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Êxodo 17:1

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 38 acessos
Toda a congregação dos filhos de Israel partiu do deserto de Sim, por etapas, segundo a ordem do SENHOR, e acampou em Refidim; e não havia água para o povo beber.
Longa fila de israelitas com tendas, odres e rebanhos chegando a um vale pedregoso e seco entre montanhas de granito avermelhado, sob a coluna de nuvem parada no céu; homens de pé examinam o leito seco de um riacho.

Estudo


Toda a congregação dos filhos de Israel partiu do deserto de Sim, por etapas, segundo a ordem do SENHOR, e acampou em Refidim; e não havia água para o povo beber.

1. Introdução

O povo sai do deserto de Sim, anda algumas etapas, acampa onde Deus mandou acampar — e ali não há água.

O versículo junta essas duas coisas sem comentário: a obediência à ordem e a falta, no mesmo lugar.

O lugar se chama Refidim, e ninguém sabe ao certo onde ele fica; as propostas vão do maior oásis do Sinai a um vale seco ao pé do Jebel Musa.

O nome também foi lido como acusação: os rabinos ouviram nele "mãos frouxas", e a leitura chegou a Jerônimo.

E a última frase, "não havia água para o povo beber", recebeu leituras que vão da sede real à sede ainda por vir.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um nome sem endereço

Refidim aparece cinco vezes na Bíblia: aqui, em Êxodo 17:8, em Êxodo 19:2 e em Números 33:14-15. Nenhum desses textos descreve o lugar. O que se sabe dele vem de duas amarras. A primeira: fica depois de Alus e antes do deserto do Sinai. A segunda: de Refidim ao deserto do Sinai, Êxodo 19:2 conta uma única etapa de marcha. Quem põe o monte num lugar puxa Refidim para perto dele. As propostas para o monte estão no estudo de Êxodo 3:1; as que dizem respeito a Refidim são estas.

Primeira proposta: o oásis de Feiran

É a mais antiga. No século IV, o Onomástico de Eusébio de Cesareia (lista dos lugares bíblicos com a localização que se dava a eles na época) põe Refidim no deserto, junto de Faran. Faran é o vale hoje chamado Uádi Feiran, no sudoeste da península, e o nome é o mesmo: Faran e Feiran são a mesma palavra. No século VI, o mercador e monge alexandrino Cosme, chamado Indicopleustes ("o que navegou até a Índia"), identifica os dois lugares sem hesitar. Por volta de 570, o peregrino anônimo de Piacenza registra que em Faran se mostrava uma capela cujo altar estaria sobre as pedras que sustentaram as mãos de Moisés.

Faran não era um ponto qualquer. Ali houve uma cidade com bispo, igrejas e mosteiros, cujas ruínas ainda estão no lugar onde o Uádi Aleyat desce do monte Serbal. Os viajantes do século XIX a chamaram de o vale mais fértil da península: um riacho que quase nunca seca, quatro milhas de palmeirais e hortas, cada uma com o seu poço. Arthur Stanley (deão de Westminster, que percorreu o Sinai em 1853) a chamou de "o paraíso dos beduínos", e Karl Richard Lepsius (egiptólogo alemão) também ficou com Feiran.

O preço desta proposta é óbvio: o versículo diz que não havia água, e Feiran é justamente o lugar onde a água não falta. Houve três saídas: o riacho às vezes seca (Stanley registra que o viajante alemão Graul o encontrou seco em março de 1858); o acampamento ficava alguns quilômetros abaixo do oásis, no trecho seco do vale, como propôs a equipe britânica que fez o levantamento do Sinai em 1868-69; ou os amalequitas do versículo 8 ocupavam o oásis. Nenhuma está no texto. E Feiran fica a 45 ou 65 quilômetros do Jebel Musa, conforme o caminho, distância difícil de vencer na etapa única de Êxodo 19:2.

Segunda proposta: o vale esh-Sheikh, já perto do monte

Para resolver a distância, outros puxaram Refidim para leste. F. W. Holland e o cônego F. C. Cook (no Speaker's Commentary, "Comentário do Orador", série anglicana do século XIX) o puseram no desfiladeiro de el-Watiyeh, no vale esh-Sheikh, a um dia do monte. Carl Friedrich Keil (hebraísta alemão do século XIX) o levou mais longe ainda, até o ponto em que o vale esh-Sheikh se abre na planície de er-Raha, ao pé do Jebel Musa. David Zvi Hoffmann (rabino e estudioso alemão do início do século XX) registra que esta era, no tempo dele, a posição da maioria. O ganho é a distância; o preço é que nenhum lugar ali guarda nada que lembre o nome, e nenhuma tradição antiga apontou para esse trecho.

Terceira proposta: o Uádi Refayid

A treze quilômetros a noroeste do Jebel Musa há um vale com um oásis e um morro chamados Refayid. Em árabe, a forma é o singular do que o hebraico tem no plural, e o eco é forte. Graham Davies (biblista da Universidade de Cambridge), em The Way of the Wilderness ("O caminho do deserto", 1979), considerou a equação plausível, como um dos poucos casos em que um nome árabe pode ter guardado um nome antigo. A objeção é de mapa: o vale aparece em várias cartas como Rufayil, com l, e a semelhança pode depender de uma leitura. E o nome só ajuda quem já aceitou o Jebel Musa como o monte.

Quarta proposta: o norte

Quem põe o Sinai no norte da península leva Refidim junto. Félix-Marie Abel (dominicano da Escola Bíblica de Jerusalém) apontou um Uádi Rafayd ou Jebel Rafayd a cerca de 36 quilômetros a sudeste de El-Arish. A proposta vive ou morre com a rota do norte.

O quadro é o mesmo do deserto de Sim: nenhum dado arqueológico liga qualquer desses lugares a uma passagem de Israel, e a localização de Refidim depende inteiramente da do monte. A tradição de Feiran tem a seu favor a antiguidade, a de Refayid tem o nome, a do esh-Sheikh tem a distância. Nenhuma tem as três.

3. Análise Teológica do Versículo

"Toda a congregação dos filhos de Israel partiu"

O versículo abre com o nome mais solene do grupo: "toda a congregação". Daí em diante, até o fim do episódio da água, o grupo não é mais chamado assim. Quem briga, tem sede e murmura é sempre "o povo".

David Zvi Hoffmann (rabino e estudioso alemão do início do século XX) vê nisso um desenho. Enquanto marcha por ordem de Deus, Israel é "congregação", um corpo organizado. Quando briga e reclama, volta a ser "povo", uma massa. Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino ucraniano do século XIX) faz da diferença uma distinção de pessoas: a congregação seriam os anciãos e os chefes, que não brigaram; o povo, a multidão, que brigou. A primeira leitura fica no vocabulário; a segunda põe no texto uma separação de classes que ele não explicita.

"do deserto de Sim, por etapas"

"Por etapas" diz, numa palavra, que houve paradas no caminho, e não diz quais. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII), Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) e quase todos depois deles completam com Números 33:12-14: Dofca e Alus. Por que o Êxodo as cala, e o que isso diz sobre o tempo no deserto de Sim, está no estudo de Êxodo 16:1.

Há uma resposta que lá não aparece, e é a mais severa. Para Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII), as duas paradas foram omitidas por vergonha de Israel: nelas o povo quis voltar ao Egito pelo caminho mais curto. Não há texto que diga isso. A leitura mostra, no entanto, o pressuposto de quem a fez: um silêncio do texto, para ele, só podia esconder alguma coisa.

"segundo a ordem do SENHOR"

O hebraico diz "pela boca do SENHOR". Como essa ordem chegava? Há duas respostas.

Primeira: pela nuvem. É a do Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) e de Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX), que leem a expressão à luz de Números 9:18-23, onde "pela boca do SENHOR acampavam, e pela boca do SENHOR partiam" quer dizer: quando a nuvem parava ou se levantava. Segunda: por Moisés. Ibn Ezra entende "pela mão de Moisés", e o seu tradutor moderno, Norman Strickman, lê na nota que a partir daqui é Moisés quem conduz, e não mais a coluna. A diferença pesa no versículo seguinte: se a ordem veio pela nuvem, o povo sabia que fora Deus quem o pusera ali; se veio por Moisés, o povo podia achar que fora Moisés.

Isaac Reggio (rabino italiano do século XIX) pergunta por que a expressão aparece justamente aqui, se todas as marchas eram por ordem de Deus. A resposta dele é que em Refidim o povo pensou que Moisés o tinha levado ali por conta própria. O texto, por isso, depõe a favor de Moisés antes da briga começar, como uma testemunha que diz ao tribunal: fui eu que mandei.

Seja qual for o canal, a frase põe lado a lado duas coisas que a piedade comum separa: o povo fez exatamente o que lhe mandaram e chegou a um lugar sem água. A falta não vem de um desvio. Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII) e Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) tiram daí que se pode estar no caminho do dever e encontrar a dificuldade. O texto não chega a tanto como regra; ele só registra o caso e não o explica.

"e acampou em Refidim"

O nome foi lido como sentença. O Talmude guarda a discussão em dois lugares, no tratado Sanhedrin (106a) e no tratado Bekhorot (5b). Rabi Eliezer diz: Refidim era o nome do lugar, e mais nada. Rabi Josué diz: o nome alude a que ali o povo "afrouxou" (rippu, "ficaram frouxos") no estudo da Torá. A prova dele é Jeremias 47:3, onde os pais fogem sem olhar para os filhos "por causa da frouxidão das mãos" (rifyon yadayim). Para quem ouve o hebraico, as primeiras letras de Refidim soam como essa frouxidão.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III), no tratado Vayassa, seção 7, adota a leitura de Rabi Josué e tira a consequência: porque as mãos afrouxaram, veio o inimigo, "pois o inimigo só vem por causa do pecado". O Targum de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica livre da Torá, com acréscimos) põe tudo dentro do próprio versículo: acamparam em Refidim, "lugar onde as suas mãos se afrouxaram nos mandamentos da Lei, e por isso as fontes secaram".

A leitura tem duas consequências. A primeira é que ela inverte o que o versículo acabou de dizer: o texto põe a falta de água depois de uma marcha obediente, e o trocadilho a põe depois de um pecado. Para que a sede seja castigo, é preciso tirar a culpa do nome, porque a narrativa não a fornece. A segunda é que a posição de Rabi Eliezer — "era o nome do lugar" — é a que fica com o texto, e o Talmude a registra primeiro.

A mesma leitura chegou ao mundo cristão por outra porta. Jerônimo, na carta a Fabíola sobre as quarenta e duas paradas do deserto (Carta 78, do fim do século IV), dá para Refidim os sentidos de "dissolução dos fortes" ou "saúde dos fortes", e acrescenta que, segundo a língua siríaca, o nome quer dizer "afrouxamento das mãos", imposto ao lugar por causa da murmuração. Jerônimo aprendeu hebraico com mestres judeus na Palestina, e é provável que o trocadilho tenha vindo daí.

"e não havia água para o povo beber"

A frase é curta e a construção hebraica é um pouco torta: literalmente, "não havia água para o beber do povo". Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) e Shadal (Samuel David Luzzatto, Pádua, século XIX) mostram que a forma tem paralelos e quer dizer simplesmente "para que o povo bebesse". Outros acharam nela uma pista.

Primeira leitura: havia água, mas não para gente. O Shemot Rabá (coletânea medieval de comentário rabínico ao Êxodo), em 26:2, lê a frase ao pé da letra: não havia água para o povo, mas para os rebanhos havia. Quando, no versículo 3, o povo disser que vai morrer de sede junto com o gado, estará exagerando.

Segunda leitura: ainda não faltava água, faltava a fonte. Samson Raphael Hirsch (rabino alemão do século XIX) observa que o texto não diz "não havia água para beber", mas "para o povo": o povo ainda tinha água nos odres, olhou o lugar e viu que ali não haveria o bastante para tanta gente. O Haamek Davar vai na mesma direção: quem diz que não havia água é o povo, e ninguém ainda tinha sede. A leitura prepara a sequência dos dois versículos seguintes, em que a briga vem antes da sede.

Terceira leitura: a água era esperada. Reggio imagina que Moisés tinha mandado levar água para alguns dias, até Refidim, onde ela seria encontrada, e o Pulpit Commentary diz o mesmo sem a reconstrução: a água era esperada ali, e por isso ninguém trouxe reserva. Nesta leitura o problema é a frustração, e não só a falta.

O texto não decide entre elas. Ele registra a falta com a sua própria voz, antes de qualquer fala do povo — e isso já basta para que a queixa seguinte não seja invenção.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Toda a congregação dos filhos de Israel — o grupo inteiro, no nome mais completo que o livro tem para ele. Nos seis versículos seguintes, já em Refidim, passa a ser só "o povo".

O SENHOR — presente pela "boca", isto é, pela ordem de partir e de acampar. Não fala neste versículo; manda, e o versículo registra que a ordem foi cumprida.

O deserto de Sim — o ponto de partida, onde o povo recebeu o maná e guardou o primeiro sábado (Êxodo 16). O versículo encerra a estada ali.

As etapas — as paradas sem nome que Números 33:12-14 nomeia: Dofca e Alus. O Êxodo não conta nada do que aconteceu nelas.

Refidim — o acampamento sem água. Ali acontecem três coisas: a briga pela água e a água da rocha (Êxodo 17:2-7), a batalha contra Amaleque (Êxodo 17:8-16) e, segundo a ordem do livro, a visita de Jetro (Êxodo 18). Dali o povo parte para o deserto do Sinai (Êxodo 19:2). A localização é incerta; as propostas, com o preço de cada uma, estão no item 2.

O acontecimento — a terceira parada problemática depois do mar: Mara teve água amarga, Sim teve fome, Refidim não tem água nenhuma. É a única das três em que o texto afirma, antes de qualquer queixa, que a marcha foi feita por ordem de Deus.

5. Pontos de Ensino

A falta pode estar no caminho certo

O versículo põe a ordem de Deus e a falta de água na mesma frase, e não pede desculpa por isso. A leitura que faz de toda dificuldade sinal de desvio não encontra apoio aqui. Também não encontra apoio a leitura oposta, que faria da dificuldade uma prova de que se está no caminho certo: o texto não diz para que serve a falta. Diz apenas que ela estava lá.

O texto mede o caminho pelas crises

Das etapas entre Sim e Refidim, o Êxodo não conta nada. Do lugar onde falta água, conta dezesseis versículos. A narrativa do deserto não é um diário de viagem; ela escolhe os lugares em que alguma coisa se decidiu. Quem lê o Êxodo como relato completo da marcha lê mal. Ele é um relato das provas da marcha.

6. Aspectos Filosóficos

O povo chega ao lugar indicado e não encontra o que precisa. O versículo levanta uma pergunta que a filosofia raramente fez com essas palavras: o que acontece quando se chega a um lugar a que se foi levado, e o lugar não dá nada?

María Zambrano e o deserto

María Zambrano (filósofa espanhola, 1904-1991) passou quarenta e cinco anos no exílio. Saiu da Espanha em 1939, com a derrota da República, e viveu no México, em Cuba, em Porto Rico, em Roma e numa aldeia do Jura francês, até voltar a Madri em 1984. O exílio não foi para ela só biografia; virou tema. Nos textos sobre o exiliado, reunidos em Los bienaventurados ("Os bem-aventurados", 1990), ela descreve o desterro como uma travessia do deserto: o lugar em que a pessoa perde o apoio que tinha e fica exposta, sem abrigo, diante do que lhe resta.

A ideia que mais interessa aqui está em Claros del bosque ("Clareiras do bosque", 1977). O "claro" é a clareira que se abre no meio do bosque, o lugar onde a luz chega. Zambrano avisa logo no começo do livro que não adianta ir procurá-lo: ele aparece a quem anda, não a quem o exige. O conhecimento que ela chama de "razão poética" funciona assim — não se obtém por método aplicado de fora, como quem força uma porta, mas pelo caminho percorrido, que só se conhece andando. Em Notas de un método ("Notas de um método", 1989), ela insiste que método quer dizer, na origem grega, caminho, e que o caminho verdadeiro não está traçado antes.

O que ela ilumina no versículo

O versículo tem duas palavras que soam como Zambrano. "Por etapas": o caminho é feito de paradas que ninguém escolheu de antemão. "Segundo a ordem do SENHOR": quem anda não conhece o desenho do caminho; só obedece à etapa seguinte. E Refidim é o contrário de uma clareira: o lugar a que se chega e que não se abre.

A leitura de Zambrano ajuda a ver o que o povo fará no versículo seguinte. Ele vai exigir — "Deem-nos água" — que o lugar se torne o que não é. Lida na chave de Zambrano — a aplicação é deste estudo, não dela —, essa exigência é uma forma de não ver: quem pede ao deserto que seja oásis deixa de perceber o que o deserto mostra. E o que o deserto mostra, no texto, é a dependência. Sem água, ninguém se sustenta sozinho.

O limite da comparação

Há dois limites. O primeiro: Zambrano escreve sobre a pessoa que procura sentido, e o versículo fala de um povo que procura água. A sede não é metáfora em Refidim; é a falta física que, em poucos dias, mata. Transformar a falta em ocasião de revelação, sem mais, é desrespeitar a sede real. O segundo: Zambrano é uma pensadora da espera e da receptividade, e o Êxodo não premia a espera neste ponto. No versículo 6, a água sai de uma rocha ferida por ordem expressa. O que o texto oferece não é uma clareira que se abre sozinha, mas uma intervenção. A comparação vale para o momento de chegada, e para mais nada.

7. Aplicações Práticas

Não abandonar a marcha porque a parada é seca

Refidim é uma etapa, não o destino. Dali o povo segue para o Sinai. Uma etapa seca não desmente o caminho inteiro, e quem toma a primeira parada difícil como prova de que a viagem foi um erro decide sobre o todo a partir de uma parte.

Nomear a falta antes de discutir a culpa

O texto diz primeiro "não havia água", sem adjetivo e sem acusação. Quem lidera um grupo em crise tem aqui um modelo modesto e útil: descrever o problema como ele é, antes que a discussão sobre quem o causou ocupe todo o espaço. No versículo seguinte, é exatamente isso que o povo não fará.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Deus não sabia que em Refidim não havia água?

O texto não faz a pergunta e não a responde. Os comentaristas que a enfrentaram dividiram-se. Uns, como o Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII), acham que a falta foi deliberada, para ensinar o povo a pedir. Outros a tomam como castigo, pelo caminho do nome. O versículo só garante duas coisas: que a parada foi ordenada e que a água faltou. Qualquer propósito que se atribua à falta é leitura.

Se a água vem de Horebe, por que o povo acampou em Refidim?

Porque, segundo uma leitura antiga, Refidim era o acampamento e Horebe, um pouco adiante, o lugar da rocha. David Zvi Hoffmann reconstrói a cena assim: o povo deveria ter se arranjado com a água que trazia até a etapa seguinte; brigou antes disso. A relação entre Refidim e Horebe pertence ao estudo de Êxodo 17:6.

O nome Refidim tem algum sentido em hebraico, fora do trocadilho?

Provavelmente sim, e é quase o oposto. A raiz mais próxima é a de "apoiar, estender, refazer as forças", e o nome pode significar "lugares de descanso" ou "apoios". A análise está no item 10. Um lugar de descanso sem água seria uma ironia do próprio nome — se o nome for mesmo esse, o que não se pode afirmar.

9. Conexão com Outros Textos

O itinerário que quase nunca comenta

Números 33:14 — "Partiram de Alus e acamparam em Refidim; e ali não havia água para o povo beber."

Números 33 é uma lista seca de quarenta e duas paradas: "partiram de… e acamparam em…". Quase nunca acrescenta nada. As exceções são poucas — as doze fontes e as setenta palmeiras de Elim (Números 33:9), a morte de Arão no monte Hor (Números 33:38-39) — e a falta de água em Refidim é uma delas. A lista guardou, de toda a história de Refidim, só a sede. Nem Amaleque entrou.

O que "pela boca do SENHOR" quer dizer

Números 9:20 — "Às vezes a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo; pela boca do SENHOR acampavam, e pela boca do SENHOR partiam."

É o texto que explica a expressão de Êxodo 17:1. A ordem não precisava de palavras: bastava a nuvem parar. Se vale para Refidim, o povo sabia que estava ali por indicação do sinal que via todos os dias.

A falta no caminho como parte do plano

Deuteronômio 8:15-16 — "…que o conduziu por aquele deserto grande e terrível, de serpentes ardentes e escorpiões, terra sedenta onde não havia água; que fez sair água para você da rocha de pederneira; que o sustentou no deserto com maná, que os seus pais não conheciam, para humilhá-lo e para prová-lo, a fim de lhe fazer bem no fim."

O Deuteronômio faz o que Êxodo 17:1 não faz: dá um propósito à falta. Na memória de Moisés, o deserto sem água foi escolhido, e escolhido "para prová-lo". O Êxodo conta a sede; o Deuteronômio a interpreta. São duas camadas, e a segunda não deve ser lida de volta na primeira como se o Êxodo já a dissesse.

A memória que esqueceu a sede

Isaías 48:21 — "Não tiveram sede quando ele os conduziu pelos desertos; fez brotar para eles água da rocha; fendeu a rocha, e as águas correram."

O profeta resume Refidim pelo fim, e o fim apaga o começo: "não tiveram sede". Êxodo 17:1-3 diz o contrário — tiveram, e muita. Isaías não mente; canta o resultado. O contraste mostra como a mesma história serviu a usos diferentes: o Êxodo a conta com a sede dentro, o profeta a lembra como prova de cuidado.

A frouxidão das mãos

Jeremias 47:3 — "Pelo estrépito dos cascos dos seus garanhões, pelo estrondo dos seus carros e o rumor das suas rodas, os pais não olham para trás, para os filhos, por causa da frouxidão das mãos."

É o versículo que Rabi Josué usou para ler o nome Refidim. O contexto de Jeremias é uma invasão contra os filisteus, e as "mãos frouxas" são as de quem perdeu a força de proteger até os filhos. O trocadilho trouxe para o deserto uma imagem de pânico de guerra — e o capítulo 17, de fato, termina numa guerra.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Toda a congregação dos filhos de Israel partiu do deserto de Sim, por etapas, segundo a ordem do SENHOR, e acampou em Refidim; e não havia água para o povo beber.

Texto hebraico

וַיִּסְעוּ כָּל־עֲדַת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל מִמִּדְבַּר־סִין לְמַסְעֵיהֶם עַל־פִּי יְהוָה וַיַּחֲנוּ בִּרְפִידִים וְאֵין מַיִם לִשְׁתֹּת הָעָם׃

Transliteração

va-yis'u kol-adat benei-Yisra'el mi-midbar-Sin le-mas'eihem al-pi YHWH, va-yachanu bi-Refidim, ve-ein mayim lishtot ha-am.

Análise palavra por palavra

וַיִּסְעוּ — va-yis'u, "e partiram". Raiz nasa', cujo sentido primeiro é arrancar as estacas da tenda; Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa do plural, com a forma verbal que encadeia a narrativa. O verbo está no plural, embora o sujeito gramatical seja "congregação", palavra feminina e singular: o hebraico concorda com as pessoas, não com a palavra. A ABC faz o mesmo ao contrário, concordando "partiu" com "congregação".

כָּל־עֲדַת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל — kol-adat benei-Yisra'el, "toda a congregação dos filhos de Israel". Edah, da raiz ya'ad, "marcar encontro, reunir": é a comunidade enquanto assembleia convocada. No capítulo 17 aparece só aqui.

מִמִּדְבַּר־סִין — mi-midbar-Sin, "do deserto de Sim". A preposição min, "de", assimilada; midbar, o deserto como terra de pastagem e de passagem, não necessariamente de areia.

לְמַסְעֵיהֶם — le-mas'eihem, "segundo as suas partidas", "por etapas". O substantivo massa', da mesma raiz do verbo inicial, no plural e com o sufixo "deles". A palavra e o seu campo estão no estudo de Gênesis 13:3. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz "segundo os seus acampamentos"; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo) diz per mansiones suas, "pelas suas pousadas".

עַל־פִּי יְהוָה — al-pi YHWH, "pela boca do SENHOR". Al, "sobre, segundo"; pi, forma de ligação de peh, "boca". A expressão é frequente em Números (3:16, 9:18-23, 33:2) e quer dizer "conforme a ordem". O hebraico guarda a imagem da boca que fala; o português "ordem" a perde, mas diz a coisa.

וַיַּחֲנוּ — va-yachanu, "e acamparam". Raiz chanah, "acampar, assentar o arraial"; dela vem machaneh, "acampamento". É o verbo par de nasa': os itinerários bíblicos se constroem com os dois, partir e acampar, alternadamente.

בִּרְפִידִים — bi-Refidim, "em Refidim". A preposição be-, "em", e o nome próprio, com terminação de plural masculino. A raiz mais provável é rafad, "estender, apoiar, refazer", a mesma de Cântico dos Cânticos 2:5 ("refaçam-me com maçãs") e de Jó 17:13 ("estendo a minha cama nas trevas"); dela vem refidah, o encosto da liteira de Salomão em Cântico dos Cânticos 3:10. Refidim seria "apoios" ou "lugares de descanso", e assim o entenderam Stanley e o Pulpit Commentary. A leitura rabínica liga o nome a outra raiz, rafah, "afrouxar, cair", de onde rifyon, "frouxidão": as duas raízes começam com as mesmas duas consoantes, e é nessa semelhança que mora o trocadilho. Jerônimo registra ainda "saúde" — que viria de rafa', "curar", uma terceira raiz parecida. Nenhuma dessas etimologias é segura; o nome pode ser anterior ao hebraico.

וְאֵין מַיִם — ve-ein mayim, "e não havia água". Ein é a partícula de inexistência, "não há", que nega a presença de algo, e não uma ação; mayim, "água", palavra que em hebraico só existe no plural.

לִשְׁתֹּת הָעָם — lishtot ha-am, "para o povo beber". Infinitivo de shatah, "beber", com a preposição le-, "para", seguido do sujeito, "o povo". Sforno compara a construção com Gênesis 16:3, "depois de habitar Abrão", e Shadal com Salmo 104:27, "para dar a comida deles": é o infinitivo com o seu próprio sujeito, uma forma rara, mas regular. A leitura de que a frase exclui o gado, ou de que fala de uma falta ainda não sentida, apoia-se nessa construção (item 3); a gramática não a exige.

11. Conclusão

Do que se examinou, o versículo leva a três conclusões.

A sede de Refidim não é castigo no texto. O versículo põe a marcha sob a ordem de Deus e só depois registra a falta. Quem quer fazer da sede uma punição precisa buscar a culpa fora da narrativa — no nome do lugar, como fez Rabi Josué, ou no fim do capítulo. A própria tradição judaica guardou a voz contrária, a de Rabi Eliezer, e é ela que acompanha o texto.

O texto certifica a falta antes de ouvir a queixa. A frase "não havia água" é dita pelo próprio texto, não pelo povo. Seja qual for a leitura do detalhe — sede já presente, sede iminente, água esperada que não apareceu —, a briga que vem a seguir tem um motivo real. O que se vai julgar no versículo 2 é o modo de reagir, não a existência do problema.

O lugar importa menos do que a sua função. Ninguém sabe onde fica Refidim, e todas as propostas dependem do monte que cada um escolhe. Mas a função do lugar no livro é clara: é a última parada antes do Sinai, e nela se acumulam a falta, a briga, a guerra e a escrita. Refidim é o limiar, e o versículo o abre com um povo obediente e sem água.

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