E quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe a mim.
1. Introdução
Jesus passa de "tornar-se como criança" para "receber uma criança": quem a recebe em nome dele recebe a ele.
Receber, aqui, é acolher em casa, dar lugar e atenção. A frase põe Jesus do lado de quem não tinha lugar. E deixa uma pergunta que o texto não fecha: "uma criança como esta" é uma criança de verdade, ou o discípulo que se tornou pequeno?
2. Contexto Histórico e Cultural
A criança que ninguém recebia
No mundo grego e romano, receber uma criança não era evidente. O pai decidia, logo depois do parto, se o recém-nascido seria criado. Se não quisesse, a criança era "exposta": deixada num lugar público, num monte de lixo ou à beira de uma estrada. Podia morrer ali, ou ser recolhida por alguém, quase sempre para ser criada como escrava. A prática era legal e comum, sobretudo com meninas e com crianças doentes ou deformadas. O documento mais direto sobre ela, uma carta de um trabalhador à mulher em que ele manda expor a criança se for menina, está no estudo de Êxodo 1:22.
A diferença judaica
Os judeus não expunham os filhos, e os de fora reparavam nisso. Josefo, historiador judeu do século I, escreve em Contra Ápion (2.202) que a Lei manda criar todos os filhos que nascem. Tácito, historiador romano do começo do século II, que não tinha simpatia nenhuma pelos judeus, registra o mesmo como curiosidade: entre eles, é crime matar qualquer filho que nasça depois do herdeiro (Histórias 5.5).
Os primeiros cristãos herdaram a regra. A Didaquê ("Ensino", um manual cristão do fim do século I) proíbe matar o recém-nascido (2:2). E a Carta a Diogneto, do século II, diz dos cristãos que eles "se casam e têm filhos como todos, mas não expõem os que nascem" (5:6).
O que isso faz com a frase
No mundo em que Mateus escrevia, havia crianças que literalmente não eram recebidas por ninguém. "Quem receber uma criança" não era imagem vazia: descrevia um gesto que muitos se recusavam a fazer.
3. Análise Teológica do Versículo
"E quem receber"
O verbo é o da hospitalidade: acolher alguém em casa, dar comida, abrigo, atenção. Em Mateus 10, é o que se espera que as cidades façam com os discípulos enviados, e "não receber" é fechar a porta a eles (Mateus 10:14).
No versículo 4, o discípulo era chamado a se pôr no lugar da criança. Aqui, é chamado a receber quem está nesse lugar. As duas coisas vêm juntas: descer até embaixo e acolher quem já está lá.
"uma criança como esta"
Quem é "uma criança como esta"? O texto não define, e há duas leituras.
Primeira leitura: uma criança de verdade. Jesus aponta a criança que está no meio da roda e fala de outras iguais a ela. Receber uma criança, cuidar dela, dar-lhe lugar, é receber o próprio Jesus. Nessa leitura, o versículo fala do cuidado com as crianças reais da comunidade.
Segunda leitura: o discípulo que se tornou como criança. O versículo 4 acabou de dizer que o grande é quem se faz pequeno. "Uma criança como esta" seria, então, o discípulo que desceu a esse lugar. E o versículo 6 muda de palavra: não fala mais de "criança", e sim de "um destes pequeninos que creem em mim". Nessa leitura, o versículo fala de como tratar os membros mais humildes da comunidade.
Não é possível decidir. O versículo está exatamente na passagem de uma imagem para a outra, e as duas cabem nele.
"em meu nome"
A expressão diz o motivo. Não é receber a criança por ser bonita, por ser da família ou por ser útil, e sim por causa de Jesus. O versículo não pede uma fórmula a ser dita; diz por que o gesto é feito.
"recebe a mim"
Em Mateus 10:40, Jesus já tinha dito "quem recebe vocês recebe a mim". Lá, quem é recebido é o discípulo enviado em missão: alguém que representa Jesus porque foi mandado por ele.
Aqui a lógica se inverte. A criança não foi enviada, não tem missão, não representa ninguém. Não traz mensagem nem autoridade. E ainda assim quem a recebe recebe Jesus. A identificação não depende mais de um encargo; depende só de a pessoa ser pequena.
O princípio do enviado que vale pelo seu mandante está no estudo de Mateus 10:40.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Identifica-se com a criança: recebê-la é recebê-lo.
A criança
A que está no meio da roda, tomada como exemplo de outras: "uma criança como esta".
Os discípulos
Os ouvintes. A frase lhes dá uma tarefa, receber, depois de lhes ter dado uma condição, tornar-se pequenos.
Josefo e Tácito
Flávio Josefo, historiador judeu do século I, e Tácito, historiador romano do começo do século II, citados no item 2.
5. Pontos de Ensino
Tornar-se pequeno e receber os pequenos andam juntos
O versículo 4 pede a descida; o 5 pede o acolhimento de quem está embaixo.
Receber é um gesto concreto
É hospitalidade: casa, comida, atenção. Não é um sentimento.
Jesus se identifica com quem não representa nada
Diferente de Mateus 10:40, a criança não é enviada. Vale por ser pequena.
O motivo decide o sentido do gesto
"Em meu nome": o acolhimento é feito por causa de Jesus.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo liga o valor de uma pessoa a algo que não depende do que ela pode oferecer. A criança não retribui, não tem influência, não abre portas. Receber quem pode retribuir é troca; receber quem não pode é outra coisa, e é essa outra coisa que o versículo equipara a receber Jesus. A frase desfaz a ideia de que a hospitalidade se mede pelo retorno, e põe o peso do gesto em quem é recebido, não em quem recebe.
7. Aplicações Práticas
Dar lugar às crianças
Numa igreja, as crianças costumam ser tratadas como um problema de organização: onde deixá-las durante o culto, quem cuida delas. O versículo diz que recebê-las é receber Jesus. Isso muda o peso da tarefa de quem cuida, ensina e acolhe crianças, que muitas vezes é a menos valorizada da comunidade.
Acolher os que não retribuem
Se "uma criança como esta" é também o discípulo mais humilde, o versículo alcança quem não tem prestígio no grupo: o recém-chegado, o que não fala bem, o que não tem cargo. Recebê-lo com a mesma atenção dada aos importantes é o gesto que o versículo descreve.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo fala de crianças ou de adultos?
As duas leituras são possíveis (ver o item 3). O versículo está na transição entre a criança real, posta no meio, e os "pequeninos que creem", do versículo seguinte.
Receber "em nome de Jesus" é dizer uma fórmula?
Não. A expressão indica o motivo do gesto: fazê-lo por causa de Jesus. O texto não fala de palavras a pronunciar.
E quem acolhe crianças sem pensar em Jesus?
O versículo não trata disso. Ele diz o que acontece com quem recebe "em meu nome", e não diz nada sobre os outros casos. Mateus 25:37-40, em que os justos não sabiam que serviam a Jesus, abre outra discussão.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo dito em Marcos e Lucas
Marcos 9:37 — "Aquele que receber um destes meninos em meu nome a mim é que recebe; e aquele que me receber recebe não a mim, mas àquele que me enviou."
Lucas 9:48 — "e disse-lhes: Quem receber este menino em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; pois aquele que dentre vós todos é o menor, esse é grande."
Marcos e Lucas completam a cadeia até "aquele que me enviou". Mateus para em "recebe a mim".
Receber o enviado
Mateus 10:40 — Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.
Mateus 10:42 — E qualquer que der de beber a um destes pequeninos ainda que um só copo de água fria, por ser ele discípulo, em verdade lhes digo, de modo nenhum perderá a sua recompensa.
Os "pequeninos" já eram os discípulos.
O que se faz aos menores
Mateus 25:40 — E o Rei lhes responderá: “Eu digo a verdade a vocês: sempre que fizeram isso a um destes meus irmãos mais humildes, foi a mim que fizeram.”
Convidar quem não pode retribuir
Lucas 14:13-14 — "Pelo contrário, quando deres um festim, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, por não terem eles com que te recompensar, pois serás recompensado na ressurreição dos justos."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe a mim.
Texto grego
καὶ ὃς ἐὰν δέξηται παιδίον τοιοῦτον ἕν ἐπὶ τῷ ὀνόματί μου, ἐμὲ δέχεται·
Transliteração
kai hos ean dexētai paidion toiouton hen epi tō onomati mou, eme dechetai;
As edições críticas modernas trazem outra ordem de palavras, "uma criança assim", com o "uma" no começo. O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) põe o "uma" no fim. O sentido não muda.
Análise palavra por palavra
καὶ ὃς ἐὰν — kai hos ean, "e quem quer que". O pronome relativo com ean abre a frase a qualquer pessoa.
δέξηται — dexētai, "receber". Aoristo médio do subjuntivo de dechomai, "receber, acolher". É o verbo da hospitalidade: acolher um hóspede, aceitar uma pessoa ou uma palavra. Em Mateus 10:14 e 10:40-41 é o verbo do acolhimento aos discípulos enviados.
παιδίον τοιοῦτον ἓν — paidion toiouton hen, "uma criança assim". Toiouton é "tal, deste tipo": não "esta criança", e sim "uma criança como esta". Hen, "uma", no fim, tem leve ênfase no Textus Receptus: "uma só que seja".
ἐπὶ τῷ ὀνόματί μου — epi tō onomati mou, "em meu nome". A preposição epi com o dativo indica o fundamento de uma ação: "com base em, por causa de". A frase não diz "invocando o meu nome", e sim "por causa do meu nome". Mateus usa a mesma expressão em Mateus 24:5, para os que viriam "em meu nome" dizendo "eu sou o Cristo".
ἐμὲ δέχεται — eme dechetai, "recebe a mim". O pronome eme, "a mim", vem antes do verbo, com ênfase: "é a mim que recebe". O presente, dechetai, diz que o acolhimento de Jesus acontece no mesmo ato, e não depois.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira é que o capítulo não se limita a pedir que o discípulo desça. Pede também que ele receba quem já está embaixo. E faz isso num mundo em que havia crianças que ninguém recebia.
A segunda é que a identificação de Jesus com o acolhido deixa de depender de missão. Em Mateus 10, quem recebe o enviado recebe quem o enviou. Aqui, a criança não foi enviada por ninguém, e basta ser pequena para que recebê-la seja receber Jesus. Se a "criança como esta" é a criança real ou o discípulo que se fez pequeno, o texto deixa aberto; nos dois casos, o critério é a pequenez.













