O ômer é a décima parte do efa.
1. Introdução
O capítulo do maná termina com uma conversão de medidas: o ômer, a porção de cada pessoa por dia, vale um décimo do efa. Com esse sentido, a palavra "ômer" só existe neste capítulo, e a explicação parece escrita para leitores que já não a conheciam — uma nota de rodapé que entrou no texto. O versículo abre três questões: quanto era isso, por que foi preciso dizê-lo e como não confundir o ômer com o hômer, cem vezes maior, nem com o ômer das colheitas, que quer dizer "feixe". O historiador polonês Witold Kula, que estudou as medidas antigas como fatos sociais, ajuda a ver o que se perde quando a porção de um homem vira fração de outra unidade.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quanto cabia num efa
Nenhum recipiente com a marca "efa" chegou até nós, e o valor dele tem de ser reconstruído por caminhos indiretos. São três, e não concordam inteiramente.
O primeiro passa pelo bato, a medida de líquidos. Ezequiel 45:11 diz que o efa e o bato têm o mesmo volume. Em escavações em Judá apareceram fragmentos de jarros grandes com a inscrição "bato" e, num deles, de Laquis, "bato do rei", isto é, a medida oficial. Reconstruídos, esses jarros dão, na estimativa mais aceita, algo em torno de 22 litros, embora os cálculos variem. Por esse caminho, o ômer, a décima parte do efa, teria cerca de 2,2 litros — pouco mais de duas caixas de leite.
O segundo é o dos rabinos. Para eles, o efa vale três seás; a seá, seis cabos; o cabo, quatro logues; o logue, seis ovos. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu da França, século XI) faz a conta neste versículo: o ômer tem a capacidade de 43 ovos e um quinto. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo), no tratado Vayassa, seção 6, chega ao mesmo resultado por outra unidade: um cabo e oito décimos. Convertida em volume moderno, a medida rabínica dá algo entre dois e dois litros e meio, conforme o tamanho que se atribua ao ovo. As duas reconstruções, por métodos independentes, ficam próximas.
O terceiro caminho, o dos primeiros eruditos modernos, chegou a números maiores. O bispo inglês Richard Cumberland, num ensaio de 1686 sobre a recuperação das medidas judaicas, calculou o ômer em cerca de três litros, e há reconstruções posteriores que levam o efa a quase 40 litros. A margem de erro é grande, e qualquer número dado com precisão de mililitro parece mais seguro do que os dados permitem.
O efa e o Egito
A palavra "efa" é tida como empréstimo do egípcio, como registra o estudo de Gênesis 25:4. No Egito, a medida correspondente, o oipe, valia quatro heqat — o heqat era a unidade básica de grão, de cerca de 4,8 litros —, o que dá perto de 19 litros. A ordem de grandeza é a mesma do efa reconstruído em Judá. Israel mediu o seu grão, ao que tudo indica, com uma unidade herdada do grande celeiro do Nilo.
Uma porção generosa
John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII), citando o puritano Henry Ainsworth, observou que um ômer equivalia a cerca de duas vezes o choinix grego, a medida de grão que no mundo greco-romano representava a ração de um homem por dia. O Novo Testamento conhece essa medida: em Apocalipse 6:6, "um choinix de trigo por um denário" é o retrato da carestia, um dia de salário por um dia de pão. Se a comparação vale, o ômer de maná não era ração de sobrevivência: era o dobro dela. A porção do deserto foi medida com folga.
3. Análise Teológica do Versículo
"O ômer"
O versículo começa pelo que precisa ser explicado. O ômer apareceu seis vezes no capítulo — como medida por cabeça, como instrumento da medição, como dobro do sexto dia, como conteúdo do jarro — e nunca mais aparecerá como medida em toda a Bíblia. Quando o Pentateuco volta a falar da mesma quantidade, nas leis das ofertas, usa outras palavras: "a décima parte de um efa" (Levítico 5:11; Números 5:15) ou um termo próprio, que quer dizer simplesmente "um décimo" (Êxodo 29:40; Números 15:4). A palavra do deserto ficou no deserto.
Isso levou Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), apoiados no orientalista Johann David Michaelis, a uma proposta: o ômer não seria, na origem, uma unidade oficial, mas uma vasilha de uso doméstico — a tigela ou o copo que o viajante levava consigo no deserto para beber água. Como era de tamanho mais ou menos padrão, servia de medida. A hipótese explica o artigo de Êxodo 16:18, "mediram com o ômer", como quem diz "com a tigela", e explica por que a palavra desaparece quando surgem as medidas do templo. Não há como prová-la; é plausível.
"é a décima parte do efa."
Por que o capítulo termina explicando uma medida? A pergunta tem pelo menos quatro respostas.
Primeira leitura: é uma nota para leitores que já não conheciam a palavra. Charles Ellicott (bispo e comentarista inglês do século XIX) diz que o ômer caiu cedo em desuso, enquanto o efa continuou em uso até o exílio, e que por isso alguém acrescentou a equivalência — talvez quem completou o Deuteronômio, talvez Esdras. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) admite que o versículo seja "uma adição de um escritor posterior", Josué ou Esdras. A Bíblia tem outras notas desse tipo, e uma delas diz com todas as letras o que está fazendo: "antigamente em Israel, quem ia consultar a Deus dizia: 'Vamos ao vidente'; porque o profeta de hoje antigamente se chamava vidente" (1 Samuel 9:9). É o mesmo gesto: traduzir o vocabulário de outra época para o leitor do presente.
Segunda leitura: a nota diz que a porção bastava. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) explica o versículo numa linha: o texto menciona a medida "porque um ômer por pessoa era suficiente para saciar". A nota não seria arqueologia de palavras, mas o fecho do argumento do capítulo — a quantidade que Deus deu era a quantidade certa. John Gill vai na mesma direção: a medida mostra "que provisão suficiente foi feita".
Terceira leitura: a nota responde a uma pergunta que o próprio texto provoca. A Mekhilta começa o comentário assim: "'O ômer' — eu não sei quanto é. Por isso diz: 'a décima parte do efa'." Para os rabinos, a Torá antecipa a dúvida do leitor e a resolve no mesmo lugar. Não é preciso supor um acréscimo posterior; basta supor um texto que se explica.
Quarta leitura: a medida liga o deserto ao culto. Rashi, depois de fazer a conta dos 43 ovos e um quinto, acrescenta que essa é a quantidade mínima de massa da qual se separa a porção do sacerdote (Números 15:20) e a medida da oferta de cereal. O dado é verificável na própria Torá. "A décima parte de um efa" de farinha é a oferta do pobre que não pode pagar nem duas rolinhas (Levítico 5:11); é a oferta de cereal que acompanha o sacrifício diário (Números 28:5); é a oferta da mulher acusada de adultério (Números 5:15). A ração de um dia no deserto reaparece, na lei, como a menor oferta que se pode apresentar a Deus.
Não é possível decidir entre as quatro, e elas não se excluem. Uma nota pode ter sido acrescentada para leitores posteriores e, ao mesmo tempo, fechar o argumento da suficiência. O que o versículo faz, em qualquer leitura, é dar ao ômer uma medida fixa no fim do capítulo em que ele foi a medida de tudo: da porção, da igualdade, do dobro do sábado, da memória guardada.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O ômer — medida de capacidade para secos, de pouco mais de dois litros pelas estimativas mais aceitas; a porção de maná de uma pessoa por dia. Como medida, só aparece em Êxodo 16.
O efa — a medida comum de grão em Israel, de cerca de 22 litros na reconstrução mais citada; dez ômeres. É, aproximadamente, o que Rute recolhe num dia inteiro de respiga no campo de Boaz (Rute 2:17), e a medida que os profetas acusam os comerciantes de falsificar.
O hômer — não está no versículo, mas é a medida com que o ômer mais se confunde. Vale dez efas, ou cem ômeres (Ezequiel 45:11-14), e o nome é tradicionalmente ligado a "jumento": seria a carga de um animal.
Quem lê — o versículo pressupõe um leitor que conhece o efa e não conhece mais o ômer. É o único "personagem" desta frase, e é posterior à cena: alguém que precisa da tradução para entender o capítulo.
O evento — nenhum. É o único versículo do capítulo sem ação, sem fala e sem personagem. Fecha o relato com uma definição.
5. Pontos de Ensino
1. O texto se preocupa em ser entendido. O capítulo não deixa a palavra estranha sem explicação. Seja nota antiga, seja acréscimo posterior, o versículo mostra um texto que pensa no leitor que vem depois e lhe dá o necessário para não errar a conta.
2. A porção do deserto era suficiente, e com folga. Pelas estimativas, o ômer ficava em torno de dois litros por pessoa por dia, cerca do dobro da ração de grão de um trabalhador antigo. Ibn Ezra e Gill leram no versículo justamente isso: a medida mostra que ninguém recebeu de menos.
3. A medida do pão diário reaparece na lei. "A décima parte de um efa" é a oferta do pobre e a oferta de cereal do sacrifício diário. A quantidade com que Deus alimentou cada pessoa no deserto torna-se a quantidade com que o pobre se apresenta a Deus.
4. Palavras parecidas escondem coisas diferentes. Ômer, hômer e ômer-feixe são três coisas distintas, e o português tradicional as embaralhou. Ler bem exige saber qual é qual.
6. Aspectos Filosóficos
Witold Kula e as medidas que falam de gente
Witold Kula (1916-1988) foi um historiador da economia polonês, professor em Varsóvia, conhecido pelos estudos sobre a economia feudal da Polônia. Em 1970 publicou um livro que se tornou clássico da história social: As medidas e os homens. A tese do livro cabe numa frase: antes do sistema métrico, as medidas não eram números abstratos, mas fatos sociais. Diziam alguma coisa sobre a vida de quem as usava.
Medidas que significam
Kula chamou as medidas antigas de "significativas" ou "representativas". O pé, o palmo, o côvado vinham do corpo. A área de um campo era medida pelo trabalho — quanto um homem lavra numa manhã — ou pela semente — quanto grão se gasta para semeá-lo. A medida de grão era, muitas vezes, a de uma necessidade: o que um homem come, o que um animal carrega. Uma medida assim não precisava ser exata para ser útil; precisava ser compreensível para quem vivia dela.
A própria Bíblia conhece esse modo de medir. Levítico 27:16 avalia um campo pela semente: "um hômer de semente de cevada" vale cinquenta siclos — a terra medida pelo que se joga nela, exatamente o tipo de medida que Kula descreve nas aldeias europeias. E o ômer do Êxodo 16 é o caso mais puro de medida significativa: ele é, por definição, o que uma pessoa come num dia. "Um ômer por cabeça" não é uma quantidade escolhida num sistema; é a tradução de uma necessidade.
A luta pelas medidas
A segunda tese de Kula é que, por serem sociais, as medidas eram também campo de disputa. Ele documentou, nas fontes da Europa do Antigo Regime, a guerra silenciosa entre senhores e camponeses sobre o modo de encher o alqueire: cheio e com o grão amontoado acima da borda, ou rasado com uma régua. O senhor cobrava o tributo com a medida cheia e pagava com a rasa. O direito de guardar o padrão de medida era um poder, e mudar a medida era uma forma de mudar o preço sem que ninguém percebesse.
Por isso, mostra Kula, uma das reivindicações que aparecem nos cadernos de queixas reunidos na França às vésperas da Revolução, em 1789, é a de uma medida única para todos. O sistema métrico que nasceu dali foi apresentado como medida "para todos os tempos, para todos os povos": tirada da dimensão da Terra, e não do corpo de ninguém, ela não pertenceria a nenhum senhor. O preço dessa conquista, na leitura de Kula, foi a perda do significado. O metro é justo porque não diz nada sobre a vida de quem o usa.
O versículo no meio do caminho
Êxodo 16:36 mostra, em uma linha, a passagem que Kula estudou em séculos. O ômer é uma medida significativa — a comida de uma pessoa por dia. O efa é uma medida de sistema — a unidade de quem guarda grão, cobra e vende. Ao dizer que o primeiro é a décima parte do segundo, o versículo faz a medida de gente caber na medida do celeiro. Ganha-se precisão e comparabilidade; perde-se a referência imediata ao corpo.
E a Bíblia, como Kula, sabe que a medida de sistema é a que se presta à fraude. Os profetas não acusam ninguém de falsificar o ômer; acusam de "diminuir o efa" (Amós 8:5; Miqueias 6:10). Deuteronômio 25:14 proíbe ter "na sua casa efa e efa, um grande e um pequeno" — o mesmo jogo duplo de medidas que Kula encontrou nos celeiros senhoriais. A justiça das medidas como tema bíblico está no estudo de Gênesis 23:16. No deserto, a medida não podia ser falsificada porque não era de ninguém: o maná que sobrava apodrecia, e o que se media era só o que se comia.
O limite da aproximação
Kula escreveu sobre a Europa dos séculos XVI a XVIII, e não sobre Israel antigo. A aproximação aqui é de quem lê os dois. E o texto bíblico não lamenta a conversão do ômer em efa; registra-a como informação útil. O que o pensamento de Kula acrescenta é a percepção de que nenhuma tabela de medidas é inocente. A nota de rodapé do Êxodo 16 parece a frase mais técnica do capítulo, e é também a que liga o pão do deserto ao mundo das balanças, dos tributos e das trapaças que os profetas vão denunciar.
7. Aplicações Práticas
Saber quanto é o suficiente
O versículo fecha um capítulo inteiro sobre a medida certa: nem guardar demais, nem faltar. Ibn Ezra leu nele a afirmação de que um ômer bastava para saciar. Numa cultura em que quase tudo empurra para acumular, a pergunta prática que o versículo deixa é simples e difícil: quanto, para mim e para os meus, é de fato suficiente? Quem nunca fez essa conta não tem como saber quando já tem o bastante.
Ler com atenção às unidades
Há também uma aplicação de leitura. Medidas, moedas e distâncias da Bíblia são frequentemente lidas por cima, como detalhe técnico. Este versículo mostra que elas carregam sentido: uma porção de dois litros por pessoa diz algo sobre a generosidade do relato que "um ômer" sozinho não diz. Ao ler, pergunte quanto é aquilo de que o texto fala.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quanto maná caía por dia, ao todo?
A pergunta fascinou os eruditos do século XVIII. John Gill transcreve o cálculo do naturalista suíço Johann Jakob Scheuchzer, autor de uma enciclopédia de ciência bíblica, a Physica sacra (1731-1735): mais de noventa e quatro mil alqueires ingleses por dia, e mais de um bilhão e trezentos milhões ao longo de quarenta anos. Com os números modernos, se o ômer tinha cerca de dois litros e o acampamento tinha os dois a três milhões de pessoas que a soma de Êxodo 12:37 sugere, seriam de quatro a seis milhões de litros por manhã. A conta depende inteiramente do tamanho do povo, que é um dos problemas mais discutidos do Êxodo, tratado no estudo daquele versículo. O que ela mostra, em qualquer hipótese, é que o relato não descreve um fenômeno discreto.
O ômer da contagem até Pentecostes tem relação com o ômer do maná?
Na língua, provavelmente não: são duas palavras iguais com sentidos diferentes, a medida e o feixe (item 10). Na narrativa bíblica, há um encontro curioso. Levítico 23:10-14 manda trazer o primeiro feixe — o ômer — da colheita de cevada e proíbe comer do grão novo antes dele. Josué 5:11-12 diz que o povo comeu do produto da terra no dia seguinte à Páscoa e que o maná cessou no dia seguinte. Rashi, comentando Êxodo 16:35, junta as duas coisas: o povo viveu da reserva de maná "até trazer o ômer, no dia dezesseis de Nisã". E o Talmude discute o fim do maná, em Quiddushin 38a, justamente dentro de uma discussão sobre o feixe do ômer e o grão novo. O ômer de maná termina no dia do ômer de cevada. É coincidência de palavras, que a tradição transformou em desenho.
Os outros povos antigos também explicavam medidas nos seus textos?
Sim, e por necessidade. As medidas variavam de cidade para cidade e de época para época, e textos que circulavam longe do lugar de origem precisavam de equivalências. Os próprios tradutores antigos da Bíblia fizeram isso com este versículo: tanto a tradução grega quanto o Targum aramaico sentiram necessidade de explicar também o efa, como se vê no item 10. A nota explicativa, que já era uma tradução, precisou ser traduzida de novo.
9. Conexão com Outros Textos
O padrão das medidas
Ezequiel 45:10-11 — "Tenham balanças justas, efa justo e bato justo. O efa e o bato terão a mesma medida: o bato conterá a décima parte do hômer, e o efa a décima parte do hômer; a medida deles será conforme o hômer."
É a única tabela de medidas de capacidade da Bíblia hebraica, e ela usa o hômer como base. Dela se tira a escala completa: o ômer é um décimo do efa, o efa é um décimo do hômer, e o hômer vale, portanto, cem ômeres. A lista vem num programa de reforma do culto e da justiça depois do exílio, ligada a "balanças justas". O versículo do Êxodo e o de Ezequiel são as duas pontas do sistema: a menor medida de grão e a maior.
A colheita que não paga a semente
Isaías 5:10 — "Porque dez jeiras de vinha darão apenas um bato, e um hômer de semente dará apenas um efa."
A maldição contra quem junta casa a casa e campo a campo é dita em medidas. Plantar um hômer e colher um efa é colher um décimo do que se semeou. A mesma relação de um para dez que, no Êxodo, separa o ômer do efa, serve aqui para descrever a ruína: a terra devolve só a décima parte.
O outro ômer: o feixe
Levítico 23:10-11 — "Quando vocês entrarem na terra que eu lhes dou e fizerem a sua colheita, trarão ao sacerdote o ômer das primícias da sua colheita. E ele moverá o ômer diante do SENHOR, para que vocês sejam aceitos; no dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá."
Aqui "ômer" é o feixe de espigas, o primeiro da colheita de cevada. Dele parte a contagem de sete semanas até a festa seguinte (Levítico 23:15). A lei começa com "quando vocês entrarem na terra" — vale para o mundo em que o maná já terá cessado.
Rute 2:7 — "Ela disse: 'Deixe-me respigar e juntar entre os feixes, atrás dos ceifeiros.' Ela veio e ficou desde a manhã até agora."
No campo de Boaz, Rute recolhe "entre os feixes" — entre os ômeres, no hebraico. A estrangeira pobre vive do que fica no chão entre os feixes dos outros, como Israel viveu do que ficava no chão do deserto.
Deuteronômio 24:19 — "Quando fizeres a colheita no teu campo e esqueceres um feixe no campo, não voltarás para buscá-lo; será para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva."
O feixe esquecido não é recolhido. A lei protege uma sobra que pertence a quem não tem campo, e o vocabulário é o mesmo ômer. Para quem não colhe, o feixe faz o papel que o maná fazia para todos.
Jó 24:10 — "Andam nus, sem roupa, e, famintos, carregam os feixes."
O avesso do maná: trabalhadores que carregam o feixe do patrão e passam fome. É a injustiça que o deserto não conhecia — comida à vista, nas costas, e fora do alcance de quem a carrega.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O ômer é a décima parte do efa.
Texto hebraico
וְהָעֹמֶר עֲשִׂרִית הָאֵיפָה הוּא׃
Transliteração
ve-ha-omer asirit ha-efah hu.
Análise palavra por palavra
וְהָעֹמֶר — ve-ha-omer, "e o ômer".
A conjunção ve, que aqui não liga ações, mas abre um parêntese: vale como "ora", "quanto a". Depois, o artigo: não "um ômer", mas "o ômer" — aquele de que o capítulo falou. A frase começa pelo termo a definir, como num verbete.
A palavra omer, escrita com as consoantes ayin, mem e resh, tem dois sentidos na Bíblia hebraica, que os dicionários tratam como duas palavras de mesma forma. Uma é a medida, que só existe neste capítulo. A outra é o feixe de espigas: o ômer das primícias em Levítico 23:10-15, os feixes entre os quais Rute respiga (Rute 2:7, 2:15), o feixe esquecido no campo (Deuteronômio 24:19), os feixes carregados pelos famintos (Jó 24:10). Da mesma família é o verbo de atar feixes, no Salmo 129:7. Se as duas palavras têm origem comum — a medida seria o grão de um feixe, ou a tigela do viajante seria outra coisa — é discutido, e não há como decidir.
Ômer, hômer e gômer
O hômer é outra palavra, escrita com outra primeira letra: chomer, com a consoante gutural chet. Vale dez efas, ou cem ômeres. Aparece na avaliação do campo pela semente (Levítico 27:16), na maldição da colheita perdida (Isaías 5:10), no preço que Oseias paga pela mulher (Oseias 3:2) e nas codornizes de Números 11:32, onde quem recolheu menos juntou dez hômeres.
Em português, as três coisas se embaralharam. A tradição de Almeida chama a medida do Êxodo 16 de "gômer", e chama de "ômer" tanto o hômer (Ezequiel 45:11, Levítico 27:16, Oseias 3:2, Números 11:32) quanto o feixe de Levítico 23. Quem lê "um ômer de cevada" numa Bíblia tradicional está diante de uma medida cem vezes maior que o ômer do maná. A tradução ABC usa "ômer" para a medida deste capítulo, que é a forma mais próxima do hebraico, e "hômer" para a medida grande.
O "gômer" das Bíblias tradicionais vem da Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo), que escreve gomor. O grego não tinha letra para o ayin hebraico e às vezes o representava com gama. É o mesmo processo que transformou a cidade de Amorah em "Gomorra". A Vulgata latina herdou o gomor, e as traduções europeias, o "gômer".
עֲשִׂרִית — asirit, "a décima parte".
Numeral ordinal feminino de eser, "dez", usado como fração: "a décima", "um décimo". É da mesma raiz do dízimo, ma'aser. A mesma quantidade, nas leis das ofertas, ganha um nome próprio, issaron, "um décimo" (Êxodo 29:40; Números 15:4), ou é dita por extenso, "a décima parte de um efa" (Levítico 5:11).
הָאֵיפָה — ha-efah, "o efa".
Com artigo: o efa conhecido, a medida corrente. A origem egípcia da palavra está no estudo de Gênesis 25:4.
As traduções antigas acharam que também o efa precisava de explicação. A Septuaginta escreve: "o gomor era a décima parte das três medidas". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá): "o ômer é um de dez em três seás". As duas traduzem o efa pela sua divisão em três seás, a medida que os leitores da época usavam. A nota explicativa do hebraico precisou, séculos depois, de uma nota explicativa própria.
הוּא — hu, "ele é".
O pronome da terceira pessoa, posto no fim, faz o papel do verbo "ser": "o ômer, a décima parte do efa, ele é". É a marca típica das notas explicativas da Bíblia hebraica, as que identificam um nome antigo com um nome conhecido do leitor: "Bela, que é Zoar" (Gênesis 14:2, 14:8); "o vale de Sidim, que é o mar Salgado" (Gênesis 14:3); "Esaú, que é Edom" (Gênesis 36:1). Em todos esses casos, o pronome amarra a palavra que o leitor não conhece à que ele conhece. Êxodo 16:36 usa a mesma fórmula, aplicada a uma medida em vez de um lugar.
Depois do pronome, o texto hebraico tradicional marca o fim de uma seção com a letra pe, sinal de parágrafo aberto. O capítulo do maná termina numa definição, e a página fica em branco até o fim da linha.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira é que o capítulo foi transmitido a leitores que já não falavam a língua do deserto. A palavra que media tudo no relato — a porção, a igualdade, o dobro do sábado, o jarro — tinha saído de uso, e alguém, cedo ou tarde, precisou traduzi-la para a medida corrente. A fórmula usada é a das notas que identificam nomes antigos com nomes conhecidos. Seja qual for a data da nota, ela é o rastro de um texto lido, relido e explicado ao longo de gerações, e não de um documento fechado no dia em que foi escrito.
A segunda é que a conversão tem conteúdo, e não só utilidade. Ao fixar o ômer em um décimo do efa, o versículo mostra que a porção diária era farta, cerca do dobro do que um trabalhador antigo comia, e liga essa porção à menor oferta que a lei aceitará do pobre. Ao mesmo tempo, faz a medida nascida da necessidade de uma pessoa caber no sistema de medidas dos celeiros e do comércio — o mesmo em que, segundo os profetas, a injustiça se esconde. O capítulo que começou com fome termina dizendo exatamente quanto era o bastante.













