Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos,
1. Introdução
A comitiva que saiu de Jericó chega ao alto do caminho e para numa aldeia chamada Betfagé, na encosta do Monte das Oliveiras, de frente para Jerusalém. O lugar não é paisagem: para os mestres judeus, era ali que a cidade terminava quando o assunto era comida consagrada. O monte carrega memórias pesadas da Escritura de Israel, e Mateus voltará a ele duas vezes antes do fim do livro. E o primeiro gesto de Jesus diante da cidade anunciada desde Mateus 16:21 não é entrar: é mandar dois discípulos à frente.
2. Contexto Histórico e Cultural
Onde terminava Jerusalém
Betfagé não aparece em nenhum livro do Antigo Testamento. Fora dos evangelhos, quem fala dela são os rabinos, e sempre para resolver a mesma pergunta: até onde ia Jerusalém quando havia comida sagrada em jogo?
A primeira menção está na Mishná (a primeira grande compilação escrita da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Menachot 11:2, que trata das ofertas de cereal. A discussão é sobre os dois pães da festa das Semanas e os pães da proposição, os doze pães postos toda semana na mesa do santuário. A opinião anônima diz que a massa era sovada e moldada fora do pátio do templo e assada dentro dele. Rabi Yehudá quer tudo dentro. Rabi Shimon vai ao outro extremo: os pães são válidos se feitos no pátio e são válidos também se feitos em Betfagé.
O nome entra na frase como o ponto mais distante possível. Rabi Shimon não escolhe uma casa vizinha ao templo; escolhe a borda do território em que aqueles pães ainda contavam como pães da cidade santa.
O "muro de Betfagé"
O Talmude Babilônico (a grande discussão rabínica construída sobre a Mishná entre os séculos III e VI) transforma a aldeia em fronteira jurídica. Em Menachot 78b, a questão é a oferta de ação de graças: se o animal foi abatido enquanto os quarenta pães que o acompanham estavam "fora do muro", os pães não ficam consagrados. Que muro? Rabi Yochanan responde: o muro de Betfagé — porque fora dele os pães não podem ser comidos, e o que não pode ser comido ali não pode ser consagrado ali.
Em Pesachim 91a o mesmo limite decide quem come a Páscoa. Rav Hisda trata de um judeu preso numa cadeia de não judeus. Se a prisão fica fora do muro de Betfagé, só se abate o cordeiro em nome dele se ele estiver inscrito num grupo, porque talvez não seja solto a tempo. Se a prisão fica dentro do muro, abate-se por ele mesmo sozinho: alguém pode levar a porção até a cela, e ele a comerá ali.
Junte as duas passagens e o desenho aparece. Para os sacrifícios de santidade menor — o pão de ação de graças, o cordeiro da Páscoa —, "Jerusalém" não era o perímetro das muralhas, e sim uma zona maior, cuja borda leste tinha o nome desta aldeia.
Os limites do que se pode afirmar
Três cautelas acompanham esse dado. A Mishná foi escrita mais de um século e meio depois da cena, e o Talmude bem mais tarde; que a regra já valesse no tempo de Jesus é plausível, não demonstrável. O "muro de Betfagé" pode ser uma linha legal, e não uma muralha de pedra. E a identificação entre a Beit Pagei dos rabinos e a Betfagé dos evangelhos, embora feita desde Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), depende de os dois nomes designarem o mesmo lugar, o que é provável, mas não verificável no terreno.
Há uma consequência proposta por Joachim Jeremias (exegeta alemão do século XX), em As palavras eucarísticas de Jesus. Se a noite da Páscoa tinha de ser passada dentro da Jerusalém ampliada, explica-se por que, depois da ceia, Jesus não volta a Betânia, onde vinha dormindo (Mateus 21:17), e fica no Monte das Oliveiras (Mateus 26:30, 36). É hipótese, e das boas: amarra a geografia da última semana a uma regra conhecida. Mateus não a enuncia.
O nome e o lugar
O nome é aramaico, Beit Pagge ("casa dos figos verdes"). Pag é o figo que ainda não amadureceu — a primeira das etapas da figueira descritas no estudo de Mateus 21:19. O lugar que recebe Jesus tem no nome a fruta que, poucos versículos depois, ele vai procurar e não achar. Orígenes (teólogo de Alexandria do século III), no seu comentário ao Evangelho de João, preferiu outra etimologia, "casa das queixadas", e disse que era um lugar de sacerdotes — provavelmente pensando na porção do animal que a Lei reservava a eles (Deuteronômio 18:3). A primeira etimologia é a aceita hoje; a segunda mostra como, cedo, o lugar já atraía leituras simbólicas.
Ninguém sabe onde ficava a aldeia. A tradição a põe na encosta leste do monte, entre o cume e Betânia, perto da atual aldeia de et-Tur. No local há um santuário franciscano, construído sobre um bloco de pedra pintado na época das Cruzadas e encontrado em 1876, com cenas da busca do jumento e da ressurreição de Lázaro. É um marco da memória medieval, não um achado do século I.
3. Análise Teológica do Versículo
"Quando se aproximaram de Jerusalém"
A cidade entra no versículo como chegada, mas o leitor de Mateus já a conhece por outro nome: o lugar da morte anunciada. Em Mateus 2:3 ela se perturba com a notícia de um rei recém-nascido. Em Mateus 16:21 é o lugar aonde Jesus "precisava ir" para sofrer. Em Mateus 20:18 é o ponto de chegada de uma subida que termina em condenação. Quando a comitiva enfim se aproxima, o leitor sabe o que a cidade representa, e os personagens, ao menos em parte, também.
O texto não diz nada sobre o que sentiam. Lucas 19:41 mostra Jesus chorando ao ver a cidade; Mateus não tem essa cena aqui, e guarda o lamento sobre Jerusalém para Mateus 23:37, quando ele já foi recusado. Na chegada, o evangelho registra só o movimento.
O verbo de "aproximar-se" é o mesmo com que João e Jesus anunciaram, no começo do livro, que o Reino estava próximo (item 10). O eco existe no grego; se Mateus o quis, o texto não diz.
"e chegaram a Betfagé"
Marcos 11:1 e Lucas 19:29 dão dois nomes, Betfagé e Betânia. Mateus dá um só. A omissão tem efeito: no relato de Mateus, o primeiro lugar nomeado na borda da cidade é justamente aquele que, para os mestres judeus, já contava como Jerusalém (item 2). Jesus pisa a Jerusalém da lei antes de pisar a Jerusalém das muralhas.
Betânia não desaparece; muda de função. Volta em Mateus 21:17, à noite, como o lugar fora da cidade onde Jesus dorme. Mateus separa as duas aldeias que Marcos junta: uma é limiar de chegada, a outra é refúgio de saída. Se isso é desenho ou economia de nomes, não é possível decidir.
"no Monte das Oliveiras"
O monte é o caminho natural para quem vem de Jericó; ninguém precisa de simbolismo para explicar a passagem por ali. Mas um leitor que conhecia a Escritura de Israel tinha três lembranças à disposição, e as três são da mesma encosta.
Primeira lembrança: a fuga de Davi. Em 2 Samuel 15:30, Davi sai de Jerusalém derrotado pelo próprio filho e sobe o Monte das Oliveiras chorando. A rota de saída do rei deposto é a rota de chegada do "Filho de Davi" que as multidões aclamarão em Mateus 21:9 — no sentido contrário. Mateus não faz a ligação.
Segunda lembrança: a glória que sai e espera. Em Ezequiel 11:23, a glória do Senhor deixa o templo condenado e para "sobre o monte que está ao oriente da cidade". Em Ezequiel 43:2 ela volta pelo mesmo lado, o leste. Na leitura judaica antiga, o monte a leste de Jerusalém era o lugar onde a presença de Deus ficou à espera.
Terceira lembrança: o dia do Senhor. Zacarias 14:4 diz que, no dia da batalha final, os pés do Senhor estarão sobre o Monte das Oliveiras, e o monte se partirá ao meio. É o único lugar da Bíblia hebraica em que o monte aparece com esse nome. E é do mesmo livro de Zacarias que Mateus tirará, quatro versículos adiante, a profecia que explica a cena.
O limite precisa ficar claro. Mateus cita Zacarias 9, e não Zacarias 14. Que o leitor do primeiro século ouvisse o capítulo 14 ao ler "Monte das Oliveiras" ao lado de uma citação do capítulo 9 é plausível; que Mateus pretendesse isso, o texto não diz.
Dentro do próprio evangelho, o monte volta duas vezes, e as duas são decisivas. Em Mateus 24:3 Jesus está sentado nele quando fala do fim. Em Mateus 26:30, depois da ceia, é para ele que os discípulos saem, rumo ao Getsêmani. A semana final de Mateus começa, tem o seu discurso mais longo e termina na prisão sobre a mesma encosta.
"Jesus enviou dois discípulos"
A gramática muda de sujeito. Até aqui o verbo estava no plural: "se aproximaram", "chegaram". Agora é singular: Jesus envia. O grupo chega; um só decide o que se faz com a chegada.
E o que ele decide é não entrar ainda. O primeiro ato diante da cidade é preparar a entrada — e prepará-la por meio de outros. A cena que o leitor espera, o rei que avança, é adiada por uma tarefa doméstica: buscar um animal numa aldeia.
Os dois não têm nome, e os comentaristas tentaram dar-lhes um. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e Gill sugerem Pedro e João, porque são os dois que Lucas 22:8 manda preparar a Páscoa. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) responde que é inútil conjecturar. Tem razão: o texto quis os enviados anônimos, e é assim que eles fazem o que lhes foi mandado.
Mateus repete esse desenho mais uma vez antes do fim. Em Mateus 26:18, discípulos são mandados à cidade, a um "certo homem" sem nome, com uma frase pronta para dizer. As duas tarefas que abrem e fecham a última semana — o animal da entrada e a sala da Páscoa — são executadas por mensageiros sem nome junto a donos sem nome.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus. Vem de Jericó, onde acabou de curar dois cegos (Mateus 20:29-34), à frente de uma comitiva que cresceu pelo caminho. É o único personagem que age neste versículo.
Os dois discípulos. Sem nome em todos os evangelhos. A hipótese mais repetida, Pedro e João, é só isso: hipótese, apoiada num episódio de outro evangelho (Lucas 22:8).
A multidão. Não aparece neste versículo, mas está ali: Mateus 20:29 diz que uma grande multidão seguia Jesus desde Jericó. É ela que, oito versículos adiante, vai estender as roupas pelo caminho.
Lugares
Jerusalém. A cidade fica num planalto cercado de vales. Do lado leste, o vale do Cedrom a separa do Monte das Oliveiras; quem chega de Jericó vê a cidade inteira de cima, do outro lado do vale, antes de descer para ela.
O Monte das Oliveiras. Não é um pico, e sim uma serra de calcário de uns três quilômetros, com vários cumes, paralela à cidade pelo lado leste. Tem perto de 800 metros de altitude, bem acima da esplanada do templo, que se vê inteira do alto. O nome vem dos olivais da encosta. Do monte até a cidade era a distância do "caminho de um sábado" (Atos 1:12), cerca de um quilômetro.
Betfagé. Aldeia de localização desconhecida, que a tradição situa na encosta leste, perto do cume, entre Betânia e a cidade. O nome e o papel de fronteira estão no item 2.
Betânia. Mateus não a nomeia aqui; Marcos e Lucas sim. Fica a uns três quilômetros da cidade, na descida leste do monte, na atual aldeia de el-Azariyeh, cujo nome árabe guarda o de Lázaro. Ela reaparece em Mateus 21:17, como pouso noturno.
Eventos
A subida de Jericó. São cerca de vinte e sete quilômetros de estrada e mil metros de desnível, que terminam exatamente neste ponto. O estudo de Mateus 20:17 descreve o trajeto.
A semana da Páscoa. A chegada acontece dias antes da festa: Mateus 26:2 dirá que a Páscoa está a dois dias. Os peregrinos que lotavam a cidade acampavam nas encostas em volta, e a do Monte das Oliveiras era a mais próxima do templo.
O começo da última semana. Com este versículo começa a parte final do evangelho, toda passada em Jerusalém e arredores, até a ressurreição.
5. Pontos de Ensino
A chegada é preparada antes de ser feita. Jesus para na borda da cidade e organiza o que vai acontecer. A entrada que as multidões vão aclamar não é improviso de uma massa entusiasmada: começou com uma ordem dada a dois homens.
O lugar da chegada tem história e tem lei. O Monte das Oliveiras traz a lembrança de Davi em fuga e as promessas de Ezequiel e Zacarias; Betfagé marca, para os mestres judeus, onde a cidade santa começava. O versículo põe Jesus num ponto em que a geografia já é teologia para quem conhece a Escritura de Israel — sem que Mateus precise explicar.
Mateus diz menos que Marcos, e o que ele corta conta. Ao nomear só Betfagé, o evangelho faz a primeira parada coincidir com o limite da cidade. A comparação entre os evangelhos não é exercício de harmonização: é o modo de ver o que cada um escolheu mostrar.
A missão começa com tarefas pequenas. Os enviados não pregam nem curam; vão buscar um animal. O mesmo verbo que em outros lugares manda os doze anunciar o Reino manda dois deles a uma aldeia vizinha. No relato de Mateus, as duas coisas são serviço.
Quem obedece não precisa ter nome. Os dois discípulos ficam anônimos, como ficarão anônimos os que preparam a Páscoa. O texto não lhes nega dignidade; nega-lhes protagonismo.
6. Aspectos Filosóficos
Leia o versículo contando substantivos. Jerusalém, Betfagé, Monte das Oliveiras: três nomes de lugar. Depois, um único verbo de decisão, "enviou". Quase tudo o que a frase contém é geografia, e só um pedaço dela é acontecimento.
Braudel e os três tempos
Fernand Braudel (historiador francês do século XX) construiu a sua obra maior, O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II (1949), em três andares. No primeiro está o tempo quase imóvel da geografia: montanhas, planícies, rotas, clima, o ritmo das estações. No segundo, o tempo lento das estruturas sociais: economias, impérios, calendários, costumes. No terceiro, o tempo curto dos acontecimentos — batalhas, tratados, decisões de reis. E Braudel tinha uma opinião desconcertante sobre esse terceiro andar: os acontecimentos são espuma, agitação de superfície que as marés profundas carregam. A sua expressão para essa história curta era "história de acontecimentos", e ele desconfiava dela.
Braudel dedicou páginas famosas às montanhas. Para ele, a montanha mediterrânea era quase sempre um mundo à parte das civilizações, que nascem nas cidades e nas planícies; a montanha fornece homens, passagens e refúgios, e a cidade os absorve. A relação entre o alto e a cidade lá embaixo era, no seu livro, uma das estruturas mais duráveis da região.
O versículo lido em três andares
Aplicada a este versículo, a régua de Braudel separa camadas que a leitura devota costuma fundir.
No andar da geografia está a serra a leste da cidade, o vale que a separa do templo, a estrada que sobe de Jericó e termina exatamente ali. Essa estrada foi usada por gerações de peregrinos antes de Jesus e continuou a ser usada depois.
No andar das estruturas está o calendário da Páscoa, que enchia as encostas de gente, e a regra que fazia de Betfagé a borda da cidade santa (item 2). Nada disso foi criado para a cena; a cena acontece dentro disso.
No andar do acontecimento está o único verbo de ação: Jesus enviou dois discípulos.
Para Braudel, a pergunta seria quanto pesa esse verbo diante do resto. A rota, a festa e a fronteira legal estavam lá antes e continuaram lá depois. Uma leitura braudeliana diria que a entrada em Jerusalém foi possível, e foi do jeito que foi, porque a montanha, a estrada e o calendário a moldaram.
Onde a régua encontra o seu limite
O próprio texto oferece a objeção. O evangelho não trata o acontecimento como espuma; trata-o como o ponto para onde tudo convergia. Em Mateus 16:21 Jesus "precisava" ir a Jerusalém, e o versículo é a chegada desse "precisava". Para Mateus, a geografia serve ao acontecimento, e não o contrário.
A tensão entre as duas leituras é real e não se resolve escolhendo uma. Braudel ensina a ver o que um leitor piedoso esquece: que a cena aconteceu numa estrada comum, num lugar que tinha função jurídica, numa semana em que milhares de pessoas faziam o mesmo trajeto. O evangelho ensina o que a história de longa duração não mede: que uma decisão tomada nessa estrada pode ser lida como o centro do resto.
Braudel nunca escreveu sobre este texto, e a aproximação é de leitura, não dele. Mas o versículo a pede: é raro um texto bíblico ser tão quase inteiramente feito de lugar, com um único verbo de decisão no fim.
7. Aplicações Práticas
O versículo é quase todo geografia, e as aplicações honestas são poucas.
Preparar não é falta de fé. Jesus chega à beira do momento mais carregado do evangelho e a primeira coisa que faz é organizar. Quem trata planejamento como desconfiança de Deus encontra aqui um contraexemplo direto: o gesto inaugural da última semana é logístico.
O serviço sem nome conta. Os dois enviados ficam sem nome, e a tarefa deles é buscar um animal. Boa parte do que sustenta qualquer obra comum — numa família, numa comunidade, num trabalho — é feita assim: por gente cuja tarefa é pequena e cujo nome não fica registrado. O texto põe esse tipo de serviço no começo da cena mais pública de Jesus.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Jesus não entrou direto na cidade, se já estava ali?
Porque, no relato, a entrada não é uma chegada qualquer: precisa de um animal específico, que ainda não está com ele. O versículo seguinte explica o que buscar; Mateus 21:5 explicará por quê. Do ponto de vista da cena, a parada em Betfagé é a pausa necessária para que a entrada aconteça do modo que Mateus vai descrever.
Se Betfagé contava como Jerusalém, Jesus já "estava" na cidade?
Para efeito de comer a Páscoa ou o pão de ação de graças, segundo regras registradas mais tarde, sim. Para efeito de entrar no templo, não. Mateus nunca usa esse argumento, e o leitor de hoje não deve pô-lo na boca dele. O dado serve para mostrar que a fronteira entre "fora" e "dentro" era mais larga do que as muralhas.
Os discípulos sabiam por que estavam sendo enviados?
O texto não diz. Eles recebem a instrução no versículo seguinte e a cumprem em Mateus 21:6, sem comentário. Em nenhum momento do episódio Mateus registra que tenham entendido a relação com a profecia; quem a explica é o próprio evangelho, ao leitor, em Mateus 21:4-5.
Por que a tradição se esforçou tanto para dar nome aos dois discípulos?
Porque a leitura devota gosta de completar os anônimos — o mesmo impulso que deu nome aos magos e aos ladrões crucificados. O ganho é pequeno e o risco é real: o nome inventado passa a ser lido como se estivesse no texto.
Faz diferença saber que Davi fugiu por este mesmo monte?
Para entender Mateus, não é necessário; ele não cita o episódio. Para entender o lugar, sim: o Monte das Oliveiras já era, na memória de Israel, rota de rei expulso e lugar de espera da glória de Deus. Quem lê o versículo sabendo disso vê mais do que Mateus escreve — e deve saber que está vendo mais.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma chegada nos outros evangelhos
Marcos 11:1 — "Quando se aproximavam de Jerusalém e chegaram a Betfagé e Betânia, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos."
Marcos nomeia as duas aldeias; Mateus fica só com Betfagé.
Lucas 19:41 — "Quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela."
Lucas registra o choro na chegada. Mateus não o tem aqui; o seu lamento sobre Jerusalém vem depois:
Mateus 23:37 — "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas não quiseste!"
O monte na memória de Israel
2 Samuel 15:30 — "Davi subia a encosta do Monte das Oliveiras chorando; ia com a cabeça coberta e descalço. E todo o povo que estava com ele cobriu a cabeça e subia chorando."
O rei sai da cidade por esta encosta. O "Filho de Davi" de Mateus chega por ela.
Ezequiel 11:23 — "A glória do SENHOR se elevou do meio da cidade e parou sobre o monte que está ao oriente da cidade."
A presença de Deus deixa o templo e espera no monte a leste. Ezequiel 43:2 a fará voltar pelo mesmo caminho.
Zacarias 14:4 — "Naquele dia os seus pés estarão sobre o Monte das Oliveiras, que fica diante de Jerusalém, a oriente; e o Monte das Oliveiras se partirá ao meio."
O único texto da Bíblia hebraica que dá ao monte esse nome — e é do livro que Mateus vai citar em seguida, embora de outro capítulo.
O monte no fim de Mateus
Mateus 24:3 — "Depois, sentado no monte das Oliveiras, os discípulos se aproximaram dele em particular e perguntaram: 'Diga-nos, quando vão acontecer essas coisas? E qual será o sinal da sua vinda e do fim dos tempos?'"
Mateus 26:30 — "Depois de cantarem um hino, saíram para o monte das Oliveiras."
O discurso do fim e a noite da prisão acontecem na mesma encosta em que a semana começou.
O outro envio da última semana
Mateus 26:18 — "Ele respondeu: 'Vão à cidade, à casa de certo homem, e digam-lhe: O Mestre manda dizer: Meu tempo está próximo; é na sua casa que vou celebrar a Páscoa com os meus discípulos.'"
Discípulos enviados, um dono sem nome, uma frase pronta. O desenho deste capítulo se repete.
Lucas 22:8 — "Jesus enviou Pedro e João, dizendo: 'Vão preparar a Páscoa para nós, para que a comamos.'"
O único lugar em que os enviados de um desses encargos ganham nome — e é por ele que os comentaristas propõem Pedro e João também para a busca do jumento.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos,
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ὅτε ἤγγισαν εἰς Ἱεροσόλυμα, καὶ ἦλθον εἰς Βηθφαγὴ πρὸς τὸ ὄρος τῶν Ἐλαιῶν, τότε ὁ Ἰησοῦς ἀπέστειλε δύο μαθητάς,
Transliteração
Kai hote ēngisan eis Hierosolyma, kai ēlthon eis Bēthphagē pros to oros tōn Elaiōn, tote ho Iēsous apesteile dyo mathētas,
Análise palavra por palavra
Καὶ ὅτε — kai hote, "e quando". Conjunção e advérbio de tempo. Abre uma oração que situa a principal; a ação de verdade só vem com o "então" do meio do versículo.
ἤγγισαν — ēngisan, "aproximaram-se". Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de engizō, verbo formado sobre o advérbio engys, "perto".
O verbo tem uma história dentro de Mateus. No perfeito, ele é a palavra do anúncio: "o Reino dos céus está próximo", na boca de João Batista (Mateus 3:2), de Jesus (Mateus 4:17) e dos doze (Mateus 10:7). No fim do livro, o mesmo perfeito serve para outra aproximação: "a hora está próxima", "aquele que me trai está próximo" (Mateus 26:45-46). Entre esses dois usos, aqui, o verbo aparece no aoristo e com sujeito humano: é a comitiva que se aproxima da cidade. A palavra que anunciava o Reino chegando agora descreve uma chegada física.
εἰς Ἱεροσόλυμα — eis Hierosolyma, "de Jerusalém", literalmente "em direção a Jerusalém". Com verbo de aproximação, eis indica a direção e não a entrada. Hierosolyma é a forma helenizada do nome, que Mateus usa quase sempre, como em Mateus 16:21 e 20:17-18.
καὶ ἦλθον εἰς Βηθφαγὴ — kai ēlthon eis Bēthphagē, "e chegaram a Betfagé". Ēlthon é aoristo de erchomai, "ir, vir". Aqui o eis já é de chegada. Bēthphagē é nome aramaico transcrito, sem declinação — a mesma forma serve para qualquer caso.
A sequência dos dois verbos desenha o movimento: primeiro a aproximação da cidade, depois a chegada à aldeia. Algumas versões antigas — a siríaca, a persa e a etíope, segundo Gill e Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) — põem o primeiro verbo no singular, "quando ele se aproximou". A tradição grega mantém o plural.
πρὸς τὸ ὄρος τῶν Ἐλαιῶν — pros to oros tōn Elaiōn, "junto ao Monte das Oliveiras". Aqui está a única diferença de sentido entre as edições. O Textus Receptus e o texto bizantino leem pros, "junto a, em direção a"; as edições críticas leem eis, "em, para". Com pros, Betfagé fica perto do monte; com eis, fica no monte. A ABC traduz "no Monte", o que corresponde melhor à leitura crítica; a do Textus Receptus pediria "junto ao Monte". A diferença é pequena, e o local é o mesmo nas duas.
Elaiōn é genitivo plural de elaia, "oliveira": o monte "das oliveiras". Lucas 19:29 e Atos 1:12 usam uma forma vizinha, que pode ser lida como nome próprio, "Olival".
τότε — tote, "então". O advérbio favorito de Mateus para encadear cenas; ele o usa cerca de noventa vezes, mais do que todos os outros evangelistas somados. É a marca de passagem para a ação principal.
ὁ Ἰησοῦς — ho Iēsous, "Jesus". O Textus Receptus tem o artigo; as edições críticas o omitem. Nenhum sentido depende disso.
ἀπέστειλε — apesteile, "enviou". Aoristo do indicativo ativo de apostellō, o verbo do envio com encargo; o seu peso de representação está desenvolvido no estudo de Mateus 15:24. Guarde a forma: o mesmo verbo volta, no futuro, no fim de Mateus 21:3.
δύο μαθητάς — dyo mathētas, "dois discípulos". Numeral e substantivo no acusativo plural. Marcos escreve "dois dos seus discípulos", com o partitivo; Mateus encurta, como faz com quase todo o episódio.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira: a entrada em Jerusalém começa num lugar que já tinha sentido antes dela. Betfagé era a borda legal da cidade santa, o Monte das Oliveiras era a encosta da fuga de Davi e da espera da glória, e a estrada era a dos peregrinos da Páscoa. Mateus não explica nada disso, e mesmo assim o lugar fala: a cena é posta onde a cidade começa, no monte que a Escritura de Israel associava à volta de Deus.
A segunda: o primeiro gesto de Jesus nesse lugar é delegar. Ele não avança, não discursa e não se apresenta; manda dois anônimos fazer um serviço. O evangelho que anunciou tantas vezes a ida a Jerusalém faz a chegada depender, no primeiro passo, de uma tarefa simples cumprida por outros.













