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Mateus 18:3

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 31 acessos
e disse: “Eu asseguro a vocês: se não mudarem e não se tornarem como crianças, de jeito nenhum entrarão no Reino dos céus.
Jesus sentado falando aos discípulos, com uma criança de pé ao lado dele, enquanto os homens adultos ouvem com expressão séria.

Estudo


e disse: “Eu asseguro a vocês: se não mudarem e não se tornarem como crianças, de jeito nenhum entrarão no Reino dos céus.

1. Introdução

Os discípulos perguntaram quem seria o maior no Reino. Jesus responde que, sem mudar, eles nem vão entrar.

Com a criança de pé no meio deles, ele põe duas condições: mudar e tornar-se como crianças. E dá o aviso com a negação mais forte do grego: "de jeito nenhum". A pergunta era sobre os degraus lá dentro; a resposta começa pela porta, e é dita a quem já seguia Jesus.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Voltar": a palavra dos profetas

O verbo que a ABC traduz por "mudar" quer dizer, ao pé da letra, "voltar-se, virar-se". Para um ouvinte judeu, a ideia de mudar de vida tinha justamente esse nome: voltar.

Os profetas de Israel chamavam o povo com um único verbo hebraico, shuv ("voltar"). "Voltem para mim, e eu voltarei para vocês", diz Deus em Malaquias 3:7. "Voltem, filhos rebeldes", em Jeremias 3:22. A mudança de vida era descrita como um caminho que se refaz: quem se afastou dá meia-volta. Mais tarde, os mestres judeus chamariam o arrependimento de teshuvá, "volta".

Quem ouvia "se não se voltarem" pensava nisso. Não num sentimento, e sim numa mudança de direção.

O convertido "como uma criança que acaba de nascer"

Os mestres judeus tinham também uma imagem para quem começava do zero. O Talmude da Babilônia (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do século VI) repete, em vários lugares, uma regra sobre o pagão que se converte ao judaísmo: "o convertido é como uma criança recém-nascida" (tratado Yevamot, folha 22a).

A frase tinha efeito jurídico. Os laços de parentesco do convertido com a família de antes deixavam, em princípio, de valer para a Lei: ele recomeçava a vida, como quem nasce. A regra é registrada séculos depois de Jesus, e não se pode afirmar que já circulasse assim no tempo dele. Mas mostra que, no mundo judaico, "tornar-se como criança" podia querer dizer recomeçar do zero, sem a posição que se tinha antes.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eu asseguro a vocês"

Jesus abre com a fórmula solene que usa para o que não admite discussão (ver o item 10). O que vem a seguir não é conselho: é condição.

"se não mudarem"

A frase é dita aos discípulos: aos doze que deixaram tudo, que foram enviados em missão (Mateus 10), que acabaram de perguntar pelo seu lugar no Reino. Jesus não fala de pecadores de fora. Fala a quem já está com ele, e diz que também eles precisam mudar.

O verbo grego é "voltar-se, virar-se". O que quer dizer "voltar-se" aqui? O texto não explica, e há três leituras.

Primeira leitura: voltar-se é converter-se. O verbo retoma o chamado dos profetas a "voltar" para Deus (ver o item 2), e o sentido seria o de conversão, como em Mateus 13:15, onde o povo não quer "se converter". Nessa leitura, Jesus pede aos discípulos uma mudança de vida inteira.

Segunda leitura: voltar-se é inverter a direção. Os discípulos iam para cima, perguntando quem é o maior. Voltar-se seria dar meia-volta nessa subida e caminhar para o lugar da criança, que é embaixo. A mudança pedida não seria genérica: seria abandonar exatamente a pretensão que a pergunta revelou.

Terceira leitura: "voltar" quer dizer "de novo". Em hebraico e em aramaico, "voltar" se usa diante de outro verbo com o sentido de "fazer outra vez". Em Gênesis 26:18, Isaque "voltou a cavar" os poços, isto é, cavou-os de novo. Se a frase de Jesus guarda esse modo de falar, o sentido seria "se não se tornarem de novo como crianças". É hipótese de alguns estudiosos, e depende de supor uma frase aramaica por trás do grego.

Não é possível decidir. As três leituras não se excluem, e todas dizem que os discípulos, como estão, não servem.

"e não se tornarem como crianças"

Jesus não diz "se não forem como crianças", e sim "se não se tornarem". Adultos não voltam a ser crianças. A frase pede um movimento, e não um estado. O versículo seguinte diz em que consiste: tornar-se humilde "como esta criança".

O texto, portanto, não deixa em aberto o que há de ser imitado na criança. Quem lê aqui a inocência, a pureza ou a confiança das crianças traz para o versículo algo que ele não diz. A explicação que Mateus dá vem logo depois, e é outra (Mateus 18:4).

"de jeito nenhum entrarão no Reino dos céus"

A negação é a mais forte que o grego tem: dois "não" juntos (ver o item 10). A ABC traduz "de jeito nenhum".

E a frase troca o assunto da conversa. A pergunta do versículo 1 era sobre posição dentro do Reino. A resposta é sobre entrar nele. Quem perguntou pelo primeiro lugar ouve que pode ficar do lado de fora.

Mateus tem uma série de frases com esta forma: "se não… de modo nenhum entrarão". Em Mateus 5:20, a condição era uma justiça maior que a dos escribas e fariseus. Aqui, é tornar-se como criança. Nos dois casos, a porta se estreita para quem se julgava dentro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Fala pela primeira vez no capítulo, com a criança ainda de pé no meio da roda.

Os discípulos

Os destinatários, no plural: "se não mudarem". A exigência vale para o grupo inteiro, não para quem fez a pergunta.

A criança

Continua presente e calada. A partir daqui, deixa de ser só uma pessoa na sala e passa a ser o modelo da frase: "como crianças".

O Reino dos céus

Aparece de novo, agora como lugar em que se entra ou não. No versículo 1 era o lugar em que se ocupa um posto.

5. Pontos de Ensino

Os discípulos também precisam mudar

A exigência é dita a quem já seguia Jesus. Estar com ele não dispensa a mudança.

A pergunta pela posição é respondida com a pergunta pela entrada

Antes de saber quem é o maior lá dentro, é preciso saber se se entra.

Mudar é mudar de direção

O verbo é de movimento. Pede uma volta, não só um sentimento de pesar.

Tornar-se como criança é um processo, não uma regressão

Adultos não voltam a ser crianças. Tornam-se como elas no que o versículo 4 define.

O próprio texto diz o que imitar na criança

Não a inocência, que ele não menciona, e sim a posição, explicada no versículo seguinte.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe em dúvida a ideia de que amadurecer é só acumular: mais conhecimento, mais posição, mais segurança. Para entrar, os discípulos precisam voltar, e o modelo está atrás deles, na criança que eles já não são. A frase sugere que certas mudanças se fazem desfazendo, e não somando: o que se ganhou em posição pode ser justamente o que impede de passar pela porta. Não é elogio da imaturidade, porque Jesus não pede que os discípulos pensem como crianças; pede que ocupem o lugar delas.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar da segurança de quem já está dentro

A frase foi dita a quem seguia Jesus havia tempo. Em qualquer comunidade religiosa, os mais antigos correm o risco de tratar a própria posição como garantia. O versículo diz o contrário: quem pergunta pelo seu lugar precisa ouvir, antes, que também tem de mudar.

Mudar de direção, não só de humor

"Voltar-se" é uma mudança de rumo. Arrepender-se de uma ambição e continuar buscando a mesma coisa não é voltar-se. O versículo pede que se abandone o caminho da pergunta "quem é o maior", e não apenas que se sinta culpa por fazê-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os discípulos corriam mesmo o risco de não entrar no Reino?

O texto diz que sim, e não suaviza. A frase é condicional ("se não mudarem"), e a condição é posta como real. Quem lê o versículo como simples força de expressão está dando a ele um alcance menor do que as palavras têm.

Por que Jesus não diz o que as crianças têm de especial?

Ele diz, no versículo seguinte: a humildade "como esta criança". O versículo 3 só anuncia a condição; o 4 a explica.

Esta frase é a mesma de Marcos 10:15?

Não exatamente. Em Marcos 10:15 e Lucas 18:17, a frase é "receber o Reino como uma criança", dita em outra cena, quando as mães trazem os filhos. Aqui é "tornar-se como crianças". A primeira fala do modo de acolher o Reino; a segunda, de uma mudança de quem vai entrar.

9. Conexão com Outros Textos

A outra forma do dito

Marcos 10:15 — "Em verdade vos digo: Aquele que não receber o reino de Deus como menino de modo algum entrará nele."

Lucas 18:17 — "Em verdade vos digo: aquele que não receber o reino de Deus como um menino de maneira alguma entrará nele."

"Receber como criança", e não "tornar-se como criança".

Nascer de novo

João 3:3 — "Jesus respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus."

A mesma estrutura, com outra imagem do recomeço.

A mesma forma de frase em Mateus

Mateus 5:20 — Porque eu digo a vocês que, se a justiça de vocês não superar a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.

Mateus 7:21 — Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus.

O chamado dos profetas a voltar

Malaquias 3:7 — "Tornai para mim, e eu me tornarei para vós, diz Jeová dos Exércitos."

Jeremias 3:22 — "Voltai, filhos apóstatas, eu curarei as vossas apostasias."

"Voltar" com o sentido de "de novo"

Gênesis 26:18 — Isaque voltou a cavar os poços de água que haviam sido abertos no tempo de seu pai Abraão e que os filisteus haviam tapado depois da morte de Abraão; e deu-lhes os mesmos nomes que seu pai lhes dera.

Crianças no juízo, não

1 Coríntios 14:20 — "Irmãos, não vos torneis meninos no juízo. Na malícia, contudo, sede crianças; mas no juízo tornai-vos homens feitos."

Paulo marca o limite da imagem: ser como criança não é pensar como criança.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

e disse: “Eu asseguro a vocês: se não mudarem e não se tornarem como crianças, de jeito nenhum entrarão no Reino dos céus.

Texto grego

καὶ εἶπεν, Ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ἐὰν μὴ στραφῆτε καὶ γένησθε ὡς τὰ παιδία, οὐ μὴ εἰσέλθητε εἰς τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν.

Transliteração

kai eipen, Amēn legō hymin, ean mē straphēte kai genēsthe hōs ta paidia, ou mē eiselthēte eis tēn basileian tōn ouranōn.

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) e as edições críticas modernas trazem aqui o mesmo texto.

Análise palavra por palavra

καὶ εἶπεν — kai eipen, "e disse". Aoristo de legō. Liga a fala ao gesto do versículo 2.

Ἀμὴν λέγω ὑμῖν — Amēn legō hymin, "em verdade digo a vocês", que a ABC traduz "eu asseguro a vocês". A origem hebraica de amēn e o uso incomum de pô-lo no começo da frase estão no estudo de Mateus 16:28.

ἐὰν μὴ — ean mē, "se não". Ean com o subjuntivo forma uma condição que pode se realizar ou não; mē é a negação própria das condições.

στραφῆτε — straphēte, "vocês se voltarem". Aoristo passivo do subjuntivo de strephō, "virar, voltar". A forma é passiva, mas o sentido, neste verbo, é o de voltar-se a si mesmo.

No Novo Testamento, strephō é quase sempre movimento físico: virar-se para alguém. Em Mateus 16:23 é o verbo de Jesus que "se virou" para Pedro. Para "converter-se", o grego costuma usar a forma composta epistrephō, como em Mateus 13:15. O uso do verbo simples com sentido de mudança de vida é raro, e é um dos apoios da leitura que o entende como "de novo" (ver o item 3).

Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.), strephō e os compostos traduzem com frequência o hebraico shuv, "voltar".

καὶ γένησθε — kai genēsthe, "e se tornarem". Aoristo médio do subjuntivo de ginomai, "vir a ser, tornar-se". O verbo é de mudança de estado, não de identidade: não "serem", e sim "virem a ser".

ὡς τὰ παιδία — hōs ta paidia, "como as crianças". Hōs, "como", marca comparação. Paidia é o plural de paidion, "criança pequena", a palavra do versículo 2. O artigo, "as crianças", toma a criança como tipo.

οὐ μὴ εἰσέλθητε — ou mē eiselthēte, "de jeito nenhum entrarão". Ou e mē são as duas negações do grego. Juntas, com o subjuntivo aoristo, formam a negação mais enfática da língua: não é "não entrarão", é "não há como entrarem". Mateus usa essa construção em avisos e promessas decisivos, como em Mateus 5:20 e 24:35 ("as minhas palavras de modo nenhum passarão").

Eiselthēte é o aoristo de eiserchomai, "entrar", formado de eis, "para dentro", e erchomai, "ir".

εἰς τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν — eis tēn basileian tōn ouranōn, "no Reino dos céus". A preposição eis, "para dentro de", repete a do verbo: o Reino é tratado como espaço em que se entra.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.

A pergunta pela posição recebe uma resposta sobre a entrada. Os discípulos queriam saber quem seria o maior. Jesus diz que, sem mudar, eles não entram. O Reino não é tratado como lugar já garantido em que se disputam cargos.

A exigência de mudar é dirigida aos que já seguiam Jesus. Não há no versículo distinção entre os de dentro e os de fora. Os doze ouvem a mesma condição que qualquer um ouviria.

O "como crianças" não é deixado à imaginação do leitor. O versículo pede um movimento, voltar-se e tornar-se, e remete ao seguinte o que se deve imitar. Ler aqui a inocência infantil é preencher com outra coisa um espaço que o próprio texto preenche logo depois.

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