Eles o depositaram até a manhã, como Moisés tinha ordenado; e não fedeu, nem houve larva nele.
1. Introdução
Na manhã do sábado, o maná guardado desde a véspera está intacto: não cheira mal e não tem larva. O versículo repete quase palavra por palavra o fracasso de Êxodo 16:20, só que ao contrário — e com duas diferenças que os leitores notaram cedo. A ordem muda (lá, "criou vermes e fedeu"; aqui, "não fedeu, nem houve larva"), e a palavra para o bicho também muda, trocando o verme comum por um termo que no resto da Bíblia só aparece junto de cadáveres. E o povo que quatro versículos antes "não deu ouvidos a Moisés" agora faz "como Moisés tinha ordenado".
2. Contexto Histórico e Cultural
"Não apodrecer": a frase dos túmulos
No mundo do Êxodo, dizer de alguma coisa que ela "não cheirou mal e não criou vermes" era usar a linguagem com que se falava dos mortos.
No Egito, a preocupação era literal. O capítulo 154 do Livro dos Mortos (a coletânea de fórmulas que acompanhava o morto no túmulo para guiá-lo no outro mundo) traz o título "fórmula para não deixar o corpo perecer". Nela, o morto fala ao deus Osíris e repete, como quem afasta uma ameaça, que não vai se decompor, não vai apodrecer, não vai cheirar mal, não vai virar vermes. Toda a técnica do embalsamamento existia para que essas frases fossem verdadeiras. Um corpo sem cheiro e sem larvas era o sinal de que os deuses o tinham preservado.
Na Mesopotâmia, a mesma imagem marcava o limite do humano. Na Epopeia de Gilgamesh (o poema babilônico sobre o rei de Uruk que procura escapar da morte), o herói se recusa a entregar o corpo do amigo Enkidu ao sepultamento durante sete dias e sete noites, "até que um verme caiu do seu nariz". Só então ele aceita que o amigo está morto — e é essa visão que o põe em fuga à procura da vida sem fim. O verme saindo do corpo é a prova que não admite recurso.
A Bíblia usa o mesmo quadro. Quando Isaías descreve a descida do rei da Babilônia ao mundo dos mortos, a cama dele é de larvas e o cobertor é de vermes (Isaías 14:11). Jó chama a larva de "minha mãe e minha irmã" (Jó 17:14) e diz que, na morte, rico e pobre deitam juntos no pó, e "as larvas os cobrem" (Jó 21:26).
Nada indica que o Êxodo tenha pensado em túmulos ao escrever este versículo. O que o fundo mostra é o peso das palavras para quem as ouvia: "não fedeu, nem houve larva" é a frase que, no Egito, se pedia aos deuses para o corpo dos mortos, aplicada aqui a uma porção de pão guardada por uma noite.
O pão que não dura
O peso vale também do lado da cozinha. No clima do Sinai, pão de massa úmida e qualquer prato cozido em água se estragavam depressa; as moscas põem os ovos em poucas horas, e numa noite quente já há larvas. Por isso o pão de viagem era seco, duro, feito para durar — como os pães "secos e mofados" que os gibeonitas mostram a Josué para fingir uma longa viagem (Josué 9:5). Guardar de um dia para o outro uma comida úmida e encontrá-la boa era exatamente o que a experiência não autorizava esperar.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eles o depositaram até a manhã, como Moisés tinha ordenado"
Quatro versículos antes, o texto dizia: "Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã" (Êxodo 16:20). Agora: "depositaram até a manhã, como Moisés tinha ordenado". A ação é a mesma, guardar de um dia para o outro; o que muda é a relação com a palavra de Moisés. Lá, guardar era desobedecer; aqui, guardar é obedecer.
A fórmula de cumprimento também chama a atenção. O Êxodo costuma dizer "como o SENHOR ordenou a Moisés" — é o refrão que vai fechar a construção do santuário nos capítulos 39 e 40. Aqui o texto diz só "como Moisés tinha ordenado". A ordem de guardar, em Êxodo 16:23, saiu da boca de Moisés como explicação dele; o cumprimento é registrado em nome dele.
E, desta vez, todos obedecem. Em Êxodo 16:20 o desobediente era "alguns"; no versículo 27 serão "alguns do povo" a sair para recolher no sábado. Aqui não há exceção registrada: "eles" depositaram. Entre duas desobediências parciais, este é o único momento do episódio em que o povo inteiro faz o que foi dito.
A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) resume: "e fizeram assim como Moisés tinha mandado", e deixa cair o verbo "depositar". O hebraico insiste no gesto: pôr de lado e deixar ficar.
"e não fedeu"
O que exatamente não estragou? O versículo anterior deixou aberto se a porção do sábado foi guardada já assada e cozida ou como tinha sido recolhida. A escolha muda o tamanho do fato.
Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) e John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) argumentam a partir deste versículo: se o maná guardado tivesse sido cozido, não haveria nada de notável em ele durar uma noite, e o texto não se daria ao trabalho de registrá-lo. Logo, o que se guardou era maná cru — o mesmo que, nos outros dias, apodrecia.
O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) põe a questão de modo mais seco: ou isto foi um milagre, ou o apodrecimento do versículo 20 é que foi. Se o maná por natureza estragava de um dia para o outro, o sábado suspendeu a natureza. Se por natureza ele durava, foi o estrago dos dias comuns que veio de fora. Uma das duas manhãs é extraordinária; o texto não diz qual, e põe as duas lado a lado para que se perceba que não podem ser ambas naturais.
Samuel ben Meir, o Rashbam (comentarista francês do século XII), sublinha a extensão do fato: não apareceram nem mesmo os vermes que costumam surgir em pouco tempo em qualquer alimento guardado.
"nem houve larva nele"
A frase espelha a de Êxodo 16:20 com a ordem trocada: lá, "criou vermes e fedeu"; aqui, "não fedeu, nem houve larva". A disputa sobre qual das duas ordens é a natural — Rashi, que chama a de 16:20 de "invertida", contra Nachmânides — está no estudo daquele versículo.
O que é deste versículo é o argumento que Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) tira da sua forma. Se o mau cheiro sempre viesse antes do bicho, bastaria dizer "não fedeu", e "nem houve larva" seria redundante. O texto nega as duas coisas, cada uma com a sua negação, porque elas podem acontecer separadas. A porção do sábado escapou de dois processos, não de um.
Duas palavras para o bicho
A diferença mais nítida é de vocabulário. Em Êxodo 16:20, o maná guardado "criou vermes" — a palavra é a comum para verme, a mesma que nomeia a larva de onde se tirava o corante escarlate. Aqui, a palavra é outra, traduzida pela ABC por "larva".
Essa segunda palavra é rara: aparece só sete vezes na Bíblia hebraica. Fora deste versículo, todas as ocorrências estão em Jó e em Isaías, e todas falam de corpos humanos e de morte — a pele de Jó "vestida de larvas" (Jó 7:5), a larva que é "mãe e irmã" do homem no sepulcro (Jó 17:14), a cama de larvas do rei da Babilônia (Isaías 14:11). Em dois desses lugares as duas palavras andam juntas, em paralelo: "o homem, que é larva; o filho do homem, que é verme" (Jó 25:6). Os poetas as tratavam como par. O Êxodo separa o par entre as duas cenas.
Por que a troca? Há três respostas.
Primeira: não há diferença de sentido, só de estilo. As traduções antigas pensaram assim: o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas da Antiguidade), a Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria) e a Vulgata usam a mesma palavra nos dois versículos. Um texto que conta duas vezes a mesma cena gosta de variar o vocabulário.
Segunda: a segunda palavra é a mais precisa para o bicho da putrefação. Os léxicos a ligam a uma raiz que indica decomposição, e há quem leia o próprio verbo de Êxodo 16:20, "criou", como tirado dela. Nesse caso, os dois versículos usam as mesmas duas raízes em posições cruzadas: no 20, a da larva no verbo e a do verme no substantivo; no 24, só a da larva, agora como substantivo.
Terceira: a palavra traz consigo o seu mundo. Para quem conhecia o uso poético, "larva" era a palavra do túmulo. Negar a larva no pão do sábado é negar ao dia santo o sinal mais concreto da corrupção. É uma leitura possível, que o versículo não explicita.
O texto não permite escolher com segurança. O que se pode afirmar é que, num capítulo que repete muitas palavras de propósito — "recolher", "manhã", "guardar" —, aqui ele escolheu não repetir.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O povo — sujeito do verbo "depositaram". É o mesmo povo de Êxodo 16:20, onde "alguns" desobedeceram; aqui ninguém é apontado como exceção. A cena acontece dentro das tendas, sem testemunha registrada além dos próprios donos da comida.
Moisés — presente só como autor da ordem: "como Moisés tinha ordenado". Não fala nem age no versículo. A palavra dele, dada na véspera, é o que organiza a noite.
A porção guardada — o segundo ômer do sexto dia, a parte que "sobrou" depois do preparo. Se estava crua ou já preparada, o texto não diz (o estudo de Êxodo 16:23 apresenta as leituras). Na manhã do sábado, é ela que alimenta o acampamento.
A noite de sexta para sábado — a primeira noite que separa um dia de trabalho de um sábado. O texto não a descreve; registra só o seu resultado na manhã seguinte.
O acontecimento — a primeira prova de que o sábado funciona: o alimento que em qualquer outra noite estragaria chega intacto ao dia em que não haverá coleta.
5. Pontos de Ensino
1. O mesmo gesto, dois resultados. Guardar maná até a manhã deu vermes num dia e deu pão bom no outro. O versículo é construído para ser lido ao lado de Êxodo 16:20: as palavras se repetem, a ordem se inverte, o resultado se opõe. O que separa as duas manhãs não é a técnica de guardar, é a palavra que autorizou ou proibiu.
2. A obediência aparece como fato, sem elogio. O texto não diz que o povo fez bem; diz que fez "como Moisés tinha ordenado". Depois de uma desobediência registrada e antes de outra, a obediência entra no relato com a mesma secura dos fatos naturais.
3. Um dos dois é extraordinário. Ou o maná estragar em uma noite, ou ele durar no sábado — os dois não podem ser naturais ao mesmo tempo. O capítulo põe o leitor diante dessa alternativa sem resolvê-la.
4. As palavras escolhidas contam. Trocar "verme" por "larva" é pequeno, mas num texto que repete o vocabulário de propósito a troca é visível. Ler devagar inclui reparar onde o texto deixa de se repetir.
6. Aspectos Filosóficos
Uma mesma coisa pode obedecer a regras diferentes conforme o tempo em que está? Na sexta à noite, o maná guardado de um dia comum apodrecia; o da véspera do sábado não. Nada mudou no pão nem no gesto de guardá-lo. Mudou o tempo dentro do qual ele estava.
Johan Huizinga e o tempo separado
Johan Huizinga (1872-1945), historiador holandês da cultura, publicou em 1938 o Homo ludens ("O homem que joga"), um estudo sobre o jogo como elemento da cultura. Para ele, o jogo não é só diversão de criança: é uma forma de atividade com características próprias, que se encontra também no direito, na guerra, na poesia e no culto.
A primeira dessas características é a separação. O jogo acontece dentro de limites de tempo e de espaço marcados com antecedência — o tabuleiro, a arena, o tribunal, o templo, o dia de festa. Huizinga chama esses lugares de "mundos temporários dentro do mundo habitual", e a expressão que a tradição tirou do livro é "círculo mágico". Dentro do círculo, valem regras que fora dele não valem: um pedaço de madeira é um rei, uma linha no chão é uma fronteira, uma bola que passa entre duas traves vale um ponto. E essas regras não são menos reais por serem convencionais; quem as quebra estraga o jogo inteiro.
Huizinga insistia que o culto e o jogo compartilham essa estrutura. O espaço consagrado e o tempo de festa são, formalmente, campos de jogo: separados, regrados, com começo e fim. Não por isso o culto é brincadeira; é que as duas coisas nascem do mesmo gesto humano de traçar um limite e declarar que, dentro dele, as coisas funcionam de outro modo.
O que a ideia ilumina no versículo
O primeiro sábado tem exatamente essa forma. Foi anunciado com antecedência ("amanhã"), tem limites claros (da véspera até a manhã seguinte) e regras próprias, que só valem dentro dele: hoje não se recolhe, ontem se guardou. E, dentro desse tempo, a regra comum da matéria fica suspensa: o pão que fora dele apodrece, dentro dele dura. O versículo 24 é o momento em que o "círculo" se mostra real — a regra do dia separado não é só de comportamento humano, alcança a própria comida.
Huizinga também ajuda a ver a importância da obediência registrada. Um tempo separado só existe se os que estão nele aceitam as suas regras. Em Êxodo 16:20, "alguns" quebraram a regra do dia comum, e o resultado foi a podridão; aqui todos a aceitam, e o tempo separado se sustenta.
Onde a comparação para
Para Huizinga, as regras do jogo são postas pelos próprios jogadores, e o círculo dura enquanto eles quiserem jogar. No versículo, quem traça o limite não é o povo: o dia é "do SENHOR" (Êxodo 16:23), e a suspensão da podridão não depende de acordo nenhum. Além disso, Huizinga fala de mundos "temporários" e "fictícios" no sentido de que todos sabem estar fingindo; o Êxodo não apresenta o sábado como ficção partilhada, mas como fato.
O que fica é a forma comum, e ela é real: um tempo marcado, com antes e depois, dentro do qual as coisas obedecem a outra ordem. Huizinga mostrou que essa forma está em toda parte na cultura humana. O versículo mostra, a seu modo, que o primeiro sábado de Israel foi construído com ela.
7. Aplicações Práticas
O resultado de um gesto depende do seu momento. Guardar comida, dinheiro ou energia pode ser prudência ou desconfiança, e o que decide nem sempre é o gesto em si. O versículo coloca lado a lado duas noites em que se fez a mesma coisa, com resultados opostos. Antes de julgar uma ação, vale perguntar em que tempo ela foi feita e com que razão.
Um tempo separado se sustenta com preparação e com acordo. O primeiro sábado funcionou porque houve véspera e porque todos guardaram. Quem tenta reservar um dia por semana para a família, para o descanso ou para a fé descobre o mesmo: o tempo separado se desfaz quando um só membro da casa trata aquele dia como outro qualquer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Alguém verificou se o maná estava bom antes de comer?
O texto apresenta o resultado sem testemunha. Nachmânides imagina que, de manhã, o povo viu que o pão estava bom e mesmo assim hesitou em comer o pão da véspera, até receber permissão — a cena que o estudo de Êxodo 16:25 desenvolve. O versículo 24 só afirma o estado do alimento.
O maná guardado no sábado durava mais de uma noite?
O texto não diz. A permissão era "até a manhã", e a ordem do versículo seguinte é comê-lo "hoje". O teste nunca foi além de uma noite — com uma exceção: o ômer guardado no jarro "pelas gerações", no fim do capítulo, que supõe um maná que não estraga nunca.
Por que o texto registra a obediência, se o importante parece o milagre?
Porque, no capítulo, as duas coisas andam juntas. Onde houve desobediência (Êxodo 16:20), houve vermes; onde houve obediência, não houve. O texto não diz que a obediência preservou o pão, mas coloca uma ao lado da outra, e o leitor não consegue separá-las.
O que se guarda por ordem dura, e o que se guarda contra a ordem apodrece?
É a leitura mais antiga e mais popular do par de versículos. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) a resume assim: quando guardaram o maná contra a ordem, ele fedeu; quando o guardaram pela ordem, ficou bom. Matthew Poole diz o mesmo com a linguagem da bênção e da maldição. O capítulo dá apoio à leitura, porque o terceiro maná guardado — o do jarro "pelas gerações" — também é guardado por ordem e também não estraga. Mas convém não fazer disso uma lei geral: o texto não diz que a obediência conserva as coisas, e o maná do sábado durou porque o dia era outro, não porque as pessoas eram melhores. O que o capítulo mostra é uma coincidência repetida três vezes, e deixa ao leitor a tarefa de não a transformar em fórmula.
9. Conexão com Outros Textos
O espelho do versículo
Êxodo 16:20 — "Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles."
Mesma ação, mesmo prazo, resultado oposto. Os dois versículos foram escritos para serem lidos juntos: "não deram ouvidos" × "como Moisés tinha ordenado"; "vermes" × "larva"; "criou vermes e fedeu" × "não fedeu, nem houve larva".
As duas palavras em par
Jó 25:6 — "Quanto menos o homem, que é larva, e o filho do homem, que é verme!"
Isaías 14:11 — "Fez-se descer ao mundo dos mortos a sua pompa e o som das suas harpas; debaixo de você se estende a larva, e os vermes são o seu cobertor."
Os poetas usam as duas palavras lado a lado, como sinônimos que se reforçam. Êxodo 16:20 e 16:24 repartem o par entre duas manhãs.
A larva como parentesco do homem
Jó 17:14 — "Se à cova eu clamo: 'Você é meu pai', e à larva: 'Minha mãe e minha irmã'…"
No uso bíblico, a palavra deste versículo é a do fim do corpo. Fora do Êxodo, ela nunca designa o bicho de um alimento.
O que não vê a corrupção
Salmo 16:10 — "Pois não deixarás a minha alma no mundo dos mortos, nem permitirás que o teu fiel veja a corrupção."
O salmista pede para si o que o pão do sábado recebeu: atravessar a noite sem se desfazer. O vocabulário é outro, mas a esperança é a mesma que o Livro dos Mortos expressava no Egito.
Comida santa com prazo
Levítico 19:6-7 — "No dia em que o oferecerem e no dia seguinte, será comido; o que sobrar até o terceiro dia será queimado no fogo. Se for comido no terceiro dia, será coisa abominável; não será aceito."
A lei do sacrifício de paz também fixa quantos dias uma comida pode durar, e o prazo vem do calendário sagrado, não da cozinha. Como no maná do sábado, o que decide se a comida ainda serve é o dia, e não a matéria.
O terceiro maná guardado
Êxodo 16:33 — "E Moisés disse a Arão: 'Tome um jarro, ponha nele um ômer cheio de maná e deposite-o diante do SENHOR, para ser guardado pelas gerações de vocês.'"
O mesmo verbo de "depositar" e a mesma expressão "para ser guardado". O que no sábado durou uma noite, no jarro deverá durar gerações.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Eles o depositaram até a manhã, como Moisés tinha ordenado; e não fedeu, nem houve larva nele.
Texto hebraico
וַיַּנִּיחוּ אֹתוֹ עַד־הַבֹּקֶר כַּאֲשֶׁר צִוָּה מֹשֶׁה וְלֹא הִבְאִישׁ וְרִמָּה לֹא־הָיְתָה בּוֹ׃
Transliteração
va-yanníchu otó ad-ha-bóqer ka'asher tsivváh Moshé, ve-lo hiv'ísh, ve-rimmáh lo-hayetáh bo.
Análise palavra por palavra
וַיַּנִּיחוּ — va-yanníchu, "e depositaram".
Hifil — a forma causativa do verbo hebraico — da raiz n-w-ch, "pousar, ficar quieto", na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa do plural. É o cumprimento exato do imperativo do versículo anterior, haníchu, "depositem": o verbo da ordem volta como verbo do fato. Há duas formas de Hifil desta raiz no hebraico bíblico, uma com o sentido de "dar descanso" e outra, com a consoante dobrada, de "deixar, pôr de lado"; aqui está a segunda, a mesma que voltará para o jarro de maná em Êxodo 16:33-34.
אֹתוֹ — otó, "o", "a ele". A partícula de objeto com sufixo masculino singular. O antecedente é o maná, ou "tudo o que sobrar" do versículo 23; o hebraico não distingue.
עַד־הַבֹּקֶר — ad-ha-bóqer, "até a manhã". A mesma expressão da ordem, com artigo: a manhã do sábado.
כַּאֲשֶׁר צִוָּה מֹשֶׁה — ka'asher tsivváh Moshé, "como Moisés tinha ordenado".
Ka'asher, "conforme", "como"; tsivváh, Piel — a forma intensiva do verbo hebraico — da raiz ts-w-h, ordenar, a de mitsváh, "mandamento". O sujeito é Moisés, não Deus. A fórmula de cumprimento com o nome de Moisés como autor da ordem é rara no Pentateuco, onde o padrão é "como o SENHOR ordenou a Moisés".
וְלֹא הִבְאִישׁ — ve-lo hiv'ísh, "e não fedeu".
Da raiz b-'-sh, cheirar mal, a do Nilo das águas de sangue (Êxodo 7:18) e a do maná estragado de Êxodo 16:20. A diferença está na forma. Em Êxodo 16:20 o verbo está no Qal, a forma simples: "fedeu". Aqui está no Hifil, que com este verbo tem sentido de processo — "não ficou fedorento", "não chegou a cheirar mal". A frase nega não só o resultado, mas o começo da decomposição.
וְרִמָּה — ve-rimmáh, "e larva".
Substantivo feminino singular, usado como coletivo: "larvas", "bicharia". Sete ocorrências na Bíblia hebraica: esta, cinco em Jó (Jó 7:5; 17:14; 21:26; 24:20; 25:6) e uma em Isaías 14:11. É a única vez que aparece em prosa e a única em que não se refere a um corpo humano. Os léxicos a ligam a uma raiz que indica podridão — o léxico de Brown, Driver e Briggs (dicionário inglês de hebraico bíblico, de 1906) deriva dela o verbo va-yárum de Êxodo 16:20, e o estudo daquele versículo apresenta a discussão. Em Êxodo 16:20, o substantivo era tola'ím, plural de tolá, o verme comum e a larva do escarlate.
A palavra vem antes do verbo, fora da ordem normal da frase hebraica: "e larva não houve nele". A inversão põe o bicho em evidência — exatamente o que se esperava encontrar e não se encontrou.
לֹא־הָיְתָה בּוֹ — lo-hayetáh bo, "não houve nele".
O verbo "ser, haver" no feminino, concordando com rimmáh, e a preposição "em" com sufixo masculino: "nele", no maná. A negação aparece duas vezes no versículo, uma para cada processo — o cheiro e o bicho —, o que sustenta a leitura de Nachmânides de que eles são independentes.
As traduções antigas
Nenhuma conserva as duas palavras. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas da Antiguidade) usa o mesmo termo, richashá, "bicharia", em Êxodo 16:20 e aqui. A Septuaginta usa skṓlēx, "verme", nos dois lugares. A Vulgata diz vermis nos dois e traduz os dois verbos de cheirar mal por computruit, "apodreceu". As versões apagaram a variação que o hebraico construiu.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o primeiro sábado se confirma pela matéria antes de se confirmar pela palavra. Moisés anunciou o dia na véspera; na manhã seguinte, o pão intacto mostra que o anúncio era verdadeiro. O povo não precisou acreditar no sábado: encontrou-o dentro da tenda.
A segunda é que Êxodo 16:20 e 16:24 só se entendem juntos. Um registra a podridão, o outro a ausência dela, e a comparação obriga a admitir que uma das duas manhãs foge da ordem natural. O capítulo não diz qual; diz apenas que a diferença entre elas coincide com a diferença entre desobedecer e obedecer.
A terceira é que o texto escolheu, para negar a corrupção no dia santo, a palavra que a poesia bíblica reservava para a corrupção dos mortos. Se foi intenção ou variação de estilo, não se pode afirmar. O efeito permanece: no primeiro sábado de Israel, a "larva" — o sinal mais concreto de que tudo se desfaz — não aparece.













