Portanto, quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus.
1. Introdução
Aqui vem, enfim, a resposta à pergunta do versículo 1: o maior no Reino é quem se torna humilde como aquela criança.
A criança não escolheu ser pequena; estava embaixo porque era criança. O discípulo, ao contrário, tem de se pôr embaixo por decisão própria. O que se imita nela não é uma virtude, é o lugar. E a frase diz que esse "é" o maior, no presente.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Humilde": uma palavra de lugar antes de ser palavra de caráter
Em português, "humilde" é antes de tudo uma qualidade moral: a pessoa modesta, que não se gaba. No mundo de Jesus, a palavra começava em outro ponto. Ela dizia onde alguém estava.
No grego
O adjetivo grego tapeinos ("baixo") e o verbo da mesma família descreviam primeiro o que fica embaixo: o terreno baixo, a margem de um rio, a posição social inferior, o ânimo abatido. O pobre, o escravo e o derrotado eram tapeinoi. Na literatura grega, a palavra aparece quase sempre em sentido negativo. O homem livre não era elogiado por ser "baixo"; baixo era o servil.
O Novo Testamento conserva o sentido físico. Em Lucas 3:5, que cita Isaías, "todo monte será abaixado" com o mesmo verbo que Mateus usa aqui para "tornar-se humilde". O monte não fica modesto: fica mais baixo.
No hebraico
No hebraico da Bíblia, as palavras para "humilde" e para "pobre" vêm da mesma raiz. O anav ("humilde") e o ani ("pobre, oprimido") são parentes: o humilde é, antes de tudo, quem está por baixo, sem poder para se impor. Por isso os salmos e os profetas põem Deus do lado dos humildes no mesmo sentido em que o põem do lado dos pobres.
O judaísmo, ao contrário da cultura grega, fez da humildade uma virtude. Moisés é chamado "muito humilde, mais do que qualquer homem" (Números 12:3). E a Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) guarda, no tratado Avot 4:4, o conselho de um mestre chamado Levitas de Yavne: "sê muito, muito humilde de espírito, porque o que espera o homem é o verme".
O ouvinte judeu de Jesus conhecia, portanto, as duas coisas: a humildade como posição de quem está embaixo e a humildade como virtude de quem não se exalta. O versículo junta as duas numa só frase.
3. Análise Teológica do Versículo
"Portanto"
A palavra liga a frase ao versículo anterior. Se só entra quem se torna como criança, então a medida da grandeza também é essa. A resposta ao versículo 1 sai da condição do versículo 3.
"quem se tornar humilde"
O grego diz, ao pé da letra, "quem se rebaixar a si mesmo". É um ato do próprio sujeito, feito sobre si. Ninguém é rebaixado por outro; a pessoa se põe embaixo.
"como esta criança"
Em que a criança era humilde? O texto não enumera qualidades dela, e há duas leituras.
Primeira leitura: a criança é humilde por caráter. Não tem orgulho, não busca glória, não guarda rancor, confia em quem cuida dela. Foi a leitura de muitos pregadores antigos e é a mais comum hoje. Ela faz da criança um exemplo moral.
Segunda leitura: a criança é humilde por posição. Ela está embaixo porque não tem voz, não tem bens, não tem lugar nas decisões. Não escolheu isso nem tem mérito nisso. É o sentido de "humilde" como "baixo" (ver o item 2).
O próprio versículo pesa para a segunda. Jesus diz "quem se rebaixar como esta criança", e não "quem for humilde como esta criança é". A criança não se rebaixou; já estava embaixo. O que se pede ao discípulo é descer, por vontade própria, até o lugar em que ela está sem ter escolhido. A comparação é entre dois lugares, não entre duas virtudes.
E o contexto confirma. A pergunta era sobre hierarquia. A resposta põe no topo alguém que estava na base. Qualquer criança, e não uma criança especialmente boa, serve para a lição. Jesus chamou uma qualquer, e Mateus não diz nada sobre o comportamento dela.
Isso desfaz uma leitura muito difundida: a de que Jesus elogia a inocência ou a pureza infantil. O texto não fala disso. Crianças brigam, disputam o maior pedaço, querem ser as primeiras, e Jesus não diz o contrário. O que elas não têm é posição a defender.
O próprio Jesus se descreve com um adjetivo da mesma família: "manso e humilde de coração", no estudo de Mateus 11:29.
"esse é o maior no Reino dos céus"
A pergunta do versículo 1 recebe resposta exata, com as mesmas palavras: "o maior no Reino dos céus". Jesus não recusa a ideia de grandeza. Ele diz quem é grande, e o nome é o de quem se pôs embaixo.
O verbo está no presente: "esse é o maior", não "será". A grandeza não é uma promessa de recompensa futura para quem aguentar a humilhação agora. A frase diz que, na régua do Reino, descer já é ser grande.
E o "esse" tem ênfase no grego: "esse, e não outro". Os discípulos esperavam um nome entre os doze. A resposta é uma descrição que qualquer um pode cumprir, e que nenhum deles cumpria no momento em que perguntou.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Responde à pergunta do versículo 1, apontando para a criança: "esta criança".
A criança
Ainda no meio da roda. Passa a ser a medida da grandeza.
Os discípulos
Recebem a resposta que pediram, mas não a que esperavam.
Philippe Ariès
Historiador francês (1914-1984), autor de História social da criança e da família, citado no item 6.
5. Pontos de Ensino
O maior é quem desce, e não quem sobe
A régua do Reino é o inverso da pergunta dos discípulos.
O que se imita na criança é o lugar
A criança não se rebaixou; estava embaixo. O discípulo escolhe ir para lá.
A humildade aqui é um ato, não um sentimento
"Rebaixar-se" é fazer alguma coisa consigo. Não basta pensar pouco de si.
A grandeza é dita no presente
"Esse é o maior." Não é prêmio adiado.
Qualquer um pode cumprir a condição
A resposta não aponta uma pessoa; descreve uma atitude aberta a todos.
6. Aspectos Filosóficos
A criança que não existia
Quem lê "como esta criança" hoje pensa quase sem querer em inocência, pureza, espontaneidade. Parece a leitura óbvia. O historiador francês Philippe Ariès mostrou que ela não é óbvia: tem data.
No livro História social da criança e da família, publicado na França em 1960, Ariès sustentou que a infância como a imaginamos, uma idade à parte, frágil e inocente, que precisa ser protegida e educada separadamente, é uma construção da Europa moderna. Ela se firmou entre os séculos XVII e XVIII, com a escola, a família nuclear e uma nova sensibilidade religiosa. Antes disso, dizia ele, a criança passava da dependência da primeira idade diretamente para o mundo dos adultos, e a pintura medieval a mostrava como um adulto em tamanho menor.
A tese foi muito criticada. Historiadores da Idade Média mostraram que pais medievais amavam os filhos, choravam a morte deles e reconheciam as necessidades próprias da infância. Ariès exagerou ao dizer que o "sentimento da infância" não existia. Mas o núcleo do argumento ficou: o que uma sociedade entende por "criança" muda, e o valor moral que hoje damos à inocência infantil não é universal.
O que isso faz com o versículo
Quem ouvia Jesus não tinha a criança romântica na cabeça. Uma criança era alguém que ainda não contava: sem voz, sem bens, sem posição. Dizer "tornem-se como esta criança" era dizer "ponham-se onde ela está", e não "sejam puros como ela é".
O leitor moderno corre o risco de ler o versículo com uma ideia de infância que é dele. A consequência não é pequena. A leitura da inocência transforma a frase num elogio agradável; a leitura da posição a transforma numa exigência dura, dirigida a homens adultos que discutiam hierarquia.
Ariès não escreveu sobre este versículo, e a aplicação é de quem o lê. O que o livro dele oferece é o aviso de que "criança" não quer dizer a mesma coisa em todas as épocas, e que o texto de Mateus foi escrito numa em que ela quase não tinha lugar.
7. Aplicações Práticas
Descer por conta própria
O versículo não pede que se aceite uma humilhação imposta por outro. Pede que a pessoa se ponha embaixo por decisão sua. Na prática, é o chefe que faz a tarefa que ninguém quer, o mais velho que deixa o mais novo decidir, o que tem razão e não faz questão de mostrar que tem. A grandeza que o versículo descreve está em escolher o lugar baixo quando se poderia ocupar o alto.
Não confundir humildade com falar mal de si
A criança não se diminui com palavras; ela simplesmente não tem posição a defender. A humildade do versículo aparece no lugar que se ocupa e no que se deixa de disputar, não em frases de autodepreciação.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus está dizendo que as crianças são moralmente melhores que os adultos?
O texto não diz isso. Ele não elogia o comportamento da criança; aponta a posição dela. Quem se põe no lugar dela é grande, e não quem imita as qualidades que atribuímos às crianças.
Então ser humilde é ser pobre ou oprimido?
Não. A criança está embaixo sem escolher. O discípulo se põe embaixo por escolha. A frase não elogia a opressão; pede que quem tem posição abra mão dela.
O maior do Reino vai ser recompensado depois?
O versículo diz que ele "é" o maior, no presente. Outras passagens falam de exaltação futura (Mateus 23:12), mas esta frase afirma uma grandeza que já vale.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo, com promessa
Mateus 23:11-12 — O maior entre vocês será servo de vocês. Pois quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.
A inversão das posições
Mateus 20:26-27 — Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser se tornar importante entre vocês seja o servidor de vocês; e quem quiser ser o primeiro entre vocês seja seu escravo;
Lucas 1:52 — "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes."
Os "humildes" do cântico de Maria são os de baixo, oposto aos poderosos.
O verbo em sentido físico
Lucas 3:5 — "Todo vale será aterrado, e todo monte e outeiro será arrasado; os caminhos tortos far-se-ão direitos, e os escabrosos, planos;"
O monte "rebaixado" com o mesmo verbo.
Rebaixar-se a si mesmo
Filipenses 2:8 — "e, sendo reconhecido como homem, humilhou-se, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz."
A mesma construção, "rebaixou a si mesmo", aplicada a Jesus.
O próprio Jesus
Mateus 11:29 — Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.
Uma criança desmamada
Salmo 131:1-2 — "Ó Jeová, o meu coração não é soberbo, nem os meus olhos são altivos. Não me ocupo de grandes matérias, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Ao contrário, tenho sossegado e acalmado a minha alma; qual uma criança desmamada sobre o seio de sua mãe, qual uma criança desmamada, está a minha alma para comigo."
A criança associada a quem desiste das "grandes matérias".
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Portanto, quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus.
Texto grego
ὅστις οὖν ταπεινώσῃ ἑαυτὸν ὡς τὸ παιδίον τοῦτο, οὗτός ἐστιν ὁ μείζων ἐν τῇ βασιλείᾳ τῶν οὐρανῶν.
Transliteração
hostis oun tapeinōsē heauton hōs to paidion touto, houtos estin ho meizōn en tē basileia tōn ouranōn.
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz o verbo no subjuntivo, tapeinōsē; as edições críticas modernas, no futuro, tapeinōsei. Em grego as duas formas soavam quase igual, e o sentido é o mesmo.
Análise palavra por palavra
ὅστις οὖν — hostis oun, "quem, portanto". Hostis é o pronome "quem quer que", que abre a frase a qualquer pessoa. Oun, "portanto", tira a conclusão do versículo 3.
ταπεινώσῃ ἑαυτὸν — tapeinōsē heauton, "rebaixar a si mesmo". Aoristo do subjuntivo de tapeinoō, "tornar baixo, rebaixar", com o pronome reflexivo heauton, "a si mesmo". A ABC traduz "se tornar humilde".
O verbo vem do adjetivo tapeinos, "baixo". Tem sentido físico (o monte rebaixado de Lucas 3:5) e social (os "humildes" exaltados em Lucas 1:52). Em Mateus aparece só aqui e em Mateus 23:12, as duas vezes com o reflexivo: "quem se rebaixar". A mesma construção, etapeinōsen heauton, "rebaixou a si mesmo", é a de Filipenses 2:8.
Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.), tapeinos traduz com frequência o hebraico anav e ani, "humilde" e "pobre".
ὡς τὸ παιδίον τοῦτο — hōs to paidion touto, "como esta criança". Touto, "esta", é demonstrativo de proximidade: aponta a criança que está ali. No versículo 3 era "as crianças", em geral; aqui é esta, a que Jesus pôs no meio.
A comparação pode ser lida de dois modos pela gramática: "rebaixar-se como a criança se rebaixa" ou "rebaixar-se até ficar como esta criança". A criança não pratica a ação do verbo, e por isso o segundo modo é o mais natural.
οὗτός ἐστιν — houtos estin, "esse é". O demonstrativo retoma o hostis do começo com ênfase: "esse, e só esse". O verbo está no presente.
ὁ μείζων — ho meizōn, "o maior". O mesmo comparativo do versículo 1, agora com artigo. A pergunta era tis meizōn, "quem é maior"; a resposta é houtos… ho meizōn, "esse é o maior". As palavras da pergunta voltam na resposta.
ἐν τῇ βασιλείᾳ τῶν οὐρανῶν — en tē basileia tōn ouranōn, "no Reino dos céus". Repete exatamente o fim da pergunta do versículo 1.
11. Conclusão
Com base no que se viu, o versículo leva a três conclusões.
Jesus responde à pergunta, e responde com as mesmas palavras. Há um "maior no Reino dos céus". A resposta não dissolve a hierarquia; troca o critério dela.
O que se imita na criança é o lugar, não uma virtude. A criança está embaixo sem ter escolhido. O discípulo é chamado a descer por decisão própria até lá. O verbo "rebaixar a si mesmo", que a criança não pratica, é o que desfaz a leitura da inocência infantil.
A grandeza vem com a descida, e não depois dela. "Esse é o maior", no presente. Na régua do Reino, pôr-se embaixo já é ser grande, sem esperar recompensa futura.













