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Mateus 21:6

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 20 acessos
Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia ordenado.
Dois homens desamarrando com cuidado uma jumenta e o seu filhote presos a uma argola de pedra na porta de uma casa simples de povoado, ao amanhecer.

Estudo


Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia ordenado.

1. Introdução

Depois da citação de Zacarias, a cena retoma onde parou. Os dois discípulos vão ao povoado e fazem o que Jesus mandou — e é só isso que Mateus conta. Não diz se acharam os animais como previsto, se alguém perguntou alguma coisa, se precisaram usar a resposta que levavam pronta. Marcos e Lucas contam tudo isso; Mateus reduz o episódio a uma linha sobre obediência. E essa linha, no grego, nem é uma frase completa: o verbo principal só vem no versículo seguinte.

2. Contexto Histórico e Cultural

O mandato: fazer exatamente o que foi pedido

No direito romano, o encargo de fazer algo por conta de outro chamava-se mandatum ("mandato"), e era por natureza gratuito: quem o aceitava não recebia pagamento, agia por amizade ou dever. A regra central do mandato foi resumida pelo jurista Paulo (Júlio Paulo, jurista romano do século III) num trecho conservado no Digesto (a grande compilação de direito romano mandada fazer pelo imperador Justiniano no século VI), livro 17, título 1: os limites do mandato devem ser guardados com cuidado, porque quem os ultrapassa é considerado como tendo feito outra coisa, e não o que lhe foi encomendado.

A fórmula do versículo — "fizeram como Jesus lhes havia ordenado" — descreve exatamente o mandato cumprido dentro dos limites. Não fizeram mais (ninguém negociou, ninguém explicou além do previsto) e não fizeram menos. E os discípulos agiam sobre propriedade alheia, com os riscos que a lei do empréstimo de animais lhes impunha, apoiados só na palavra de quem os mandou. A noção de que alguém age em nome de outro e com a autoridade dele, no direito judaico, foi tratada nos estudos de Mateus 10:40 e de Êxodo 16:8; o paralelo romano mostra que a mesma lógica era corrente também no mundo grego e latino em que o evangelho circulou.

Obedecer à palavra do mestre: "ele mesmo disse"

No mundo antigo havia uma fórmula célebre para a obediência de discípulo. Os seguidores de Pitágoras, segundo Diógenes Laércio (biógrafo grego dos filósofos, século III d.C.), encerravam qualquer discussão com autos epha, "ele mesmo disse" — e a palavra do mestre bastava. Cícero, em Sobre a natureza dos deuses (livro I, 10), conta o costume em latim, ipse dixit, e o critica: a autoridade de quem ensina, diz ele, muitas vezes atrapalha quem quer aprender, porque o aluno deixa de usar o próprio juízo.

O versículo 6 descreve uma obediência desse tipo — feita sem explicação —, e isso põe a pergunta de Cícero diante do leitor. Mas há uma diferença de natureza. A obediência pitagórica era obediência a uma doutrina: aceitar como verdade o que o mestre afirmou. A dos discípulos aqui é obediência a uma tarefa: ir a um lugar, fazer uma coisa e voltar. O que eles arriscam não é o próprio juízo, é o constrangimento de desamarrar o animal de um estranho.

3. Análise Teológica do Versículo

“Os discípulos foram”

Eles saem sem ter visto nada. Jesus lhes disse que encontrariam uma jumenta amarrada com a cria, que poderiam desamarrá-las, e que, se alguém reclamasse, bastaria dizer que o Senhor precisava delas. Tudo isso era, no momento em que saíram, uma previsão. Ir era apostar na palavra.

Mateus não diz o que sentiram nem se hesitaram. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) leem no silêncio a prontidão: eles não discutiram, não objetaram, não temeram. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) acrescenta o dado que o versículo 4 já deixara implícito: obedeceram sem saber o que aquilo significava. As duas leituras são possíveis; o texto apenas não registra hesitação.

O que Mateus não conta

Marcos conta a mesma busca em três versículos. Os dois discípulos acham o jumentinho "amarrado junto a uma porta, do lado de fora, na rua"; alguns dos que estavam ali perguntam "Que estão fazendo, desamarrando o jumentinho?"; eles respondem como Jesus tinha mandado, e os deixam ir (Marcos 11:4-6). Lucas diz que acharam tudo "como ele lhes tinha dito", e que foram os próprios donos que perguntaram (Lucas 19:32-34).

Mateus corta tudo isso. Não diz que acharam os animais como previsto. Não diz que alguém perguntou. Não diz que a senha "o Senhor precisa deles" foi usada. A cláusula condicional do versículo 3 — "se alguém disser algo a vocês" — fica sem desfecho: o leitor de Mateus não sabe se alguém disse alguma coisa.

O corte tem um efeito preciso. Marcos e Lucas mostram que a previsão de Jesus se confirmou em cada detalhe; o centro deles é o conhecimento de Jesus. Mateus deixa a confirmação de fora e conserva só o ato dos discípulos; o centro dele é a obediência. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do início do século XIX) ainda lê aqui um exemplo do conhecimento sobrenatural de Jesus, como a moeda no peixe — mas em Mateus esse dado não está escrito, está pressuposto.

Há também uma razão de economia. Mateus acabou de interromper a cena com a citação de Zacarias, e retomá-la com o diálogo dos donos alongaria um episódio cujo sentido o leitor já recebeu. É hipótese, e não exclui a primeira.

“e fizeram como Jesus lhes havia ordenado”

A frase fecha a moldura que o versículo 4 abriu — ordem, citação, execução. E entra num padrão de Mateus, o de narrar a execução das ordens práticas de Jesus, cuja exceção mais notável (a ordem a Pedro que o evangelho não mostra cumprida) é examinada no estudo de Mateus 17:27. O que é próprio daqui é o vocabulário e o eco.

"Foram e fizeram" é, palavra por palavra, o par de Êxodo 12:28: "E os filhos de Israel foram e fizeram; como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram". A fórmula de cumprimento das ordens divinas, que percorre o Êxodo, aparece aqui com Jesus no lugar do SENHOR como quem ordena. Mateus não comenta a troca, e uma fórmula tão comum pode ser só o modo natural de narrar uma execução. Mas o leitor que conhecia o Êxodo ouviria o eco, e o texto grego o reforça em parte da tradição manuscrita (item 10).

Duas duplas de verbos: "foram e fizeram", "abandonaram e fugiram"

No Textus Receptus, Mateus usa três vezes a abertura "tudo isso aconteceu para que se cumprisse". Duas delas são seguidas imediatamente por uma ação dos discípulos.

Aqui, depois da citação de Zacarias: os discípulos "foram e fizeram". Em Mateus 26:56, depois de "tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas": "então todos os discípulos o abandonaram e fugiram". Os mesmos homens, a mesma fórmula, e dois pares de verbos opostos — ir e fazer, abandonar e fugir.

Mateus não aponta a simetria, e ela pode ser só efeito de uma fórmula repetida. Mas ela diz algo sobre o que o evangelho registra dos discípulos: a obediência fácil na entrada triunfal, quando a tarefa era buscar um animal, e a fuga no jardim, quando a tarefa era ficar. Nenhum dos dois retratos é o definitivo, e o texto os conserva ambos.

Os filhos da parábola

No mesmo capítulo, Jesus conta a história de um pai que manda dois filhos trabalhar na vinha (Mateus 21:28-31). Um diz "não quero" e depois vai; o outro diz "eu vou, senhor" e não vai. Os discípulos do versículo 6 não aparecem em nenhum dos dois papéis: não dizem nada e vão. Entre a resposta de palavra e a resposta de ato, Mateus os mostra só no ato. A ligação é do leitor, não do texto — Mateus não a faz —, mas o capítulo põe as duas cenas a vinte versículos de distância.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois discípulos

Mateus não diz quem eram, nem Marcos, nem Lucas. A tradição tentou adivinhar: como Lucas 22:8 conta que Pedro e João foram mandados preparar a Páscoa, alguns supuseram que fossem os mesmos aqui. É conjectura sem apoio no texto. O anonimato combina com o versículo: o que importa é o que fizeram, não quem eram.

Jesus

Aparece no versículo só como quem ordenou. Está parado, à espera, no Monte das Oliveiras, enquanto os dois vão e voltam.

Os donos dos animais

Estão ausentes de Mateus. Em Marcos 11:5, "alguns dos que estavam ali" fazem a pergunta; em Lucas 19:33, são "os donos" do jumentinho. Mateus não os menciona em nenhum ponto da cena, nem antes nem depois.

O povoado

O versículo 2 o descreve como "o povoado que está à frente de vocês", sem nome. Pela geografia da cena, fica entre Betfagé e Jerusalém, ou é a própria Betfagé; a identificação é discutida e pertence ao estudo de Mateus 21:2.

O evento

A busca dos animais, no dia da entrada em Jerusalém. Em Mateus é narrada duas vezes de modo muito desigual: como ordem detalhada (versículos 2-3) e como execução de uma linha (versículo 6).

5. Pontos de Ensino

A obediência vem antes da confirmação

Os discípulos saem com uma previsão na cabeça e nenhuma prova nas mãos. Mateus nem chega a contar que a previsão se confirmou; conta só que eles foram. A ordem é obedecida antes de ser verificada.

Mateus põe o foco no ato, não no prodígio

Marcos e Lucas mostram como cada detalhe dito por Jesus aconteceu; Mateus corta essa parte. O episódio, em Mateus, é menos sobre o que Jesus sabia e mais sobre o que os discípulos fizeram.

Fazer o que foi pedido, nem mais nem menos

"Como Jesus lhes havia ordenado" mede a execução pela ordem. Não há iniciativa própria registrada, e não há falta.

A mesma fórmula do Êxodo

"Foram e fizeram" é o par com que o Êxodo registra a obediência de Israel às ordens de Deus. Em Mateus, a ordem vem de Jesus — eco que o texto não comenta e que o leitor da Bíblia hebraica reconheceria.

Os mesmos discípulos, em outro momento, fogem

O evangelho não idealiza. Os que aqui "foram e fizeram" vão, no jardim, abandonar e fugir. O versículo descreve uma obediência real, num dia em que obedecer era fácil.

6. Aspectos Filosóficos

Os discípulos recebem uma ordem e uma previsão. A ordem — vão, desamarrem, tragam — depende deles. A previsão — vocês encontrarão, e, se alguém perguntar, "logo os enviará" — não depende deles. Eles cumprem a primeira e entregam a segunda. Como se relaciona aquilo que se deve fazer com aquilo que só se pode aceitar?

Francisco de Sales e as duas vontades de Deus

Francisco de Sales (1567-1622), bispo católico de Genebra — com residência em Annecy, porque Genebra se tornara calvinista —, é um dos grandes mestres da vida espiritual do século XVII. Escreveu para leigos, gente casada e com ofício, e não para monges, e por isso a sua obra mais conhecida, a Introdução à Vida Devota (1609), dirigida a uma leitora chamada Filoteia, tornou-se um dos livros mais lidos da espiritualidade cristã.

No Tratado do Amor de Deus (1616), livros VIII e IX, ele faz uma distinção que serve exatamente a este versículo. Há, diz ele, a vontade de Deus significada: a que nos é dada a conhecer como mandamento, conselho, regra, ordem — aquilo que nos cabe fazer. E há a vontade de Deus de beneplácito: a que se manifesta nos acontecimentos, naquilo que acontece sem depender de nós — o que nos cabe aceitar. À primeira corresponde a obediência; à segunda, o que ele chama de santa indiferença, a disposição de acolher o resultado sem exigir que seja este ou aquele.

No versículo 6, as duas aparecem juntas. "Vão e tragam" é vontade significada, e os discípulos a cumprem. "Vocês encontrarão" e "logo os enviará" pertencem ao que não depende deles, e eles não fazem nada a respeito — não negociam, não preparam argumentos, não verificam antes. Fazem a parte que lhes cabe e deixam a outra entregue.

A obediência "sem réplica"

Na Introdução à Vida Devota, terceira parte, capítulo 11, Francisco de Sales trata da obediência e recomenda, em resumo, obedecer com doçura, sem réplica; com prontidão, sem demora; com alegria, sem queixa; e, acima de tudo, com amor. É quase a descrição do versículo: os discípulos não respondem nada, não adiam, e Mateus não registra nenhuma objeção.

Mas ele também distingue a obediência devida (aos que têm autoridade legítima, nas coisas em que a têm) de qualquer submissão. A obediência que ele elogia não é a de quem renuncia ao juízo em tudo, e sim a de quem reconhece, numa ordem determinada e lícita, a voz a que deve ouvir. Esse limite importa para ler o versículo. Os discípulos não obedecem a qualquer um, e não obedecem a qualquer coisa: obedecem a uma ordem precisa, de alguém que já tinham escolhido seguir, numa tarefa que não lhes pedia nada contrário à consciência.

Onde a leitura de Francisco de Sales tem limite

A distinção dele foi escrita para a vida interior de um cristão que já crê, e lida com a vontade de Deus. O versículo fala de dois homens que obedecem a Jesus de Nazaré, num tempo em que, segundo o próprio evangelho, ainda não compreendiam bem quem ele era. Aplicar a eles uma espiritualidade do século XVII é anacronismo, se for tomado como descrição do que pensaram. Como chave de leitura, porém, ela ilumina algo que o texto mostra e não nomeia: a obediência dos discípulos tem duas faces, uma ativa e outra passiva, e Mateus narra só a ativa — deixando a passiva, a de esperar que a previsão se cumpra, no silêncio.

E há outra objeção, moderna e legítima: a obediência sem réplica foi, ao longo da história, usada para justificar abusos de toda espécie. O versículo não dá base para isso. Ele não diz que obedecer sem perguntar é sempre bom; diz que, nesta ocasião, dois discípulos fizeram o que lhes foi mandado. Transformar o episódio em lei geral de submissão seria pedir ao texto o que ele não oferece.

7. Aplicações Práticas

Fazer a parte que cabe, e não a que não cabe

Os discípulos não tinham como garantir que os donos deixariam levar os animais. Tinham como ir. Muita ansiedade vem de tentar controlar o resultado que não depende de nós e, por isso, adiar o passo que depende. O versículo mostra o inverso: o passo dado, o resultado deixado em aberto.

Executar dentro do que foi pedido

Quem recebe uma tarefa de outro — no trabalho, na família, numa comunidade — tem a tentação de melhorá-la por conta própria, ou de cumpri-la pela metade. "Como lhes havia ordenado" é uma régua simples: a tarefa medida pelo pedido, não pela opinião de quem executa. Isso não vale para ordens injustas, e o versículo não trata delas.

A obediência de um dia não é retrato definitivo

Os mesmos discípulos que aqui obedecem sem hesitar fugirão na noite da prisão. Ninguém deve se julgar firme por ter cumprido uma ordem fácil, nem perdido por ter falhado numa difícil. O evangelho registra as duas coisas sobre as mesmas pessoas.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus tinha combinado antes com o dono dos animais?

É uma das duas explicações correntes para a precisão da ordem; a outra é o conhecimento extraordinário de Jesus. Jesus tinha amigos em Betânia, ali perto, e uma combinação prévia, com uma senha, é hipótese plausível. Mas nenhum evangelho a menciona, e Mateus, ao cortar até a cena da pergunta, não dá material nem para uma nem para outra. A discussão pertence à ordem dos versículos 2 e 3.

Por que Mateus não diz que encontraram tudo como Jesus dissera?

Talvez porque, para ele, isso já estivesse implícito no "fizeram como Jesus lhes havia ordenado": se trouxeram os animais (versículo 7), acharam-nos. Talvez porque o interesse dele fosse a obediência, e não a previsão. As duas respostas são hipóteses compatíveis.

Os discípulos sabiam que estavam cumprindo Zacarias?

Segundo João 12:16, não: só entenderam depois da glorificação de Jesus. Mateus não diz o contrário. A obediência deles, portanto, não era encenação de profecia; era resposta a uma ordem prática.

Essa obediência era fácil ou difícil?

Mais difícil do que parece. Desamarrar o animal de outra pessoa, num povoado, à vista de todos, era o tipo de gesto que podia acabar em acusação de furto. A resposta pronta ("o Senhor precisa deles") era tudo o que levavam. Mas, comparada à fidelidade que o evangelho exigirá deles na paixão, era tarefa pequena.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma busca nos outros evangelhos

Marcos 11:4-6 — "Eles foram e encontraram um jumentinho amarrado junto a uma porta, do lado de fora, na rua, e o desamarraram. Alguns dos que estavam ali lhes perguntaram: 'Que estão fazendo, desamarrando o jumentinho?' Eles responderam como Jesus lhes tinha dito, e os deixaram ir."

Tudo o que Mateus cortou: o lugar exato, a pergunta e a senha usada.

Lucas 19:32-34 — "Os que tinham sido enviados foram e acharam tudo como ele lhes tinha dito. Quando estavam desamarrando o jumentinho, os donos dele lhes perguntaram: 'Por que estão desamarrando o jumentinho?' Eles responderam: 'O Senhor precisa dele.'"

Lucas é o que mais insiste na confirmação da previsão.

Ordens cumpridas, em Mateus

Mateus 1:24 — "Quando José despertou do sono, fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu sua esposa;"

A primeira execução de ordem do evangelho, com o mesmo verbo grego de ordenar no Textus Receptus.

Mateus 26:19 — "Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha ordenado e prepararam a Páscoa."

A outra missão preparatória da última semana, com a mesma fórmula.

Mateus 26:56 — "Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas". Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

O par oposto de verbos, depois da mesma abertura.

A fórmula do Êxodo

Êxodo 12:28 — "E os filhos de Israel foram e fizeram; como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram."

O mesmo par, "foram e fizeram", com Deus como autor da ordem.

Dizer e fazer, no mesmo capítulo

Mateus 21:30 — "Chegando ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Eu vou, senhor'; mas não foi."

O filho que diz e não vai; os discípulos não dizem nada e vão.

A instrução de quem conhecia o hábito de obedecer

João 2:5 — "Sua mãe disse aos serventes: 'Façam tudo o que ele lhes disser.'"

Em Caná, a obediência a uma ordem estranha — encher talhas de água — também precede o sinal.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia ordenado.

Texto grego (Textus Receptus)

Πορευθέντες δὲ οἱ μαθηταί, καὶ ποιήσαντες καθὼς προσέταξεν αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς,

Transliteração

Poreuthentes de hoi mathētai, kai poiēsantes kathōs prosetaxen autois ho Iēsous,

Uma frase sem verbo principal

No grego, o versículo 6 não tem verbo principal. "Foram" e "fizeram" são particípios — "tendo ido", "tendo feito" — e a frase termina em vírgula. O verbo que eles preparam só aparece no versículo 7: ēgagon, "trouxeram". A frase inteira é: "Os discípulos, tendo ido e tendo feito como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho". A divisão em versículos, feita no século XVI, cortou a frase ao meio.

A ABC, como as demais traduções em português, transforma os dois particípios em verbos conjugados e fecha a frase com ponto. É a solução necessária para que o versículo se leia sozinho; o preço é apagar a subordinação. Em grego, ir e fazer não são o fato principal: são o caminho até ele, que é trazer os animais.

Análise palavra por palavra

Πορευθέντες — poreuthentes, "tendo ido". Particípio aoristo, de forma passiva e sentido ativo, de poreuomai, "ir, pôr-se a caminho", no nominativo plural. Mateus gosta dessa construção — o particípio de "ir" seguido de outra ação —, e ela foi analisada como forma de ordem no estudo de Mateus 17:27, onde Jesus diz a Pedro "indo ao mar, lance o anzol". Aqui ela aparece do outro lado: não na ordem, mas no relato do cumprimento. O verbo da ordem do versículo 2 é outro (poreuthēte, "vão", imperativo do mesmo verbo), e o relato devolve a mesma raiz em forma de fato realizado.

δὲ — de, "e então". Partícula que retoma a narrativa depois da interrupção da citação.

οἱ μαθηταί — hoi mathētai, "os discípulos". Com artigo definido: os dois do versículo 1, já conhecidos do leitor.

καὶ ποιήσαντες — kai poiēsantes, "e tendo feito". Particípio aoristo ativo de poieō, "fazer". Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) chama a atenção para essa construção: o fazer é apresentado como já concluído antes de o verbo principal chegar.

καθὼς — kathōs, "assim como, conforme". Advérbio de comparação que mede uma coisa por outra: o que fizeram corresponde ao que lhes foi dito.

προσέταξεν — prosetaxen, "ordenou". Aoristo do indicativo ativo de prostassō, "dispor, determinar, ordenar" — verbo de comando, usado para ordens de superior. Em Mateus, o Textus Receptus o tem em três lugares: a ordem do anjo a José (Mateus 1:24), a oferta "que Moisés ordenou" (Mateus 8:4) e este versículo.

Aqui há uma variante de peso. As edições críticas, seguindo os manuscritos mais antigos, leem synetaxen, de syntassō, "ordenar, prescrever" — o verbo que Mateus usa em Mateus 26:19 ("como Jesus lhes tinha ordenado") e Mateus 27:10 ("como o Senhor me ordenou"). Syntassō é também o verbo da Septuaginta nas fórmulas de execução do Êxodo, como no capítulo 40, em que tudo é feito "do modo como o Senhor ordenou a Moisés".

As duas leituras levam a ecos diferentes. Com prosetaxen, do Textus Receptus, o versículo se liga a Mateus 1:24, e a obediência dos discípulos repete a de José — outra execução que segue uma citação com "tudo isso". Com synetaxen, do texto crítico, o versículo se liga a Mateus 26:19 e à linguagem do Êxodo grego. Não é possível decidir com segurança qual é a original: a forma crítica tem os manuscritos mais antigos a seu favor, e a do Textus Receptus pode ter vindo de copistas que lembraram Mateus 1:24. O sentido básico — "ordenou" — é o mesmo nas duas.

αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς — autois ho Iēsous, "a eles, Jesus". Dativo de destinatário e o sujeito. O nome de Jesus volta aqui depois de três versículos em que ele não foi nomeado, e volta como fonte da ordem. A ABC traduz o aoristo por mais-que-perfeito ("havia ordenado"), o que é correto em português: a ordem é anterior à execução.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: Mateus escolheu contar a obediência e não a confirmação. Onde Marcos e Lucas mostram, detalhe por detalhe, que a previsão de Jesus se realizou, Mateus registra apenas que os discípulos foram e fizeram. O episódio, nele, deixa de ser prova de conhecimento e passa a ser retrato de execução.

A segunda: a obediência registrada aqui é medida pela ordem, e só por ela. "Como Jesus lhes havia ordenado" não elogia o zelo nem a iniciativa dos discípulos; diz que o que fizeram coincidiu com o que lhes foi dito. E a linguagem — o par "foram e fizeram", o verbo de ordenar — põe essa execução na mesma família das obediências a Deus contadas no Êxodo, sem que Mateus precise dizer isso.

A terceira: o versículo é verdadeiro sobre um dia, não sobre um caráter. Os mesmos discípulos que aqui vão e fazem vão abandonar e fugir depois da terceira fórmula de "tudo isso". O evangelho não oferece um modelo de discípulo sempre obediente; oferece um registro honesto de quando obedeceram e de quando não.

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