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Mateus 17:27

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 41 acessos
Mas, para não os escandalizarmos, vá ao mar e lance o anzol. Pegue o primeiro peixe que subir e, ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda de quatro dracmas. Pegue-a e entregue a eles, por mim e por você.”
Pescador sozinho sobre as pedras da margem de um lago ao amanhecer, lançando uma linha com anzol na água calma, com colinas ao fundo.

Estudo


Mas, para não os escandalizarmos, vá ao mar e lance o anzol. Pegue o primeiro peixe que subir e, ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda de quatro dracmas. Pegue-a e entregue a eles, por mim e por você.”

1. Introdução

O último versículo do capítulo é uma ordem, e o capítulo termina nela.

Jesus acabou de afirmar que os filhos estão livres do imposto. Agora manda pagar. E manda pagar de um modo que nenhum evangelho conta em outro lugar: Pedro deve ir ao lago, lançar um anzol, abrir a boca do primeiro peixe e ali encontrar a moeda exata para dois.

Quatro pontos organizam a leitura.

O primeiro é o motivo: "para não os escandalizarmos". O direito é deixado de lado por causa de quem veria a recusa.

O segundo é a moeda. Uma moeda de quatro dracmas pagava exatamente o imposto de duas pessoas — nem mais, nem menos.

O terceiro é "por mim e por você". Jesus paga junto com Pedro, com a mesma moeda.

O quarto é o que o texto não conta. Mateus não narra que Pedro foi pescar, nem que pegou o peixe, nem que achou a moeda, nem que pagou. O versículo registra a ordem e a previsão. Depois dele, o capítulo acaba.

2. Contexto Histórico e Cultural

A moeda de quatro dracmas

A palavra grega por trás de "moeda de quatro dracmas" é estáter (a moeda-padrão de prata, no uso da época equivalente a quatro dracmas). No primeiro século, na região, o estáter de circulação corrente e de prata confiável era o siclo cunhado em Tiro. A exigência de pagar o imposto do templo em moeda de Tiro, com a cabeça do deus da cidade, e a regra rabínica que a sustentava estão no estudo de Mateus 15:21, item 2, e não se repetem aqui.

O que interessa a este versículo é a conta.

O imposto era de duas dracmas por pessoa, como o estudo de Mateus 17:24 mostra. O siclo de Tiro valia quatro. Uma moeda pagava, portanto, o imposto de dois homens, exatamente. Era esse o uso prático: duas pessoas se juntavam e entregavam uma moeda inteira, em vez de cada uma procurar uma moeda de meio siclo.

A Mishná (a coletânea de tradições legais judaicas redigida por volta do ano 200), no tratado Shekalim, conhece esse caso. Ela discute uma pequena taxa extra, cobrada pelos cambistas na troca de moedas, e trata da situação de quem paga em sociedade com outro ou por outra pessoa. Os detalhes dessa taxa são discutidos já na própria Mishná, e não é possível afirmar que valessem na Galileia do tempo de Jesus. Mas a situação que ela supõe — dois pagando com uma moeda — é exatamente a do versículo.

O tesouro de Isfiya

A arqueologia oferece um indício material desse uso.

Na primavera de 1960, perto da aldeia de Isfiya, no monte Carmelo, foi encontrado um depósito escondido com cerca de 4.500 moedas de prata. Cerca de 3.400 eram siclos de Tiro; cerca de 1.000, meios siclos; e pouco mais de 160, denários romanos. As moedas de Tiro vão de por volta de 40 a.C. até 52 ou 53 d.C.

A proporção é o dado. Um tesouro formado quase só de siclos e meios siclos de Tiro, as moedas exigidas para o imposto do templo, é interpretado pela maioria dos estudiosos como uma remessa do imposto que nunca chegou a Jerusalém — escondida, talvez, nos anos de agitação que antecederam a guerra de 66. É hipótese bem fundada, e não certeza: nenhuma inscrição acompanha o depósito.

O que o tesouro mostra, com segurança, é que nele os siclos inteiros eram mais de três vezes mais numerosos que os meios siclos. Isso é compatível com o pagamento em dupla, com a moeda de quatro dracmas, como prática corrente — mas um depósito só não prova um costume.

Onde a moeda era cunhada

Há uma discussão numismática que vale registro breve. A partir de por volta de 18 a.C., os siclos de Tiro ganham um estilo mais tosco e umas letras próprias no campo da moeda. O numismata israelense Ya'akov Meshorer propôs que, desse período em diante, eles tenham sido cunhados em Jerusalém, com autorização romana, especificamente para o imposto do templo — mantendo o desenho de Tiro para garantir a aceitação. A hipótese é discutida e não há consenso.

Pescar com anzol no lago

A ordem manda Pedro fazer algo que não era o trabalho dele.

Os pescadores profissionais do lago da Galileia trabalhavam com redes. Mateus 4:18 apresenta Pedro e André "lançando a rede ao mar", e Mateus 13:47-48 descreve a grande rede de arrasto puxada para a praia. Pesca de rede era pesca de volume, de barco, em equipe, geralmente à noite.

O anzol era outra coisa: pesca individual, de linha, feita da margem ou de pedra, com isca, um peixe por vez. A Bíblia hebraica conhece as duas técnicas lado a lado — Habacuque 1:15 fala do inimigo que tira os povos "com o anzol", "com a rede" e "com o arrastão". Anzóis de bronze e pesos de rede aparecem nas escavações de aldeias da margem do lago.

O dado importa para a cena. Pedro, homem de rede, recebe a ordem de pescar como amador, com uma linha, e de ficar com "o primeiro" peixe. Não é pescaria de trabalho.

O peixe e a "tilápia que guarda moeda na boca"

As espécies do lago já estão descritas no estudo de Mateus 14:17: as tilápias, que a tradição chamou de peixe de São Pedro; os barbos; e uma sardinha pequena. Mateus não diz qual peixe era.

Circula há muito tempo uma explicação popular, repetida em guias de peregrinação e em restaurantes à beira do lago: o peixe seria uma tilápia, e o comportamento dessa espécie explicaria a moeda. As tilápias do lago guardam os ovos e os filhotes na boca durante semanas, e se conta que, depois de soltar os filhotes, alguns adultos continuam carregando na boca uma pedrinha ou um objeto brilhante do fundo — e poderiam, assim, carregar uma moeda.

Isso é proposta, não fato. Três coisas precisam ser ditas sobre ela.

A primeira é que o hábito de guardar ovos na boca é real e bem conhecido; o de carregar objetos depois disso é relato de pescadores e de guias, e não algo que o texto de Mateus diga ou pressuponha.

A segunda é uma objeção de quem conhecia o lago por dentro. Mendel Nun, pescador do kibutz Ein Gev e estudioso da pesca antiga na Galileia, observou que a tilápia se alimenta de plâncton e não morde isca: pesca-se com rede, não com anzol. Se o peixe do versículo foi pego com anzol, ele propõe que fosse um barbo, peixe que ataca a isca. A proposta de Nun também é hipótese, mas desmonta a identificação popular.

A terceira é que nenhuma dessas explicações está no texto. Mateus não diz que o peixe engoliu a moeda, nem que ela caiu no lago, nem que foi posta ali. Diz só que Pedro a encontraria.

O objeto de valor achado no peixe

Um último dado de cultura, com a devida cautela. A história de algo precioso encontrado dentro de um peixe era conhecida no mundo antigo.

Heródoto (historiador grego do século V a.C.) conta, no livro III das Histórias, que Polícrates, tirano de Samos, jogou ao mar o anel de que mais gostava para evitar a inveja dos deuses, e dias depois o anel voltou dentro de um peixe servido à sua mesa. O Talmude Babilônico, no tratado Shabbat, conta de um homem pobre, conhecido por honrar o sábado, que comprou um peixe caro para a refeição sabática e encontrou dentro dele uma pedra preciosa.

O motivo existia. Isso não significa que Mateus tenha tirado o episódio dali: as histórias são diferentes no sentido — num caso, o destino que devolve o que se quis perder; no outro, a recompensa de uma virtude. A cena de Mateus não é nem uma coisa nem outra. O paralelo mostra apenas que um ouvinte antigo não estranharia a imagem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas"

O versículo começa pela palavra que vira o episódio. Depois de "os filhos estão isentos", o esperado seria "portanto, não paguemos". O texto diz "mas".

O direito afirmado no versículo 26 não é negado. É posto de lado. O que vem a seguir não é pagamento de dívida; é renúncia, e o versículo diz por quê.

"para não os escandalizarmos"

A palavra "escandalizar" e o seu campo — a armadilha, a pedra de tropeço — estão nos estudos de Mateus 15:12 e de Mateus 16:23, item 10. O contraste entre este versículo e Mateus 15:12, onde Jesus não recua diante do escândalo dos fariseus, também já foi examinado naquele estudo, item 3. Não se reabre aqui.

O que é próprio deste versículo são três detalhes.

O primeiro é o sujeito: "nós". Jesus não diz "para que eu não os escandalize". Inclui Pedro. A decisão de renunciar é apresentada como decisão dos dois, e isso prepara o "por mim e por você" do fim.

O segundo é o objeto: "os". São os cobradores do versículo 24 — gente comum, encarregada da contribuição do templo, sem nenhuma hostilidade declarada. Não são fariseus em debate nem autoridades em processo. A renúncia é feita diante de pessoas que simplesmente não entenderiam a recusa.

O terceiro é o que seria o escândalo. O texto não explica, mas o contexto permite reconstruir. Um mestre que se recusasse a pagar a contribuição do templo seria visto como alguém que despreza o templo — e, com isso, tudo o que dissesse depois seria ouvido com essa marca. O tropeço não seria sobre as duas dracmas; seria sobre ele. É leitura plausível, não afirmação do texto.

"vá ao mar e lance o anzol"

O "mar" é o lago da Galileia, como em todo o evangelho. A ordem manda Pedro para o próprio lugar de trabalho, mas com o instrumento errado: anzol em vez de rede, como o item 2 mostra.

E há um contraste com o começo da história de Pedro. Em Mateus 4:18-19, ele foi chamado enquanto lançava a rede, e ouviu que seria pescador de homens. Aqui é mandado de volta a pescar peixe, sozinho, com linha. Não se deve carregar demais o contraste — o texto não o comenta —, mas ele está lá.

"Pegue o primeiro peixe que subir"

A ordem exclui a escolha. Não é "pesque até achar". É "o primeiro". Pedro não tem como procurar; só pode obedecer e verificar.

Isso muda a natureza do que se anuncia. Se Pedro pudesse pescar muitos peixes e abrir todos, a moeda seria sorte ou persistência. Sendo o primeiro, é previsão.

"e, ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda de quatro dracmas"

Aqui está o ponto em que as leituras se separam, e o texto dá pouco para decidir.

A leitura tradicional é de milagre. Dentro dela, há duas variantes. Numa, a moeda já estava no peixe — alguém a perdeu no lago, o peixe a engoliu —, e o extraordinário é o conhecimento de Jesus sobre isso, o mesmo conhecimento que o versículo 25 já sugeriu ao mostrá-lo antecipando-se a Pedro. Na outra, a moeda não estava ali antes, e o extraordinário é a provisão. O texto não diz qual das duas.

Uma leitura racionalista, do mesmo tipo da que o estudo de Mateus 15:37 descreve para as multiplicações, propôs que Jesus teria dito, em sentido figurado, que Pedro pescasse e vendesse o peixe para obter a moeda. Contra ela pesa o próprio texto: ele não fala em vender, e diz que a moeda seria encontrada "ao abrir-lhe a boca".

Há ainda quem proponha que a frase seja um dito proverbial, uma forma viva de dizer "Deus proverá o necessário", que a tradição depois entendeu ao pé da letra. É hipótese sem apoio direto no texto, e registrada aqui só porque circula.

O que se pode afirmar é o que está escrito: uma ordem e uma previsão no futuro, "você encontrará".

O que o texto não conta

Este é o dado mais importante do versículo, e é fácil passar por ele.

Mateus não narra o cumprimento. Não escreve "Pedro foi ao mar", não escreve "pegou um peixe", não escreve "achou a moeda e pagou". O episódio, e o capítulo, terminam na palavra de Jesus.

Isso não é o costume de Mateus. Quando Jesus dá uma ordem prática aos discípulos, o evangelho costuma registrar a execução. Em Mateus 21:6, depois da ordem de buscar a jumenta: "os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia ordenado". Em Mateus 26:19, depois da ordem de preparar a Páscoa: "os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha ordenado". E, quando Pedro recebe a palavra "venha" sobre o mar, Mateus 14:29 conta que ele desceu do barco e andou.

Aqui não há nada disso.

A leitura corrente supõe que a ordem foi cumprida, e é uma suposição razoável: não há motivo, no texto, para pensar o contrário. Mas é suposição. Quem prega "Pedro encontrou a moeda na boca do peixe" está contando o que o texto não conta.

Por que Mateus termina assim? Não é possível decidir. Uma explicação é que o interesse do episódio não está no prodígio, e sim no ensino sobre a liberdade e a renúncia, que já estava completo. Outra é que o cumprimento era óbvio para quem ouvia. As duas são plausíveis. O efeito, de todo modo, é que a última palavra do capítulo não é um milagre visto; é uma ordem dada.

"Pegue-a e entregue a eles"

O pagamento é feito por Pedro, com as próprias mãos, aos cobradores que o procuraram. Pedro, que no versículo 25 respondeu por Jesus, é quem executa a resposta.

Em português, "entregue" é a mesma palavra do anúncio da morte no versículo 22. Em grego não é: aqui é o verbo simples de dar, como o item 10 mostra. A coincidência é da tradução.

"por mim e por você"

A moeda paga os dois. Jesus e Pedro pagam juntos, com uma moeda só.

O primeiro efeito é de inclusão. O "nós" de "para não os escandalizarmos" se completa aqui. O que Jesus faz, faz com Pedro, e o que vale para ele — a liberdade do filho e a renúncia — é estendido ao discípulo. É o que sustenta a leitura, discutida no estudo de Mateus 17:26, de que "os filhos" sejam Jesus e os seus.

O segundo é uma pergunta sem resposta: e os outros discípulos? O texto não diz. Pedro é o dono da casa e foi o procurado; é possível que só a situação dele estivesse em questão. Não é possível ir além.

O terceiro é uma tensão que o leitor atento percebe. Em Mateus 4:3-4, Jesus recusou usar poder extraordinário em proveito próprio — não transformou pedras em pão. Aqui, se a leitura de milagre estiver certa, há um prodígio para pagar o próprio imposto. A tensão se reduz quando se nota o motivo declarado: não é o proveito dele, é não escandalizar os outros; e o benefício é dividido com Pedro. Mas ela existe, e não precisa ser escondida.

Há, por fim, um eco que alguns comentaristas apontam. A contribuição de meio siclo, em Êxodo 30:12, era chamada de "resgate pela vida". E a expressão "por mim e por você" usa a mesma preposição de Mateus 20:28, onde o Filho do homem veio "dar a sua vida em resgate por muitos". A ligação é sugestiva e frágil: a preposição é comum, e o texto não a desenvolve. Registre-se como leitura possível, não como sentido do versículo.

Uma moeda exata

Um último detalhe. Nas duas multiplicações de pães, Mateus fez questão de registrar a sobra: doze cestos em Mateus 14:20, sete cestos em Mateus 15:37. Aqui não há sobra. A moeda paga exatamente o que se deve, para exatamente duas pessoas. O que o versículo anuncia não é abundância; é o suficiente.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pedro

Recebe quatro ordens seguidas — ir, lançar, pegar, entregar — e nenhuma fala. O texto não registra o que ele fez com elas. O papel dele no evangelho está nos estudos de Mateus 14:28 e Mateus 16:22.

Os cobradores

São "eles", os mesmos do versículo 24. O pagamento lhes é destinado, e é por causa deles que o direito é deixado de lado. Não aparecem mais.

O mar

O lago da Galileia, que o evangelho sempre chama de "mar". Os seus nomes estão no estudo de Mateus 14:34.

O peixe

Sem espécie informada. As espécies do lago estão no estudo de Mateus 14:17, e as propostas de identificação, no item 2.

A moeda

Um estáter, a moeda de quatro dracmas — na prática, o siclo de Tiro, que valia o imposto de duas pessoas. Os detalhes estão no item 2 e no estudo de Mateus 15:21.

O que vem depois

O capítulo termina aqui. Mateus 18 abre com "naquela hora", e os discípulos perguntam quem é o maior no Reino dos céus. A pergunta sobre posições vem logo depois de um episódio em que o maior abriu mão de um direito.

5. Pontos de Ensino

O direito pode ser deixado de lado por causa dos outros

O versículo mostra alguém que tem razão e não a usa. O motivo não é medo nem conveniência: é o efeito que a recusa teria sobre pessoas que não entenderiam.

O limite também está no evangelho. Em Mateus 15:12, diante do escândalo dos fariseus, Jesus não recuou. A renúncia não é regra geral; depende do que está em jogo, e aqui o que estava em jogo eram duas dracmas.

A renúncia é compartilhada

"Para não os escandalizarmos" e "por mim e por você". O discípulo é incluído tanto na decisão quanto no pagamento. Não há um mestre que renuncia enquanto o aluno observa.

A provisão é exata

A moeda cobre o que é devido e nada mais. O versículo não promete sobra; promete o necessário para cumprir o que se decidiu cumprir.

O texto para na palavra

Mateus encerra o capítulo sem narrar o cumprimento. O leitor fica com a ordem e com a previsão, e não com o espetáculo. O ensino do episódio não depende de ver a moeda sair do peixe: estava completo quando Jesus disse por que ia pagar.

6. Aspectos Filosóficos

Uma ordem e uma previsão bastam para afirmar um fato?

O versículo não relata um acontecimento. Relata uma ordem ("vá, lance, pegue, entregue") e uma previsão ("você encontrará"). Tudo o que se diz sobre a moeda encontrada é inferência a partir disso.

A questão pertence à teoria do testemunho: qual a diferença entre crer que algo foi dito e crer que aquilo aconteceu? Um relato de promessa não é um relato de cumprimento, ainda que o leitor confie em quem prometeu. Tratar as duas coisas como uma só é comum, e é exatamente o que a leitura corrente deste versículo faz.

O limite é que Mateus não discute nada disso. Encerra o capítulo e deixa ao leitor a distância entre a palavra e o fato.

7. Aplicações Práticas

Ceder no que é pequeno

Há situações em que se tem razão sobre um ponto secundário — uma taxa, um costume, uma formalidade da comunidade — e insistir nela custaria a confiança de gente que não tem culpa de não entender. O versículo mostra que abrir mão, nesses casos, não é fraqueza nem hipocrisia. É escolher o que importa.

O cuidado é o de Mateus 15:12: o que se cede é o secundário. O que é o próprio conteúdo da fé não entra nessa conta.

Incluir o outro na renúncia

Jesus não paga só por si. Paga por Pedro também, e o faz participar. Em famílias, em equipes, em comunidades, quem abre mão de algo costuma fazê-lo sozinho e depois cobrar reconhecimento. O "por mim e por você" aponta outro caminho: decidir junto e arcar junto.

Não contar o que o texto não conta

Há uma aplicação para quem ensina a Bíblia. Este versículo costuma ser pregado como se narrasse a moeda achada. Não narra. A honestidade com o texto começa em coisas pequenas assim: dizer o que está escrito, e marcar o que é suposição.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Pedro encontrou a moeda?

O texto não diz. A suposição de que sim é razoável e é a leitura corrente. Mas Mateus, que costuma narrar o cumprimento das ordens de Jesus, aqui não narra.

Por que Jesus não pagou com dinheiro do grupo?

O texto não explica. João 12:6 e João 13:29 mencionam uma bolsa comum, guardada por Judas. Uma explicação possível é que a forma do pagamento reforça o que o versículo 26 afirmou: o Filho não paga do que deve, mas do que recebe. É leitura, não informação do texto.

O episódio é histórico ou simbólico?

É discutido. Há quem o leia como relato de um fato, há quem o leia como um dito figurado que ganhou forma de cena, e há quem veja nele material que só Mateus conservou por interesse da sua comunidade. Não é possível decidir com base em um único evangelho e num texto que termina antes do fato.

Por que só Pedro é incluído?

Não se sabe. Pedro foi o procurado pelos cobradores e, provavelmente, o dono da casa. É possível que só a situação dos dois estivesse em questão naquele momento. Construir sobre isso uma posição especial de Pedro vai além do texto.

9. Conexão com Outros Textos

O escândalo em Mateus

Mateus 15:12 — "Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram: 'Sabes que os fariseus se ofenderam quando ouviram essa palavra?'"

O caso em que Jesus não recua diante do escândalo.

Mateus 18:6 — "Mas quem levar ao pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem nas profundezas do mar."

Logo no capítulo seguinte, o tema do tropeço volta, agora aplicado aos pequeninos.

Pedro, a rede e o anzol

Mateus 4:18 — "Andando Jesus junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, lançando a rede ao mar, pois eram pescadores."

A pesca profissional de Pedro: com rede.

Habacuque 1:15 — "Ele tira todos com o anzol, apanha-os com a sua rede e os ajunta no seu arrastão; por isso se alegra e exulta."

As técnicas de pesca lado a lado na Bíblia hebraica.

Ordens cumpridas e narradas

Mateus 21:6 — "Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia ordenado."

Mateus 26:19 — "Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha ordenado e prepararam a Páscoa."

O padrão de Mateus, que este versículo não segue.

Sem proveito próprio

Mateus 4:3-4 — "E o tentador, aproximando-se dele, disse: 'Se Tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães.' Mas ele respondeu: 'Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.'"

A recusa de usar poder para si, que ilumina a tensão do versículo.

"Por"

Mateus 20:28 — "assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos."

A mesma preposição de "por mim e por você", num contexto de resgate.

Êxodo 30:12 — "Quando você fizer o recenseamento dos israelitas, cada um dará ao SENHOR um resgate pela sua vida, para que não haja praga entre eles."

O imposto do templo em sua origem, citado em português moderno.

A sobra e a medida

Mateus 14:20 — "Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram recolheram doze cestos cheios."

A abundância com sobra, em contraste com a moeda exata.

Livres, mas sem escandalizar

1 Coríntios 8:13 — "Por isso, se a comida faz o meu irmão tropeçar, nunca mais comerei carne, para não fazer o meu irmão tropeçar."

Paulo aplica a mesma lógica a outro assunto: um direito real deixado de lado por causa do outro.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas, para não os escandalizarmos, vá ao mar e lance o anzol. Pegue o primeiro peixe que subir e, ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda de quatro dracmas. Pegue-a e entregue a eles, por mim e por você.”

Texto grego

ἵνα δὲ μὴ σκανδαλίσωμεν αὐτούς, πορευθεὶς εἰς τὴν θάλασσαν βάλε ἄγκιστρον, καὶ τὸν ἀναβάντα πρῶτον ἰχθὺν ἆρον· καὶ ἀνοίξας τὸ στόμα αὐτοῦ εὑρήσεις στατῆρα· ἐκεῖνον λαβὼν δὸς αὐτοῖς ἀντὶ ἐμοῦ καὶ σοῦ.

Transliteração

hina de mē skandalisōmen autous, poreutheis eis tēn thalassan bale ankistron, kai ton anabanta prōton ichthyn aron; kai anoixas to stoma autou heurēseis statēra; ekeinon labōn dos autois anti emou kai sou.

Análise palavra por palavra

ἵνα δὲ μὴ — hina de mē, "mas, para que não".

Hina introduz finalidade; mē é a negação própria do subjuntivo; de é a partícula adversativa, "mas", que marca a virada em relação ao versículo 26.

σκανδαλίσωμεν αὐτούς — skandalisōmen autous, "escandalizemos a eles".

Aoristo subjuntivo, primeira pessoa do plural, de skandalizō. O sentido do verbo está nos estudos de Mateus 15:12 e Mateus 16:23, item 10.

O dado deste versículo é a pessoa verbal: primeira do plural, "nós". E a voz: ativa. Em Mateus 15:12, os fariseus "foram escandalizados", na passiva; aqui, "nós" seríamos os que escandalizam. O aoristo vê o tropeço como um ato único, que a recusa provocaria.

πορευθεὶς εἰς τὴν θάλασσαν — poreutheis eis tēn thalassan, "indo ao mar".

Particípio aoristo de poreuomai, "ir, pôr-se a caminho". Mateus usa com frequência essa construção — particípio de "ir" seguido de imperativo — como uma ordem em dois tempos: "vá e faça". Thalassa, "mar", é o nome que os evangelhos de Mateus e Marcos dão ao lago da Galileia.

βάλε ἄγκιστρον — bale ankistron, "lança o anzol".

Bale é imperativo aoristo de ballō, "lançar, atirar" — o mesmo verbo de "lançando a rede" em Mateus 4:18.

Ankistron, "anzol", vem de ankos, "curva, dobra": o objeto curvo. A palavra só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Em nenhum outro lugar os evangelhos mostram alguém pescando com anzol.

τὸν ἀναβάντα πρῶτον ἰχθὺν ἆρον — ton anabanta prōton ichthyn aron, "o primeiro peixe que subir, tira-o".

Anabanta é particípio aoristo de anabainō, "subir". O peixe "sobe" preso à linha. Prōton, "primeiro", é o adjetivo que elimina a escolha. Ichthys é a palavra comum para peixe. Aron é imperativo aoristo de airō, "levantar, tirar, pegar".

καὶ ἀνοίξας τὸ στόμα αὐτοῦ — kai anoixas to stoma autou, "e, abrindo a boca dele".

Particípio aoristo de anoigō, "abrir". A ação é de Pedro: é ele quem abre.

εὑρήσεις — heurēseis, "encontrarás".

Futuro do indicativo de heuriskō, "achar, encontrar". Esta é a forma decisiva para a questão do item 3.

No meio de uma série de imperativos — vá, lance, tire, dê —, este verbo não é ordem. É previsão. O futuro do indicativo afirma o que vai acontecer. O texto grego não diz "procura" nem "talvez encontres"; diz "encontrarás". E não há, depois dele, nenhum verbo no passado que diga que o encontro aconteceu.

στατῆρα — statēra, "um estáter".

Acusativo de statēr. A palavra vem da raiz de histēmi, "pôr de pé, estabelecer" e, no uso comercial, "pesar, pôr na balança". O estáter era, na origem, um peso-padrão; depois, a moeda-padrão de uma cidade. No período romano, no Oriente, o nome se aplicava correntemente à moeda de prata de quatro dracmas, a tetradracma.

No Novo Testamento, a palavra só aparece aqui. A tradução ABC resolve o nome pela equivalência — "moeda de quatro dracmas" —, que é exatamente o que faz a conta do episódio funcionar: duas vezes as duas dracmas do versículo 24.

ἐκεῖνον λαβὼν δὸς αὐτοῖς — ekeinon labōn dos autois, "tomando aquele, dá a eles".

Ekeinon, "aquele", retoma o estáter. Labōn é particípio aoristo de lambanō, "tomar" — o verbo dos cobradores, "os que recebiam", no versículo 24. Pedro "toma" a moeda para que eles a "recebam".

Dos é imperativo aoristo de didōmi, "dar". É o verbo simples, e não o composto paradidōmi do anúncio da morte no versículo 22. A tradução portuguesa usa "entregue" nos dois lugares; o grego distingue.

ἀντὶ ἐμοῦ καὶ σοῦ — anti emou kai sou, "por mim e por ti".

Anti é a preposição de substituição e de troca: "em lugar de", "em troca de", "correspondente a". É a de Mateus 5:38, "olho por olho" — um olho em troca de um olho —, e a de Mateus 20:28, "resgate por muitos".

Aqui, o sentido mais direto é o de equivalência comercial: a moeda corresponde à parte devida por Jesus e à parte devida por Pedro. Ler na preposição um sentido de resgate, pelo eco com Mateus 20:28 e com o "resgate pela vida" de Êxodo 30:12, é possível e discutido; a preposição, sozinha, não o impõe.

A ordem dos pronomes também conta: primeiro "mim", depois "ti". Os dois estão juntos, na mesma construção, governados pela mesma preposição, sem distinção de valor.

11. Conclusão

Com base no que foi examinado, o versículo leva a quatro conclusões.

A primeira é que a obediência ao costume, neste episódio, é escolha e não dívida. Ela vem depois de um direito afirmado, começa com "mas" e declara o seu motivo. Quem lê o pagamento como prova de que Jesus se reconhecia obrigado ao imposto passa por cima do versículo 26; quem lê o versículo 26 como autorização para não pagar passa por cima deste.

A segunda é que a renúncia inclui o discípulo. O "nós" do escândalo e o "por mim e por você" do pagamento põem Pedro dentro da decisão e dentro da liberdade que a precede. Daí decorre que a leitura mais bem apoiada de "os filhos" é a que abrange Jesus e os seus.

A terceira é que a moeda anunciada é exata. Ela paga o devido por dois e nada mais. Num evangelho que registra cestos de sobra nas multiplicações, o contraste indica que o episódio não trata de abundância, mas de cumprir, sem excesso, o que se decidiu cumprir.

A quarta é sobre o que se pode afirmar. O versículo contém uma ordem e uma previsão, e o capítulo termina nelas. Não há relato de pesca, de moeda achada nem de pagamento. Conclui-se que a moeda na boca do peixe, como fato narrado, não está no texto — está na leitura que o texto torna natural. As explicações sobre peixes que guardam objetos na boca respondem a uma pergunta que Mateus não fez.

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Mateus 17:27

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%