Amarás o SENHOR, o teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força."

Números 15:39 — "Isto lhes servirá de franja; vocês a verão e se lembrarão de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprirão; e não seguirão o seu coração e os seus olhos, atrás dos quais vocês se prostituem."

Os dois trechos do Shemá que Rabi Levi, no Talmude de Jerusalém, faz corresponder às primeiras palavras e ao "não adulterarás".

O resumo da Lei no Evangelho

Mateus 22:37-40 — "Jesus lhe disse: 'Amarás o Senhor, o teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.'"

Perguntado sobre o maior mandamento, Jesus não cita nenhuma das dez palavras: cita Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18. O resumo da Lei, no Evangelho, é feito com dois versículos de fora do Decálogo — o que mostra que, no primeiro século, as dez palavras não eram a única maneira de condensar a Torá.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Deus falou todas estas palavras, dizendo:

Texto hebraico

וַיְדַבֵּר אֱלֹהִים אֵת כָּל־הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה לֵאמֹר׃

Transliteração

va-yedabber Elohim et kol-ha-devarim ha-elleh lemor.

Análise palavra por palavra

וַיְדַבֵּר — va-yedabber, "e falou".

Da raiz d-b-r, na forma Piel (a forma intensiva do verbo hebraico, que para este verbo é a usual), com o prefixo que encadeia a narrativa. É o verbo de falar sem citar, e por isso precisa do lemor no fim do versículo para abrir as aspas. A dupla "falou… dizendo" é a abertura dos discursos solenes do Pentateuco, e o estudo de Êxodo 6:2 trata dela.

אֱלֹהִים — Elohim, "Deus".

Forma plural com verbo no singular, que é como o hebraico designa o Deus de Israel com o título comum. A Septuaginta não traduz este título aqui: escreve kýrios, "Senhor", a palavra que ela usa para o nome próprio. Não se sabe se o tradutor tinha diante de si um texto hebraico com o nome de quatro letras ou se harmonizou com o restante do capítulo. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas) mantém "Deus".

אֵת — et.

Partícula que marca o objeto direto. Não se traduz; indica que "todas estas palavras" é o que foi falado, e não a quem.

כָּל־ — kol, "todas".

Substantivo que significa "totalidade", ligado à palavra seguinte por hífen. É sobre esta palavra que as três leituras do item 3 discutem: simultaneidade, autoria integral ou fronteira do conjunto. Em Deuteronômio 5:22, na recontagem de Moisés, a palavra não está: "estas palavras".

הַדְּבָרִים — ha-devarim, "as palavras".

Plural de davar, com artigo. A palavra designa ao mesmo tempo a coisa dita e o assunto de que se fala. É da expressão aseret ha-devarim, "as dez palavras" (Êxodo 34:28; Deuteronômio 4:13; 10:4), que nasce o nome do conjunto. Na literatura rabínica, cada uma das dez se chama dibber ou dibbur, "fala", e o conjunto, aseret ha-dibberot, outra forma da mesma raiz.

הָאֵלֶּה — ha-elleh, "estas".

Demonstrativo plural com artigo. Aponta para a frente: "estas" são as que vêm a seguir, e não as que o capítulo 19 já relatou.

לֵאמֹר — lemor, "dizendo".

Infinitivo do verbo amar, "dizer", com a preposição le. Funciona como os dois-pontos e as aspas do português: anuncia que a fala vem a seguir, literalmente. A Mekhilta lê nele também um convite à resposta — o povo dizia "sim" ao que pedia sim e "não" ao que pedia não —, leitura que Rashi repete.

O versículo no rolo

No texto hebraico tradicional, este versículo forma sozinho um parágrafo: depois de lemor vem um espaço em branco do tipo "fechado", e só então começa "Eu sou". A abertura do Decálogo é, assim, uma linha isolada, uma moldura separada daquilo que emoldura.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o texto que ele abre foi recebido como fala, e não como código. O nome que a Bíblia lhe dá é "palavras", a cena é a de alguém que fala, e a fala não tem intermediário declarado. "Mandamentos" é o nome que o leitor posterior deu ao que o texto chama de outro modo.

A segunda é que o "todas" fez do conjunto um bloco distinto do resto da Lei — e que esse destaque foi, ao mesmo tempo, a sua força e o seu problema. A mesma tradição que viu nas dez palavras o resumo de todos os mandamentos tirou-as da oração diária e combateu o costume de ficar de pé diante delas, para que o destaque não rebaixasse o restante.

A terceira é que a Bíblia conservou este texto em duas formas e não as apagou uma em favor da outra. Quem lê Êxodo 20 e Deuteronômio 5 lado a lado vê que o núcleo é o mesmo e que as formulações variam; como explicar isso é questão de leitura — pronunciamento milagroso, Moisés recontando, crescimento do texto —, mas a coexistência das duas é um dado do próprio cânon.

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