Quando Jesus acabou de dizer essas coisas, as multidões estavam maravilhadas com o seu ensino,
1. Introdução
Terminado o sermão, Mateus registra a reação das multidões: elas ficaram admiradas. Não com um milagre, não com um sinal, mas com o ensino. Havia algo na maneira de Jesus falar que deixava as pessoas espantadas, diferente de tudo o que estavam acostumadas a ouvir dos seus mestres. O versículo faz a ponte entre o conteúdo do sermão e o efeito que ele causou.
A frase de abertura, "quando Jesus terminou estas palavras", não é apenas uma transição narrativa. É uma fórmula que Mateus usa cinco vezes no evangelho para fechar os grandes blocos de ensino de Jesus. Ela funciona como um selo: aqui se encerra o primeiro e mais famoso desses discursos. E o que fica no ar não é a admiração vazia, mas uma pergunta que o próximo versículo vai responder: de onde vinha aquela autoridade?
2. Contexto Histórico e Cultural
A expressão "quando Jesus terminou estas palavras" aparece, com pequenas variações, ao fim de cada um dos cinco grandes discursos do evangelho de Mateus (aqui e em 11:1, 13:53, 19:1 e 26:1). Muitos estudiosos veem nisso uma estrutura proposital: Mateus teria organizado o ensino de Jesus em cinco blocos, talvez ecoando os cinco livros da Lei de Moisés, apresentando Jesus como o novo e maior legislador. É uma leitura provável, ainda que não seja possível ter certeza da intenção exata do autor.
A palavra traduzida por "admiradas" descreve um espanto profundo, algo que ultrapassa a experiência comum. Não é simples aprovação; é o choque de quem se depara com algo fora do padrão. As multidões da Galileia estavam habituadas ao ensino das sinagogas, feito de citações e comentários de tradições antigas. O que ouviram de Jesus era de outra ordem.
Vale notar que os que se admiram são "as multidões", o povo comum, e não os líderes religiosos. Ao longo dos evangelhos, é essa gente simples que costuma reconhecer algo de extraordinário em Jesus, enquanto os especialistas da religião reagem com desconfiança. A reação do versículo prepara o contraste que virá: a autoridade de Jesus contra a dos escribas.
3. Análise Teológica do Versículo
"E aconteceu que, quando Jesus terminou estas palavras"
A frase marca a conclusão do Sermão do Monte, em Mateus 5 a 7. Mateus emprega esse recurso literário ao longo do evangelho (como em 11:1, 13:53, 19:1 e 26:1) para assinalar o fim de grandes ensinos e destacar a sua importância. O Sermão abrange as Bem-aventuranças, a oração do Pai-Nosso e diversas instruções éticas que estabelecem os princípios do Reino de Deus e da nova aliança.
"as multidões estavam admiradas"
A reação do povo demonstra profundo assombro diante da mensagem de Jesus. O termo "admiradas" exprime uma perplexidade diante de algo extraordinário, além da experiência humana comum. Essa resposta reflete a autoridade e a sabedoria singulares que Jesus manifestava no seu ensino, distinguindo-o dos demais mestres religiosos da época.
"de sua doutrina"
Jesus apresentou um ensino revolucionário, que desafiava as convenções religiosas e oferecia uma interpretação nova da lei de Deus. Diferentemente dos escribas e fariseus, que se apoiavam na tradição, Jesus falava com autoridade pessoal direta, usando com frequência a fórmula "Eu, porém, vos digo" (como em Mateus 5:22, 28, 32, 34, 39, 44). A sua abordagem priorizava a transformação interior e a justiça, e não o mero cumprimento de regras.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
A figura central, cujas palavras e ensino provocam o espanto das multidões. Ele encerra aqui o seu primeiro grande discurso.
As multidões
O povo comum que seguia a Jesus e ouvia os seus ensinos. É essa gente simples, e não os líderes, quem se admira.
O Sermão do Monte
O conjunto de ensinos de Jesus reunidos em Mateus 5 a 7, sobre a vida justa e os princípios do Reino. O versículo marca o seu encerramento.
5. Pontos de Ensino
A autoridade do ensino de Jesus
Jesus comunicava com um poder diferente do dos escribas, entregando uma mensagem transformadora, e não apenas informativa.
Admiração e reflexão
A reação da multidão deve levar o crente a perguntar se, além de admirar, ele se dispõe a agir.
Viver o sermão
As orientações práticas do discurso devem moldar a conduta diária, e não ficar na esfera do encantamento.
O impacto da verdade
A verdade autêntica transforma com força quem a recebe de coração aberto.
Ouvir não é o suficiente
A própria parábola que antecede este versículo já advertira: a admiração pelo ensino só cumpre o seu papel quando conduz à prática.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão sobre a diferença entre impressionar e transformar. As multidões se admiraram — e a admiração é uma reação legítima, até natural, diante da grandeza. Mas o próprio sermão que acabara de ser pregado advertia contra parar aí. A parábola dos dois construtores, dita momentos antes, deixara claro que ouvir e admirar sem praticar é construir sobre a areia. Há, portanto, uma ironia velada: as pessoas se maravilham com um ensino que acabara de dizer que se maravilhar não basta.
Isso aponta para um risco permanente da vida religiosa: confundir a emoção diante da verdade com a adesão à verdade. É possível sair de um culto, de um sermão ou de um livro profundamente tocado e, no dia seguinte, não mudar nada. A admiração é um começo, não um fim. Ela pode ser a porta de entrada para a obediência ou apenas um sentimento agradável que se dissolve. O versículo, lido com honestidade à luz do que o antecede, não celebra a admiração como conquista; apenas a registra como reação — e deixa em aberto o que cada ouvinte fará com ela.
7. Aplicações Práticas
Não pare na admiração. Sentir-se tocado por um ensino é bom, mas insuficiente. Pergunte, depois de cada boa pregação ou leitura: o que muda na minha vida a partir disso? A emoção que não vira ação se perde.
Deixe a verdade trabalhar por dentro. A verdade autêntica tem poder de transformar quem a recebe de coração aberto. Não resista ao desconforto que ela provoca; é nele que a mudança começa.
Leve o sermão para a semana. Os ensinos do Sermão do Monte foram dados para ser vividos, não apenas ouvidos. Escolha um ponto concreto e pratique-o nos dias seguintes.
Desconfie da religiosidade só emotiva. Se a sua fé se resume a momentos de encantamento nos cultos, sem reflexo na conduta, ela ainda está na fase da admiração. Busque a obediência que dá substância ao sentimento.
Reconheça a autoridade de Cristo na prática. Admirar Jesus como grande mestre é fácil; submeter-se a ele é a prova real. Deixe que a autoridade das suas palavras oriente as suas decisões concretas.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 7:28?
Significa que, ao encerrar o Sermão do Monte, Jesus deixou as multidões admiradas com o seu ensino. O versículo fecha o discurso e destaca o efeito extraordinário das suas palavras sobre quem as ouvia.
2. Como aplicar hoje o ensino cheio de autoridade de Jesus?
Não apenas admirando-o, mas submetendo-se a ele na prática. Aplicar a autoridade de Cristo é deixar que as suas palavras decidam como vivemos, e não tratá-las como boas ideias opcionais.
3. Por que as multidões se maravilharam com a autoridade de Jesus?
Porque ele falava de modo diferente dos seus mestres. Em vez de apenas citar tradições, ensinava com autoridade própria, tocando o coração e não só as regras. Era um ensino de outra ordem.
4. Como a autoridade de Jesus se conecta com a profecia do Antigo Testamento?
Ela cumpre a expectativa de um profeta que falaria em nome de Deus com autoridade direta, anunciado em Deuteronômio 18:15. O espanto do povo aponta para essa identidade messiânica.
5. O que distingue o ensino de Jesus do dos escribas?
Os escribas apoiavam a autoridade em tradições e mestres anteriores; Jesus falava em nome próprio, "Eu, porém, vos digo". A diferença é a fonte da autoridade: emprestada nos escribas, inerente em Jesus.
6. Como a autoridade de Jesus deve influenciar a nossa leitura da Bíblia?
Levando-nos a ler as suas palavras não como opinião entre outras, mas como voz que reivindica obediência. Reconhecer a autoridade de Cristo muda a postura diante do texto: de espectador a discípulo.
7. Por que o povo ficou espantado com o ensino de Jesus?
Porque nunca tinham ouvido alguém ensinar assim — com firmeza, profundidade e autoridade próprias, indo além do costume das sinagogas. O ensino os confrontava e os atraía ao mesmo tempo.
8. Que contexto histórico explica a reação da multidão?
O povo estava habituado ao ensino dos escribas, feito de citações e comentários de tradições. Diante de um mestre que falava com autoridade direta e sobre o coração, o assombro era inevitável.
9. Conexão com Outros Textos
E ficavam admirados com o seu ensinamento, pois, diferentemente dos escribas, ele os ensinava como quem tem autoridade. (Marcos 1:22)
Marcos registra a mesma reação e já antecipa o contraste do próximo versículo: a autoridade de Jesus contra a dos escribas. O espanto do povo é constante nos evangelhos.
E admiravam o seu ensino, pois a sua palavra era com autoridade. (Lucas 4:32)
Lucas confirma o mesmo efeito: a palavra de Jesus vinha "com autoridade". Não era o que ensinava apenas, mas o modo, que deixava as pessoas admiradas.
E vindo à sua terra, ensinava-os na sinagoga deles, de tal maneira que ficavam admirados, e diziam: De onde vêm a este tal sabedoria, e os milagres? (Mateus 13:54)
O mesmo espanto reaparece adiante, agora com a pergunta explícita: de onde vem tudo isso? A admiração diante de Jesus levanta sempre a questão da sua origem e identidade.
Os oficiais responderam: Ninguém jamais falou assim como este homem. (João 7:46)
Até os guardas enviados para prender Jesus voltam desarmados pela força das suas palavras. O testemunho é unânime: a maneira de ele falar não tinha paralelo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Quando Jesus terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino,
Texto grego: Καὶ ἐγένετο ὅτε συνετέλεσεν ὁ Ἰησοῦς τοὺς λόγους τούτους, ἐξεπλήσσοντο οἱ ὄχλοι ἐπὶ τῇ διδαχῇ αὐτοῦ·
Transliteração: Kai egéneto hóte synetélesen ho Iēsoûs tous lógous toútous, exeplēssonto hoi óchloi epì tē didachē autoû.
Análise palavra por palavra:
Kai egéneto hóte synetélesen (Καὶ ἐγένετο ὅτε συνετέλεσεν) — "e aconteceu que, quando terminou": é a fórmula de encerramento que Mateus repete ao fim dos cinco grandes discursos. Funciona como um marco literário que fecha o bloco de ensino.
tous lógous toútous (τοὺς λόγους τούτους) — "estas palavras": refere-se a todo o Sermão do Monte, os capítulos 5 a 7. As mesmas "palavras" que, na parábola anterior, deviam ser ouvidas e praticadas.
exeplēssonto (ἐξεπλήσσοντο) — "estavam admiradas, atônitas": verbo forte, no imperfeito, que descreve um espanto contínuo, quase um ser "golpeado para fora de si". Não é aprovação polida, mas assombro profundo.
hoi óchloi (οἱ ὄχλοι) — "as multidões": o povo comum, e não os líderes religiosos. São os simples que reconhecem o extraordinário em Jesus.
epì tē didachē autoû (ἐπὶ τῇ διδαχῇ αὐτοῦ) — "com o seu ensino, a sua doutrina": "didachē" é o ensino, aquilo que é ensinado. O espanto não é com um milagre, mas com a doutrina — e, como o versículo seguinte dirá, com o modo autoritativo de ensiná-la.
Nota teológica: o verbo "exeplēssonto" no imperfeito sugere uma admiração que se prolongava, não um susto passageiro. Com bom grau de certeza, Mateus registra aqui um efeito real e amplo do ensino de Jesus. Convém, porém, ler este versículo à luz da parábola que o antecede: a própria mensagem acabara de advertir que admirar sem praticar é construir sobre a areia. O espanto das multidões é, assim, uma reação genuína, mas ainda incompleta — o começo possível de uma obediência que só se confirmaria na vida.
11. Conclusão
Mateus 7:28 fecha o Sermão do Monte registrando o seu efeito: as multidões ficaram admiradas. A fórmula "quando Jesus terminou estas palavras" sela o primeiro grande discurso do evangelho, e o espanto do povo aponta para algo extraordinário no modo como Jesus ensinava — algo que o próximo versículo vai nomear como autoridade.
O versículo, porém, ganha profundidade quando lido junto do que o antecede. Momentos antes, Jesus advertira que ouvir e não praticar é construir sobre a areia. A admiração das multidões é real e legítima, mas ainda é só admiração. O texto não a apresenta como o objetivo final, e sim como uma reação que agora precisa provar-se em obediência.
Fica, então, o alerta discreto deste versículo para todo leitor. É possível maravilhar-se com Jesus e não segui-lo; comover-se com as suas palavras e não vivê-las. A admiração é uma porta — pode abrir para a fé que obedece ou fechar-se num sentimento que passa. O que Mateus registra é o espanto; o que ele deixa em aberto é o que cada um fará com ele.













