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Mateus 21:2

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 14 acessos
dizendo-lhes: “Vão ao povoado que está à frente de vocês, e logo encontrarão uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrem-nos e tragam-nos a mim.
Uma jumenta cinzenta amarrada por uma corda a uma argola na parede de uma casa de pedra numa aldeia, com um jumentinho solto encostado ao flanco dela, enquanto dois homens se aproximam pela rua de terra.

Estudo


dizendo-lhes: “Vão ao povoado que está à frente de vocês, e logo encontrarão uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrem-nos e tragam-nos a mim.

1. Introdução

Jesus manda os dois discípulos a uma aldeia próxima, diz o que vão encontrar e manda soltar e trazer os animais. Mateus fala em dois — uma jumenta amarrada e o filhote ao lado —, onde Marcos e Lucas falam em um. A ordem de desamarrar animais alheios e levá-los embora descreve, para quem vivia sob Roma, uma cena conhecida: a requisição de animais pela autoridade. E a precisão do aviso levanta a pergunta que os comentaristas discutem há séculos: Jesus sabia ou tinha combinado?

2. Contexto Histórico e Cultural

"Ele tomará os seus jumentos"

Dois estranhos chegam a uma aldeia, soltam um animal que não é deles e o levam. Para um leitor de hoje, a cena parece furto. Para um morador da Judeia do século I, ela tinha nome: era requisição, o direito da autoridade de tomar animais, carroças e gente para o seu serviço.

A Escritura de Israel já conhecia a prática e não gostava dela. Quando o povo pede um rei, Samuel enumera o que o rei vai tomar: os filhos para o exército, as filhas para a cozinha, os campos, o dízimo, "os seus servos e as suas servas, os seus melhores jovens e os seus jumentos", para pô-los a trabalhar para ele (1 Samuel 8:16). O jumento requisitado é, desde ali, um dos símbolos do preço de ter um rei.

No tempo de Jesus a prática tinha um nome técnico, que o grego tomou de empréstimo ao persa: angareia ("requisição", o serviço forçado de transporte). O verbo dessa família aparece duas vezes em Mateus, na milha que o soldado obriga a andar (Mateus 5:41) e em Simão de Cirene, obrigado a carregar a cruz (Mateus 27:32). Neste versículo a palavra não aparece; aparece a cena.

Na lei judaica: o jumento alugado que a autoridade levou

A requisição era comum o bastante para ter entrado no direito civil judaico. A Mishná, no tratado Bava Metzia 6:3, discute quem perde quando um jumento alugado é tomado. Se o animal adoeceu ou "foi feito angarya" (a mesma palavra, em forma hebraica), o dono pode dizer a quem o alugou: "o que é seu está diante de você" — o prejuízo fica com o locatário. Se o animal morreu ou quebrou a perna, o dono tem de dar outro.

A discussão do Talmude Babilônico sobre esse trecho (Bava Metzia 78b) mostra como a coisa funcionava na prática. Rav distingue a requisição temporária, em que a autoridade usa o animal e o devolve, da permanente, em que ele não volta. Shmuel olha para a direção: se os soldados levaram o jumento para o mesmo lado em que ele já ia, o locatário podia segui-los até que eles achassem outro animal e soltassem o seu. A imagem é viva: um homem caminhando atrás da tropa, esperando a vez de recuperar o próprio jumento.

No mundo grego: "deixe ir, não resista"

Epicteto (filósofo estoico, escravo liberto, que ensinou no fim do século I), nas Diatribes registradas por Arriano, escolhe exatamente este caso para ensinar o desapego: se houver requisição e um soldado puser a mão no seu jumentinho, deixe-o ir; não resista nem resmungue, senão você apanha e perde o jumentinho do mesmo jeito (IV.1.79). O filósofo não discute se a prática é justa. Ele a toma como fato da vida, tão inevitável quanto a doença.

No direito romano: a tabela de preços de Sagalasso

O documento mais completo sobre o assunto foi encontrado na Turquia e publicado por Stephen Mitchell em 1976. É um edito bilíngue, em latim e grego, de Sexto Sotídio Estrabão, governador da Galácia no início do reinado de Tibério (por volta de 18 ou 19 d.C.), regulando o transporte que a cidade de Sagalasso devia fornecer aos agentes do Estado.

O edito começa reconhecendo o abuso: havia gente tomando transporte sem pagar, e o governador declara isso injusto. Depois fixa as regras. A cidade devia manter dez carroças e o mesmo número de mulas. O usuário pagava dez asses de bronze por carroça e quatro por mula a cada trecho de estrada; e, se preferisse jumentos, recebia dois pelo preço de uma mula. Uma lista dizia quem tinha direito: funcionários do imperador, militares em serviço, senadores, cada um com uma cota.

O valor do documento está no contraste. A requisição era legal, regulada e, em tese, paga. E a própria necessidade de regulá-la mostra que, na prática, ela era tomada à força, sem pagamento e por quem não tinha direito.

O que esse fundo faz com o versículo

Quem ouvia "soltem os animais e tragam-nos" sabia como essa cena costumava terminar: com o dono reclamando, apanhando ou correndo atrás. A diferença aparece no versículo seguinte, que prevê a objeção e a resposta. Se Jesus age aqui como quem tem o direito de um rei, ou como quem pede emprestado a um conhecido, é pergunta que o item 3 examina. O que o fundo garante é que a ordem não soava neutra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vão ao povoado que está à frente de vocês"

O povoado não tem nome. Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) entende que é a própria Betfagé, onde o grupo acabou de chegar; Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) admite também Betânia. "À frente de vocês" pode ser a aldeia do outro lado de uma dobra da encosta, visível dali. Mateus não se interessa pela identificação: o que ele precisa é de um lugar perto o bastante para que a busca seja rápida.

"e logo encontrarão"

Jesus descreve o que os dois vão achar antes de eles saírem. Como ele sabia? A pergunta é antiga, e as respostas se dividem em três.

Primeira leitura: ele sabia porque via o que os outros não viam. É a posição de Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) e de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), para quem a cena prova o conhecimento sobre-humano de Jesus. Meyer fala em "conhecimento admirável". O texto, lido sem nada acrescentado, favorece essa impressão: a instrução é dada como previsão, e Mateus 21:6 registra que ela se cumpriu.

Segunda leitura: estava combinado. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) supõe que o dono fosse um seguidor de Jesus ainda não declarado; Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) diz que os donos eram devotados a ele. Jesus conhecia a região — Betânia era casa de amigos —, e um acerto prévio explicaria tudo sem milagre. O que a leitura não explica: o evangelho não dá nenhum sinal de acerto, e conta a cena exatamente como contaria uma previsão.

Terceira leitura: a forma do relato é a de um sinal profético. A Escritura de Israel tem um modelo para isso, e ele envolve jumentas. Em 1 Samuel 10:2-7, Samuel acaba de ungir Saul e lhe diz, passo a passo, quem ele vai encontrar no caminho: dois homens junto ao túmulo de Raquel, que dirão que as jumentas perdidas do pai foram achadas; três homens subindo para Betel, com cabritos, pães e vinho. "Quando esses sinais acontecerem", diz o profeta, Saul saberá que Deus está com ele. A previsão de encontros miúdos funciona como confirmação de uma realeza que acaba de começar. Mateus não cita 1 Samuel; a semelhança de forma é leitura, e plausível.

As três leituras não se anulam por completo. O que o texto permite afirmar é só isto: Mateus apresenta a ordem como algo que Jesus sabia de antemão, e não diz como.

"uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho"

Aqui está a divergência mais conhecida do episódio. Marcos 11:2 e Lucas 19:30 falam de um só animal, um jumentinho; João 12:14 também. Mateus fala de dois. O padrão — Mateus conta dois onde os outros contam um, e a observação de Bengel sobre este par — está no estudo de Mateus 20:30, item 3.

O que é próprio deste versículo está na construção da frase, e ela tem três detalhes.

Primeiro: só a mãe está amarrada. No grego, "amarrada" concorda com a jumenta, no feminino singular (item 10). O jumentinho não é dito amarrado; está "com ela". Em Marcos e Lucas o amarrado é o próprio jumentinho. Em Mateus, o filhote não precisa de corda: fica onde a mãe fica.

Segundo: a mãe vem primeiro. O objeto principal da ordem é a jumenta. O jumentinho entra como acompanhante. Quem lê os outros evangelhos espera o contrário, porque lá ele é o centro.

Terceiro: falta um detalhe que Marcos e Lucas acham importante. Os dois dizem que no jumentinho "ninguém jamais montou". O detalhe tem peso na Escritura de Israel: animais nunca postos sob o jugo eram os reservados para usos sagrados — a novilha vermelha da purificação (Números 19:2), a novilha do rito pelo assassinato sem culpado (Deuteronômio 21:3), as vacas que levam a arca de volta (1 Samuel 6:7). Mateus corta essa marca de animal intocado.

Os dois últimos detalhes juntos mudam o centro da imagem. Marcos e Lucas mostram um animal nunca usado; Mateus mostra uma mãe com a cria. E o contraste com 1 Samuel 6:7 é curioso: lá, para que as vacas sirvam a Deus, os bezerros são separados delas e fechados em casa; aqui, mãe e filho são trazidos juntos. Que Mateus quisesse esse contraste, o texto não diz. Que a sua imagem seja a de um par que não se separa, a frase diz.

A razão que o próprio Mateus dá para os dois animais só aparece quatro versículos adiante, com a citação do profeta.

"Desamarrem-nos"

A ordem é desfazer a amarra de um animal que não é de quem a desfaz. Contra o fundo do item 2, o gesto tem a forma da requisição: quem tem autoridade solta e leva. Mas falta o que caracterizava a requisição — o soldado, a força, a tabela de preços. Os enviados são dois homens desarmados, e a única garantia que levam é uma frase, dada no versículo seguinte.

Há uma leitura que vê na amarra algo além do animal. Em Mateus, os mesmos verbos de amarrar e soltar servem para a autoridade de decidir sobre a lei (Mateus 16:19, 18:18) e para o próprio Jesus, que será amarrado e entregue a Pilatos (Mateus 27:2). Que Mateus quisesse esses ecos aqui é hipótese; o texto fala de uma corda e de um animal.

"e tragam-nos a mim"

A fórmula "tragam a mim" já apareceu duas vezes em Mateus, e nas duas o que vinha servia a outros: os cinco pães, para a multidão (Mateus 14:18), e o menino doente, para ser curado (Mateus 17:17). Aqui, pela primeira vez, o que é trazido é para uso dele.

E é um uso raro. Em todo o evangelho Jesus anda a pé — pelas estradas da Galileia, pela beira do lago, pela subida de Jericó. Bengel já reparava que Jesus quase nunca foi carregado por animal. A única montaria do livro é esta, e foi pedida para os três últimos quilômetros.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus. Fala; é a única voz do versículo. A instrução inteira — onde ir, o que achar, o que fazer, para quem levar — sai dele.

Os dois discípulos. Recebem a ordem e não respondem. Não perguntam de quem são os animais nem o que dizer se forem interpelados; a resposta a isso vem no versículo seguinte sem que eles a peçam.

Os donos dos animais. Não aparecem neste versículo, mas estão pressupostos: alguém amarrou a jumenta. Lucas 19:33 dirá que eram mais de um, "os seus donos". Mateus nunca os mostra.

Lugares

O povoado em frente. Sem nome. As candidatas são Betfagé, onde o grupo está, e Betânia, a pouco mais de um quilômetro, na descida leste do monte. Em aldeias assim, o animal ficava amarrado junto à porta, do lado de fora, na rua — é o que Marcos 11:4 descreve.

Os animais

A jumenta. O jumento era o animal de trabalho da casa comum na Judeia: carregava água, lenha e grão, puxava pequenas cargas e levava gente. Não era montaria de luxo nem animal de guerra. Uma jumenta com cria tinha valor dobrado, porque a cria era o próximo animal de trabalho da família.

O jumentinho. O filhote do jumento mama por cerca de seis meses e acompanha a mãe por muito mais tempo. Um jumentinho que ainda anda solto ao lado da mãe é, quase certamente, um animal jovem, ainda não treinado para carga.

Eventos

A instrução. O versículo é uma ordem, e a ordem é cumprida em Mateus 21:6. Entre uma e outra, o evangelho não narra a ida, a chegada à aldeia nem a conversa com os donos, que Marcos 11:4-6 e Lucas 19:32-34 contam.

5. Pontos de Ensino

A ordem vem com a informação. Jesus não manda os discípulos procurarem; diz o que eles vão achar. Quem obedece aqui não obedece no escuro — recebe, junto com a tarefa, a descrição do que vai encontrar.

O texto não decide como Jesus sabia. Previsão, combinação prévia ou sinal profético: as três leituras têm defensores sérios, e Mateus não escolhe. Ensinar este versículo como prova de onisciência, ou como prova de logística, é dizer mais do que ele diz.

A divergência entre os evangelhos é dado. Um animal em Marcos, Lucas e João; dois em Mateus. O estudo honesto mostra a diferença, observa o que cada relato ganha com a sua versão e não esconde nenhuma delas.

A requisição tinha rosto conhecido. Soltar o animal de outro e levá-lo era o que soldados e funcionários faziam. O ensino não está em negar essa semelhança, e sim em reparar no que falta: aqui não há força, nem tabela, nem castigo.

A única montaria de Jesus foi pedida, não possuída. Quem anda a pé o evangelho inteiro só monta no fim, e num animal que não é seu. A entrada régia começa com um empréstimo.

6. Aspectos Filosóficos

Um homem manda tomar o jumento de outro. Isso é poder ou é pedido? Depende de como o dono reage — e de como o homem que manda governa. A pergunta é antiga, e um dos que a pensaram com mais clareza foi chinês.

Mêncio e as duas maneiras de reinar

Mêncio (Meng Ke, pensador chinês do século IV antes de Cristo, o maior continuador da escola confucionista) passou a vida aconselhando reis dos Estados em guerra, e sempre com o mesmo argumento: há duas maneiras de ter súditos. No livro que leva o seu nome (Mêncio 2A3), ele as separa assim. Quem usa a força fingindo benevolência é um "hegemon", um senhor de fato; quem pratica a benevolência pela virtude é um rei verdadeiro. E a diferença está no coração de quem obedece: os que se submetem à força não se submetem de coração, mas porque não têm força para resistir; os que se submetem à virtude se alegram no fundo e obedecem com sinceridade.

A distinção não é sobre quem manda, mas sobre como o que é mandado é recebido. Os dois tipos de governante podem pedir exatamente a mesma coisa. O que muda é o que acontece dentro de quem entrega.

O parque do rei Wen

Mêncio dá um exemplo concreto, e ele é sobre propriedade (Mêncio 1B2). O rei Xuan, de Qi, queixa-se de que o seu parque de caça, com quarenta li de lado (a medida chinesa de distância, cerca de meio quilômetro), parece grande demais ao povo, enquanto o parque do antigo rei Wen, com setenta, parecia pequeno. Mêncio explica: no parque de Wen, os cortadores de capim e os catadores de lenha entravam, e caçava-se faisão e lebre; no de Xuan, quem mata um cervo é punido como se tivesse matado um homem. O tamanho não decide nada. O que decide é se o bem do rei está aberto ao povo ou fechado contra ele.

E há uma terceira peça. Para Mêncio, o mandato do Céu — a legitimidade de um governante — não se lê nos astros, mas no povo. Ele cita um texto antigo: "o Céu vê como o meu povo vê; o Céu ouve como o meu povo ouve" (Mêncio 5A5). Quem recebe o reino o recebe quando o povo o aceita.

O jumento da aldeia diante dessa régua

O versículo pede um animal que pertence a outro. Nos termos de Mêncio, o pedido pode ser o do hegemon — o gesto de 1 Samuel 8:16, do soldado de Epicteto, do agente que o edito de Sagalasso tentava conter (item 2). Ou pode ser o do rei verdadeiro, se o dono entrega de bom grado.

Mateus não mostra a reação do dono. Mas o versículo seguinte prevê o encontro e não prevê violência: há uma frase a dizer, e só. Nenhum soldado acompanha os discípulos. Pelo critério de Mêncio, a cena é montada para ser a de um rei que não toma — e é isso que a torna estranha para quem conhecia a requisição.

A régua de Mêncio também mede o que vem depois. A legitimidade, para ele, se vê no povo que acolhe. Nos versículos seguintes, a multidão estende as roupas no caminho e aclama. Mêncio diria que o mandato se lê aí. O evangelho, porém, sabe o que Mêncio não poderia prever: a mesma cidade que aclama vai, dias depois, pedir a morte. O povo como juiz da legitimidade é critério instável, e o próprio Mateus o mostra.

O limite da aproximação

Mêncio nunca ouviu falar de Israel, e o seu "rei verdadeiro" é o governante de um Estado chinês, não um messias. O que a aproximação ilumina é uma pergunta comum aos dois mundos: o que distingue o pedido de um rei da violência de um senhor? Para Mêncio, a resposta está no coração de quem entrega. O versículo deixa esse coração fora de cena.

7. Aplicações Práticas

Pedir o que é de outro tem forma certa. A ordem de Jesus vem acompanhada, no versículo seguinte, da frase a dizer ao dono. Quem precisa do bem alheio — um carro, uma casa, o tempo de alguém — deve ao dono uma explicação, e não apenas a pressa da necessidade. Nem mesmo neste texto a necessidade dispensa a palavra.

Obedecer sem ter todas as respostas. Os discípulos saem sem saber de quem são os animais e sem ter perguntado o que dizer. Há tarefas que só se esclarecem no caminho, e a cena não as trata como imprudência.

Desconfiar da harmonização apressada. Quem lê os quatro evangelhos lado a lado e encontra um animal em três e dois em um não precisa resolver a diferença para continuar lendo. Aprender a conviver com o que o texto não resolve é parte da leitura adulta da Bíblia.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus mandou os discípulos pegar animais sem pedir licença?

No versículo, sim: a ordem é desamarrar e trazer. Mas a licença está prevista no versículo seguinte, que antecipa a pergunta do dono e dá a resposta. Marcos 11:5-6 e Lucas 19:33-34 contam que a pergunta veio e que a resposta bastou. Mateus omite o diálogo e mostra só a ordem cumprida.

Se Mateus tem dois animais e os outros um, algum deles errou?

Não é possível decidir com o que se tem. Os comentaristas mais antigos diziam que mencionar um não é negar o outro; os modernos se perguntam por que um evangelho contaria dois se o outro não precisava. O dado certo é que os evangelhos chegaram até nós com a diferença, e ninguém, ao copiá-los, a apagou.

O jumentinho era pequeno demais para levar um adulto?

Depende da idade, que o texto não dá. Um jumento de um ou dois anos já carrega um adulto num trecho curto; um filhote de meses, não. Como Mateus não diz que o jumentinho nunca foi montado nem diz quantos meses tinha, a pergunta fica sem resposta no texto dele.

Por que a requisição romana importa para um episódio sem soldados?

Porque era a experiência que os ouvintes tinham de alguém soltar um animal alheio e levá-lo. O texto conta uma cena que, por fora, tinha a forma de uma requisição. Saber disso permite ver o que nela é diferente.

Os donos eram discípulos de Jesus?

Bengel e a Cambridge Bible acham que sim, e a hipótese é razoável, mas nenhum evangelho o diz. Mateus nem sequer mostra os donos.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo pedido nos outros evangelhos

Marcos 11:2 — "Vão ao povoado que está à frente de vocês; logo que entrarem nele, encontrarão um jumentinho amarrado, no qual ninguém jamais montou. Desamarrem-no e tragam-no."

Lucas 19:30 — "Vão ao povoado que está à frente; ao entrar, encontrarão um jumentinho amarrado, no qual nenhum homem jamais montou. Desamarrem-no e tragam-no."

Um animal, e o detalhe de que nunca foi montado — os dois pontos em que Mateus difere.

O profeta que explica os dois animais

Zacarias 9:9 — "Alegre-se muito, filha de Sião! Grite de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e salvador, humilde, montado num jumento, num jumentinho, filho de jumenta."

É o texto que Mateus citará em Mateus 21:5, com cortes e com um "e" entre os animais. A discussão sobre se a poesia fala de um animal ou de dois é daquele versículo.

O jumentinho amarrado, lido pelos primeiros cristãos

Gênesis 49:11 — "Ele amarra à videira o seu jumentinho e à videira escolhida o filho da sua jumenta; lava no vinho a sua roupa e no sangue das uvas o seu manto."

Na tradução grega, a palavra para o jumentinho é a mesma de Mateus, e o verbo é o de amarrar. Justino Mártir (apologista cristão do século II), na Primeira Apologia 32, já lia a jumenta amarrada à entrada do povoado como o cumprimento desta bênção de Jacó. A leitura alegórica e os seus limites estão discutidos no estudo de Gênesis 49:11.

O rei que toma jumentos

1 Samuel 8:16 — "Ele tomará os seus servos e as suas servas, os seus melhores jovens e os seus jumentos, e os porá a trabalhar para ele."

O retrato do rei que requisita. O versículo de Mateus tem a forma desse gesto, sem a força.

Encontros previstos como sinal para um rei

1 Samuel 10:2 — "Hoje, quando você se afastar de mim, encontrará dois homens junto ao túmulo de Raquel, em Zelza, no território de Benjamim. Eles lhe dirão: 'As jumentas que você foi procurar foram encontradas.'"

Samuel prevê, um por um, os encontros do caminho de Saul recém-ungido. O primeiro deles é sobre jumentas achadas.

Animais nunca postos sob o jugo

Números 19:2 — "Diga aos filhos de Israel que lhe tragam uma novilha vermelha, sem defeito, na qual nunca tenha sido posto jugo."

1 Samuel 6:7 — "Agora, façam uma carroça nova e tomem duas vacas que estejam amamentando, nas quais nunca se pôs jugo; atrelem as vacas à carroça e levem os bezerros de volta para casa, longe delas."

O animal intocado reservado a Deus, que Marcos e Lucas evocam e Mateus não. No segundo texto, as mães são separadas das crias; em Mateus, vêm juntas.

"Tragam a mim"

Mateus 14:18 — "Então ele disse: 'Tragam-nos aqui para mim.'"

Mateus 17:17 — "Respondeu Jesus: 'Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam-me o menino aqui.'"

Os pães para a multidão e o menino para a cura. Em Mateus 21:2, o que vem é para ele.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

dizendo-lhes: “Vão ao povoado que está à frente de vocês, e logo encontrarão uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrem-nos e tragam-nos a mim.

Texto grego (Textus Receptus)

λέγων αὐτοῖς, Πορεύθητε εἰς τὴν κώμην τὴν ἀπέναντι ὑμῶν, καὶ εὐθέως εὑρήσετε ὄνον δεδεμένην, καὶ πῶλον μετ᾿ αὐτῆς· λύσαντες ἀγάγετέ μοι.

Transliteração

legōn autois, Poreuthēte eis tēn kōmēn tēn apenanti hymōn, kai eutheōs heurēsete onon dedemenēn, kai pōlon met' autēs; lysantes agagete moi.

Análise palavra por palavra

λέγων αὐτοῖς — legōn autois, "dizendo-lhes". Particípio presente de legō, "dizer", ligado ao "enviou" do versículo anterior: o envio e a instrução são um só ato.

Πορεύθητε — poreuthēte, "vão". Imperativo aoristo de poreuomai, "ir, pôr-se a caminho". É a leitura do Textus Receptus e do texto bizantino. As edições críticas leem poreuesthe, imperativo presente. O aoristo apresenta a ida como um ato único e definido; o presente a apresenta como movimento em curso. Em português as duas viram "vão".

εἰς τὴν κώμην — eis tēn kōmēn, "ao povoado". Kōmē é a aldeia, o povoado sem muralha nem estatuto de cidade, em oposição a polis. Mateus usa a palavra poucas vezes, quase sempre em par com "cidades" (Mateus 9:35, 10:11, 14:15).

τὴν ἀπέναντι ὑμῶν — tēn apenanti hymōn, "que está à frente de vocês". Apenanti, "defronte, do lado oposto", com genitivo. O Textus Receptus tem apenanti; as edições críticas, katenanti, de mesmo sentido. Mateus usa apenanti outra vez para as mulheres "sentadas defronte do sepulcro" (Mateus 27:61).

καὶ εὐθέως — kai eutheōs, "e logo". O advérbio do imediato. Volta no fim de Mateus 21:3, e os dois "logo" emolduram a operação: logo vão encontrar, logo os animais serão enviados.

εὑρήσετε — heurēsete, "encontrarão". Futuro do indicativo de heuriskō. Não é ordem, é previsão: o tempo verbal diz o que vai acontecer.

ὄνον δεδεμένην — onon dedemenēn, "uma jumenta amarrada". Onos é substantivo de dois gêneros: a mesma palavra serve para o macho e para a fêmea, e quem diz o sexo é o que concorda com ela. Aqui é o particípio, no feminino: dedemenēn. Sem ele, o leitor não saberia que se trata de uma jumenta.

Dedemenēn é particípio perfeito passivo de deō, "amarrar". O perfeito descreve estado: ela foi amarrada e está amarrada. E ele concorda só com a jumenta. O jumentinho, que vem depois, não recebe particípio nenhum. O verbo e o seu uso figurado estão no estudo de Mateus 16:19, item 10.

καὶ πῶλον μετ᾿ αὐτῆς — kai pōlon met' autēs, "e com ela um jumentinho". Pōlos é o animal novo, o filhote de quadrúpede. No grego clássico, sem complemento, costuma designar o potro de cavalo; na tradução grega do Antigo Testamento designa também a cria do jumento, e é a palavra de Gênesis 49:11 e de Zacarias 9:9. Met' autēs, "com ela", no feminino: o filhote é definido pela mãe.

λύσαντες — lysantes, "tendo desamarrado". Particípio aoristo ativo de lyō, "soltar". O aoristo põe a soltura antes da ordem principal: primeiro soltem, depois tragam.

O grego não diz o que soltar. Não há pronome. A ABC acrescenta "-nos", e a escolha é natural, porque os dois animais vêm em seguida. Mas a frase grega, a rigor, solta o que está amarrado — e o que está amarrado é a jumenta.

ἀγάγετέ μοι — agagete moi, "tragam a mim". Imperativo aoristo de agō, "conduzir, levar", com o pronome no dativo. Também aqui o grego não diz o que trazer; o "-nos" de "tragam-nos" é da tradução. O verbo é o de conduzir um animal ou uma pessoa pela mão ou pela corda, e não o de carregar.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: Mateus constrói a cena em torno de um par, e não de um animal intocado. A jumenta amarrada vem primeiro, e o filhote a acompanha sem corda. A imagem de Marcos e Lucas, a do animal nunca montado e reservado, dá lugar à de mãe e cria trazidas juntas. Essa é a escolha própria deste evangelho, e ela prepara a citação profética que ele fará em seguida.

A segunda: a ordem tem a forma da requisição sem ter a sua substância. Soltar e levar o animal alheio era o gesto do poder que toma; aqui ele é feito por dois homens desarmados, que levam uma frase em vez de uma ordem escrita. O leitor do século I via o contraste sem que ninguém o apontasse.

A terceira: o versículo não diz como Jesus sabia o que os discípulos iam achar. Previsão, acerto ou sinal no modelo de Samuel e Saul — o texto sustenta a impressão de conhecimento antecipado e se cala sobre a sua origem. Afirmar mais do que isso é escolher uma leitura, não ler o texto.

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