Como o SENHOR tinha ordenado a Moisés, Arão o depositou diante do Testemunho, para ser guardado.
1. Introdução
Arão cumpre a ordem do versículo anterior, mas o lugar onde põe o maná tem um nome que ainda não existe no relato: "o Testemunho", as tábuas da Lei que só serão entregues no Sinai e guardadas numa arca construída quase um ano depois. A Mekhilta, Rashi e Ibn Ezra perceberam o problema e situaram o gesto no segundo ano; Bekhor Shor dividiu-o em duas etapas; Abarbanel o leu como escrito por antecipação profética; a crítica moderna viu nele uma pista de como o capítulo foi composto. É também a primeira vez que a Bíblia usa a palavra "Testemunho", e a fórmula inteira — "diante do Testemunho, para ser guardado" — só volta com a vara de Arão, em Números. Em 1678, o padre Richard Simon fez de dificuldades como esta o ponto de partida de um método, e pagou caro por isso.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um juramento que se guarda como objeto sagrado
Chamar duas tábuas de pedra de "Testemunho" é dar a um texto o nome da sua função jurídica. As tábuas não são chamadas de "a Lei" nem de "os mandamentos" quando ficam dentro da arca; são chamadas pelo que fazem: atestam um compromisso. No mundo em que o Êxodo foi escrito, documentos assim tinham lugar certo — o santuário — e tratamento próprio.
O costume de depositar o texto de um acordo diante da divindade que o garantia, e de relê-lo de tempos em tempos, já foi descrito no estudo de Êxodo 2:24. O que uma descoberta recente acrescentou foi a imagem do documento dentro do lugar mais santo, tratado como objeto de culto.
Em 2009, a equipe da Universidade de Toronto que escava Tell Tayinat, no sul da Turquia (a antiga Kunulua, capital de um pequeno reino que a Assíria transformou em província no século VIII antes de Cristo), encontrou num templo uma tábua de argila grande, com cerca de 43 por 28 centímetros. O texto era uma cópia do tratado de sucessão do rei assírio Esar-Hadom, de 672 antes de Cristo: o juramento que os governantes súditos prestavam de reconhecer Assurbanípal como herdeiro do trono. O assiriólogo Jacob Lauinger publicou o texto em 2012.
Dois detalhes chamaram a atenção. A tábua estava na sala interna do templo, a cela onde ficava a imagem do deus, junto a outros objetos de culto. E trazia impressões do selo do deus Assur, o que fazia dela não um papel de chancelaria, mas um documento selado pela divindade. Os escavadores e Lauinger concluíram que ela provavelmente ficava exposta ali, de pé, à vista de quem entrava — o juramento transformado em peça do santuário. O nome assírio desse tipo de tratado é adê ("juramento de lealdade"), e as estelas aramaicas de Sefire, do mesmo século, chamam os seus tratados por uma palavra da mesma família. Muitos estudiosos aproximam dela a palavra hebraica traduzida por "Testemunho"; a ligação é discutida (item 10).
A comparação tem limites claros. Tayinat é assíria, do século VII, e documenta a submissão de vassalos a um rei humano; as tábuas de Israel são apresentadas como palavra do próprio Deus ao povo inteiro. Mas o gesto é o mesmo, e o vocabulário também: um texto de compromisso, selado pelo deus, guardado no recinto mais interno, diante dele. Quando Êxodo 16:34 diz que o maná foi posto "diante do Testemunho", supõe um leitor que já conhece esse recinto e sabe o que está guardado nele.
3. Análise Teológica do Versículo
"Como o SENHOR tinha ordenado a Moisés,"
A frase abre pelo "como", antes de dizer quem fez o quê. É a fórmula com que o Êxodo fecha cada etapa da construção do santuário: nos capítulos 39 e 40, "como o SENHOR tinha ordenado a Moisés" volta mais de quinze vezes, peça por peça, até a tenda ficar de pé. Aqui ela aparece pela primeira vez aplicada a um objeto de culto — e o objeto é um pote de comida.
A ordem foi dada a Moisés; quem a cumpre é Arão. O versículo anterior mostrou o elo do meio (Moisés transmite a Arão), e este fecha a cadeia sem nomear Moisés como executor. É o primeiro gesto de culto de Arão em toda a Torá. Depositar algo no lugar santo é ofício de sacerdote, e Arão só será consagrado em Levítico 8. O versículo antecipa o lugar e também a função de quem age.
"Arão o depositou"
O verbo é o de assentar uma coisa e deixá-la em repouso, o mesmo das ordens de Êxodo 16:23 e 16:33. A pergunta é: o quê? O jarro ou o maná? Em hebraico, a palavra "jarro" é feminina, e o pronome deste versículo é masculino — concorda com o maná, ou com o ômer de maná. O que Arão deposita, gramaticalmente, é o alimento; o recipiente é só o modo de guardá-lo. O objeto de memória não é o pote; é a comida de um dia, conservada.
"diante do Testemunho,"
"O Testemunho" é o nome das duas tábuas de pedra com as palavras da aliança. Deus manda pô-lo dentro da arca em Êxodo 25:16; as tábuas são entregues em Êxodo 31:18; quebradas em Êxodo 32:19; refeitas em Êxodo 34:1-4; e só em Êxodo 40:20, no primeiro dia do segundo ano, Moisés "tomou o Testemunho e o pôs na arca". No deserto de Sim, no décimo quinto dia do segundo mês do primeiro ano, não há tábuas, não há arca e não há tenda. Diante de que Arão pôs o maná?
A pergunta é antiga. As respostas se dividem em cinco.
Primeira leitura: o gesto aconteceu depois, e o texto o conta aqui. É a resposta da Mekhilta de Rabi Ishmael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III), no tratado Vayassa, seção 6, e é construída a partir deste mesmo versículo: "Seria possível pensar que Arão só o depositou no quadragésimo ano? Por isso se diz: 'Arão o depositou diante do Testemunho'. Quando foi feita a arca? No segundo ano. Logo, Arão o depositou no segundo ano." Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu da França, século XI) diz o mesmo de outro modo: a ordem do versículo 33 "não foi dita até que a tenda do encontro fosse construída, mas foi escrita aqui, na seção do maná".
O preço da primeira leitura: aceita que a ordem dos acontecimentos no capítulo não é a ordem do tempo. O que ela ganha é coerência temática. O capítulo junta tudo o que diz respeito ao maná — a primeira queda, a regra, o sábado, o jarro, o fim — no lugar em que o maná entra na história.
Segunda leitura: houve duas etapas. Josef Bekhor Shor (comentarista judeu do norte da França, século XII) separa as duas expressões. A ordem do versículo 33 diz "diante do SENHOR"; o cumprimento, aqui, diz "diante do Testemunho". Para ele, são dois lugares em dois momentos: no primeiro ano o maná ficou num lugar de culto provisório, e depois de construída a arca foi transferido para junto dela. O preço: o Êxodo 16 não menciona nenhum lugar de culto. O primeiro altar que Moisés constrói no livro aparece só no capítulo seguinte, depois da batalha contra Amaleque (Êxodo 17:15).
Terceira leitura: é a mesma coisa dita com mais precisão. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) lê o versículo 34 como explicação do 33: "diante do SENHOR" quer dizer "diante do Testemunho", isto é, diante da arca, chamada "arca do Testemunho" por causa das tábuas que estavam nela. E explica por que a arca é "diante do SENHOR": é sobre ela, entre os querubins, que repousa a glória. Nessa leitura, não há dois lugares; há uma expressão vaga e outra exata, e a exata só pode valer depois do Sinai.
Quarta leitura: tudo foi escrito por antecipação profética. Isaac Abarbanel (estadista e comentarista judeu português, século XV) sustenta que o fecho do capítulo inteiro foi escrito no primeiro ano, e que Moisés registrou o que viria — a arca, os quarenta anos, a chegada — por revelação. O preço: o texto não tem nenhum traço de previsão: não diz "Arão depositará", diz "Arão depositou", no passado da narrativa, como quem conta o que viu.
Quinta leitura: o capítulo foi composto por quem já conhecia o santuário. A crítica dos séculos XIX e XX observou que "Testemunho", "congregação", "a glória do SENHOR", "diante do SENHOR" e "para ser guardado" são todas palavras de um mesmo vocabulário — o dos textos sacerdotais do Pentateuco, os que descrevem a tenda, a arca e o culto. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) chama "o Testemunho" de "a expressão fixa" desses textos para as tábuas. Deuteronômio, que vem de outra escola, nunca chama as tábuas assim: diz "as tábuas da aliança" (Deuteronômio 9:9, 9:11, 9:15). Para essa leitura, quem escreveu este versículo pensava a partir de um mundo em que a arca já estava de pé, e o anacronismo é a marca deixada por esse ponto de vista. A hipótese de que o relato do maná tivesse estado, numa das fontes, depois da construção da tenda, e a discussão sobre a ordem dos versículos 9 a 12, estão no estudo de Êxodo 16:11.
O preço da quinta leitura: explica o vocabulário, mas não diz por que o capítulo, na forma final, foi deixado assim. Quem juntou as fontes sabia que as tábuas vinham depois; se manteve a frase, o anacronismo não o incomodava.
Não é possível decidir entre as cinco. Mas nenhuma delas nega que o versículo fala do futuro do relato. A Mekhilta, Rashi, Ibn Ezra, Bekhor Shor, Abarbanel e a crítica moderna leem a mesma coisa: o texto, ao chegar ao primeiro dia do maná, já sabe onde o maná vai terminar — ao lado da Lei, dentro do santuário. Divergem só sobre o que isso diz a respeito de quem escreveu. O desacordo é sobre o autor, não sobre o texto.
"para ser guardado."
A expressão fecha uma série de quatro no capítulo. Em Êxodo 16:23, o que sobra da sexta-feira é deixado "para ser guardado até a manhã" — uma noite. Em Êxodo 16:32 e 16:33, a ordem é guardar "pelas gerações de vocês". Aqui, a palavra vem sozinha, sem prazo: o fim da frase é o fim do tempo. O mesmo alimento que, guardado de um dia para o outro, criava vermes, é agora guardado sem data de validade.
E guardar, aqui, não é só conservar. A palavra é a mesma da vigia que os levitas farão no santuário (item 10): Arão não apenas deposita o maná, assume a sua custódia.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Arão — irmão mais velho de Moisés, até aqui o seu porta-voz. Neste versículo faz, pela primeira vez, um gesto de sacerdote, antes de ser consagrado (Levítico 8). Depois dele, os seus descendentes herdarão a guarda do santuário e do que há dentro dele.
Moisés — quem recebe a ordem do SENHOR e a passa a Arão (Êxodo 16:33). Aqui aparece só como destinatário dela.
O Testemunho — as duas tábuas de pedra com as palavras da aliança. No ponto do relato em que o versículo está, ainda não foram dadas.
A arca — o baú de madeira de acácia revestido de ouro que guarda as tábuas, construído em Êxodo 37:1-9. Não é nomeada no versículo, mas é o lugar implícito de "diante do Testemunho".
O tempo — o relato está no décimo quinto dia do segundo mês do primeiro ano (Êxodo 16:1). A tenda foi levantada no primeiro dia do primeiro mês do segundo ano (Êxodo 40:17), cerca de onze meses e meio depois. O gesto deste versículo pertence, na leitura mais antiga, a esse segundo momento.
O evento — a deposição de uma porção de maná junto às tábuas da Lei, para ficar guardada. O texto não descreve a cena; só registra que ela aconteceu, e onde.
5. Pontos de Ensino
1. O texto pode contar o fim junto com o começo. O capítulo do maná não segue o calendário; segue o assunto. Ao narrar o primeiro dia do maná, ele já diz onde o maná vai parar. Ler a Bíblia como crônica diária leva a tropeçar aqui; lê-la como relato organizado por temas desfaz o tropeço sem esconder a dificuldade.
2. A dificuldade foi vista por leitores fiéis, e muito cedo. Não foi a crítica moderna que descobriu que o Testemunho ainda não existia. A Mekhilta, no século III, já fazia a conta e situava o gesto no segundo ano. Notar um problema no texto não é sinal de descrença; é sinal de leitura atenta.
3. Cumprir uma ordem pode exigir esperar. Na leitura mais antiga, a ordem foi dada antes de existir o lugar onde cumpri-la. Arão não improvisou um santuário para obedecer depressa; o cumprimento esperou a arca. A obediência do versículo é exata no "como", não na pressa.
4. A memória do sustento fica ao lado da Lei. O maná não é guardado num museu à parte nem exposto na entrada do acampamento. Fica junto das tábuas. O texto põe no mesmo lugar o que Israel deve fazer e aquilo de que Israel viveu.
6. Aspectos Filosóficos
Richard Simon e o texto que tem mais de um autor
Em 1678, um padre da Congregação do Oratório, em Paris, publicou um livro chamado História crítica do Antigo Testamento (Histoire critique du Vieux Testament). Richard Simon (1638-1712) era hebraísta de primeira linha, leitor dos comentaristas judeus medievais. O livro tratava os livros do Antigo Testamento como se trata qualquer escrito antigo: quem os compôs, quando, com que materiais, por quais mãos passaram.
A reação foi imediata. Jacques-Bénigne Bossuet, bispo e pregador da corte de Luís XIV, conseguiu que a edição inteira — cerca de mil e trezentos exemplares — fosse apreendida e destruída antes de chegar às livrarias. Simon foi expulso do Oratório no mesmo ano. O livro só circulou de fato em 1685, impresso em Roterdã, fora da França.
A tese dos escrivães públicos
O ponto que escandalizou era o quinto capítulo do primeiro livro: Moisés não seria o único autor do Pentateuco. Simon não negava que Moisés tivesse escrito; atribuía a ele as leis e as ordenações. Mas sustentava que, ao lado dele e depois dele, havia em Israel o que chamou de "escrivães públicos" — escribas e profetas encarregados de registrar a história da nação e de manter os seus arquivos. Esses escrivães teriam resumido, completado e reordenado os registros antigos. "A diversidade de estilo que se encontra nos livros de Moisés", escreveu, "parece ser também uma prova de que um mesmo escritor não é o seu autor." E admitia que as adições feitas aos registros antigos impedem que se distinga com segurança o que é de Moisés e o que foi acrescentado pelos que vieram depois.
Um versículo como Êxodo 16:34 é exatamente o tipo de dado que alimentava a tese. Uma frase que, no meio do relato do primeiro ano, fala do Testemunho guardado na arca é uma frase escrita, ou ao menos ajustada, por alguém que conhecia a arca. Para Simon, isso era o trabalho normal de quem guarda um arquivo e o atualiza para os que vêm depois.
O paradoxo do padre crítico
Simon escrevia como católico, e contra os protestantes. Se o texto bíblico passou por muitas mãos, foi copiado, resumido e reordenado ao longo de séculos, então a Escritura sozinha não basta: é preciso uma tradição viva e uma comunidade que a tenha guardado e saiba lê-la. A crítica histórica, nas mãos de Simon, era um argumento a favor da Igreja como guardiã do texto.
Bossuet temia o contrário: quem começa perguntando quem escreveu cada frase termina perguntando se alguma delas tem autoridade. A divergência entre os dois não era sobre fatos de filologia; era sobre de onde vem a autoridade de um texto. Do autor que o escreveu? Ou da comunidade que o recebeu, guardou e transmitiu?
Simon respondia separando duas coisas que a teologia da época mantinha juntas: a inspiração de um livro e a sua autoria. Deus teria inspirado o conjunto, inclusive o trabalho anônimo dos escrivães. O protestante Jean Le Clerc, que polemizou com ele a partir de 1685, não aceitava ver a Bíblia como arquivo de um Estado; os católicos não aceitavam a dúvida sobre Moisés. Simon ficou sem lugar nos dois campos.
O limite da tese
A ideia dos escrivães públicos tem pouca base fora do raciocínio que a criou. O historiador Jean Bernier, num estudo de 2007, mostrou que ela foi uma solução de compromisso: explicava os anacronismos sem tirar do Pentateuco o seu estatuto excepcional, mas à custa de uma instituição de que a Bíblia quase não fala. A crítica posterior abandonou os escrivães e ficou com as fontes — e com a pergunta de Simon, que Espinosa já formulara de modo mais radical (ver o estudo de Gênesis 36:31).
Aplicado a este versículo, o debate entre Simon e Bossuet tem uma ironia. O que o texto descreve é justamente um ato de guarda: alguém deposita um objeto num lugar santo, sob custódia, para gerações que não o viram nascer. É a mesma operação que Simon atribuía aos escrivães com os textos. O versículo que denuncia a mão de quem guardou o arquivo fala, ele mesmo, de guardar. A autoridade do maná no jarro não vem de quem o colheu, mas de quem o conservou e o mostrou depois. Simon diria o mesmo de cada frase do capítulo.
7. Aplicações Práticas
Quando a ordem chega antes dos meios
Na leitura mais antiga do versículo, Arão recebeu uma ordem que só podia cumprir meses depois, quando existisse o lugar indicado. Ele não a esqueceu nem a cumpriu de qualquer jeito. Isso tem aplicação direta para quem recebe uma responsabilidade sem ter ainda as condições de exercê-la: a fidelidade, nesses casos, está em guardar a tarefa até que o caminho se abra, e não em improvisar algo que se pareça com o cumprimento.
Quem guarda responde pelo que guarda
O versículo põe nas mãos de uma pessoa a conservação de um sinal coletivo. Famílias, igrejas e comunidades também têm os seus objetos e documentos de memória — uma Bíblia de família, um livro de atas, uma fotografia. Eles só atravessam gerações quando alguém assume a custódia, sabe por que aquilo foi guardado e é capaz de explicar aos que chegam depois. Sem isso, o objeto sobrevive e o sentido se perde.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o texto diz "diante do Testemunho", e não "diante da arca"?
O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que a arca nunca é chamada simplesmente de "o Testemunho": o Testemunho é o que está dentro dela, as tábuas. O versículo aponta para o conteúdo, não para o móvel. O maná fica junto das palavras da aliança, e a arca é só o que as abriga. A escolha reforça o sentido do gesto: o alimento é posto ao lado da Lei, e não ao lado de um objeto de madeira e ouro.
Por que Arão, e não Moisés?
O texto não explica. O Or HaChaim (comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) dá uma razão de culto: Arão era quem serviria no santuário, e a ele caberia manter o maná em estado de pureza. A resposta supõe o sacerdócio de Arão, que neste ponto do relato ainda não foi instituído — mais um sinal de que o versículo olha para a frente.
Se o jarro ficava junto das tábuas, quem podia vê-lo?
Ninguém, em condições normais. O lugar diante do Testemunho é o recinto mais interno da tenda, onde só o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano (Levítico 16:2, 16:34). Há uma tensão real entre a finalidade declarada — "para que vejam o pão" (Êxodo 16:32) — e o lugar escolhido, inacessível. Uma resposta possível: o sinal não precisava ser visto todo dia; bastava saber que existia, e que poderia ser mostrado. A tradição rabínica preencheu esse silêncio com a história de Jeremias mostrando o jarro ao povo, contada no estudo de Êxodo 16:32.
9. Conexão com Outros Textos
O Testemunho prometido, entregue e guardado
Êxodo 31:18 — "E, quando acabou de falar com ele no monte Sinai, deu a Moisés as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus."
Só aqui, quinze capítulos depois de Êxodo 16:34, o leitor fica sabendo o que o Testemunho é.
Êxodo 40:20 — "E tomou o Testemunho e o pôs na arca, colocou as varas na arca e pôs o propiciatório em cima da arca."
A cena que torna possível, no calendário, o gesto de Arão. Está datada no primeiro dia do primeiro mês do segundo ano (Êxodo 40:17). Só a partir daqui existe um lugar que se possa chamar "diante do Testemunho".
A mesma fórmula, com outro objeto
Números 17:10 — "E o SENHOR disse a Moisés: Põe de volta a vara de Arão diante do Testemunho, para ser guardada como sinal para os rebeldes, e farás cessar as murmurações deles contra mim, e não morrerão."
É o único outro lugar da Bíblia com as duas expressões juntas, "diante do Testemunho" e "para ser guardado" (no hebraico, Números 17:25). A diferença está no tempo: em Números a tenda já existe, as tábuas estão na arca, e a frase não tem anacronismo nenhum. A mesma fórmula, usada no seu lugar, mostra por contraste o que a de Êxodo 16:34 tem de deslocado: ela foi contada antes do tempo.
Outras coisas "diante do Testemunho"
Êxodo 30:36 — "E dele moerás uma parte bem fina e a porás diante do Testemunho, na tenda do encontro, onde eu me encontrarei contigo; será para vocês coisa santíssima."
O incenso santíssimo também é posto ali, no ponto de encontro de Deus com Moisés. O maná divide esse espaço com ele.
Êxodo 27:21 — "Na tenda do encontro, fora do véu que está diante do Testemunho, Arão e seus filhos a porão em ordem, desde a tarde até a manhã, diante do SENHOR."
A lâmpada fica "fora do véu que está diante do Testemunho", e esse mesmo ponto, do lado de fora, é chamado de "diante do SENHOR". As duas expressões, portanto, não coincidem: "diante do SENHOR" cobre também a sala da frente, onde arde a lâmpada; "diante do Testemunho" é o véu e o que está atrás dele. A diferença dá algum apoio a Bekhor Shor, que separa os dois lugares de Êxodo 16:33-34 — ele no tempo, este versículo no espaço.
Quando as tábuas mudam de nome
Deuteronômio 10:5 — "Então voltei, desci do monte e pus as tábuas na arca que eu tinha feito; e ali estão, como o SENHOR me ordenou."
No Deuteronômio, Moisés conta a mesma cena em primeira pessoa e não usa a palavra "Testemunho": fala de "tábuas", e em Deuteronômio 9:9-15, de "tábuas da aliança". O "e ali estão" é um detalhe de quem escreve olhando para um objeto que ainda existe no seu tempo — o mesmo tipo de olhar que se percebe em Êxodo 16:34.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Como o SENHOR tinha ordenado a Moisés, Arão o depositou diante do Testemunho, para ser guardado.
Texto hebraico
כַּאֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה וַיַּנִּיחֵהוּ אַהֲרֹן לִפְנֵי הָעֵדֻת לְמִשְׁמָרֶת׃
Transliteração
ka'asher tsivvah YHWH el-Moshe, vayyannichehu Aharon lifnei ha-edut le-mishmaret.
Análise palavra por palavra
כַּאֲשֶׁר — ka'asher, "como, conforme".
A preposição ke, "como", unida ao relativo asher: a abertura das fórmulas de cumprimento.
צִוָּה יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה — tsivvah YHWH el-Moshe, "o SENHOR ordenou a Moisés".
O verbo "ordenar" no Piel (o tronco verbal que dá à ação um caráter mais intenso ou formal), terceira pessoa do singular, no perfeito, que aqui vale como passado anterior: "tinha ordenado".
וַיַּנִּיחֵהוּ — vayyannichehu, "e o depositou".
Do verbo nuach, "repousar", no Hifil (o tronco causativo, "fazer repousar"), na forma narrativa, com o pronome objeto "o" no fim. O sentido do verbo no Hifil — assentar uma coisa e deixá-la ali — está analisado no estudo de Gênesis 39:16.
O que este versículo tem de próprio é a forma. O Hifil de nuach tem duas conjugações no hebraico bíblico, com sentidos diferentes. Uma, sem a consoante dobrada, significa "dar descanso, aliviar" — é a de "o SENHOR lhes deu descanso" ao redor (Josué 21:44). A outra, com o n dobrado, como aqui (yannich), significa "pôr, depositar, deixar num lugar". O capítulo usa só a segunda: em Êxodo 16:23, 16:24, 16:33 e neste versículo.
O pronome do fim, -hu, é masculino. A palavra "jarro" (tsintsenet, Êxodo 16:33) é feminina; o pronome concorda com o maná ou com o ômer, ambos masculinos. A ordem do versículo anterior fazia o mesmo ("deposite-o", oto, masculino). Gramaticalmente, o que se deposita é o conteúdo.
אַהֲרֹן — Aharon, "Arão".
O sujeito, depois do verbo, na ordem normal da prosa hebraica.
לִפְנֵי — lifnei, "diante de".
Literalmente "para a face de", de panim, "rosto".
הָעֵדֻת — ha-edut, "o Testemunho".
Com artigo definido. Esta é a primeira ocorrência da palavra na Bíblia. Ela aparece cerca de sessenta vezes, quase todas no Êxodo, no Levítico e em Números, e quase sempre em expressões fixas: "a arca do Testemunho" (Êxodo 25:22), "as tábuas do Testemunho" (Êxodo 31:18), "a tenda do Testemunho" (Números 9:15), "o tabernáculo do Testemunho" (Êxodo 38:21). Fora do Pentateuco, volta no singular nos Salmos — "o testemunho do SENHOR é fiel" (Salmo 19:7) — e numa cena de coroação, quando o sacerdote Joiada põe sobre o jovem rei Joás "a coroa e o testemunho" (2 Reis 11:12), provavelmente um documento com as obrigações do rei.
A forma é a de um substantivo abstrato feminino terminado em -ut. A explicação tradicional a liga à raiz de ed, "testemunha", e ao verbo que significa "atestar, advertir solenemente": o Testemunho é o que testemunha. Desde meados do século XX, muitos estudiosos propõem outra origem, ou ao menos um parentesco: o acádio adê e o aramaico das estelas de Sefire, que designam o juramento de lealdade de um tratado. Nesse caso, o sentido básico seria "estipulações juradas", e "Testemunho" seria quase "o pacto escrito". A proposta é plausível e discutida; as duas origens não se excluem, porque a palavra hebraica pode ter sido ouvida como "testemunho" mesmo que tenha vindo de fora.
As traduções antigas ficaram com o sentido de testemunho. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) escreve martyrion, "testemunho", a palavra que no grego cristão dará "martírio". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve sahaduta, também "testemunho". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) resolve o problema do versículo de outro modo: escreve que Arão o pôs in tabernaculo, "na tenda". Jerônimo trocou o conteúdo pelo lugar e deixou o anacronismo ainda mais à vista.
לְמִשְׁמָרֶת — le-mishmaret, "para ser guardado".
A preposição le, "para", com mishmeret, "guarda, custódia", substantivo da raiz shamar, "guardar, vigiar". A vogal muda para mishmaret porque a palavra está no fim do versículo, onde a leitura faz uma pausa e o hebraico alonga a vogal tônica. O mesmo substantivo designa o turno de guarda dos levitas no santuário (Números 3:7-8). A expressão aparece quatro vezes no capítulo (Êxodo 16:23, 16:32, 16:33 e aqui) e, fora dele, só volta junto de "diante do Testemunho" na ordem sobre a vara de Arão (Números 17:10).
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira: o capítulo do maná foi organizado pelo assunto, e não pelo calendário, e quem o organizou escrevia a partir de um tempo em que a arca já estava de pé. Seja o próprio Moisés anos depois, sejam as fontes sacerdotais reunidas mais tarde, o versículo é a marca de um texto que foi guardado, relido e completado por quem o conservou. Ler o Êxodo como diário do deserto, escrito no dia de cada acontecimento, não resiste a esta frase.
A segunda: o lugar escolhido diz o que o maná significa. Entre todos os lugares possíveis para um objeto de memória, o texto escolheu o mais interno, junto das tábuas, com a mesma fórmula que depois servirá para a vara de Arão. O alimento recebido sem trabalho fica guardado ao lado das palavras da aliança, sob a custódia de um sacerdote. Para o Êxodo, o sustento e a Lei pertencem ao mesmo lugar.













