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Mateus 19:1

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 56 acessos
Quando Jesus terminou essas palavras, partiu da Galileia e foi para a região da Judeia, do outro lado do Jordão.
Um grupo de viajantes a pé descendo por uma estrada de terra no vale do Jordão, com o rio à direita e colinas áridas ao fundo.

Estudo


Quando Jesus terminou essas palavras, partiu da Galileia e foi para a região da Judeia, do outro lado do Jordão.

1. Introdução

Uma frase fecha o discurso e a Galileia ao mesmo tempo. Jesus termina de falar, levanta acampamento e desce para a Judeia por fora — pelo lado leste do Jordão.

A fórmula "quando Jesus terminou essas palavras" já apareceu outras três vezes em Mateus, sempre no fim de um bloco de ensino. Aqui ela faz mais: marca a última saída da Galileia, que em Mateus não tem volta antes da ressurreição.

E a rota que o versículo descreve — "a região da Judeia, do outro lado do Jordão" — junta duas coisas que a geografia separa, porque a Judeia fica de um lado do rio e o "outro lado" fica do outro.

2. Contexto Histórico e Cultural

Entre a Galileia e Jerusalém havia três caminhos, e nenhum era neutro.

O mais curto atravessava a Samaria pelo meio: três dias de marcha, segundo Josefo, o historiador judeu do primeiro século que escreveu para leitores romanos. O segundo descia pela costa e subia pelas encostas da Judeia. O terceiro saía da Galileia rumo ao sul, cruzava o Jordão na altura de Bete-Seã, seguia pela margem leste e voltava a cruzar o rio perto de Jericó, para subir dali a Jerusalém. É esse terceiro que "do outro lado do Jordão" descreve.

A margem leste, nesse trecho, chamava-se Pereia — palavra grega que significa simplesmente "a terra de além", o território do outro lado. Josefo a descreve na Guerra dos Judeus (3.44-47): ia de Pela, ao norte, até Maqueronte, ao sul, e do Jordão, a oeste, até o deserto, a leste. Era maior que a Galileia, diz ele, e muito pior de habitar — deserto e terreno áspero na maior parte, com manchas férteis onde se davam a oliveira, a videira e a tamareira. A faixa boa era estreita e corria junto ao rio.

O caminho que evitava a Samaria

Que a rota oriental servia para não passar pela Samaria é a leitura que quase todos os comentaristas repetem, e ela tem base. Josefo conta um episódio feio: na aldeia de Ginae, na fronteira entre a Samaria e a grande planície, moradores atacaram um grupo de galileus que subia para a festa e mataram muitos deles (Antiguidades 20.118). O incidente virou caso de Estado e chegou ao governador romano.

Só que o mesmo Josefo, na mesma passagem, diz o contrário do que se costuma concluir: era costume dos galileus atravessar a Samaria quando subiam para as festas. A hostilidade existia, e o caminho pelo meio continuava sendo o normal. Quem escolhia a margem leste ganhava segurança e perdia dois ou três dias. A explicação pela Samaria é plausível e provavelmente certa, mas é uma leitura, não uma informação do texto: Mateus não diz por que a rota foi essa.

De quem era aquela terra

A Pereia pertencia a Herodes Antipas, que a governava junto com a Galileia — duas faixas de terra separadas uma da outra, com a Samaria e a Decápolis no meio (o desenho da partilha está no estudo de Mateus 14:1). Ao sair da Galileia e entrar na Pereia, Jesus não saía do alcance de Antipas; trocava um pedaço do mesmo domínio por outro.

Isso tem peso para o que vem a seguir. Foi em Maqueronte, fortaleza da Pereia, que João Batista foi preso e executado — e o motivo foi um casamento. Três versículos adiante, na terra de Antipas, fariseus vão fazer a Jesus uma pergunta sobre divórcio.

O que era viajar naquele trecho

A descida de Cafarnaum ao vale do Jordão é uma queda de altitude brutal: o lago da Galileia já está cerca de 200 metros abaixo do nível do mar, e Jericó, mais ao sul, fica ainda mais baixa. O vale é quente o ano inteiro e sufocante no verão. Um grupo a pé fazia de 25 a 30 quilômetros por dia; de Cafarnaum a Jerusalém pela margem leste dá algo entre cinco e seis dias de marcha, contra três pelo caminho de dentro.

A margem leste tinha vantagens práticas além da segurança: água em abundância, terreno plano no fundo do vale e vaus conhecidos para a travessia. E tinha uma vantagem religiosa para quem vinha da Galileia — o viajante que subia por ali entrava em Jerusalém pelo lado de Jericó, o mesmo lado por onde a tradição fazia Israel entrar na terra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando Jesus terminou essas palavras"

A frase é uma assinatura. Mateus a usa cinco vezes, sempre depois de um bloco grande de ensino: no fim do Sermão do Monte (Mateus 7:28), no fim das instruções aos doze (Mateus 11:1), no fim das parábolas (Mateus 13:53), aqui, e mais uma vez em Mateus 26:1. Esta é a quarta.

A quinta é diferente das outras quatro, e a diferença está numa palavra: em Mateus 26:1 a fórmula diz "quando Jesus terminou todas essas palavras" — e o que vem em seguida é a decisão de matá-lo. O acréscimo fecha o ensino inteiro, não mais um bloco. Aqui ainda há discurso pela frente.

O que a fórmula faz, concretamente, é separar o ensino do movimento. Enquanto Jesus fala, o cenário congela; quando para de falar, a narrativa volta a andar. A fala do capítulo 18 — sobre quem é maior, sobre a ovelha perdida, sobre perdoar setenta vezes sete — não é interrompida por nada. Só depois de terminada é que ele se levanta e vai embora.

"partiu da Galileia"

O verbo não é o de "ir" nem o de "sair". É o de quem muda de lugar para não voltar — levanta acampamento, transfere-se. Mateus o usa duas vezes em todo o evangelho, e as duas vezes fecham um discurso: aqui e em Mateus 13:53, quando Jesus deixa o lugar das parábolas e vai para a sua terra.

Em Mateus, esta é a última vez que Jesus está na Galileia antes da morte. Tudo o que vem daqui em diante — o caminho, Jericó, a entrada em Jerusalém, o templo, a prisão, a cruz — acontece no sul. A Galileia só reaparece no fim do livro, depois da ressurreição, na cena do monte em Mateus 28:16.

O evangelho não comenta a saída. Não há despedida, não há um último olhar, não há ninguém chorando. A Galileia, que foi o palco de dezoito capítulos, sai de cena numa oração subordinada.

"e foi para a região da Judeia, do outro lado do Jordão"

Aqui está o problema geográfico do versículo, e ele é real. A Judeia fica a oeste do Jordão. "Do outro lado do Jordão" é o leste. A frase, lida ao pé da letra, põe a Judeia onde ela não está.

Três saídas foram propostas, e nenhuma fechou a questão.

Primeira leitura: "do outro lado do Jordão" diz por onde ele foi, não onde chegou. A expressão se prende ao verbo "foi", e não ao substantivo "Judeia": ele veio para a Judeia passando pelo outro lado do rio. É a leitura de Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) e do Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do mesmo século), e é a que o português da ABC deixa em aberto do mesmo jeito que o grego.

Segunda leitura: "Judeia" está sendo usada em sentido largo. Fora da Palestina, e em boca romana, "Judeia" podia designar o país judaico inteiro, incluindo a Pereia, que era de população majoritariamente judaica. Nesse caso a frase não tem erro nenhum: a região judaica que fica do outro lado do rio.

Terceira leitura: Mateus resumiu um percurso longo numa frase só. Lucas gasta oito capítulos na subida para Jerusalém, e João registra visitas intermediárias à cidade. Mateus comprime tudo. O que sobrou foi um ponto de partida, um ponto de chegada e um dado de rota, sem os passos do meio — e a compressão embaralhou a geografia.

Não é possível decidir entre as três. O que se pode afirmar é que Mateus conhecia a diferença entre as duas margens: ele já usara "além do Jordão" corretamente, para o leste, em Mateus 4:15 e 4:25.

O que o versículo deixa implícito

A frase inteira é de trânsito, e é aí que está a sua força. Todo o resto do capítulo 19 — a pergunta sobre o divórcio, as crianças, o homem rico — acontece com Jesus a caminho. Nada disso se passa numa casa, numa sinagoga ou num pátio de templo. Acontece na estrada, no meio de uma multidão em movimento, numa terra que não era a dele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — deixa a Galileia pela última vez antes da paixão. Em Mateus, as suas bases até aqui foram Nazaré e Cafarnaum; a partir deste versículo ele não tem mais base.

Herodes Antipas — não aparece no versículo, mas é o dono do chão. Governava a Galileia e a Pereia; as duas pontas da viagem estavam no seu território.

Lugares

Galileia — a província do norte, onde Jesus pregou, curou e reuniu os doze. Mateus a chamou de "Galileia dos gentios" logo no começo (Mateus 4:15), por causa da população mista.

Judeia — a província do sul, com Jerusalém no centro. Era o território ligado ao templo, ao sacerdócio e à guarda da Lei, e estava sob administração romana direta desde o ano 6, sem rei próprio.

O rio Jordão — corre do lago da Galileia ao mar Morto, num vale abaixo do nível do mar. Funcionava como fronteira e como referência: tudo se media em relação a ele, "deste lado" ou "do outro lado".

A Pereia — a faixa da margem leste, entre Pela e Maqueronte. Josefo a descreve como terra áspera, deserta na maior parte e fértil em manchas.

Eventos

O fim do quarto discurso — o capítulo 18 encerra o bloco de ensino sobre a vida em comum: o menor, o que faz tropeçar, a ovelha perdida, a repreensão entre irmãos, o perdão sem conta.

A saída definitiva da Galileia — o evangelho não volta ao norte até depois da ressurreição.

A travessia rumo ao sul — a viagem que termina na entrada em Jerusalém, cinco capítulos adiante.

5. Pontos de Ensino

Um ensino tem fim, e o fim é marcado

Mateus não deixa o leitor adivinhar onde o discurso acaba. Ele põe uma frase de fechamento e vira a página. É um cuidado de organização que diz algo sobre o livro: as palavras foram reunidas em blocos, e os blocos têm bordas.

O ensino não prende o mestre ao lugar

Terminado o discurso, Jesus se levanta e sai. A palavra fica com quem ouviu; ele vai para outro lugar dizer outra coisa. A Galileia recebeu dezoito capítulos e não ficou com ele.

A rota é uma escolha

Havia três caminhos para Jerusalém, e o texto registra qual foi tomado. Quem viaja escolhe por onde passa, e a escolha tem custo: aqui, dois ou três dias a mais de marcha.

O caminho também é lugar de ensino

Tudo o que Mateus conta do capítulo 19 em diante acontece com Jesus a caminho. A estrada não é o intervalo entre dois episódios; é onde os episódios acontecem.

A despedida sem cerimônia

A saída da Galileia, que é definitiva, cabe em quatro palavras. O evangelho não marca com solenidade o que era, de fato, um corte. O leitor só percebe o tamanho da saída depois, quando vê que não houve volta.

6. Aspectos Filosóficos

Sair de um lugar e mudar de lugar não são a mesma coisa. Quem sai pode voltar; a saída é um movimento dentro de uma vida que continua ancorada onde estava. Quem muda corta a âncora. O verbo que Mateus usa aqui é o da mudança, e é por isso que quatro palavras carregam o peso que carregam.

A diferença não está na distância percorrida, nem na bagagem, nem na intenção declarada. Está na relação com o retorno. Um deslocamento é reversível por definição: a pessoa está fora, e "fora" só faz sentido contra um "dentro" que permanece. Uma partida suprime esse dentro. Depois dela, o lugar deixado continua existindo no mapa e deixa de existir como referência.

Há uma assimetria cruel nisso, e ela é comum a toda partida: quem parte quase nunca sabe, no momento, que aquela é a última vez. A decisão é tomada como se fosse uma entre outras, e só o tempo a transforma em definitiva. O caráter definitivo de uma saída é quase sempre retroativo — atribuído depois, por quem conta a história, e não vivido no instante por quem a fez.

Isso ilumina a economia do versículo. Mateus escreve depois, sabendo de tudo, e mesmo assim não sublinha nada. Poderia ter escrito "e nunca mais voltou". Não escreveu. Deixou a saída com o tamanho que ela teve no dia em que aconteceu: uma mudança de lugar depois de um discurso.

A palavra que não fica presa ao lugar

Há uma segunda questão no versículo, e é sobre a relação entre um ensino e o chão onde ele foi dito. Boa parte do pensamento antigo tratava a doutrina como coisa de lugar: havia a escola, o jardim, o pórtico, a academia. Aprender era ir até onde o mestre estava e permanecer ali. O saber tinha endereço.

O padrão que Mateus desenha é outro. O ensino é dado, encerrado com uma fórmula, e o mestre parte. Quem ouviu leva o que ouviu; quem não ouviu não perdeu o acesso, porque o mesmo ensino será dito adiante, em outro lugar, a outras pessoas. A palavra não fica guardada na Galileia.

Essa portabilidade tem um preço, e ele costuma ser esquecido. Um ensino que viaja perde a moldura que o sustentava: o grupo, o hábito, o cotidiano em que as palavras faziam sentido imediato. Ganha alcance e perde densidade. É uma troca real, e nenhuma tradição a fez sem pagar.

O texto não discute nada disso. Ele apenas registra o movimento — e o movimento, por si, já põe a questão de pé: o que resta de uma palavra quando quem a disse já não está no lugar onde a disse?

7. Aplicações Práticas

Fechar uma coisa antes de começar outra

O versículo mostra uma sequência simples: termina de falar, e então parte. Não há sobreposição. O discurso não é interrompido por causa da viagem, e a viagem não começa enquanto há palavra por dizer. Quem trabalha com muitas frentes abertas ao mesmo tempo reconhece o valor disso — a fórmula de encerramento existe justamente para que haja um antes e um depois.

Escolher o caminho, e não só o destino

Jerusalém era o destino nos três percursos possíveis. O que mudava era o trajeto, e o trajeto custava dias, esforço e risco. Há decisões em que o ponto de chegada já está dado e a única coisa em jogo é por onde se passa — e ainda assim é a única coisa que se pode decidir.

O que se faz na estrada

Do capítulo 19 ao 20, Mateus põe na estrada algumas das conversas mais duras do evangelho. O tempo de deslocamento não foi tratado como tempo morto. Isso vale para qualquer vida em que uma parte considerável das horas se passa entre um compromisso e outro.

Saídas que não são anunciadas

A saída da Galileia foi definitiva e não teve despedida. É assim com a maioria das saídas: elas acontecem sem cerimônia e só depois se descobre que eram a última vez. Não há aplicação de método aqui, e sim de expectativa — não contar com um aviso que raramente vem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A fórmula "quando Jesus terminou essas palavras" é só um recurso de organização?

Ela organiza, mas faz mais. Aparece cinco vezes em Mateus e cada aparição marca a passagem do ensino para a ação. Em Mateus 26:1, a última, a fórmula ganha a palavra "todas" e é seguida imediatamente pela decisão de matar Jesus — o que sugere que a série foi construída para terminar ali. Que a intenção fosse essa é leitura, não informação do texto; que a série exista e tenha cinco membros é fato verificável no próprio evangelho.

2. Por que Mateus não diz que aquela era a última vez na Galileia?

O evangelho não explica. Uma hipótese é de método: Mateus raramente antecipa o que o leitor descobrirá sozinho. Outra é de foco: a viagem para Jerusalém já é o assunto, e a despedida da Galileia seria um desvio. O texto não decide entre elas, e a ausência de comentário é característica do livro inteiro.

3. A rota pela margem leste prova hostilidade entre judeus e samaritanos?

Prova que a hostilidade existia, não que ela fechasse o caminho. Josefo registra um ataque mortal a peregrinos galileus na fronteira samaritana e, na mesma passagem, diz que era costume dos galileus passar por ali. O caminho de dentro continuava em uso. A rota oriental era a opção mais segura e mais lenta, e o texto não diz por que foi escolhida.

4. "A região da Judeia, do outro lado do Jordão" é um erro geográfico?

Não é possível decidir. A frase pode descrever a rota e não o destino; pode usar "Judeia" no sentido largo de "país dos judeus", que incluiria a Pereia; ou pode ser o resultado de uma compressão narrativa. Contra a hipótese de erro simples pesa o fato de Mateus usar "além do Jordão" corretamente em outros lugares.

5. Por que importa saber de quem era a Pereia?

Porque a pergunta sobre divórcio que vem três versículos adiante é feita no território de um governante que havia executado João Batista por causa de um casamento. Isso não muda o sentido da resposta de Jesus, mas explica por que alguns comentaristas leem a pergunta como armadilha política, e não apenas como disputa entre escolas.

6. O que muda no evangelho depois deste versículo?

O cenário e o ritmo. Até aqui, Jesus tinha base: casa em Cafarnaum, barco no lago, sinagogas conhecidas. Daqui em diante ele está sempre a caminho, e os episódios acontecem na estrada, diante de multidões que se formam e se desfazem. O evangelho não volta a ter um lugar fixo antes de Jerusalém.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula, nos outros fechamentos

Mateus 7:28 — "Quando Jesus terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino,"

Mateus 11:1 — "Quando Jesus terminou de dar instruções aos seus doze discípulos, partiu dali para ensinar e pregar nas cidades deles."

Mateus 13:53 — "Quando Jesus terminou essas parábolas, retirou-se dali."

Mateus 26:1 — "E, quando terminou de dizer todas essas palavras, Jesus disse aos seus discípulos:"

Quatro vezes a fórmula fecha um bloco de ensino e devolve a narrativa ao movimento. Na quinta, o acréscimo de "todas" fecha o ensino inteiro.

O mesmo trecho em Marcos

Marcos 10:1 — "E levantando-se dali, Jesus se foi aos limites da Judeia, por dalém do Jordão; e as multidões voltaram a se juntar a ele, e voltou a lhes ensinar, como tinha costume."

Marcos tem a mesma geografia estranha e não tem a fórmula de encerramento, porque não organiza o ensino em cinco blocos.

A subida para Jerusalém em Lucas

Lucas 9:51 — "E aconteceu que, quando completaram-se os dias em que ele viria a ser recebido no alto, ele se determinou a ir para Jerusalém."

Lucas transforma a viagem numa seção inteira do evangelho, com quase dez capítulos. Mateus a resume num versículo.

"Além do Jordão", em Mateus

Mateus 4:25 — "E multidões numerosas o seguiam, vindas da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia e dalém do Jordão."

Aqui "dalém do Jordão" aparece ao lado da Judeia, e não dentro dela — o que mostra que Mateus distinguia as duas.

O lugar para onde ele vai

João 10:40 — "E voltou a ir para o outro lado do Jordão, ao lugar onde João primeiro batizava; e ficou ali."

João identifica a margem leste como o lugar do batismo de João Batista. Mateus não faz essa ligação, mas ela ajuda a entender por que havia multidões ali.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Quando Jesus terminou essas palavras, partiu da Galileia e foi para a região da Judeia, do outro lado do Jordão.

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ ἐγένετο ὅτε ἐτέλεσεν ὁ Ἰησοῦς τοὺς λόγους τούτους, μετῆρεν ἀπὸ τῆς Γαλιλαίας, καὶ ἦλθεν εἰς τὰ ὅρια τῆς Ἰουδαίας πέραν τοῦ Ἰορδάνου.

Transliteração

kai egeneto hote etelesen ho Iēsous tous logous toutous, metēren apo tēs Galilaias, kai ēlthen eis ta horia tēs Ioudaias peran tou Iordanou.

Análise palavra por palavra

Καὶ ἐγένετο — kai egeneto, "e aconteceu". Aoristo do indicativo médio de ginomai, "vir a ser, acontecer". É a tradução grega corrente de uma fórmula hebraica de abertura de episódio, e por isso soa arcaica mesmo em grego. Mateus a usa nas cinco fórmulas de encerramento de discurso, e a ABC a absorve no "quando", sem palavra própria.

ὅτε ἐτέλεσεν — hote etelesen, "quando terminou". Aoristo do indicativo ativo de teleō, "completar, levar a termo, cumprir". Não é "parar de falar": é "dar por concluído". O mesmo verbo aparece na cruz, em João 19:30, no "está consumado", e em Mateus 10:23 no "acabar" as cidades de Israel. O sentido é de tarefa cumprida até o fim.

τοὺς λόγους τούτους — tous logous toutous, "estas palavras". Logos aqui é o discurso, a fala inteira, e não a palavra isolada. Em Mateus 13:53 o objeto da mesma fórmula é tas parabolas tautas, "estas parábolas", ajustado ao conteúdo do bloco; em Mateus 26:1 vem pantas tous logous toutous, com pantas, "todas".

μετῆρεν — metēren, "mudou-se, partiu". Aoristo do indicativo ativo de metairō, formado por meta, "para outro lugar", e airō, "levantar, erguer". A imagem original é a de levantar a bagagem e transferi-la: mudar de residência, e não sair para um passeio. O verbo aparece só duas vezes em todo o Novo Testamento, ambas em Mateus — aqui e em Mateus 13:53 — e as duas fecham discurso.

ἀπὸ τῆς Γαλιλαίας — apo tēs Galilaias, "da Galileia". A preposição apo marca afastamento a partir de um ponto. O nome vem do hebraico galil, "círculo, distrito", que em Isaías 8:23 aparece na expressão "distrito das nações", citada por Mateus 4:15.

καὶ ἦλθεν εἰς τὰ ὅρια — kai ēlthen eis ta horia, "e veio para os limites". Horion é a linha de fronteira e, no plural, o território que ela demarca — daí "região", "termos", "confins". Mateus gosta da palavra: aparece nos "limites de Tiro e Sidom" (Mateus 15:22) e nos "limites de Cesareia de Filipe" (Mateus 16:13). A escolha é significativa: não diz "veio para a Judeia", e sim "para a orla da Judeia".

τῆς Ἰουδαίας — tēs Ioudaias, "da Judeia". O nome deriva de Judá e designava tanto a província do sul, em sentido estrito, quanto o país dos judeus em sentido largo. É essa ambiguidade que sustenta uma das leituras da frase seguinte.

πέραν τοῦ Ἰορδάνου — peran tou Iordanou, "além do Jordão". Peran é advérbio de lugar com sentido de "do outro lado", "na margem oposta", e rege genitivo. Em grego, como em português, a expressão fica solta entre o verbo ēlthen ("veio") e o substantivo Ioudaias ("Judeia"), e pode se ligar a qualquer um dos dois — daí a discussão geográfica. Alguns manuscritos tentam resolver a ambiguidade acrescentando "por" antes de "além do Jordão", o que transforma a expressão em indicação de rota; a leitura acrescentada não está no Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) nem nas edições críticas modernas.

11. Conclusão

Mateus organizou o ensino de Jesus em cinco blocos e fechou cada um com a mesma frase. Este versículo traz a quarta ocorrência, e ela faz duas coisas ao mesmo tempo: encerra o discurso do capítulo 18 e encerra a Galileia. Daqui em diante, no evangelho, Jesus está sempre a caminho.

A saída é definitiva e não é anunciada como tal. Quatro palavras dão conta dela. O verbo escolhido é o de quem levanta acampamento, e é usado só mais uma vez em todo o Novo Testamento — o que dá à frase um peso que a sua brevidade esconde.

A rota descrita, pela margem leste do Jordão, era a mais longa das três possíveis e a que mantinha o grupo longe da Samaria. Josefo registra tanto a violência contra peregrinos galileus naquela fronteira quanto o costume de atravessá-la assim mesmo, o que torna a explicação pela segurança plausível sem torná-la certa: o texto não diz o motivo da escolha.

A geografia da frase continua em aberto, e é honesto dizê-lo. Não é possível decidir se "do outro lado do Jordão" descreve o caminho, se "Judeia" está em sentido largo, ou se Mateus comprimiu uma viagem inteira numa linha. As três leituras têm defensores e nenhuma se impõe.

O que fica firme é o quadro que o versículo monta para o resto do capítulo: um mestre em trânsito, num território que não era o seu, governado por quem havia matado João Batista por causa de um casamento. É nesse chão que a pergunta sobre o divórcio será feita.

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