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Êxodo 16:35

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 12 acessos
Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até chegarem a uma terra habitada; comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã.
Num acampamento junto a um oásis de palmeiras no vale do Jordão, ao entardecer, homens e mulheres do povo de Israel tostam espigas verdes de cevada sobre uma pequena fogueira, enquanto ao fundo, no chão do deserto, já não há sinal dos grãos brancos do maná.

Estudo


Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até chegarem a uma terra habitada; comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã.

1. Introdução

Em uma frase, o capítulo salta do primeiro dia do maná para o último: quarenta anos de comida no deserto, até a chegada. O versículo diz a chegada duas vezes, com dois nomes diferentes — "uma terra habitada" e "a fronteira da terra de Canaã" —, e os leitores antigos se perguntaram se eram o mesmo lugar. A conta também não fecha: o maná começou um mês depois da saída e parou no dia seguinte à primeira Páscoa em Canaã, como conta Josué 5:12, e Moisés já estava morto. Quem escreveu, então, "comeram o maná quarenta anos"? O fim do maná é também o começo da lavoura, e é aí que entra o agricultor e ensaísta Wendell Berry.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde o deserto acaba

O versículo mede o deserto pela comida. O maná dura "até chegarem a uma terra habitada", e a expressão hebraica diz mais do que "povoada": é terra assentada, com gente fixa, casas, campos semeados. O oposto não é a terra vazia de gente, mas a terra onde não se planta.

No caminho do Êxodo, essa fronteira tinha lugar conhecido. Ao sul e a leste do mar Morto, o planalto da Transjordânia recebe chuva suficiente para trigo e cevada; é ali que a narrativa de Números põe os reinos de Siom, rei dos amorreus, com capital em Hesbom, e de Ogue, rei de Basã (Números 21:21-35). Depois de derrotá-los, Israel acampa "nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó" (Números 22:1). É dessa planície, a última parada antes do rio, que Moisés olha a terra e onde morre (Deuteronômio 34:1-5).

Do outro lado do rio fica o oásis de Jericó. A cidade está a cerca de 250 metros abaixo do nível do mar, no fundo do vale do Jordão, alimentada por uma fonte perene que até hoje irriga palmeiras e hortas. O calor do vale faz a cevada amadurecer ali semanas antes do que nas montanhas de Judá e da Samaria. A colheita de Jericó começa em fim de março e abril, justamente o mês da Páscoa.

Esse dado agrícola explica a sequência de Josué 5:10-12, que de outro modo pareceria arranjada. O povo atravessa o Jordão no décimo dia do primeiro mês (Josué 4:19), celebra a Páscoa no dia catorze em Gilgal, junto de Jericó, e no dia seguinte come "do produto da terra: pães sem fermento e espigas tostadas". Só há grão novo para tostar porque o lugar é Jericó e a época é aquela. O próprio Josué registra que o rio estava cheio "durante todo o tempo da colheita" (Josué 3:15): a travessia acontece com a cevada madura nos campos do vale.

Espigas tostadas: a comida da colheita

As "espigas tostadas" de Josué 5:11 não são prato de festa. São o que se come no campo enquanto a colheita não termina: espigas ainda verdes, passadas no fogo, debulhadas na mão. Rute come delas com os ceifeiros de Boaz (Rute 2:14); Jessé as manda, com pães, a Davi e aos irmãos no acampamento de Saul (1 Samuel 17:17). É a comida mais imediata que a terra dá, antes da moagem e do forno.

O contraste com o maná é exato. O maná era recolhido do chão sem semear; as espigas tostadas são o primeiro fruto de uma lavoura que outros semearam. A transição do deserto para a terra se faz, no relato, sem intervalo de fome: o último maná e o primeiro grão ficam a um dia de distância. E a lei que manda não comer do grão novo "nem pão, nem grão tostado, nem espiga verde" antes de oferecer o primeiro feixe (Levítico 23:14) ganha, nessa cena, a sua primeira ocasião de valer.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos,"

A frase muda de tempo. Até aqui o capítulo narrava um dia de cada vez — a tarde das codornizes, a primeira manhã, a sexta-feira, o sábado. Agora, sem transição, resume quatro décadas. O verbo não encadeia mais a história, como os anteriores: faz o balanço dela (item 10). O versículo é um sumário escrito de depois do fim.

E é um sumário que ninguém no deserto de Sim poderia ter feito. Os quarenta anos não estavam previstos quando o maná começou. Eles são decididos mais tarde, como sentença, depois que os espiões voltam de Canaã e o povo se recusa a entrar: "segundo o número dos dias em que vocês espiaram a terra, quarenta dias, cada dia por um ano, levarão as suas culpas quarenta anos" (Números 14:34). Quando o maná caiu pela primeira vez, o plano era chegar logo. O número que este versículo dá com naturalidade é o de um castigo que ainda não tinha acontecido.

A conta, além disso, não é exata, e os rabinos fizeram a aritmética. O maná começou no dia dezesseis do segundo mês do primeiro ano, na manhã seguinte à chegada ao deserto de Sim (Êxodo 16:1), um mês depois da saída; e cessou no dia dezesseis do primeiro mês, depois da primeira Páscoa em Canaã (Josué 5:10-12). Uma tradição citada no Talmude, tratado Quiddushin, folha 38a, pergunta: "Comeram quarenta anos? Não foram quarenta anos menos trinta dias?" E responde que nos bolos sem fermento trazidos do Egito, comidos durante aquele primeiro mês, eles sentiram o gosto do maná. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu da França, século XI) repete a solução. A tradição preferiu completar a conta a admitir um número redondo.

Abraão ibn Ezra (comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) tirou do número outra coisa: chamou o maná de maior milagre feito por meio de Moisés, porque todos os outros duraram um instante e este durou quarenta anos. O que distingue o maná, nessa leitura, não é o prodígio de uma manhã, mas a repetição.

"até chegarem a uma terra habitada;"

Qual terra? A pergunta nasce do fim do versículo, que dá um segundo ponto de chegada. As leituras são três.

Primeira leitura: a terra habitada é Canaã, do outro lado do Jordão. Rashi entende assim e cita o tradutor aramaico Ônquelos, que escreve "terra assentada". É a terra cultivada onde o povo entra depois de atravessar o rio.

Segunda leitura: é a Transjordânia conquistada. Ovadia Sforno (rabino e médico italiano, século XVI) diz que a terra habitada são os reinos de Siom e Ogue, a leste do Jordão. Ao tomá-los, Israel passou a comer também pão comum, e o maná deixou de ser a única comida. Sforno encontra apoio numa minúcia: na segunda metade do versículo, lê a partícula que antecede "o maná" no sentido de "com", "junto com" — comiam o maná junto com outras coisas.

Terceira leitura: é simplesmente "não deserto". Ibn Ezra lê a expressão por contraste com o deserto descrito em Jeremias 2:6, "terra por onde ninguém passou e onde nenhum homem habitou". A terra habitada é qualquer terra que não seja essa.

"comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã."

O versículo repete o verbo e o objeto, agora em ordem inversa — "comeram o maná… o maná comeram" — e muda o ponto de chegada. Por que dizer duas vezes?

Primeira resposta: o maná parou em dois tempos. O mesmo Quiddushin 38a trata as duas frases como contraditórias e as reconcilia: Moisés morreu no dia sete do mês de Adar, nas planícies de Moabe, e nesse dia o maná parou de cair; o povo continuou comendo o que tinha guardado nos recipientes até o dia dezesseis de Nisã, já em Canaã. A data da morte de Moisés é calculada ali mesmo, a partir dos trinta dias de luto (Deuteronômio 34:8) e dos três dias de preparação para a travessia (Josué 1:11).

A Mekhilta de Rabi Ishmael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo), no tratado Vayassa, seção 6, registra a mesma discussão com números diferentes. Para Rabi Josué, o povo comeu o maná guardado durante quarenta dias depois da morte de Moisés. Para Rabi Eliezer de Modiim, setenta, porque naquele ano havia um mês de Adar a mais. E Rabi Yossi vai muito além: o povo comeu maná cinquenta e quatro anos — quarenta em vida de Moisés e catorze depois, os sete anos da conquista e os sete da partilha da terra. Para ele, "terra habitada" e "fronteira de Canaã" marcam dois finais distantes um do outro.

Segunda resposta: a repetição tem forma de espelho e quer dar ênfase. O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) observa a inversão: na primeira frase o verbo vem antes ("comeram o maná"), na segunda vem o maná antes ("o maná comeram"). Para ele, a primeira fala da duração, a segunda do próprio alimento, e só o maná recolhido fresco do chão seria o maná "de primeira" — nem o pão do Egito no começo, nem a reserva depois da morte de Moisés.

Terceira resposta: os dois nomes designam o mesmo lugar. Samuel David Luzzatto (comentarista judeu italiano do século XIX, conhecido como Shadal) entende que "terra habitada" e "fronteira de Canaã" são as planícies de Moabe, a borda oriental da terra prometida, e que o versículo não olha para além disso.

Não é possível decidir. O que as leituras têm em comum é que todas encontram no versículo uma sobreposição: o maná não termina num ponto, mas numa faixa — entre a primeira terra cultivada e a primeira colheita em Canaã. O texto de Josué confirma o essencial: o maná cessou "no dia seguinte, quando comeram do produto da terra" (Josué 5:12). Não houve intervalo. O último dia de um alimento é o primeiro do outro.

Quem escreveu "comeram quarenta anos"?

Se Moisés morreu antes do fim do maná, a frase não pode ter sido escrita por ele como relato do que viu. Joseph Benson (pregador metodista inglês do século XVIII) e Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) respondem que Moisés chegou à fronteira e sabia, por revelação, que o maná acabaria na entrada. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) registra que alguns atribuíam a frase a Josué, e acha que isso "não precisa ser muito discutido". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) nota um detalhe a favor de Moisés: o versículo diz até onde o povo comeu, mas não diz que o maná cessou.

Shadal formulou o princípio mais firme do lado judaico: "Moisés não escreveu nada por profecia". Tudo o que o fecho do capítulo conta, escreveu no quadragésimo ano, olhando para trás, e não escreveu nada que não tivesse visto — razão pela qual ele lê os dois pontos de chegada como um só, as planícies de Moabe, onde Moisés ainda estava vivo. A leitura de Shadal é coerente consigo mesma; o preço é ter de recusar o sentido mais natural de "terra habitada".

O versículo não resolve a questão, mas a coloca com nitidez. É uma frase escrita do fim da caminhada, por alguém que sabia quanto ela durou. O problema mais amplo das frases do Pentateuco que supõem um tempo depois de Moisés, com Ibn Ezra e Espinosa, está no estudo de Gênesis 36:31.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os filhos de Israel — o povo inteiro, mas não as mesmas pessoas do começo ao fim. A geração adulta que saiu do Egito morre no deserto (Números 14:29-35; Deuteronômio 2:14); quem entra em Canaã é, na maioria, gente que nasceu comendo maná.

Moisés — não é nomeado, mas está implícito no problema do versículo: morre nas planícies de Moabe antes de o maná acabar (Deuteronômio 34:5). A tradição rabínica fixa a data em sete de Adar.

Josué — sucessor de Moisés, sob cujo comando o maná cessa (Josué 5:12). O versículo do Êxodo não o menciona, mas descreve o fim que acontece no livro dele.

A terra habitada — conforme a leitura: Canaã depois do Jordão (Rashi), a Transjordânia de Siom e Ogue (Sforno), qualquer terra que não seja deserto (Ibn Ezra) ou as próprias planícies de Moabe (Shadal).

A fronteira da terra de Canaã — a borda oriental, junto ao Jordão. Para Rashi, as planícies de Moabe; para Ibn Ezra, Gilgal, o primeiro acampamento depois da travessia.

Gilgal — acampamento junto de Jericó, na margem ocidental do Jordão, onde o povo celebra a primeira Páscoa em Canaã e come o primeiro grão da terra (Josué 4:19; 5:10-12).

O evento — não um acontecimento, mas um período inteiro: quarenta anos de alimentação no deserto, resumidos numa frase, até o dia em que o maná deixa de cair e o povo come do produto da terra.

5. Pontos de Ensino

1. A provisão durou tanto quanto a necessidade. O maná não acabou no meio do deserto nem continuou dentro da terra cultivada. Começou quando não havia comida e terminou quando passou a haver. O texto não fala de um alimento milagroso permanente, mas de um alimento para um trecho do caminho.

2. Os quarenta anos não estavam no plano inicial. O número que o versículo dá de passagem é o da sentença de Números 14, depois da recusa de entrar na terra. O maná que deveria ser o pão de uma travessia curta virou o pão de uma geração inteira — e continuou caindo durante o castigo.

3. O sustento não foi retirado por causa da desobediência. Houve murmurações, o bezerro de ouro, a revolta de Corá, a recusa diante de Canaã; o maná não parou em nenhum desses momentos. O texto separa o juízo, que existiu, do pão de cada dia, que não foi suspenso.

4. A passagem do extraordinário para o comum se faz sem intervalo. O maná cessa "no dia seguinte" ao primeiro grão da terra. Não há um dia de fome entre um regime e outro. O fim da provisão especial coincide com o começo da provisão ordinária.

6. Aspectos Filosóficos

Wendell Berry: o fim do maná e o começo da lavoura

Wendell Berry (nascido em 1934) é agricultor no Kentucky, nos Estados Unidos, além de poeta, romancista e ensaísta. Há mais de cinquenta anos escreve sobre a mesma pergunta: o que acontece com uma sociedade quando ela esquece de onde vem a sua comida? O versículo do Êxodo descreve exatamente o momento em que um povo deixa de receber comida sem cultivá-la e passa a ter de cultivá-la. É o ponto em que a pergunta de Berry começa.

"Comer é um ato agrícola"

A frase mais citada de Berry está no ensaio Os prazeres de comer, de 1989: "comer é um ato agrícola". O alvo era o consumidor das cidades modernas, que compra comida embalada sem saber quem a plantou, em que solo, com que trabalho, a que custo para a terra. Para esse consumidor, escreve Berry, a comida chega como se viesse do nada; ele é um comprador passivo, e a sua ignorância é a condição do sistema que o alimenta.

O maná, lido com os olhos de Berry, é o caso-limite dessa situação — com uma diferença decisiva. No deserto, a comida também vem "do nada": cai do céu, não tem lavoura atrás. Mas ninguém no deserto se ilude sobre isso. O povo sabe que não plantou, sabe que não pode guardar, sabe que depende inteiramente de quem dá. A ignorância moderna que Berry denuncia é esquecer a dependência; o deserto a torna impossível de esquecer.

E o versículo marca o fim desse regime. A partir da terra habitada, comer volta a ser um ato agrícola. O grão tem semente, campo, colheita, estação; tem trabalho de alguém. A dependência continua, mas passa a ter mediação: a terra, a chuva, o corpo de quem lavra.

O dom da terra boa

Num ensaio de 1979 que deu título a um livro dois anos depois, O dom da terra boa, Berry respondia aos que culpavam a tradição bíblica pela exploração da natureza. Ele foi buscar o título em Deuteronômio 8:10 — o mandamento de bendizer a Deus "pela terra boa que ele lhe deu" — e argumentou que, no Deuteronômio, a terra prometida é dada como dom, e não como propriedade absoluta. O dom é condicional: pode ser perdido. E a forma prática de reconhecê-lo, para Berry, é o que ele chama de boa lavoura: cuidar da terra de modo que ela continue dando.

No livro que o tornou conhecido, de 1977 — cujo título em inglês joga com a ideia de arrancar um povo do lugar onde se assentou, algo como "o desassentamento da América" —, Berry dividia as atitudes diante da terra em duas figuras: o explorador, que tira dela o máximo no menor tempo, e o cuidador, que pergunta quanto ela pode dar sem se esgotar. O explorador trata a terra como mina; o cuidador, como casa.

O versículo do Êxodo fica no limiar entre os dois regimes que Berry descreve. No deserto, não havia nem exploração nem cuidado possíveis: a comida não dependia da terra. Na terra habitada, as duas atitudes passam a ser possíveis. O maná, que não se podia acumular (Êxodo 16:19-20), cessa justamente quando começa a comida que se pode acumular, guardar em celeiro e vender. O dom continua dom, mas agora pode ser mal administrado.

O limite da aproximação

Berry não está comentando o Êxodo 16; a ligação aqui é de quem lê os dois. E há uma diferença que impede de forçar a comparação. Berry escreve contra uma agricultura industrial que o mundo antigo não conhecia. O texto bíblico não opõe o maná à lavoura como o bom ao mau: o maná foi pão de castigo e de caminho, e a terra cultivada era a promessa. O que o pensamento de Berry ajuda a ver é outra coisa — que o fim do maná não é o fim da dependência, e sim o começo de uma responsabilidade que o deserto não exigia.

7. Aplicações Práticas

Quando o socorro extraordinário termina

Há fases da vida em que se vive de ajuda que não se produziu: uma doença, um desemprego, um recomeço depois de uma perda. O versículo descreve o fim de uma fase assim, e o modo como ela termina tem aplicação concreta. O maná não foi cortado antes de existir outro sustento, e também não continuou depois. Quem atravessa uma fase de dependência pode tomar isso como critério: o apoio que recebeu era para o caminho, não para sempre, e a saída dele coincide com a entrada numa vida em que o próprio trabalho volta a contar.

Comer sabendo de onde vem

A geração que entrou em Canaã tinha crescido sem lavoura. A primeira coisa que comeu na terra foi grão de um campo que outros tinham semeado. Hoje, a maioria das pessoas está numa situação parecida: come o que não plantou e não sabe quem plantou. O versículo, lido ao lado de Wendell Berry, sugere uma prática modesta — saber de onde vem o que se come, e tratar isso como parte da gratidão, e não como detalhe técnico.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o povo comia maná, por que comprava comida de Edom e de Moabe?

O Deuteronômio conta que, ao passar pelo território dos descendentes de Esaú, Israel recebeu a ordem: "comprarão deles, por prata, a comida, e comerão; e também a água comprarão deles, por prata, e beberão" (Deuteronômio 2:6). Ao rei Siom, Moisés pede o mesmo (Deuteronômio 2:28-29), e diz que Edom e Moabe já tinham vendido. O dado não desmente o versículo, mas o precisa: o maná era a base, não a única comida. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) já dizia que "comeram o maná quarenta anos" não significa que tenham comido só maná, nem que ele tenha caído sem interrupção em todo lugar. É uma leitura possível; o texto não diz como as duas coisas se combinavam.

O número quarenta é simbólico ou é conta?

Quarenta é número recorrente na Bíblia, e muitas vezes redondo. Mas aqui o Pentateuco faz a conta por dentro. Arão morre "no quadragésimo ano depois da saída, no quinto mês" (Números 33:38); Moisés fala ao povo "no quadragésimo ano, no décimo primeiro mês" (Deuteronômio 1:3); de Cades até o ribeiro de Zerede passam-se "trinta e oito anos" (Deuteronômio 2:14). As datas são coerentes entre si e levam à travessia do Jordão no primeiro mês do ano seguinte. O número tem peso simbólico — uma geração —, mas o texto o trata também como calendário.

9. Conexão com Outros Textos

O dia em que o maná parou

Josué 5:10-12 — "Os filhos de Israel acamparam em Gilgal e celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, nas planícies de Jericó. No dia seguinte à Páscoa, comeram do produto da terra, pães sem fermento e grão tostado, naquele mesmo dia. E o maná cessou no dia seguinte, quando comeram do produto da terra; os filhos de Israel não tiveram mais maná, mas comeram dos frutos da terra de Canaã naquele ano."

É o cumprimento exato de Êxodo 16:35, contado no livro seguinte. Três detalhes ligam os dois textos. O verbo é o mesmo, "comer", repetido três vezes em Josué como no Êxodo. O critério do fim é o mesmo: o maná para quando há outro alimento, não antes. E a data cai na Páscoa, a festa da saída do Egito: o pão do caminho começou um mês depois da primeira Páscoa e termina no dia seguinte a outra. O texto de Josué também responde à dúvida do Êxodo sobre o ponto de chegada: o fim é dentro de Canaã, em Gilgal, depois do Jordão.

De onde vêm os quarenta anos

Números 14:33-34 — "Os filhos de vocês serão pastores no deserto quarenta anos e carregarão as infidelidades de vocês, até que os seus cadáveres se acabem no deserto. Segundo o número dos dias em que vocês espiaram a terra, quarenta dias, cada dia por um ano, carregarão as suas culpas quarenta anos."

O número que Êxodo 16:35 dá de passagem nasce aqui, como sentença. Um dia de espionagem vale um ano de deserto. O Êxodo, ao falar de "quarenta anos" no capítulo 16, olha para a frente e incorpora no relato do primeiro maná o resultado de uma recusa que ainda não aconteceu.

O deserto lembrado como escola

Deuteronômio 29:5-6 — "Eu os conduzi quarenta anos pelo deserto; as roupas de vocês não se gastaram sobre vocês, nem a sandália se gastou no seu pé. Vocês não comeram pão, nem beberam vinho nem bebida forte, para que soubessem que eu sou o SENHOR, o seu Deus."

"Não comeram pão" — isto é, pão de grão. O Deuteronômio resume os quarenta anos pela ausência da comida comum. O maná não é contado ali como "pão", mas como o que substituiu o pão, e a ausência é apresentada como lição: conhecer de quem se depende.

A terra que também é recebida

Josué 24:13 — "Eu lhes dei uma terra em que vocês não trabalharam, e cidades que vocês não construíram, e vocês habitam nelas; vinhas e olivais que vocês não plantaram, e vocês comem deles."

A "terra habitada" de Êxodo 16:35 aparece aqui do ponto de vista de quem já mora nela. O vocabulário é o do maná: comer o que não se produziu. A terra cultivada, que encerra o tempo do maná, é descrita no fim do livro de Josué como mais um dom. O que muda não é a gratuidade, é a forma.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até chegarem a uma terra habitada; comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã.

Texto hebraico

וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אָכְלוּ אֶת־הַמָּן אַרְבָּעִים שָׁנָה עַד־בֹּאָם אֶל־אֶרֶץ נוֹשָׁבֶת אֶת־הַמָּן אָכְלוּ עַד־בֹּאָם אֶל־קְצֵה אֶרֶץ כְּנָעַן׃

Transliteração

u-venei Yisra'el akhlu et-ha-man arba'im shanah ad-bo'am el-erets noshavet; et-ha-man akhlu ad-bo'am el-qetseh erets Kena'an.

Análise palavra por palavra

וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל — u-venei Yisra'el, "e os filhos de Israel".

A frase começa pelo sujeito, e não pelo verbo. Na prosa narrativa hebraica, a sequência normal é verbo primeiro, na forma que encadeia os fatos ("e comeram", "e disseram"). Abrir pelo sujeito interrompe a sequência: o leitor sabe que vem uma informação à parte, um comentário sobre o conjunto, e não o próximo acontecimento.

אָכְלוּ — akhlu, "comeram".

Do verbo akhal, "comer", no perfeito simples, terceira pessoa do plural. Não é a forma narrativa do resto do capítulo, mas a forma do fato consumado, visto como um todo. Com o sujeito na frente, dá à frase o tom de balanço: "os filhos de Israel, eles comeram o maná quarenta anos".

אֶת־הַמָּן — et-ha-man, "o maná".

O nome do alimento, com artigo e com a partícula que marca o objeto direto. A origem do nome está no estudo de Êxodo 16:15.

אַרְבָּעִים שָׁנָה — arba'im shanah, "quarenta anos".

Literalmente "quarenta ano": depois dos números a partir de onze, o hebraico costuma pôr o substantivo no singular. É a construção normal das datas e durações longas, a mesma de Números 14:33-34.

עַד־בֹּאָם — ad-bo'am, "até o chegar deles".

A preposição ad, "até", com o infinitivo do verbo bo, "vir, chegar", e o sufixo "deles". O hebraico não diz "até que chegaram", com verbo conjugado; diz "até a chegada deles". A expressão aparece duas vezes, uma em cada metade do versículo, igual.

אֶל־אֶרֶץ נוֹשָׁבֶת — el-erets noshavet, "a uma terra habitada".

Noshavet é particípio do verbo yashav, "sentar-se, morar, assentar-se", na forma passiva (Nifal): "terra que é habitada", "terra assentada". A vogal muda de noshevet para noshavet porque a palavra cai na pausa do meio do versículo. Sem artigo: "uma terra habitada", qualquer uma, e não "a terra" prometida. O mesmo particípio descreve, em Ezequiel, as cidades habitadas que serão arrasadas (Ezequiel 12:20) e as ruínas que voltaram a ter moradores (Ezequiel 38:12); o mesmo verbo, na mesma forma passiva e negado, descreve a terra que fica sem ninguém (Jeremias 6:8). O contrário de deserto, aqui, não é terra fértil: é terra com gente fixa.

A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz por oikoumenē, "terra habitada" — a palavra que, no grego posterior, passará a designar o mundo civilizado inteiro, como em Lucas 2:1. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve ar'a yatevta, "terra assentada"; é essa a forma que Rashi cita. A Vulgata latina põe terram habitabilem, "terra habitável" — onde se pode morar, e não onde já se mora.

אֶת־הַמָּן אָכְלוּ — et-ha-man akhlu, "o maná comeram".

As mesmas duas palavras da primeira metade, em ordem inversa: objeto antes do verbo. A frase fica em espelho — "comeram o maná… o maná comeram" —, com a ênfase, na segunda metade, no alimento.

אֶל־קְצֵה אֶרֶץ כְּנָעַן — el-qetseh erets Kena'an, "à fronteira da terra de Canaã".

Qetseh é "ponta, extremidade, borda": o ponto em que uma coisa termina. A mesma palavra descreve Cades, "uma cidade na extremidade do seu território", na mensagem de Moisés ao rei de Edom (Números 20:16), e o monte Hor, "na extremidade da terra de Edom" (Números 33:37). É linguagem de fronteira vista de fora: a borda de uma terra em que ainda não se entrou.

Aqui a Septuaginta faz uma troca surpreendente: em vez de "a fronteira da terra de Canaã", escreve "uma parte da Fenícia". O tradutor de Alexandria usou o nome geográfico do seu tempo para a costa e o interior do Levante, como faz em outros lugares com os cananeus. A Vulgata, por sua vez, troca o segundo "comeram o maná" por uma paráfrase: "com esse alimento foram nutridos, até tocarem os limites da terra de Canaã".

O Targum chamado de Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica posterior, cheia de acréscimos explicativos) resolve a duplicação do versículo dentro da própria tradução: "comeram o maná quarenta anos em vida de Moisés, até chegarem à terra habitada; comeram o maná quarenta dias depois da sua morte, até atravessarem o Jordão e entrarem nos limites da terra de Canaã". É a leitura de Rabi Josué na Mekhilta, posta no texto como se fosse o próprio versículo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o maná foi um alimento de passagem, medido pela necessidade. Ele não cessou com a desobediência, nem com a sentença dos quarenta anos, nem com a primeira terra cultivada a leste do Jordão; cessou quando o povo comeu, em Canaã, o primeiro grão da terra. O critério do fim é o mesmo do começo: o maná existe onde não há outro pão.

A segunda é que o versículo é escrito do ponto de chegada. Ele conhece a duração da caminhada, que só foi decidida depois, e conhece o lugar em que o maná deixou de cair. Quem o escreveu olhava para trás, e as tradições que tentaram atribuí-lo a Moisés precisaram ou de profecia, ou de ler os dois pontos de chegada como um só. As duas metades do versículo, com os seus dois limites, são o rastro desse olhar retrospectivo.

A terceira é que o fim do maná não é o fim do dom. O que muda é a forma: de pão que cai sem lavoura para grão que exige campo, estação e trabalho. A terra recebida passa a pedir cuidado, e a dependência que o deserto tornava evidente passa a exigir lembrança deliberada. O maná ensinava sozinho; o grão precisa de quem ensine.

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