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Mateus 18:6

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 35 acessos
Mas quem levar ao pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem nas profundezas do mar.
Um moinho romano de pedra em forma de ampulheta, com um jumento preso à armação girando em círculo, no pátio de uma padaria antiga.

Estudo


Mas quem levar ao pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem nas profundezas do mar.

1. Introdução

Depois de falar de receber os pequenos, Jesus fala de quem os derruba. Para esse, diz ele, seria melhor ir para o fundo do mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.

A pedra não é qualquer uma: é a mó grande, que só um jumento conseguia girar. O mar não é a margem: é o alto-mar, de onde nada volta. E a frase não condena ninguém a essa morte; diz que ela seria melhor do que o que espera quem faz cair um "destes pequeninos que creem em mim".

2. Contexto Histórico e Cultural

A mó de jumento

No mundo antigo havia dois tipos de moinho de grãos, e a diferença entre eles é a chave da imagem.

O primeiro era o moinho de mão: duas pedras redondas e pequenas, a de baixo fixa e a de cima girada à mão por uma alavanca. Existia em quase toda casa, e moer o grão do dia era trabalho de mulheres e de escravos. É o moinho de Mateus 24:41, "duas mulheres estarão moendo no moinho", e o da escrava "que está detrás da mó" em Êxodo 11:5.

O segundo era o moinho de animal: uma pedra grande, em forma de ampulheta, que girava sobre outra em forma de cone. O movimento era feito por um jumento, preso à armação e andando em círculo. Era o moinho das padarias e das grandes propriedades. Catão, escritor romano do século II a.C., ao listar os equipamentos de uma fazenda de oliveiras, distingue exatamente os dois: "uma mó de jumento e uma mó de empurrar" (Da agricultura 10.4).

Esses moinhos de animal foram achados em grande número em Pompeia, a cidade soterrada pelo Vesúvio no ano 79. Em 2023, escavações ali revelaram uma padaria em que jumentos de olhos vendados e trabalhadores escravizados giravam as pedras, confinados num espaço fechado. A pedra de cima pesava muito mais do que um homem consegue levantar.

É essa a pedra do versículo. O grego diz "mó de jumento", e a ABC traduz por "grande pedra de moinho". Quem ouvia imaginava não a pedra que as mulheres giravam em casa, mas a que precisava de um animal para mover.

O afogamento como pena

Afogar alguém com um peso ao pescoço não era só uma imagem. Era uma forma conhecida de execução.

Suetônio, biógrafo romano do começo do século II, conta que o imperador Augusto mandou lançar num rio, com pesos amarrados ao pescoço, o tutor e os criados do seu neto Caio, que tinham abusado do cargo durante a doença do rapaz (Vida de Augusto 67).

E a Galileia conhecia o método. Josefo, historiador judeu do século I, relata que, na guerra de Herodes pelo trono, por volta de 38 a.C., os galileus se revoltaram e afogaram no lago os partidários de Herodes (Antiguidades judaicas 14.450). Os ouvintes de Jesus viviam à beira desse lago.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas quem levar ao pecado"

O verbo é o do tropeço: fazer alguém cair. A ABC traduz "levar ao pecado", e o sentido, no evangelho, é o de fazer alguém abandonar a fé ou desviar-se dela, e não o de ofender ou magoar. O verbo e a imagem da armadilha que ele carrega estão no estudo de Mateus 15:12.

O versículo 5 falava de receber os pequenos. O 6 fala do contrário: não de deixar de recebê-los, mas de derrubá-los.

"um destes pequeninos que creem em mim"

A palavra muda. Até aqui era "criança". Agora é "pequeninos", e eles são definidos por uma coisa que criança pequena não costuma fazer: crer em Jesus. O que marca esses "pequeninos" já não é a idade, e sim a fé e a pequenez diante dos outros.

É a única vez em Mateus em que aparece a expressão "crer em mim". Nos outros lugares o evangelho fala de fé, de crer, de ter fé, mas não com Jesus como objeto dito assim. A frase une os pequenos a Jesus pela fé deles, do mesmo modo que o versículo 5 os unia pelo acolhimento.

O "destes" aponta para alguém presente. Pode ser a criança, que ainda está no meio da roda. Pode ser o grupo dos discípulos, que Jesus já tinha chamado de "pequeninos" em Mateus 10:42. Não é possível decidir, e o texto deixa as duas coisas juntas.

"melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho"

A frase não diz que se deve fazer isso a ninguém. Diz o que seria "melhor" para quem derruba um pequenino: uma das mortes mais duras que se conheciam, e ainda assim preferível.

O que viria no lugar dela o versículo não diz. A comparação deixa a coisa pior em aberto, e os versículos 8 e 9 vão falar de "fogo eterno". Aqui, só se fica sabendo que é pior que o fundo do mar.

O tamanho da pedra reforça o peso da frase. Com a mó de mão, alguém talvez voltasse à tona. Com a mó de jumento, não (ver o item 2).

"e o afundassem nas profundezas do mar"

O grego diz "no alto-mar", longe da margem. Quem se afoga perto da costa pode ser achado e enterrado. No alto-mar, com uma pedra ao pescoço, o corpo nunca volta. Para um judeu, ficar sem sepultura era uma desgraça a mais.

A imagem do corpo que some é a mesma de Apocalipse 18:21, em que um anjo lança ao mar uma pedra "como uma grande pedra de moinho" e diz que a Babilônia "não será mais achada". A pedra no mar é o que desaparece para sempre.

E há uma diferença entre quem ameaça e quem é ameaçado. Os pequeninos não têm peso nenhum. Quem os derruba recebe, na imagem, o maior peso que um homem daquele tempo conseguia imaginar amarrado a si.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Continua a falar aos discípulos, agora com uma ameaça.

Os pequeninos que creem

Os que têm fé e não têm posição. Podem ser crianças ou discípulos humildes; o texto usa uma palavra que serve para os dois.

Quem os faz cair

O texto não diz quem é. Pode ser alguém de fora ou alguém de dentro da comunidade. O contexto do capítulo, que trata da vida entre os discípulos, sugere que Jesus pensa sobretudo nos de dentro.

O mar

O "alto-mar", longe da costa. Para os galileus, a palavra "mar" servia também para o lago de Genesaré, onde se afogaram os partidários de Herodes (ver o item 2).

Catão, Suetônio e Josefo

Catão, escritor romano do século II a.C.; Suetônio, biógrafo romano do começo do século II; Flávio Josefo, historiador judeu do século I. Citados no item 2.

5. Pontos de Ensino

Derrubar um pequeno é tratado como coisa gravíssima

A ameaça é a mais dura do capítulo, e o alvo é quem faz cair quem não tem defesa.

Os pequeninos são definidos pela fé

"Que creem em mim": a idade deixa de ser o critério.

A frase compara, não sentencia

Jesus não manda afogar ninguém. Diz que o afogamento seria melhor que o que espera o culpado.

O pior não é descrito aqui

O versículo só diz que é pior que o fundo do mar. O que é, os versículos 8 e 9 vão dizer.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo mede a gravidade de uma falta pela fragilidade de quem a sofre. Derrubar um forte e derrubar um pequeno podem ser o mesmo ato, mas não têm o mesmo peso: o pequeno não tem como se defender, e depende da confiança que depositou nos outros. A responsabilidade cresce com a vulnerabilidade da vítima e com a confiança traída. É um princípio que os códigos humanos também reconhecem quando agravam as penas de quem abusa de uma posição sobre crianças ou dependentes.

7. Aplicações Práticas

Levar a sério o dano aos que confiam

O versículo fala de quem faz cair os pequeninos que creem. Em comunidades religiosas, isso tem formas bem concretas: o líder que abusa de uma criança, o pastor que explora a fé de quem confia nele, o mestre que usa a autoridade para manipular. A frase de Jesus não trata esses casos como deslizes a serem administrados em silêncio. Trata-os como a coisa mais grave que alguém pode fazer, e põe o peso da ameaça sobre o culpado, não sobre a vítima.

Não proteger a instituição à custa do pequeno

A tentação de encobrir um escândalo para preservar a imagem do grupo é antiga. O versículo mostra de que lado Jesus está: do lado de quem foi derrubado. Quem protege quem derruba os pequenos se põe do outro lado da frase.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus aprovava o afogamento como pena?

Não. Ele não manda aplicar essa pena; usa-a como termo de comparação. A frase diz que uma morte terrível seria melhor do que o destino de quem derruba um pequeno.

"Levar ao pecado" é o mesmo que ofender?

Não. No evangelho, o verbo quer dizer fazer alguém cair, desviar-se, perder a fé. Ofender alguém, no sentido de magoar, é outra coisa.

Os "pequeninos" são crianças?

Podem ser, mas o texto os define como os "que creem em mim". A palavra serve também para os discípulos humildes, como em Mateus 10:42.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo dito em Marcos e Lucas

Marcos 9:42 — "Mas quem puser uma pedra de tropeço no caminho de um destes pequeninos que creem, melhor seria que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e que fosse lançado no mar."

Lucas 17:2 — "Melhor seria para ele que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e que fosse lançado no mar do que pôr uma pedra de tropeço no caminho de um destes pequeninos."

O verbo "afundar" em Mateus

Mateus 14:30 — Mas, ao ver o vento forte, teve medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!”

A única outra ocorrência do verbo no Novo Testamento.

Não escandalizar, no episódio anterior

Mateus 17:27 — Mas, para não os escandalizarmos, vá ao mar e lance o anzol. Pegue o primeiro peixe que subir e, ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda de quatro dracmas. Pegue-a e entregue a eles, por mim e por você.”

Os pequeninos que já eram os discípulos

Mateus 10:42 — E qualquer que der de beber a um destes pequeninos ainda que um só copo de água fria, por ser ele discípulo, em verdade lhes digo, de modo nenhum perderá a sua recompensa.

A pedra lançada ao mar

Apocalipse 18:21 — "Um forte anjo levantou uma pedra como uma grande pedra de moinho e lançou-a no mar, dizendo: Assim com violência será precipitada Babilônia, a grande cidade, e ela não será mais achada."

O moinho de mão

Mateus 24:41 — Duas mulheres estarão moendo trigo no moinho; uma será levada e a outra será deixada.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas quem levar ao pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem nas profundezas do mar.

Texto grego

ὃς δ’ ἂν σκανδαλίσῃ ἕνα τῶν μικρῶν τούτων τῶν πιστευόντων εἰς ἐμέ, συμφέρει αὐτῷ ἵνα κρεμασθῇ μύλος ὀνικὸς ἐπὶ τὸν τράχηλον αὐτοῦ, καὶ καταποντισθῇ ἐν τῷ πελάγει τῆς θαλάσσης.

Transliteração

hos d' an skandalisē hena tōn mikrōn toutōn tōn pisteuontōn eis eme, sympherei autō hina kremasthē mylos onikos epi ton trachēlon autou, kai katapontisthē en tō pelagei tēs thalassēs.

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) diz que a pedra é pendurada "sobre" o pescoço (epi); as edições críticas trazem "em volta do" pescoço (peri). O sentido é o mesmo.

Análise palavra por palavra

ὃς δ’ ἂν σκανδαλίσῃ — hos d' an skandalisē, "mas quem fizer tropeçar". Aoristo do subjuntivo de skandalizō, "fazer tropeçar, fazer cair". O de, "mas", marca o contraste com o "quem receber" do versículo 5.

ἕνα τῶν μικρῶν τούτων — hena tōn mikrōn toutōn, "um destes pequenos". Hena, "um", com ênfase: basta um. Mikros é "pequeno" em tamanho, idade ou importância. É outra palavra, não mais paidion, "criança". Mikros volta nos versículos 10 e 14 e amarra o capítulo.

τῶν πιστευόντων εἰς ἐμέ — tōn pisteuontōn eis eme, "que creem em mim". Particípio presente de pisteuō, "crer, confiar", com eis, "em, para dentro de". Em Mateus, é a única vez que pisteuō eis tem Jesus como objeto.

συμφέρει αὐτῷ — sympherei autō, "é vantajoso para ele". O verbo quer dizer "ser útil, convir, trazer proveito". É o mesmo de Mateus 5:29-30, "é melhor para você perder um dos seus membros", e de Mateus 19:10, "não convém casar". A ABC traduz "melhor seria".

ἵνα κρεμασθῇ — hina kremasthē, "que fosse pendurada". Aoristo passivo do subjuntivo de kremannymi, "pendurar, suspender". O mesmo verbo serve, em Mateus 22:40, para dizer que toda a Lei "depende" de dois mandamentos.

μύλος ὀνικὸς — mylos onikos, "mó de jumento". Mylos é "mó, pedra de moinho", e também o próprio moinho. Onikos vem de onos, "jumento": "de jumento, movida por jumento". É a mó grande das padarias, contra a mó de mão das casas (ver o item 2). A ABC traduz "grande pedra de moinho".

ἐπὶ τὸν τράχηλον αὐτοῦ — epi ton trachēlon autou, "sobre o pescoço dele". Trachēlos é "pescoço".

καὶ καταποντισθῇ — kai katapontisthē, "e fosse afundado". Aoristo passivo do subjuntivo de katapontizō, "lançar ao fundo do mar, afogar". A palavra e a sua única outra ocorrência no Novo Testamento estão no estudo de Mateus 14:30.

ἐν τῷ πελάγει τῆς θαλάσσης — en tō pelagei tēs thalassēs, "no alto-mar". Pelagos é o mar aberto, longe da costa, e thalassa é o mar em geral. Juntos, "o alto do mar": a expressão insiste na distância da terra, mais do que na profundidade. A ABC traduz "nas profundezas do mar", o que dá o resultado da imagem; o grego fala do lugar.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.

Os pequeninos passam a ser definidos pela fé. A palavra "criança" dá lugar a "pequeninos que creem em mim". O que o capítulo protege daqui em diante não é uma faixa de idade, é quem confia em Jesus e não tem peso no grupo.

A ameaça mais dura do capítulo é contra quem derruba os que não se defendem. A imagem foi escolhida no extremo do que se conhecia: a mó que só um animal movia, o alto-mar de onde o corpo não volta. E ainda assim é apresentada como o destino melhor.

O versículo compara e não descreve. Ele não manda executar ninguém e não diz o que acontecerá ao culpado. Diz apenas que seria preferível o fundo do mar. O que fica além disso fica para os versículos seguintes.

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