📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 15:13

›
✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 43 acessos
Mas ele respondeu: “Toda planta que o meu Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz.
Campo de cultivo ao amanhecer no Levante antigo, com plantas de duas espécies crescendo lado a lado entre pedras, e um par de mãos afastando a terra junto às raízes de uma delas.

Estudo


Mas ele respondeu: “Toda planta que o meu Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz.

1. Introdução

Avisaram-no de que os fariseus tinham tropeçado no dito público sobre a boca. A resposta que Mateus registra não recua um passo, não explica, não procura contornar o incidente. Ela sobe o tom.

O dito é uma frase de agricultura: toda planta que o Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz. Uma imagem só, e um verbo que decide quase tudo.

A dificuldade não está no vocabulário — a metáfora é transparente para quem já viu uma horta. Está em três coisas que a leitura corrida não pega.

A primeira é que a frase não identifica a planta. O texto não diz se ela é o grupo dos fariseus, a tradição que eles defendem, o ensino específico que provocou o conflito, ou tudo aquilo que não vem de Deus. A ambiguidade é do original, não da tradução, e ela tem consequências.

A segunda é que quem arranca não é nomeado, e o momento em que se arranca não é agora. Essas duas escolhas tiram a operação da mão de quem escuta — e é justamente esse detalhe que a história posterior do dito ignorou com mais entusiasmo.

A terceira é a imagem em si. Plantar e arrancar é linguagem profética com endereço fixo: Deus planta Israel, Deus arranca o que plantou. Aplicar essa linguagem a mestres da própria religião é operação de peso.

Este estudo trata das três, e de uma quarta, que é a mais desconfortável: o que aconteceu com este dito quando cristãos posteriores o pegaram na mão para usar contra outros. A documentação existe e é do começo do segundo século.

2. Contexto Histórico e Cultural

Plantar não era metáfora poética solta

Para entender por que a frase pesa, é preciso saber que a imagem do plantio era vocabulário técnico de identidade coletiva no repertório religioso do período.

No Antigo Testamento, Deus é reiteradamente o agricultor que planta Israel. O cântico junto ao mar, em Êxodo 15:17, fala de plantá-los no monte da herança. O Salmo 80:8-9 descreve uma videira trazida do Egito e transplantada, que deitou raízes e encheu a terra. Isaías 5 constrói uma parábola inteira sobre a vinha bem cuidada que produziu uvas azedas, e termina com a decisão de retirar-lhe a cerca. Jeremias 2:21 traz a queixa mais próxima da lógica deste versículo: "eu te plantei como videira escolhida" — e o problema, ali, é de origem contra resultado.

Quem ouvia a frase tinha esse acervo na memória. Não estava ouvindo uma comparação bonita: estava ouvindo o vocabulário com que o próprio povo se descrevia.

A comunidade que se chamava de plantação

Há um dado do período que faz a frase soar de outro modo, e ele vem dos manuscritos do mar Morto.

O grupo de Qumran se autodesignava, entre outras fórmulas, como plantação. A expressão "plantação eterna" aparece na Regra da Comunidade, e o Documento de Damasco fala de uma raiz de plantação brotada de Israel. A imagem servia para dizer uma coisa muito específica: nós somos o que Deus efetivamente plantou; o resto do povo, apesar do nome, não é.

Grau de certeza sobre o uso em Qumran: alto — os textos estão publicados e a fórmula é recorrente. Grau de certeza sobre dependência entre Mateus e Qumran: nenhum, e não há razão para postular contato direto. O que o paralelo estabelece é outra coisa, e mais útil: a imagem do plantio verdadeiro contra o plantio falso era moeda corrente na polêmica judaica do período. Quem ouvia a frase reconhecia o gênero.

Os fariseus, sem caricatura

Vale também um registro sobre os fariseus, porque sem ele a análise vira melodrama. Eram um partido religioso com projeto intelectual definido: estender ao judeu comum, na casa e na mesa, o grau de pureza que a Torá exigia dos sacerdotes no serviço do Templo. É programa democratizante no sentido próprio da palavra, e é incompatível com a imagem do hipócrita profissional que a catequese popular herdou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas ele respondeu"

O que carrega peso aqui é o que a resposta não faz. Os discípulos trouxeram uma informação sobre efeito social. Um mestre preocupado com recepção teria três saídas óbvias — reformular o dito, explicar que foi mal entendido, ou reconhecer que o momento foi infeliz. Nenhuma delas aparece.

E há um dado editorial. O aviso do versículo 12 e a resposta do versículo 13 não existem em Marcos: são material próprio de Mateus neste episódio. Um evangelista que quisesse suavizar o conflito com o farisaísmo não teria acrescentado justamente este par ao material que herdou. Que Mateus o acrescente é dado sobre o interesse dele — e precisa ser lido junto com o fato de que este é o mais judaico dos quatro evangelhos.

"Toda planta"

Aqui está a ambiguidade central, e ela é do texto e não da tradução. A palavra vertida por "planta" designa tanto o ato de plantar quanto aquilo que foi plantado (item 10), e das duas leituras saem frases que não dizem a mesma coisa.

Se é o conjunto plantado, a frase pode designar pessoas: um grupo, uma comunidade, os fariseus como partido. Essa leitura tem a favor a linguagem coletiva do Antigo Testamento, em que Israel é a vinha e a plantação, e tem a favor o contexto imediato, já que a fala responde a uma informação sobre pessoas ofendidas.

Se é a coisa cultivada, a frase pode designar ensinos: a tradição em discussão, a construção que anulava o mandamento sobre os pais. A favor está a estrutura da controvérsia, cujo alvo declarado, nos versículos 3 a 9, foi um procedimento e não um conjunto de indivíduos — e o dito seguinte, que trata da função de guiar.

A tradição de comentário divide-se, e há muito tempo. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) lê o sistema farisaico inteiro como o joio da parábola do capítulo 13, e amplia o alcance a todo sistema, partido ou seita nascido de zelo humano. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) entende que a planta é doutrina religiosa. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) admite as duas — doutrinas ou pessoas. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) recusa escolher e junta as três: a seita, as pessoas e o que elas ensinavam.

Não é possível decidir. O texto não fornece o referente, e o intérprete que o fornece está fazendo uma escolha. O que se pode fazer com honestidade é registrar as leituras, registrar que a ambiguidade é do texto, e observar que a escolha entre elas muda o alcance da frase de modo substancial — porque uma sentença sobre pessoas e uma sentença sobre doutrinas não têm o mesmo peso moral.

"que o meu Pai celestial não plantou"

Duas coisas importam nesta metade, e a primeira é o possessivo. Não é "o vosso Pai", fórmula que Mateus usa quando Jesus fala aos ouvintes. É "o meu Pai" — e quem fala está reivindicando saber o que o Pai plantou e o que não plantou. A frase pressupõe acesso ao critério, não apenas opinião sobre o resultado.

A segunda é o critério em si, e ele é incomum neste evangelho. O que decide a permanência da planta não é o que ela produziu: é quem a plantou. A origem, não o desempenho. Três capítulos antes, em Mateus 12:33, o critério era exatamente o oposto — "pela árvore se conhece o fruto". Os dois textos não se contradizem, porque respondem a perguntas diferentes; mas a troca de critério é observável e vale registrá-la, porque quase toda a linguagem moral de Mateus trabalha com fruto e conduta, e aqui não.

"será arrancada pela raiz"

A primeira é que ninguém é nomeado como quem arranca. A frase está na voz passiva, sem agente. Na linguagem judaica do período, e nos evangelhos em particular, essa construção tem nome: passiva divina, o recurso de reverência pelo qual se evita pôr Deus como sujeito de uma ação, deixando-o implícito. Mateus a usa o tempo todo — "bem-aventurados os que choram, porque serão consolados", "pedi, e vos será dado", "com a medida com que medirdes, vos medirão". Aqui o grau de certeza é alto, porque a primeira metade da frase já nomeia o Pai como quem planta; a leitura natural é que o mesmo agente execute as duas operações.

A consequência precisa ser dita com todas as letras, porque é o guarda-corpo do versículo inteiro: o agente do arranque não é o ouvinte. A frase não distribui tarefas. Anuncia uma operação divina.

A segunda trava é o tempo. O verbo está no futuro. Não é "está sendo arrancada", não é "foi arrancada", e não é imperativo. Somando as duas, o que a frase entrega ao ouvinte é uma operação que não é dele, num tempo que não é agora. Restam-lhe zero atribuições executivas.

A colisão com a parábola do joio

Ora, o verbo do arranque aparece em Mateus num único outro lugar, e é dois capítulos antes. Em Mateus 13:24-30, um homem semeia trigo; à noite, um inimigo semeia joio no meio. Quando as plantas crescem, os servos percebem e perguntam ao dono se devem ir arrancar o joio. E o dono responde que não: "para que, ao recolherdes o joio, não desenraizeis com ele o trigo". Deixem crescer juntos até a colheita, e na colheita os ceifeiros — que na explicação do próprio texto são os anjos — farão a separação.

Ponham-se os dois lado a lado. Em Mateus 13:29, o arranque feito por agentes humanos é proibido, e a razão dada é técnica: eles não conseguem distinguir sem destruir junto o que é bom. Em Mateus 15:13, o arranque é anunciado, na passiva divina, no futuro.

As duas passagens não se contradizem. Encaixam-se com precisão desconfortável: uma anuncia a operação, a outra diz quem não a executa e por quê. Juntas, formam um argumento completo — há plantas que não foram plantadas por Deus, e a remoção delas não está a cargo de quem as identifica. Ellicott faz essa ligação; que os dois textos usem o mesmo verbo é fato verificável, e que Mateus os tenha composto pensando um no outro é leitura plausível, apoiada na proximidade dos capítulos e na raridade do verbo, mas não demonstrável.

O que a história fez com este dito

Inácio de Antioquia, bispo que escreve cartas a caminho do martírio por volta do ano 110, usa esta linguagem duas vezes. Na carta aos Tralianos, ao advertir contra ensinos que considera estranhos, escreve que os que são do Pai se manifestam pelo que plantam. Na carta aos Filadelfienses é mais direto: os que se dividem e seguem quem divide não herdam o reino, e — a fórmula é praticamente a deste versículo — não são plantação do Pai. Gill registra as duas passagens e observa que Inácio as aplica de modo diferente do uso de Jesus aqui.

O que interessa não é censurar Inácio, que escrevia numa situação de crise real. O que interessa é a operação, porque ela se repetiu. Na aplicação, a frase perdeu as duas travas gramaticais. O futuro virou presente: eles não são plantação do Pai, agora. E a passiva divina virou juízo de quem fala: quem determina o que é e o que não é plantação passa a ser o intérprete.

Feita essa passagem, o dito serviu como classificador em praticamente todas as divisões cristãs posteriores — e serviu, com o resto do material polêmico dos evangelhos, à literatura cristã antijudaica, na qual uma frase dita por um judeu sobre um partido judaico foi lida como sentença sobre os judeus em bloco. É preciso marcar isto com clareza: esse é o uso posterior do dito, e não o que Mateus diz. O texto não é responsável pelo uso. Mas ler o texto ignorando o uso seria ingenuidade.

O tribunal é interno, e isso muda a leitura

Um último ponto de análise, que a leitura confessional costuma perder. A frase não é dirigida a estrangeiros, nem a idólatras, nem a pagãos. É dirigida — ou pelo menos referida — a mestres da própria religião de quem fala. Fariseus e escribas eram judeus observantes, especialistas na Torá, empenhados em obediência.

E é justamente por ser de dentro que ela devolve o problema a quem a cita. Quem usa este versículo contra outros está, pela lógica do próprio dito, na mesma posição dos que o ouviram pela primeira vez: dentro da instituição, convencido de estar plantado, sem acesso ao critério que ele mesmo acaba de dizer que é do Pai.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os fariseus, referidos e não nomeados

Eles são o assunto do versículo anterior e não aparecem neste. A ausência do nome é o dado. Um leitor que chegasse aqui sem ler o versículo 12 não teria como saber de quem se fala.

Convém não resolver a questão à força. A conexão com o contexto é forte, e a maior parte dos intérpretes trabalha com ela. Mas o dito tem forma de máxima geral, e máximas gerais aplicadas a um caso costumam sobrar do caso. É plausível que Mateus tenha inserido aqui um dito que circulava solto na tradição e que tenha alcance maior do que a ocasião.

Os discípulos, destinatários da sentença

Eles trouxeram a notícia do tropeço, e é a eles que o dito é dirigido — não aos fariseus, que a esta altura não estão em cena ou pelo menos não estão sendo interpelados. A frase é dita no círculo interno, sobre pessoas ausentes. O papel deles nesta cena é o de quem monitora a repercussão, e o texto não lhes dá nem elogio nem repreensão.

A planta, personagem sem identidade

A planta é o sujeito da segunda metade e não tem nome, número nem descrição. Não se diz se é árvore, arbusto, erva ou cultivo: o termo é genérico.

A generalidade é funcional. Uma imagem específica demais teria fechado o sentido, e a frase viraria alegoria decifrável. Do jeito que está, ela permanece aberta — o que é problema para o intérprete e, provavelmente, virtude do dito.

O campo implícito

Há um cenário pressuposto que o texto não descreve: o terreno onde as plantas estão. Ele é misto, contém plantas de duas origens, e no momento presente elas convivem.

Esse cenário é exatamente o do campo da parábola do joio, e é o que dá à frase o seu realismo. Não se trata de um mundo dividido entre um campo de Deus e um campo alheio, e sim de um único campo com plantas de procedências diferentes crescendo lado a lado. A imagem é mais incômoda do que a leitura devocional costuma admitir, porque implica indistinção visível.

5. Pontos de Ensino

1. A resposta ao tropeço não é reparo, é agravamento. Os discípulos informam que os fariseus se ofenderam; a resposta não reformula, não explica e não recua. Um mestre atento à recepção teria pelo menos três saídas disponíveis, e nenhuma é usada.

2. O texto não identifica a planta. Pode ser o grupo dos fariseus, pode ser a tradição em disputa, pode ser uma máxima geral sobre tudo o que não vem de Deus. A tradição de comentário divide-se e a gramática não decide: a ambiguidade é do texto.

3. O critério é a origem, não o fruto. O que decide a permanência da planta é quem a plantou. É incomum neste evangelho, cuja linguagem moral trabalha quase sempre com conduta e resultado — três capítulos antes, em Mateus 12:33, o critério era o oposto.

4. O plantio está no passado; o arranque, no futuro. Entre um e outro está o presente, em que a planta continua de pé — o que implica que ela é, no intervalo, indistinguível a olho nu. Se fosse distinguível, a operação não precisaria esperar.

5. O arranque está na passiva divina. O agente não é nomeado, e a convenção judaica de reverência indica que é Deus. A consequência é decisiva: o ouvinte não recebe atribuição executiva. A frase anuncia uma operação, não distribui tarefas.

6. O verbo do arranque aparece na parábola do joio, com o sinal invertido. Em Mateus 13:29 o dono do campo proíbe os servos de arrancar, porque arrancariam o trigo junto. Os dois textos se encaixam: um anuncia a operação, o outro diz quem não a executa e por quê.

7. O tribunal é interno. A frase não é dirigida a pagãos nem a idólatras, mas a especialistas observantes da própria religião de quem fala. O critério instalado é o da insuficiência do pertencimento formal — e ele se aplica igualmente a quem cita o versículo.

8. A recepção antiga já havia removido as travas gramaticais. Inácio de Antioquia, por volta de 110, aplica a fórmula a cristãos que considera cismáticos, no presente e por juízo próprio. O futuro virou presente e a passiva divina virou sentença humana. É uso posterior, não o que Mateus diz — e vale como advertência de leitura.

6. Aspectos Filosóficos

Este versículo instala um problema que a filosofia política conhece bem e que raramente é formulado a partir dele: o de um critério verdadeiro ao qual ninguém tem acesso.

Um critério real e indisponível

A frase afirma duas coisas ao mesmo tempo. Afirma que existe uma diferença objetiva entre o que Deus plantou e o que não plantou — logo, não estamos no relativismo: há um fato do assunto. E afirma, pela gramática, que a verificação e a execução pertencem a outro, num tempo futuro.

Combinar as duas produz uma posição desconfortável e rara. Não é ceticismo, porque o critério existe. Não é dogmatismo, porque o critério não está na mão de quem escuta. É uma terceira coisa: a afirmação de uma verdade cujo tribunal está fora do alcance de quem a afirma.

Locke: a tolerância nasce de um limite de conhecimento

Essa combinação foi o coração de um dos argumentos mais consequentes da filosofia política moderna. John Locke, filósofo inglês do século XVII, publicou em 1689 a Epistola de Tolerantia (Carta sobre a Tolerância), escrita no exílio holandês depois de décadas de guerra religiosa na Europa.

O argumento central de Locke não é que todas as religiões sejam igualmente verdadeiras — ele era cristão convicto e não pensava isso. É outro, e mais forte: o magistrado não tem como saber qual é a verdadeira. Cada príncipe está persuadido da sua, e se a persuasão bastasse para autorizar a coerção, então a coerção seria autorizada em direções contraditórias ao mesmo tempo. Some-se a isso a segunda perna do argumento: a força não produz crença. Pode produzir conformidade exterior, que é justamente o que não salva ninguém. Logo, a coerção religiosa é ao mesmo tempo injustificada e inútil.

Repare na estrutura, porque é a mesma do versículo. Existe uma verdade; ela importa; e ninguém que a afirme tem o acesso necessário para executar sentenças em nome dela. Locke chegou lá por argumento filosófico, depois das guerras de religião. O dito chega lá por gramática — passiva sem agente, verbo no futuro —, e o resultado prático é idêntico: a tarefa não é sua.

Convém marcar o limite com firmeza. Mateus não é Locke, e o versículo não funda tolerância nenhuma: ele não diz que se deva conviver, não diz que se deva respeitar, não diz nada sobre o poder civil. O que ele faz é retirar de quem escuta a atribuição executiva, e essa retirada é a peça que Locke também precisa. A aproximação é leitura do comentarista, não tese do evangelho.

A indistinção como condição, não como falha

Segue-se um ponto que a parábola do joio explicita e que este versículo pressupõe: no tempo intermediário, as plantas se parecem. Isso não é descrito como defeito do observador nem como acidente reparável — é apresentado como a condição do período.

A consequência é precisa: qualquer sistema que dependa de identificar corretamente quem é do lado certo está construído sobre uma capacidade que o texto nega ao ser humano. Sistemas assim existiram e existem, religiosos e políticos, e o padrão de fracasso deles é constante. Não erram por falta de zelo. Erram por excesso de confiança num discernimento que não têm.

7. Aplicações Práticas

Distinguir o que você afirma do que você executa

A gramática deste versículo faz um trabalho que a maioria das discussões acaloradas não faz: separa a convicção da atribuição. Dizer que algo é falso e assumir a tarefa de eliminá-lo são operações distintas, e a segunda não decorre automaticamente da primeira.

Vale carregar essa distinção para as conversas em que você se sente com razão. Você pode estar convencido de que uma prática do seu trabalho é danosa, de que uma posição defendida por alguém próximo é insustentável, de que um método adotado na sua área não se sustenta. A convicção pode inclusive estar correta. O passo seguinte — assumir a execução da correção — precisa de justificativa separada, e frequentemente ela não existe.

Na prática, isso vira uma pergunta simples de fazer antes de agir: além de eu achar que estou certo, o que me dá a tarefa? Autoridade formal, pedido de alguém, responsabilidade direta pelo resultado? Se nenhuma das três aparece, a convicção sobrou sem mandato — e agir mesmo assim costuma custar caro e resolver pouco.

Tolerar a indistinção sem chamá-la de indiferença

A convivência entre o que presta e o que não presta, sem separação imediata, é a situação normal de qualquer ambiente humano com mais de três pessoas. Em times de trabalho, famílias, congregações e escolas convivem, lado a lado, coisas que sustentam e coisas que corroem, e na maior parte do tempo não dá para dizer com segurança qual é qual.

O ponto útil é conseguir distinguir duas atitudes que se parecem por fora. Uma é a omissão: não agir porque dá trabalho, porque haveria conflito, porque é mais confortável não ver. A outra é a espera deliberada: não agir porque você reconhece que ainda não sabe o suficiente para agir sem destruir junto o que presta. As duas produzem a mesma inação visível e são moralmente opostas. Quem faz a segunda costuma saber exatamente o que está esperando ver.

Desconfiar do versículo que classifica os outros

Esta aplicação é sobre o próprio texto, e é incômoda. Este dito tem uma história documentada de uso como instrumento de classificação, e o item 3 a descreve: menos de um século depois de escrito, ele já circulava como carimbo de exclusão entre cristãos, e continuou circulando assim em praticamente todas as rupturas posteriores.

A aplicação é de higiene interpretativa: quando um texto na sua mão passa a funcionar como classificador de terceiros, vale desconfiar do uso antes de desconfiar dos terceiros. Textos que classificam são atraentes justamente porque poupam trabalho — eliminam a necessidade de examinar o argumento do outro, já que o outro foi previamente enquadrado.

Um teste concreto: pergunte se você já viu alguém aplicar esse mesmo versículo a si próprio. Se a resposta é não, ele está sendo usado como arma, e a leitura precisa de revisão antes do uso seguinte.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A frase autoriza que se expulsem pessoas de uma comunidade religiosa?

Não, e a razão é gramatical. Um enunciado que diz "será arrancada" não é um enunciado que diz "arranquem": quem arranca não é quem ouve, e o momento não é agora. Práticas de exclusão comunitária existem em Mateus, notadamente no capítulo 18, e terão de se justificar por lá.

Existe possibilidade de a planta mudar de condição?

O versículo não diz, e essa é uma das ausências mais notáveis. A frase é declarativa e sem condição: não há "se não se converter", não há "a menos que", não há chamado ao arrependimento anexo. Outros textos de Mateus oferecem essa dimensão em abundância, mas ela não está aqui. Quem quiser argumentar por uma possibilidade de mudança terá de trazê-la de outro lugar — o que é legítimo, desde que se diga que se está fazendo isso.

Por que Jesus não suaviza depois de saber que ofendeu?

O texto não explica, e vale resistir à tentação de preencher. Nem a narrativa nem a fala oferecem motivo. É plausível que a questão em jogo fosse considerada inegociável — o conflito era sobre um procedimento que anulava um mandamento —, mas isso é reconstrução do intérprete.

O arranque é o juízo final?

O versículo não data o evento. Mateus tem vocabulário desenvolvido para o fim — a colheita do capítulo 13, a separação do capítulo 25, a vinda do Filho do Homem — e é razoável situar o arranque nesse horizonte, mas o texto não o faz explicitamente. Vale notar que os comentaristas se dividem também aqui: o Pulpit Commentary nega expressamente que se trate do juízo do último dia e lê a frase como o desaparecimento gradual do sistema farisaico, enquanto Gill a entende como destruição das falsas doutrinas no tempo de Deus.

Isto ensina predestinação?

A metáfora empurra nessa direção e não sustenta a doutrina. Uma planta não decide ser plantada, não se planta a si mesma, e o critério enunciado é a origem. Levada ao pé da letra, a figura sugere que a permanência depende de algo anterior à conduta. Mas uma metáfora agrícola de uma linha não sustenta uma teoria da eleição, e o resto de Mateus trabalha com linguagem fortemente centrada em conduta — as bem-aventuranças, o sermão do monte, a árvore que se conhece pelo fruto, o juízo do capítulo 25. Quem constrói predestinação a partir daqui está fazendo o texto carregar mais do que ele pode.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo verbo do arranque, com o sinal invertido

Mateus 13:28-30 — "Os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e o arranquemos? Ele, porém, respondeu: Não, para que, ao arrancardes o joio, não desenraizeis com ele o trigo. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa." O verbo ocorre em Mateus apenas aqui e em 15:13. Ali, proibido a agentes humanos; aqui, anunciado na passiva divina.

Deus como quem planta Israel

Êxodo 15:17 — "Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança." O cântico junto ao mar já usa a imagem do plantio para descrever a instalação do povo.

Salmo 80:8-9 — "Trouxeste uma videira do Egito; expulsaste as nações e a plantaste. Preparaste-lhe lugar, e ela deitou raízes e encheu a terra." A videira transplantada, com a sequência completa de preparo e enraizamento.

Jeremias 2:21 — "Eu mesmo te plantei como videira excelente, semente inteiramente fiel. Como, pois, te tornaste para mim planta degenerada, de vide estranha?" A queixa que mais se aproxima da lógica deste versículo: o problema é de origem contra resultado.

Deus como quem arranca

Jeremias 1:10 — "Eis que hoje te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares, para edificares e plantares." A comissão profética abre com o verbo do arranque, e o par plantar e arrancar estrutura o livro inteiro.

Jeremias 45:4 — "Assim diz o SENHOR: eis que o que edifiquei, eu o derribo; e o que plantei, eu o arranco." A formulação mais próxima deste versículo em todo o Antigo Testamento, com a diferença de que ali o agente é declarado em primeira pessoa.

Árvore e juízo dentro de Mateus

Mateus 12:33 — "Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau; porque pela árvore se conhece o fruto." Três capítulos antes, o critério do fruto — que é justamente o que este versículo não usa.

O agricultor divino no restante do Novo Testamento

João 15:1-2 — "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta." Desenvolvimento independente da mesma imagem, com vocabulário diferente e critério de fruto, não de origem.

10. Original Grego e Análise

Nota preliminar: este painel examina o grego, língua em que o Novo Testamento foi escrito. Nos livros do Antigo Testamento a análise trabalha com o hebraico; aqui, não. Vale marcar a diferença, porque a expectativa corrente do leitor associa análise do original ao hebraico.

Texto em português

Mas ele respondeu: “Toda planta que o meu Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz.

Texto grego

ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν· πᾶσα φυτεία ἣν οὐκ ἐφύτευσεν ὁ πατήρ μου ὁ οὐράνιος ἐκριζωθήσεται.

Transliteração

ho de apokritheis eipen· pasa phyteia hēn ouk ephyteusen ho patēr mou ho ouranios ekrizōthēsetai.

Palavra por palavra

ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν (ho de apokritheis eipen) — "ele, porém, respondendo, disse"

Fórmula narrativa frequentíssima nos evangelhos. O artigo ho funciona como pronome ("ele"); a partícula de é levemente adversativa; apokritheis é particípio de apokrinomai ("responder") e eipen é o aoristo de legō.

πᾶσα φυτεία (pasa phyteia) — "toda planta"

Pasa é o adjetivo pas no feminino, concordando com phyteia. Com substantivo sem artigo, como aqui, o sentido é distributivo: "toda e qualquer", "cada".

Phyteia é o dado lexical central. Substantivo derivado de phyteuō ("plantar"), com o sufixo -eia, que em grego forma nomes de ação ou de resultado da ação. É palavra que aparece uma única vez em todo o Novo Testamento — exatamente aqui.

A ambiguidade é estrutural, e vem da formação. O sufixo permite ler tanto "o plantio" (a ação) quanto "o plantado" (o resultado: a muda, a planta, a cultura). Nos documentos agrícolas do Egito grego a palavra aparece nos dois sentidos, designando ora a operação de plantar, ora a área plantada. Na Septuaginta o termo é raro: Miqueias 1:6 fala da Samaria reduzida a lugar de plantação de vinha, e Ezequiel 17:7 usa-o no oráculo da videira e das águias. O uso é agrícola nos dois casos, sem carga religiosa técnica.

ἣν οὐκ ἐφύτευσεν (hēn ouk ephyteusen) — "que não plantou"

Hēn é o pronome relativo no acusativo, objeto direto do verbo — a concordância confirma que a planta é objeto do plantio, não sujeito. Ouk é a negação objetiva, usada com o indicativo: nega um fato, não uma possibilidade; a alternativa mē negaria de modo hipotético.

Ephyteusen é aoristo do indicativo de phyteuō. O aoristo apresenta a ação como um todo acabado, sem informação sobre duração: o plantio — ou a ausência dele — pertence ao passado e está encerrado. É esse tempo verbal que produz a assimetria com o futuro do verbo final, e o item 3 trata do que decorre disso.

ὁ πατήρ μου ὁ οὐράνιος (ho patēr mou ho ouranios) — "o meu Pai, o celestial"

Sujeito de ephyteusen, construído com artigo mais substantivo seguido de artigo mais adjetivo. Literalmente, "o Pai de mim, o celestial" — construção que destaca o adjetivo mais do que a ordem simples faria.

Ouranios é adjetivo raro no Novo Testamento: sete ocorrências, cinco delas em Mateus. Usar o adjetivo, em vez do genitivo "dos céus", é traço de estilo deste evangelho. E mou é o pronome de primeira pessoa: a designação alterna, em Mateus, entre "meu Pai" na boca de Jesus sobre si e "vosso Pai" quando ele fala aos ouvintes.

ἐκριζωθήσεται (ekrizōthēsetai) — "será arrancada pela raiz"

Uma palavra grega para quatro em português. Futuro do indicativo passivo de ekrizoō.

A formação é transparente: a preposição ek ("para fora de") mais o substantivo rhiza ("raiz"), verbalizados. O sentido é "tirar de raiz", "desenraizar" — não é podar, não é cortar, não é queimar. É a remoção completa, incluindo o que está debaixo da terra.

A distinção importa. Mateus 3:10 e 7:19 usam ekkoptō, "cortar fora", operação que remove o que está acima do solo. Aqui o verbo é outro, e mais radical. Ele é raro no Novo Testamento: ocorre quatro vezes, em Mateus 13:29, aqui, em Lucas 17:6 e em Judas 12.

A voz passiva e o tempo futuro

Não há agente expresso. Em grego, o agente de uma passiva seria introduzido por hypo mais genitivo, e isso não aparece.

A construção é reconhecida como passiva divina: recurso de reverência que evita nomear Deus como sujeito gramatical. Mateus a emprega com frequência, e o exemplo mais visível é a série das bem-aventuranças, em que os verbos das segundas metades — "serão consolados", "serão fartos", "alcançarão misericórdia" — pressupõem um agente que não é nomeado. Grau de certeza de que aqui é passiva divina: alto, porque a primeira metade da frase já nomeia o Pai como agente do plantio.

A combinação de futuro e passiva sem agente é o que dá à frase o seu caráter: um anúncio, não uma ordem. Não há imperativo em lugar nenhum do versículo.

11. Conclusão

Deste versículo se conclui, antes de tudo, que o alvo ficou em aberto — e que a indefinição vem do original, não da tradução. Comentaristas se dividem há séculos entre pessoas, doutrinas e máxima geral; o evangelista, que sabe apontar o dedo quando quer, e o faz sete vezes no capítulo 23, aqui não apontou. Conclui-se daí que toda leitura que anuncia com segurança de quem se trata está pondo no texto uma informação que ele não deu.

Conclui-se, em seguida, que o ouvinte sai da frase de mãos vazias. Ele recebe a notícia de que existe uma operação, e não recebe nenhum papel nela: nem o de identificar, nem o de executar, nem o de marcar a hora. Esse resultado é confirmado por dentro do próprio evangelho — o único outro lugar em que Mateus usa o verbo do arranque é a cena em que o dono do campo veta aos servos exatamente o que aqui se anuncia, e a razão que ele dá é que eles não têm como separar sem estragar.

Conclui-se, portanto, que o intervalo é a condição, e não o defeito. Enquanto o arranque não vem, as duas espécies de planta continuam de pé no mesmo terreno, iguais aos olhos de quem passa. Todo projeto que dependa de peneirar agora quem é de Deus está apostando numa capacidade que este texto expressamente retira de quem escuta.

Conclui-se, por fim, que a história da citação deste dito faz parte da matéria de leitura. Ela mostra o que acontece quando as duas travas caem: a promessa vira diagnóstico, o amanhã vira hoje, e o assento do juiz é ocupado por quem estava apenas ouvindo. Isso não está no versículo. Está no que se fez com ele, e conhecer a diferença é o que permite citá-lo sem repetir a operação.

Resta o fecho que torna o dito mais difícil de manejar do que parece. Ele foi dito para dentro de casa, sobre gente devota e estudiosa, e o que afirma é que o crachá não prova o plantio. Quem o pega para usar contra alguém acaba de reconhecer, na mesma frase, que não dispõe do critério — porque acabou de dizer que o critério é do Pai. É uma informação mais dura do que qualquer condenação: ela não deixa ninguém confortável, nem quem acha que não há critério nenhum, nem quem acha que o tem no bolso.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 15:13

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%