📖 Navegar na Bíblia:
‹

Gênesis 40:1

›
✍️ Por Alberto Adriano·6 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 114 acessos
Depois dessas coisas, aconteceu que o copeiro do rei do Egito e o padeiro ofenderam o seu senhor, o rei do Egito.
Dois homens de túnica egípcia sentados no chão de pedra de uma cela iluminada por uma fresta alta, cabisbaixos, com a sombra de um guarda ao fundo.

Estudo


Depois dessas coisas, aconteceu que o copeiro do rei do Egito e o padeiro ofenderam o seu senhor, o rei do Egito.

1. Introdução

O capítulo começa com dois desconhecidos e uma acusação que o texto não explica.

Gênesis 39 terminou com José preso, encarregado dos outros presos, e com a observação de que o SENHOR estava com ele. Este versículo muda de assunto sem aviso: sai de José e vai para dois funcionários do rei do Egito que caíram em desgraça.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a fórmula de abertura. "Depois dessas coisas" liga o capítulo ao anterior sem dizer quanto tempo passou — e em Gênesis essa expressão costuma anunciar uma virada.

O segundo é o que não está escrito. O texto informa que os dois ofenderam o seu senhor e para por aí. Não diz o que fizeram, nem se eram culpados. A tradição posterior preencheu esse vazio; o versículo, não.

O terceiro é como os dois entram na história. Sem nome, sem origem, sem idade: só pela função que exerciam. Serão o copeiro e o padeiro do começo ao fim do capítulo.

José não aparece neste versículo. Ele reaparece no versículo 4, e a partir dali o capítulo é dele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Cair em desgraça diante de um rei

O versículo pressupõe uma situação que era comum no mundo antigo e que hoje soa estranha: um funcionário do palácio desagrada o rei e, sem julgamento, é recolhido.

Não há tribunal na cena, nem defesa, nem sentença. Há a vontade do rei. No Egito faraônico o poder de punir servidores da corte era do próprio soberano, e os documentos que sobraram mostram funcionários sendo removidos, presos ou reabilitados por decisão pessoal dele. Esse é o pano de fundo do capítulo inteiro: o desfecho dos dois homens não dependerá de prova nenhuma, e sim de uma decisão que o texto nem se dá ao trabalho de justificar.

A prisão não era o que a palavra sugere hoje

Convém desfazer uma imagem. A prisão do Egito antigo não era uma penitenciária, com pena fixada por tempo. Era detenção — o sujeito ficava guardado enquanto o caso não se resolvia, e o caso podia demorar ou nunca se resolver.

Isso explica algo que salta aos olhos neste capítulo: os dois oficiais ficam presos "algum tempo" (versículo 4) sem que ninguém lhes diga o que vai acontecer. E explica também por que a decisão, quando vem, vem de uma vez só, num único dia, junto com o desfecho dos dois (versículo 20).

Papiros administrativos egípcios registram lugares de detenção ligados a repartições do Estado, tocados por um chefe responsável — o que corresponde ao que o versículo 3 descreverá. Não eram construções feitas para punir; eram dependências de trabalho onde os detidos ficavam sob guarda e, muitas vezes, trabalhavam.

O termo "senhor" e o alcance dele

Chamar o rei de "seu senhor" não é linguagem afetuosa nem exagero de tradução. Um servidor da corte pertencia à casa do rei num sentido bastante literal: era mantido por ela, dependia dela e respondia a ela. A palavra do original está no plural, e o item 10 trata disso.

Vale registrar um contraste que o capítulo vai explorar sem comentar. José também tem um senhor. Foi vendido a Potifar em Gênesis 39:1, chamou-o de senhor, e está preso por decisão dele. Os três homens que aparecem neste capítulo — o copeiro, o padeiro e José — são todos servidores caídos em desgraça, e nenhum deles decide o próprio destino.

Quanto tempo é "depois dessas coisas"

O texto não diz, e a pergunta importa mais do que parece.

Gênesis 41:1 informará que, depois do fim deste capítulo, passaram-se ainda dois anos completos. Sobre o intervalo entre a prisão de José e a chegada dos dois oficiais, nada. Somando o que o livro fornece — José chega ao Egito com dezessete anos (Gênesis 37:2) e se apresenta a Faraó com trinta (Gênesis 41:46) —, treze anos cabem entre a venda e o governo. Quanto desse tempo foi de prisão, e quanto de casa de Potifar, o texto não reparte.

3. Análise Teológica do Versículo

"Depois dessas coisas"

A expressão marca corte, não continuidade imediata.

Ela reaparece em pontos decisivos de Gênesis: antes da promessa a Abrão (Gênesis 15:1), antes do pedido do sacrifício de Isaque (Gênesis 22:1), antes da notícia sobre a família de Naor (Gênesis 22:20), antes do assédio na casa de Potifar (Gênesis 39:7) e antes da bênção final de Jacó (Gênesis 48:1). Em todas, o que vem depois muda o rumo.

O que a fórmula faz é encerrar o assunto anterior e abrir outro sem prestar contas do intervalo. Quem lê salta de José encarregado da prisão para dois oficiais entrando nela, e o texto não informa se isso levou uma semana ou cinco anos.

Há uma consequência de leitura que convém enunciar. Como o capítulo 39 termina bem — José prosperando dentro do cárcere — e o capítulo 40 começa com a chegada de dois desconhecidos, é fácil ler a sequência como se a solução estivesse a caminho. Ela não está. O capítulo 40 termina em esquecimento, e só o capítulo 41 muda a situação de José. A fórmula liga os episódios sem prometer nada.

"o copeiro do rei do Egito e o padeiro"

Os dois entram na história pela função, e assim ficam.

Nenhum dos dois recebe nome. Não é descuido: em toda a história de José, personagens egípcios raramente são nomeados — Potifar e Asenate são exceções. O copeiro e o padeiro serão chamados assim vinte e duas vezes ao longo do capítulo, sempre pelo ofício.

Isso tem um efeito. Os dois não são pessoas com biografia; são posições ocupadas. E o desfecho do capítulo mostrará que a posição é exatamente o que está em jogo: um volta ao cargo, o outro é executado. O que se decide no versículo 20 não é o valor moral de dois indivíduos, e sim quem continua servindo.

Há ainda um detalhe de vocabulário que a tradução esconde. Neste versículo eles aparecem como "o copeiro" e "o padeiro". No versículo seguinte serão "o chefe dos copeiros" e "o chefe dos padeiros" — cargos de outra ordem, e o item 2 do versículo 2 trata disso. A diferença entre as duas designações no mesmo par de versículos é discutida: pode ser variação de estilo, pode ser sinal de que o texto reuniu materiais diferentes. Não é possível decidir.

"ofenderam o seu senhor"

Este é o ponto do versículo, e o ponto é uma ausência.

O texto informa que houve ofensa e não diz qual. Não diz se foi negligência, roubo, conspiração ou acusação falsa. Não diz sequer se os dois eram culpados — apenas que Faraó se irou, o que é outra coisa.

A distinção não é sutil. O capítulo vai terminar com um deles restituído e o outro executado, e o leitor nunca saberá o que qualquer dos dois fez. Se o texto quisesse ensinar que um era inocente e o outro criminoso, bastaria dizer. Não diz.

E há um agravante que o próprio livro fornece: José está naquela prisão por uma acusação que Gênesis 39 mostrou ser falsa. O capítulo põe lado a lado três homens presos, e o único caso em que o leitor conhece os fatos é justamente aquele em que o preso é inocente.

O que a tradição posterior fez com esse silêncio

Vale registrar, marcando bem o que é texto e o que não é.

Comentários judaicos antigos, reunidos no Bereshit Rabbah ("Gênesis Rabá", coletânea de interpretações rabínicas compilada por volta do século V), preencheram a lacuna: uma mosca teria caído no copo do rei, e uma pedrinha no pão. A leitura é engenhosa porque explica a diferença de pena — a mosca é acidente, a pedra indica descuido na moagem —, e é engenhosa exatamente por isso: ela resolve um problema que o texto deixou aberto.

Comentaristas cristãos costumam ir por outro caminho e supor conspiração ou tentativa de envenenamento, o que também não está escrito.

Nenhuma das duas leituras é absurda. As duas são acréscimos. O versículo diz que os dois ofenderam o rei, e o pudor do texto diante do detalhe é, ele mesmo, um dado: Gênesis não está interessado no crime, e sim no que a prisão dos dois vai produzir.

"o rei do Egito" duas vezes

A expressão aparece duas vezes na mesma frase curta, uma no começo e outra no fim.

Em português a repetição soa desajeitada e várias traduções a aparam. No hebraico ela fecha a frase sobre si mesma: os homens são identificados pelo rei que servem, e a ofensa é dirigida ao mesmo rei. Tudo no versículo gira em torno dele.

Note-se ainda que aqui o soberano é "o rei do Egito", e só a partir do versículo 2 passa a ser "Faraó". As duas designações se alternam ao longo do capítulo sem regra visível.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O copeiro do rei do Egito

Servidor encarregado da bebida do soberano. Não é nomeado aqui nem em nenhum outro momento do livro. Será o personagem que sobrevive ao capítulo: restituído ao cargo no versículo 21, esquece José no versículo 23 e só se lembrará dele em Gênesis 41:9, quando Faraó tiver um sonho que ninguém sabe interpretar.

O padeiro

Servidor encarregado do pão e dos assados da mesa real. Também não é nomeado. Sua participação termina no versículo 22, executado.

Os dois aparecem sempre juntos até o versículo 19, e a partir dali o capítulo os separa.

O rei do Egito / Faraó

Não é nomeado, e isso é regra em Gênesis: nenhum faraó recebe nome próprio no livro. "Faraó" não é nome, é título — vem de uma expressão egípcia que significa "casa grande", o palácio, e passou a designar quem o ocupava.

Qual faraó teria sido, não é possível decidir. As datas propostas para José variam por séculos conforme a cronologia adotada, e o texto não fornece nada que permita fixá-lo.

Egito

O reino do vale do Nilo, para onde José foi levado como escravo em Gênesis 37:36. Toda a ação de Gênesis 39 a 50 se passa lá, com exceção das viagens dos irmãos.

O que aconteceu antes

José foi vendido pelos irmãos a mercadores e revendido no Egito a Potifar, oficial de Faraó (Gênesis 37:36; 39:1). Prosperou na casa dele, foi acusado falsamente pela mulher de Potifar e acabou preso (Gênesis 39:7-20). Na prisão, o comandante da guarda entregou-lhe a supervisão dos demais presos (Gênesis 39:21-23).

É essa a posição de José quando os dois oficiais chegam: preso, mas encarregado.

5. Pontos de Ensino

O texto informa o que aconteceu, não o que se deve concluir

Gênesis 40:1 registra uma ofensa e uma ira, e não avalia nenhuma das duas. Não diz que os oficiais mereciam, nem que o rei exagerou. Quem lê procurando lição moral no versículo sai de mãos vazias — e isso é característica do estilo do livro, não falha dele.

Silêncio não é convite para preencher

O que os dois fizeram é a primeira pergunta que ocorre a qualquer leitor, e a resposta é que não se sabe. Duas tradições antigas inventaram respostas plausíveis, cada uma explicando bem a diferença de pena. Nenhuma tem apoio no texto.

O ponto de ensino é o método: distinguir o que está escrito do que se conclui, e dizer qual é qual. Um estudo honesto do versículo termina com a lacuna intacta.

A queda pode vir de onde não se espera

Dois homens da corte, com acesso diário ao rei, terminam no mesmo cárcere de um escravo estrangeiro condenado por um crime que não cometeu. A proximidade do poder não protegeu nenhum dos dois.

O capítulo não transforma isso em sentença sobre a vaidade das posições. Apenas põe os três na mesma cela.

O encontro que muda tudo começa por um problema alheio

A vida de José vira por causa de uma desgraça que não é dele. Se os dois oficiais não tivessem ofendido o rei, não teriam sido presos, não teriam sonhado ali, e o copeiro não teria nada para lembrar diante de Faraó em Gênesis 41.

Registre-se o limite: isso é observação sobre o enredo, feita por quem já leu o fim. Nada no versículo aponta para frente, e José, no versículo 1, não sabe de nada.

6. Aspectos Filosóficos

O que se pode afirmar quando o relato cala

O versículo produz um problema simples e desconfortável: sabe-se que houve ofensa e não se sabe qual. O leitor fica com uma informação incompleta e com a tentação de completá-la.

A tentação tem nome. Preencher lacunas com o que torna a história coerente é um hábito do entendimento, não uma prova sobre o que aconteceu. As duas tradições que responderam à pergunta — a mosca no copo, a conspiração — funcionam bem como explicação e não valem nada como informação.

A regra que o versículo impõe, se for lido com honestidade, é conhecida na teoria do conhecimento: uma explicação que encaixa os fatos não fica verdadeira por encaixar. Coerência é condição, não garantia.

O texto, aqui, é mais rigoroso que seus comentadores. Ele afirma o que registra e não afirma o que ignora.

7. Aplicações Práticas

Este versículo tem pouca aplicação direta, e é honesto dizer isso em vez de fabricar seis.

O que ele oferece, e oferece de verdade, é um exercício de leitura: reparar em onde a informação termina.

Diante de qualquer relato — uma demissão contada por terceiros, uma briga que se ouve de um lado só, uma acusação — vale separar três coisas que costumam chegar embaladas juntas: o que se sabe, o que se supõe e o que se conclui. Gênesis 40:1 diz que dois homens ofenderam o rei e que o rei se irou. Tudo o mais que se afirmar sobre o caso é suposição de quem lê.

Quem consegue manter essa separação diante de um texto antigo tende a mantê-la também diante de um relato recente, e essa é a única aplicação prática que o versículo sustenta sem forçar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que os dois oficiais fizeram?

O texto não diz. Informa que ofenderam o rei e nada mais. Qualquer resposta específica — mosca no copo, pedra no pão, conspiração, envenenamento — vem de tradição posterior, não do versículo.

Se o texto não diz, por que menciona a ofensa?

Porque ela explica como os dois foram parar na mesma prisão que José, que é o que o capítulo precisa. O motivo da queda não interessa ao relato; a queda, sim.

Os dois eram culpados?

Não é possível decidir. O versículo diz que ofenderam, o que pode significar que fizeram algo ou que foram tidos como responsáveis por algo. José está naquela mesma prisão por uma acusação que o leitor sabe ser falsa — o que basta para desaconselhar a suposição de que todo preso do capítulo é culpado.

Por que um foi restituído e o outro executado, se a ofensa foi a mesma?

O texto não afirma que a ofensa foi a mesma; diz que os dois ofenderam, o que não implica um único ato. A diferença de desfecho é anunciada nos sonhos e cumprida no versículo 20, sempre sem explicação de causa.

Quanto tempo passou desde o fim de Gênesis 39?

O texto não informa. O livro fornece apenas os extremos: José chega ao Egito com dezessete anos e se apresenta a Faraó com trinta.

9. Conexão com Outros Textos

A fórmula "depois dessas coisas" em Gênesis

Ela abre, invariavelmente, um episódio que muda o rumo.

Gênesis 15:1 — "Depois dessas coisas, a palavra do SENHOR veio a Abrão numa visão: 'Não tenha medo, Abrão. Eu sou o seu escudo; a sua recompensa será muito grande.'"

Gênesis 22:1 — "Depois dessas coisas, Deus pôs Abraão à prova. Disse-lhe: 'Abraão!' Ele respondeu: 'Eis-me aqui.'"

Gênesis 22:20 — "Depois dessas coisas, avisaram a Abraão: 'Milca também deu filhos a seu irmão Naor.'"

Gênesis 39:7 — "Depois disso, aconteceu que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José e disse: 'Deite-se comigo.'"

Gênesis 48:1 — "Depois dessas coisas, disseram a José: 'Seu pai está doente.'"

Em quatro dos cinco casos o que vem depois é uma prova, uma perda ou uma virada. Este versículo segue o mesmo desenho — mas a virada é de dois estranhos, e só alcançará José um capítulo adiante.

Onde o capítulo começa: a situação de José

Gênesis 39:20 — "E o senhor de José o tomou e o pôs no cárcere, no lugar onde os presos do rei estavam encarcerados; e ali ficou, no cárcere."

A observação de que ali ficavam "os presos do rei" é o que torna possível o encontro deste capítulo. Os dois oficiais não vão para uma prisão qualquer: vão para aquela.

Servidores da corte que caem em desgraça

1 Samuel 22:18 — "Então disse o rei a Doegue: 'Vira-te tu e arremete contra os sacerdotes.' E Doegue, o edomita, matou naquele dia oitenta e cinco homens que vestiam a estola de linho."

Saul manda executar os sacerdotes de Nobe por suspeita de conluio com Davi. Como aqui, a decisão é do soberano e dispensa processo.

Ester 2:21 — "Naqueles dias, estando Mardoqueu sentado à porta do rei, dois oficiais do rei, dos guardas da porta, Bigtã e Teres, indignaram-se e procuraram atentar contra o rei Assuero."

Ester 2:23 — "Investigou-se o caso, achou-se que era verdade, e ambos foram pendurados numa forca; e isso foi escrito no livro das crônicas, diante do rei."

O paralelo é o mais próximo de todos, e vai além da queda de dois oficiais: em Ester, quem prestou o serviço fica esquecido, e a lembrança só vem tarde.

Ester 6:3 — "Então disse o rei: 'Que honra e que distinção se deu a Mardoqueu por isso?' Os servos do rei responderam: 'Não se lhe fez coisa alguma.'"

Gênesis 40 terminará exatamente assim, no versículo 23, e o esquecimento durará dois anos.

O fio que este versículo abre e só o capítulo seguinte fecha

Gênesis 41:9 — "Então o chefe dos copeiros falou a Faraó: 'Hoje me lembro das minhas faltas.'"

A palavra que ele usa para as próprias faltas é a mesma que este versículo emprega para a ofensa dos dois — o item 10 trata dela.

O crime que o texto não conta

Não é caso isolado em Gênesis, e em todos eles a tradição posterior preencheu.

Gênesis 38:7 — "Er, o primogênito de Judá, foi mau aos olhos do SENHOR, e o SENHOR tirou-lhe a vida."

Gênesis 9:22 — "Cam, o pai de Canaã, viu a nudez do seu pai e contou aos seus dois irmãos que estavam do lado de fora."

Num caso o livro diz que houve maldade sem dizer qual; no outro, descreve um ato cujo alcance permanece discutido. Aqui diz que houve ofensa e passa adiante. O padrão é do texto, não descuido de cópia.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Depois dessas coisas, aconteceu que o copeiro do rei do Egito e o padeiro ofenderam o seu senhor, o rei do Egito.

Texto hebraico

וַיְהִי אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה חָטְאוּ מַשְׁקֵה מֶלֶךְ־מִצְרַיִם וְהָאֹפֶה לַאֲדֹנֵיהֶם לְמֶלֶךְ מִצְרָיִם׃

Transliteração

wa-yehi achar ha-devarim ha-elleh chate'u mashqeh melekh-Mitsrayim we-ha-ofeh la-adoneihem le-melekh Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיְהִי — wa-yehi, "e aconteceu", "e foi".

Forma do verbo hayah (ser, estar, acontecer) com o prefixo que encadeia a narrativa. É a maneira padrão de o hebraico bíblico emendar um episódio no anterior, e aparece milhares de vezes.

Vale notar que ela abre o capítulo e vai reaparecer em pontos de virada dentro dele: no versículo 5, quando os dois sonham, e no versículo 20, quando chega o dia do desfecho.

אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה — achar ha-devarim ha-elleh, "depois destas coisas".

Achar é "depois". Devarim é o plural de davar, e aqui está a ambiguidade que a tradução não consegue guardar: davar significa tanto "palavra" quanto "coisa", "assunto", "acontecimento". A mesma expressão pode ser lida como "depois destas palavras" ou "depois destes acontecimentos".

Nos usos de Gênesis o sentido é claramente o de acontecimentos, e é assim que praticamente todas as traduções vertem. Registre-se apenas que a duplicidade existe na palavra, e que ela é a mesma que aparece em contextos onde davar significa ordem, promessa ou notícia.

חָטְאוּ — chate'u, "ofenderam", "erraram", "pecaram".

Terceira pessoa do plural, tempo perfeito, do verbo chata'. Esta é a palavra que interessa no versículo, e ela é mais ampla do que "pecar" sugere em português.

O sentido básico da raiz é errar o alvo, não acertar. Juízes 20:16 usa a mesma raiz para descrever fundeiros que atiravam pedra a um fio de cabelo "sem errar" — o único uso claramente não religioso do verbo em toda a Bíblia, e o que melhor mostra o sentido de base.

Daí decorre um alcance largo. Chata' cobre desde falta contra Deus (Gênesis 39:9, na boca do próprio José, poucos versículos antes) até falta contra uma pessoa, prejuízo causado, quebra de obrigação. Em Gênesis 42:22 Rúben o usa para o que os irmãos fizeram a José. Em Gênesis 43:9 Judá o emprega no sentido de assumir a culpa por um prejuízo.

Aqui o complemento é humano — os dois erraram contra o seu senhor —, e por isso a tradução "ofenderam" serve melhor que "pecaram", que em português puxa para o vocabulário religioso.

Um dado que convém marcar: o verbo diz que houve falta, não diz qual, e não distingue entre falta cometida e falta imputada. Ele descreve a relação rompida, não o ato.

מַשְׁקֵה — mashqeh, "copeiro", literalmente "o que dá de beber".

Substantivo formado a partir do verbo shaqah, dar de beber, fazer beber. A mesma raiz produz as palavras de irrigação: em Gênesis 2:6 o vapor "regava" toda a face da terra, e em Gênesis 2:10 o rio saía do Éden para "regar" o jardim.

A ligação é curiosa e vale registrar sem forçar: quem serve a bebida e quem irriga a terra fazem, em hebraico, a mesma coisa. Não há indício de que o texto explore isso de propósito; é característica do vocabulário, não figura de estilo.

A palavra também designa a função em 1 Reis 10:5, onde a rainha de Sabá se admira, entre outras coisas, dos copeiros de Salomão — o que confirma que se trata de posto de corte, e não de serviçal qualquer.

הָאֹפֶה — ha-ofeh, "o padeiro".

Particípio do verbo afah, assar, cozer. É "aquele que assa". A mesma raiz aparece em Gênesis 19:3, quando Ló assa pães sem fermento para os visitantes, e em 1 Samuel 8:13, na lista do que um rei tomaria do povo — as filhas seriam perfumistas, cozinheiras e padeiras.

לַאֲדֹנֵיהֶם — la-adoneihem, "contra o seu senhor".

De adon, senhor, dono, com sufixo de terceira pessoa do plural. A forma está no plural: ao pé da letra, "aos seus senhores".

Trata-se de um uso conhecido do hebraico, em que o plural marca dignidade e não quantidade — o mesmo que ocorre com elohim aplicado ao Deus único. Aqui há um só senhor, o rei, e o plural o eleva.

A mesma palavra, no singular, é a que José usa para Potifar em Gênesis 39:8, e a que os irmãos usarão para o próprio José em Gênesis 44:16. A palavra atravessa a história inteira mudando de dono.

לְמֶלֶךְ מִצְרָיִם — le-melekh Mitsrayim, "ao rei do Egito".

Melekh é rei; Mitsrayim é o Egito. A expressão fecha o versículo repetindo o que já fora dito no começo, e a repetição é do original, não da tradução: o rei do Egito aparece duas vezes na mesma frase.

Sobre Mitsrayim: a forma tem terminação de dual, a que em hebraico marca pares, e há quem veja aí uma lembrança do Alto e do Baixo Egito. A explicação é antiga e continua discutida; não há consenso.

11. Conclusão

Do que foi visto, três conclusões se sustentam.

Primeira: o versículo é uma dobradiça, não um começo. Ele fecha o assunto de Gênesis 39 e abre outro sem informar quanto tempo passou. A fórmula que usa para isso é a mesma que, em Gênesis, antecede as viradas — e aqui a virada não é de José, é de dois estranhos.

Segunda: a lacuna é do texto, e deve continuar sendo. Saber o que os dois oficiais fizeram seria interessante e é impossível. As respostas que circulam são acréscimos de leitores antigos, boas como explicação e sem valor como informação. Um estudo que as apresenta como dado troca o versículo por outra coisa.

Terceira: o capítulo começa igualando três homens. O copeiro, o padeiro e José estão na mesma prisão, e o leitor conhece os fatos de um só caso — o do inocente. Isso não é dito, é armado: o versículo põe os três no mesmo lugar e deixa a comparação por conta de quem lê.

O que este versículo não faz, e convém não atribuir a ele: não julga os oficiais, não critica o rei, não anuncia libertação e não sugere que a chegada dos dois seja resposta a nada. Tudo isso só aparece depois, e uma parte nem aparece.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 40:1

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%