📖 Navegar na Bíblia:

Mateus 13:28

✍️ Por Alberto Adriano·1 de agosto de 2026·⏱️ 17 min de leitura·👁 46 acessos
Ele lhes respondeu: ‘Um inimigo fez isso’. Os escravos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos arrancá-lo?’
O dono do campo, um homem de túnica simples do primeiro século, respondendo a dois escravos com um gesto de conversa, à beira de uma plantação de trigo dourado misturado com joio, numa paisagem semiárida da Terra Santa sob a luz quente do fim de tarde.

Estudo


Ele lhes respondeu: ‘Um inimigo fez isso’. Os escravos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos arrancá-lo?’

1. Introdução

Depois de contar a parábola do joio (Mateus 13:24-30), Jesus deixa a história avançar até o momento em que os trabalhadores do campo descobrem o estrago. O trigo cresceu, mas junto com ele apareceu o joio — uma erva daninha que ninguém havia semeado de propósito. É nesse ponto, no versículo 28, que a cena vira. Ela deixa de descrever o problema e passa a discutir a sua origem e o que fazer com ele.

O versículo tem dois movimentos. No primeiro, o dono do campo dá o diagnóstico: o joio não brotou por acaso nem por descuido dele — alguém o plantou de má vontade. No segundo, os escravos reagem com pressa: querem ir imediatamente arrancar a praga. Em poucas palavras, Mateus coloca diante do leitor duas questões que atravessam toda a Bíblia: de onde vem o mal e qual é o tempo certo de lidar com ele. Entender esse versículo é entender por que a resposta do dono, no versículo seguinte, será um firme “não” ao impulso de arrancar tudo já.

2. Contexto Histórico e Cultural

A parábola só funciona porque toda a plateia de Jesus conhecia bem o que era o joio. A palavra grega é zizânia, quase com certeza a planta que os botânicos chamam de Lolium temulentum, o joio-dos-cereais. No começo do crescimento, ela é praticamente idêntica ao trigo: mesmo verde, mesma folha, mesmo porte. Só quando a espiga se forma é que dá para distinguir — o grão do joio é pequeno e escuro. Pior: esse joio costuma ser contaminado por um fungo, e comer a sua farinha causa tontura, náuseas e mal-estar. Não à toa o nome latino temulentum significa “embriagado”. Arrancar um pelo outro cedo demais era um risco real, e todo lavrador da Galileia sabia disso.

Há ainda o detalhe do crime. Semear joio na lavoura de um inimigo era uma forma de vingança conhecida no mundo antigo — um ato de sabotagem que arruinava a colheita alheia sem que a vítima percebesse na hora. Muitos estudiosos observam que essa prática era tão real que chegou a ser tratada como delito puniível em leis da época romana; a certeza sobre os detalhes jurídicos é limitada, mas o gesto era plausível e reconhecível para quem ouvia. Jesus, portanto, não inventou uma situação absurda: descreveu um drama agrícola que qualquer camponês entenderia na hora.

Por fim, os personagens que falam no versículo. O texto os chama de escravos (no grego, dôuloi), e não de simples empregados. Numa grande propriedade do primeiro século, o trabalho de campo era feito por escravos vinculados à casa, que respondiam diretamente ao dono. É gente que se importa com o campo do senhor como se fosse coisa sua — daí a pressão para agir logo. A cena é doméstica e comum, mas serve de moldura para uma lição sobre o mundo inteiro.

3. Análise Teológica do Versículo

“Um inimigo fez isso, respondeu ele.”

No contexto da parábola do joio, Jesus identifica a origem do problema como um inimigo. Entende-se que esse inimigo é Satanás, que semeia a discórdia e o mal em meio ao bem. Do ponto de vista teológico, isso reflete a batalha espiritual contínua entre o bem e o mal. As ações do inimigo são deliberadas e maldosas, com o objetivo de atrapalhar o crescimento do reino de Deus. Esta frase destaca a realidade da guerra espiritual e a presença do mal no mundo, como se vê em outras passagens, tal qual Efésios 6:12, que fala da luta contra as forças espirituais do mal.

“Então os escravos lhe perguntaram:”

Os escravos representam os seguidores de Cristo, atentos ao campo do seu senhor. A pergunta que fazem indica o desejo de enfrentar imediatamente o problema do mal. Isso reflete a inclinação humana de querer corrigir os erros e purificar a comunidade dos que creem. Historicamente, isso se percebe nos esforços da igreja primitiva para manter a pureza doutrinária e a integridade moral, como se vê nas cartas de Paulo, ao tratar de questões dentro da igreja.

“O senhor quer que vamos arrancá-lo?”

A disposição dos escravos para agir demonstra a sua lealdade e o seu empenho em proteger os interesses do senhor. No entanto, essa pergunta também revela a falta de entendimento do plano do senhor. A remoção precipitada do joio poderia prejudicar o trigo, simbolizando o dano de julgar e arrancar as pessoas antes do tempo determinado. Isso se conecta ao tema bíblico mais amplo da paciência e do tempo de Deus, como se vê em Tiago 5:7-8, que encoraja os que creem a serem pacientes até a vinda do Senhor. A pergunta também reflete a tensão entre a justiça e a misericórdia, um tema recorrente nas Escrituras, em que o juízo final de Deus fica reservado para o fim da era.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — o narrador da parábola, que ensina a multidão e os seus discípulos sobre o Reino dos Céus por meio de histórias.

O Inimigo — representa Satanás, que semeia o joio no meio do trigo, símbolo do mal e do engano espalhados pelo mundo.

Os Escravos — representam os seguidores de Cristo, preocupados com a presença do mal e em busca de orientação sobre como enfrentá-lo.

O Campo — simboliza o mundo, onde o bem (o trigo) e o mal (o joio) convivem até o tempo da colheita.

A Colheita — representa o fim da era, quando Deus separará os justos dos maus.

5. Pontos de Ensino

Reconhecer a obra do inimigo

Compreender que o mal no mundo é fruto das ações do inimigo, e não do plano de Deus.

Paciência no juízo

Confiar no tempo de Deus para a justiça e evitar tomar as coisas nas próprias mãos antes da hora.

Discernimento espiritual

Desenvolver o discernimento para reconhecer a diferença entre os verdadeiros seguidores de Cristo e os que não o são.

Esperança na justiça final

Encontrar conforto na promessa da justiça definitiva de Deus e na separação entre o bem e o mal no fim da era.

Fé ativa

Viver uma fé ativa, semeando boas sementes por meio de atos de amor, verdade e justiça num mundo onde o mal existe.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta que este versículo levanta é uma das mais antigas de todas: de onde vem o mal? A resposta do dono do campo é direta e carregada de sentido — “um inimigo fez isso”. O mal no campo não é obra do dono, não é defeito da semente boa que ele plantou, não é acaso da natureza. É sabotagem, vontade hostil de outro. A parábola descarta, assim, a ideia de que Deus seria a causa do mal que corrói o mundo. O bem foi semeado por ele; o mal entrou por uma mão inimiga. Isso não resolve todo o problema filosófico do mal — permanece a pergunta de por que o dono permite que o inimigo entre —, mas afirma com clareza uma coisa: a origem do mal não está no coração de quem plantou o trigo.

Aqui é preciso um cuidado de método, para não forçar a parábola. Ela não é uma alegoria em que cada palavra esconde um código secreto. É uma história com alguns pontos de correspondência claros — e o próprio Jesus, mais adiante (Mateus 13:37-39), dirá quais são: o semeador do bem é o Filho do homem, o campo é o mundo, o inimigo é o diabo, a colheita é o fim da era. Fora desses pontos que ele mesmo aponta, não convém multiplicar significados. O que a história ensina, no versículo 28, é sóbrio e limitado: o mal tem uma causa hostil, e a vontade de erradicá-lo depressa esbarra num perigo.

Esse perigo é o segundo tema filosófico do versículo: o zelo apressado. Os escravos têm razão em odiar o joio, mas erram no tempo e no método. Querem arrancar tudo agora — e, como o versículo seguinte mostrará, arrancar o joio cedo demais arranca junto o trigo, porque as raízes estão entrelaçadas e as plantas ainda se parecem. Há aqui uma crítica à pressão humana de purificar o mundo à força, de separar hoje o que só pode ser separado com segurança no fim. O juiz apressado, movido por bom zelo, acaba destruindo o que queria proteger. A parábola propõe uma paciência que não é indiferença: o joio será separado — mas na colheita, e pela mão certa.

7. Aplicações Práticas

Não culpe Deus pelo mal. Diante do sofrimento e da maldade do mundo, a tentação é apontar o dedo para Deus. A parábola responde: o campo bom foi obra dele; o joio veio de uma mão inimiga. O mal tem outra origem.

Cuidado com o zelo apressado. Querer limpar a igreja ou o mundo arrancando “os maus” agora costuma ferir também os bons. Nem sempre é possível, nem é nossa tarefa, separar tudo neste tempo.

Confie no tempo de Deus. A justiça não falhou por estar demorando. Haverá colheita, haverá separação — no momento certo e pelas mãos certas, os anjos de Deus.

Cultive o discernimento. Joio e trigo se parecem por muito tempo. Aprender a distinguir com humildade, sem se apressar em condenar, é uma marca da maturidade espiritual.

Não se assuste com a mistura. Encontrar o mal ao lado do bem, até dentro da comunidade da fé, não significa que a semente boa falhou. É assim que o campo funciona até a colheita.

Semeie o bem apesar de tudo. A resposta ao joio não é só esperar; é continuar plantando trigo — amor, verdade e justiça — num terreno que tem ervas daninhas.

Deixe o juízo final para quem é de direito. Reconhecer que a separação definitiva pertence a Deus liberta o coração do peso de ser o juiz de todos.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que significa Mateus 13:28?

O dono do campo explica que o joio no meio do trigo foi semeado por um inimigo, e os seus escravos se oferecem para ir arrancá-lo. O versículo diagnostica a origem do mal (uma mão hostil, não o dono) e introduz a tentação de eliminar a praga depressa demais — impulso que o dono conterá no versículo seguinte.

2. Como Mateus 13:28 ilustra a presença do mal no mundo?

Mostra o mal convivendo com o bem no mesmo campo. O joio não está num terreno à parte; está misturado ao trigo, com raízes entrelaçadas. É uma imagem realista: neste tempo, o bem e o mal crescem lado a lado, e nem sempre é possível separá-los sem dano.

3. Que papel o discernimento tem para identificar o “inimigo” em Mateus 13:28?

Um papel central. O joio se parece com o trigo, e o inimigo agiu às escondidas, de noite (13:25). Reconhecer que há uma vontade hostil por trás do mal — e não simplesmente acaso ou falha — exige discernimento espiritual, o mesmo que aprende a não confundir a aparência com a raiz.

4. Como aplicar Mateus 13:28 à vigilância espiritual no dia a dia?

O joio foi semeado “enquanto os homens dormiam”. A vigilância é estar desperto para o modo silencioso como o mal se infiltra — nas ideias, nos hábitos, nas relações — sem cair no extremo oposto de sair arrancando tudo por conta própria. Vigiar e ter paciência caminham juntos.

5. Que outras passagens ressaltam a vigilância contra a obra do inimigo?

Pedro adverte: “Sede sóbrios! Vigiai! O vosso adversário, o diabo, anda ao redor” (1 Pedro 5:8). Paulo fala da luta contra as forças espirituais do mal (Efésios 6:12). E o próprio Jesus explica, mais adiante, que “o inimigo que o semeou é o diabo” (Mateus 13:39).

6. Como o crente deve responder a um “inimigo” que semeia discórdia na sua comunidade?

Com discernimento e paciência, não com uma caça apressada aos “culpados”. A parábola alerta que arrancar o joio antes da hora fere o trigo. Isso não significa passividade diante do pecado claro — há disciplina legítima na igreja —, mas rejeita o zelo que quer purificar tudo à força e acaba dividindo o rebanho.

7. Por que Mateus 13:28 atribui a semeadura do joio a um inimigo?

Para deixar claro que o mal não vem do dono do campo. A semente que ele plantou era boa. O joio é intrusão, sabotagem de fora. Assim a parábola protege o caráter de Deus: ele não é a fonte do mal que estraga o mundo.

8. Como Mateus 13:28 desafia a ideia de um Deus bom que permite o mal?

O versículo enfrenta a tensão de frente, sem dissolvê-la. Ele afirma que o mal tem causa hostil, e não divina — mas deixa em aberto por que o dono permite que o joio cresça por um tempo. A resposta da parábola não é negar o problema, e sim situá-lo no tempo: o dono não é conivente nem impotente; ele adia a separação para não destruir o trigo junto. É uma resposta honesta, que reconhece o incômodo da espera sem fingir que ele não existe.

9. Que contexto histórico influenciou a parábola de Mateus 13:28?

A agricultura da Palestina do primeiro século. O joio (a zizânia, o joio-dos-cereais) era uma erva daninha idêntica ao trigo até a espiga se formar, e semear joio na lavoura de um inimigo era um ato de vingança conhecido no mundo antigo. Jesus falou de um drama real que a sua plateia reconhecia na hora.

10. Quais são as principais lições de Mateus 13?

O capítulo reúne parábolas do Reino: a palavra é semeada em terrenos diferentes (o semeador); o bem e o mal convivem até a colheita (o joio); o Reino começa pequeno e cresce (o grão de mostarda e o fermento); vale todo sacrifício (o tesouro e a pérola); haverá uma separação final (a rede). O versículo 28 pertence à lição do joio: paciência, discernimento e confiança no juízo de Deus no tempo certo.

9. Conexão com Outros Textos

“O ladrão não vem, senão para roubar, matar, e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (João 10:10)

A obra do inimigo é sempre destruir. O joio semeado às escondidas é exatamente esse trabalho de arruinar o que é bom — o oposto da vida que Jesus veio trazer.

“Sede sóbrios! Vigiai! O vosso adversário, o diabo, anda ao redor, rugindo como um leão, buscando a quem possa devorar.” (1 Pedro 5:8)

Pedro descreve o mesmo inimigo da parábola em ação: ativo, atento, buscando estragar. A resposta não é o pânico, e sim a sobriedade e a vigilância.

“E o inimigo, que o semeou, é o diabo; e a colheita é o fim da era; e os que colhem são os anjos.” (Mateus 13:39)

A própria explicação de Jesus. O “inimigo” do versículo 28 é identificado sem rodeios: o diabo. E a separação que os escravos queriam antecipar fica reservada para a colheita, feita pelos anjos.

“Mas ele respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz.” (Mateus 15:13)

Aqui, sim, o arrancar pela raiz aparece — mas como ato de Deus, no tempo dele, contra o que ele não plantou. Confirma que a erradicação do mal pertence ao dono do campo, não ao zelo apressado dos servos.

“Quem pratica o pecado é do diabo, pois o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou, para desfazer as obras do diabo.” (1 João 3:8)

João mostra o desfecho da história do joio: as obras do inimigo não ficarão de pé. Cristo veio justamente para desfazê-las — mas no tempo e no modo de Deus.

“Portanto, irmãos, sede pacientes até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba a primeira chuva e a chuva tardia. Sede vós também pacientes. Fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima.” (Tiago 5:7-8)

Tiago usa a mesma imagem do lavrador que espera. É a resposta ao impulso dos escravos: a paciência até a colheita não é descuido, é confiança no tempo certo do Senhor.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “Ele lhes respondeu: ‘Um inimigo fez isso’. Os escravos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos arrancá-lo?’”

Texto grego (Textus Receptus): ὁ δὲ ἔφη αὐτοῖς, Ἐχθρὸς ἄνθρωπος τοῦτο ἐποίησεν. οἱ δὲ δοῦλοι εἶπον αὐτῷ, Θέλεις οὖν ἀπελθόντες συλλέξωμεν αὐτά;

Transliteração: “ho dè éphē autoîs, Echthròs ánthrōpos toûto epoíēsen. hoi dè doûloi eîpon autôi, Théleis oûn apelthóntes sylléxōmen autá?”

Palavra a palavra

“Éphē” (ἔφη) vem de phemí, “dizer”, “declarar”. É um verbo de fala breve e firme, usado para respostas curtas e assertivas. O dono não hesita: dá o diagnóstico de uma vez.

“Echthròs ánthrōpos” (Ἐχθρὸς ἄνθρωπος) é, literalmente, “um homem inimigo”. Echthrós significa “hostil”, “adversário”, e está ligado a échthos, “ódio”. O acréscimo de ánthrōpos (“homem”, “ser humano”) reforça o caráter pessoal e voluntário do ato: não foi a natureza, nem o vento, nem o descuido — foi alguém, com intenção. Mais adiante Jesus dirá quem esse inimigo representa: o diabo (13:39).

“Toûto epoíēsen” (τοῦτο ἐποίησεν) é “fez isso”. O verbo poiéō (“fazer”) está no aoristo, que marca a ação como um fato pontual, já concluído. O joio não foi um acidente em curso: foi uma ação deliberada e completa de alguém.

“Doûloi” (δοῦλοι) é o plural de doûlos, “escravo”, “servo ligado à casa”. Traduzimos por “escravos” porque é esse o sentido forte da palavra: trabalhadores vinculados ao senhor, e não simples diários contratados. São eles que se importam com o campo e se oferecem para agir.

“Théleis oûn” (Θέλεις οὖν) é “queres, então?”. O verbo thélō (“querer”, “desejar”) mostra que os escravos não vão agir por conta própria: pedem a ordem do senhor. Há zelo, mas também submissão — e é bom que peçam, porque a resposta do dono será “não”.

“Apelthóntes” (ἀπελθόντες) é o particípio de apérchomai, “ir embora”, “partir”. Descreve o movimento de sair para o campo e pôr mãos à obra imediatamente — a pressão do “agora”.

“Sylléxōmen” (συλλέξωμεν) vem de syllégō, “recolher”, “ajuntar”, “catar”. É um subjuntivo deliberativo (“que nós ajuntemos?”). Um detalhe importante: os escravos falam em recolher o joio, mas o dono, no versículo seguinte, responderá com outro verbo, ekrizóō (“arrancar pela raiz”), advertindo que, ao recolher o joio, eles arrancariam o trigo junto. A escolha das palavras já antecipa o risco.

“Autá” (αὐτά) é o pronome “os”, no neutro plural, concordando com zizânia (“joio”), que é neutro em grego. Refere-se às ervas daninhas que os escravos querem tirar.

Nota textual e teológica

O versículo não traz variação textual relevante entre o Textus Receptus (base da nossa tradução) e o texto crítico moderno — a mensagem é estável em toda a tradição dos manuscritos. O peso teológico está no vocabulário. Duas escolhas de palavra guardam toda a lição: “inimigo homem”, que localiza a origem do mal numa vontade hostil e não no dono do campo; e o contraste entre “recolher” (o que os escravos propõem) e “arrancar pela raiz” (o perigo que o dono apontará). A parábola, portanto, não é sobre tolerar o mal, e sim sobre respeitar o tempo e a mão certos para separá-lo. Onde couber discernir, o próprio Jesus deu a chave de leitura (13:37-39); fora disso, é prudente não forçar a história a dizer mais do que ela diz.

11. Conclusão

Mateus 13:28 é um versículo curto que carrega duas verdades grandes. A primeira é uma resposta sobre a origem do mal: “um inimigo fez isso”. O joio no meio do trigo não é obra do dono do campo, nem defeito da semente boa — é sabotagem de uma mão hostil. A parábola protege, assim, o caráter de Deus: ele semeia o bem, e o mal entra por outra via. Isso não dissolve todo o mistério de por que o dono permite o joio crescer por um tempo, mas afasta com firmeza a acusação de que o mal viria dele.

A segunda verdade está na pergunta dos escravos. O zelo deles é sincero, mas apressado — e o versículo seguinte mostrará por que arrancar o joio agora seria um erro: as raízes estão entrelaçadas, e o trigo cairia junto. Há uma sabedoria difícil aqui, que vale para a igreja e para cada coração: nem todo mal deve ser arrancado por nossas mãos, agora. Existe um tempo de colheita, e existe uma mão certa para a separação final. Até lá, a tarefa não é sair caçando joio — é continuar semeando trigo, com paciência, discernimento e confiança de que o dono do campo sabe o que faz.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 13:28

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia1.063 / 31.102 3,42%
Antigo Testamento572 / 23.145 2,47%
Novo Testamento491 / 7.957 6,17%