Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até chegarem a uma terra habitada; comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã.
1. Introdução
Em uma frase, o capítulo salta do primeiro dia do maná para o último: quarenta anos de comida no deserto, até a chegada. O versículo diz a chegada duas vezes, com dois nomes diferentes — "uma terra habitada" e "a fronteira da terra de Canaã" —, e os leitores antigos se perguntaram se eram o mesmo lugar. A conta também não fecha: o maná começou um mês depois da saída e parou no dia seguinte à primeira Páscoa em Canaã, como conta Josué 5:12, e Moisés já estava morto. Quem escreveu, então, "comeram o maná quarenta anos"? O fim do maná é também o começo da lavoura, e é aí que entra o agricultor e ensaísta Wendell Berry.
2. Contexto Histórico e Cultural
Onde o deserto acaba
O versículo mede o deserto pela comida. O maná dura "até chegarem a uma terra habitada", e a expressão hebraica diz mais do que "povoada": é terra assentada, com gente fixa, casas, campos semeados. O oposto não é a terra vazia de gente, mas a terra onde não se planta.
No caminho do Êxodo, essa fronteira tinha lugar conhecido. Ao sul e a leste do mar Morto, o planalto da Transjordânia recebe chuva suficiente para trigo e cevada; é ali que a narrativa de Números põe os reinos de Siom, rei dos amorreus, com capital em Hesbom, e de Ogue, rei de Basã (Números 21:21-35). Depois de derrotá-los, Israel acampa "nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó" (Números 22:1). É dessa planície, a última parada antes do rio, que Moisés olha a terra e onde morre (Deuteronômio 34:1-5).
Do outro lado do rio fica o oásis de Jericó. A cidade está a cerca de 250 metros abaixo do nível do mar, no fundo do vale do Jordão, alimentada por uma fonte perene que até hoje irriga palmeiras e hortas. O calor do vale faz a cevada amadurecer ali semanas antes do que nas montanhas de Judá e da Samaria. A colheita de Jericó começa em fim de março e abril, justamente o mês da Páscoa.
Esse dado agrícola explica a sequência de Josué 5:10-12, que de outro modo pareceria arranjada. O povo atravessa o Jordão no décimo dia do primeiro mês (Josué 4:19), celebra a Páscoa no dia catorze em Gilgal, junto de Jericó, e no dia seguinte come "do produto da terra: pães sem fermento e espigas tostadas". Só há grão novo para tostar porque o lugar é Jericó e a época é aquela. O próprio Josué registra que o rio estava cheio "durante todo o tempo da colheita" (Josué 3:15): a travessia acontece com a cevada madura nos campos do vale.
Espigas tostadas: a comida da colheita
As "espigas tostadas" de Josué 5:11 não são prato de festa. São o que se come no campo enquanto a colheita não termina: espigas ainda verdes, passadas no fogo, debulhadas na mão. Rute come delas com os ceifeiros de Boaz (Rute 2:14); Jessé as manda, com pães, a Davi e aos irmãos no acampamento de Saul (1 Samuel 17:17). É a comida mais imediata que a terra dá, antes da moagem e do forno.
O contraste com o maná é exato. O maná era recolhido do chão sem semear; as espigas tostadas são o primeiro fruto de uma lavoura que outros semearam. A transição do deserto para a terra se faz, no relato, sem intervalo de fome: o último maná e o primeiro grão ficam a um dia de distância. E a lei que manda não comer do grão novo "nem pão, nem grão tostado, nem espiga verde" antes de oferecer o primeiro feixe (Levítico 23:14) ganha, nessa cena, a sua primeira ocasião de valer.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos,"
A frase muda de tempo. Até aqui o capítulo narrava um dia de cada vez — a tarde das codornizes, a primeira manhã, a sexta-feira, o sábado. Agora, sem transição, resume quatro décadas. O verbo não encadeia mais a história, como os anteriores: faz o balanço dela (item 10). O versículo é um sumário escrito de depois do fim.
E é um sumário que ninguém no deserto de Sim poderia ter feito. Os quarenta anos não estavam previstos quando o maná começou. Eles são decididos mais tarde, como sentença, depois que os espiões voltam de Canaã e o povo se recusa a entrar: "segundo o número dos dias em que vocês espiaram a terra, quarenta dias, cada dia por um ano, levarão as suas culpas quarenta anos" (Números 14:34). Quando o maná caiu pela primeira vez, o plano era chegar logo. O número que este versículo dá com naturalidade é o de um castigo que ainda não tinha acontecido.
A conta, além disso, não é exata, e os rabinos fizeram a aritmética. O maná começou no dia dezesseis do segundo mês do primeiro ano, na manhã seguinte à chegada ao deserto de Sim (Êxodo 16:1), um mês depois da saída; e cessou no dia dezesseis do primeiro mês, depois da primeira Páscoa em Canaã (Josué 5:10-12). Uma tradição citada no Talmude, tratado Quiddushin, folha 38a, pergunta: "Comeram quarenta anos? Não foram quarenta anos menos trinta dias?" E responde que nos bolos sem fermento trazidos do Egito, comidos durante aquele primeiro mês, eles sentiram o gosto do maná. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu da França, século XI) repete a solução. A tradição preferiu completar a conta a admitir um número redondo.
Abraão ibn Ezra (comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) tirou do número outra coisa: chamou o maná de maior milagre feito por meio de Moisés, porque todos os outros duraram um instante e este durou quarenta anos. O que distingue o maná, nessa leitura, não é o prodígio de uma manhã, mas a repetição.
"até chegarem a uma terra habitada;"
Qual terra? A pergunta nasce do fim do versículo, que dá um segundo ponto de chegada. As leituras são três.
Primeira leitura: a terra habitada é Canaã, do outro lado do Jordão. Rashi entende assim e cita o tradutor aramaico Ônquelos, que escreve "terra assentada". É a terra cultivada onde o povo entra depois de atravessar o rio.
Segunda leitura: é a Transjordânia conquistada. Ovadia Sforno (rabino e médico italiano, século XVI) diz que a terra habitada são os reinos de Siom e Ogue, a leste do Jordão. Ao tomá-los, Israel passou a comer também pão comum, e o maná deixou de ser a única comida. Sforno encontra apoio numa minúcia: na segunda metade do versículo, lê a partícula que antecede "o maná" no sentido de "com", "junto com" — comiam o maná junto com outras coisas.
Terceira leitura: é simplesmente "não deserto". Ibn Ezra lê a expressão por contraste com o deserto descrito em Jeremias 2:6, "terra por onde ninguém passou e onde nenhum homem habitou". A terra habitada é qualquer terra que não seja essa.
"comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã."
O versículo repete o verbo e o objeto, agora em ordem inversa — "comeram o maná… o maná comeram" — e muda o ponto de chegada. Por que dizer duas vezes?
Primeira resposta: o maná parou em dois tempos. O mesmo Quiddushin 38a trata as duas frases como contraditórias e as reconcilia: Moisés morreu no dia sete do mês de Adar, nas planícies de Moabe, e nesse dia o maná parou de cair; o povo continuou comendo o que tinha guardado nos recipientes até o dia dezesseis de Nisã, já em Canaã. A data da morte de Moisés é calculada ali mesmo, a partir dos trinta dias de luto (Deuteronômio 34:8) e dos três dias de preparação para a travessia (Josué 1:11).
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo), no tratado Vayassa, seção 6, registra a mesma discussão com números diferentes. Para Rabi Josué, o povo comeu o maná guardado durante quarenta dias depois da morte de Moisés. Para Rabi Eliezer de Modiim, setenta, porque naquele ano havia um mês de Adar a mais. E Rabi Yossi vai muito além: o povo comeu maná cinquenta e quatro anos — quarenta em vida de Moisés e catorze depois, os sete anos da conquista e os sete da partilha da terra. Para ele, "terra habitada" e "fronteira de Canaã" marcam dois finais distantes um do outro.
Segunda resposta: a repetição tem forma de espelho e quer dar ênfase. O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) observa a inversão: na primeira frase o verbo vem antes ("comeram o maná"), na segunda vem o maná antes ("o maná comeram"). Para ele, a primeira fala da duração, a segunda do próprio alimento, e só o maná recolhido fresco do chão seria o maná "de primeira" — nem o pão do Egito no começo, nem a reserva depois da morte de Moisés.
Terceira resposta: os dois nomes designam o mesmo lugar. Samuel David Luzzatto (comentarista judeu italiano do século XIX, conhecido como Shadal) entende que "terra habitada" e "fronteira de Canaã" são as planícies de Moabe, a borda oriental da terra prometida, e que o versículo não olha para além disso.
Não é possível decidir. O que as leituras têm em comum é que todas encontram no versículo uma sobreposição: o maná não termina num ponto, mas numa faixa — entre a primeira terra cultivada e a primeira colheita em Canaã. O texto de Josué confirma o essencial: o maná cessou "no dia seguinte, quando comeram do produto da terra" (Josué 5:12). Não houve intervalo. O último dia de um alimento é o primeiro do outro.
Quem escreveu "comeram quarenta anos"?
Se Moisés morreu antes do fim do maná, a frase não pode ter sido escrita por ele como relato do que viu. Joseph Benson (pregador metodista inglês do século XVIII) e Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) respondem que Moisés chegou à fronteira e sabia, por revelação, que o maná acabaria na entrada. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) registra que alguns atribuíam a frase a Josué, e acha que isso "não precisa ser muito discutido". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) nota um detalhe a favor de Moisés: o versículo diz até onde o povo comeu, mas não diz que o maná cessou.
Shadal formulou o princípio mais firme do lado judaico: "Moisés não escreveu nada por profecia". Tudo o que o fecho do capítulo conta, escreveu no quadragésimo ano, olhando para trás, e não escreveu nada que não tivesse visto — razão pela qual ele lê os dois pontos de chegada como um só, as planícies de Moabe, onde Moisés ainda estava vivo. A leitura de Shadal é coerente consigo mesma; o preço é ter de recusar o sentido mais natural de "terra habitada".
O versículo não resolve a questão, mas a coloca com nitidez. É uma frase escrita do fim da caminhada, por alguém que sabia quanto ela durou. O problema mais amplo das frases do Pentateuco que supõem um tempo depois de Moisés, com Ibn Ezra e Espinosa, está no estudo de Gênesis 36:31.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel — o povo inteiro, mas não as mesmas pessoas do começo ao fim. A geração adulta que saiu do Egito morre no deserto (Números 14:29-35; Deuteronômio 2:14); quem entra em Canaã é, na maioria, gente que nasceu comendo maná.
Moisés — não é nomeado, mas está implícito no problema do versículo: morre nas planícies de Moabe antes de o maná acabar (Deuteronômio 34:5). A tradição rabínica fixa a data em sete de Adar.
Josué — sucessor de Moisés, sob cujo comando o maná cessa (Josué 5:12). O versículo do Êxodo não o menciona, mas descreve o fim que acontece no livro dele.
A terra habitada — conforme a leitura: Canaã depois do Jordão (Rashi), a Transjordânia de Siom e Ogue (Sforno), qualquer terra que não seja deserto (Ibn Ezra) ou as próprias planícies de Moabe (Shadal).
A fronteira da terra de Canaã — a borda oriental, junto ao Jordão. Para Rashi, as planícies de Moabe; para Ibn Ezra, Gilgal, o primeiro acampamento depois da travessia.
Gilgal — acampamento junto de Jericó, na margem ocidental do Jordão, onde o povo celebra a primeira Páscoa em Canaã e come o primeiro grão da terra (Josué 4:19; 5:10-12).
O evento — não um acontecimento, mas um período inteiro: quarenta anos de alimentação no deserto, resumidos numa frase, até o dia em que o maná deixa de cair e o povo come do produto da terra.
5. Pontos de Ensino
1. A provisão durou tanto quanto a necessidade. O maná não acabou no meio do deserto nem continuou dentro da terra cultivada. Começou quando não havia comida e terminou quando passou a haver. O texto não fala de um alimento milagroso permanente, mas de um alimento para um trecho do caminho.
2. Os quarenta anos não estavam no plano inicial. O número que o versículo dá de passagem é o da sentença de Números 14, depois da recusa de entrar na terra. O maná que deveria ser o pão de uma travessia curta virou o pão de uma geração inteira — e continuou caindo durante o castigo.
3. O sustento não foi retirado por causa da desobediência. Houve murmurações, o bezerro de ouro, a revolta de Corá, a recusa diante de Canaã; o maná não parou em nenhum desses momentos. O texto separa o juízo, que existiu, do pão de cada dia, que não foi suspenso.
4. A passagem do extraordinário para o comum se faz sem intervalo. O maná cessa "no dia seguinte" ao primeiro grão da terra. Não há um dia de fome entre um regime e outro. O fim da provisão especial coincide com o começo da provisão ordinária.
6. Aspectos Filosóficos
Wendell Berry: o fim do maná e o começo da lavoura
Wendell Berry (nascido em 1934) é agricultor no Kentucky, nos Estados Unidos, além de poeta, romancista e ensaísta. Há mais de cinquenta anos escreve sobre a mesma pergunta: o que acontece com uma sociedade quando ela esquece de onde vem a sua comida? O versículo do Êxodo descreve exatamente o momento em que um povo deixa de receber comida sem cultivá-la e passa a ter de cultivá-la. É o ponto em que a pergunta de Berry começa.
"Comer é um ato agrícola"
A frase mais citada de Berry está no ensaio Os prazeres de comer, de 1989: "comer é um ato agrícola". O alvo era o consumidor das cidades modernas, que compra comida embalada sem saber quem a plantou, em que solo, com que trabalho, a que custo para a terra. Para esse consumidor, escreve Berry, a comida chega como se viesse do nada; ele é um comprador passivo, e a sua ignorância é a condição do sistema que o alimenta.
O maná, lido com os olhos de Berry, é o caso-limite dessa situação — com uma diferença decisiva. No deserto, a comida também vem "do nada": cai do céu, não tem lavoura atrás. Mas ninguém no deserto se ilude sobre isso. O povo sabe que não plantou, sabe que não pode guardar, sabe que depende inteiramente de quem dá. A ignorância moderna que Berry denuncia é esquecer a dependência; o deserto a torna impossível de esquecer.
E o versículo marca o fim desse regime. A partir da terra habitada, comer volta a ser um ato agrícola. O grão tem semente, campo, colheita, estação; tem trabalho de alguém. A dependência continua, mas passa a ter mediação: a terra, a chuva, o corpo de quem lavra.
O dom da terra boa
Num ensaio de 1979 que deu título a um livro dois anos depois, O dom da terra boa, Berry respondia aos que culpavam a tradição bíblica pela exploração da natureza. Ele foi buscar o título em Deuteronômio 8:10 — o mandamento de bendizer a Deus "pela terra boa que ele lhe deu" — e argumentou que, no Deuteronômio, a terra prometida é dada como dom, e não como propriedade absoluta. O dom é condicional: pode ser perdido. E a forma prática de reconhecê-lo, para Berry, é o que ele chama de boa lavoura: cuidar da terra de modo que ela continue dando.
No livro que o tornou conhecido, de 1977 — cujo título em inglês joga com a ideia de arrancar um povo do lugar onde se assentou, algo como "o desassentamento da América" —, Berry dividia as atitudes diante da terra em duas figuras: o explorador, que tira dela o máximo no menor tempo, e o cuidador, que pergunta quanto ela pode dar sem se esgotar. O explorador trata a terra como mina; o cuidador, como casa.
O versículo do Êxodo fica no limiar entre os dois regimes que Berry descreve. No deserto, não havia nem exploração nem cuidado possíveis: a comida não dependia da terra. Na terra habitada, as duas atitudes passam a ser possíveis. O maná, que não se podia acumular (Êxodo 16:19-20), cessa justamente quando começa a comida que se pode acumular, guardar em celeiro e vender. O dom continua dom, mas agora pode ser mal administrado.
O limite da aproximação
Berry não está comentando o Êxodo 16; a ligação aqui é de quem lê os dois. E há uma diferença que impede de forçar a comparação. Berry escreve contra uma agricultura industrial que o mundo antigo não conhecia. O texto bíblico não opõe o maná à lavoura como o bom ao mau: o maná foi pão de castigo e de caminho, e a terra cultivada era a promessa. O que o pensamento de Berry ajuda a ver é outra coisa — que o fim do maná não é o fim da dependência, e sim o começo de uma responsabilidade que o deserto não exigia.
7. Aplicações Práticas
Quando o socorro extraordinário termina
Há fases da vida em que se vive de ajuda que não se produziu: uma doença, um desemprego, um recomeço depois de uma perda. O versículo descreve o fim de uma fase assim, e o modo como ela termina tem aplicação concreta. O maná não foi cortado antes de existir outro sustento, e também não continuou depois. Quem atravessa uma fase de dependência pode tomar isso como critério: o apoio que recebeu era para o caminho, não para sempre, e a saída dele coincide com a entrada numa vida em que o próprio trabalho volta a contar.
Comer sabendo de onde vem
A geração que entrou em Canaã tinha crescido sem lavoura. A primeira coisa que comeu na terra foi grão de um campo que outros tinham semeado. Hoje, a maioria das pessoas está numa situação parecida: come o que não plantou e não sabe quem plantou. O versículo, lido ao lado de Wendell Berry, sugere uma prática modesta — saber de onde vem o que se come, e tratar isso como parte da gratidão, e não como detalhe técnico.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o povo comia maná, por que comprava comida de Edom e de Moabe?
O Deuteronômio conta que, ao passar pelo território dos descendentes de Esaú, Israel recebeu a ordem: "comprarão deles, por prata, a comida, e comerão; e também a água comprarão deles, por prata, e beberão" (Deuteronômio 2:6). Ao rei Siom, Moisés pede o mesmo (Deuteronômio 2:28-29), e diz que Edom e Moabe já tinham vendido. O dado não desmente o versículo, mas o precisa: o maná era a base, não a única comida. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) já dizia que "comeram o maná quarenta anos" não significa que tenham comido só maná, nem que ele tenha caído sem interrupção em todo lugar. É uma leitura possível; o texto não diz como as duas coisas se combinavam.
O número quarenta é simbólico ou é conta?
Quarenta é número recorrente na Bíblia, e muitas vezes redondo. Mas aqui o Pentateuco faz a conta por dentro. Arão morre "no quadragésimo ano depois da saída, no quinto mês" (Números 33:38); Moisés fala ao povo "no quadragésimo ano, no décimo primeiro mês" (Deuteronômio 1:3); de Cades até o ribeiro de Zerede passam-se "trinta e oito anos" (Deuteronômio 2:14). As datas são coerentes entre si e levam à travessia do Jordão no primeiro mês do ano seguinte. O número tem peso simbólico — uma geração —, mas o texto o trata também como calendário.
9. Conexão com Outros Textos
O dia em que o maná parou
Josué 5:10-12 — "Os filhos de Israel acamparam em Gilgal e celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, nas planícies de Jericó. No dia seguinte à Páscoa, comeram do produto da terra, pães sem fermento e grão tostado, naquele mesmo dia. E o maná cessou no dia seguinte, quando comeram do produto da terra; os filhos de Israel não tiveram mais maná, mas comeram dos frutos da terra de Canaã naquele ano."
É o cumprimento exato de Êxodo 16:35, contado no livro seguinte. Três detalhes ligam os dois textos. O verbo é o mesmo, "comer", repetido três vezes em Josué como no Êxodo. O critério do fim é o mesmo: o maná para quando há outro alimento, não antes. E a data cai na Páscoa, a festa da saída do Egito: o pão do caminho começou um mês depois da primeira Páscoa e termina no dia seguinte a outra. O texto de Josué também responde à dúvida do Êxodo sobre o ponto de chegada: o fim é dentro de Canaã, em Gilgal, depois do Jordão.
De onde vêm os quarenta anos
Números 14:33-34 — "Os filhos de vocês serão pastores no deserto quarenta anos e carregarão as infidelidades de vocês, até que os seus cadáveres se acabem no deserto. Segundo o número dos dias em que vocês espiaram a terra, quarenta dias, cada dia por um ano, carregarão as suas culpas quarenta anos."
O número que Êxodo 16:35 dá de passagem nasce aqui, como sentença. Um dia de espionagem vale um ano de deserto. O Êxodo, ao falar de "quarenta anos" no capítulo 16, olha para a frente e incorpora no relato do primeiro maná o resultado de uma recusa que ainda não aconteceu.
O deserto lembrado como escola
Deuteronômio 29:5-6 — "Eu os conduzi quarenta anos pelo deserto; as roupas de vocês não se gastaram sobre vocês, nem a sandália se gastou no seu pé. Vocês não comeram pão, nem beberam vinho nem bebida forte, para que soubessem que eu sou o SENHOR, o seu Deus."
"Não comeram pão" — isto é, pão de grão. O Deuteronômio resume os quarenta anos pela ausência da comida comum. O maná não é contado ali como "pão", mas como o que substituiu o pão, e a ausência é apresentada como lição: conhecer de quem se depende.
A terra que também é recebida
Josué 24:13 — "Eu lhes dei uma terra em que vocês não trabalharam, e cidades que vocês não construíram, e vocês habitam nelas; vinhas e olivais que vocês não plantaram, e vocês comem deles."
A "terra habitada" de Êxodo 16:35 aparece aqui do ponto de vista de quem já mora nela. O vocabulário é o do maná: comer o que não se produziu. A terra cultivada, que encerra o tempo do maná, é descrita no fim do livro de Josué como mais um dom. O que muda não é a gratuidade, é a forma.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até chegarem a uma terra habitada; comeram o maná até chegarem à fronteira da terra de Canaã.
Texto hebraico
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אָכְלוּ אֶת־הַמָּן אַרְבָּעִים שָׁנָה עַד־בֹּאָם אֶל־אֶרֶץ נוֹשָׁבֶת אֶת־הַמָּן אָכְלוּ עַד־בֹּאָם אֶל־קְצֵה אֶרֶץ כְּנָעַן׃
Transliteração
u-venei Yisra'el akhlu et-ha-man arba'im shanah ad-bo'am el-erets noshavet; et-ha-man akhlu ad-bo'am el-qetseh erets Kena'an.
Análise palavra por palavra
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל — u-venei Yisra'el, "e os filhos de Israel".
A frase começa pelo sujeito, e não pelo verbo. Na prosa narrativa hebraica, a sequência normal é verbo primeiro, na forma que encadeia os fatos ("e comeram", "e disseram"). Abrir pelo sujeito interrompe a sequência: o leitor sabe que vem uma informação à parte, um comentário sobre o conjunto, e não o próximo acontecimento.
אָכְלוּ — akhlu, "comeram".
Do verbo akhal, "comer", no perfeito simples, terceira pessoa do plural. Não é a forma narrativa do resto do capítulo, mas a forma do fato consumado, visto como um todo. Com o sujeito na frente, dá à frase o tom de balanço: "os filhos de Israel, eles comeram o maná quarenta anos".
אֶת־הַמָּן — et-ha-man, "o maná".
O nome do alimento, com artigo e com a partícula que marca o objeto direto. A origem do nome está no estudo de Êxodo 16:15.
אַרְבָּעִים שָׁנָה — arba'im shanah, "quarenta anos".
Literalmente "quarenta ano": depois dos números a partir de onze, o hebraico costuma pôr o substantivo no singular. É a construção normal das datas e durações longas, a mesma de Números 14:33-34.
עַד־בֹּאָם — ad-bo'am, "até o chegar deles".
A preposição ad, "até", com o infinitivo do verbo bo, "vir, chegar", e o sufixo "deles". O hebraico não diz "até que chegaram", com verbo conjugado; diz "até a chegada deles". A expressão aparece duas vezes, uma em cada metade do versículo, igual.
אֶל־אֶרֶץ נוֹשָׁבֶת — el-erets noshavet, "a uma terra habitada".
Noshavet é particípio do verbo yashav, "sentar-se, morar, assentar-se", na forma passiva (Nifal): "terra que é habitada", "terra assentada". A vogal muda de noshevet para noshavet porque a palavra cai na pausa do meio do versículo. Sem artigo: "uma terra habitada", qualquer uma, e não "a terra" prometida. O mesmo particípio descreve, em Ezequiel, as cidades habitadas que serão arrasadas (Ezequiel 12:20) e as ruínas que voltaram a ter moradores (Ezequiel 38:12); o mesmo verbo, na mesma forma passiva e negado, descreve a terra que fica sem ninguém (Jeremias 6:8). O contrário de deserto, aqui, não é terra fértil: é terra com gente fixa.
A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz por oikoumenē, "terra habitada" — a palavra que, no grego posterior, passará a designar o mundo civilizado inteiro, como em Lucas 2:1. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve ar'a yatevta, "terra assentada"; é essa a forma que Rashi cita. A Vulgata latina põe terram habitabilem, "terra habitável" — onde se pode morar, e não onde já se mora.
אֶת־הַמָּן אָכְלוּ — et-ha-man akhlu, "o maná comeram".
As mesmas duas palavras da primeira metade, em ordem inversa: objeto antes do verbo. A frase fica em espelho — "comeram o maná… o maná comeram" —, com a ênfase, na segunda metade, no alimento.
אֶל־קְצֵה אֶרֶץ כְּנָעַן — el-qetseh erets Kena'an, "à fronteira da terra de Canaã".
Qetseh é "ponta, extremidade, borda": o ponto em que uma coisa termina. A mesma palavra descreve Cades, "uma cidade na extremidade do seu território", na mensagem de Moisés ao rei de Edom (Números 20:16), e o monte Hor, "na extremidade da terra de Edom" (Números 33:37). É linguagem de fronteira vista de fora: a borda de uma terra em que ainda não se entrou.
Aqui a Septuaginta faz uma troca surpreendente: em vez de "a fronteira da terra de Canaã", escreve "uma parte da Fenícia". O tradutor de Alexandria usou o nome geográfico do seu tempo para a costa e o interior do Levante, como faz em outros lugares com os cananeus. A Vulgata, por sua vez, troca o segundo "comeram o maná" por uma paráfrase: "com esse alimento foram nutridos, até tocarem os limites da terra de Canaã".
O Targum chamado de Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica posterior, cheia de acréscimos explicativos) resolve a duplicação do versículo dentro da própria tradução: "comeram o maná quarenta anos em vida de Moisés, até chegarem à terra habitada; comeram o maná quarenta dias depois da sua morte, até atravessarem o Jordão e entrarem nos limites da terra de Canaã". É a leitura de Rabi Josué na Mekhilta, posta no texto como se fosse o próprio versículo.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o maná foi um alimento de passagem, medido pela necessidade. Ele não cessou com a desobediência, nem com a sentença dos quarenta anos, nem com a primeira terra cultivada a leste do Jordão; cessou quando o povo comeu, em Canaã, o primeiro grão da terra. O critério do fim é o mesmo do começo: o maná existe onde não há outro pão.
A segunda é que o versículo é escrito do ponto de chegada. Ele conhece a duração da caminhada, que só foi decidida depois, e conhece o lugar em que o maná deixou de cair. Quem o escreveu olhava para trás, e as tradições que tentaram atribuí-lo a Moisés precisaram ou de profecia, ou de ler os dois pontos de chegada como um só. As duas metades do versículo, com os seus dois limites, são o rastro desse olhar retrospectivo.
A terceira é que o fim do maná não é o fim do dom. O que muda é a forma: de pão que cai sem lavoura para grão que exige campo, estação e trabalho. A terra recebida passa a pedir cuidado, e a dependência que o deserto tornava evidente passa a exigir lembrança deliberada. O maná ensinava sozinho; o grão precisa de quem ensine.













