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Mateus 16:28

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 44 min de leitura·👁 64 acessos
Eu asseguro a vocês: há alguns dos que estão aqui que de modo nenhum experimentarão a morte até verem o Filho do homem vindo em seu Reino.
Grupo de homens de pé numa encosta ao anoitecer, olhando para o horizonte onde a luz ainda se sustenta acima das montanhas.

Estudo


Eu asseguro a vocês: há alguns dos que estão aqui que de modo nenhum experimentarão a morte até verem o Filho do homem vindo em seu Reino.

1. Introdução

Este é o versículo mais difícil do capítulo, e um dos mais difíceis dos evangelhos.

A dificuldade não está no vocabulário nem na sintaxe. Está no que a frase faz: ela anuncia um acontecimento e o data. Diz que alguns dos presentes ainda estarão vivos quando ele ocorrer.

Essa data é o problema. Aqueles ouvintes morreram, e a discussão sobre o que se cumpriu — e se algo se cumpriu — atravessa dezenove séculos sem acordo.

Quatro pontos organizam a leitura.

O primeiro é a solenidade da fórmula. O versículo abre com "eu asseguro a vocês", expressão que Mateus reserva para afirmações que quer marcar, e usa a negação mais forte que o grego permite.

O segundo é a delimitação do grupo: "alguns dos que estão aqui". Não todos, não a geração inteira — alguns. A escolha implica que outros morrerão antes, e é ela que transforma a frase numa data.

O terceiro é o objeto da promessa: verão o Filho do homem vindo em seu Reino. Marcos e Lucas, contando a mesma cena, falam do Reino de Deus, e não da vinda do Filho do homem. A formulação difícil é de Mateus.

O quarto é o problema em si, e é ele que ocupa o item 3: as saídas propostas, o que cada uma tem a favor e contra, e a contraprova dos dois lados.

Uma palavra sobre o método: o que se faz aqui é apresentar as leituras em disputa e fechar sem veredito. O leitor não sairá deste estudo com a questão resolvida, porque ela não está.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Provar a morte": uma expressão, não uma metáfora original

A frase "não experimentarão a morte" traduz uma expressão feita, e ela não é invenção de Jesus. Dizer que alguém "prova" a morte era modo corrente de falar em hebraico e em aramaico, e a literatura rabínica posterior a usa com frequência.

É linguagem comum, e não sugere por si nenhuma nuance especial. Quem tenta resolver o problema do versículo dizendo que "provar a morte" significaria outra coisa que morrer está forçando o texto.

Uma época que esperava o fim

A expectativa de um desfecho iminente da história não era excêntrica no judaísmo daquele tempo. Era corrente, e assumia formas variadas.

Circulavam textos que descrevem o fim dos tempos em linguagem de visão — o Livro de Enoque, o Testamento dos Doze Patriarcas, os Salmos de Salomão — que dividiam a história em períodos e calculavam prazos. Daniel 9, com as suas setenta semanas, era objeto de contas repetidas. E a comunidade que produziu os manuscritos do mar Morto entendia-se como vivendo os últimos dias, chegando a redigir um documento sobre a guerra final entre os filhos da luz e os filhos das trevas.

A pressão política alimentava tudo. A Judeia estava sob domínio estrangeiro, a família herodiana não era de linhagem davídica, e movimentos de libertação apareciam com regularidade — Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores romanos depois da guerra) registra vários, todos esmagados.

Isso importa para ler o versículo: a frase não soava estranha ao público. Soava como o que muita gente esperava ouvir.

O que se entendia por "Reino"

Na expectativa corrente, o estabelecimento do Reino era um acontecimento público e verificável: o fim da dominação estrangeira, a reunião dos dispersos, o julgamento das nações, a restauração de Israel. Não era uma realidade interior nem uma metáfora de transformação pessoal.

É por isso que a promessa de "ver" o Filho do homem vindo em seu Reino era entendida como promessa de algo visível. Qualquer leitura que espiritualize o acontecimento tem de explicar por que faria sentido prometer que alguns não morreriam antes de ver o que não se vê.

Um detalhe que muda a leitura: a divisão em capítulos é tardia

Quem lê hoje encontra este versículo no fim de um capítulo, e o episódio da transfiguração no começo do seguinte. Essa separação não existia.

A divisão da Bíblia em capítulos é atribuída a Stephen Langton, arcebispo de Cantuária, e data do início do século XIII. A divisão em versículos é ainda mais recente, do século XVI. Nos manuscritos antigos o texto corre sem essas marcas.

Ou seja: no texto original, "há alguns dos que estão aqui que não provarão a morte até verem o Filho do homem vindo em seu Reino" é seguido imediatamente por "e seis dias depois Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João". Sem parágrafo, sem título, sem número.

Esse dado é o principal argumento da leitura que identifica o cumprimento com a transfiguração, e ele é forte — os três evangelhos que trazem o dito o seguem da mesma cena, na mesma ordem. É preciso conhecê-lo antes de avaliar as saídas propostas.

O texto foi guardado apesar do problema

Há um dado histórico que costuma passar despercebido e que merece registro.

Os evangelhos foram postos por escrito décadas depois da cena — as datações mais correntes situam Marcos por volta de 65 a 70 e Mateus entre 75 e 90, e a discussão sobre isso é grande. Quando escreveram, boa parte da geração dos ouvintes já havia morrido.

Ainda assim, os três guardaram a frase: nenhum a suprimiu, nenhum acrescentou explicação. Mateus, que escreve depois de Marcos, chegou a torná-la mais difícil, trocando "o Reino de Deus vindo com poder" por "o Filho do homem vindo em seu Reino".

Isso é usado como argumento em duas direções opostas. De um lado, sustenta-se que ninguém inventa uma frase que cria embaraço, e que a preservação indica autenticidade. De outro, que a preservação indica que os autores entendiam a frase como já cumprida, e portanto sem embaraço nenhum. Não é possível decidir entre as duas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eu asseguro a vocês"

A frase abre com uma fórmula de garantia. Mateus a usa cerca de trinta vezes, sempre para introduzir algo que quer que o leitor registre: não é o modo comum de começar uma frase, é o modo de assinar embaixo.

A consequência para a leitura é prática: a hipótese de que se trata de uma expressão vaga, de um modo de dizer "em breve" sem compromisso, fica difícil de sustentar. O texto se compromete.

"há alguns dos que estão aqui"

Esta é a expressão que cria o problema, e vale examiná-la devagar.

O texto poderia ter dito "vocês", e a promessa seria dirigida ao grupo sem recorte. Poderia ter dito "esta geração", como fará em Mateus 24:34, e o alcance ficaria mais largo. Diz "alguns dos que estão aqui".

A palavra "alguns" inclui uma parte e exclui outra: alguns verão, outros não. A frase só tem sentido se distingue, dentro do grupo presente, quem alcançará o acontecimento e quem não. E o segundo elemento é a localização física — "dos que estão aqui", literalmente dos que estão em pé neste lugar: o grupo diante dele naquele instante, na região de Cesareia de Filipe.

Juntando as duas coisas, o resultado é uma janela de tempo. O acontecimento ocorrerá depois da morte de parte daquele grupo e antes da morte do restante — dentro do tempo de vida de pessoas identificáveis.

É isso, e só isso, que constitui o problema. Não é que a promessa seja grandiosa: é que ela é datada.

"que de modo nenhum experimentarão a morte"

A negação usada aqui é a mais forte que o grego oferece, e o português precisa de duas palavras para dar conta dela. O efeito é reforçar a garantia: não se diz que talvez alguns vejam, e sim que é impossível que morram antes.

A expressão "experimentar a morte" é linguagem corrente da época, tratada no item 2, e significa morrer. Não há nuance a explorar aí.

"até verem o Filho do homem vindo em seu Reino"

Três elementos, e cada um pesa.

O primeiro é o verbo: ver. A promessa é de percepção, e não de compreensão nem de participação. Alguma coisa será vista.

O segundo é a formulação, e ela é exclusiva de Mateus. Marcos 9:1 escreve "até que vejam o Reino de Deus tendo vindo com poder". Lucas 9:27 escreve, mais brevemente, "até que vejam o Reino de Deus". Só Mateus fala do Filho do homem vindo em seu Reino.

A diferença é grande. Ver o Reino de Deus chegando com poder se acomoda com relativa facilidade a acontecimentos como a ressurreição ou a expansão da pregação. Ver o Filho do homem vindo remete a Daniel 7:13, à cena do que vem com as nuvens, e ao versículo anterior deste capítulo, que fala da vinda em glória com os anjos.

É Mateus, portanto, quem torna o versículo difícil — e o faz colocando o 28 logo depois do 27, de modo que o leitor liga naturalmente as duas vindas.

O terceiro elemento é "em seu Reino". A expressão pode indicar o estado em que o Filho do homem vem — investido de realeza — ou o lugar para onde vem. O grego admite as duas, e não é possível decidir.

O problema, enunciado sem rodeios

Vale dizer a dificuldade com todas as letras antes de examinar as saídas, porque tratá-la de leve é a forma mais comum de não a enfrentar.

O versículo afirma, com fórmula solene e negação enfática, que parte dos presentes estará viva quando o Filho do homem vier em seu Reino. Os presentes morreram. Se "vir em seu Reino" significa o que o versículo 27 acabou de descrever, então a previsão não se cumpriu no prazo que ela mesma estabeleceu.

Não é preciso ser hostil ao texto para constatar isso, e não foram adversários da fé que primeiro o notaram. Comentaristas cristãos discutem a questão desde os primeiros séculos, e alguns dos maiores admitem que ela não se resolve. Heinrich Meyer (exegeta alemão do século XIX) classifica o versículo como um problema de interpretação declaradamente em aberto, e o Expositor's Greek Testament ("Comentário Grego do Expositor", obra britânica do início do século XX) registra a incerteza quanto à forma da afirmação.

C. S. Lewis (escritor e professor inglês do século XX, defensor do cristianismo) foi mais longe. Ao comentar a frase paralela de Mateus 24:34, escreveu que aquele é o versículo mais embaraçoso da Bíblia — e vale notar de quem parte a frase: não de um crítico, mas de alguém que passou a vida argumentando a favor da fé cristã.

Nas seções seguintes estão as quatro saídas propostas, com o que cada uma tem a favor e contra.

Saída 1: a transfiguração

É a leitura mais antiga e provavelmente a mais difundida. Seis dias depois desta cena, segundo Mateus 17:1-8, Jesus leva Pedro, Tiago e João a um monte alto, e ali seu aspecto se transforma diante deles; Moisés e Elias aparecem, e uma voz fala da nuvem.

Sustentaram essa leitura, entre os antigos, João Crisóstomo (bispo de Constantinopla, século IV), Jerônimo (tradutor da Vulgata, século IV) e Hilário de Poitiers. Ela continua sendo defendida hoje.

A favor. O argumento principal é de posição no texto, e é forte. Os três evangelhos que trazem o dito passam imediatamente à transfiguração, e os três informam o intervalo — seis dias em Mateus e Marcos, cerca de oito em Lucas. Essa é a única indicação de tempo dessa precisão em todo o material dos evangelhos, e o fato de que os três a trazem no mesmo lugar é difícil de atribuir ao acaso. Como se viu no item 2, a divisão em capítulos é medieval: no texto corrido, uma coisa vem logo depois da outra.

Some-se que a cena da transfiguração contém elementos do vocabulário do versículo: há manifestação visível, há glória, há três testemunhas que viram. E a segunda carta de Pedro, em 2 Pedro 1:16-18, invoca justamente a transfiguração como garantia do anúncio da vinda em poder.

Contra. A objeção é de proporção, e também é forte. Anunciar com fórmula solene, e com a negação mais enfática do grego, que "alguns dos que estão aqui não provarão a morte" antes de um acontecimento que ocorrerá na semana seguinte é desproporcional ao ponto do absurdo. Em seis dias, presumivelmente, todos os presentes ainda estariam vivos — de modo que a palavra "alguns", eixo da frase, ficaria sem função.

O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) formula assim a objeção: Cristo não anunciaria de modo tão solene um acontecimento privado a ocorrer dali a uma semana. Meyer é mais duro e considera a leitura uma distorção.

Há ainda uma objeção de conteúdo: a transfiguração não é uma vinda. Jesus já estava ali, e o que muda é a aparência; o versículo fala do Filho do homem vindo.

Saída 2: a ressurreição e o Pentecostes

Nessa leitura, o Reino se estabelece com a ressurreição, a ascensão e a vinda do Espírito, e a partir daí a pregação se espalha. O que os presentes veriam seria o Reino em funcionamento, não uma aparição no céu.

É a posição de João Calvino (reformador francês do século XVI), que a aplica ao estado da igreja depois da ressurreição, e de comentaristas ingleses como Matthew Poole (século XVII), Albert Barnes (norte-americano do século XIX) e John Gill (batista inglês do século XVIII).

A favor. A formulação de Marcos — "o Reino de Deus tendo vindo com poder" — encaixa muito bem: em Atos 1:8 a promessa é de que receberão poder quando o Espírito vier sobre eles, e o mesmo termo aparece. E o Novo Testamento efetivamente descreve o período seguinte como início de um governo: Atos, as cartas e o Apocalipse falam de Cristo entronizado, de autoridade recebida, de um Reino em operação.

Contra. A objeção é sobre a palavra "alguns". Se o acontecimento é o Pentecostes, praticamente todos os presentes estavam vivos — a morte de Judas é a única exceção, e é pouco para sustentar a distinção enfática que o versículo faz. Dizer "alguns de vocês não morrerão antes" quando quase ninguém morreria é formulação estranha.

Além disso, esta leitura funciona bem para a forma de Marcos e mal para a de Mateus. Ver "o Filho do homem vindo em seu Reino", com o versículo 27 imediatamente antes, é difícil de reduzir à expansão da pregação.

Saída 3: a destruição de Jerusalém em 70 d.C.

Nessa leitura, a vinda de que se fala é uma vinda em juízo, e o juízo é a destruição de Jerusalém e do templo pelos romanos, em 70 d.C. — cerca de quarenta anos depois da cena. O fim da ordem antiga seria a manifestação visível do Reino do Filho do homem.

É a posição de Ellicott (comentarista anglicano do século XIX), que a lê à luz do discurso de Mateus 24, e da Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), que a considera a que melhor satisfaz as condições do texto: um acontecimento judicial, público e visível, dentro do tempo de vida de uma geração. O Pulpit Commentary conclui no mesmo sentido.

A favor. O prazo é o único que faz a palavra "alguns" funcionar exatamente como o texto exige: quarenta anos depois, a maior parte dos presentes estaria morta, e uma parte estaria viva. Nenhuma outra saída produz esse encaixe.

Há também apoio de vocabulário. O discurso de Mateus 24 mistura, sem separação clara, a destruição do templo e a vinda do Filho do homem, e usa a linguagem dos profetas para descrever juízos históricos — sol escurecido, estrelas caindo —, linguagem que em Isaías 13:10 e Isaías 34:4 descreve a queda de Babilônia e de Edom, e não o fim do mundo. Se ela é convencional para catástrofes políticas, "ver o Filho do homem vindo" pode descrever um acontecimento histórico.

Some-se Mateus 26:64, dito ao sumo sacerdote: "desde agora vereis o Filho do homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu". A promessa é feita a homens concretos, com "desde agora", e é difícil aplicá-la a um fim do mundo remoto.

Contra. A objeção mais séria é que nada, no versículo nem no contexto imediato, menciona Jerusalém, templo ou juízo sobre a cidade: a leitura é inteiramente importada do capítulo 24.

A segunda é o versículo anterior. O 27 descreve uma vinda em glória, com anjos, para retribuir a cada um segundo as suas obras — um juízo universal e individual —, e identificar isso com a queda de uma cidade exige deslocamento considerável.

E a terceira é o verbo. O texto promete que alguns verão. Ninguém relatou ter visto o Filho do homem em 70 d.C.; o que se viu foi um cerco romano. Responder que se trata de ver com os olhos da fé é possível, mas enfraquece a promessa até quase apagá-la.

Saída 4: a segunda vinda, que não ocorreu

A quarta leitura toma o versículo pelo que ele diz. O Filho do homem vindo em seu Reino é a vinda anunciada no versículo 27; ela foi prometida para dentro do tempo de vida de alguns dos presentes; e não ocorreu.

É a leitura da maior parte dos estudiosos que trabalham sem compromisso confessional, e é também a de Albert Schweitzer, tratado no item 6. Ela não é necessariamente hostil: sustenta apenas que o texto diz o que diz.

A favor. É a leitura mais simples, a que menos precisa importar de outros capítulos e a única que dá ao versículo 28 o sentido que o 27 acabou de estabelecer. Explica também a ênfase: quem anuncia um acontecimento próximo fala assim.

Há apoio em outros textos. Mateus 10:23 diz que os discípulos não terão acabado de percorrer as cidades de Israel antes que o Filho do homem venha. Paulo, em 1 Tessalonicenses 4:15-17, escreve "nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor", incluindo-se entre eles, e em 1 Coríntios 7:29 diz que o tempo se abrevia. Tiago 5:8 fala da vinda próxima; 1 Pedro 4:7 diz que o fim de todas as coisas está próximo; o Apocalipse abre e fecha afirmando que as coisas devem acontecer em breve. A expectativa de proximidade, portanto, não é leitura forçada deste versículo: ela atravessa o Novo Testamento.

Contra. A objeção mais forte está dentro do próprio Mateus. Em Mateus 24:36 o mesmo evangelho registra: "Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, a não ser somente o meu Pai". Os manuscritos mais antigos de Mateus, como Marcos 13:32, acrescentam "nem o Filho" — frase notável porque atribui ignorância ao próprio Jesus, coisa que ninguém inventaria. Mesmo no texto que a ABC segue, sem essa frase, a declaração torna difícil sustentar que ele tenha anunciado uma data.

Nas parábolas de Mateus 25 a demora é elemento estrutural: o noivo tarda, e o senhor dos talentos volta "depois de muito tempo". Em Mateus 24:14 o fim virá depois que a mensagem for pregada em todo o mundo, o que pressupõe intervalo. E Mateus 28:20 promete presença "até a consumação dos séculos", expressão que supõe duração.

Há ainda um dado interno da igreja primitiva. João 21:22-23 conta que circulou entre os irmãos o boato de que o discípulo amado não morreria antes da volta de Jesus — e o próprio evangelho corrige o boato. É o registro de uma expectativa desse tipo sendo desmontada por escrito.

E 2 Pedro 3:3-9 enfrenta a questão de frente: haverá escarnecedores dizendo "onde está a promessa da sua vinda?", e a resposta é que para o Senhor um dia é como mil anos. Seja qual for a data e a autoria dessa carta — as duas são discutidas —, o texto documenta que a demora já era objeto de crítica.

Uma quinta posição: já e ainda não

Vale registrar uma linha que não é bem uma quinta saída, e sim uma reformulação do problema.

Estudiosos do século XX propuseram que o Reino, no ensino de Jesus, seja algo que começou a acontecer e ainda não se completou. Charles Harold Dodd (biblista britânico) sustentou que o Reino já estava presente na atuação de Jesus; Joachim Jeremias (alemão) falou de um Reino em processo de realização; Oscar Cullmann usou a imagem da guerra em que a batalha decisiva já foi vencida embora o conflito continue.

Nessa leitura, o versículo seria verdadeiro em parte: alguns dos presentes viram o Reino chegar — na ressurreição, na comunidade que nasceu dali —, ainda que a consumação continue adiante.

A favor: explica a coexistência, no Novo Testamento, de textos que falam de proximidade e de textos que pressupõem demora, sem descartar nenhum. Contra: pode funcionar como um modo de nunca dizer que a previsão falhou, porque sempre haverá algo já cumprido a apontar — e é exatamente esse mecanismo que o item 6 discute.

Fechamento sem veredito

Não é possível decidir.

Cada saída resolve um aspecto e deixa outro em aberto. A transfiguração explica a posição no texto e não a solenidade. O Pentecostes explica o poder e não explica "alguns". A destruição de Jerusalém explica "alguns" e não explica o "ver". A leitura literal explica a ênfase e deixa a previsão sem cumprimento. A do já e ainda não acomoda tudo, e por acomodar tudo perde força.

O que se pode afirmar, e é bastante: a frase está no texto, com fórmula solene e negação enfática; os três evangelhos a guardaram sem retoque; os autores do Novo Testamento escrevem, em boa parte, como quem espera um desfecho próximo; e o mesmo Mateus registra que ninguém sabe o dia nem a hora.

Quem apresenta a questão como resolvida — em qualquer direção — está oferecendo mais segurança do que o texto fornece.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem estava presente

O versículo 24 diz que Jesus falava "aos seus discípulos". Marcos 8:34, na cena paralela, inclui a multidão.

Se o grupo é o dos doze, um dado importa para a leitura: Judas estava ali, e morreu antes da ressurreição, segundo Mateus 27:5. Ele é o único dos presentes cuja morte precoce o Novo Testamento registra, e é sobre esse único caso que se apoia a palavra "alguns" nas leituras que situam o cumprimento em datas próximas.

Os três da semana seguinte

Mateus 17:1 informa que, seis dias depois, Pedro, Tiago e João subiram ao monte com Jesus. São eles as três testemunhas da cena que a primeira saída identifica com o cumprimento.

Tiago, filho de Zebedeu, foi executado por Herodes Agripa por volta do ano 44, segundo Atos 12:2 — antes, portanto, da destruição de Jerusalém. Sobre Pedro, a tradição fala de morte em Roma na perseguição de Nero; sobre João, de vida longa em Éfeso, o que o colocaria vivo em 70 d.C. Nada disso é seguro, e as fontes são posteriores: o Novo Testamento registra apenas a morte de Tiago.

Onde a cena acontece

A região de Cesareia de Filipe, apresentada no versículo 13. A promessa mais grandiosa do capítulo é feita no ponto mais distante de Jerusalém em todo o percurso do evangelho.

Os paralelos, palavra por palavra

A comparação é indispensável, porque a dificuldade é maior em Mateus do que nos outros.

Marcos 9:1 — "Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus tendo vindo com poder."

Lucas 9:27 — "Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus."

Mateus é o único que fala do Filho do homem, e o único que fala de uma vinda. Lucas é o mais contido: retira o "com poder" de Marcos e deixa a frase mais aberta.

A explicação corrente é que Mateus, escrevendo depois, aproximou a frase do versículo anterior, que fala da vinda em glória. Se isso está certo, a dificuldade do versículo é obra de quem o escreveu, e não do dito original. É hipótese plausível, não fato demonstrado.

A destruição de Jerusalém

Como o acontecimento é central para a terceira saída, convém os dados. A revolta judaica começou em 66; em 70, as tropas de Tito cercaram Jerusalém, a cidade caiu depois de meses de cerco e fome, e o templo foi incendiado. Josefo, que esteve no acampamento romano, deixou o relato mais extenso do episódio.

O templo nunca foi reconstruído, e o sistema de sacrifícios acabou ali — com ele, o mundo religioso em que a cena deste capítulo se passa.

5. Pontos de Ensino

A pregação corrente evita este versículo

Vale dizer com franqueza: é raro ouvir este texto num sermão, e raríssimo ouvi-lo com o problema exposto. Quando aparece, costuma vir com uma solução já pronta e sem menção às alternativas, e o ouvinte sai com a impressão de que a questão está encerrada — e ela não está.

A omissão não é inocente, e produz a longo prazo o efeito que se queria evitar: quem descobre o problema depois descobre também que foi poupado dele.

Prometer com data é diferente de prometer

A promessa do versículo 27 não tem prazo; a do 28 tem. Uma promessa sem prazo não pode ser verificada; uma promessa com prazo pode. É por isso que este versículo é objeto de discussão e o anterior não é — e é por isso que ele é, em certo sentido, mais corajoso.

O evangelho registra o que não sabe

Mateus 24:36 diz que só o Pai conhece o dia e a hora, e Marcos 13:32 acrescenta que nem o Filho o conhece — acréscimo que os manuscritos mais antigos trazem também em Mateus. A frase é extraordinária pelo que concede, e está no mesmo evangelho que traz este versículo: um texto que quisesse apenas produzir certeza não guardaria uma declaração dessas. Ela funciona como advertência interna contra toda tentativa de datação — inclusive, talvez, contra a leitura mais literal deste versículo 28.

A expectativa do fim iminente organizou a igreja primitiva

Paulo desaconselha mudanças de estado civil porque o tempo se abrevia, em 1 Coríntios 7:29-31; comunidades vendem bens e vivem em comum; cartas inteiras tratam da conduta de quem espera o desfecho a qualquer momento. Quando ele não veio, a igreja teve de se reorganizar — observação histórica, não juízo de valor.

6. Aspectos Filosóficos

A questão: o que se faz com uma previsão que falha?

Este versículo levanta um problema que não é exclusivo dele nem da religião. Uma afirmação sobre o futuro é feita com prazo; o prazo passa; e então começa o trabalho de reinterpretação.

Dois pensadores o tratam pelos dois lados. Albert Schweitzer descreve o caso concreto: um Jesus que esperou o fim iminente, e um cristianismo que teve de se refazer quando ele não veio. Karl Popper descreve o mecanismo geral: como uma previsão que falha é salva por reinterpretação, e o que isso custa.

Schweitzer e a escatologia consequente

Albert Schweitzer (1875-1965) foi teólogo, organista, especialista em Bach e médico — passou a segunda metade da vida num hospital na África equatorial e recebeu o Nobel da Paz em 1952. A obra que interessa aqui é anterior: Von Reimarus zu Wrede, de 1906, conhecida em inglês como The Quest of the Historical Jesus ("A Busca do Jesus Histórico"). Na primeira parte, o livro é uma revisão devastadora das biografias de Jesus escritas no século XIX: cada autor, conclui ele, havia encontrado um Jesus parecido consigo mesmo.

A tese própria de Schweitzer ficou conhecida como escatologia consequente — ou seja, levada às últimas consequências. Ela sustenta o seguinte: Jesus não foi um mestre de moral atemporal, e sim uma figura inteiramente inserida na expectativa apocalíptica do seu tempo, esperando o fim da ordem presente e a chegada do Reino de Deus de modo iminente e literal.

O versículo que serve de pedra angular à reconstrução dele não é este, e sim Mateus 10:23: "não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do homem". Schweitzer sustenta que Jesus esperou o fim durante a missão dos discípulos, e que ele não veio. Diante disso — ainda segundo ele —, Jesus teria reformulado o próprio papel e ido a Jerusalém para forçar o desfecho, assumindo sozinho o sofrimento que se esperava para o fim.

O livro termina com uma imagem célebre: a de um homem que se lança sobre a roda da história do mundo para fazê-la girar, e é esmagado por ela.

A consequência para a igreja é a segunda metade da tese. Como o fim não veio, o cristianismo primitivo teve de se reorganizar: transformar a espera imediata em esperança sem prazo, e converter uma expectativa apocalíptica numa instituição capaz de durar.

O que a tese de Schweitzer tem a favor

Ela leva a sério o material que as leituras mais confortáveis contornam. Mateus 10:23, este versículo 28, Mateus 24:34, a expectativa de proximidade em Paulo, em Tiago, em Pedro e no Apocalipse — nada disso precisa ser explicado como figura de linguagem. E explica por que a segunda carta de Pedro precisa responder à pergunta "onde está a promessa da sua vinda?": a pergunta existe porque a expectativa existia.

O que ela tem contra

Três objeções, e nenhuma é pequena.

A primeira é de método. Schweitzer critica os autores do século XIX por selecionarem o material que lhes convinha, e faz o mesmo: trata como confiáveis os textos que sustentam a expectativa iminente e como secundários os que a contrariam. Mateus 24:36, que nega qualquer conhecimento da data, é justamente o tipo de frase que nenhuma comunidade inventaria — e trabalha contra a tese.

A segunda é de reconstrução psicológica: a ideia de um Jesus que muda de plano ao ver que o fim não veio é uma narrativa interior que nenhum texto registra.

A terceira é de alcance. Mesmo aceitando que a expectativa apocalíptica seja o quadro do ensino, não decorre daí que tudo nele se reduza a isso — boa parte do material de Mateus pressupõe tempo.

Vale registrar que a obra de Schweitzer mudou o campo de estudos de modo permanente, e que mesmo quem rejeita a conclusão dele passou a ter de levar em conta a dimensão apocalíptica do ensino de Jesus.

Popper e o resgate da previsão que falhou

Karl Popper (1902-1994), filósofo austríaco que fez carreira na Inglaterra, tratou de outro lado do problema: não o caso, mas o mecanismo.

A tese pela qual ficou conhecido é a da falseabilidade, exposta em Logik der Forschung, de 1934 — A Lógica da Pesquisa Científica — e desenvolvida em Conjecturas e Refutações, de 1963.

O ponto de partida é uma inversão. Não se prova uma teoria acumulando casos favoráveis: por mais cisnes brancos que se vejam, a afirmação de que todos os cisnes são brancos continua não demonstrada — mas basta um cisne preto para derrubá-la. Daí a conclusão: o que caracteriza uma afirmação com conteúdo empírico não é poder ser confirmada, e sim poder ser refutada. Uma teoria que proíbe alguma coisa diz algo; uma teoria compatível com qualquer resultado, não.

Popper aplicou isso a duas doutrinas que o incomodavam na juventude vienense: o marxismo e a psicanálise. O que o impressionava nelas era o poder explicativo — tudo o que acontecia podia ser explicado por elas, e nada as contrariava. Para ele, isso não era força; era o sintoma do problema.

E descreveu o procedimento pelo qual isso se mantém, que chamou de estratagema de imunização. Quando uma previsão falha, ela é reinterpretada: o prazo era simbólico, o cumprimento foi parcial, o acontecimento ocorreu de outro modo. Cada resgate salva a teoria e retira dela um pouco de conteúdo, porque a afirmação passa a proibir menos. O caso que ele citava era a previsão marxista de uma revolução proletária nos países industrializados: quando ela não veio, a teoria não foi abandonada, e sim reajustada.

Onde os dois se encontram com o versículo

A aplicação é direta e desconfortável.

O versículo faz uma afirmação com conteúdo verificável: alguns dos presentes estarão vivos quando isso ocorrer. Essa afirmação, nos termos de Popper, proíbe alguma coisa — proíbe que todos morram antes.

Quando os presentes morreram, quatro reinterpretações foram propostas, e cada uma pode ser descrita como um resgate: o acontecimento foi outro; ocorreu de forma invisível; ocorreu em parte; ainda está ocorrendo. A quinta posição, a do já e ainda não, é a que mais claramente tem essa forma, porque acomoda qualquer estado de coisas.

Schweitzer descreve o mesmo movimento historicamente: o cristianismo primitivo, diante da demora, converteu a expectativa iminente numa esperança sem prazo — e sobreviveu por causa disso.

Onde a aproximação não vale

Aqui é preciso ser cuidadoso, porque o uso apressado de Popper contra textos religiosos é comum e é errado nos próprios termos dele.

O primeiro limite é o alcance do critério. A falseabilidade, para Popper, é um critério de demarcação: serve para separar afirmações empíricas de afirmações que não o são. Ele foi explícito ao recusar a tese dos positivistas lógicos de que o não falseável seja sem sentido, e sustentou que ideias metafísicas podem ser verdadeiras, valiosas e até fecundas para a ciência. Aplicar o critério a um texto religioso para concluir que ele é falso é usar a ferramenta fora do lugar.

O segundo limite é sobre o que conta como resgate ilegítimo. Nem toda reinterpretação é estratagema: textos antigos admitem, de fato, mais de uma leitura, e algumas das saídas propostas — a da transfiguração, por exemplo — se apoiam em dados do próprio texto, e não em ajustes feitos depois do fracasso. O critério diz que um resgate custa conteúdo; não diz qual das leituras é resgate.

O terceiro limite é a discussão sobre o próprio critério, bastante contestado. A objeção mais conhecida é a de que nenhuma afirmação é testada isoladamente: quando uma previsão falha, há mais de um ponto onde o erro pode estar, e escolher qual abandonar não se decide pela lógica. Se isso vale para a física, vale com mais força para um texto de dois mil anos.

O que sobra

Sobra uma exigência de honestidade, e ela é do comentarista, não do texto.

Quem adota uma das saídas deve poder dizer o que ela exclui. Se a leitura escolhida teria funcionado igualmente bem caso Jerusalém não tivesse caído, ou caso a transfiguração não constasse do capítulo seguinte, então ela não está lendo o versículo: está protegendo-o.

A exigência vale nos dois sentidos. Também quem sustenta que a previsão falhou tem de dizer o que aceitaria como cumprimento — e, se a resposta for "nada", a posição dele tem o mesmo problema.

Mateus não faz nenhuma dessas considerações. Escreve a frase, com fórmula solene, e passa à cena do monte.

7. Aplicações Práticas

Não fixar datas

A aplicação mais óbvia é também a mais ignorada, e a história do cristianismo é um catálogo de tentativas.

Houve cálculos para o ano 1000, para 1666, para 1844, para 1914, para 1975, para 2000 e para dezenas de outras datas. Todos falharam, todos foram reinterpretados, e alguns dos movimentos que os produziram sobreviveram justamente pela reinterpretação.

O argumento contra a datação não é apenas o histórico. Está em Mateus 24:36: ninguém sabe o dia nem a hora, e o texto inclui nessa ignorância os anjos e o próprio Filho. E há um dado prático: nenhum grupo que fixou data ficou melhor por isso — o que se produz é dano, patrimônio vendido, decepção que arrasta gente para longe de tudo.

Aprender a segurar um texto sem solução

Esta é a aplicação menos confortável e provavelmente a mais útil.

A reação instintiva diante de um problema como este é escolher rápido uma explicação e parar de pensar. É um alívio, e é um erro — porque a explicação escolhida no susto costuma ser a mais frágil, e porque a pessoa fica sem saber que escolheu.

A alternativa é conviver com a questão em aberto: saber quais são as saídas, saber o que cada uma custa, e não precisar de uma conclusão para continuar. Isso não é indiferença — é a diferença entre uma posição sustentada e uma posição adotada por desconforto.

Desconfiar da explicação que explica tudo

O critério discutido no item 6 tem uso prático fora da filosofia. Quando alguém apresenta uma teoria sobre um conflito familiar, um diagnóstico sobre a política ou uma leitura da própria vida, vale a pergunta: que fato, se ocorresse, mostraria que ela está errada? Se não há resposta, a explicação não está errada — está apenas dizendo menos do que parece.

Não esconder o problema de quem se ensina

Quem ensina — pais, professores, quem prega — costuma poupar o ouvinte das dificuldades, com boa intenção, e o efeito é o contrário do pretendido: quem descobre o problema por conta própria descobre junto que foi poupado dele, e passa a desconfiar de tudo o que recebeu.

Onde a aplicação não vai

Este versículo não fornece orientação de conduta, e quem procurar nele uma lição prática direta estará forçando o texto: as aplicações acima são sobre o modo de ler e de ensinar, não sobre o conteúdo da frase.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus errou?

A pergunta é legítima e merece resposta direta: o texto, lido pelo que diz, permite formulá-la, e nenhuma das saídas propostas a elimina de modo definitivo.

Quem sustenta que não houve erro pode apontar Mateus 24:36 e as parábolas da demora, e argumentar que o problema está na leitura, não na frase. Quem sustenta que houve pode apontar Mateus 10:23, este versículo e a expectativa de proximidade em quase todo o Novo Testamento. Não é possível decidir — e a pergunta não é hostil por natureza: foi o próprio Novo Testamento que a registrou primeiro, em 2 Pedro 3:4.

Por que os evangelhos não corrigiram a frase?

Não há resposta segura. A primeira hipótese é que não podiam: o dito era conhecido, circulava, e alterá-lo teria sido notado. A segunda é que não queriam, porque a entendiam como já cumprida — contra ela pesa o fato de que Mateus, escrevendo por último entre os três, tornou a frase mais difícil em vez de mais fácil.

Vale a pena ler este versículo, se ele não se resolve?

Vale, e por uma razão que não é sobre ele. Um texto que se deixa examinar assim, com o problema à vista, oferece algo diferente de um texto que só confirma o que o leitor já pensava — e a alternativa, pular o versículo ou ler apenas a explicação de um lado, produz uma fé que não sabe do que se compõe.

9. Conexão com Outros Textos

Os paralelos diretos

Marcos 9:1 — "E dizia-lhes: Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus tendo vindo com poder."

Lucas 9:27 — "Mas em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus."

Nos dois, o objeto é o Reino de Deus. Só Mateus fala do Filho do homem vindo.

Outras palavras que datam o acontecimento

Mateus 10:23 — "Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do homem."

O texto sobre o qual Schweitzer construiu a tese dele. A dificuldade é da mesma natureza e ainda mais aguda, porque o prazo é menor.

Mateus 24:34 — "Eu afirmo a vocês: esta geração não vai passar até que todas essas coisas aconteçam."

A frase que C. S. Lewis chamou de a mais embaraçosa da Bíblia. A discussão sobre o que significa "esta geração" — os contemporâneos, a raça judaica, a geração que vir os sinais — é antiga e sem consenso.

Mateus 26:64 — "Mas eu lhes digo que, de agora em diante, verão o Filho do homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu."

Dito ao sumo sacerdote, com "desde agora" e "vereis", dirigido a pessoas concretas. É um dos apoios da leitura que situa o cumprimento em 70 d.C.

A contraprova dentro do próprio Mateus

Mateus 24:36 — "Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, a não ser somente o meu Pai."

O texto mais forte contra qualquer datação. O "nem o Filho" que muitas Bíblias trazem aqui está nos manuscritos mais antigos e em Marcos 13:32; o Textus Receptus, que a ABC segue, não o traz em Mateus.

Mateus 24:14 — "E este evangelho do Reino será anunciado no mundo inteiro, como testemunho a todas as nações; e então virá o fim."

Mateus 25:19 — "Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e foi acertar as contas com eles."

Os dois pressupõem intervalo. A demora não é um problema nas parábolas de Mateus 25: é um elemento da história.

Mateus 28:20 — "E eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo."

A última frase do evangelho supõe duração, não iminência.

A expectativa de proximidade no restante do Novo Testamento

1 Tessalonicenses 4:15-17 — "Nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, de modo nenhum precederemos os que dormem. (...) Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles."

Paulo escreve "nós, os que ficarmos vivos", incluindo-se entre os que estarão presentes. É a passagem que mais claramente documenta a expectativa de um desfecho dentro daquela geração.

1 Coríntios 7:29-31 — "Digo-vos, porém, irmãos, que o tempo se abrevia. (...) porque a aparência deste mundo passa."

E o conselho que Paulo tira daí: que os casados vivam como se não fossem, e os que compram como se nada possuíssem.

Tiago 5:8 — "Sede também vós pacientes; fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima."

1 Pedro 4:7 — "E já está próximo o fim de todas as coisas."

Apocalipse 1:3 — "Bem-aventurado aquele que lê (...) porque o tempo está próximo."

O problema registrado dentro da Bíblia

João 21:22-23 — "Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa? Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa?"

É o registro mais claro de uma expectativa desse tipo circulando e sendo corrigida por escrito. O evangelho não nega a vinda; nega a interpretação que se fez sobre quem estaria vivo nela.

2 Pedro 3:3-4 — "Nos últimos dias virão escarnecedores, dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio."

A pergunta é feita dentro do Novo Testamento, e é exatamente a que este versículo levanta.

2 Pedro 3:8-9 — "Não ignoreis, amados, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, como alguns julgam que retarda; mas é longânimo, não querendo que alguns se percam."

A resposta dada. Ela muda a escala do tempo e atribui a demora à paciência.

Habacuque 2:3 — "Ainda que se demore, espera-o, porque certamente virá, não tardará."

O texto do Antigo Testamento que já enfrentava o mesmo problema, e que Hebreus 10:37 retoma.

A cena que vem logo depois

Mateus 17:1-2 — "Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto. Ali ele foi transfigurado diante deles."

A continuação imediata no texto, e o principal apoio da primeira saída.

2 Pedro 1:16-18 — "Não seguimos fábulas engenhosas quando vos fizemos conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas nós mesmos vimos a sua majestade. (...) E ouvimos esta voz vinda do céu, estando com ele no monte santo."

Aqui a transfiguração é invocada, dentro do Novo Testamento, como testemunho do poder e da vinda. É o argumento mais forte a favor da primeira saída.

Daniel 7:13-14 — "Eis que vinha com as nuvens do céu um como o filho do homem; e foi levado até o ancião de dias. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino."

A cena de onde vem a linguagem do versículo, tratada no item 10 do versículo 13.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Eu asseguro a vocês: há alguns dos que estão aqui que de modo nenhum experimentarão a morte até verem o Filho do homem vindo em seu Reino.

Texto grego

ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι εἰσίν τινες τῶν ὧδε ἑστώτων οἵτινες οὐ μὴ γεύσωνται θανάτου ἕως ἂν ἴδωσιν τὸν Υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου ἐρχόμενον ἐν τῇ βασιλείᾳ αὐτοῦ.

Transliteração

amēn legō hymin hoti eisin tines tōn hōde hestōtōn hoitines ou mē geusōntai thanatou heōs an idōsin ton Huion tou anthrōpou erchomenon en tē basileia autou.

Análise palavra por palavra

ἀμὴν λέγω ὑμῖν — amēn legō hymin, "em verdade vos digo", "eu asseguro a vocês".

Amēn não é palavra grega: é hebraico transliterado, da raiz que significa firmar, ser sólido, confiável — dela vêm também as palavras hebraicas para fé e fidelidade.

No uso judaico, o "amém" era dito por quem respondia, confirmando a palavra de outro; em Deuteronômio 27:15-26 o povo responde amém a cada maldição pronunciada. Colocá-lo no início da própria frase, como faz Jesus nos evangelhos, é uso incomum, e alguns estudiosos o consideram traço característico do modo dele de falar. É discutido.

Mateus emprega a fórmula cerca de trinta vezes, sempre marcando afirmações que quer destacar.

εἰσίν τινες τῶν ὧδε ἑστώτων — eisin tines tōn hōde hestōtōn, "há alguns dos que estão aqui em pé".

Tines é o pronome indefinido: alguns, certos, uns. Ele particulariza dentro de um conjunto, e é essa particularização que cria o problema do versículo — se todos fossem incluídos, não haveria data.

Hōde é o advérbio de lugar: aqui, neste lugar. E hestōtōn é o particípio perfeito de histēmi, estar de pé, estar posto — a forma indica um estado presente resultante de uma ação anterior, e é a palavra normal para "os presentes".

A expressão inteira é bem concreta: os que estão de pé aqui. Não é "os que ouvem estas palavras" nem "os desta geração". São as pessoas fisicamente presentes.

οὐ μὴ γεύσωνται θανάτου — ou mē geusōntai thanatou, "de modo nenhum provarão a morte".

Duas coisas, e as duas importam.

A primeira é a negação dupla ou mē. O grego tem duas palavras para "não", e juntá-las diante de um verbo no subjuntivo aoristo produz a negação mais enfática de que a língua dispõe — é a forma usada em juramentos e promessas solenes, e traduzir por um simples "não" perde a força. A mesma construção aparece em Mateus 5:18, 5:26, 10:42, 24:34 e 24:35, sempre em declarações enfáticas.

A segunda é o verbo geuomai, "provar, saborear, experimentar". No sentido literal é levar algo à boca — aparece assim em Mateus 27:34, quando Jesus prova o vinho misturado com fel e recusa. Aplicado à morte, forma a expressão feita tratada no item 2, e a construção com genitivo, provar da morte, é a normal com esse verbo.

Hebreus 2:9 usa a mesma expressão a respeito do próprio Jesus, e João 8:52 a coloca na boca dos adversários. Não há nuance especial a explorar: provar a morte é morrer.

ἕως ἂν ἴδωσιν — heōs an idōsin, "até que vejam".

Heōs com a partícula an e o subjuntivo indica um limite temporal cujo momento não está determinado: até que, em algum ponto, tal coisa aconteça.

Essa construção tem peso na discussão. Ela estabelece um marco — o acontecimento — sem fixar a data em que ele ocorrerá. Quem defende que o versículo não fixa prazo pode apoiar-se nisso.

Mas convém não exagerar o argumento. O prazo, no versículo, não vem da construção grega: vem da combinação entre "alguns dos que estão aqui" e "não provarão a morte". São as pessoas que datam o acontecimento, e não a partícula.

O verbo é horaō, ver, na forma aoristo do subjuntivo. É percepção — ver com os olhos. O grego tem outros verbos para perceber, compreender ou contemplar interiormente; este é o do ato de ver.

τὸν Υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου — ton Huion tou anthrōpou, "o Filho do homem".

O título e a ligação com Daniel 7:13 foram tratados no item 10 do versículo 13, e não se reabrem aqui.

Vale apenas a comparação interna. No versículo 27 a expressão vem com os dois artigos, na forma plena do título. Aqui os manuscritos trazem a forma sem artigos, "filho de homem", o que é próximo do modo como Daniel 7:13 se lê no grego. É detalhe pequeno e discutido, e não muda o sentido.

ἐρχόμενον — erchomenon, "vindo". Particípio presente de erchomai, vir, chegar.

O particípio presente descreve a ação em curso: não "que veio" nem "que virá", mas "vindo". O que se promete ver é o movimento, e não o resultado dele.

Esta é a palavra que separa Mateus dos outros dois evangelhos nesta frase. Marcos 9:1 diz que verão o Reino de Deus elēlythuian en dynamei, "tendo vindo com poder" — particípio perfeito, que descreve um estado já alcançado. Lucas 9:27 não usa particípio nenhum: verão o Reino de Deus.

A diferença é sutil na aparência e grande no efeito. Ver algo "tendo vindo com poder" pode significar constatar os efeitos de uma chegada; ver alguém "vindo" é assistir à chegada.

ἐν τῇ βασιλείᾳ αὐτοῦ — en tē basileia autou, "em seu Reino".

Basileia designa, antes de tudo, o exercício da realeza — o reinar, o governo — e só derivadamente o território governado. É palavra de função, não de mapa.

A preposição en admite mais de uma leitura, e nenhuma se impõe: pode indicar o estado em que vem — investido de realeza —, o acompanhamento — trazendo o seu Reino — ou o destino, vindo para dentro dele. É discutido, e a escolha influencia a interpretação: a primeira favorece as saídas que situam o cumprimento em acontecimentos históricos; a terceira aproxima a frase de Daniel 7:13-14, onde o que vem com as nuvens é conduzido à presença do Ancião de Dias e ali recebe o reino.

Note-se, por fim, o pronome: o Reino é dele. Marcos e Lucas escrevem "o Reino de Deus"; Mateus atribui o Reino ao Filho do homem — algo que repete em Mateus 13:41, e que é coerente com a atribuição dos anjos a ele no versículo 27.

11. Conclusão

O versículo fecha o capítulo com uma promessa datada.

A primeira conclusão é sobre a natureza da dificuldade. Ela não vem de tradução, de manuscrito nem de má vontade do leitor: vem da combinação entre uma fórmula solene, a negação mais forte do grego e o recorte "alguns dos que estão aqui". Retire qualquer um dos três e o problema desaparece — e nenhum dos três pode ser retirado.

A segunda é sobre a autoria da dificuldade. Marcos e Lucas escrevem que verão o Reino de Deus; só Mateus escreve que verão o Filho do homem vindo, e só ele coloca a frase logo depois do anúncio da vinda em glória com os anjos. Disso decorre que a forma mais difícil do dito é a que o próprio evangelista escolheu — e que ele a escolheu décadas depois da cena, quando parte dos ouvintes já havia morrido.

A terceira é sobre as saídas. Cada uma resolve um elemento e deixa outro descoberto, e a quinta posição acomoda tudo — perdendo força por isso. Disso decorre que escolher uma delas é aceitar o que ela deixa em aberto, e que apresentar qualquer uma como demonstrada é oferecer mais do que existe.

A quarta é sobre a contraprova, e é o que impede que este estudo tome partido. De um lado, a expectativa de proximidade atravessa o Novo Testamento, de Mateus 10:23 a 1 Tessalonicenses 4:15-17 e ao Apocalipse. De outro, o mesmo evangelho de Mateus registra que ninguém sabe o dia nem a hora, nem os anjos, a não ser o Pai, e constrói parábolas em que a demora é elemento da história. Os dois conjuntos são firmes, e nenhum apaga o outro.

A quinta é sobre a preservação do texto. Três evangelhos guardaram a frase sem retoque, e a igreja primitiva registrou por escrito, em João 21:23 e em 2 Pedro 3:4, tanto uma expectativa desse tipo sendo corrigida quanto a pergunta pela demora sendo feita em voz alta. Disso decorre que a dificuldade nunca foi escondida pelos próprios textos — foi escondida depois, pela pregação.

Fica de pé o que não se resolve. Não é possível decidir o que este versículo prometeu nem se aquilo aconteceu, e quem sai daqui com a questão em aberto está no mesmo lugar em que estiveram boa parte dos que a estudaram a sério.

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