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Êxodo 16:36

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 13 acessos
O ômer é a décima parte do efa.
Sobre uma mesa rústica de madeira, uma pequena tigela de barro cheia de grãos brancos de maná ao lado de um cesto de medir dez vezes maior, cheio de cevada, com um feixe de espigas amarrado encostado ao lado, sob luz suave de lamparina.

Estudo


O ômer é a décima parte do efa.

1. Introdução

O capítulo do maná termina com uma conversão de medidas: o ômer, a porção de cada pessoa por dia, vale um décimo do efa. Com esse sentido, a palavra "ômer" só existe neste capítulo, e a explicação parece escrita para leitores que já não a conheciam — uma nota de rodapé que entrou no texto. O versículo abre três questões: quanto era isso, por que foi preciso dizê-lo e como não confundir o ômer com o hômer, cem vezes maior, nem com o ômer das colheitas, que quer dizer "feixe". O historiador polonês Witold Kula, que estudou as medidas antigas como fatos sociais, ajuda a ver o que se perde quando a porção de um homem vira fração de outra unidade.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto cabia num efa

Nenhum recipiente com a marca "efa" chegou até nós, e o valor dele tem de ser reconstruído por caminhos indiretos. São três, e não concordam inteiramente.

O primeiro passa pelo bato, a medida de líquidos. Ezequiel 45:11 diz que o efa e o bato têm o mesmo volume. Em escavações em Judá apareceram fragmentos de jarros grandes com a inscrição "bato" e, num deles, de Laquis, "bato do rei", isto é, a medida oficial. Reconstruídos, esses jarros dão, na estimativa mais aceita, algo em torno de 22 litros, embora os cálculos variem. Por esse caminho, o ômer, a décima parte do efa, teria cerca de 2,2 litros — pouco mais de duas caixas de leite.

O segundo é o dos rabinos. Para eles, o efa vale três seás; a seá, seis cabos; o cabo, quatro logues; o logue, seis ovos. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu da França, século XI) faz a conta neste versículo: o ômer tem a capacidade de 43 ovos e um quinto. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo), no tratado Vayassa, seção 6, chega ao mesmo resultado por outra unidade: um cabo e oito décimos. Convertida em volume moderno, a medida rabínica dá algo entre dois e dois litros e meio, conforme o tamanho que se atribua ao ovo. As duas reconstruções, por métodos independentes, ficam próximas.

O terceiro caminho, o dos primeiros eruditos modernos, chegou a números maiores. O bispo inglês Richard Cumberland, num ensaio de 1686 sobre a recuperação das medidas judaicas, calculou o ômer em cerca de três litros, e há reconstruções posteriores que levam o efa a quase 40 litros. A margem de erro é grande, e qualquer número dado com precisão de mililitro parece mais seguro do que os dados permitem.

O efa e o Egito

A palavra "efa" é tida como empréstimo do egípcio, como registra o estudo de Gênesis 25:4. No Egito, a medida correspondente, o oipe, valia quatro heqat — o heqat era a unidade básica de grão, de cerca de 4,8 litros —, o que dá perto de 19 litros. A ordem de grandeza é a mesma do efa reconstruído em Judá. Israel mediu o seu grão, ao que tudo indica, com uma unidade herdada do grande celeiro do Nilo.

Uma porção generosa

John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII), citando o puritano Henry Ainsworth, observou que um ômer equivalia a cerca de duas vezes o choinix grego, a medida de grão que no mundo greco-romano representava a ração de um homem por dia. O Novo Testamento conhece essa medida: em Apocalipse 6:6, "um choinix de trigo por um denário" é o retrato da carestia, um dia de salário por um dia de pão. Se a comparação vale, o ômer de maná não era ração de sobrevivência: era o dobro dela. A porção do deserto foi medida com folga.

3. Análise Teológica do Versículo

"O ômer"

O versículo começa pelo que precisa ser explicado. O ômer apareceu seis vezes no capítulo — como medida por cabeça, como instrumento da medição, como dobro do sexto dia, como conteúdo do jarro — e nunca mais aparecerá como medida em toda a Bíblia. Quando o Pentateuco volta a falar da mesma quantidade, nas leis das ofertas, usa outras palavras: "a décima parte de um efa" (Levítico 5:11; Números 5:15) ou um termo próprio, que quer dizer simplesmente "um décimo" (Êxodo 29:40; Números 15:4). A palavra do deserto ficou no deserto.

Isso levou Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), apoiados no orientalista Johann David Michaelis, a uma proposta: o ômer não seria, na origem, uma unidade oficial, mas uma vasilha de uso doméstico — a tigela ou o copo que o viajante levava consigo no deserto para beber água. Como era de tamanho mais ou menos padrão, servia de medida. A hipótese explica o artigo de Êxodo 16:18, "mediram com o ômer", como quem diz "com a tigela", e explica por que a palavra desaparece quando surgem as medidas do templo. Não há como prová-la; é plausível.

"é a décima parte do efa."

Por que o capítulo termina explicando uma medida? A pergunta tem pelo menos quatro respostas.

Primeira leitura: é uma nota para leitores que já não conheciam a palavra. Charles Ellicott (bispo e comentarista inglês do século XIX) diz que o ômer caiu cedo em desuso, enquanto o efa continuou em uso até o exílio, e que por isso alguém acrescentou a equivalência — talvez quem completou o Deuteronômio, talvez Esdras. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) admite que o versículo seja "uma adição de um escritor posterior", Josué ou Esdras. A Bíblia tem outras notas desse tipo, e uma delas diz com todas as letras o que está fazendo: "antigamente em Israel, quem ia consultar a Deus dizia: 'Vamos ao vidente'; porque o profeta de hoje antigamente se chamava vidente" (1 Samuel 9:9). É o mesmo gesto: traduzir o vocabulário de outra época para o leitor do presente.

Segunda leitura: a nota diz que a porção bastava. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) explica o versículo numa linha: o texto menciona a medida "porque um ômer por pessoa era suficiente para saciar". A nota não seria arqueologia de palavras, mas o fecho do argumento do capítulo — a quantidade que Deus deu era a quantidade certa. John Gill vai na mesma direção: a medida mostra "que provisão suficiente foi feita".

Terceira leitura: a nota responde a uma pergunta que o próprio texto provoca. A Mekhilta começa o comentário assim: "'O ômer' — eu não sei quanto é. Por isso diz: 'a décima parte do efa'." Para os rabinos, a Torá antecipa a dúvida do leitor e a resolve no mesmo lugar. Não é preciso supor um acréscimo posterior; basta supor um texto que se explica.

Quarta leitura: a medida liga o deserto ao culto. Rashi, depois de fazer a conta dos 43 ovos e um quinto, acrescenta que essa é a quantidade mínima de massa da qual se separa a porção do sacerdote (Números 15:20) e a medida da oferta de cereal. O dado é verificável na própria Torá. "A décima parte de um efa" de farinha é a oferta do pobre que não pode pagar nem duas rolinhas (Levítico 5:11); é a oferta de cereal que acompanha o sacrifício diário (Números 28:5); é a oferta da mulher acusada de adultério (Números 5:15). A ração de um dia no deserto reaparece, na lei, como a menor oferta que se pode apresentar a Deus.

Não é possível decidir entre as quatro, e elas não se excluem. Uma nota pode ter sido acrescentada para leitores posteriores e, ao mesmo tempo, fechar o argumento da suficiência. O que o versículo faz, em qualquer leitura, é dar ao ômer uma medida fixa no fim do capítulo em que ele foi a medida de tudo: da porção, da igualdade, do dobro do sábado, da memória guardada.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O ômer — medida de capacidade para secos, de pouco mais de dois litros pelas estimativas mais aceitas; a porção de maná de uma pessoa por dia. Como medida, só aparece em Êxodo 16.

O efa — a medida comum de grão em Israel, de cerca de 22 litros na reconstrução mais citada; dez ômeres. É, aproximadamente, o que Rute recolhe num dia inteiro de respiga no campo de Boaz (Rute 2:17), e a medida que os profetas acusam os comerciantes de falsificar.

O hômer — não está no versículo, mas é a medida com que o ômer mais se confunde. Vale dez efas, ou cem ômeres (Ezequiel 45:11-14), e o nome é tradicionalmente ligado a "jumento": seria a carga de um animal.

Quem lê — o versículo pressupõe um leitor que conhece o efa e não conhece mais o ômer. É o único "personagem" desta frase, e é posterior à cena: alguém que precisa da tradução para entender o capítulo.

O evento — nenhum. É o único versículo do capítulo sem ação, sem fala e sem personagem. Fecha o relato com uma definição.

5. Pontos de Ensino

1. O texto se preocupa em ser entendido. O capítulo não deixa a palavra estranha sem explicação. Seja nota antiga, seja acréscimo posterior, o versículo mostra um texto que pensa no leitor que vem depois e lhe dá o necessário para não errar a conta.

2. A porção do deserto era suficiente, e com folga. Pelas estimativas, o ômer ficava em torno de dois litros por pessoa por dia, cerca do dobro da ração de grão de um trabalhador antigo. Ibn Ezra e Gill leram no versículo justamente isso: a medida mostra que ninguém recebeu de menos.

3. A medida do pão diário reaparece na lei. "A décima parte de um efa" é a oferta do pobre e a oferta de cereal do sacrifício diário. A quantidade com que Deus alimentou cada pessoa no deserto torna-se a quantidade com que o pobre se apresenta a Deus.

4. Palavras parecidas escondem coisas diferentes. Ômer, hômer e ômer-feixe são três coisas distintas, e o português tradicional as embaralhou. Ler bem exige saber qual é qual.

6. Aspectos Filosóficos

Witold Kula e as medidas que falam de gente

Witold Kula (1916-1988) foi um historiador da economia polonês, professor em Varsóvia, conhecido pelos estudos sobre a economia feudal da Polônia. Em 1970 publicou um livro que se tornou clássico da história social: As medidas e os homens. A tese do livro cabe numa frase: antes do sistema métrico, as medidas não eram números abstratos, mas fatos sociais. Diziam alguma coisa sobre a vida de quem as usava.

Medidas que significam

Kula chamou as medidas antigas de "significativas" ou "representativas". O pé, o palmo, o côvado vinham do corpo. A área de um campo era medida pelo trabalho — quanto um homem lavra numa manhã — ou pela semente — quanto grão se gasta para semeá-lo. A medida de grão era, muitas vezes, a de uma necessidade: o que um homem come, o que um animal carrega. Uma medida assim não precisava ser exata para ser útil; precisava ser compreensível para quem vivia dela.

A própria Bíblia conhece esse modo de medir. Levítico 27:16 avalia um campo pela semente: "um hômer de semente de cevada" vale cinquenta siclos — a terra medida pelo que se joga nela, exatamente o tipo de medida que Kula descreve nas aldeias europeias. E o ômer do Êxodo 16 é o caso mais puro de medida significativa: ele é, por definição, o que uma pessoa come num dia. "Um ômer por cabeça" não é uma quantidade escolhida num sistema; é a tradução de uma necessidade.

A luta pelas medidas

A segunda tese de Kula é que, por serem sociais, as medidas eram também campo de disputa. Ele documentou, nas fontes da Europa do Antigo Regime, a guerra silenciosa entre senhores e camponeses sobre o modo de encher o alqueire: cheio e com o grão amontoado acima da borda, ou rasado com uma régua. O senhor cobrava o tributo com a medida cheia e pagava com a rasa. O direito de guardar o padrão de medida era um poder, e mudar a medida era uma forma de mudar o preço sem que ninguém percebesse.

Por isso, mostra Kula, uma das reivindicações que aparecem nos cadernos de queixas reunidos na França às vésperas da Revolução, em 1789, é a de uma medida única para todos. O sistema métrico que nasceu dali foi apresentado como medida "para todos os tempos, para todos os povos": tirada da dimensão da Terra, e não do corpo de ninguém, ela não pertenceria a nenhum senhor. O preço dessa conquista, na leitura de Kula, foi a perda do significado. O metro é justo porque não diz nada sobre a vida de quem o usa.

O versículo no meio do caminho

Êxodo 16:36 mostra, em uma linha, a passagem que Kula estudou em séculos. O ômer é uma medida significativa — a comida de uma pessoa por dia. O efa é uma medida de sistema — a unidade de quem guarda grão, cobra e vende. Ao dizer que o primeiro é a décima parte do segundo, o versículo faz a medida de gente caber na medida do celeiro. Ganha-se precisão e comparabilidade; perde-se a referência imediata ao corpo.

E a Bíblia, como Kula, sabe que a medida de sistema é a que se presta à fraude. Os profetas não acusam ninguém de falsificar o ômer; acusam de "diminuir o efa" (Amós 8:5; Miqueias 6:10). Deuteronômio 25:14 proíbe ter "na sua casa efa e efa, um grande e um pequeno" — o mesmo jogo duplo de medidas que Kula encontrou nos celeiros senhoriais. A justiça das medidas como tema bíblico está no estudo de Gênesis 23:16. No deserto, a medida não podia ser falsificada porque não era de ninguém: o maná que sobrava apodrecia, e o que se media era só o que se comia.

O limite da aproximação

Kula escreveu sobre a Europa dos séculos XVI a XVIII, e não sobre Israel antigo. A aproximação aqui é de quem lê os dois. E o texto bíblico não lamenta a conversão do ômer em efa; registra-a como informação útil. O que o pensamento de Kula acrescenta é a percepção de que nenhuma tabela de medidas é inocente. A nota de rodapé do Êxodo 16 parece a frase mais técnica do capítulo, e é também a que liga o pão do deserto ao mundo das balanças, dos tributos e das trapaças que os profetas vão denunciar.

7. Aplicações Práticas

Saber quanto é o suficiente

O versículo fecha um capítulo inteiro sobre a medida certa: nem guardar demais, nem faltar. Ibn Ezra leu nele a afirmação de que um ômer bastava para saciar. Numa cultura em que quase tudo empurra para acumular, a pergunta prática que o versículo deixa é simples e difícil: quanto, para mim e para os meus, é de fato suficiente? Quem nunca fez essa conta não tem como saber quando já tem o bastante.

Ler com atenção às unidades

Há também uma aplicação de leitura. Medidas, moedas e distâncias da Bíblia são frequentemente lidas por cima, como detalhe técnico. Este versículo mostra que elas carregam sentido: uma porção de dois litros por pessoa diz algo sobre a generosidade do relato que "um ômer" sozinho não diz. Ao ler, pergunte quanto é aquilo de que o texto fala.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quanto maná caía por dia, ao todo?

A pergunta fascinou os eruditos do século XVIII. John Gill transcreve o cálculo do naturalista suíço Johann Jakob Scheuchzer, autor de uma enciclopédia de ciência bíblica, a Physica sacra (1731-1735): mais de noventa e quatro mil alqueires ingleses por dia, e mais de um bilhão e trezentos milhões ao longo de quarenta anos. Com os números modernos, se o ômer tinha cerca de dois litros e o acampamento tinha os dois a três milhões de pessoas que a soma de Êxodo 12:37 sugere, seriam de quatro a seis milhões de litros por manhã. A conta depende inteiramente do tamanho do povo, que é um dos problemas mais discutidos do Êxodo, tratado no estudo daquele versículo. O que ela mostra, em qualquer hipótese, é que o relato não descreve um fenômeno discreto.

O ômer da contagem até Pentecostes tem relação com o ômer do maná?

Na língua, provavelmente não: são duas palavras iguais com sentidos diferentes, a medida e o feixe (item 10). Na narrativa bíblica, há um encontro curioso. Levítico 23:10-14 manda trazer o primeiro feixe — o ômer — da colheita de cevada e proíbe comer do grão novo antes dele. Josué 5:11-12 diz que o povo comeu do produto da terra no dia seguinte à Páscoa e que o maná cessou no dia seguinte. Rashi, comentando Êxodo 16:35, junta as duas coisas: o povo viveu da reserva de maná "até trazer o ômer, no dia dezesseis de Nisã". E o Talmude discute o fim do maná, em Quiddushin 38a, justamente dentro de uma discussão sobre o feixe do ômer e o grão novo. O ômer de maná termina no dia do ômer de cevada. É coincidência de palavras, que a tradição transformou em desenho.

Os outros povos antigos também explicavam medidas nos seus textos?

Sim, e por necessidade. As medidas variavam de cidade para cidade e de época para época, e textos que circulavam longe do lugar de origem precisavam de equivalências. Os próprios tradutores antigos da Bíblia fizeram isso com este versículo: tanto a tradução grega quanto o Targum aramaico sentiram necessidade de explicar também o efa, como se vê no item 10. A nota explicativa, que já era uma tradução, precisou ser traduzida de novo.

9. Conexão com Outros Textos

O padrão das medidas

Ezequiel 45:10-11 — "Tenham balanças justas, efa justo e bato justo. O efa e o bato terão a mesma medida: o bato conterá a décima parte do hômer, e o efa a décima parte do hômer; a medida deles será conforme o hômer."

É a única tabela de medidas de capacidade da Bíblia hebraica, e ela usa o hômer como base. Dela se tira a escala completa: o ômer é um décimo do efa, o efa é um décimo do hômer, e o hômer vale, portanto, cem ômeres. A lista vem num programa de reforma do culto e da justiça depois do exílio, ligada a "balanças justas". O versículo do Êxodo e o de Ezequiel são as duas pontas do sistema: a menor medida de grão e a maior.

A colheita que não paga a semente

Isaías 5:10 — "Porque dez jeiras de vinha darão apenas um bato, e um hômer de semente dará apenas um efa."

A maldição contra quem junta casa a casa e campo a campo é dita em medidas. Plantar um hômer e colher um efa é colher um décimo do que se semeou. A mesma relação de um para dez que, no Êxodo, separa o ômer do efa, serve aqui para descrever a ruína: a terra devolve só a décima parte.

O outro ômer: o feixe

Levítico 23:10-11 — "Quando vocês entrarem na terra que eu lhes dou e fizerem a sua colheita, trarão ao sacerdote o ômer das primícias da sua colheita. E ele moverá o ômer diante do SENHOR, para que vocês sejam aceitos; no dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá."

Aqui "ômer" é o feixe de espigas, o primeiro da colheita de cevada. Dele parte a contagem de sete semanas até a festa seguinte (Levítico 23:15). A lei começa com "quando vocês entrarem na terra" — vale para o mundo em que o maná já terá cessado.

Rute 2:7 — "Ela disse: 'Deixe-me respigar e juntar entre os feixes, atrás dos ceifeiros.' Ela veio e ficou desde a manhã até agora."

No campo de Boaz, Rute recolhe "entre os feixes" — entre os ômeres, no hebraico. A estrangeira pobre vive do que fica no chão entre os feixes dos outros, como Israel viveu do que ficava no chão do deserto.

Deuteronômio 24:19 — "Quando fizeres a colheita no teu campo e esqueceres um feixe no campo, não voltarás para buscá-lo; será para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva."

O feixe esquecido não é recolhido. A lei protege uma sobra que pertence a quem não tem campo, e o vocabulário é o mesmo ômer. Para quem não colhe, o feixe faz o papel que o maná fazia para todos.

Jó 24:10 — "Andam nus, sem roupa, e, famintos, carregam os feixes."

O avesso do maná: trabalhadores que carregam o feixe do patrão e passam fome. É a injustiça que o deserto não conhecia — comida à vista, nas costas, e fora do alcance de quem a carrega.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

O ômer é a décima parte do efa.

Texto hebraico

וְהָעֹמֶר עֲשִׂרִית הָאֵיפָה הוּא׃

Transliteração

ve-ha-omer asirit ha-efah hu.

Análise palavra por palavra

וְהָעֹמֶר — ve-ha-omer, "e o ômer".

A conjunção ve, que aqui não liga ações, mas abre um parêntese: vale como "ora", "quanto a". Depois, o artigo: não "um ômer", mas "o ômer" — aquele de que o capítulo falou. A frase começa pelo termo a definir, como num verbete.

A palavra omer, escrita com as consoantes ayin, mem e resh, tem dois sentidos na Bíblia hebraica, que os dicionários tratam como duas palavras de mesma forma. Uma é a medida, que só existe neste capítulo. A outra é o feixe de espigas: o ômer das primícias em Levítico 23:10-15, os feixes entre os quais Rute respiga (Rute 2:7, 2:15), o feixe esquecido no campo (Deuteronômio 24:19), os feixes carregados pelos famintos (Jó 24:10). Da mesma família é o verbo de atar feixes, no Salmo 129:7. Se as duas palavras têm origem comum — a medida seria o grão de um feixe, ou a tigela do viajante seria outra coisa — é discutido, e não há como decidir.

Ômer, hômer e gômer

O hômer é outra palavra, escrita com outra primeira letra: chomer, com a consoante gutural chet. Vale dez efas, ou cem ômeres. Aparece na avaliação do campo pela semente (Levítico 27:16), na maldição da colheita perdida (Isaías 5:10), no preço que Oseias paga pela mulher (Oseias 3:2) e nas codornizes de Números 11:32, onde quem recolheu menos juntou dez hômeres.

Em português, as três coisas se embaralharam. A tradição de Almeida chama a medida do Êxodo 16 de "gômer", e chama de "ômer" tanto o hômer (Ezequiel 45:11, Levítico 27:16, Oseias 3:2, Números 11:32) quanto o feixe de Levítico 23. Quem lê "um ômer de cevada" numa Bíblia tradicional está diante de uma medida cem vezes maior que o ômer do maná. A tradução ABC usa "ômer" para a medida deste capítulo, que é a forma mais próxima do hebraico, e "hômer" para a medida grande.

O "gômer" das Bíblias tradicionais vem da Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo), que escreve gomor. O grego não tinha letra para o ayin hebraico e às vezes o representava com gama. É o mesmo processo que transformou a cidade de Amorah em "Gomorra". A Vulgata latina herdou o gomor, e as traduções europeias, o "gômer".

עֲשִׂרִית — asirit, "a décima parte".

Numeral ordinal feminino de eser, "dez", usado como fração: "a décima", "um décimo". É da mesma raiz do dízimo, ma'aser. A mesma quantidade, nas leis das ofertas, ganha um nome próprio, issaron, "um décimo" (Êxodo 29:40; Números 15:4), ou é dita por extenso, "a décima parte de um efa" (Levítico 5:11).

הָאֵיפָה — ha-efah, "o efa".

Com artigo: o efa conhecido, a medida corrente. A origem egípcia da palavra está no estudo de Gênesis 25:4.

As traduções antigas acharam que também o efa precisava de explicação. A Septuaginta escreve: "o gomor era a décima parte das três medidas". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá): "o ômer é um de dez em três seás". As duas traduzem o efa pela sua divisão em três seás, a medida que os leitores da época usavam. A nota explicativa do hebraico precisou, séculos depois, de uma nota explicativa própria.

הוּא — hu, "ele é".

O pronome da terceira pessoa, posto no fim, faz o papel do verbo "ser": "o ômer, a décima parte do efa, ele é". É a marca típica das notas explicativas da Bíblia hebraica, as que identificam um nome antigo com um nome conhecido do leitor: "Bela, que é Zoar" (Gênesis 14:2, 14:8); "o vale de Sidim, que é o mar Salgado" (Gênesis 14:3); "Esaú, que é Edom" (Gênesis 36:1). Em todos esses casos, o pronome amarra a palavra que o leitor não conhece à que ele conhece. Êxodo 16:36 usa a mesma fórmula, aplicada a uma medida em vez de um lugar.

Depois do pronome, o texto hebraico tradicional marca o fim de uma seção com a letra pe, sinal de parágrafo aberto. O capítulo do maná termina numa definição, e a página fica em branco até o fim da linha.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões.

A primeira é que o capítulo foi transmitido a leitores que já não falavam a língua do deserto. A palavra que media tudo no relato — a porção, a igualdade, o dobro do sábado, o jarro — tinha saído de uso, e alguém, cedo ou tarde, precisou traduzi-la para a medida corrente. A fórmula usada é a das notas que identificam nomes antigos com nomes conhecidos. Seja qual for a data da nota, ela é o rastro de um texto lido, relido e explicado ao longo de gerações, e não de um documento fechado no dia em que foi escrito.

A segunda é que a conversão tem conteúdo, e não só utilidade. Ao fixar o ômer em um décimo do efa, o versículo mostra que a porção diária era farta, cerca do dobro do que um trabalhador antigo comia, e liga essa porção à menor oferta que a lei aceitará do pobre. Ao mesmo tempo, faz a medida nascida da necessidade de uma pessoa caber no sistema de medidas dos celeiros e do comércio — o mesmo em que, segundo os profetas, a injustiça se esconde. O capítulo que começou com fome termina dizendo exatamente quanto era o bastante.

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