E Moisés edificou um altar e lhe deu o nome de “O SENHOR é a minha bandeira”.
1. Introdução
Depois da batalha e da ordem de escrever, Moisés constrói um altar — o primeiro que ele levanta no livro — e lhe dá um nome: "O SENHOR é a minha bandeira". A palavra traduzida por "bandeira" não designa um pano, e sim uma haste erguida no alto, um sinal que se vê de longe; é o mesmo objeto sobre o qual, em Números 21, será posta a serpente de bronze. As traduções antigas não concordaram sobre ela: a grega leu "refúgio", a latina "exaltação", a aramaica e os rabinos, "milagre". E o nome vem logo depois de um dia em que a vitória dependeu de uma mão erguida no alto da colina: o homem que a ergueu põe no altar o nome de outro.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que os vencedores erguiam depois da batalha
No mundo antigo, uma vitória deixava marca física no terreno ou na pedra. O gesto de Moisés pertence a essa família, e a comparação mostra o que ele tem de comum e o que tem de diferente.
O troféu grego: uma haste no lugar da fuga
Os gregos chamavam de tropaion ("troféu", do verbo que significa "virar") o marco erguido no ponto exato do campo em que o inimigo deu as costas e fugiu. Era um tronco de árvore ou uma estaca fincada no chão, sobre a qual se penduravam o capacete, o escudo e a couraça tomados do vencido, como se vestissem um soldado sem corpo. O troféu era dedicado a um deus e tinha caráter sagrado: removê-lo era sacrilégio.
O objeto é, literalmente, uma haste erguida no lugar da vitória. A semelhança com o que a palavra hebraica deste versículo designa é grande. A diferença também: o troféu exibe as armas do vencido; o altar de Moisés não exibe nada do inimigo, e o nome que leva não é o de Amaleque nem o de Israel.
Deixar o sinal da inimizade se desfazer
Plutarco (escritor grego do século I-II d.C.), nas Questões Romanas (37), pergunta por que os romanos, que não deixavam se perder nada do que fora dedicado aos deuses, permitiam que os despojos de guerra consagrados se desfizessem com o tempo, sem reparo. Uma das respostas que ele propõe é que restaurar os sinais de uma inimizade antiga seria odioso: o tempo apaga as marcas da briga com o inimigo, e refazê-las seria manter viva a hostilidade.
O dado é útil para ler o capítulo. Êxodo 17 faz o contrário do costume que Plutarco descreve: manda escrever a inimizade num livro (Êxodo 17:14) e anuncia que ela durará "de geração em geração" (Êxodo 17:16). Mas o altar, entre os dois, não guarda a inimizade; guarda um nome de Deus.
O rei no alto da montanha
Na Mesopotâmia, a vitória virava estela. A mais célebre é a de Naram-Sin, rei de Acade, por volta de 2250 a.C., hoje no Museu do Louvre. Ela mostra o rei subindo uma montanha à frente das tropas, muito maior do que todos, pisando nos inimigos caídos, com um capacete de chifres — o adorno reservado aos deuses. Os deuses propriamente ditos aparecem só como astros no topo da pedra. Mil anos depois, um rei elamita a levou como saque para Susa e gravou nela o próprio nome.
Uma estela ainda mais antiga, a dos Abutres, de Eanatum, rei de Lagash (por volta de 2450 a.C.), faz o oposto: de um lado, o deus Ningirsu segura os inimigos presos numa rede; do outro, o rei comanda a tropa. A vitória é do deus, e o rei a executa.
Êxodo 17 está muito mais perto da segunda do que da primeira. O homem no alto da colina não é retratado maior do que os outros: as mãos dele pesam, ele precisa de uma pedra para sentar e de dois homens para sustentá-lo (Êxodo 17:12). E o monumento que ele ergue depois não leva o nome dele.
O altar com nome
Dar nome a um altar já tinha precedente nos patriarcas, e o costume — o nome que não descreve o objeto, mas o que aconteceu ali — está no estudo de Gênesis 33:20. O que é próprio daqui é o momento: é o primeiro altar construído depois de uma guerra, e o primeiro que Moisés constrói.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Moisés edificou um altar"
Noé, Abraão, Isaque e Jacó construíram altares. Moisés, até aqui, nenhum. Viu a sarça, enfrentou Faraó, atravessou o mar, deu água e pão ao povo — e não levantou pedra sobre pedra para Deus. O primeiro altar dele vem depois de uma batalha. O seguinte só aparecerá ao pé do Sinai, quando ele escreve as palavras da aliança e ergue doze colunas (Êxodo 24:4).
O texto não diz que se ofereceu sacrifício sobre ele. Não há animal, não há fogo, não há holocausto: há a construção e o nome. Os tradutores antigos sentiram a falta. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga, dos primeiros séculos da era comum) troca "deu-lhe o nome" por "e prestou culto sobre ele diante do SENHOR, que tinha feito milagres por ele". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) também supõe sacrifício. Mas isso é preencher o texto. O versículo descreve um altar que, até onde se sabe, serve para levar um nome.
Também não diz onde. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) o situa no Horebe, por causa de Êxodo 17:6. É dedução; o texto não informa, e o altar não volta a ser mencionado.
"e lhe deu o nome"
O hebraico diz "chamou o nome dele", e "dele" pode ser o altar ou o próprio Deus. Rashi (Salomão ben Isaque, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) corta o risco de leitura errada: o altar não se chama "o SENHOR". O nome é uma frase, e quem a pronuncia, ao falar do altar, se lembra do que Deus fez ali. Sforno (Obadias Sforno, comentarista italiano do século XVI) vai por outro lado: Moisés não deu nome a uma pedra, invocou Deus com um nome novo na oração.
A forma do nome — o nome de Deus seguido de uma palavra que diz o que ele fez — é a mesma de "O SENHOR Proverá" (Gênesis 22:14) e de "o SENHOR é paz", o altar de Gideão (Juízes 6:24). Nos três casos o nome guarda um acontecimento, não descreve o objeto.
"O SENHOR é a minha bandeira"
O que é, afinal, a "bandeira" deste nome? A palavra hebraica não tem equivalente exato em português, e as leituras se dividem em quatro.
Primeira leitura: é o estandarte em torno do qual o exército se junta. Bekhor Shor (Josef Bekhor Shor, comentarista do norte da França, século XII) explica a palavra pelo francês do seu tempo, enseigne ("insígnia, estandarte"), e cita Isaías 5:26, onde Deus "levanta um estandarte para as nações". Nessa leitura, o nome diz que Israel lutou sob o sinal de Deus, e não sob o de Moisés ou de Josué. É a leitura das traduções modernas e de quase todos os comentaristas cristãos, de Matthew Henry à Cambridge Bible.
Segunda leitura: é o cajado erguido na colina. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) diz que o cajado de Deus tinha sido o sinal no alto da colina durante a batalha, e que Deus o erguerá de novo contra Amaleque no futuro. MacLaren (Alexander MacLaren, pregador batista escocês do século XIX) chega ao mesmo ponto por outro caminho: os estandartes antigos não eram panos, eram hastes rígidas com um emblema no alto, e o cajado de Moisés levantado funcionara como um estandarte em miniatura. Lido assim, o nome do altar responde à cena de Êxodo 17:11: aquilo que subia e descia no alto da colina não era Moisés; era o sinal de Deus. O que as mãos erguidas significavam é discussão do estudo de Êxodo 17:11; o que o altar acrescenta é a atribuição.
Terceira leitura: é um refúgio. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III a.C.) traduz "o Senhor, meu refúgio". Os tradutores aparentemente ligaram a palavra a um verbo hebraico parecido, o de "fugir", e entenderam "o lugar para onde eu fujo". A leitura não é arbitrária: o Salmo 60:4 joga com as duas palavras na mesma frase, "deste aos que te temem uma bandeira, para que fujam de diante do arco", e o sentido do verso é discutido até hoje.
Quarta leitura: é um milagre. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, por volta do século III) lê "o SENHOR é o meu milagre", e tira disso uma ideia ousada: o milagre que Deus fez por Israel, fez por si mesmo; quando Israel é salvo, a alegria é dele também. O Targum fala em "milagres", e Rashi explica: "o Santo fez aqui um milagre por nós". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, século IV) segue outro rumo ainda e escreve "o Senhor, minha exaltação".
As quatro leituras não se excluem totalmente. Têm em comum a ideia de algo erguido que se vê de longe e que decide a sorte de quem olha para ele. Divergem sobre o que se vê: o sinal de comando, o lugar de abrigo, ou o próprio acontecimento extraordinário. Não é possível decidir qual delas Moisés tinha em mente. A primeira é a mais provável pelo uso da palavra na Bíblia; a segunda é a que melhor amarra o versículo à cena.
A haste da serpente
O mesmo objeto reaparece no deserto em Números 21:8-9: Deus manda Moisés fazer uma serpente e pô-la "sobre uma haste" — a mesma palavra deste versículo —, e quem olhasse para ela ficaria vivo. As duas cenas têm a mesma estrutura: algo erguido no alto, o povo que olha, a vida que depende disso. E as duas atribuem o efeito a Deus, não ao objeto. O próprio cânon registra o perigo da confusão: séculos depois, o rei Ezequias despedaça a serpente de bronze porque o povo passara a queimar incenso para ela (2 Reis 18:4). Ao chamar o altar de "o SENHOR é a minha bandeira", Moisés tira do cajado, de antemão, o papel que a serpente acabaria recebendo.
Da guerra à reunião dos dispersos
Nos profetas, a palavra muda de função. Em Isaías 11:10 a "raiz de Jessé", isto é, o rei esperado da descendência de Davi, fica de pé "como bandeira para os povos", e as nações vão procurá-lo; em Isaías 11:12 Deus ergue uma bandeira para reunir os exilados de Israel dos quatro cantos da terra. A haste que em Refidim marcava a frente de batalha passa a marcar o ponto de encontro. O sinal de guerra vira sinal de reunião. O Êxodo não sabe disso, e seria forçar o texto fazer de Isaías a explicação de Moisés; mas o percurso da palavra dentro da Bíblia é este.
"minha"
O nome está na primeira pessoa do singular: "a minha bandeira", não "a nossa". Quem fala é Moisés, e o homem que fala é exatamente aquele cujas mãos, erguidas, decidiam a batalha. A frase o desloca do centro. O sinal que se viu no alto da colina não era ele.
O contraste mais forte está no próprio cânon, e na mesma guerra. Depois de vencer Amaleque, o rei Saul vai ao Carmelo e "levanta para si um monumento" (1 Samuel 15:12). O hebraico chama o monumento de "mão". Dois líderes, a mesma guerra, dois marcos de vitória: um com o nome de Deus, outro erguido para si.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés — constrói aqui o seu primeiro altar e dá a ele um nome. É o mesmo homem que passou a batalha no alto da colina, com as mãos sustentadas por Arão e Hur (Êxodo 17:12). O próximo altar dele estará ao pé do Sinai (Êxodo 24:4).
O SENHOR — o nome próprio de Deus abre o nome do altar. A frase não descreve o lugar nem a pedra; diz quem foi o sinal da vitória.
O altar — sem localização precisa (Ibn Ezra o põe no Horebe, por dedução), sem sacrifício registrado e sem menção posterior. Existe no texto para levar um nome.
Os ausentes — Josué, que venceu no vale, e Amaleque, o vencido, não aparecem no versículo. Nenhum dos dois entra no nome do altar.
5. Pontos de Ensino
1. O primeiro altar de Moisés agradece uma vitória que ele não pôde sustentar sozinho. O homem que precisou de uma pedra e de dois amigos para manter as mãos erguidas constrói o altar logo depois. O nome não celebra a força de ninguém do acampamento.
2. O nome desloca o crédito. "O SENHOR é a minha bandeira" diz que o sinal no alto da colina era Deus, e não o cajado nem o braço de Moisés. A frase protege a cena de ser lida como magia.
3. Uma palavra pode carregar sentidos que as traduções separam. Estandarte, refúgio, exaltação, milagre: as versões antigas escolheram uma coisa cada. O leitor de hoje ganha ao ver as quatro, e perde quando só uma lhe é dada como se fosse a única.
4. Nem todo altar precisa de sacrifício. O texto não registra oferta nenhuma. Há atos de culto que consistem em dizer quem fez o quê.
6. Aspectos Filosóficos
O que faz de uma multidão um povo?
Em Refidim, Israel acabou de lutar a primeira guerra da sua história como grupo, com homens escolhidos às pressas (Êxodo 17:9). No fim do dia, Moisés ergue um altar e o chama de "o SENHOR é a minha bandeira". Uma bandeira é exatamente isto: o sinal em torno do qual gente dispersa se reconhece como uma coisa só. A pergunta filosófica do versículo é a de onde vem essa unidade, e quem pode ocupar o lugar do sinal.
Claude Lefort e o lugar do poder
Claude Lefort (1924-2010), filósofo político francês, passou a vida pensando nessa pergunta, primeiro ao estudar o totalitarismo soviético, depois a democracia. Os textos centrais estão em L'invention démocratique ("A invenção democrática", 1981) e em Essais sur le politique ("Ensaios sobre o político", 1986), que inclui um ensaio com título sugestivo para este versículo: "Permanência do teológico-político?".
A ideia de partida de Lefort é que nenhuma sociedade existe só pelos interesses e pelas forças que a compõem. Ela precisa de uma representação de si mesma como unidade, e essa representação passa pelo poder. O poder não é só quem manda; é o lugar simbólico a partir do qual a sociedade se vê como uma só, se dá um nome e um sentido. Lefort chama isso de "pôr em forma" a sociedade.
Nas monarquias antigas, diz ele, esse lugar estava ocupado por um corpo: o rei, que ligava a sociedade a uma ordem vinda de fora dela, divina. A democracia moderna faz uma coisa inédita: deixa esse lugar vazio. Quem governa o ocupa por um tempo, mas ninguém pode dizer que é a encarnação do povo. A unidade continua sendo simbolizada, mas por um lugar que nenhum homem pode tomar para si.
E o totalitarismo, para Lefort, é a tentativa de voltar a encher esse lugar: um partido ou um chefe que se apresenta como o próprio povo, o "Povo-Um". Essa unidade fabricada tem uma exigência fatal. Para manter-se, precisa de um inimigo — alguém de fora ou de dentro que encarne tudo o que ameaça o corpo único e que deve ser eliminado.
O que essa leitura vê no versículo
A primeira coisa é quem não está na bandeira. O vencedor no vale foi Josué; o homem no alto da colina foi Moisés. O sinal da unidade de Israel, no fim do dia, não recebe o nome de nenhum dos dois. O lugar simbólico é declarado ocupado por alguém que não é um corpo entre os combatentes. Nos termos de Lefort, o versículo impede que o lugar seja encarnado por um homem, sem por isso deixá-lo vazio. A ideia de que a realeza permanente "já tem dono" e que os reis humanos só podem ter o corpo que morre foi desenvolvida, com Kantorowicz, no estudo de Êxodo 15:18; Lefort acrescenta outra dimensão — a do sinal que faz um povo se reconhecer.
A segunda coisa é o risco. A análise de Lefort mostra que um sinal de unidade pode produzir, junto com ela, a figura do inimigo absoluto. O altar está entre dois versículos que falam de apagar um povo e de guerra sem fim. Quando a bandeira é Deus, quem está do outro lado pode passar a ser visto como inimigo de Deus — e foi assim que o nome de Amaleque foi usado, séculos depois, por quem quis justificar violência. O versículo não faz isso; mas a estrutura que Lefort descreve explica por que o caminho estava aberto.
A terceira coisa é a resposta que a própria Bíblia dá ao risco. A palavra "bandeira" não fica presa à guerra. Em Isaías 11:10-12, a mesma palavra marca o ponto para onde os povos vêm, e não contra quem se luta. O sinal que unia Israel contra Amaleque se torna, nos profetas, sinal de reunião das nações. Na linguagem de Lefort, é um símbolo de unidade que não depende de um inimigo para existir.
Os limites
Lefort escreveu sobre a monarquia europeia, a democracia moderna e os regimes totalitários do século XX. O Êxodo não conhece nenhum dos três, e Israel em Refidim não é uma democracia nem uma monarquia. Aplicar as categorias dele ao versículo é analogia, e precisa ser dito. Lefort também não trata deste texto. O que a aproximação oferece é uma pergunta: o que significa um povo pôr no seu sinal de unidade um nome que ninguém do povo pode reivindicar — e que riscos isso traz, junto com o que protege.
7. Aplicações Práticas
A quem se atribui o êxito
O versículo mostra um líder que, no dia seguinte à vitória, constrói um marco e não põe nele o próprio nome. Para quem chefia alguma coisa — uma equipe, uma família, uma comunidade —, a pergunta concreta é o que se escreve no "monumento" depois de um resultado: o nome de quem comandou, ou o que tornou o resultado possível.
Dar nome ao que aconteceu
Moisés não guarda a vitória só na lembrança; dá a ela uma frase que pode ser repetida. Quem passou por um livramento pode fazer o mesmo: fixar numa frase curta o que entendeu daquele dia, para que a memória não dependa só do sentimento do momento.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Houve sacrifício sobre esse altar?
O texto não diz. Ele registra a construção e o nome, e nada mais. A tradução aramaica e alguns comentaristas supõem culto e oferta, porque um altar sem sacrifício parece incompleto; mas o versículo, como está, descreve um altar cuja função visível é guardar um nome.
O que aconteceu com o altar depois?
Nada se sabe. Ele não volta a ser mencionado, nem como lugar de peregrinação, nem como marco de fronteira. Ao contrário do altar de Gideão, que "ainda hoje" estava em Ofra segundo Juízes 6:24, o de Moisés desaparece da história. O que sobreviveu foi a frase.
Por que o altar vem antes do cumprimento da ordem de escrever?
O versículo 14 manda escrever; o 15 mostra um altar; em nenhum lugar se diz que Moisés escreveu naquele dia. Sforno sugere que o altar, o nome e a frase do versículo 16 foram o modo como Moisés "pôs nos ouvidos de Josué" o que lhe foi pedido. É uma leitura possível. O texto não a confirma.
Um nome de altar pode ser usado como nome de Deus?
A devoção cristã fez de "Jeová-Nissi" um dos "nomes de Deus", ao lado de "Jeová-Jiré" (Gênesis 22:14) e "Jeová-Shalom" (Juízes 6:24). Rashi já advertia contra isso: o altar não se chama "o SENHOR"; o nome é uma frase sobre o que o SENHOR fez. O uso devocional não é proibido, mas transforma uma declaração sobre um acontecimento num título permanente, e o texto não faz essa transformação.
9. Conexão com Outros Textos
Outros nomes formados do mesmo modo
Gênesis 22:14 — "Abraão deu àquele lugar o nome de 'O SENHOR Proverá'. Por isso até hoje se diz: 'No monte do SENHOR se proverá.'"
O mesmo molde: o nome divino seguido do que Deus fez ali. Lá o nome é dado a um lugar; aqui, a um altar.
Juízes 6:24 — "Então Gideão edificou ali um altar ao SENHOR e o chamou 'O SENHOR é paz'; e ainda hoje está em Ofra dos abiezritas."
O outro altar com nome do mesmo tipo, também ligado a uma guerra — mas o nome fala de paz.
A mesma palavra: a haste
Números 21:8-9 — "E o SENHOR disse a Moisés: Faça uma serpente ardente e ponha-a sobre uma haste; e todo aquele que for mordido e olhar para ela viverá. Moisés fez uma serpente de bronze e a pôs sobre a haste."
A "haste" é a "bandeira" deste versículo. Algo erguido no alto, para o qual se olha, e do qual depende a vida.
Números 26:10 — "E a terra abriu a sua boca e os engoliu com Corá, quando morreu aquele grupo, quando o fogo consumiu duzentos e cinquenta homens; e eles se tornaram um sinal."
A mesma palavra, agora para pessoas que viram advertência: o "sinal" que se vê de longe pode ser um castigo.
A bandeira nos profetas e nos salmos
Isaías 11:10 — "Naquele dia, a raiz de Jessé ficará de pé como bandeira para os povos; as nações a buscarão, e o lugar do seu repouso será glorioso."
Isaías 11:12 — "Ele levantará uma bandeira para as nações, reunirá os desterrados de Israel e ajuntará os dispersos de Judá desde os quatro cantos da terra."
A bandeira deixa de marcar a frente de batalha e passa a marcar o ponto de reunião.
Salmo 60:4 — "Deste aos que te temem uma bandeira, para que fujam de diante do arco."
O verso joga com "bandeira" e "fugir", e ajuda a entender por que a Septuaginta leu "refúgio" em Êxodo 17:15. A tradução do final é discutida ("por causa da verdade", em outras versões).
Isaías 49:22 — "Assim diz o Senhor DEUS: Eis que levantarei a minha mão para as nações e erguerei a minha bandeira para os povos; e eles trarão os seus filhos nos braços."
A mão erguida e a bandeira erguida, juntas, como em Refidim — mas para trazer gente de volta, não para combater.
O outro monumento da guerra contra Amaleque
1 Samuel 15:12 — "Samuel madrugou para encontrar Saul pela manhã, e lhe foi dito: Saul foi ao Carmelo, e eis que levantou para si um monumento."
O marco da vitória de Saul sobre Amaleque, erguido "para si". O contraste com o altar de Moisés é o próprio texto que o oferece.
O próximo altar de Moisés
Êxodo 24:4 — "Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR; levantou-se de madrugada e edificou um altar ao pé do monte, e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel."
Escrever e edificar um altar, de novo juntos — agora na aliança do Sinai.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Moisés edificou um altar e lhe deu o nome de “O SENHOR é a minha bandeira”.
Texto hebraico
וַיִּבֶן מֹשֶׁה מִזְבֵּחַ וַיִּקְרָא שְׁמוֹ יְהוָה נִסִּי׃
Transliteração
va-yiven Moshe mizbeach, va-yiqra shemo YHWH nissi.
Análise palavra por palavra
וַיִּבֶן — va-yiven, "e edificou".
Da raiz b-n-h, "construir", na forma que encadeia a narrativa. É o verbo dos altares de Noé (Gênesis 8:20), de Abrão (Gênesis 12:7) e de Jacó em Betel (Gênesis 35:7). Em Gênesis 33:20 o verbo é outro, "levantou", de pôr de pé uma pedra.
מֹשֶׁה — Moshe, "Moisés".
מִזְבֵּחַ — mizbeach, "altar".
Substantivo formado com o prefixo mi-, que indica lugar, sobre a raiz z-b-ch, "abater, sacrificar": literalmente, "o lugar do sacrifício". O nome carrega o sacrifício que o versículo não registra. Ibn Ezra propõe ler a palavra como se valesse duas vezes — "edificou um altar e chamou-o: altar do SENHOR, minha bandeira" —, para evitar que o nome divino fique como nome da pedra.
וַיִּקְרָא שְׁמוֹ — va-yiqra shemo, "e chamou o seu nome".
Qara, "chamar", com shem, "nome", e o sufixo da terceira pessoa masculina, -o, "dele". O sufixo pode remeter ao altar ou a Deus, e a ambiguidade é do hebraico (item 3).
יְהוָה — YHWH, "o SENHOR".
O nome próprio de Deus, que a ABC traduz por "SENHOR". Abre o nome do altar, como em "O SENHOR Proverá" (Gênesis 22:14).
נִסִּי — nissi, "a minha bandeira".
O substantivo nes com o sufixo da primeira pessoa, -i, "meu". A frase não tem verbo: "o SENHOR — minha bandeira". O português precisa do "é".
O sentido básico de nes é o de uma haste ou mastro erguido, com ou sem emblema, que se vê de longe. A palavra aparece cerca de vinte vezes na Bíblia hebraica, e os usos mostram o objeto por vários lados:
Como haste: a serpente de bronze é posta "sobre um nes" (Números 21:8-9).
Como sinal num lugar alto, para convocar ou alertar: "levantem uma bandeira sobre um monte descalvado" (Isaías 13:2); "quando se erguer a bandeira nos montes, vejam; quando se tocar a trombeta, ouçam" (Isaías 18:3); "ergam a bandeira em direção a Sião" (Jeremias 4:6). Era o sinal visual que corria junto com o sinal sonoro.
Como vela de navio: em Ezequiel 27:7, o linho bordado do Egito é o nes de Tiro, a cidade comparada a um barco; e Isaías 33:23 fala de um navio que não consegue estender o seu nes. É o mastro com o pano.
Como advertência: os homens de Corá, engolidos pela terra, "se tornaram um nes" (Números 26:10) — um sinal para os outros.
O verbo da mesma família é raro: o Salmo 60:4 (60:6 no hebraico) o usa numa forma reflexiva, "erguer-se como sinal", e Zacarias 9:16 o aplica às pedras de uma coroa que se destacam e brilham.
Depois da Bíblia, no hebraico dos rabinos, nes passou a significar "milagre" — o acontecimento extraordinário visto como sinal erguido diante de todos. É o sentido da palavra nas orações judaicas que agradecem "pelos milagres" e no dito sobre a festa de Hanucá, "um grande milagre aconteceu ali". A Mekhilta e o Targum já leem Êxodo 17:15 com esse sentido. A Septuaginta, ao traduzir "refúgio", parece ter ligado a palavra a outra raiz, n-w-s, "fugir", da qual vem manos, "lugar de fuga, refúgio".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o capítulo fecha a batalha com uma atribuição, e não com uma celebração do comandante. O sinal que decidiu o dia, erguido no alto da colina, recebe por nome o de Deus, e não o de quem o segurava.
A segunda é que a palavra que dá o nome ao altar é larga demais para uma tradução só. Haste, estandarte, sinal de alerta, refúgio, milagre: a história da palavra dentro e fora da Bíblia mostra que o "sinal erguido" foi lido de muitas maneiras, e que o versículo comporta mais de uma.
A terceira é que o primeiro altar de Moisés, entre a ordem de apagar uma memória e a promessa de uma guerra sem fim, não guarda a inimizade. Guarda um nome. E é esse nome, e não a hostilidade dos versículos vizinhos, que a palavra "bandeira" levará adiante quando os profetas a transformarem em sinal de reunião dos povos.













