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Mateus 15:12

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 41 acessos
Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram: “Sabes que os fariseus se ofenderam quando ouviram essa palavra?”
Pequeno grupo de homens de vestes simples falando em voz baixa com um mestre, de lado, enquanto ao longe outro grupo de vestes mais formais se afasta pelo caminho, ao fim da tarde num descampado.

Estudo


Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram: “Sabes que os fariseus se ofenderam quando ouviram essa palavra?”

1. Introdução

É um dos poucos momentos dos evangelhos em que alguém informa a Jesus como a fala dele repercutiu — e o informante não é adversário, é o grupo mais próximo.

A frase parece administrativa. Os discípulos se aproximam, dão uma notícia, fazem uma pergunta. Nada de doutrina, nada de milagre, nenhuma citação profética. Um recado. Mas há três coisas dentro dele, e todas escapam na leitura corrente.

A primeira é que este versículo não existe em Marcos. Num capítulo em que Mateus é sistematicamente o mais econômico dos dois, aqui ele acrescenta uma cena. Onde o evangelista acrescenta em vez de cortar, vale prestar atenção ao que ele achou que faltava.

A segunda é o verbo. "Se ofenderam" é tradução razoável e domestica um termo que não é sobre sentimentos feridos: quem é escandalizado, na linguagem da Bíblia grega, não fica magoado — cai. É a palavra do tropeço e da armadilha.

A terceira é o que os discípulos estão fazendo ali. O texto diz que informam; não diz que pedem nada. Mas a resposta que vem em seguida é resposta de quem foi pressionado, não de quem foi atualizado — e reconstruir o pedido embutido é trabalho de leitor, não dado do texto.

Há ainda um quarto ponto, visível só quando se olha o evangelho inteiro: o mesmo Jesus que aqui recusa amenizar a fala, dois capítulos adiante paga um tributo que diz não dever, e a razão explícita que ele dá é não escandalizar. Mesma palavra, decisão oposta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Ofensa numa cultura de honra

O Mediterrâneo antigo funcionava, em boa medida, com honra e vergonha como moeda social. Isso não é metáfora: reputação pública se convertia em capacidade real de casar filhos, fechar negócios, obter crédito, ser ouvido numa assembleia.

Numa cultura assim, ser contrariado em público não é constrangimento passageiro — é perda mensurável. E a contrariedade daqui foi particularmente grave, porque Jesus não se limitou a discordar dos peritos: tirou a discussão do círculo deles e a levou à praça, chamando a multidão. Quem perde um argumento diante de colegas perde um argumento; quem o perde diante do povo que legitima a sua autoridade perde alguma coisa maior.

Vale notar que a ofensa não foi retórica gratuita. A acusação de hipocrisia e o veredito de que uma tradição estava anulando a palavra de Deus, nos versículos 6 e 7, são acusações de conteúdo, dirigidas a um grupo cuja identidade inteira se constrói sobre a fidelidade à transmissão correta. Era o ponto mais sensível que se podia tocar.

O que fazia um grupo de discípulos

Um mestre com discípulos, naquele mundo, tinha um grupo que era ao mesmo tempo escola e comitiva. Eles aprendiam, mas também abriam caminho, administravam o acesso, cuidavam da logística e, em alguma medida, zelavam pela reputação do mestre.

A cena cai nessa última função. Eles não perguntam sobre o sentido do dito — isso Pedro fará no versículo 15. Informam sobre o efeito político da fala, que é outra ordem de preocupação: a de quem tem alguma coisa a perder junto com o mestre.

O horizonte da comunidade que leu isto primeiro

Há uma leitura difundida entre estudiosos de que Mateus escreve para uma comunidade de origem judaica em conflito com uma sinagoga de tradição farisaica, provavelmente depois da destruição do Templo em 70. Se essa reconstrução estiver certa — e ela é hipótese razoável, não fato documentado —, um versículo em que os discípulos relatam com apreensão que os fariseus se ofenderam falaria diretamente à situação desses leitores, que enfrentavam a mesma apreensão em causa própria.

É preciso ser honesto sobre o grau de certeza: a datação de Mateus, a localização da comunidade e a natureza do conflito são objeto de discussão aberta. Nada disso é necessário para entender o versículo. Mas, se for verdadeiro, explica por que este evangelista, e só ele, achou que a cena valia ser preservada.

Uma advertência sobre o método

Toda esta cena chega ao leitor por relato. Ninguém viu os fariseus se ofenderem: a informação vem pela boca dos discípulos, que não explicam como souberam. Não há razão para duvidar — a reação é verossímil, dada a gravidade do que foi dito —, mas registrar a mediação é rigor elementar, e ela é escolha do próprio evangelista, que poderia ter narrado a ofensa diretamente e não narrou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram"

O versículo 1 deste mesmo capítulo começa exatamente assim: então, aproximando-se, fariseus e escribas vindos de Jerusalém. Aqui: então, aproximando-se, os discípulos. Mesma fórmula de abertura, sujeitos opostos.

A simetria é dado observável; o que se faz com ela já é leitura, e a mais econômica é esta: o capítulo se dobra sobre a própria abertura para sinalizar que a segunda aproximação é do mesmo gênero que a primeira. Alguém chegando para dizer a Jesus que ele tem um problema. Muda quem chega; não muda a natureza do que traz.

E há um silêncio que vale nomear. O sujeito é coletivo e anônimo: "os discípulos", em bloco, sem nenhum nome. Três versículos adiante, quando alguém pedir explicação sobre o sentido do dito, o evangelho nomeará Pedro. A pergunta sobre o sentido tem autor; o recado sobre a repercussão não tem. Qualquer motivo que se atribua a essa diferença é conjectura — mas o contraste é do próprio Mateus.

"Sabes que"

Aqui há um problema que as traduções resolvem sem avisar. Os manuscritos antigos praticamente não trazem pontuação, e o ponto de interrogação das edições modernas é decisão editorial. A mesma sequência de palavras admite ser lida como afirmação: "tu sabes que os fariseus se ofenderam". Como pergunta, é um sondar. Como afirmação, é um lembrete — talvez uma cobrança.

Não é possível decidir pelo texto, e as duas leituras convergem no essencial: em nenhuma delas se está dando a Jesus uma informação que ele não teria como ter. Perguntar a alguém se ele sabe do efeito de uma fala que acabou de fazer não é pedido de informação. É um modo de introduzir um assunto que se prefere não introduzir diretamente.

"os fariseus"

Um detalhe que passa despercebido: o versículo 1 falava de fariseus e escribas. Aqui, só fariseus. Os escribas desaparecem do relato dos discípulos. O dado é observável e a explicação não está no texto — pode ser economia narrativa, pode refletir que os fariseus eram o interlocutor real para o evangelista e a comunidade dele, pode não significar nada. É prudente registrar sem construir tese.

O que não se pode fazer é usar o versículo para instalar a caricatura. O texto não diz que eles se ofenderam por vaidade, nem por hipocrisia de natureza, nem por ódio à verdade. Diz apenas que se ofenderam ao ouvir; motivo nenhum é dado. E o motivo que a análise histórica sugere é sóbrio: acabavam de ouvir, em público, que a tradição deles anulava a palavra de Deus e que o critério que organizava a mesa deles não valia. Qualquer grupo religioso, em qualquer época, teria reagido.

"se ofenderam"

Este é o centro do versículo, e é onde a tradução portuguesa mais perde. O verbo original não pertence ao campo do melindre, e sim ao da armadilha e do tropeço — o laço do caçador, a pedra no caminho (item 10). Quem é escandalizado não fica magoado: cai.

E é aí que o português desliza. "Se ofenderam" é reflexivo, e o reflexivo sugere que os fariseus fizeram alguma coisa consigo mesmos, que escolheram se melindrar. Em português corrente, dizer que alguém "se ofendeu" carrega quase sempre um julgamento implícito: a ofensa é problema de quem a sentiu. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) formulou isso como máxima — a ofensa não é dada, é tomada. É uma tese moral, e o original não a sustenta: ele diz que eles tropeçaram, o que é descrição de queda e não de birra.

O que "escandalizar-se" significa neste evangelho

Percorrer os lugares em que Mateus usa a palavra desmonta a leitura de que se trata de vocabulário sobre sentimentos.

Em Mateus 13:21, o ouvinte da semente em terreno pedregoso é escandalizado quando vem a tribulação: a palavra descreve abandono da fé sob pressão. Em Mateus 13:57, os conterrâneos de Nazaré se escandalizam nele, porque a origem conhecida não combinava com a pretensão. Em Mateus 11:6, na resposta enviada a João Batista da prisão, é declarado bem-aventurado aquele que não se escandalizar em Jesus — e o contexto é decisivo, porque João está preso e o programa messiânico não se cumpriu como se esperava. Em Mateus 18:6-7, quem escandaliza um dos pequeninos recebe a mais dura ameaça do livro. E em Mateus 26:31 e 33, na noite da prisão, todos os discípulos serão escandalizados nele — e o que aconteceu naquela noite não foi ofensa, foi fuga.

O quadro que emerge é este: escandalizar-se em alguém, neste evangelho, é romper com essa pessoa, virar-se contra ela, abandoná-la. É evento de ruptura, não estado de humor. Quando os discípulos dizem que os fariseus se escandalizaram, estão dizendo que aquele canal se fechou.

A contraprova obrigatória, e ela é do próprio Mateus

Se este versículo fosse tudo o que o evangelho diz sobre o assunto, seria fácil extrair dali uma regra: quem tem razão não recua diante de quem se ofende. Mas dois capítulos adiante o mesmo evangelho registra o oposto.

Em Mateus 17:24-27, cobradores do tributo do Templo perguntam a Pedro se o mestre paga. Jesus argumenta que os filhos do rei estão isentos — isto é, sustenta que não deve o tributo — e então manda pagar assim mesmo, com uma razão explícita: para que não os escandalizemos. Mesmo verbo, mesmo evangelho, decisão contrária.

A diferença mais visível é a natureza do que está em jogo. O tributo do Templo é matéria de dinheiro e de direito, sem conteúdo doutrinário, e ceder ali não altera nada do que se ensina. A afirmação sobre o que contamina o ser humano é o conteúdo, e recuar dela seria desfazê-la. Essa distinção — entre o que se pode ceder porque é circunstância e o que não se pode ceder porque é a coisa mesma — não está enunciada no texto. É leitura, e deve ser apresentada como tal. Mas dá conta dos dois episódios sem violentar nenhum deles, o que é mais do que se pode dizer de qualquer regra geral.

O pedido que o texto não escreve

Falta o ponto mais delicado: o que, exatamente, os discípulos querem? Seja rigoroso primeiro — o texto não diz. Não há verbo de pedido, não há sugestão explícita, não há queixa formulada.

Mas três indícios puxam na mesma direção. O primeiro é a inutilidade da informação: não se informa alguém do que ele já sabe, a menos que se queira alguma coisa com isso. Se os fariseus estavam presentes, Jesus viu; se não estavam, os discípulos também não teriam como saber. O segundo, e mais forte, é a resposta: Jesus não diz "eu sei" nem "que pena". As plantas que serão arrancadas e a ordem de deixá-los são resposta a uma objeção, não a um relato — quem responde assim entendeu que estava sendo pressionado. O terceiro é o comportamento posterior do grupo: um capítulo adiante, um discípulo nomeado leva Jesus à parte para pedir que recue de uma posição custosa, e é chamado de pedra de tropeço.

Somados, os três tornam a leitura muito provável. Não a tornam certa, e a diferença importa: a leitura corrente, a de que os discípulos são covardes tentando calar o mestre, é dura demais para o que o texto sustenta. Cabe igualmente a leitura de que são pessoas leais e assustadas, avisando de um perigo real a quem parecia não o estar medindo. As duas descrições não se excluem.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos — o sujeito coletivo e sem nome

O grupo aparece em bloco, sem que nenhum integrante seja identificado. Mateus, que nomeia Pedro com frequência e o nomeará três versículos adiante, escolheu não atribuir este recado a ninguém em particular.

Os fariseus — os ausentes de quem se fala

São o personagem central do versículo e o único que não está em cena falando.

O leitor moderno herdou uma imagem de fariseu que é produto de séculos de pregação e não de investigação histórica, e sem correção o versículo vira melodrama. Eram um partido religioso do judaísmo do Segundo Templo, com o projeto que o estudo do versículo anterior descreve. Sustentavam a autoridade da tradição oral ao lado da Torá escrita, criam na ressurreição dos mortos, em anjos e em providência divina — pontos em que divergiam dos saduceus, o grupo ligado ao sacerdócio do Templo. O nome provavelmente deriva de uma raiz ligada a "separar", embora a origem exata seja discutida e possa ter começado como designação usada por adversários.

Eram também internamente diversos, com escolas em desacordo entre si sobre pontos importantes da observância. O judaísmo do primeiro século não tinha ortodoxia central: tinha disputas. A controvérsia deste capítulo é uma delas — travada entre judeus, com vocabulário judaico, dentro de pressupostos comuns — e não um choque entre religiões. Eram, segundo Flávio Josefo (historiador judeu do século I, que escreveu para leitores romanos e tinha interesses próprios a defender), o grupo de maior prestígio junto ao povo.

O lugar, que o evangelho não informa

Mateus não diz onde a conversa acontece. O último indicador geográfico é do capítulo anterior: a travessia até Genesaré, na margem do lago da Galileia.

Marcos, no ponto equivalente, menciona que Jesus entrou em casa afastando-se da multidão. Mateus não tem essa informação. Portanto, não se sabe se a conversa acontece diante da multidão ainda reunida ou em algum recuo — e a diferença não é pequena: se em público, o aviso dos discípulos é ele próprio um gesto público, e a resposta também; se à parte, trata-se de conselho reservado. O texto não permite escolher, e é melhor não escolher do que decidir por conveniência.

5. Pontos de Ensino

1. O verbo não é sobre sentimentos. Pertence ao campo da armadilha e do tropeço, não ao da suscetibilidade. Dizer que os fariseus "se ofenderam" é traduzir para o registro emocional uma palavra que descreve queda — e a forma reflexiva portuguesa acrescenta um julgamento que o original não faz.

2. Este versículo não existe em Marcos. Num capítulo em que Mateus é sistematicamente mais econômico do que Marcos, aqui ele acrescenta. O evangelista está compondo, não copiando, e o que ele escolheu guardar diz alguma coisa sobre o que a comunidade dele precisava ouvir.

3. A abertura repete a abertura do capítulo. O versículo 1 começa com "então, aproximando-se... fariseus e escribas"; o versículo 12, com "então, aproximando-se... os discípulos". Mesma fórmula, sujeitos opostos. Nos dois casos alguém chega para dizer a Jesus que ele tem um problema.

4. O pedido está na resposta, não no pedido. O texto não registra que os discípulos peçam retratação; registra que informam. O indício mais forte de que há um pedido embutido vem do outro lado do diálogo: Jesus responde como quem foi pressionado, e não como quem foi informado.

5. Mateus 17:27 impede a regra geral. Dois capítulos adiante, Jesus paga um tributo que sustenta não dever, e a razão declarada é não escandalizar. Quem quiser extrair daqui o princípio de que não se deve recuar diante da ofensa alheia terá que explicar por que ali ele recuou.

6. Escandalizar-se, em Mateus, é romper. O ouvinte de terreno pedregoso que abandona na tribulação, os conterrâneos de Nazaré que se voltam contra ele, os discípulos que fogem na noite da prisão. Quando os discípulos avisam que os fariseus se escandalizaram, estão dizendo que aquele canal se fechou.

7. A ofensa chega mediada. O evangelho não narra a reação dos fariseus: narra o relato dela, feito por quem tinha interesse numa mudança de rumo. A informação é verossímil, mas o leitor a recebe em segunda mão, e isso é escolha do evangelista.

6. Aspectos Filosóficos

De quem é a ofensa?

Ofender-se é um dos poucos eventos humanos que exigem duas pessoas e não podem ser atribuídos com clareza a nenhuma das duas. Uma frase é dita; alguém a recebe; alguma coisa acontece. Onde localizar o evento?

A resposta corrente oscila entre dois extremos, e nenhum se sustenta. Se a ofensa estivesse inteiramente na frase, qualquer pessoa que a ouvisse se ofenderia igualmente — e não é o que acontece: a multidão ouviu o mesmo dito e o texto não registra ofensa nenhuma da parte dela. Se estivesse inteiramente no ouvinte, nada do que se diz teria peso moral, e insultar seria indiferente. Também não é assim: o mesmo evangelho pronuncia ameaça grave contra quem escandaliza os pequeninos.

Epicteto, e a tese que a tradução portuguesa esconde

Há uma tradição filosófica que responde a pergunta com firmeza, e é a estoica. Epicteto (filósofo grego do século I, nascido escravo em Frígia e depois professor em Nicópolis, cujas aulas chegaram até nós pela mão do aluno Arriano) formulou a tese na primeira linha do Manual: algumas coisas dependem de nós e outras não. Os juízos, os impulsos e os desejos dependem; o corpo, a reputação e a ação alheia, não.

Dela decorre a máxima mais citada da escola: não são as coisas que perturbam os homens, mas os juízos que eles fazem sobre as coisas. Insultar não é ofender — a ofensa nasce do juízo de quem recebeu o insulto de que ali houve dano. Epicteto chega a dizer que quem me insulta não me faz mal; quem me faz mal é a minha opinião de que ele me insultou. E daí tira a consequência prática que é a marca do estoicismo: se você foi ofendido, o trabalho é com você, não com o outro.

Ora, o original diz outra coisa. A forma verbal é de quem sofreu, não de quem fez: alguma coisa lhes aconteceu. O vocabulário do tropeço distribui a responsabilidade sem cancelá-la de nenhum dos lados — uma armadilha é armada por alguém e acionada por outro; não faz sentido dizer que o animal escolheu cair, mas também não faz sentido descrever a queda sem mencionar que ele andava por ali.

O evangelho, portanto, não é estoico nesse ponto, e é útil ver por quê. Para Epicteto, o dano moral é sempre autoinfligido, e a categoria de "escandalizar alguém" não existiria; para Mateus ela existe, tem nome e recebe a mais dura das ameaças. O leitor que chega ao versículo com a intuição estoica na cabeça — que é hoje a intuição do senso comum — precisa saber que está importando uma filosofia, e não lendo o texto.

Bernard Williams: sinceridade e exatidão

Bernard Williams, filósofo britânico do século XX, propôs em Truth and Truthfulness (Verdade e Veracidade, 2002) que a veracidade se decompõe em duas virtudes distintas, e que confundi-las é a origem de boa parte da confusão sobre o assunto. A primeira é a exatidão: o cuidado em descobrir como as coisas realmente são, resistindo ao que seria conveniente acreditar. A segunda é a sinceridade: dizer aos outros o que de fato se acredita. A exatidão obriga a examinar; a sinceridade obriga a comunicar. Nenhuma das duas obriga a dizer tudo a todo momento — e é nesse espaço que vive a decisão deste versículo.

Aplicado ao caso: há afirmações cujo conteúdo é a ofensa. Dizer a um grupo que o critério pelo qual ele organiza a vida não vale não pode ser dito com delicadeza suficiente para deixar de ser o que é. A escolha de vocabulário reduz a aspereza; não altera o fato. Quando a ofensa está no conteúdo e não na forma, o conselho de "dizer de outro jeito" é falso conforto: desloca a discussão para o estilo e deixa intacta a questão real, que é se a coisa deve ou não ser dita. É por isso que a insistência em amenizar costuma funcionar, na prática, como pedido de silêncio — sem que quem o faça precise reconhecê-lo.

7. Aplicações Práticas

O teste da reformulação

Alguém chega e informa que uma coisa que você disse caiu mal com terceiros. A informação vem embrulhada em preocupação, e a preocupação costuma ser sincera. A pergunta decisiva é uma só: a pessoa se ofendeu com o que eu disse, ou com o modo como eu disse?

Existe um procedimento para separar as duas coisas, e ele é mais confiável do que a introspecção. Escreva a afirmação de novo, na formulação mais generosa e mais respeitosa que você conseguir. Tire os adjetivos, tire a ironia, tire qualquer referência pessoal. Deixe só o conteúdo. Depois pergunte: essa versão ainda ofende?

Se não ofende, o problema era a forma, e você acabou de resolvê-lo — leve a versão nova a quem se ofendeu e o assunto se encerra. Se ofende na mesma medida, o que incomoda é a coisa e não a embalagem, e nenhuma quantidade adicional de delicadeza vai mudar isso. Nesse ponto a decisão passa a ser sustentar ou não sustentar, e vale saber que é essa a decisão, em vez de continuar procurando palavras melhores para uma coisa que não tem palavras melhores.

Separar o acessório do essencial antes do conflito

O contraste entre este versículo e o episódio do tributo do Templo é a coisa mais útil que a passagem oferece a quem precisa tomar decisões desse tipo. Um pagamento, um horário, uma formalidade, uma ordem de assuntos, um gesto de cortesia: tudo isso pode ser cedido sem que nada do que se defende seja alterado. Ceder aí é barato, e a economia é grande, porque preserva o canal aberto para o que não pode ser cedido.

A aplicação é fazer essa separação antes do conflito, não durante. No meio da discussão tudo parece essencial — a irritação promove qualquer detalhe à categoria de princípio. Quem chega ao conflito sabendo de antemão o que é acessório tem muito mais margem de manobra, e costuma sair com o essencial intacto justamente porque teve o que oferecer. O erro simétrico também existe: ceder no essencial porque a cessão foi apresentada como detalhe. A defesa contra os dois é a mesma — ter pensado antes.

Reconhecer-se no discípulo que traz o recado

Este versículo é habitualmente lido do lado de Jesus. Vale lê-lo do outro lado, porque é o lado que a maioria de nós ocupa com mais frequência.

Todo mundo já foi o discípulo que traz o recado. Já disse ao amigo que a publicação dele repercutiu mal, ao colega que a fala na reunião não caiu bem, ao parente que a opinião dele constrangeu a mesa. Nem sempre com má intenção — geralmente com boa intenção, e é isso que torna a posição difícil de examinar. Quem transmite uma ofensa faz duas coisas ao mesmo tempo: presta um serviço de informação e exerce uma pressão. E não precisa assumir a opinião que transmite: não disse que o outro estava errado, disse que terceiros ficaram ofendidos. A construção permite pressionar sem apresentar argumento, e sem ficar exposto a refutação.

A pergunta a se fazer antes de levar um recado desses é: eu estou informando a pessoa, ou estou usando a reação de terceiros para conseguir dela uma coisa que eu não conseguiria pedindo? Se for a segunda, o mínimo é pedir diretamente — e assumir o argumento como seu, exposto à refutação como qualquer argumento.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus ofendeu de propósito?

O texto não diz, e não é possível decidir a partir dele. O que se observa é que ele fez uma escolha que aumentava a probabilidade da ofensa: tirou a discussão do círculo dos peritos e a levou ao público. Mas há diferença entre prever um efeito e persegui-lo. Prever é o que se espera de qualquer pessoa lúcida; perseguir é outra coisa, e nada no texto sustenta a segunda leitura.

Os fariseus estavam presentes ou souberam depois?

O texto não informa. Diz apenas que se ofenderam ao ouvir. Se a palavra chegou até eles porque estavam ali ou por relato posterior, não é possível determinar — e comentários que descrevem a cena com precisão de detalhe, os fariseus ao fundo de rosto fechado, estão completando com imaginação o que o evangelho deixou em branco.

"Ofenderam-se" é boa tradução?

É defensável e é a solução da maioria das versões portuguesas, mas perde bastante. Alternativas como "tropeçaram" ou "escandalizaram-se" preservam melhor a imagem, e cada uma tem seu custo: a primeira soa estranha em português corrente, e a segunda já foi contaminada pelo sentido moderno de escândalo, que evoca notícia vergonhosa e não obstáculo no caminho. Não há solução perfeita, e é por isso que a nota explicativa continua necessária.

Por que só Mateus tem este versículo?

Não se sabe. O que se sabe é que ele o tem e Marcos não, e que Marcos, no lugar equivalente, narra Jesus entrando em casa e sendo interrogado sobre a parábola. A hipótese mais discutida é a de que a cena falava diretamente à situação da comunidade de Mateus — o que fazer quando a fidelidade ao ensino recebido custa a ruptura com o grupo religioso de origem. É razoável e amplamente sustentada, mas depende de reconstruções que continuam em discussão.

Este texto é antijudaico?

O texto, não. A história da leitura dele, com frequência, foi. O que está narrado é uma disputa interna ao judaísmo do primeiro século, entre um mestre judeu e um partido religioso judeu, sobre a aplicação correta da Torá, com os dois lados apelando à Escritura. Ninguém, na cena, propõe abandonar a lei de Moisés. Transformar isso em contraste entre uma religião do coração e uma religião da letra é substituir a análise por caricatura, e a caricatura tem consequências históricas conhecidas e graves.

Por que os discípulos não perguntaram sobre o sentido do dito?

Perguntaram, mas depois e por outra boca: no versículo 15, Pedro pede a explicação. A preocupação com a repercussão vem antes da preocupação com o sentido — o que não é acusação, e sim observação sobre o funcionamento normal de qualquer grupo. Riscos concretos são percebidos com mais rapidez do que implicações teóricas, e o custo social de uma frase costuma ser mais visível do que o que ela afirma.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo verbo em Mateus

Mateus 11:6 — "E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim." Dito na resposta enviada a João Batista, preso. Tropeçar em Jesus é apresentado como possibilidade real, não como falha exótica.

Mateus 13:21 — "chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza." Abandono sob pressão. Não é melindre: é ruptura.

Mateus 13:57 — "E escandalizavam-se nele." Dois capítulos antes, em Nazaré: quem tropeçou foi a gente da própria terra, por causa da origem conhecida de Jesus.

Mateus 16:23 — "Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens." Mesma configuração deste versículo, agora com nome e com veredito.

Mateus 17:27 — "Mas, para não os escandalizarmos, vá ao mar e lance o anzol..." O contrapeso obrigatório: aqui Jesus cede numa questão em que sustenta estar isento.

Mateus 26:31,33 — "Todos vós esta noite vos escandalizareis em mim... Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei." O uso mais esclarecedor: o que aconteceu naquela noite não foi ofensa, foi fuga.

A palavra na Bíblia grega

Levítico 19:14 — "Não amaldiçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas terás temor do teu Deus." O contexto é de responsabilidade de quem põe o obstáculo.

Salmo 69:22 — "Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha." A outra face do campo: a mesa que se converte em cilada.

O paralelo que não existe

Marcos 7:17 — "Depois, quando deixou a multidão e entrou em casa, os seus discípulos o interrogavam acerca desta parábola." É o que Marcos tem no lugar em que Mateus põe o aviso sobre os fariseus.

O escândalo no restante do Novo Testamento

Romanos 14:13 — "antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão." O contrapeso paulino: o mesmo autor que chama a cruz de escândalo manda evitar escandalizar o irmão em matéria de comida.

A moldura do capítulo

Mateus 15:1 — "Então chegaram junto de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém." A fórmula de abertura que o versículo 12 repete com sujeito trocado.

Mateus 15:15 — "E, respondendo Pedro, disse-lhe: Explica-nos essa parábola." Três versículos depois, a pergunta sobre o sentido — desta vez com autor nomeado.

10. Original Grego e Análise

Nota preliminar: este painel examina o grego, língua em que Mateus foi composto. Vale marcá-lo porque a matéria de fundo do capítulo é a Torá, e é fácil supor que o exame do original signifique voltar ao hebraico. Não neste caso — e este versículo não cita nenhum texto do Antigo Testamento: cada palavra dele é escolha do evangelista.

Texto em português

Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram: “Sabes que os fariseus se ofenderam quando ouviram essa palavra?”

Texto grego

Τότε προσελθόντες οἱ μαθηταὶ λέγουσιν αὐτῷ· οἶδας ὅτι οἱ Φαρισαῖοι ἀκούσαντες τὸν λόγον ἐσκανδαλίσθησαν;

Transliteração

Tote proselthontes hoi mathētai legousin autō; oidas hoti hoi Pharisaioi akousantes ton logon eskandalisthēsan?

Palavra por palavra

Τότε (tote) — "então"

Advérbio de tempo, e marca registrada deste evangelho: Mateus o emprega dezenas de vezes, muito mais do que Marcos, Lucas e João somados. O valor é de sequência narrativa, e nem sempre de sucessão imediata — daí não se poder deduzir que a conversa aconteceu logo depois do dito público, com a multidão ainda de pé no lugar.

προσελθόντες (proselthontes) — "aproximando-se"

Particípio aoristo de proserchomai, composto de pros ("em direção a") mais erchomai ("vir, ir"). O aoristo marca a aproximação como ação pontual, concluída antes da fala principal: primeiro chegam, depois falam.

οἱ μαθηταὶ (hoi mathētai) — "os discípulos"

Mathētēs vem de manthanō, "aprender", e designa o aprendiz vinculado a um mestre — não o aluno que assiste a aulas, e sim quem acompanha, convive e se forma pela proximidade. O artigo definido identifica o grupo já conhecido do leitor: sem qualificação, sem número, sem nome. Alguns manuscritos acrescentam "dele", leitura que as edições críticas não adotam e cuja diferença de sentido é nula.

λέγουσιν (legousin) — "dizem"

Presente do indicativo dentro de narrativa passada: é o presente histórico, recurso que traz a cena para perto. Mateus tende a reduzi-lo, convertendo-o em aoristo; mantê-lo aqui aproxima o leitor do momento da fala, e a tradução por "disseram" é correta quanto ao sentido e apaga o efeito.

οἶδας (oidas) — "sabes"

Segunda pessoa do singular de oida. Morfologicamente é um perfeito, funcionalmente equivale a um presente. A explicação usual é que se trata do perfeito de uma raiz que significa "ver": quem viu, sabe — daí o sentido de conhecimento adquirido e retido, distinto de ginōskō, que enfatiza o processo de vir a conhecer.

A pessoa verbal importa: é segunda do singular, e a fala é dirigida diretamente a Jesus, ainda que o sujeito que fala seja plural. O grupo fala em bloco a uma pessoa. E é aqui que entra a decisão de pontuação que o item 3 discute: o ponto de interrogação impresso nas edições modernas é escolha dos editores, não dado dos manuscritos.

οἱ Φαρισαῖοι (hoi Pharisaioi) — "os fariseus"

Nominativo plural, sujeito do verbo final. O nome grego transcreve um termo aramaico cuja etimologia mais aceita liga-se à raiz de "separar", ainda que a origem exata da designação seja discutida.

ἀκούσαντες τὸν λόγον (akousantes ton logon) — "tendo ouvido a palavra"

O particípio aoristo de akouō concorda com "os fariseus" e é anterior ao verbo principal: primeiro ouviram, depois tropeçaram. A relação é temporal na gramática e causal no sentido.

Logos tem amplitude considerável em grego — palavra, dito, discurso, argumento, razão, cálculo. No uso narrativo dos evangelhos designa comumente um dito ou um ensino, e o artigo definido aponta para algo determinado, já conhecido do leitor. Variante textual: parte da tradição manuscrita acrescenta o demonstrativo, resultando em "esta palavra"; as edições críticas não o imprimem, e nenhuma consequência de sentido depende da escolha. É bom exemplo de variante que existe, é conhecida e é irrelevante — nem toda diferença entre manuscritos é um problema.

ἐσκανδαλίσθησαν (eskandalisthēsan) — "foram escandalizados"

Terceira pessoa do plural do aoristo passivo de skandalizō. É a palavra decisiva e merece o desenvolvimento mais longo do painel.

A raiz é skandalon. No grego clássico o termo é raro; aparenta-se a skandalēthron, a vareta que arma a armadilha — o gatilho que, tocado, dispara o mecanismo. A carga religiosa da palavra, porém, não vem do grego pagão: é criação da Bíblia grega dos judeus, onde skandalon traduz principalmente dois termos hebraicos, moqesh ("laço, armadilha de caçador") e mikshol ("obstáculo que faz tropeçar").

Daí as duas faces do campo semântico: cair numa cilada e tropeçar num obstáculo. Nenhuma das duas é sobre suscetibilidade emocional. Em Levítico 19:14, a proibição de pôr tropeço diante do cego usa a segunda; em Josué 23:13, a advertência de que os povos remanescentes se tornarão laços para Israel usa a primeira.

O verbo derivado praticamente não existe fora da literatura bíblica e cristã: é formação do grego judaico, e o Novo Testamento é o lugar em que ela floresce — com Mateus na frente de todos os demais livros em número de ocorrências.

Quanto à voz: a forma é aoristo passivo, mas o aoristo passivo deste verbo funciona no grego do período com valor praticamente intransitivo, equivalendo a "tropeçaram", "caíram". Extrair da voz passiva uma teoria sobre quem armou a armadilha vai além do que a gramática sustenta. O que a forma diz é que alguma coisa aconteceu com eles, e que não foi ato deliberado deles — o que já é bastante, e é justamente o que a tradução reflexiva portuguesa desfaz.

O aoristo, por fim, marca o evento como pontual e concluído. Não é "vinham se ofendendo": é uma coisa que aconteceu de uma vez, ao ouvir. Um tropeço tem esse formato — o pé bate na pedra num instante determinado.

11. Conclusão

Deste versículo se conclui, antes de tudo, uma coisa sobre o próprio evangelho: Mateus escolheu guardar uma cena que Marcos não tem, no mesmo capítulo em que deixa de escrever a frase mais ousada que Marcos escreve. Conclui-se daí que ele está compondo com propósito, e que a cena respondia a alguma coisa de que a comunidade dele precisava.

Conclui-se, em segundo lugar, que a tradução portuguesa carrega uma tese que o original não sustenta. "Se ofenderam" devolve a ação ao sujeito e sugere escolha; o texto diz que eles tropeçaram. E como o mesmo verbo, no restante do evangelho, descreve quem abandona sob pressão, quem se volta contra e quem foge na noite da prisão, o que os discípulos comunicam não é aborrecimento: é o fechamento de um canal.

Em terceiro lugar, conclui-se que não há aqui regra geral sobre a ofensa alheia. Existem dois casos no mesmo evangelho, com a mesma palavra e decisões opostas, e o que os separa é leitura do comentarista, não enunciado do texto. Quem transforma este versículo em licença para a aspereza está usando metade do material e ignorando que a outra metade decide ao contrário.

Conclui-se, por fim, que há uma leitura que o texto não autoriza e outra que ele não exclui. Não autoriza a caricatura: nenhum motivo é atribuído aos fariseus. E não exclui que os discípulos fossem leais e assustados ao mesmo tempo em que pressionavam, porque as duas coisas cabem no mesmo gesto.

Resta a pergunta que o versículo devolve a quem o lê, e ela não é sobre os fariseus. Levar a alguém a notícia de que a fala dele repercutiu mal é, quase sempre, gesto de lealdade. Também é, com frequência, o modo mais econômico de pedir silêncio sem ter que defender o pedido. A diferença entre as duas coisas não aparece na intenção de quem faz — só no que essa pessoa estava disposta a assumir como seu.

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Mateus 15:12

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