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Mateus 15:1

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 88 acessos
Então alguns fariseus e escribas de Jerusalém se aproximaram de Jesus e perguntaram:
Grupo de homens de vestes longas chegando a pé a um vilarejo da Galileia ao amanhecer, diante de um mestre cercado por ouvintes.

Estudo


Então alguns fariseus e escribas de Jerusalém se aproximaram de Jesus e perguntaram:

1. Introdução

O capítulo abre com uma visita, e a visita veio de longe.

Fariseus e escribas já haviam interpelado Jesus várias vezes na Galileia. Desta vez, os que chegam vieram de Jerusalém — e Mateus faz questão de dizer isso. É a primeira vez no evangelho que ele informa a procedência de quem vem discutir.

Três coisas estão em jogo aqui, e cada uma é tratada no seu lugar.

A primeira é a procedência. O que muda quando a interpelação desce da capital para a província, e o que Mateus diz — e o que ele não diz — sobre quem mandou o grupo.

A segunda é a dupla que se apresenta. Fariseus e escribas não são a mesma coisa, e a ordem em que Mateus os nomeia aqui é o contrário da que ele usará no capítulo 23 do mesmo evangelho.

A terceira é a forma. O que chega é uma pergunta; o que está sendo feito é uma acusação. E ela não é dirigida a quem teria cometido a falta: os acusados são os discípulos, o interpelado é o mestre.

2. Contexto Histórico e Cultural

A viagem custava

Entre Jerusalém e a Galileia há cerca de cento e vinte quilômetros em linha reta, e bastante mais a pé. Quem fazia o trajeto gastava de três a cinco dias em cada direção, dormindo pelo caminho. Havia duas rotas: a mais curta atravessava a Samaria, e muitos judeus a evitavam por causa da hostilidade entre os dois povos; a alternativa descia pelo vale do Jordão e subia depois, mais longa e mais segura.

Ninguém fazia essa viagem por acaso. O deslocamento, no mundo antigo, era caro em tempo e em risco, e por isso mesmo comunicava alguma coisa antes de qualquer palavra ser dita. Um grupo que se desloca por vários dias para fazer uma pergunta já respondeu, com o próprio corpo, à pergunta sobre a importância que atribui ao assunto.

Prestígio sem jurisdição

Este é o dado que a leitura corrente costuma errar. Na década de 30 do primeiro século, a Galileia era território de Herodes Antipas, e a Judeia estava sob administração romana direta, com um prefeito em Cesareia. São duas jurisdições distintas. O tribunal religioso de Jerusalém não tinha poder de polícia na Galileia, não podia prender ninguém ali nem executar sentença.

O que um grupo vindo da capital tinha, portanto, não era força — era reputação. E reputação, num sistema religioso sem hierarquia formal de nomeações, é quase tudo. Os mestres de Jerusalém podiam declarar um professor da província pouco confiável, e essa avaliação circulava pelas sinagogas junto com as caravanas. Nenhum decreto era necessário.

Entender isso muda a cena. Não é uma prisão nem um julgamento com poder de condenar. É uma inspeção — e é justamente por não ter força que ela precisa acontecer em público, diante da multidão que segue Jesus.

O mestre responde pelos discípulos

A acusação fala dos discípulos e é dirigida a Jesus. Isso não é descuido: é a convenção da época.

Nas escolas judaicas do primeiro século, o aluno não recebia apenas conteúdo. Ele acompanhava o mestre, comia com ele, observava como ele decidia os casos concretos do dia — e o que fazia com as mãos valia como demonstração do que o mestre ensinava. A prática do discípulo era o ensino do professor tornado visível. Quem quisesse atacar a doutrina de um mestre atacava o comportamento dos alunos dele, e a resposta cabia ao mestre.

É por isso que Jesus não manda os discípulos se explicarem. A pergunta é sobre eles, mas o que está em exame é o ensino dele.

Por que os escribas vinham junto

Ler e escrever eram habilidades raras. Não há como fixar um número — as estimativas variam muito e nenhuma é demonstrável —, mas há acordo entre os estudiosos de que a capacidade de ler, copiar e citar a Torá se concentrava numa classe pequena de profissionais.

Uma acusação formulada na linguagem da norma exigia alguém capaz de citar a norma. Os fariseus traziam a autoridade do movimento; os escribas, a competência técnica de quem sabia onde a regra estava escrita e como ela vinha sendo aplicada. A delegação, nesse sentido, está completa: chega com o peso e com o argumento.

O assunto específico que eles vieram tratar — a lavagem das mãos antes de comer e o corpo de normas orais que a impunha — é o tema do versículo seguinte, e o fundo histórico dele está no contexto de Mateus 15:2.

3. Análise Teológica do Versículo

“Então”

A palavra é uma costura, não uma data. Mateus a usa com frequência para emendar blocos de narrativa, e ela não fixa quanto tempo passou: pode ser no mesmo dia, pode ser semanas depois.

O que ela fixa é a ordem em que as coisas devem ser lidas. E a ordem, aqui, produz um contraste que o texto não comenta. O capítulo anterior termina em Genesaré, com os doentes de toda a região sendo levados a Jesus e curados ao simples toque (Mateus 14:34-36). Este capítulo começa com a autoridade religiosa oficial descendo da capital para questioná-lo. Reconhecimento popular de um lado, contestação institucional do outro, um parágrafo depois do outro.

Mateus põe as duas cenas lado a lado e segue adiante sem tirar conclusão nenhuma. Que o contraste seja intencional é leitura provável, não certeza — o evangelho não diz.

“alguns fariseus e escribas”

Duas observações, e as duas mudam a leitura.

A primeira é o “alguns”. Não veio o movimento inteiro, e o texto não descreve um ato oficial de partido nenhum. É um grupo. Quem lê aqui uma deliberação formal do farisaísmo está acrescentando ao que está escrito.

A segunda é a ordem dos dois nomes. Mateus escreve fariseus antes de escribas. No capítulo 23 do mesmo evangelho ele fará o contrário oito vezes seguidas, sempre “escribas e fariseus”. Essa consistência do capítulo 23 é que torna a inversão daqui digna de nota.

A leitura mais defensável é a de que a ordem acompanha quem toma a iniciativa. Aqui a queixa é do partido, e os letrados vêm dar a fundamentação técnica; em Mateus 23, o alvo é a autoridade de quem ensina — os escribas ocupam “a cadeira de Moisés” (Mateus 23:2) —, e por isso eles aparecem primeiro. É leitura, e ela é discutida: há comentaristas que atribuem a variação a hábito de escrita, sem carga de argumento. Não há consenso.

“de Jerusalém”

Aqui está o achado do versículo, e ele se sustenta num silêncio anterior.

Mateus já registrou cinco aproximações de fariseus a Jesus antes desta: a queixa por ele comer com publicanos (Mateus 9:11), a disputa sobre colher espigas no sábado (Mateus 12:2), o conselho para matá-lo (Mateus 12:14), a acusação de expulsar demônios por Belzebu (Mateus 12:24) e o pedido de um sinal (Mateus 12:38). Em nenhuma delas ele informou de onde vinha quem chegava. Aqui informa.

O dado não é decorativo. Fariseus da Galileia falavam por si; um grupo vindo de Jerusalém trazia junto o peso da cidade do Templo, do tribunal supremo e das escolas de ensino mais influentes. A escala do conflito muda, e é isso que o adjunto de lugar comunica.

Mas há um limite, e ele precisa ser dito com todas as letras: Mateus não afirma que essa gente foi enviada. Ele registra de onde vieram, e para por aí. Marcos 7:1, que conta a mesma cena, também não vai além da procedência.

A leitura de que se tratava de uma missão oficial do tribunal de Jerusalém é inferência de comentaristas — inferência plausível, dado o que acontece em seguida, mas inferência. Procedência é o que está escrito; mandato é o que se conclui. Separar as duas coisas não é preciosismo: é a diferença entre ler o texto e ler o que se espera dele.

“se aproximaram de Jesus”

O verbo do texto é o mesmo que Mateus usa quando os doentes chegam pedindo cura e quando os discípulos chegam pedindo explicação. Não carrega hostilidade nenhuma. A dureza da cena está no que eles dizem, não em como chegam.

E há um detalhe que passa despercebido: eles vão até ele. Não o convocam a Jerusalém, não o citam para comparecer, não mandam recado. Descem à província e se apresentam. Quem faz isso está reconhecendo, sem querer, que o outro é alguém a quem se deve perguntar — e que não pode simplesmente ser ignorado.

“e perguntaram”

A forma é interrogativa; o conteúdo é acusatório. São coisas diferentes, e a diferença é o mecanismo da cena.

Quem pergunta “por que você faz isso?” já estabeleceu duas coisas antes de o outro abrir a boca: que a coisa está sendo feita e que ela é errada. Restou ao interpelado apenas escolher a desculpa. É uma armadilha educada, e funciona porque preserva a aparência de diálogo enquanto elimina a possibilidade dele.

Jesus não vai cair nela. No versículo 3 ele devolve uma pergunta, e a pergunta dele desloca o assunto inteiro — a discussão deixa de ser sobre as mãos dos discípulos e passa a ser sobre a autoridade de quem acusa.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os fariseus

Movimento religioso judaico ativo do segundo século antes de Cristo até o fim do primeiro depois. O nome vem de uma palavra aramaica que significa “os separados” — provavelmente uma referência ao afastamento em relação ao que consideravam impuro, embora a origem exata do nome seja discutida.

A fonte histórica principal sobre eles não é cristã. É Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores gregos e romanos e era ele próprio ligado ao movimento), que os descreve na Guerra dos Judeus 2.162-166 e nas Antiguidades Judaicas 13.171-173 e 18.11-17. Ele os apresenta como o grupo com maior aceitação popular no judaísmo da Palestina e como os intérpretes mais rigorosos da Lei.

Criam na ressurreição dos mortos, na providência divina agindo junto com a liberdade humana, no juízo final, em anjos e espíritos. Os saduceus, a aristocracia sacerdotal ligada ao Templo, rejeitavam todos esses pontos. Em cada um deles, Jesus está do lado dos fariseus.

Aceitavam, além da Torá escrita, um corpo de normas transmitidas oralmente, que consideravam igualmente vindas de Moisés. É esse ponto que gera o conflito do capítulo.

Os escribas

Não é o nome de um partido, e sim de uma profissão: os letrados que sabiam ler, copiar, ensinar e aplicar a Lei. Havia escribas entre os fariseus, entre os saduceus e sem filiação conhecida. Quando os evangelhos os associam aos fariseus, referem-se aos letrados do movimento farisaico.

A figura vem de longe. Esdras 7:6 já apresenta Esdras como “escriba versado na lei de Moisés”, e é dessa matriz que a classe se desenvolve. No período do Segundo Templo ela se profissionalizou e passou a exercer, na prática, a autoridade de dizer ao povo o que a Torá dizia.

Jerusalém

Três instituições numa cidade só. O Templo, único lugar autorizado para os sacrifícios ao Deus de Israel. O tribunal supremo, com jurisdição religiosa sobre os judeus da Judeia. E as escolas de ensino mais influentes do judaísmo, entre as quais as de Hilel e Shamai, as duas correntes farisaicas que dominavam o debate na virada do primeiro século e que divergiam entre si em dezenas de pontos práticos.

A Galileia

Província do norte, separada da Judeia pela Samaria, com população mais misturada e presença gentia significativa — o que lhe valeu o nome de “Galileia dos gentios” (Isaías 8:23, citado em Mateus 4:15). Entre os judeus mais estritos, tinha fama de lugar de menor rigor religioso. O preconceito aparece duas vezes em João: “de Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (João 1:46) e “examina, e verás que da Galileia não surge profeta algum” (João 7:52).

Jesus, neste ponto do evangelho

O capítulo anterior fechou a fase mais visível do ministério galileu: a multiplicação dos pães para cinco mil homens (Mateus 14:13-21), a travessia sobre o mar (Mateus 14:22-33) e as curas em massa em Genesaré (Mateus 14:34-36). Antes disso tudo, a fama já havia chegado à corte — Herodes Antipas ouviu falar dele e o tomou por João Batista ressuscitado (Mateus 14:1-2).

É esse Jesus, no auge do reconhecimento popular, que a delegação vem examinar.

5. Pontos de Ensino

1. Oposição organizada é sinal de que o trabalho ficou visível. Ninguém viaja cinco dias para corrigir alguém irrelevante. A vinda da delegação é, antes de qualquer palavra, um reconhecimento involuntário de que Jesus deixou de ser assunto local.

2. O evangelho não caricatura os adversários. Mateus poderia ter escrito “os inimigos de Jesus”. Escreveu o nome do movimento, a profissão dos que vieram e a cidade de onde saíram. Quem quiser transformar isso em vilania de novela terá de acrescentar por conta própria.

3. Quem ensina responde pelo que os seus fazem. A acusação mira os discípulos e chega ao mestre, e Jesus não protesta contra isso. Aceita o endereço da cobrança.

4. A forma cortês não neutraliza o conteúdo hostil. Vieram perguntando. O que trouxeram era acusação. Confundir educação com boa-fé é erro de leitura, aqui e em qualquer lugar.

5. Autoridade sem poder de coerção age por reputação. O grupo não podia prender nem punir ninguém na Galileia. Podia desqualificar — e a desqualificação, num ambiente sem cargos formais, circulava mais rápido que qualquer sentença.

6. Detalhes de lugar carregam argumento. Duas palavras sobre procedência reordenam o peso de toda a cena que vem a seguir. Ler depressa demais custa o episódio inteiro.

6. Aspectos Filosóficos

O problema

Dois tipos de autoridade se encontram neste versículo, e nenhum dos dois reconhece o outro. De um lado, homens cuja autoridade vem de uma cadeia de transmissão; de outro, um mestre cuja autoridade não vem de cadeia nenhuma. A pergunta filosófica é anterior à disputa sobre a lavagem das mãos: o que faz alguém ter direito de falar em nome de uma tradição?

A leitura a seguir é do comentarista, e usa categorias que o evangelho não tem. O evangelho não teoriza sobre autoridade, não classifica tipos de legitimidade e não usa nenhum dos conceitos abaixo, que são de outro século.

A legitimidade pela transmissão

O modelo dos que chegam é explícito na literatura rabínica posterior. O tratado Pirkei Avot (“Capítulos dos Pais”, coletânea de máximas dos mestres judeus que integra a Mishná) abre exatamente assim: “Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Josué, e Josué aos anciãos, e os anciãos aos profetas, e os profetas aos homens da Grande Assembleia”.

A frase é uma teoria da autoridade em duas linhas. Quem fala tem direito de falar porque recebeu de quem recebeu, numa corrente que não se interrompeu. A legitimidade não está na pessoa nem no argumento: está no elo.

É fácil desprezar esse modelo, e seria um erro. Ele responde a um problema real, que nenhuma comunidade escapa de enfrentar: como saber se o que se ensina hoje é o que foi recebido? Sem cadeia, cada geração recomeça do zero e qualquer um pode alegar qualquer coisa. A corrente de transmissão é o mecanismo que uma tradição inventa para não se dissolver.

Weber: três modos de a autoridade se justificar

Max Weber, sociólogo alemão, propôs em Economia e Sociedade (obra publicada em 1922, depois da morte dele) uma distinção que se tornou clássica. Uma autoridade pode ser aceita como legítima por três razões diferentes: porque sempre foi assim (autoridade tradicional), porque está prevista em regras impessoais (autoridade legal), ou por causa das qualidades extraordinárias atribuídas à pessoa de quem manda — o que ele chamou de carisma, tomando emprestado um termo religioso e esvaziando-o de julgamento de valor.

A cena do versículo põe o primeiro tipo diante do terceiro. A delegação é a autoridade tradicional em pessoa: vem porque a corrente lhe dá o direito de vir. Jesus é descrito, poucos capítulos antes, exatamente pelo contraste — ensinava “como quem tem autoridade, e não como os escribas deles” (Mateus 7:29). A frase não diz que ele ensinava melhor; diz que ensinava de outro lugar.

Weber observou algo que interessa aqui: a autoridade do terceiro tipo é instável por natureza. Ela não se herda, não se delega e não sobrevive à pessoa. Para durar além de uma geração, precisa se converter em uma das outras duas — virar tradição ou virar cargo. É o processo que ele chamou de rotinização.

A observação tem um efeito desconfortável sobre o próprio cristianismo, e vale registrá-lo. O movimento que começa em oposição à autoridade da cadeia de transmissão será, em poucos séculos, uma instituição organizada em torno de uma cadeia de transmissão. Isso não refuta nada nem acusa ninguém: descreve o que acontece com todo movimento que sobrevive ao fundador.

Onde o versículo não decide

O texto não oferece critério para escolher entre os dois modelos, e é honesto dizer isso. Quem chega tem a cadeia a seu favor; quem responde não tem. Se a legitimidade fosse só a da corrente, os que vieram de Jerusalém teriam razão pelo simples fato de terem vindo de Jerusalém.

O que o capítulo fará, a partir do versículo 3, é outra coisa — nem defender a cadeia nem negá-la, mas testá-la contra aquilo que ela mesma diz transmitir. É um movimento diferente de tudo isto, e ele pertence ao versículo seguinte.

7. Aplicações Práticas

A viagem faz parte do que está sendo dito

Cinco dias de caminho para fazer uma pergunta que caberia num recado. O deslocamento é metade da mensagem, e quem o faz sabe disso.

Vale nos dois sentidos. Quando alguém atravessa a cidade para conversar com você, o atravessar a cidade já é parte do assunto — e responder de forma casual a quem se deslocou comunica desprezo, mesmo sem intenção. Quando você precisa dizer algo difícil, o meio escolhido diz junto: a mesma frase pesa diferente pessoalmente, por telefone e por mensagem.

Na prática, isso cabe numa pergunta objetiva. Das conversas que você vem adiando, quais merecem literalmente uma viagem? São poucas. Mas as que são, são exatamente as que costumam ser feitas por mensagem.

Enfrente a versão forte do argumento do outro

Mateus não descreve vilões. Descreve um movimento popular, com projeto religioso sério, representado por gente que sabia do que estava falando. A caricatura dos fariseus como hipócritas de manual é acréscimo de púlpito, e ela custa caro em dois lugares.

Custa na leitura, porque uma vitória sobre um adversário fraco não ensina nada. E custa fora do texto, porque instala um hábito: o de discutir sempre com a versão mais tola do que o outro pensa.

A regra prática é simples de enunciar e difícil de cumprir. Antes de responder, saiba dizer a posição do outro de um jeito que ele reconheceria como sua. Se você só consegue refutar uma caricatura, não refutou ninguém — refutou a caricatura que você mesmo montou.

Ataque organizado costuma vir depois do crescimento

Enquanto o trabalho é pequeno, ninguém gasta cinco dias de viagem para contestá-lo. A oposição institucional chega quando ignorar já saiu mais caro que enfrentar.

Isso não torna o ataque agradável nem transforma crítica em elogio. Serve para calibrar a reação: espantar-se com a oposição é ingenuidade, e deixar-se paralisar por ela é desperdiçar o que ela involuntariamente confirma.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Marcos conta a mesma cena? O que muda de um para o outro?

Conta, e o detalhe da procedência está lá também: “os fariseus e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém” (Marcos 7:1). A diferença aparece logo depois. Marcos interrompe a narrativa para explicar ao leitor o que era o costume judaico de lavar as mãos, os copos e os jarros (Marcos 7:3-4). Mateus corta a explicação inteira.

A omissão informa sobre o público de cada um. Marcos escreve para leitores que não sabem como funciona uma casa judaica; Mateus, para quem já sabe e não precisa que lhe expliquem. É um dos indícios de que o evangelho de Mateus foi escrito dentro de um ambiente de forte formação judaica.

Por que Mateus nunca define o que é a “tradição dos anciãos”?

Pela mesma razão. Ele usa o termo técnico e segue adiante, como quem menciona algo corrente. Um autor que precisasse explicar teria explicado, e o paralelo em Marcos mostra que havia quem precisasse.

O que aconteceu com os fariseus depois?

Em 70 depois de Cristo, Jerusalém foi tomada e o Templo destruído. Com ele acabaram os sacrifícios e o papel central do sacerdócio. Dos grupos religiosos do período, o farisaico foi o que atravessou a catástrofe — em boa medida porque o seu programa já era o de uma religião praticável fora do Templo, na casa e na mesa.

O judaísmo rabínico, que é o judaísmo tal como existe desde então, é o desdobramento desse grupo. O dado importa para a leitura: o partido com que os evangelhos discutem não é uma seita extinta, e sim o antepassado direto de uma religião viva. Boa parte do desconforto histórico com estas páginas vem daí.

Jesus e Paulo dizem a mesma coisa sobre a Lei?

As ênfases são distintas, e forçar a coincidência distorce os dois. Paulo trata, em Romanos e Gálatas, da situação do gentio convertido e do lugar da Lei na aceitação diante de Deus. O Jesus deste capítulo discute outra coisa: uma questão interna ao judaísmo, entre judeus, sobre qual norma prevalece quando duas se chocam. Ele não argumenta contra a Torá — vai argumentar com ela na mão.

Ler Mateus 15 pela chave das cartas de Paulo é o erro mais comum aqui, e ele apaga justamente o que o capítulo tem de próprio.

9. Conexão com Outros Textos

Os confrontos anteriores na Galileia

Mateus 9:11 — “Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?” A primeira queixa registrada, e já no formato da pergunta acusatória.

Mateus 12:2 — “Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer no sábado.” Também uma acusação contra os discípulos dirigida ao mestre.

Mateus 12:14 — “E os fariseus, saindo, tomaram conselho contra ele, para o matarem.”

Mateus 12:24 — “Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios.”

Mateus 12:38 — “Mestre, queremos ver de ti algum sinal.”

O paralelo direto

Marcos 7:1 — “Reuniram-se com Jesus os fariseus e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém.”

Lucas 5:17 — “Estavam ali assentados alguns fariseus e doutores da lei, vindos de todas as aldeias da Galileia, da Judeia e de Jerusalém.” Cena diferente, mesmo recurso: nomear as origens para marcar o peso do auditório.

Os dois modelos de autoridade

Mateus 7:29 — “Ele os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas deles.” O fecho do Sermão do Monte, com o pronome “deles” marcando distância.

Mateus 23:2-3 — “Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, guardai e fazei.” A modulação que impede ler Jesus como adversário puro e simples da autoridade docente judaica.

Mateus 21:23 — “Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu tal autoridade?” Meses depois, em Jerusalém, a mesma questão de fundo é feita abertamente.

A Galileia vista de fora

Mateus 4:15 — “Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios.”

João 7:52 — “Examina, e verás que da Galileia não surge profeta algum.”

O que vem em seguida

Mateus 15:12 — “Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram?” O aviso dos discípulos, que registra o resultado do encontro.

10. Original Grego e Análise

Mateus é livro do Novo Testamento, escrito em grego. O item traz, portanto, o original grego, e não o hebraico.

Texto em português

Então alguns fariseus e escribas de Jerusalém se aproximaram de Jesus e perguntaram:

Texto grego

Τότε προσέρχονται τῷ Ἰησοῦ ἀπὸ Ἱεροσολύμων Φαρισαῖοι καὶ γραμματεῖς λέγοντες·

Transliteração

Tote proserchontai tō Iēsou apo Hierosolymōn Pharisaioi kai grammateis legontes

Análise palavra por palavra

Τότε — tote, “então”. Advérbio de tempo. Mateus o emprega cerca de noventa vezes, mais do que todo o resto do Novo Testamento somado, e quase sempre como emenda entre blocos de narrativa. Não indica duração nem data: encadeia. Traduzi-lo por “naquele mesmo dia” seria acrescentar precisão que a palavra não tem.

προσέρχονται — proserchontai, “aproximam-se”. Presente do indicativo, terceira pessoa do plural, do verbo proserchomai, formado por pros (“para junto de”) e erchomai (“vir”). O verbo aparece cerca de cinquenta vezes em Mateus, com sujeitos de todo tipo: discípulos, doentes, mães, tentadores. Não carrega tom em si.

Chama atenção o tempo verbal. A narrativa corre no passado e o verbo está no presente — o chamado presente histórico, recurso do grego narrativo que traz a cena para diante dos olhos do leitor. Marcos o usa a todo momento; Mateus, com bem menos frequência, o que torna a ocorrência aqui mais notável.

τῷ Ἰησοῦ — tō Iēsou, “a Jesus”. Caso dativo, exigido pelo verbo de aproximação. O nome grego Iēsous transcreve o hebraico Yehoshua, “o SENHOR salva”. O artigo diante do nome próprio é hábito do grego bíblico e não se traduz para o português.

ἀπὸ Ἱεροσολύμων — apo Hierosolymōn, “de Jerusalém”. Duas coisas merecem exame.

A primeira é a preposição. O grego tinha três maneiras de dizer “de”: apo marca o ponto de partida; ek marca a saída de dentro de algo; para marca a vinda de junto de alguém. A escolha de apo informa a origem do percurso e nada mais. Se Mateus quisesse dizer que o grupo saiu de dentro da instituição de Jerusalém, para estaria mais à mão — e é justamente o que ele não escreve.

A segunda é a posição na frase. O grego colocou a origem geográfica antes do sujeito: aproximam-se de Jesus, vindos de Jerusalém, fariseus e escribas. A ordem é enfática. A procedência chega ao leitor antes de os personagens serem nomeados.

O nome da cidade aparece na forma Hierosolyma, versão grega e mais literária, distinta de Ierousalēm, que é a transcrição direta do semítico. Mateus usa as duas ao longo do evangelho, sem que se possa demonstrar diferença de sentido entre elas.

Φαρισαῖοι — Pharisaioi, “fariseus”. Nominativo plural. A forma grega transcreve o aramaico correspondente a “os separados”.

O grego não traz quantificador: está escrito apenas “fariseus”, sem “alguns”. Traduções portuguesas costumam suprir a palavra para que o leitor não entenda que o movimento inteiro se deslocou. É acréscimo legítimo de tradução, mas é acréscimo.

καὶ γραμματεῖς — kai grammateis, “e escribas”. Grammateus significa, ao pé da letra, “homem das letras”, de gramma, letra escrita — a mesma raiz de “gramática” em português. No mundo grego designava qualquer funcionário que lidasse com documentos: secretário de cidade, tabelião, escriturário. No uso judaico, traduz o hebraico sofer e designa o especialista em Torá.

λέγοντες — legontes, “dizendo”. Particípio presente ativo, no plural masculino, concordando com “fariseus e escribas”. É a construção padrão do grego bíblico para introduzir fala direta, e é o gancho gramatical que abre a citação do versículo 2.

Nota sobre a frase

O versículo inteiro se pendura num único verbo em forma pessoal, proserchontai. Tudo o mais são complementos: o quando, o de onde, o quem e o que se segue. É construção econômica, típica da narrativa grega, e é ela que libera a posição de destaque ocupada pela origem geográfica.

Nota textual

O versículo é estável na tradição manuscrita. As edições críticas não registram variantes de sentido, apenas oscilação entre as duas formas do nome de Jerusalém.

11. Conclusão

Do que foi exposto, este versículo leva a três conclusões.

A primeira é sobre a escala do conflito. Até aqui, quem discutia com Jesus discutia como vizinho: fariseus da mesma região, sobre casos da mesma região. A partir deste versículo, o interlocutor mudou de tamanho — e isso explica por que a resposta, nos versículos seguintes, deixa de ser uma justificativa e passa a ser um ataque à autoridade de quem pergunta. Jesus responde à altura do tribunal que reconhece à sua frente.

A segunda é sobre o que se pode e o que não se pode afirmar a partir do texto. Mateus registra de onde vieram e cala sobre quem os mandou. O leitor tem, portanto, um dado e uma tentação. O dado é a procedência; a tentação é completar a frase com um mandato oficial que ela não traz. Quase todo comentário completa — e quase nenhum avisa que está completando. Esta é uma passagem em que a diferença entre ler e supor tem consequência direta sobre a gravidade que se atribui à cena.

A terceira é sobre a honestidade do próprio evangelho. O texto tinha à disposição o vocabulário da vilania e não o usou. Nomeou o movimento, a profissão e a cidade, e deixou que os adversários falassem com as próprias palavras. A caricatura que o leitor cristão herdou dos púlpitos precisou ser acrescentada depois, porque no versículo ela não está — e ler o capítulo com ela na cabeça é começar com as chaves erradas uma discussão que, do lado de lá, é levada a sério e argumentada com competência.

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