Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo.
1. Introdução
O mandamento do sábado — quarto na contagem judaica e na reformada, terceiro na católica e na luterana — abre com uma ordem que nenhum outro tem: "Lembra-te". No Deuteronômio, a mesma frase começa com "Guarda", e os rabinos responderam à diferença dizendo que as duas palavras foram ditas por Deus num único pronunciamento, coisa que boca humana não faz. O versículo levanta então duas perguntas práticas: o que é lembrar um dia, e como alguém santifica um dia que, segundo o próprio Êxodo, Deus já santificou. As respostas da tradição — contar a semana em direção a ele, prepará-lo, abri-lo com uma bênção sobre o vinho, honrá-lo com comida e roupa — fizeram deste versículo a origem de boa parte da prática do sábado.
2. Contexto Histórico e Cultural
A semana contada a partir do sábado
A Bíblia hebraica não dá nome aos dias da semana. Quando precisa, conta: "o sexto dia", "o sétimo dia". O único que ganhou nome foi o sétimo.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) transforma esse costume em leitura do versículo. Rabi Yitzchak ensina: "Não conte os dias como os outros contam; conte em direção ao sábado". A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai (a outra coleção antiga de comentários ao Êxodo) dá a forma exata, em nome de Rabi Yehudah ben Betera: dizer "primeiro dia do sábado, segundo dia do sábado, terceiro dia do sábado", até a "véspera do sábado". Cada dia da semana passa a ser nomeado pela sua distância até o sétimo. Lembrar o sábado, nessa leitura, é uma forma de calendário: a semana inteira aponta para ele. O português, por outro caminho, guarda até hoje o sábado como o único dia de nome hebraico — história contada no estudo de Êxodo 16:23.
Shammai e Hillel
O Talmude (Beitzah 16a) e a Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai contam como dois mestres do século I antes de Cristo cumpriam o "lembra-te". Shammai, o Velho, passava a semana inteira comendo em honra do sábado. Se achava no mercado um animal bonito, dizia: "Este é para o sábado". Se depois achava outro mais bonito, separava o segundo para o sábado e comia o primeiro. Assim, cada refeição dos dias comuns era o resto de uma escolha feita para o sétimo dia. A Mekhilta acrescenta que "a lembrança do sábado não saía da sua boca": um objeto bom, uma roupa nova, e ele dizia "isto é para o sábado".
Hillel, o Velho, tinha outro jeito: todos os seus atos eram para o céu, e ele citava o salmo "Bendito seja o Senhor, dia após dia" (Salmo 68:19). Confiava que cada dia traria o seu próprio bem, e não guardava nada. As duas atitudes ficaram como modelos. A de Shammai lê o versículo como ordem de orientar a semana; a de Hillel, como confiança de que lembrar o sábado não exige tirar nada dos outros dias.
A bênção sobre o vinho
A segunda prática nascida do versículo é o Kidush ("santificação", a bênção que abre o sábado). A Mekhilta lê "para santificá-lo" como "com uma bênção", e o Talmude (Pesachim 106a) completa: "Lembra-te — lembra-o sobre o vinho". Na sexta-feira ao anoitecer, o chefe da casa ergue um cálice e recita a bênção que declara o dia santo. A Mekhilta de Rabi Shimon fixa uma ordem de prioridade: se a pessoa só tem um cálice de vinho, ele vai para a santificação do dia, antes de qualquer outra honra à mesa.
Começar antes e terminar depois
Da dupla "lembra-te" e "guarda", a Mekhilta tira uma terceira regra: "lembre-o antes que chegue, guarde-o depois que sair". Daí o costume de acrescentar ao sábado um pouco do dia comum na entrada e na saída — começar alguns minutos antes do pôr do sol de sexta e terminar alguns minutos depois do anoitecer de sábado. A imagem da Mekhilta é curiosa: o sábado avança sobre o tempo comum "como um lobo, que arrebata o que está à sua frente e o que está atrás". A lembrança, aqui, não é só memória; é margem de segurança no relógio.
3. Análise Teológica do Versículo
"Lembra-te"
Dos dez mandamentos, só dois são ordens positivas: este e o dos pais. Os outros oito começam com "não". E este é o único que começa por um verbo de memória. Lembrar o quê, e como? A pergunta recebeu quatro respostas.
Primeira leitura: lembrar o que já se conhecia. O povo tinha vivido o primeiro sábado semanas antes, com o maná (Êxodo 16:23-30), e "lembra-te" apontaria para essa experiência. É a leitura de John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) e de Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX), que admitem também a alternativa: "tenha em mente, de agora em diante, o que estou mandando". Se o sábado era ou não conhecido antes do deserto é a pergunta do estudo de Êxodo 16:23, que expõe as cinco respostas.
Segunda leitura: lembrar durante a semana inteira. A forma hebraica do verbo é a que não marca tempo nem pessoa — é quase um "lembrar" solto —, e Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) tira daí o sentido de "tenha o cuidado de lembrar sempre". A Mekhilta de Rabi Ishmael, em nome de Elazar ben Chananiah ben Garon, diz: "lembre-o desde o primeiro dia da semana". O sábado não é lembrado no sábado; é lembrado nos seis dias que levam até ele.
Terceira leitura: lembrar em voz alta. "Lembrar", no hebraico bíblico, é muitas vezes "mencionar", "fazer constar" — e é assim que o Talmude lê o verbo quando manda lembrar o sábado sobre o cálice de vinho. Lembrar, aqui, é um ato de fala, e não um estado da mente.
Quarta leitura: lembrar porque a razão não basta. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII), na formulação que Gill resume, observa que todos os outros mandamentos do Decálogo a razão humana alcança sozinha: não matar, não furtar, honrar os pais. O sábado não. Nenhum raciocínio leva a parar no sétimo dia e não no sexto ou no oitavo. Por isso só ele vem com "lembra-te": é o mandamento que, sem a memória, se perde.
"Lembra-te" e "Guarda"
Quarenta anos depois, no Deuteronômio, Moisés repete o Decálogo, e o sábado começa de outro jeito: "Guarda o dia de sábado, para santificá-lo, como o SENHOR, o teu Deus, te ordenou" (Deuteronômio 5:12). Qual das duas palavras Deus disse no Sinai?
A resposta rabínica é que disse as duas, ao mesmo tempo. "'Lembra-te' e 'Guarda' foram ditos num só pronunciamento — o que a boca humana não consegue dizer, nem o ouvido humano ouvir" (Mekhilta; Talmude, Shevuot 20b). A prova é um salmo: "Uma vez Deus falou; duas coisas eu ouvi" (Salmo 62:11). E a Mekhilta não fica no sábado. Junta outros pares de leis que parecem se contradizer e diz que cada par também foi dito de uma vez: "quem profanar o sábado morrerá" e a ordem de oferecer dois cordeiros no sábado (Números 28:9), trabalho que em outro dia seria profanação; a proibição de misturar lã e linho e a ordem das franjas, que os misturavam; a proibição de casar com a mulher do irmão e a ordem de casar com a viúva do irmão sem filhos. Em cada caso, a regra e a sua exceção saíram juntas da mesma boca. Dito de uma vez, o sábado é ao mesmo tempo uma coisa a fazer e uma coisa a evitar.
Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) explica por que os rabinos se preocuparam só com esta diferença, entre tantas que há entre as duas versões. "Lembra-te" é mandamento positivo — lembrar o dia, santificá-lo, não esquecê-lo. "Guarda" é, na linguagem jurídica dos rabinos, um mandamento negativo — cuidar para não profanar. Moisés não poderia trocar por conta própria um mandamento positivo por um negativo. Logo, as duas formas tinham de vir de Deus. Ibn Ezra, que achava a tese difícil tomada ao pé da letra, preferia ler o Deuteronômio como Moisés recontando com as próprias palavras.
A tese teve uma consequência prática que ninguém previu. As mulheres, pelo direito rabínico, estão isentas de quase todos os mandamentos positivos ligados a um horário. A bênção do sábado seria um deles. Mas Rav Adda bar Ahava argumenta no Talmude (Shevuot 20b): como "lembra-te" e "guarda" foram ditos juntos, quem está obrigado a guardar está obrigado a lembrar. As mulheres guardam o sábado; logo, recitam a bênção. Uma tese sobre como Deus falou no Sinai decidiu quem ergue o cálice na sexta-feira.
E há um detalhe que mostra que o verbo de memória não desapareceu do Deuteronômio. Ele mudou de lugar. A versão de lá termina o mandamento com "lembra-te de que foste escravo na terra do Egito" (Deuteronômio 5:15). No Êxodo se lembra o dia; no Deuteronômio se guarda o dia e se lembra a escravidão.
"o dia de sábado"
O texto não diz "o sétimo dia", que é como o versículo 10 vai chamá-lo, mas "o dia de sábado", com o nome — e com a palavra "dia", que fez os rabinos perguntarem pela noite. A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai raciocina assim: "o dia" me daria só as horas de luz; de onde tiro a noite? De "para santificá-lo". O Talmude (Pesachim 106a) faz o caminho inverso: a bênção da entrada, à noite, sai de "lembra-te"; a do dia seguinte, de "o dia". As duas leituras chegam ao mesmo costume — o sábado começa ao pôr do sol de sexta e é marcado duas vezes, na noite e no dia. O texto não diz isso; os rabinos o tiraram das palavras.
"para santificá-lo"
A frase cria um problema. Segundo o próprio Êxodo, quem santificou o sábado foi Deus (Êxodo 20:11, retomando Gênesis 2:3). O que um ser humano pode acrescentar à santidade de um dia que já é santo?
Primeira leitura: santificar é separar, e separar é não trabalhar. Ibn Ezra diz que o versículo seguinte explica o "santificar": trabalhar seis dias e parar no sétimo é o modo de tornar o dia diferente. Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) dá o dado que apoia essa leitura: a Lei não prescreve quase nada de positivo para o sábado do israelita comum — nem culto obrigatório, nem ensino, nem oferta pessoal. O que ela prescreve é a abstenção.
Segunda leitura: santificar é declarar, com palavras. É a da Mekhilta ("com uma bênção"). O ser humano não cria a santidade do dia, mas a reconhece em voz alta, como quem lê uma proclamação.
Terceira leitura: santificar é honrar com o corpo. A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai pergunta "com que você o santifica?" e responde: com comida, com bebida, com roupa limpa. Isaías dará a fórmula: chamar o sábado de "delícia" e de "honroso" (Isaías 58:13).
Quarta leitura: santificar é ocupar o dia com Deus. Ibn Ezra, no mesmo comentário, diz que o sábado foi dado para entender as obras de Deus e estudar a Torá, e que nele não se deve sequer planejar os negócios — nem os de ontem, nem os de amanhã.
O texto não define o "santificar". Diz só que é a finalidade do lembrar: lembra-se o dia para santificá-lo. A memória não é o objetivo; é o meio.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem fala e a quem. Deus, no Sinai, a cada israelita no singular. Na versão do Deuteronômio, é Moisés quem repete o mandamento ao povo nas planícies de Moabe, quarenta anos depois, e é na boca dele que o "lembra-te" vira "guarda".
O lugar na lista. Quarto mandamento na contagem judaica e na reformada; terceiro na católica e na luterana. O sábado ocupa quatro versículos (Êxodo 20:8-11), e este é o que dá a ordem; os seguintes dizem como cumpri-la, quem a cumpre e por quê.
O dia. O sétimo dia da semana, do pôr do sol de sexta ao anoitecer de sábado, na contagem que o calendário judaico conserva. O Êxodo já o tinha nomeado no episódio do maná (Êxodo 16:23).
Shammai e Hillel. Os dois grandes mestres de Jerusalém no fim do século I antes de Cristo, fundadores das duas escolas que discutem quase toda a lei da Mishná. Neste estudo aparecem como dois modos de lembrar o sábado: o que separa o melhor para o sétimo dia e o que confia no bem de cada dia.
Rabi Yitzchak, Elazar ben Chananiah e Rabi Yehudah ben Betera. Mestres citados nas duas Mekhiltot pela regra de contar a semana em direção ao sábado.
Rav Adda bar Ahava. Mestre da Babilônia do século III, autor do argumento que obriga as mulheres à bênção do sábado.
5. Pontos de Ensino
O dia é santo, e mesmo assim precisa ser santificado. Deus santificou o sétimo dia; o ser humano é mandado santificá-lo. Uma coisa não dispensa a outra. A santidade dada se torna real na vida de quem a reconhece.
Um dia pode organizar os outros seis. A regra de contar "primeiro, segundo, terceiro" em direção ao sábado mostra que o mandamento não trata só de um dia, mas da forma da semana. Quem lembra o sétimo dia vive os outros como caminho até ele.
Regra e limite podem vir juntos. A tese de que "lembra-te" e "guarda" foram ditos de uma vez, aplicada pela Mekhilta a outros pares de leis, ensina a ler a Torá sem isolar um mandamento dos que o limitam. A mesma boca que proíbe trabalhar no sábado manda oferecer sacrifício nele.
6. Aspectos Filosóficos
Um dia de descanso é tempo livre? A pergunta parece ter resposta óbvia, e o versículo a complica. Ele não manda "descansa no sétimo dia"; manda lembrar o dia e santificá-lo. O dia não é definido pelo que sobra depois do trabalho, e sim por algo que se faz com ele. A distinção entre tempo que sobra e tempo que tem forma própria é o centro da obra de um filósofo político norte-americano.
Sebastian de Grazia: tempo livre não é lazer
Sebastian de Grazia (1917-2000) ensinou filosofia política nos Estados Unidos e ganhou o Prêmio Pulitzer com uma biografia de Maquiavel, Maquiavel no inferno (1989). Mas o livro que o tornou conhecido foi um estudo encomendado por uma fundação norte-americana, Of Time, Work, and Leisure ("Do tempo, do trabalho e do lazer", 1962).
A tese tem duas partes. A primeira é empírica: a semana de trabalho não encolheu tanto quanto se dizia. Somando o deslocamento, o segundo emprego, as tarefas de casa e as compras, de Grazia mostrou que o "tempo livre" do trabalhador moderno era muito menor do que as estatísticas oficiais sugeriam.
A segunda parte é conceitual, e é a que interessa ao versículo. Tempo livre, diz ele, é uma medida de relógio: são as horas fora do emprego, e elas são definidas pelo emprego — servem para recuperar as forças, consumir, preparar a volta. Lazer é outra coisa: é um estado, a condição de quem faz algo por si mesmo, e não como meio para outra coisa. Ele busca a ideia nos gregos, para quem o lazer era o tempo da contemplação, da música e da conversa, e conclui com uma frase que ficou famosa: "Qualquer um pode ter tempo livre. Nem todos podem ter lazer. O tempo livre é uma ideia realizável da democracia; o lazer não é plenamente realizável, e por isso é um ideal".
O que a distinção ilumina no versículo
O sábado do Êxodo não cabe na primeira categoria. Ele não é o resto da semana; é o dia para o qual a semana é contada. A regra rabínica de nomear cada dia pela sua distância até o sétimo inverte a lógica que de Grazia descreve. No tempo livre moderno, a folga é medida a partir do trabalho; no sábado lembrado, o trabalho é medido a partir da folga. Shammai, separando para o sábado o melhor animal do mercado, faz da semana um preparo, e não do sábado uma pausa.
E o "para santificá-lo" dá ao dia o que de Grazia chama de lazer: um tempo que não serve a outro. Santificado, o dia não pode ser reduzido a recarregar as forças em vista da segunda-feira.
Onde a comparação para
O lazer de de Grazia é um ideal de minoria. Ele próprio admite que nunca será de todos, e o modelo grego dependia de escravos que trabalhavam para que alguns pudessem contemplar. O sábado bíblico vai na direção oposta. Ele não é dado a quem pode se dar ao luxo do ócio, e sim a todos, por ordem, no mesmo dia — e o mandamento, dois versículos adiante, mostrará que a ordem alcança justamente os que trabalham para os outros. O que para de Grazia é ideal irrealizável, o mandamento põe no calendário toda semana.
De Grazia não trata do sábado bíblico como tema; a aproximação é leitura nossa. Mas ela ajuda a ver por que o versículo usa "lembra-te" e "santificar" em vez de "descansa": um dia que se lembra e se santifica não é o que sobra do trabalho. É um tempo com nome próprio.
7. Aplicações Práticas
A relação real do versículo com a vida comum está na palavra "lembra-te" aplicada ao calendário. Um dia de descanso que não é preparado se dissolve: vira o dia em que se resolve o que ficou atrasado, se responde à mensagem do trabalho, se faz a compra que não coube na semana. A prática de Shammai — separar durante a semana o que é para aquele dia — é a forma concreta do mandamento: o descanso começa a ser guardado na terça-feira, não no próprio dia.
O segundo ponto é o da marca de entrada. A tradição judaica abre o sábado com uma bênção e o fecha com outra. Para quem guarda um dia de descanso em qualquer tradição, o versículo sugere que o dia precisa de um começo dito, e não apenas de uma ausência de compromissos. Uma refeição diferente, uma roupa diferente, uma palavra dita à mesa: são esses gestos que, segundo a leitura antiga, fazem a diferença entre o dia lembrado e o dia que simplesmente passou.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
E quem perde a conta dos dias?
O Talmude (Shabbat 69b) discute o caso de quem viaja pelo deserto e não sabe mais em que dia está. Rav Huna manda contar seis dias a partir do momento em que percebeu e guardar o sétimo, "como na criação do mundo". Chiyya bar Rav manda guardar um dia logo e depois contar seis, "como Adão", que foi criado na véspera e cujo primeiro dia inteiro foi um sábado. O Talmude decide por Rav Huna, com base numa tradição antiga. E Rava acrescenta: nos outros dias, a pessoa trabalha só o necessário para comer, porque qualquer um deles pode ser o sábado verdadeiro. O caso mostra o que o "lembra-te" pressupõe: o sábado é uma contagem que se mantém, e quem a perde precisa recomeçá-la.
O sábado deve ser guardado mesmo com uma vida em risco?
Não, na tradição rabínica. O Talmude (Yoma 85b) reúne vários argumentos para isso. Rabi Shimon ben Menasya lê Êxodo 31:16: "profane um sábado por ele, para que ele guarde muitos sábados". Rabi Yonatan ben Yosef diz que o sábado foi entregue nas mãos do ser humano, e não o ser humano nas mãos do sábado. E Samuel prefere Levítico 18:5, os mandamentos "pelos quais o ser humano viverá" — viverá, e não morrerá por eles. O "para santificá-lo" nunca foi lido, nessa tradição, como obrigação de morrer pelo dia.
O mandamento obriga quem não é israelita?
O Êxodo chama o sábado de "sinal entre mim e os filhos de Israel" (Êxodo 31:13), e a tradição rabínica o tratou como próprio de Israel e dos que se juntam a ele. O versículo, dirigido ao "tu" que saiu do Egito, não diz nada sobre os outros povos. Quem o lê como lei universal se apoia no motivo da criação, que vale para todos; quem o lê como lei de Israel se apoia no destinatário e no "sinal". As duas leituras convivem nas igrejas cristãs, como mostra o item 9.
Por que a Mekhilta junta ao sábado leis sobre roupas e casamento?
Porque o argumento do "único pronunciamento" não é sobre o sábado em particular, e sim sobre como ler a Torá quando duas leis parecem se contradizer. Se a proibição e a exceção foram ditas juntas, nenhuma das duas é o "texto verdadeiro" contra o qual a outra seria um desvio. O sábado é só o exemplo mais conhecido.
9. Conexão com Outros Textos
A outra versão
Deuteronômio 5:12 — "Guarda o dia de sábado, para santificá-lo, como o SENHOR, o teu Deus, te ordenou."
Deuteronômio 5:15 — "Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e de que o SENHOR, o teu Deus, te tirou de lá com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR, o teu Deus, te ordenou guardar o dia de sábado."
O "como o SENHOR te ordenou" só existe nesta versão e no mandamento dos pais.
O dia já santificado
Gênesis 2:3 — "Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que havia criado e feito."
O mesmo verbo do mandamento, com Deus por sujeito.
O sábado como sinal
Êxodo 31:13-14 — "Certamente vocês guardarão os meus sábados, pois isso é um sinal entre mim e vocês pelas suas gerações, para que saibam que eu sou o SENHOR, que os santifico. Guardem o sábado, porque é santo para vocês; quem o profanar certamente será morto."
Aqui é Deus quem santifica o povo, e o povo guarda o dia: o "santificar" do Êxodo 20:8 corre nos dois sentidos.
Isaías 58:13 — "Se você desviar o pé do sábado, de fazer a sua vontade no meu santo dia, e chamar o sábado de delícia, e o santo dia do SENHOR de honroso; se o honrar, não seguindo os seus caminhos, não buscando a sua vontade nem falando palavras vãs."
O "santificar" do Êxodo traduzido em atitudes: delícia, honra, abstenção dos próprios negócios.
No Novo Testamento
Mateus 12:8 — "Pois o Filho do Homem é senhor do sábado."
A frase fecha a discussão sobre os discípulos que colhiam espigas num sábado. Jesus não revoga o mandamento; reivindica autoridade sobre a sua interpretação.
Marcos 2:27 — "O sábado foi feito por causa do ser humano, e não o ser humano por causa do sábado."
A frase tem paralelo quase literal no Talmude, na discussão sobre a vida em risco (item 8).
Lucas 23:56 — "E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento."
As mulheres que seguiram Jesus guardam o sábado depois da crucificação. A primeira geração de discípulos continua a observá-lo.
Mateus 28:1 — "Depois do sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro."
O grego diz literalmente "o primeiro dos sábados": é a contagem judaica da semana em direção ao sétimo dia, a mesma que a Mekhilta manda fazer. O dia da ressurreição é nomeado a partir do sábado.
Atos 20:7 — "No primeiro dia da semana, quando estávamos reunidos para partir o pão, Paulo conversava com eles."
Apocalipse 1:10 — "Achei-me em espírito no dia do Senhor."
Os primeiros indícios de reunião cristã no primeiro dia da semana, e do nome "dia do Senhor", que daria em português "domingo" (do latim dominicus, "do Senhor").
Romanos 14:5 — "Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja plenamente convicto na sua própria mente."
Colossenses 2:16-17 — "Ninguém, pois, julgue vocês por causa de comida ou bebida, ou de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas que haviam de vir; a realidade, porém, é de Cristo."
O sábado e o domingo nas igrejas
A passagem do sétimo dia para o primeiro foi gradual. Inácio de Antioquia (bispo martirizado em Roma por volta de 110), na Carta aos Magnésios (9:1), descreve cristãos de origem judaica que já "não guardam o sábado, mas vivem segundo o dia do Senhor". Justino (filósofo cristão de Roma, por volta de 155), na Primeira Apologia (67), diz que os cristãos se reúnem "no dia chamado do Sol". E em 321 o imperador Constantino fez do "venerável dia do Sol" um dia de descanso para os tribunais e os ofícios urbanos, com exceção dos trabalhos do campo.
Hoje há três posições, e cada uma tem os seus textos. A primeira entende que o domingo cumpre ou substitui o sábado: o Catecismo da Igreja Católica (§2175) diz que ele "realiza a verdade espiritual do sábado judaico", e a Confissão de Westminster (presbiteriana, 1646, cap. 21) chama o primeiro dia de "sábado cristão". A segunda sustenta que o mandamento continua a obrigar no sétimo dia: é a dos batistas do sétimo dia, surgidos na Inglaterra do século XVII, e dos adventistas do sétimo dia, surgidos nos Estados Unidos no século XIX e numerosos no Brasil. A terceira entende que nenhum dia é obrigatório por lei, com base em Romanos 14 e Colossenses 2; é a linha de Lutero, que no Catecismo Maior (1529) diz que o mandamento, no sentido literal, era para os judeus, e que os cristãos guardam um dia por ordem e para ouvir a palavra. O versículo do Êxodo é o mesmo para as três; o que as separa é como cada uma lê o Novo Testamento.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo.
Texto hebraico
זָכ֛וֹר֩ אֶת־י֥֨וֹם הַשַּׁבָּ֖֜ת לְקַדְּשֽׁ֗וֹ׃
Transliteração
zakhor et-yom ha-shabbat le-qaddesho.
Análise palavra por palavra
זָכוֹר — zakhor, "lembra-te".
Verbo zakhar, "lembrar, mencionar", no infinitivo absoluto: a forma do verbo hebraico que não tem pessoa, número nem tempo, e que aqui faz as vezes de imperativo. O hebraico tinha o imperativo comum à disposição e não o usou. Rashi compara a construção a Isaías 22:13 ("comer e beber") e a 2 Samuel 3:16 ("ir e chorar"), em que o infinitivo descreve uma ação contínua, e daí tira o sentido de "lembrar sempre". O Targum de Ônquelos traduz na mesma direção, com uma expressão de estado: "esteja lembrando" (havei dekhir). A distribuição da forma exata no Êxodo — só aqui e em Êxodo 13:3 — está desenvolvida no estudo daquele versículo. Deuteronômio 5:12 usa a mesma construção com outro verbo, shamor, "guardar", também no infinitivo absoluto: as duas versões trocam a palavra e conservam a forma.
אֶת־יוֹם — et-yom, "o dia de".
Et marca o objeto direto definido. Yom, "dia", na forma presa ao que vem depois. O hebraico poderia ter escrito só "lembra-te do sábado"; a palavra "dia" é a que levou os rabinos à discussão sobre a noite e o dia (item 3).
הַשַּׁבָּת — ha-shabbat, "o sábado".
Com artigo: o sábado conhecido. No primeiro anúncio, em Êxodo 16:23, a palavra veio sem artigo; aqui ela já é nome de uma coisa sabida. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita a partir do século III antes de Cristo) traduz "o dia dos sábados", no plural, como faz muitas vezes com esta palavra — tôn sabbátōn —, e o plural passou para o grego dos evangelhos, onde "os sábados" pode querer dizer um só sábado ou a semana.
לְקַדְּשׁוֹ — le-qaddesho, "para santificá-lo".
A preposição le, "para", com o infinitivo do verbo qadash no Piel (a forma intensiva ou causativa do verbo hebraico) e o sufixo "o" (ele, o dia). O Qal de qadash é "ser santo"; o Piel é "tornar santo", "declarar santo", "consagrar". É o verbo de Gênesis 2:3, em que Deus "santificou" o sétimo dia; aqui o sujeito é o ser humano. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) transforma a finalidade em conteúdo da memória: memento ut diem sabbati sanctifices, "lembra-te de santificar o dia de sábado".
A acentuação
No texto hebraico impresso, a palavra zakhor traz dois sinais de cantilação sobrepostos; os dois sistemas de leitura do Decálogo estão explicados no estudo de Êxodo 20:13. Num deles, os quatro versículos do sábado (Êxodo 20:8-11) viram uma frase única; no outro, este versículo de quatro palavras fica sozinho.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o sábado do Êxodo é um dia que se constrói antes de chegar. A ordem não é "descansa", e sim "lembra-te", num verbo sem tempo marcado, e a tradição entendeu com razão que esse lembrar ocupa a semana inteira. O sétimo dia não é o que sobra depois de seis; é aquilo para o qual os seis são contados.
A segunda é que as duas formas do mandamento, "lembra-te" e "guarda", descrevem duas faces da mesma coisa, e a tese rabínica do pronunciamento único, seja qual for o juízo que se faça dela, captou isso com precisão. Lembrar sem guardar seria só sentimento; guardar sem lembrar, só abstenção. O mandamento junta as duas, e a consequência mais concreta dessa junção foi incluir as mulheres na bênção que abre o dia.
A terceira é que a santidade do dia, embora dada por Deus, só se torna visível quando alguém a declara e a honra. O versículo não diz como; deixa a forma aberta. Por isso cada comunidade que o recebeu — a sinagoga, as igrejas que guardam o sábado, as que guardam o domingo — encheu o "para santificá-lo" com práticas próprias, e todas elas partem do mesmo pressuposto: um dia santo que ninguém santifica fica igual aos outros.













