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Êxodo 16:23

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 17 acessos
Ele lhes disse: “Isto é o que o SENHOR falou: amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR. O que vocês tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem; e tudo o que sobrar, depositem para vocês, para ser guardado até a manhã.”
Mulher ajoelhada diante de um pequeno forno de barro à porta de uma tenda no deserto, ao entardecer, assando bolos claros enquanto uma panela ferve sobre pedras; ao lado, uma vasilha coberta com um pano guarda a porção do dia seguinte.

Estudo


Ele lhes disse: “Isto é o que o SENHOR falou: amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR. O que vocês tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem; e tudo o que sobrar, depositem para vocês, para ser guardado até a manhã.”

1. Introdução

Moisés responde aos chefes que estranharam o pão em dobro: "amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR". É a primeira vez em toda a Bíblia que aparece a palavra "sábado" — o Gênesis só tinha o verbo "descansar" — e ela entra num acampamento do deserto, numa sexta-feira, para explicar comida. A frase abre uma pergunta que atravessa séculos: o sábado já era conhecido antes deste dia, ou começa aqui? O versículo manda ainda assar e cozinhar o que for preciso, e os leitores nunca concordaram sobre se isso valia para os dois dias ou só para um. E termina invertendo a regra da semana: o que antes não podia sobrar até a manhã agora deve ser guardado.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra que o português guardou

Quem fala português diz toda semana a palavra que aparece pela primeira vez neste versículo. "Sábado" vem do latim sabbatum, que vem do grego sábbaton, que transcreve o hebraico shabbat. O mesmo caminho deu o sábado espanhol, o sabato italiano, o samedi francês, o subbota russo e o as-sabt árabe.

O português tem uma particularidade. A maior parte das línguas europeias deu aos dias da semana nomes de astros e de deuses — o dia da Lua, de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vênus, de Saturno, do Sol. É daí que vêm o lunes e o martes espanhóis e o Saturday inglês, "dia de Saturno". O português é a única grande língua românica que contou os dias em vez de batizá-los: segunda-feira, terça-feira, quarta, quinta, sexta. Só dois dias ficaram com nome: o domingo, "dia do Senhor", e o sábado.

A tradição liga essa escolha a Martinho de Dume (bispo de Braga no século VI, nascido na Panônia, na atual Hungria). No sermão De correctione rusticorum ("Sobre a correção dos camponeses"), ele reclama dos cristãos que chamavam os dias pelos nomes de Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, que para ele eram demônios, e lembra que a Igreja numerava os dias. A numeração não foi invenção dele — era o uso do latim litúrgico, que contava as "férias" (feria secunda, feria tertia) —, e o peso exato da sua pregação é discutido. Mas o resultado ficou: no calendário português, o sábado é o único dia da semana que conserva um nome hebraico, o nome dado aqui, no deserto de Sim.

A comida da sexta-feira, entre caraítas e inquisidores

"O que tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem" — a frase decidiu a cozinha judaica por dois mil anos, e de dois modos opostos.

No século VIII, na Babilônia, Anan ben David deu origem ao movimento dos caraítas (judeus que recusam a lei oral dos rabinos e querem seguir só o texto bíblico). Lendo este versículo junto com Êxodo 35:3 ("não acendam fogo em nenhuma das suas moradas no dia de sábado"), os caraítas concluíram que todo o preparo tinha de ser feito na sexta e que nenhum fogo podia ficar aceso no sábado, nem mesmo o que fora aceso antes. O resultado era um sábado de comida fria e de casa às escuras.

Os rabinos liam diferente. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no capítulo 4 do tratado Shabbat, discute em detalhe como "esconder" a panela na sexta-feira — enrolada em panos, enterrada em materiais que conservam o calor sem acrescentar mais — para que a comida feita antes do sábado chegue quente à mesa do sábado. Muitos historiadores entendem que o prato quente do sábado e o costume de acender velas na sexta à tarde ganharam peso, na Idade Média, também como resposta aos caraítas: comer quente no sábado virou marca de quem aceitava a tradição rabínica. As duas práticas partem da mesma frase do versículo — cozinhar na véspera — e chegam a mesas opostas.

Na Península Ibérica, o prato da véspera tinha nome: adafina (do árabe al-dafina, "a enterrada", porque a panela passava a noite enterrada nas brasas). E foi esse costume que se voltou contra quem o praticava. Quando a Inquisição chegou a Portugal, o monitório de 1536 — o edital lido nas igrejas, que mandava denunciar os sinais de judaísmo — incluía entre esses sinais guardar o sábado, vestir roupa limpa no sábado e preparar na sexta-feira a comida do dia seguinte. Uma panela posta no fogo na sexta à tarde podia levar uma família de cristãos-novos (judeus convertidos à força e os seus descendentes) aos cárceres do Santo Ofício.

Nada disso está no versículo, que fala de um acampamento e de um alimento caído do céu. Mas a história mostra o tamanho que uma frase de instrução doméstica pode tomar: dela saíram a mesa fria dos caraítas, a panela enterrada dos rabinos e uma das provas usadas pelos tribunais da fé em Lisboa, Évora e Coimbra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele lhes disse: 'Isto é o que o SENHOR falou'"

Moisés responde citando uma palavra de Deus que o leitor nunca ouviu nesses termos. O mais próximo é o anúncio do dobro em Êxodo 16:5, e é a ele que Ezequias ben Manoá, no comentário Chizkuni (França, século XIII), liga a frase. Mas Êxodo 16:5 não falava de descanso, nem de sábado, nem de santidade. Moisés cita mais do que o texto registrou.

A mesma fórmula abre a fala de Moisés diante da morte de Nadabe e Abiú (Levítico 10:3), e a Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) aproxima os dois lugares: nos dois, Moisés dá sentido, depois do fato, a uma palavra que não tinha sido registrada nem entendida.

A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) transforma a frase em pergunta: "Não é esta a palavra que o Senhor falou?" O tom muda. Já não é um anúncio; é quase uma cobrança — vocês deviam ter percebido.

"amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR"

Aqui aparece, pela primeira vez na Bíblia, o substantivo "sábado". Em Gênesis 2:2-3, Deus "descansou" no sétimo dia — o verbo, sem o nome. O mesmo verbo voltou na boca do faraó (Êxodo 5:5) e na ordem de tirar o fermento das casas (Êxodo 12:15). O nome do dia nunca tinha sido dito. Quando finalmente é, quem o diz não é Deus na criação nem no Sinai: é Moisés, a um grupo de chefes de tribo, numa tarde de sexta-feira, para explicar por que havia comida demais nas tendas.

O hebraico usa duas palavras da mesma família. A primeira, traduzida por "dia de descanso", é abstrata: quer dizer "cessação", "parada", e a Bíblia de Cambridge lembra que nela não há nada de "solene", embora muitas traduções o acrescentem. A segunda é o nome do dia. A ordem é significativa: primeiro vem o que o dia é — uma parada —, depois o nome. Nas leis posteriores, a fórmula se inverte e se fixa: "sábado de descanso" (Êxodo 31:15; Levítico 23:3). Aqui, na primeira vez, a ideia precede o título.

E nenhuma das duas tem artigo. Moisés não diz "amanhã é o sábado", como quem fala de uma coisa conhecida; diz "amanhã é descanso, sábado santo". Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do mesmo século) tiram daí que a coisa era nova, ao menos para quem ouvia. O artigo só aparece seis versículos adiante, em Êxodo 16:29: "o SENHOR lhes deu o sábado". Entre um versículo e o outro, o povo viveu o primeiro sábado, e a palavra ganhou o artigo das coisas conhecidas.

"Santo" retoma o verbo de Gênesis 2:3, em que Deus "santificou" o sétimo dia. "Ao SENHOR" diz de quem é o dia. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) explica: é o dia de Deus porque foi nele que Deus descansou de toda a obra, e compara com o ano em que "a terra guardará um sábado ao SENHOR" (Levítico 25:2). O dia não pertence a quem descansa; pertence àquele cujo descanso ele repete.

O sábado já era conhecido?

A pergunta divide os leitores desde a Antiguidade, e o versículo é o seu centro. As respostas são cinco.

Primeira leitura: o sábado existia desde a criação. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) e Joseph Benson (pregador metodista inglês do século XVIII) a defendem. Benson argumenta: se o sábado fosse novidade, como Moisés teria entendido o anúncio do sexto dia sem explicação, e como os chefes teriam percebido tão depressa que algo diferente acontecia? O preço: nenhum patriarca, em todo o Gênesis, guarda um sétimo dia, e o livro conta com cuidado o que eles faziam.

Segunda leitura: o sábado foi dado poucas semanas antes, em Mara. É a do Talmude (Sanhedrin 56b) e de Rashi, para quem o "estatuto e direito" de Êxodo 15:25 incluía o sábado; o estudo daquele versículo apresenta a leitura e a sua contestação.

Terceira leitura: o sábado começa aqui. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) acham "perfeitamente claro" que os israelitas não conheciam observância nenhuma do sábado até então. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) é mais cauteloso: "esta é, de fato, a primeira vez que lemos sobre um". A ausência do artigo e a surpresa dos chefes pesam a favor.

Quarta leitura: o dia era lembrado, mas não praticado. Ellicott acha impossível que escravos no Egito o tivessem guardado; para quem ouvia Moisés, era na prática uma novidade.

Quinta leitura: a própria Bíblia dá duas versões. Ezequiel diz que Deus tirou Israel do Egito, levou-o ao deserto "e também lhes dei os meus sábados" (Ezequiel 20:10-12). Neemias diz que no Sinai Deus "lhes fez conhecer o seu santo sábado" (Neemias 9:13-14). Uma põe a entrega no deserto, a outra no monte; as duas a põem depois da saída do Egito, e nenhuma antes.

Não é possível decidir pela história. Pela narrativa, o que se pode afirmar é preciso: o Gênesis mostra Deus descansando e nenhum ser humano descansando com ele; o Êxodo mostra, neste versículo, o primeiro anúncio do dia com nome, e no seguinte o primeiro povo que o guarda.

"O que vocês tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem"

A frase é aberta de propósito: "o que assarem, assem". Não diz quanto, não diz para quando. E a leitura muda o sábado inteiro.

Primeira leitura: assar e cozinhar hoje para os dois dias. Rashi entende: o que vocês quiserem assar no forno, assem hoje tudo o que é preciso para dois dias; o que quiserem cozinhar na água, cozinhem hoje. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas da Antiguidade) apoia a leitura com uma palavra: "o que vocês pretendem assar". O Pseudo-Jônatas (outra paráfrase aramaica, mais livre e mais tardia) a diz com todas as letras: "o que precisarem assar amanhã, assem hoje".

Segunda leitura: preparar a porção de hoje e guardar a outra como está. Ibn Ezra lê "assem como de costume": um ômer se prepara para o próprio dia, e o segundo fica guardado cru, sem que Moisés diga ainda o que fazer com ele. Para Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), a leitura tem um custo alto: Números 11:8 mostra que o maná se comia moído, cozido ou em bolos, e nessa hipótese o primeiro sábado teria sido o único dia de maná cru. Por isso ele fica com Rashi.

Terceira leitura: o versículo não proíbe cozinhar no sábado. Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) e Gill observam que a palavra "hoje", que muitas traduções acrescentam, não está no hebraico, e que a proibição de acender fogo só virá em Êxodo 35:3. O descanso deste sábado se opõe a sair para recolher, não a cozinhar. E dão um argumento do versículo seguinte: se a porção guardada já estivesse cozida, não haveria milagre nenhum em ela não estragar de um dia para o outro; o texto só registra o fato porque era maná cru.

Quarta leitura: o próprio maná se assava. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) registra a fantasia de dois mestres. Para Rabi Yehoshua, quem queria pão assado o encontrava assado, e quem queria cozido o encontrava cozido. Para Rabi Elazar de Modiin, quem queria assado provava nele todos os assados do mundo. Nessa leitura, a frase não é ordem de trabalho, é descrição de um alimento que se torna o que cada um deseja.

O texto não permite decidir entre a primeira e a terceira. O que ele afirma com clareza é que, pela primeira vez, alguém recebe a ordem de fazer num dia o que servirá a outro — e que o dia seguinte se define pelo que não será preciso fazer nele.

"e tudo o que sobrar, depositem para vocês, para ser guardado até a manhã"

Quatro versículos antes, Moisés tinha dito: "Ninguém deixe resto dele até a manhã" (Êxodo 16:19). Agora diz o contrário: guardem até a manhã. A ação é a mesma — pôr de lado à noite e encontrar de manhã. O que mudou foi o dia. A transgressão de ontem é o mandamento de hoje, e a diferença está só no calendário.

A ABC marca a diferença usando verbos distintos, porque o hebraico também os distingue: o "deixar resto" proibido é uma raiz; o "sobrar" de agora é outra, a mesma de "nada sobrou" em Êxodo 16:18. O que sobra na véspera do sábado não é sobra de quem desconfiou; é a parte que já veio destinada ao dia seguinte.

E a expressão "para ser guardado" vai voltar três vezes no fim do capítulo, para o jarro de maná que Arão deposita "pelas gerações" (Êxodo 16:32-34), com o mesmo verbo de "depositar". O primeiro maná guardado de propósito em Israel é o do sábado, guardado por uma noite. O do jarro será guardado por séculos. O gesto é o mesmo; muda a duração.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés — fala pela primeira vez no capítulo depois de ser procurado, e não por iniciativa própria. Responde com uma fórmula de citação ("isto é o que o SENHOR falou") e acrescenta por conta própria as instruções práticas de cozinha e de guarda. É ele quem pronuncia, pela primeira vez na Bíblia, a palavra "sábado".

Os príncipes da congregação — os destinatários diretos ("Ele lhes disse"), os chefes de tribo que vieram contar o dobro no versículo anterior. Pela leitura mais simples, são eles que levam a explicação às tendas. O povo recebe o primeiro anúncio do sábado em segunda mão.

O SENHOR — citado, não presente. Não fala no versículo; a palavra dele chega pela boca de Moisés, e o dia é declarado "ao SENHOR": a ele pertence o descanso que se anuncia.

O sábado — nomeado aqui pela primeira vez, ainda sem artigo, como coisa nova. É chamado "descanso" e "santo", mas não é chamado "sétimo": o número só aparece em Êxodo 16:26.

A véspera — o sexto dia, à tarde, quando a fala acontece. Pela primeira vez um dia da Bíblia é definido pelo que se faz nele em função do dia seguinte: assar, cozinhar, guardar.

O acontecimento — o primeiro anúncio do sábado, feito como explicação de um fato já ocorrido, e a primeira ordem de guardar comida de um dia para o outro.

5. Pontos de Ensino

1. O descanso recebe nome depois de ser preparado. O povo recolheu o dobro antes de ouvir a palavra "sábado". No texto, o dia de descanso entra na vida de Israel primeiro como provisão e só depois como nome. A palavra explica uma experiência que já tinha começado.

2. O dia pertence a Deus, não ao cansaço. O sábado é declarado "ao SENHOR". O motivo dado não é a necessidade de recuperar forças, mas o dono do dia. Isso o distingue de uma simples folga, que existe em função de quem trabalha e pode ser negociada.

3. A véspera é parte do sábado. O primeiro sábado começa com uma ordem de trabalho: assar, cozinhar, separar, guardar. O descanso de um dia depende do trabalho bem feito no anterior. A tradição judaica tirou daí toda a sua prática da sexta-feira.

4. O mesmo ato pode ser falta num dia e obediência no outro. Guardar maná até a manhã foi proibido no versículo 19 e é mandado aqui. O que define o ato não é só o que se faz, mas quando e por quê. Quem lê a lei como lista de gestos proibidos perde essa dimensão do tempo.

5. O texto deixa espaço. "O que assarem, assem" não fixa quantidade nem prato. A ordem diz o essencial — preparar antes — e confia o resto a cada casa. As disputas posteriores sobre comida fria ou quente nasceram justamente desse espaço.

6. Aspectos Filosóficos

Parar pode ser um ato? A pergunta parece estranha: descansar é justamente não fazer. Mas o versículo não diz apenas "amanhã ninguém trabalha". Diz "amanhã é descanso, santo ao SENHOR" — e diz isso a um povo que, pouco mais de um mês antes, fabricava tijolos sob cota diária para o faraó. O dia sem trabalho é anunciado como uma coisa que tem dono e sentido, não como um vazio entre duas jornadas.

Walter Brueggemann e o sábado como resistência

Walter Brueggemann (1933-2025), estudioso norte-americano do Antigo Testamento, dedicou ao tema um livro curto e muito lido, Sabbath as Resistance ("O sábado como resistência", 2014). Ele não é filósofo de formação, mas o livro é, no essencial, uma tese de filosofia social, e é como tal que interessa aqui.

O argumento parte do Egito. O sistema do faraó, diz Brueggemann, é um sistema sem descanso: a cota de tijolos nunca diminui, os depósitos nunca estão cheios o bastante, e o próprio rei vive com medo de que falte — foi um sonho de escassez que o fez acumular grãos nos tempos de José. Nesse mundo, ninguém para, porque parar é perder. A ansiedade não é um defeito de caráter dos súditos; é o motor do sistema.

O Deus do Êxodo, ao contrário, é um Deus que descansa. Brueggemann vê nisso a diferença decisiva: quem descansa no sétimo dia não está preso à lógica da produção sem fim, e um povo que imita esse descanso deixa, uma vez por semana, de pertencer a ela. Por isso ele chama o sábado de resistência — resistência à ansiedade, à coerção, à ideia de que o valor de uma pessoa está no que ela rende. Num ensaio anterior, "A liturgia da abundância e o mito da escassez" (1999), ele já lia o maná como a escola dessa mudança: no deserto, Israel aprende que o pão vem, que vem o bastante, e que quem tenta acumular encontra o pão estragado.

O que a tese ilumina no versículo

A leitura de Brueggemann explica bem por que o primeiro sábado é anunciado com comida. O dia de parar só é possível porque há o bastante guardado: "tudo o que sobrar, depositem". A tranquilidade do sétimo dia depende da certeza, adquirida em seis manhãs, de que o pão não falha. O sábado do maná não é a recompensa de quem acumulou; é a pausa de quem aprendeu a não precisar acumular.

E explica o "ao SENHOR". Se o dia é de Deus, ele não pertence ao trabalho nem ao patrão. Ninguém pode reclamá-lo para a produção, porque ele já tem dono.

Onde a tese força o texto

Dois limites precisam ser ditos.

O primeiro é de anacronismo. Brueggemann escreve contra o consumismo norte-americano do século XXI, e o faraó dele às vezes se parece demais com um shopping center. O versículo não fala do Egito, não fala de economia e não opõe sistemas: fala de pão, de forno e de um dia santo.

O segundo é de instrumentalização. Chamar o sábado de "resistência" pode fazer dele, outra vez, um meio — agora para fins políticos ou terapêuticos. A tradição judaica, que conhece o sábado por dentro, prefere outra palavra: Isaías manda chamar o sábado de "delícia" (Isaías 58:13). Um dia guardado porque resiste a alguma coisa ainda está definido por aquilo a que resiste.

O que fica da comparação é uma pergunta que o versículo de fato levanta, sem responder: um descanso que "pertence ao SENHOR" é uma ausência de trabalho ou uma afirmação sobre quem manda no tempo? Brueggemann escolheu a segunda resposta. O texto permite as duas.

7. Aplicações Práticas

O descanso se prepara na véspera. O primeiro sábado da Bíblia começa com uma lista de tarefas para a sexta-feira. Quem quer de fato um dia livre — de trabalho, de compras, de pendências — precisa resolver antes o que o dia livre exigiria. Sem isso, o dia de descanso vira o dia de pôr em ordem o que ficou para trás.

Uma regra pode mudar com o tempo sem deixar de ser a mesma. "Não guarde" e "guarde" foram ditos pelo mesmo Moisés com quatro versículos de distância, e os dois serviam ao mesmo fim. Em casa, no trabalho, na educação dos filhos, há regras que valem num dia e não no outro, e explicá-las pelo propósito, e não só pelo gesto, evita que pareçam contraditórias.

Dar nome ajuda a guardar. O povo teve o pão dobrado antes de ter a palavra "sábado"; com a palavra, a experiência virou um dia que se podia esperar, preparar e repetir. Um tempo de parada que não tem nome nem hora costuma ser engolido pelas outras horas.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Moisés diz "amanhã" e não "o sétimo dia"?

Porque, no deserto, ainda não havia uma semana contada em que "o sétimo dia" significasse alguma coisa para todos. O número sete não aparece neste versículo; aparece só em Êxodo 16:26, quando Moisés estabelece o ritmo: seis dias de coleta, o sétimo sem maná. O primeiro anúncio é feito em relação ao dia em que se está: o de hoje é o da preparação, o de amanhã é o do descanso.

O sábado é uma invenção de Israel?

A pergunta das origens tem outro lugar no acervo: o estudo de Êxodo 5:5 trata do tempo de trabalho no Egito e das tentativas de achar um antecedente do sábado fora de Israel, e conclui que não há consenso. O que este versículo acrescenta é o que a Bíblia diz de si mesma: o dia é dado depois da saída do Egito e por causa do pão do deserto, não herdado de nenhum vizinho.

O que acontecia com quem não tinha o que cozinhar?

No deserto a pergunta não se punha: todos recebiam dois ômeres, e a frase "o que tiverem de assar" pressupõe que todos tinham. A igualdade da medida, que valia nos outros dias, é o que torna possível um sábado igual para todos. Nenhuma tenda precisava trabalhar no sétimo dia por falta de comida.

Por que o dia é "santo", se nada de religioso é mandado nele?

O versículo não prescreve oração, sacrifício nem reunião. A santidade do primeiro sábado consiste em ser separado dos outros dias pelo que não se faz nele. O culto do sábado — as ofertas dobradas, a leitura, a assembleia — virá em outros textos. Aqui, o santo é o próprio intervalo.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo antes do nome

Gênesis 2:2-3 — "No sétimo dia Deus já havia terminado a obra que fez, e nesse sétimo dia descansou de toda a obra que havia feito. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que havia criado e feito."

O descanso e a santificação estão lá; o substantivo "sábado", não. Êxodo 16:23 dá nome ao que Gênesis tinha descrito, e o adjetivo "santo" retoma o "santificou".

A mesma fórmula para explicar o inesperado

Levítico 10:3 — "Então Moisés disse a Arão: 'Isto é o que o SENHOR falou: Serei santificado nos que se aproximam de mim, e serei glorificado diante de todo o povo.' E Arão se calou."

As duas falas de Moisés que abrem com "isto é o que o SENHOR falou" explicam, depois do fato, algo que ninguém esperava: a fartura do sexto dia e a morte dos filhos de Arão. Nas duas, a palavra citada não tinha sido registrada antes.

Onde a Bíblia põe a entrega do sábado

Ezequiel 20:10-12 — "Eu os tirei da terra do Egito e os levei ao deserto. Dei-lhes os meus estatutos e lhes fiz conhecer os meus juízos […]. E também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles."

Neemias 9:13-14 — "Desceste sobre o monte Sinai e falaste com eles do céu […]. O teu santo sábado lhes fizeste conhecer, e lhes ordenaste mandamentos, estatutos e lei por meio de Moisés, teu servo."

Dois resumos tardios da história, e dois lugares para o mesmo dom: o deserto em Ezequiel, o Sinai em Neemias. Nenhum dos dois põe o sábado antes do Egito.

A fórmula que se inverte

Êxodo 31:15 — "Seis dias se fará trabalho, mas o sétimo dia é sábado de descanso, santo ao SENHOR; quem fizer algum trabalho no dia de sábado certamente será morto."

As mesmas três palavras de Êxodo 16:23 — descanso, sábado, santo — agora em ordem fixa e com pena de morte. Entre o deserto de Sim e o Sinai, o anúncio de uma tarde vira lei com sanção.

caraítas e rabinos apoiaram, junto com Êxodo 16:23, as suas práticas opostas sobre a comida do sábado.

O sábado chamado de delícia

Isaías 58:13 — "Se você desviar o pé do sábado, de fazer a sua vontade no meu santo dia, e chamar ao sábado delícia, e santo do SENHOR, digno de honra […]."

Isaías retoma as palavras de Êxodo 16:23 — "santo", "do SENHOR" — e acrescenta uma que o deserto não tinha: "delícia". O dia anunciado como parada passa a ser descrito como prazer.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ele lhes disse: “Isto é o que o SENHOR falou: amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR. O que vocês tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem; e tudo o que sobrar, depositem para vocês, para ser guardado até a manhã.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם הוּא אֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה שַׁבָּתוֹן שַׁבַּת־קֹדֶשׁ לַיהוָה מָחָר אֵת אֲשֶׁר־תֹּאפוּ אֵפוּ וְאֵת אֲשֶׁר־תְּבַשְּׁלוּ בַּשֵּׁלוּ וְאֵת כָּל־הָעֹדֵף הַנִּיחוּ לָכֶם לְמִשְׁמֶרֶת עַד־הַבֹּקֶר׃

Transliteração

va-yómer aleihém: hu asher dibbér YHWH — shabbatón shabbat-qódesh la-YHWH machár; et asher-tofú efú, ve-et asher-tevashlú bashelú, ve-et kol-ha-odéf haníchu lakhém le-mishméret ad-ha-bóqer.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם — va-yómer aleihém, "e disse-lhes". O verbo de dizer, na forma que encadeia a narrativa, e a preposição "a" com o sufixo "eles". O "eles" são os príncipes do versículo anterior.

הוּא אֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה — hu asher dibbér YHWH, "isto é o que o SENHOR falou".

Hu, "ele", "isto", pronome que aponta para o fato que os chefes acabaram de relatar: o dobro "é" o que Deus disse. Dibbér é Piel — a forma intensiva do verbo hebraico — da raiz d-b-r, falar. A mesma sequência de palavras abre a fala de Moisés em Levítico 10:3. Falta o lemór ("dizendo") que costuma introduzir a citação literal: Moisés não reproduz as palavras de Deus; diz o que elas significavam.

שַׁבָּתוֹן — shabbatón, "dia de descanso", "cessação".

Substantivo abstrato formado da raiz sh-b-t, cessar, com a terminação -on, a mesma de zikkarón, "memorial" (Êxodo 12:14). Primeira ocorrência na Bíblia. A palavra aparece só onze vezes, todas em Êxodo e Levítico, sempre em leis de tempo sagrado: o sábado, o Dia da Expiação, o primeiro dia do sétimo mês, o primeiro e o oitavo dias da festa das Tendas, o ano sabático da terra. É vocabulário de calendário, e nasce aqui.

שַׁבַּת־קֹדֶשׁ — shabbat-qódesh, "sábado de santidade", "sábado santo".

Shabbat na forma ligada ao substantivo seguinte, qódesh, "santidade". O hebraico diz "sábado de santidade" onde o português diz "sábado santo". Primeira ocorrência do substantivo shabbat em toda a Bíblia.

De onde vem a palavra? Do verbo shavat, "cessar, parar", o de Gênesis 2:2-3, e não de um verbo de "descansar" no sentido de repousar o corpo. O sábado é, pela origem, o dia em que algo para. Ibn Ezra observa que a palavra é feminina (Levítico 23:3 diz "sábado ela é"); a formação exata é discutida pelos gramáticos, o parentesco com o verbo de "cessar", não.

לַיהוָה — la-YHWH, "ao SENHOR". Preposição le, de pertença e destinação, e o nome divino. O dia é "do SENHOR" e "para o SENHOR".

מָחָר — machár, "amanhã".

No hebraico, "amanhã" é a última palavra da frase: "descanso, sábado santo ao SENHOR, amanhã". A ABC, por clareza, põe-no no começo. A posição final dá ao "amanhã" o peso de uma resposta que chega no fim — e a Mekhilta imagina exatamente isso: os chefes perguntam "quando?", e Moisés responde "amanhã".

אֵת אֲשֶׁר־תֹּאפוּ אֵפוּ — et asher-tofú efú, "o que assarem, assem".

O mesmo verbo duas vezes: primeiro no imperfeito ("o que vocês assarem"), depois no imperativo ("assem"). A raiz é '-f-h, assar no forno, a de "padeiro" (Gênesis 40:1). A construção repete o verbo para deixar o objeto em aberto: o que for, como for. O imperativo efú tem uma vogal irregular, e tanto Ibn Ezra quanto Rashbam a comentam; Rashbam diz não conhecer outro caso igual na Bíblia além de uma forma em Oseias 4:18.

וְאֵת אֲשֶׁר־תְּבַשְּׁלוּ בַּשֵּׁלוּ — ve-et asher-tevashlú bashelú, "e o que cozinharem, cozinhem".

Piel da raiz b-sh-l, cozinhar, especialmente em água. Rashi distingue os dois verbos: assar é o termo do pão; cozinhar, o do prato de panela. Com isso, o versículo cobre os dois modos de preparar o maná que Números 11:8 descreverá — os bolos e o cozido.

וְאֵת כָּל־הָעֹדֵף — ve-et kol-ha-odéf, "e tudo o que sobrar".

Particípio da raiz '-d-f, exceder, sobrar, com artigo: "o excedente". É a raiz rara do "nada sobrou" de Êxodo 16:18, e o estudo daquele versículo traz as suas ocorrências. A Septuaginta conserva o eco entre os dois versículos: usa o mesmo verbo grego, pleonázō, "ter a mais", aqui e lá.

הַנִּיחוּ לָכֶם — haníchu lakhém, "depositem para vocês".

Hifil — a forma causativa do verbo hebraico — da raiz n-w-ch, que quer dizer "pousar, repousar, ficar quieto". No Hifil, "fazer repousar", isto é, pôr num lugar e deixar. O verbo de depositar é da família do repouso: no versículo que nomeia o descanso, até a comida guardada "descansa" de um dia para o outro. Lakhém, "para vocês": a sobra tem destinatário.

לְמִשְׁמֶרֶת — le-mishméret, "para guarda", "para ser guardado".

Substantivo da raiz sh-m-r, guardar, vigiar, com a preposição le, "para". A expressão aparece em Êxodo 12:6, para o cordeiro separado até o dia catorze, e voltará três vezes neste capítulo, para o jarro de maná (Êxodo 16:32-34). É linguagem de depósito: o que se põe "para guarda" tem prazo e finalidade.

עַד־הַבֹּקֶר — ad-ha-bóqer, "até a manhã". Agora com artigo: não "uma manhã", mas a manhã seguinte, a do sábado.

As traduções antigas

A Septuaginta transcreve o nome do dia como sábbata — forma de plural usada para um dia só, que passou ao grego dos judeus e dos cristãos — e traduz o "descanso" por anápausis hagía, "repouso santo". A Vulgata diz requies sabbati sanctificata est Domino cras, "o repouso do sábado está santificado ao Senhor amanhã", e generaliza o assar: quodcumque operandum est, facite, "o que houver de ser feito, façam".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que, na narrativa bíblica, o sábado entra na história humana como resposta a uma experiência, e não como dado prévio. Gênesis tinha mostrado Deus parando; ninguém, em todo o livro, para com ele. O nome do dia é pronunciado pela primeira vez quando um povo inteiro já tem nas mãos a comida que o torna possível. Se o sábado era ou não conhecido antes, a história não permite decidir; o texto, porém, escolheu contar o seu nascimento aqui, e não na criação nem no Sinai.

A segunda é que o primeiro sábado se define mais pelo que o precede do que pelo que acontece nele. O versículo não diz uma palavra sobre o que fazer no sétimo dia; diz tudo sobre o que fazer no sexto. A santidade do dia depende de uma véspera bem cumprida, e as disputas posteriores — comida fria ou quente, fogo aceso ou apagado — são todas disputas sobre a véspera.

A terceira é que a mesma ação muda de valor com o tempo. Guardar até a manhã, que na rotina era falta de confiança, na véspera do sábado é obediência. O dia santo não cria um gesto novo; muda o sentido de um gesto antigo. É a primeira lição do calendário sagrado de Israel: há coisas que não são boas nem más em si, mas boas ou más no seu dia.

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Êxodo 16:23

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