“Digam à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado numa jumenta e num jumentinho, cria de animal de carga.”
1. Introdução
É a citação que o versículo anterior anunciou, e ela não vem de um profeta só. A primeira linha é de Isaías; o resto, de Zacarias, e com cortes. Mateus tira de Zacarias a alegria do começo e os dois títulos do rei, "justo e salvador", e deixa um adjetivo apenas: humilde. E, onde a poesia hebraica parece falar de um animal dito duas vezes, Mateus põe dois — o que lhe valeu, desde o século XIX, a acusação de não ter entendido o hebraico. O "e" entre a jumenta e o jumentinho, que a ABC restituiu conforme o grego, está no centro dessa discussão.
2. Contexto Histórico e Cultural
O jumento já tinha sido montaria de rei
Para o leitor moderno, "montado num jumento" soa como imagem de pobreza. No Oriente antigo não era bem assim. Numa carta do arquivo real de Mari (cidade às margens do Eufrates, cerca de 1780 a.C.), um alto funcionário chamado Bahdi-Lim aconselha o rei Zimri-Lim a não montar cavalos: que ande de carro ou de mula, e assim honre a sua condição de rei. O cavalo era animal dos povos de fora; a montaria de dignidade era a do burro e da mula.
A Bíblia hebraica conserva essa memória. Os juízes Jair e Abdom têm filhos que montam trinta e setenta jumentos (Juízes 10:4 e 12:14), sinal de casa importante. O cântico de Débora fala dos que montam "jumentas brancas" (Juízes 5:10). E Salomão é levado à unção montado na mula de Davi (1 Reis 1:33).
Depois de Salomão, o cavalo e o carro de guerra viram o símbolo do poder real em Israel e entre os vizinhos, e os profetas passam a desconfiar deles (Isaías 31:1). Zacarias escreve dentro dessa mudança. O versículo seguinte ao que Mateus cita diz o que o jumento significa ali: "Cortarei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será quebrado; ele anunciará paz às nações" (Zacarias 9:10). O rei de Zacarias monta o animal antigo dos reis de Israel e deixa de lado o animal da guerra. A imagem é de realeza sem exército, não de mendicância.
Quando Zacarias 9 foi escrito
Os capítulos 9 a 14 de Zacarias diferem muito dos oito primeiros: não têm datas, não têm visões noturnas, não citam Zorobabel nem o sumo sacerdote Josué. Por isso muitos estudiosos os atribuem a outro autor, mais tardio. Zacarias 9:1-8 descreve um avanço militar que desce pela costa — Damasco, Hamate, Tiro, Sidom, Gaza, Ascalom, Ecrom —, e parte dos comentaristas modernos o lê contra o fundo da campanha de Alexandre, o Grande, em 332 a.C., que tomou Tiro após um cerco de sete meses e depois Gaza. Outros datam o trecho bem antes, no tempo dos assírios. Não há consenso. Se a leitura de Alexandre estiver certa, o rei humilde de Zacarias 9:9 é desenhado de propósito como o contrário do conquistador a cavalo que acabara de passar.
Como a tradição judaica leu o rei no jumento
Os rabinos leram Zacarias 9:9 como profecia do Messias, e os textos que o mostram são tardios em relação a Mateus, mas reveladores.
No Talmude Babilônico, tratado Sanhedrin 98a, Rabi Alexandri cita Rabi Yehoshua ben Levi (mestre da terra de Israel, século III) diante de uma contradição: Daniel 7:13 faz o Messias vir "com as nuvens do céu", e Zacarias 9:9 o faz vir "pobre e montado num jumento". A solução: se Israel tiver mérito, ele virá com as nuvens; se não tiver, virá pobre, num jumento. A humildade, nessa leitura, não é virtude do Messias — é sinal da condição do povo que o recebe.
Em Berakhot 56b, no capítulo sobre sonhos, quem sonha com um jumento pode esperar a salvação, "porque está escrito: eis que o teu rei vem a ti… pobre e montado num jumento". E o Midrash Rabá sobre Eclesiastes (comentário rabínico ao livro, comentando Eclesiastes 1:9, "o que foi será") traça um paralelo: assim como o primeiro redentor, Moisés, pôs a mulher e os filhos sobre um jumento (Êxodo 4:20), o último redentor virá "pobre e montado num jumento". Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, comentarista judeu da França do século XI) é taxativo: o versículo só pode referir-se ao Rei Messias, porque nenhum governante do tempo do segundo templo dominou "de mar a mar"; e o jumento, diz ele, é símbolo de humildade.
Nada disso prova que, no tempo de Jesus, Zacarias 9:9 já fosse lido como profecia messiânica — os textos são de dois a dez séculos depois. Mostra que, quando os rabinos o leram, leram como Mateus: o rei de Zacarias é o Messias.
3. Análise Teológica do Versículo
“Digam à filha de Sião”
Zacarias começa com uma explosão: "Alegre-se muito, filha de Sião; grite de alegria, filha de Jerusalém". Mateus não começa assim. Troca a primeira linha de Zacarias por outra, de Isaías 62:11: "Digam à filha de Sião". A frase de Isaías é idêntica, palavra por palavra, na Septuaginta e em Mateus.
A troca muda o tipo de frase. Zacarias manda a cidade se alegrar; Isaías manda alguém levar uma notícia à cidade. Em Mateus, Jerusalém deixa de ser quem festeja e passa a ser quem precisa ser informada. E o capítulo confirma que ela ainda não foi: no versículo 10, a cidade inteira se agita e pergunta "Quem é este?". A notícia que o profeta mandava levar ainda não chegou ao destino.
Por que Mateus tirou a alegria? Três leituras circulam. Primeira: para dar à citação o tom de anúncio, e não de festa — o que combina com uma entrada que termina, dias depois, na cruz. Segunda: porque a frase de Isaías vinha associada à de Zacarias na memória de quem lia as duas como textos sobre a vinda a Sião, e a junção já circulava pronta. Terceira, a mais simples: Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) diz que Mateus começa "pela parte mais importante", e que a alegria fica subentendida. Não é possível decidir.
João, que cita o mesmo versículo, também corta a alegria e a troca por outra linha: "Não tenha medo, filha de Sião" (João 12:15). Os dois evangelistas cortaram a mesma linha, cada um a seu modo.
Há um detalhe que torna a escolha de Isaías ainda mais curiosa. A frase de Isaías 62:11 continua assim: "eis que vem a tua salvação". Mateus para antes dessa palavra. Ele pega de Isaías só o "digam" e deixa de fora justamente a salvação — o que leva ao corte seguinte.
O que Mateus corta: “justo e salvador”
Em Zacarias, depois de "o teu rei vem a ti", vêm dois títulos: tsaddiq e nosha, que as traduções vertem por "justo e salvador" ou "justo e vitorioso". Mateus não traz nenhum dos dois. A citação salta direto para "humilde".
O corte não é descuido de memória, como sugere Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX): Mateus mantém tudo o que vem depois com precisão, e corta exatamente as palavras de poder. Quatro leituras foram propostas.
Primeira leitura: o corte concentra a imagem. Sem "justo" e sem "salvador", sobra um rei definido por um único traço, a humildade, e é esse traço que a cena do jumento encena. A citação fica com o que se vê.
Segunda leitura: o corte evita anunciar cedo demais o que só se cumpre adiante. Mateus já disse, no começo do evangelho, que o menino se chamaria Jesus "porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mateus 1:21). A salvação que Mateus tem em vista não é a vitória militar que nosha podia sugerir em Zacarias, e ela passa pela cruz. Chamar de "salvador" o homem que entra no jumento, a quatro dias da morte, poderia ser lido no sentido errado.
Terceira leitura: o texto deixa a palavra para outra boca. No versículo 9, a multidão grita "hosana" (do hebraico, "salva, por favor") ao Filho de Davi. O título que Mateus tirou do profeta reaparece como pedido na voz do povo. É leitura possível, sem apoio explícito: Mateus não comenta a correspondência.
Quarta leitura: o hebraico de Zacarias não diz exatamente "salvador", e sim "salvo", "vitorioso" — Rashi o lê como "salvo pelo Senhor" —, e foi a Septuaginta que fez dele "o que salva" (item 10). Diante de uma palavra ambígua, Mateus preferiu não traduzi-la.
As leituras não se excluem. O dado firme é o próprio corte: dos três adjetivos do rei em Zacarias, Mateus conservou o único que não fala de poder.
“humilde”
A palavra de Zacarias, em hebraico, é a do pobre, do aflito, de quem está por baixo. A Septuaginta a traduziu por um adjetivo grego que quer dizer "manso, brando", e Mateus seguiu a Septuaginta. Na passagem de uma língua para a outra, o rei deixou de ser descrito por uma condição social e passou a ser descrito por um temperamento.
Mateus tem razão especial para guardar essa palavra grega. Nos quatro evangelhos ela só aparece nele, e três vezes: em Mateus 5:5, "bem-aventurados os mansos"; em Mateus 11:29, quando Jesus diz de si mesmo "sou manso e humilde de coração"; e aqui. Fora dos evangelhos, o Novo Testamento só a usa mais uma vez (1 Pedro 3:4). Quem lê Mateus em sequência reconhece no rei de Zacarias a mesma palavra da bem-aventurança e do autorretrato. Em Mateus, o rei é manso como os que herdarão a terra.
“montado numa jumenta e num jumentinho”
Aqui está a acusação mais antiga contra a citação.
Zacarias escreve em poesia hebraica, que repete a ideia em duas metades com palavras diferentes: "montado num jumento, e num jumentinho, filho de jumentas". Quase todos os leitores do hebraico entendem que há um animal só, dito duas vezes — a segunda metade especifica a primeira: um jumento, isto é, um jumentinho. Mateus põe dois animais na cena (Mateus 21:2 e 21:7) e mantém o "e" que liga as duas metades. A ABC restituiu esse "e" porque ele está no grego.
O padrão de Mateus de contar dois onde os outros evangelhos contam um — dois cegos, dois endemoninhados, dois animais — está exposto no estudo de Mateus 20:30. O que é próprio deste versículo é a acusação de que, aqui, o padrão nasceu de um erro de leitura.
A acusação
David Friedrich Strauss, teólogo alemão, formulou-a com clareza em A Vida de Jesus (1835-1836), o livro que provocou escândalo na Alemanha ao ler boa parte dos evangelhos como mito. O argumento dele, neste ponto: Mateus não entendeu o paralelismo hebraico, achou que Zacarias falava de dois animais, e por isso fez os discípulos trazerem dois — e chegou a escrever, no versículo 7, que puseram as capas "sobre eles" e o fizeram sentar-se "em cima", como se Jesus montasse os dois. Para Strauss, o detalhe mostra que a cena foi construída a partir da profecia, e não a profecia aplicada a uma cena real. Muitos comentaristas modernos aceitam pelo menos a primeira metade do argumento: Mateus leu o "e" como soma.
As respostas
Primeira resposta: Mateus sabia hebraico. A citação dele segue o hebraico mais de perto do que a Septuaginta justamente no trecho dos animais (o item 10 compara as três formas). Ele também cortou "justo e salvador", outro par paralelo, o que mostra que reconhecia a construção. Quem conhece o paralelismo o bastante para cortar um par não o desconhece no par seguinte. Ler dois animais teria sido escolha, não ignorância.
Segunda resposta: a cena faz sentido prático. Marcos 11:2 e Lucas 19:30 dizem que o jumentinho nunca tinha sido montado. Um animal jovem, sem treino, caminha melhor ao lado da mãe. Bengel e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) leem assim: a jumenta veio como companhia, e Jesus montou só o jumentinho. Nessa leitura, Mateus registra um dado da cena que os outros não registraram, e a profecia apenas o acolheu.
Terceira resposta: Mateus lia como os intérpretes judeus do seu tempo. David Instone-Brewer, estudioso britânico do judaísmo antigo, argumentou num artigo de 2003 ("Os dois jumentos de Zacarias 9:9 em Mateus 21") que os intérpretes daquele período tendiam a tratar cada palavra da Escritura como portadora de sentido próprio, sem a noção moderna de "repetição poética". Ler dois animais onde a poesia pedia um seria, então, um método comum na época, e não um tropeço pessoal de Mateus.
Quarta resposta, a da Igreja antiga: os dois animais significam. Justino Mártir (filósofo cristão do século II), no Diálogo com Trifão 53, lê a jumenta acostumada ao jugo como o povo judeu, que já carregava a Lei, e o jumentinho sem jugo como os povos não judeus. É alegoria, e não responde à questão histórica, mas mostra que os primeiros leitores viram os dois animais e não acharam que precisavam se desculpar por eles.
Nenhuma das respostas elimina o problema. A segunda explica a cena e não explica a ênfase de Mateus; a terceira explica a ênfase e concede que a leitura, pelos critérios de hoje, não é a do hebraico. O que se pode afirmar é que a divergência entre Mateus (dois animais) e Marcos, Lucas e João (um) é real, e que o texto a transmitiu sem harmonizar.
“cria de animal de carga”
O fim da citação insiste na baixeza do animal. Não é o jumento de raça dos juízes nem a mula do rei: é o filhote de um animal de trabalho, de jugo. Vincent (Marvin Vincent, estudioso norte-americano do grego do Novo Testamento, século XIX) resume: não um corcel imponente, mas um animal de carga comum, coberto com as roupas dos discípulos. Ellicott observa que a expressão reproduz a linguagem antiga de Gênesis 49:11, o jumentinho de Judá, onde o jumentinho aparece na bênção do rei de Judá. Em Mateus, o animal de carga é o trono.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A filha de Sião
Não é uma pessoa. É Jerusalém, falada como mulher, à maneira dos profetas: Sião era o monte da cidade de Davi e do templo, e "filha de Sião" é a cidade inteira, com o seu povo, tratada com afeto e às vezes com censura (Isaías 1:8, Lamentações 2:1). Em Mateus 21 ela é a destinatária da notícia — e a cidade que, no versículo 10, pergunta quem chegou.
O rei
Em Zacarias, uma figura futura, sem nome, que vem depois de um tempo de guerra e acaba com ela. Em Mateus, Jesus. Em Mateus, o título quase sempre lhe é dado por outros: os magos (Mateus 2:2), o profeta, Pilatos, a inscrição da cruz. Ele mesmo só o usa de modo indireto, na parábola do julgamento (Mateus 25:34), e diante de Pilatos responde apenas "Você o diz" (Mateus 27:11).
Isaías e Zacarias
A primeira linha da citação vem de Isaías 62:11, de um capítulo que promete a Jerusalém restaurada um nome novo. O restante vem de Zacarias 9:9, do bloco final do livro, cuja data é discutida (item 2). Mateus os junta sem marcar a costura.
A jumenta e o jumentinho
Em Mateus, dois animais: a mãe e a cria, amarrados juntos no povoado (Mateus 21:2). Em Marcos, Lucas e João, um só, o jumentinho. O hebraico de Zacarias usa três palavras diferentes para os animais — uma para o jumento em geral, outra para o macho jovem, outra para as fêmeas —, como observa a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa).
David Friedrich Strauss (1808-1874)
Teólogo alemão formado em Tübingen. A Vida de Jesus custou-lhe a carreira acadêmica e tornou-se o ponto de partida do debate moderno sobre os evangelhos como história.
Justino Mártir (c. 100-165)
Filósofo cristão nascido na Samaria, morto em Roma. O Diálogo com Trifão reconstrói uma discussão com um judeu sobre a leitura das Escrituras e é das fontes mais antigas sobre o uso cristão das profecias no século II.
5. Pontos de Ensino
Mateus cita trabalhando o texto
A citação junta dois profetas, troca a primeira linha, corta dois títulos e segue ora o hebraico, ora o grego. Não é cópia: é leitura. Quem a trata como transcrição fiel de Zacarias perde o que ela tem de mais informativo — as escolhas.
O que foi cortado diz tanto quanto o que ficou
De "justo, salvador e humilde", ficou "humilde". Da alegria de Sião, ficou o recado. O retrato do rei, em Mateus, é feito por subtração.
Um rei sem os instrumentos do poder
O jumento, em Zacarias, vem junto com o fim dos carros e cavalos de guerra (Zacarias 9:10). Mateus não cita esse versículo, mas o leitor que abrir Zacarias o encontra logo abaixo. A imagem não é de pobreza pitoresca; é de realeza que dispensa a força.
A mesma palavra para o rei e para os bem-aventurados
O adjetivo do rei é o mesmo dos "mansos" que herdarão a terra (Mateus 5:5) e o mesmo com que Jesus descreve a si mesmo (Mateus 11:29). Em Mateus, a mansidão é traço do rei antes de ser exigência para os súditos.
6. Aspectos Filosóficos
Um rei que chega sem cavalo, sem carro e sem soldados ainda é rei? De onde vem o poder de quem não tem os meios de impor nada? O versículo levanta a pergunta, e um romancista russo passou a segunda metade da vida tentando respondê-la.
Tolstói e a pergunta sobre o poder
Liev Tolstói (1828-1910) escreveu Guerra e Paz (1869) antes de qualquer crise religiosa, e já ali o problema está posto. O romance acompanha Napoleão, o homem mais poderoso da Europa, e se pergunta o que de fato move os exércitos e os povos. A resposta de Tolstói desconcerta: não é a vontade do imperador. No começo do terceiro volume, ele escreve que o rei é escravo da história — o homem que parece mandar é o que menos decide, arrastado por milhões de vontades que se somam. No epílogo, discute longamente o que é o poder e conclui que ele não está na pessoa do governante, mas na relação entre quem dá a ordem e a massa que a cumpre.
A consequência é corrosiva para a imagem do rei a cavalo. Se o poder não mora no conquistador, o cavalo de guerra é cenário: produz a aparência de que um homem move a história, quando ela se move por outras forças.
A segunda fase: o Evangelho lido ao pé da letra
Por volta de 1880, depois de uma crise descrita em Confissão, Tolstói passou a ler os evangelhos como programa de vida, e o centro da leitura dele foi o Sermão do Monte, especialmente "não resistam ao mau" (Mateus 5:39). Em O Reino de Deus está em vós (1893) ele sustentou que o Estado, qualquer Estado, repousa sobre a violência organizada — exército, polícia, prisão — e que o cristianismo, tomado a sério, é incompatível com ela.
Lido com olhos de Tolstói, Zacarias 9:9-10 é quase um manifesto: um rei que chega a uma cidade montado num animal de trabalho e, em seguida, corta os carros e os cavalos e quebra o arco de guerra. E a citação de Mateus faz um movimento que Tolstói teria aprovado: tira do rei os títulos de poder e deixa só a mansidão.
O que essa leitura acerta
Ela acerta ao levar a sério o que o texto mostra: a recusa dos meios da força não é detalhe pitoresco da cena, é o conteúdo dela. O versículo de Zacarias que Mateus não cita, e que vem logo depois, confirma isso. E ela acerta ao perceber que um rei sem exército só pode reinar por adesão — ninguém é obrigado a estender a capa no caminho.
O que ela não alcança
Dois limites precisam ser ditos. O primeiro: Tolstói, nos seus escritos religiosos, descartou dos evangelhos o que lhe parecia sobrenatural e reduziu Jesus a mestre de moral. O Mateus deste capítulo não cabe nesse molde: o rei manso é também o Filho de Davi aclamado e aquele de quem se diz que cumpre as Escrituras. A mansidão, em Mateus, não substitui a realeza; é o modo dela.
O segundo: Zacarias não descreve um rei que renuncia ao poder, e sim um rei cujo poder vem de outro lugar. É Deus quem corta os carros, no versículo 10, e o domínio do rei vai "de mar a mar". O texto profético não é pacifista no sentido de Tolstói; é uma promessa de paz imposta por Deus, não pela não resistência humana. A leitura de Tolstói lê nele uma ética; o texto oferece, antes, uma esperança.
O versículo fica entre as duas coisas. A cena mostra um rei sem armas, e com isso dá razão à suspeita de Tolstói de que o poder verdadeiro não está no cavalo. Mas o mesmo texto não diz que esse rei renunciou a reinar. Diz que ele chega — e pergunta a quem o vê se vai recebê-lo.
7. Aplicações Práticas
Autoridade que não depende de impor
O rei de Zacarias, na leitura de Mateus, entra numa cidade sem nenhum meio de obrigar ninguém a recebê-lo. Quem exerce algum tipo de autoridade — pais, chefes, líderes de comunidade — pode tirar daqui uma pergunta concreta: quanto da obediência que recebo vem do que eu sou, e quanto vem do que posso impor? O versículo não condena o uso de autoridade; mostra um modelo em que ela chega desarmada e depende de ser reconhecida.
Ler citações com o texto original aberto
Esta citação só revela o que tem quando se lê Zacarias 9:9-10 inteiro ao lado dela. Vale para qualquer versículo do Antigo Testamento citado no Novo: o que o evangelista cortou é muitas vezes a chave do que ele quis dizer, e quem lê só a citação nunca vê o corte.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus montou os dois animais?
O versículo 7 diz que puseram as capas "sobre eles" e o fizeram sentar-se "em cima", e a frase é ambígua. A leitura dominante, desde os pais da Igreja, é que Jesus montou só o jumentinho; outra, que "sobre eles" se refere às capas. A discussão do texto grego dessa frase, que tem uma variante própria, pertence ao estudo de Mateus 21:7.
Os judeus do tempo de Jesus já esperavam um Messias montado num jumento?
Não há prova direta. Os textos rabínicos que leem Zacarias 9:9 como profecia messiânica são do século III em diante, e os manuscritos do mar Morto não citam o versículo de modo claro. O máximo que se pode dizer é que a leitura messiânica é antiga na tradição judaica e coincide com a de Mateus; se ela já circulava no século I, é hipótese plausível, não fato demonstrado.
"Humilde" quer dizer pobre ou manso?
Em Zacarias, a palavra hebraica é a do pobre e do oprimido; no grego que Mateus usa, a do manso. As duas ideias andam juntas na Bíblia, mas não são iguais: uma descreve a situação, a outra o modo de ser. Mateus, ao seguir o grego, põe o peso no modo de ser — o que combina com Mateus 11:29, mas faz perder um pouco do rei pobre de Zacarias.
Por que Mateus não citou também Zacarias 9:10, que fala do fim das armas?
O texto não diz. Talvez porque a citação já tivesse o que a cena mostrava; talvez porque o versículo seguinte prometa um domínio "de mar a mar" que a semana da paixão não exibe. O leitor da época, que conhecia o profeta, completaria sozinho.
Se Mateus leu mal o paralelismo, isso afeta a confiabilidade do evangelho?
Afeta a ideia de que cada detalhe de cada citação seja exato pelos critérios de hoje. Não afeta o fato central que os quatro evangelhos registram: Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento, e os primeiros cristãos viram nisso o rei de Zacarias. A divergência está no número de animais, não na cena.
9. Conexão com Outros Textos
As duas fontes da citação
Zacarias 9:9 — "Alegra-te muito, filha de Sião; grita de alegria, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e salvo, pobre e montado num jumento, num jumentinho, filho de jumentas."
O texto inteiro, traduzido do hebraico. Compare com Mateus: falta a primeira linha, faltam "justo e salvo", e "pobre" virou "humilde".
Isaías 62:11 — "Eis que o SENHOR fez ouvir até os confins da terra: Digam à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação; eis que com ele vem o seu prêmio."
De onde vem o "Digam". A frase seguinte, que Mateus não cita, anuncia a salvação.
O versículo que Mateus não cita
Zacarias 9:10 — "Cortarei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será quebrado; ele anunciará paz às nações, e o seu domínio irá de mar a mar."
O sentido do jumento, dito pelo próprio profeta.
A mesma citação no Evangelho de João
João 12:15 — "Não tenha medo, filha de Sião; eis que o seu rei vem, montado num jumentinho."
Um animal só, e outra primeira linha no lugar da alegria.
O jumento na Bíblia hebraica
Gênesis 49:11 — "Ele amarra à videira o seu jumentinho e à videira escolhida o filho da sua jumenta; lava no vinho a sua roupa e no sangue das uvas o seu manto."
O mesmo par poético — jumentinho e filho de jumenta —, na bênção de Judá.
Êxodo 4:20 — "Então Moisés tomou a mulher e os filhos, pô-los sobre um jumento e voltou à terra do Egito; e Moisés levou na mão o cajado de Deus."
O versículo que o midrash põe ao lado de Zacarias 9:9: o primeiro redentor e o último, ambos com um jumento.
As nuvens e o jumento
Daniel 7:13 — "Eu estava olhando nas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu alguém como um filho de homem."
O outro modo de chegar, que o Talmude opõe ao de Zacarias. Mateus usará os dois: o jumento aqui, as nuvens em Mateus 24:30 e 26:64.
A palavra do rei em outros lugares de Mateus
Mateus 5:5 — "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra."
Mateus 11:29 — "Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas."
As outras duas ocorrências do adjetivo que Mateus dá ao rei.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Digam à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado numa jumenta e num jumentinho, cria de animal de carga.”
Texto grego (Textus Receptus)
Εἴπατε τῇ θυγατρὶ Σιών, Ἰδού, ὁ βασιλεύς σου ἔρχεταί σοι, πραῢς καὶ ἐπιβεβηκὼς ἐπὶ ὄνον καὶ πῶλον υἱὸν ὑποζυγίου.
Transliteração
Eipate tē thygatri Siōn, Idou, ho basileus sou erchetai soi, praus kai epibebēkōs epi onon kai pōlon huion hypozygiou.
As três formas do texto, lado a lado
Hebraico de Zacarias 9:9 (Texto Massorético, a forma padronizada pelos escribas judeus medievais): hinneh malkekh yavo lakh, tsaddiq ve-nosha hu, ani ve-rokhev al-chamor ve-al-ayir ben-atonot — "eis que o teu rei vem a ti, justo e salvo ele, pobre e montado sobre jumento e sobre jumentinho, filho de jumentas".
Septuaginta de Zacarias 9:9: idou ho basileus sou erchetai soi, dikaios kai sōzōn, autos praus kai epibebēkōs epi hypozygion kai pōlon neon — "eis que o teu rei vem a ti, justo e que salva, ele manso e montado sobre animal de carga e potro novo".
Mateus: "manso e montado sobre onon e pōlon huion hypozygiou".
A comparação mostra o método. Para o adjetivo, Mateus segue a Septuaginta (praus, e não um equivalente de "pobre"). Para os animais, abandona a Septuaginta e volta ao hebraico: onde o grego tinha "animal de carga", ele põe onon, a palavra exata para jumento, como o chamor hebraico; e onde o grego tinha "potro novo", ele traduz o hebraico ao pé da letra, "potro, filho de", reaproveitando da Septuaginta só a palavra "animal de carga" para o lugar de "jumentas". É uma citação montada com as duas fontes abertas.
Análise palavra por palavra
Εἴπατε τῇ θυγατρὶ Σιών — eipate tē thygatri Siōn, "digam à filha de Sião". Imperativo aoristo ativo, segunda pessoa do plural, de um verbo de dizer, com o dativo de destinatário. O plural faz a ordem recair sobre um grupo de mensageiros indeterminado. A frase é idêntica à da Septuaginta em Isaías 62:11. Siōn é transcrição do hebraico Tsiyyon e não se declina em grego.
Ἰδού — idou, "eis". Partícula de apresentação, que em Zacarias traduz o hebraico hinneh.
ὁ βασιλεύς σου ἔρχεταί σοι — ho basileus sou erchetai soi, "o teu rei vem a ti". O presente erchetai traduz o imperfeito hebraico yavo, que em Zacarias aponta para o futuro ("virá"); em grego, o presente dá à chegada o tom de coisa que já está acontecendo. Os dois pronomes de segunda pessoa do singular, "teu" e "a ti", são os da cidade personificada; a ABC os conserva na forma clássica, como faz com toda citação solene.
πραῢς — praus, "manso, brando, humilde". Adjetivo nominativo masculino singular. Traduz, na Septuaginta, o hebraico ani, "pobre, aflito". No grego clássico, praus se dizia do animal amansado, da palavra branda e do caráter que não se exalta; não tinha conotação de pobreza.
Logo antes do adjetivo, Mateus deixou de fora tsaddiq ve-nosha, "justo e salvo". Nosha é particípio da forma passiva do verbo de salvar — "salvo", "socorrido", "vitorioso por ter sido livrado". A Septuaginta o fez ativo (sōzōn, "salvando"), e é dessa leitura grega que vem o "salvador" das traduções.
καὶ ἐπιβεβηκὼς — kai epibebēkōs, "e montado". Particípio perfeito ativo de epibainō, "subir em, montar". O perfeito descreve estado resultante: não o ato de montar, mas a condição de quem já está montado. É a mesma forma da Septuaginta.
ἐπὶ ὄνον — epi onon, "sobre jumento" (ou "jumenta"). Onos, em grego, serve para macho e fêmea; o gênero vem do artigo ou do adjetivo. Neste versículo não há nenhum dos dois, mas em Mateus 21:2 a palavra vem com particípio feminino ("uma jumenta amarrada"), e é por isso que a ABC traduz "jumenta". O hebraico de Zacarias tem chamor, palavra masculina para o jumento em geral. Ao ler a primeira palavra como a mãe, Mateus já desdobrou o animal único de Zacarias num par.
καὶ — kai, "e". É a conjunção que a ABC restituiu. No hebraico corresponde ao ve- de ve-al-ayir, "e sobre jumentinho". Essa letra hebraica pode somar ("e") ou explicar ("isto é", "a saber"); na poesia paralela, o uso explicativo é frequente, e é assim que a leem os tradutores modernos de Zacarias. Em grego, kai também admite o sentido explicativo ("e, a saber"), mas o sentido corrente é aditivo. Mateus reproduz a conjunção sem marcar qual dos dois sentidos quer — e a narrativa à volta, com dois animais, decide por ele.
Há ainda uma diferença entre as edições gregas. O Textus Receptus diz epi onon kai pōlon, com uma preposição só para os dois substantivos; as edições críticas trazem epi onon kai epi pōlon, repetindo o "sobre", como o hebraico. Com uma preposição só, a frase grega fica um pouco mais próxima de "sobre um jumento, isto é, um potro"; com duas, fica mais próxima de "sobre um e sobre outro". A diferença não resolve a questão, mas mostra que os copistas também sentiram o peso dela.
πῶλον — pōlon, "potro, cria". A palavra grega designa o filhote de qualquer animal de montaria, cavalo ou jumento. Traduz o hebraico ayir, o jumento macho jovem — palavra cujo uso no Antigo Testamento está desenvolvido no estudo de Gênesis 32:15.
υἱὸν ὑποζυγίου — huion hypozygiou, "filho de animal de carga". Huios é "filho"; o hebraico também chama de "filho" o filhote de animal, e Mateus conserva o modo semítico de dizer. Hypozygion é, literalmente, "o que está debaixo do jugo": o animal de tração e de carga. Na Septuaginta é termo comum para o jumento. O hebraico tem "filho de jumentas", no plural (atonot), um plural de categoria — filho de jumenta, qualquer jumenta. Mateus passa para o singular e troca a palavra específica pela genérica, e o resultado sublinha a função do animal: cria de bicho de trabalho.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a citação de Mateus é uma construção deliberada. Junta Isaías e Zacarias, segue o grego num ponto e o hebraico em outro, e corta com precisão. Quem a compara com o original não encontra uma lembrança imperfeita, e sim um texto trabalhado para dizer uma coisa: este rei se define pelo que não traz.
A segunda: o que Mateus retira é o vocabulário do poder. Saem a alegria triunfal, a justiça e a salvação; fica a mansidão. O rei de Mateus 21:5 é o mesmo que proclamou bem-aventurados os mansos e disse de si mesmo que era manso. A citação faz o profeta falar na língua do evangelho.
A terceira: a questão dos dois animais não se resolve, e o texto não pede que se resolva. Mateus leu dois onde a poesia de Zacarias provavelmente via um, por erro, por método da época ou por fidelidade a um detalhe da cena — e não é possível decidir qual. O que o versículo permite afirmar é o que os quatro evangelhos têm em comum: o rei entrou montado no animal de trabalho, e não no de guerra.













