📖 Navegar na Bíblia:
‹

Gênesis 33:20

›
✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 37 acessos
Ali levantou um altar e lhe deu o nome de El-Elohê-Israel.
Altar de pedras não lavradas empilhadas num campo aberto, ao entardecer, com uma tenda ao lado e a silhueta de montes ao fundo.

Estudo


Ali levantou um altar e lhe deu o nome de El-Elohê-Israel.

1. Introdução

O capítulo termina com um altar e um nome.

Jacó levanta o altar no terreno que acabou de comprar e o batiza: El-Elohê-Israel, "Deus, o Deus de Israel". São seis palavras em hebraico, e elas fecham a viagem inteira.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é o nome do altar. Ele contém a palavra "Israel" — e esta é a primeira vez, depois da luta no Jaboque, em que o nome novo aparece sendo usado por alguém. Não numa apresentação, não num diálogo: gravado num altar.

O segundo é o que Jacó faz de diferente. Abraão e Isaque construíram altares e invocaram o nome do SENHOR. Jacó dá nome ao altar. É outro gesto, e ele inaugura um costume que reaparecerá com Moisés e com Gideão.

O terceiro é o que o texto não registra. Não há sacrifício descrito, não há palavra de Deus, não há resposta. O altar é levantado, batizado, e o capítulo acaba.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era um altar

Um altar, no mundo dos patriarcas, não é um edifício. É uma estrutura simples de pedras empilhadas ou de terra, feita no lugar onde algo aconteceu, e destinada a receber a oferta queimada.

A legislação posterior fixará a regra em Êxodo 20:24-25: altar de terra, ou de pedras não lavradas, "porque, se você levantar sobre ele o seu buril, o profanará". A ferramenta desqualifica a pedra. O que se exige é o material como veio.

Isso torna o altar uma construção rápida, barata e visível. Qualquer um pode fazer um em algumas horas, e ele fica ali marcando o lugar depois que a caravana parte.

O altar como marco de posse

Há uma função que a leitura devocional costuma esquecer, e que os comentaristas antigos apontam.

Erguer um altar num terreno é declarar publicamente a que Deus aquele terreno pertence. Numa região de muitos cultos, isso não passava despercebido: o altar identificava o dono e o deus do dono.

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) resume as motivações prováveis do gesto em três: gratidão pela volta em segurança, tomada de posse do lugar e declaração pública de fé. As três são compatíveis entre si, e nenhuma está escrita no versículo.

Vale notar o dado concreto que sustenta a segunda. Este altar é levantado em chão comprado, com preço pago e vendedores identificados, segundo o versículo anterior. É o primeiro altar do Gênesis erguido sobre terreno que pertencia legalmente a quem o ergueu.

Siquém como lugar de culto

A escolha do lugar não é neutra, e a arqueologia ajuda a entender por quê.

Siquém foi um centro religioso importante durante séculos. As escavações em Tell Balata encontraram um grande templo-fortaleza, e o livro de Juízes menciona ali o santuário de uma divindade chamada El-Berite, ou Baal-Berite — "Deus da aliança" —, em Juízes 9:4 e 9:46.

Aquele templo é muito posterior a Jacó, e não há como ligar diretamente uma coisa à outra. O que se pode dizer é que o lugar já tinha vocação religiosa antiga, e que erguer ali um altar próprio, com nome próprio, é um gesto que se destaca do ambiente.

É uma leitura possível, e convém marcá-la como tal: o texto não menciona nenhum culto local, nem opõe o altar de Jacó a qualquer outro.

Dar nome a um objeto de culto

Nomear é um gesto recorrente no Gênesis. Adão nomeia os animais, Deus nomeia o dia e a noite, os patriarcas nomeiam poços, lugares e filhos, e as explicações desses nomes são um dos fios do livro.

Nomear um altar, porém, é raro. E o costume, uma vez inaugurado, aparece em momentos decisivos: Moisés chamará um altar de "o SENHOR é a minha bandeira", em Êxodo 17:15, depois da vitória sobre Amaleque; Gideão chamará o seu de "o SENHOR é paz", em Juízes 6:24.

Nos dois casos, o nome do altar resume o que acabou de acontecer com quem o construiu. É exatamente o que ocorre aqui.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ali levantou um altar"

O advérbio importa mais do que parece. "Ali" é o terreno do versículo anterior — a parte do campo comprada dos filhos de Hamor, onde a tenda estava armada.

Vale reunir a sequência dos últimos quatro versículos, porque ela desenha um movimento completo: Jacó chega, acampa diante da cidade, compra o chão em que acampou e levanta nele um altar. Presença, título, culto.

É a primeira vez no Gênesis que essas três coisas coincidem. Abraão levantou altares em Siquém, em Betel, em Hebrom e no monte de Moriá — em nenhum desses lugares ele era proprietário. O único imóvel dele, a caverna de Macpela, é sepultura, e o texto não registra altar ali.

Há outra observação a fazer, e é sobre o que falta. O texto não descreve sacrifício nenhum. Diz que o altar foi levantado e nomeado, e nada mais — sem oferta, sem fogo, sem animal.

Isso não significa que não tenha havido. Um altar é, por definição, lugar de sacrifício, e o Gênesis frequentemente omite o que se subentende. Significa apenas que o texto escolheu registrar o nome, e não o rito.

"e lhe deu o nome de El-Elohê-Israel"

Aqui está o coração do versículo, e três coisas acontecem ao mesmo tempo.

A primeira é que Jacó batiza um objeto. Não invoca, não proclama, não ora — dá nome. É outro tipo de gesto, e o item 10 mostra que ele se distingue do que Abraão e Isaque faziam.

A segunda é o conteúdo do nome: "Deus, o Deus de Israel". A declaração é de pertencimento mútuo. Não se afirma um atributo divino — não se diz "Deus Altíssimo", "Deus que vê", "Deus eterno", como nos outros nomes divinos do Gênesis. Diz-se de quem esse Deus é.

A terceira é a mais notável: o nome contém a palavra Israel.

O primeiro uso do nome novo

Convém verificar o dado antes de tirar conclusões dele.

O nome foi dado em Gênesis 32:28, na noite da luta: "não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel". Depois disso, o próprio texto continua chamando o homem de Jacó — em todo este capítulo 33, sem exceção, e ainda por muito tempo. A troca de nome não é imediata nem completa; Gênesis 35:10 a confirmará de novo, e o livro seguirá alternando os dois nomes até o fim.

Entre o momento em que o nome foi concedido e este versículo, ninguém o usa. Ninguém chama Jacó de Israel; ele não se apresenta assim a Esaú; o texto não o emprega para se referir a ele.

A primeira aparição do nome novo aplicada a esse homem está aqui — e não numa fala, numa apresentação ou num diálogo. Está gravada num altar, dita por ele mesmo.

É um dado que quase nunca se observa, e ele vale por si. O homem que recebeu um nome numa luta noturna, e que passou o dia seguinte inteiro sendo chamado pelo nome antigo, faz o nome novo aparecer pela primeira vez ao dizer de quem é o Deus dele.

Israel: o homem ou o povo?

Há uma ambiguidade real na frase, e ela é discutida.

Na primeira leitura, "Israel" designa Jacó. O altar se chama "Deus, o Deus de Israel" no sentido de "o Deus deste homem aqui, que recebeu esse nome". É a leitura mais natural no contexto imediato, e a que a maioria adota.

Na segunda, "Israel" já aponta para o povo que descenderá dele. Nesse caso, o altar antecipa a fórmula que atravessará toda a Bíblia — "o Deus de Israel" — e Jacó estaria nomeando não a si, mas à nação que os doze filhos formarão.

Não é possível decidir, e as duas leituras não se excluem. A expressão "o Deus de Israel" se tornará, séculos depois, a designação padrão da divindade de um povo inteiro — e a primeira vez que ela aparece na Bíblia é aqui, numa pedra levantada por um pastor recém-chegado.

O que Jacó está declarando

Vale medir o alcance da frase à luz do que ele mesmo dissera vinte anos antes.

Em Betel, o voto fora condicionado: "se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem... o SENHOR será o meu Deus", em Gênesis 28:20-21. A adoção ficava para depois, dependente do resultado.

Aqui não há condição. O nome do altar afirma a relação como fato: este Deus é o Deus de Israel.

Alguns leitores veem nisso o cumprimento da parte do voto que dizia respeito à escolha do Deus. É leitura razoável, e tem contra si um dado forte: em Gênesis 35:1, Deus mandará Jacó subir a Betel e fazer ali um altar, o que indica que o compromisso daquela noite ainda estava pendente.

Convém não resolver a tensão. O altar de Siquém é uma declaração real, e não é o cumprimento do voto de Betel — que tinha lugar marcado e não era ali.

O capítulo termina sem resposta

Uma última observação sobre o que o versículo não traz.

Não há voz, não há aparição, não há bênção. Jacó levanta o altar, dá o nome e o capítulo acaba. Compare-se com Gênesis 12:7, onde o altar de Abraão em Siquém foi levantado porque o SENHOR lhe aparecera; aqui a ordem é outra, e não há nada antes nem depois.

O silêncio ganha peso quando se lê o que vem em seguida. O capítulo 34 de Gênesis começa com Diná saindo para ver as filhas da terra, e termina com Siquém destruída pelos filhos de Jacó. O altar fica de pé, e o desastre acontece ao lado dele.

O Gênesis não liga uma coisa à outra. Registra o altar, registra o massacre e não comenta a vizinhança dos dois.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O altar

Levantado no campo comprado no versículo anterior, diante de Siquém, entre os montes Ebal e Gerizim.

É o primeiro altar que o Gênesis atribui a Jacó. Ele erguera antes uma pedra em Betel, em Gênesis 28:18, e uma coluna no monte Gileade, em Gênesis 31:45 — mas coluna e altar são coisas diferentes, e o texto usa palavras diferentes para elas.

Depois deste, Jacó levantará outro altar em Betel, em Gênesis 35:7, e o chamará de El-Betel.

Os altares de Abraão

Gênesis registra quatro. Em Siquém, junto ao carvalho de Moré, depois da promessa da terra, em Gênesis 12:7. Entre Betel e Ai, em Gênesis 12:8. Em Manre, junto a Hebrom, em Gênesis 13:18. E no monte de Moriá, em Gênesis 22:9.

Nos dois primeiros casos o texto acrescenta a fórmula "e invocou o nome do SENHOR". Nenhum deles recebe nome próprio.

O altar de Isaque

Um só, em Berseba, em Gênesis 26:25: "edificou ali um altar, e invocou o nome do SENHOR, e armou ali a sua tenda; e os servos de Isaque cavaram ali um poço".

A sequência é quase idêntica à deste capítulo — altar, tenda, água —, e também ali o altar vem depois de uma aparição divina, no versículo anterior. Não recebe nome.

O nome Israel

Dado em Gênesis 32:28, com a explicação: "pois lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste". A etimologia é discutida, e o item 10 a trata.

O nome não substitui o antigo. O Gênesis continuará chamando o mesmo homem ora de Jacó, ora de Israel, até o fim do livro — e essa alternância é diferente do que acontece com Abrão, que depois de Gênesis 17:5 nunca mais é chamado pelo nome antigo.

Siquém, logo depois

O capítulo 34 de Gênesis se passa neste mesmo lugar, a poucos metros deste altar: a violência contra Diná, a negociação de casamento, a circuncisão dos homens da cidade e o massacre executado por Simeão e Levi.

Ao fim daquele capítulo, Jacó dirá aos filhos que eles o tornaram odioso aos moradores da terra. E em Gênesis 35:1 receberá a ordem de deixar Siquém e subir a Betel.

5. Pontos de Ensino

O nome novo aparece no uso, não na apresentação

Jacó recebeu um nome na luta e passou o dia seguinte inteiro sendo chamado pelo antigo. Não corrigiu ninguém, não se apresentou a Esaú como Israel, não anunciou nada.

O nome aparece pela primeira vez quando ele diz de quem é o seu Deus. Não é declaração sobre si — é declaração sobre uma relação, e o nome entra por dentro dela.

O altar sobre terreno próprio

Os patriarcas anteriores construíram altares em terra alheia. Este foi levantado num campo comprado e pago.

Não há elogio nem crítica no texto a respeito disso. Vale o registro: a fé de Jacó, neste ponto, tem endereço com escritura.

Dizer de quem se é, e não o que se é

O nome do altar não descreve Deus por atributo — não diz altíssimo, eterno, todo-poderoso. Diz de quem ele é.

É uma diferença de linguagem com consequência. Definir por relação em vez de definir por qualidade produz outra espécie de afirmação, e é essa que atravessará a Bíblia inteira na fórmula "o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó".

Um gesto sem resposta registrada

Não há voz, aparição ou bênção depois do altar. O capítulo termina no silêncio.

O texto mostra, sem comentar, que há atos de fé que não recebem resposta imediata — e que o livro não trata isso como problema.

O que está ao lado do altar

O capítulo seguinte é o mais violento da vida de Jacó, e acontece a poucos passos daquele lugar.

O Gênesis não relaciona os dois fatos. Quem quiser tirar dessa vizinhança uma lição terá de construí-la, e deve dizer que a está construindo.

6. Aspectos Filosóficos

Afirmar quem se é depois de sair ferido

O versículo registra um homem que grava num altar o nome que recebeu numa noite de luta — e que continua mancando por causa dela.

É uma cena de afirmação, e não de conquista. Nada foi vencido: o irmão foi encontrado e deixado para trás, a terra prometida ainda pertence a outros, a promessa ainda não se cumpriu. O que há é um nome dito em voz alta.

Esse tipo de afirmação é o assunto de A Coragem de Ser, livro publicado em 1952 por Paul Tillich (teólogo e filósofo alemão, 1886-1965, que deixou a Alemanha em 1933 e ensinou nos Estados Unidos).

O que Tillich sustenta

Tillich parte de uma distinção. Medo tem objeto: teme-se algo determinado, e é possível enfrentá-lo. Angústia não tem objeto — é a consciência de que se pode deixar de ser, e por isso não há o que enfrentar.

Ele identifica três formas dessa angústia, cada uma dominante numa época. A angústia do destino e da morte, a da vergonha e da condenação, e a do vazio e da falta de sentido.

A coragem, para ele, não é a ausência dessas angústias. É a afirmação de si apesar delas — a expressão que percorre o livro é essa: afirmar-se apesar do que nega. Coragem não elimina a ameaça; assume-a dentro de si e continua.

Tillich distingue ainda duas formas incompletas dessa afirmação. A coragem de ser como parte — afirmar-se pertencendo a um grupo, a uma causa, a um povo — e a coragem de ser como si mesmo, afirmar-se na própria individualidade. Cada uma, sozinha, se desfaz: a primeira dissolve a pessoa no coletivo, a segunda a isola.

E há a fórmula mais conhecida do livro, tirada da tradição cristã e reformulada por ele: a coragem de aceitar que se é aceito, mesmo sendo inaceitável. Não é conquistar aprovação — é receber uma que não se pode merecer.

Onde os dois se encontram

A cena tem os elementos que Tillich descreve, e os tem na ordem dele.

Jacó vinha do medo concreto — quatrocentos homens, um irmão que jurara matá-lo. Esse medo tinha objeto, e o objeto se dissolveu num abraço. O que sobra depois não é medo: é a situação de um homem sem terra, com um nome que ninguém usa e uma promessa que não se cumpriu.

Diante disso, ele levanta uma pedra e diz de quem é.

As duas formas de afirmação que Tillich separa aparecem juntas na frase, e é isso que a torna interessante. "Israel" é o nome dele — afirmação de si. E é o nome do povo que virá — afirmação como parte. O altar diz as duas coisas com a mesma palavra.

Quanto à aceitação, o capítulo inteiro a encena. Jacó chega esperando ser morto, e é abraçado. Ele não conquistou o perdão: recebeu-o. E a primeira coisa que faz depois de comprar um chão é registrar em pedra a quem pertence.

Onde a aproximação não vale

Três limites, e eles são grandes.

O primeiro é o do problema. Tillich escreve para um mundo que perdeu o sentido — a angústia central do livro dele é a do vazio, característica do século XX. Nada disso existe no Gênesis, que não conhece essa categoria e não trata de sentido em nenhuma passagem.

O segundo é o da fonte. Em Tillich, a coragem é ato do sujeito, ainda que enraizado no que ele chama de "poder do ser". No versículo, o nome não foi escolhido nem conquistado: foi dado, e dado por outro. Jacó não se afirma — reconhece.

O terceiro é o do gesto. Levantar um altar é ato de culto, com sacrifício subentendido, dentro de uma religião concreta. Ler isso como decisão existencial é traduzir para um vocabulário que o texto não tem.

O que sobra

Sobra a imagem, e ela é forte o bastante para dispensar a teoria.

Um homem que atravessou vinte anos difíceis, saiu ferido de uma luta que não venceu e comprou um pedaço de terra numa região que não é dele levanta uma pedra e escreve nela um nome — o dele e o do seu Deus, na mesma frase.

Se isso é coragem no sentido de Tillich, é o comentarista quem o diz. O Gênesis diz apenas que ele levantou um altar e o chamou assim.

7. Aplicações Práticas

Marcar o que aconteceu

Jacó levanta uma pedra no lugar onde a viagem terminou. O gesto não muda nada na prática: serve para que aquilo fique registrado.

A aplicação é simples e pouco usada. Momentos que mudam a vida de alguém quase nunca deixam sinal, e sem sinal eles se apagam — o que se atravessou vira história vaga, e a lição se perde junto.

Um marco pode ser qualquer coisa: uma data anotada, um objeto guardado, uma frase escrita. O que importa é que exista fora da memória, porque a memória reescreve.

Assumir o nome novo pelo uso

Ninguém chamava Jacó de Israel. Ele não corrigiu ninguém e não anunciou nada — usou o nome uma vez, num altar.

Mudanças de identidade real funcionam assim com mais frequência do que por declaração. Quem parou de beber, quem mudou de profissão, quem saiu de uma relação: o anúncio convence pouca gente, e o uso continuado é o que estabelece o fato.

Dizer a quem se pertence antes de saber o que virá

O altar é levantado antes do capítulo 34, e o capítulo 34 será um desastre.

Jacó não sabia. Declarou a relação com a informação que tinha, e o que veio depois não desfez a declaração.

Há uma aplicação prática nisso, e ela é sóbria: compromissos feitos com base no presente não deixam de valer porque o futuro foi ruim. Também não protegem de nada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jacó dá nome ao altar, se Abraão e Isaque não davam?

O texto não explica.

O que se pode registrar é que ele já vinha nomeando coisas ao longo de toda a viagem: Betel, Maanaim, Peniel, Sucote. Dar nome é característico dele nesta parte do livro, e o altar entra nessa série. Se há mais do que isso, o Gênesis não diz.

"Israel", aqui, é Jacó ou o povo?

É discutido, e as duas leituras estão no item 3. A ambiguidade é do próprio texto e não se resolve pela gramática.

Houve sacrifício?

O texto não menciona nenhum.

Como um altar é, por definição, lugar de oferta, é provável que tenha havido e que o texto tenha omitido. Mas o registro é o que é: o versículo fala do que foi levantado e do nome, não do rito.

Este altar cumpre o voto de Betel?

Não. O voto de Gênesis 28:20-22 tinha lugar determinado — aquela pedra, em Betel — e Deus mandará Jacó voltar lá em Gênesis 35:1.

O altar de Siquém é outro gesto, no lugar errado para aquele compromisso específico. Que ele expresse a mesma disposição de fundo é leitura possível.

Por que Deus não responde?

A pergunta é legítima e não tem resposta no texto.

Vale notar que nos altares de Abraão em Siquém e de Isaque em Berseba a aparição divina vem antes, e o altar é resposta a ela. Aqui a ordem se inverte e não há aparição em nenhum dos dois lados. O Gênesis não comenta.

O altar protegeu Jacó de alguma coisa?

Não, e o capítulo seguinte deixa isso claro.

O desastre de Siquém acontece no mesmo lugar, pouco depois. O texto não sugere nenhuma relação entre uma coisa e outra — nem de proteção, nem de castigo.

9. Conexão com Outros Textos

Altares que receberam nome

Êxodo 17:15 — "E Moisés edificou um altar e lhe deu o nome de ‘O SENHOR é a minha bandeira’."

O primeiro paralelo depois deste versículo, e a mesma construção: altar levantado e batizado com uma frase que resume o que acabou de acontecer.

Juízes 6:24 — "Gideão edificou ali um altar ao SENHOR e lhe chamou: O SENHOR é paz."

Gênesis 35:7 — "Edificou ali um altar e chamou aquele lugar El-Betel, porque ali Deus se lhe manifestara quando fugia diante de seu irmão."

O próprio Jacó, dois capítulos adiante, repete o gesto — e ali o texto informa o motivo, que aqui não informa.

Altares sem nome

Gênesis 12:7-8 — "Edificou ali um altar ao SENHOR, que lhe aparecera. E invocou o nome do SENHOR."

Abraão em Siquém, no mesmo lugar deste versículo. A fórmula é invocar, e não nomear.

Gênesis 26:25 — "Edificou ali um altar, e invocou o nome do SENHOR, e armou ali a sua tenda."

Isaque em Berseba, com a mesma sequência de altar e tenda.

O nome de Israel

Gênesis 32:28 — "Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel; pois lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste."

A concessão do nome, na noite anterior a este capítulo.

Gênesis 35:10 — "O teu nome é Jacó; não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel será o teu nome."

A confirmação, dois capítulos depois. O livro precisa dizer duas vezes.

"O Deus de Israel"

Êxodo 5:1 — "Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo."

A fórmula que este altar inaugura, usada diante do faraó como identificação de quem fala.

Êxodo 3:6 — "Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó."

Deus se identifica por meio de pessoas, e não por atributos — o mesmo procedimento do nome deste altar.

Josué 24:23 — "Inclinai o vosso coração ao SENHOR, Deus de Israel."

Dito em Siquém, no mesmo lugar, séculos depois.

Como se fazia um altar

Êxodo 20:24-25 — "Um altar de terra me farás… Se me fizeres um altar de pedras, não o construirás de pedra lavrada; porque, se levantares sobre ela a tua espada, tu a profanarás."

A regra que descreve o tipo de construção de que este versículo fala.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ali levantou um altar e lhe deu o nome de El-Elohê-Israel.

Texto hebraico

וַיַּצֶּב־שָׁ֖ם מִזְבֵּ֑חַ וַיִּ֨קְרָא־ל֔וֹ אֵ֖ל אֱלֹהֵ֥י יִשְׂרָאֵֽל׃

Transliteração

vayyatsev sham mizbeach; vayyiqra lo El Elohei Yisrael.

Análise palavra por palavra

וַיַּצֶּב — vayyatsev, "e erigiu, e pôs em pé". Do verbo natsav, na forma causativa.

Aqui há uma peculiaridade que os comentaristas notam e que vale registrar.

O verbo normal para altar, em toda a Bíblia hebraica, é banah, construir — é o que Abraão faz em Gênesis 12:7, o que Isaque faz em Gênesis 26:25, o que o próprio Jacó fará em Gênesis 35:7. Este verbo, natsav, é o de levantar, fincar, pôr de pé, e costuma acompanhar outra palavra: matsevah, a coluna de pedra, o marco vertical.

Jacó já usara esse gesto duas vezes: em Gênesis 28:18, quando pôs de pé a pedra de Betel, e em Gênesis 31:45, na coluna do monte Gileade. A palavra matsevah vem dessa mesma raiz.

Daí a observação da Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa): o verbo aponta para coluna, e não para altar, e há quem prefira ler o objeto como uma pedra erguida.

O texto hebraico, porém, diz claramente mizbeach, altar. A leitura de coluna exige alterar a palavra, e não há apoio manuscrito para isso. O que se pode dizer é que a escolha do verbo é incomum, e que o motivo dela não é conhecido.

מִזְבֵּחַ — mizbeach, "altar".

A palavra é formada do verbo zavach, sacrificar, imolar, abater para oferta, com um prefixo que indica lugar. Ao pé da letra, mizbeach é "o lugar onde se sacrifica".

Isso torna a omissão do versículo mais visível: o texto nomeia o lugar do sacrifício e não menciona sacrifício nenhum.

וַיִּקְרָא־לוֹ — vayyiqra lo, "e chamou-lhe", "e chamou por ele".

Esta expressão é a segunda dificuldade do versículo, e ela é real.

O verbo qara significa chamar, gritar, proclamar, dar nome. Combinado com a preposição, pode significar duas coisas diferentes: dar nome a algo, ou invocar alguém.

A leitura corrente é a primeira: ele deu ao altar o nome de El-Elohê-Israel. É como entendem o Texto Massorético — o texto hebraico com a vocalização fixada pelos escribas judeus na Idade Média — e a maioria das traduções.

A Septuaginta lê de outro modo: "e invocou o Deus de Israel". Nessa leitura, não há nome de altar nenhum — há um homem chamando pelo seu Deus, exatamente como Abraão e Isaque fazem nos seus altares.

É discutido, e as duas leituras são gramaticalmente possíveis. Vale registrar que a segunda torna o versículo menos original e mais parecido com os anteriores, o que é, ao mesmo tempo, um argumento a favor dela e contra ela.

אֵל — El, "Deus".

É a palavra semítica mais antiga para divindade, comum ao hebraico e às línguas vizinhas. Nos textos de Ugarite, cidade do litoral sírio cujos escritos são do século XIV a.C., El é o nome do deus mais alto do panteão cananeu.

No Gênesis, a palavra aparece com frequência em nomes compostos que designam o Deus dos patriarcas: El Elyon, "Deus Altíssimo", em Gênesis 14:18; El Roi, "Deus que me vê", em Gênesis 16:13; El Shaddai, "Deus Todo-Poderoso", em Gênesis 17:1; El Olam, "Deus eterno", em Gênesis 21:33; El Betel, em Gênesis 35:7.

Repare no padrão, porque é aqui que este versículo se destaca. Em todos esses nomes, o segundo termo é um atributo divino: alto, vidente, poderoso, eterno. Neste, o segundo termo é uma pessoa.

אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל — Elohei Yisrael, "Deus de Israel".

Elohei é a forma de ligação de Elohim, a palavra hebraica mais comum para Deus, que tem forma de plural e recebe verbo no singular quando se refere ao Deus de Israel.

O conjunto do nome — El Elohei Yisrael — traduz-se por "Deus, o Deus de Israel", ou "El é o Deus de Israel". A construção admite as duas leituras: uma aposta os dois termos, a outra faz do primeiro um sujeito e do segundo um predicado.

Na segunda leitura, o nome do altar é uma afirmação declarada: aquele El, o Deus mais alto, é o Deus deste homem. Não é possível decidir entre as duas, e a diferença de sentido é pequena.

O nome Israel

Yisrael é composto de um elemento verbal e do nome divino El. O elemento verbal foi ligado a duas raízes diferentes.

A primeira é sarah, lutar, contender, prevalecer — é a que o próprio texto oferece em Gênesis 32:28: "lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste". Nesse caso, o nome significaria algo como "aquele que luta com Deus".

A segunda é sarar, governar, ou uma raiz aparentada com a ideia de Deus governar. Nesse caso, o sujeito do nome seria Deus, e não o homem — "Deus governa", "Deus contende".

A segunda análise é a preferida por boa parte dos estudiosos modernos, pela razão gramatical de que, em nomes hebraicos compostos com El, o elemento divino costuma ser o sujeito do verbo. A primeira é a que o Gênesis apresenta.

É discutido, e as duas convivem. O livro não faz filologia: dá a explicação que interessa à cena.

O que o nome deste altar inaugura

Vale fechar com o alcance da expressão.

"O Deus de Israel" se tornará uma das designações mais usadas da divindade em toda a Bíblia hebraica. É como Moisés se apresenta diante do faraó, em Êxodo 5:1. É como Josué convoca o povo, em Josué 24:23 — e no mesmo lugar deste altar. É a fórmula de centenas de textos proféticos.

A primeira ocorrência dessa expressão na Bíblia é esta: gravada por um pastor recém-chegado de vinte anos fora, num altar levantado sobre um campo comprado, ao lado de uma tenda, diante de uma cidade que não era dele.

11. Conclusão

Do versículo decorrem quatro conclusões.

A primeira é que o nome recebido no Jaboque aparece aqui pela primeira vez em uso. Entre a concessão, em Gênesis 32:28, e este versículo, ninguém chama Jacó de Israel — nem o texto, nem Esaú, nem ele próprio. A estreia do nome novo não acontece numa apresentação nem num diálogo: acontece gravada numa pedra, e quem a faz é o homem que o recebeu.

A segunda é que Jacó faz com o altar algo que os antecessores não faziam. Abraão e Isaque construíram altares e invocaram o nome do SENHOR; ele batiza o altar, e inaugura um procedimento que reaparecerá com Moisés e com Gideão, sempre com um nome que resume o que acabou de acontecer. Vale registrar que uma leitura antiga, a da Septuaginta, entende o versículo do modo tradicional — invocação, e não batismo —, e que a divergência não se resolve.

A terceira é sobre o conteúdo do nome. Todos os outros nomes divinos compostos do Gênesis qualificam Deus por um atributo: altíssimo, eterno, todo-poderoso, aquele que vê. Este o qualifica por uma pessoa. É a primeira vez que aparece na Bíblia a fórmula "o Deus de Israel", que se tornará a designação padrão da divindade de um povo inteiro — e ela nasce como declaração de pertencimento de um homem só.

A quarta é sobre o silêncio que fecha o capítulo. Não há sacrifício descrito, não há voz, não há bênção, não há resposta. O altar é levantado, batizado, e o texto passa adiante — para o capítulo mais violento da vida de Jacó, que acontecerá a poucos passos dali. O Gênesis não liga as duas coisas, e não explica nenhuma delas.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 33:20

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%