Um altar de terra me farás, e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos e os teus sacrifícios de paz, as tuas ovelhas e os teus bois; em todo lugar onde eu fizer lembrar o meu nome, virei a ti e te abençoarei.
1. Introdução
Depois de dizer o que não se faz, o código diz o que se faz: um altar de terra. Sobre ele, cada israelita — o texto fala a “ti”, não a um sacerdote — oferecerá os seus holocaustos e os seus sacrifícios de paz. E a lei termina numa promessa: em todo lugar onde Deus fizer lembrar o seu nome, ele virá e abençoará. A frase “em todo lugar” virou o centro de uma das maiores discussões sobre a história do culto em Israel: se o altar podia estar em muitos lugares ou num só. Os rabinos tiraram dela tanto a regra do templo único quanto a presença de Deus junto de quem se reúne sem templo nenhum.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era um altar de terra
Altar, em hebraico, é “lugar de sacrifício”, e não precisa ser mais do que uma elevação onde se põe a vítima e se acende o fogo. Um altar de terra era isso: terra socada, ou tijolos de barro cru, ou um monte de torrões, levantado no lugar e deixado ali. Não há como encontrar muitos deles pela arqueologia, porque a terra volta a ser terra. O mundo antigo os conheceu bem. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) lembra os altares de leiva dos romanos: Virgílio, na Eneida (XII.118-119), descreve os que preparam “fogos e altares de relva” para o juramento solene antes de um combate, e Horácio, numa das Odes (III.8), fala da brasa posta “sobre a leiva viva”. Era o altar de quem não tinha templo, ou de um tempo em que ainda não havia templos.
O altar de Arade
O exemplo mais próximo da letra deste versículo está no Negueve. Entre 1962 e 1967, o arqueólogo israelense Yohanan Aharoni escavou a fortaleza de Arade, posto militar do reino de Judá, e encontrou dentro dela um pequeno santuário. No pátio havia um altar quadrado com cerca de dois metros e meio de lado — perto de cinco côvados, a medida que Êxodo 27:1 dá ao altar do tabernáculo. Era feito de terra e de pedras pequenas do campo, não lavradas, e tinha no topo uma laje de pedra cercada por canaletas de reboco. O santuário tinha ainda uma sala interna com uma pedra erguida e dois altares menores de incenso.
A data em que o santuário deixou de funcionar é discutida — no fim do século VIII ou no século VII a.C. —, e muitos estudiosos a ligam às reformas de Ezequias ou de Josias, que concentraram o culto em Jerusalém. Se for assim, Arade mostra as duas coisas ao mesmo tempo: um altar de terra e pedra bruta construído como este versículo manda, e o fim desses altares quando o culto passou a ter um lugar só.
O sacrifício nas mãos de qualquer israelita
O versículo fala a “ti”, e não menciona sacerdote. A Cambridge Bible, seguindo W. Robertson Smith (orientalista escocês do século XIX), lê aí uma situação real: nos primeiros séculos de Israel, o direito de sacrificar não era exclusivo de uma classe. Os livros históricos mostram leigos oferecendo sacrifício sem que o texto os censure: Gideão em Ofra (Juízes 6:26), Manoá, pai de Sansão (Juízes 13:19), Saul depois de uma batalha (1 Samuel 14:35), Davi na eira de Araúna (2 Samuel 24:25). A restrição aos sacerdotes descendentes de Arão é o que os textos sacerdotais posteriores estabelecem. A divisão entre holocausto, em que tudo se queima, e sacrifício de paz, em que o ofertante come com a família, está explicada no estudo de Êxodo 12:27.
Muitos altares, depois um só
O que os livros de Josué a Reis contam combina com a letra de “em todo lugar”: altares em Siquém, Betel, Gilgal, Mispá, Ramá, Ofra, no Carmelo, levantados por juízes, profetas e reis. Elias, no século IX a.C., ainda reconstrói “o altar do SENHOR que estava derrubado” no monte Carmelo (1 Reis 18:30). Só com as reformas de Ezequias (2 Reis 18:4) e sobretudo de Josias (2 Reis 23:8-9), nos séculos VIII e VII a.C., os altares fora de Jerusalém são destruídos, e o Deuteronômio dá a regra: sacrificar só “no lugar que o SENHOR escolher” (Deuteronômio 12:13-14). A tensão entre esse “só ali” e o “em todo lugar” deste versículo é um dado histórico, não uma invenção dos comentaristas.
3. Análise Teológica do Versículo
“Um altar de terra me farás”
É o primeiro “farás” do código, logo depois de dois “não façam”. A mudança de número também marca: o versículo anterior falava a “vocês”, este fala a “tu”. O plural proíbe a assembleia de fabricar deuses; o singular manda cada um levantar o próprio altar. E o “me” vem logo depois do material: para mim. A Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III) lê nesse “para mim” a exclusividade, e Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) acrescenta que o altar tem de ser feito para Deus desde o começo da construção, e não adaptado depois.
O que quer dizer “de terra”? A tradição deu quatro respostas.
Primeira resposta: de terra, literalmente. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) insiste no sentido simples e o aplica ao altar que Moisés levantará ao pé do monte para selar a aliança (Êxodo 24:4). Para ele, este versículo e o seguinte são a instrução para aquele altar.
Segunda resposta: preso à terra. Rabi Ishmael, na Mekhilta, entende “de terra” como “fixo no chão”: o altar não pode ser erguido sobre colunas ou abóbadas. A matéria importa menos do que o contato com o solo.
Terceira resposta: cheio de terra. Rabi Natan e Issi ben Akiva, na Mekhilta, aplicam o versículo ao altar de bronze do tabernáculo, que era oco (Êxodo 27:8) e, segundo eles, era enchido de terra em cada acampamento. Ibn Ezra responde que os sábios falaram a verdade sobre o que se fazia, mas que essa não é a letra do versículo: o altar de bronze nunca foi chamado “de terra”, e a terra ficava para trás a cada partida.
Quarta resposta: provisório de propósito. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) junta várias razões: um altar assim se faz depressa em qualquer acampamento, mostra que Deus quer a devoção mais do que a pompa, distingue Israel dos vizinhos que gastavam com os seus altares, e se desfaz sozinho quando o povo parte, sem deixar monumento que outros pudessem usar para culto alheio. Sforno (Ovadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) vai na mesma linha: Deus não exige templos elaborados nem materiais preciosos para se deixar encontrar.
Há ainda uma leitura que não explica o material, mas o carrega de sentido. No Gênesis Rabá (coletânea de comentários rabínicos ao Gênesis, de por volta do século V), 14:8, Rabi Shmuel bar Nachman observa que o homem foi feito da “terra” (Gênesis 2:7) — em hebraico adamah, a mesma palavra deste versículo. E conclui: Deus criou o homem do lugar da sua expiação, “para que talvez ele subsista”. O altar de terra e o ser humano saem do mesmo chão.
“e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos e os teus sacrifícios de paz, as tuas ovelhas e os teus bois”
A lista nomeia as duas formas de sacrifício mais antigas e mais comuns, e os dois animais que um lavrador e pastor tinha. Não nomeia o sacerdote. O “teus” se repete quatro vezes: os holocaustos são teus, os animais são teus. O sacrifício é oferta do próprio rebanho de quem sacrifica.
A Mekhilta discute uma preposição. “Sobre ele” quer dizer que o animal é abatido em cima do altar? A maioria responde que não: o abate se faz ao lado, e o que sobe ao altar são a carne e o sangue (Deuteronômio 12:27). Rabi Assi discorda e diz que também se pode abater em cima. A discussão é técnica, mas mostra o cuidado rabínico em ler cada palavra da lei do altar como regra de procedimento.
“em todo lugar onde eu fizer lembrar o meu nome”
Que lugares são esses? É a pergunta mais disputada do versículo, e há quatro respostas.
Primeira resposta: muitos lugares, marcados por Deus. Para a leitura histórica, o versículo autoriza altares em vários pontos da terra, desde que não sejam escolhidos ao acaso, mas marcados por alguma manifestação de Deus — uma aparição, uma vitória, uma palavra. S. R. Driver (hebraísta inglês do século XIX), na Cambridge Bible, lista os casos: o altar de Moisés depois da vitória sobre Amaleque (Êxodo 17:15), os de Gideão, de Samuel, de Saul, de Davi. Julius Wellhausen (biblista alemão do século XIX), em 1878, fez deste versículo uma das três peças da sua reconstrução da história de Israel: aqui, muitos altares; no Deuteronômio, um só lugar escolhido; nos textos sacerdotais, um único santuário apresentado como se sempre tivesse existido. A sequência lhe servia para datar as fontes do Pentateuco. A datação continua discutida; a diferença entre os textos, não.
Segunda resposta: um só lugar, o templo. A Mekhilta lê: “onde eu me revelo a vocês — no santuário”. E tira daí uma regra: o nome próprio de Deus, as quatro letras YHWH, só podia ser pronunciado no templo. O Talmude Babilônico, tratado Sotá, folha 38a, dá o raciocínio completo, atribuído a Rabi Yoshiya. Ele pergunta se é possível que Deus se revele “em todo lugar” e responde que não; o versículo deve ser lido com as partes trocadas: “em todo lugar onde eu vier a ti e te abençoar, ali farei lembrar o meu nome”. E onde Deus vem e abençoa? No templo. Logo, só ali o sacerdote abençoa o povo pronunciando o Nome; fora dele, usa um substituto. Rashi adota a leitura. O versículo que os historiadores leem como licença para muitos altares é, para o Talmude, a base da regra que confina o Nome a um só lugar.
Terceira resposta: onde houver gente reunida. Rabi Eliezer ben Yaakov, na mesma passagem da Mekhilta, lê a promessa ao contrário: “se vocês vierem à minha casa, eu irei à casa de vocês”. E constrói uma escada: a presença de Deus está com dez reunidos na sinagoga, com três que julgam, com dois que conversam sobre as coisas de Deus (Malaquias 3:16) — e com um só, por causa deste versículo: “em todo lugar onde eu fizer lembrar o meu nome, virei a ti”. A mesma escada aparece na Mishná (Avot 3:6), com outros versículos. Aqui, o “ti” singular do versículo é a prova de que basta uma pessoa.
Quarta resposta: um lugar já escolhido. O Pentateuco Samaritano (a Torá conservada pela comunidade samaritana, com variantes próprias), segundo os estudiosos de crítica textual, traz aqui o verbo no passado: “no lugar onde fiz lembrar o meu nome”. A forma combina com a leitura samaritana do Deuteronômio, que diz “o lugar que o SENHOR escolheu”, e não “escolher”: para os samaritanos, o lugar já estava escolhido, e era o monte Gerizim.
Quatro leituras e quatro comunidades: o historiador moderno, o rabino, o mestre da sinagoga, o samaritano. Cada uma leu o mesmo “em todo lugar” a partir do lugar em que estava. O texto, sozinho, não permite decidir entre a primeira e a segunda, e a terceira e a quarta mostram até onde a frase podia ser levada. A relação desta lei com o lugar marcado pela palavra, em Betel, aparece no estudo de Gênesis 35:13.
“virei a ti e te abençoarei”
Quem se desloca é Deus. O israelita levanta o altar no lugar marcado, e Deus vem. O verbo “vir” com Deus por sujeito é raro na lei e dá ao altar a função de ponto de encontro, não de residência. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) liga o “fazer lembrar” à bênção pelo Salmo 115:12: “o SENHOR se lembrou de nós; ele abençoará”. Na promessa, a lembrança do nome e a bênção vêm juntas: onde o nome é lembrado, a bênção chega.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O altar
Uma elevação de terra, ou de pedras brutas (Êxodo 20:25), sem degraus (Êxodo 20:26). É o primeiro objeto de culto que a lei de Israel manda fazer, antes da arca, da tenda e do candelabro. Na narrativa, o primeiro cumprimento desta ordem vem quatro capítulos adiante: Moisés levanta um altar ao pé do monte e doze colunas, uma por tribo, e ali se oferecem holocaustos e sacrifícios de paz para selar a aliança (Êxodo 24:4-5).
O israelita que sacrifica
O “tu” do versículo. Um dono de rebanho, que oferece do que é seu. A figura do sacerdote não aparece nesta lei; ela entrará na Torá com os capítulos 28 e 29 do Êxodo e com o Levítico.
Os animais
Ovelhas e bois, os dois grupos de animais domésticos de que viviam os pastores e lavradores de Israel. A Mekhilta entende a dupla como inclusiva, valendo para todo sacrifício de animal do rebanho e do gado.
Os lugares onde o nome é lembrado
O versículo não dá nomes. Na história contada depois, são lugares como Siquém (Josué 24:1, 26), Betel (Gênesis 35:7), Gilgal (1 Samuel 11:15), Mispá (1 Samuel 7:9), o Carmelo (1 Reis 18:30-32) e, por fim, Jerusalém. Para os samaritanos, o monte Gerizim.
O acontecimento
A instituição do altar como lugar de encontro: Deus promete vir até o lugar onde o seu nome é lembrado. É a primeira promessa de presença ligada a um rito dentro da lei do Sinai, anterior a toda a legislação do santuário.
5. Pontos de Ensino
1. O primeiro “farás” do código é um altar de terra. Depois de proibir o metal precioso, a lei manda usar o material mais barato e mais comum que existe. O contraste com os deuses de prata e de ouro do versículo anterior é deliberado.
2. O altar é dado a cada israelita, no singular. A lei não cria aqui uma casta de oficiantes; põe o sacrifício nas mãos de quem tem o rebanho.
3. O lugar do culto é definido pela lembrança do nome, não pela natureza do lugar. Um monte, uma fonte ou uma árvore não bastam; é preciso que Deus tenha feito lembrar ali o seu nome.
4. Quem vem é Deus. O versículo termina com dois verbos de Deus em primeira pessoa — virei, abençoarei —, e o altar é o ponto em que ele vem, não o lugar em que fica preso.
5. O mesmo versículo sustentou leituras opostas: licença para muitos altares e base do templo único; regra que restringe o Nome e promessa de presença para uma pessoa sozinha. Ler a história dessas leituras é ler a história de quem as fez.
6. Aspectos Filosóficos
Um lugar é sagrado pelo que ele é ou pelo que aconteceu nele? A pergunta separa duas maneiras de pensar o espaço, e o versículo toma partido.
Christian Norberg-Schulz (1926-2000), arquiteto e teórico norueguês, deu à primeira maneira a sua forma moderna mais influente. No livro Genius loci (1979), cujo título vem da expressão latina para “o espírito do lugar”, ele sustenta que cada lugar tem um caráter próprio, feito de terra, luz, céu, vegetação e relevo, e que a tarefa da arquitetura é tornar visível esse caráter. Construir bem é “reunir” o que o lugar já contém: o templo grego, para ele, não se impõe à paisagem, revela o que ela é. Os antigos, diz Norberg-Schulz, sabiam disso quando atribuíam a cada lugar um gênio protetor.
Ele distingue tipos de paisagem. Uma delas chama de “cósmica”: o deserto, onde a terra é uniforme e o céu domina, com o sol e as estrelas como única referência. Nessa paisagem, segundo ele, a experiência do lugar tende ao abstrato, à ordem absoluta, a um sagrado que não mora em nenhum ponto particular. É uma descrição que poderia ter sido escrita sobre o Sinai.
Lido com esse vocabulário, o altar de terra é um caso extremo de arquitetura: quase não acrescenta nada ao lugar. É o próprio chão, levantado um pouco. Não tem forma, não tem ornamento, não tem nem pedra lavrada (Êxodo 20:25). Se a arquitetura, para Norberg-Schulz, revela o espírito do lugar, o altar de terra revela o mínimo possível — o fato de que ali se está sobre a terra e debaixo do céu.
Mas o critério do versículo contradiz o centro da tese. O que torna um lugar apto para o altar não é o seu caráter natural; é que Deus “fez lembrar ali o seu nome”. O lugar não tem gênio próprio; recebe uma marca que vem de fora. É exatamente o contrário do culto que o Deuteronômio manda destruir “sobre os montes altos, sobre as colinas e debaixo de toda árvore frondosa” (Deuteronômio 12:2) — os lugares que o mundo antigo considerava sagrados pela sua própria força, que eram o genius loci em estado puro.
Norberg-Schulz talvez respondesse que um acontecimento também faz parte do caráter de um lugar, e que a memória se deposita no espaço. É uma objeção séria: Betel, Siquém e o Carmelo ficaram carregados pelo que aconteceu neles. Mas a ordem das coisas é diferente. Para ele, o lugar fala primeiro, e o homem responde construindo. No versículo, Deus fala primeiro, o lugar recebe a palavra, e o homem constrói o mínimo para marcar o encontro. A leitura é deste estudo; Norberg-Schulz escreveu sobre arquitetura e não comentou o Êxodo.
7. Aplicações Práticas
O versículo tem relação real com uma pergunta prática de qualquer comunidade religiosa: quanto o culto precisa de estrutura. A primeira resposta da lei de Israel é que precisa de muito pouco — terra, um animal do próprio rebanho, e um lugar onde o nome de Deus seja lembrado. Os templos, as construções caras e as instituições vieram depois, e o próprio Êxodo os regula; mas o ponto de partida está aqui, e ele lembra que a presença prometida não depende do material.
A leitura de Rabi Eliezer ben Yaakov tem uma consequência concreta que o judaísmo viveu durante dois mil anos sem templo: a presença de Deus foi ligada a pessoas reunidas, até a uma pessoa sozinha que lembra o nome, e não a um edifício. Quem já viu uma comunidade continuar existindo depois de perder o seu prédio sabe o que essa leitura protegeu.
E há a relação mais simples. Cada pessoa tem lugares que ficaram marcados porque algo aconteceu ali — uma promessa, uma perda, um encontro. O versículo descreve essa experiência com uma ordem precisa: primeiro o acontecimento, depois o marco. Não se escolhe um lugar bonito para que algo aconteça nele.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Este versículo contradiz o Deuteronômio?
À primeira vista, sim: aqui, “em todo lugar”; lá, só “no lugar que o SENHOR escolher” (Deuteronômio 12:13-14). As tentativas de conciliar seguem três caminhos. O primeiro é cronológico: o próprio Deuteronômio diz que a regra do lugar único valeria quando o povo tivesse “descanso” dos inimigos (Deuteronômio 12:9-10), e antes disso altares em vários lugares seriam legítimos. A Mishná organiza a história do culto em períodos, alternando épocas em que os altares particulares eram permitidos e épocas em que eram proibidos; a regra para o tempo anterior ao tabernáculo está no estudo de Êxodo 18:12. O segundo caminho é o do Talmude: “em todo lugar” já seria o templo. O terceiro é o da crítica histórica: os dois textos refletem épocas diferentes, e não precisam ser conciliados. Não há consenso.
O altar de terra era o mesmo altar de bronze do tabernáculo?
Para uma parte da Mekhilta, sim, porque o altar de bronze seria cheio de terra. Ibn Ezra e a maioria dos comentaristas modernos entendem que não: o altar de bronze tinha medidas, material e nome próprios (Êxodo 27:1-8), e este versículo trata de altares levantados no lugar.
Por que o texto diz “ovelhas e bois”, e não cabras?
No hebraico, a palavra traduzida por “ovelhas” designa o rebanho miúdo inteiro, ovelhas e cabras juntas. A dupla “rebanho e gado” é a maneira comum de dizer todos os animais domésticos que se podiam sacrificar.
O que significa “fazer lembrar o nome”?
As traduções variam: “onde eu fizer celebrar”, “onde eu registrar”, “onde eu fizer lembrar”. O ponto em comum é que a lembrança parte de Deus. Os comentaristas cristãos antigos, como Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), leram a frase como presença de Deus onde quer que ele seja invocado; Poole, como restrita aos lugares que Deus designar. O texto não fixa o modo dessa lembrança — uma aparição, uma vitória, uma ordem —, e por isso as leituras se multiplicaram.
9. Conexão com Outros Textos
O cumprimento no Sinai
Êxodo 24:4-5 — “Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR. Levantou-se de manhã cedo, edificou um altar ao pé do monte e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel; e enviou jovens dos filhos de Israel, que ofereceram holocaustos e sacrificaram novilhos ao SENHOR como sacrifícios de paz.”
Os dois sacrifícios deste versículo, oferecidos por jovens, não por sacerdotes.
Altares nos lugares marcados
Gênesis 12:7 — “O SENHOR apareceu a Abrão e disse: ‘À sua descendência darei esta terra.’ Ali Abrão edificou um altar ao SENHOR, que lhe havia aparecido.”
O primeiro altar de Abrão em Canaã fica no lugar de uma aparição: o critério deste versículo, antes da lei.
Êxodo 17:15 — “E Moisés edificou um altar e lhe deu o nome de ‘O SENHOR é a minha bandeira’.”
Um altar marcado por uma vitória.
1 Reis 18:30 — “Então Elias disse a todo o povo: ‘Aproximem-se de mim.’ E todo o povo se aproximou dele; e ele reparou o altar do SENHOR, que estava derrubado.”
Um altar fora de Jerusalém, no Carmelo, restaurado por um profeta séculos depois do templo.
O lugar único
Deuteronômio 12:13-14 — “Guarda-te, que não ofereças os teus holocaustos em todo lugar que vires; mas no lugar que o SENHOR escolher numa das tuas tribos, ali oferecerás os teus holocaustos.”
O “em todo lugar” deste versículo e o “em todo lugar que vires” do Deuteronômio usam a mesma expressão com sentidos opostos.
2 Reis 23:8 — “Trouxe todos os sacerdotes das cidades de Judá e profanou os altos onde os sacerdotes queimavam incenso, desde Geba até Berseba.”
A reforma de Josias, que pôs fim aos altares espalhados.
O nome posto e a bênção
Números 6:27 — “Assim porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei.”
O versículo da bênção sacerdotal que o Talmude, em Sotá 38a, liga a este para restringir o Nome ao templo.
Salmo 115:12 — “O SENHOR se lembrou de nós; ele abençoará.”
A lembrança e a bênção juntas, como Nachmânides as lê aqui.
Malaquias 3:16 — “Então os que temiam o SENHOR falaram uns com os outros; e o SENHOR prestou atenção e ouviu.”
O versículo que a Mekhilta usa para a presença de Deus com dois, um degrau antes deste versículo, que vale para um.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Um altar de terra me farás, e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos e os teus sacrifícios de paz, as tuas ovelhas e os teus bois; em todo lugar onde eu fizer lembrar o meu nome, virei a ti e te abençoarei.
Texto hebraico
מִזְבַּח אֲדָמָה תַּעֲשֶׂה־לִּי וְזָבַחְתָּ עָלָיו אֶת־עֹלֹתֶיךָ וְאֶת־שְׁלָמֶיךָ אֶת־צֹאנְךָ וְאֶת־בְּקָרֶךָ בְּכָל־הַמָּקוֹם אֲשֶׁר אַזְכִּיר אֶת־שְׁמִי אָבוֹא אֵלֶיךָ וּבֵרַכְתִּיךָ׃
Transliteração
mizbach adamah ta'aseh-li, ve-zavachta alav et-olotekha ve-et-shelamekha, et-tsonkha ve-et-beqarekha; be-khol-ha-maqom asher azkir et-shemi avo elekha u-verakhtikha.
Na Bíblia hebraica, este é o versículo 21 do capítulo.
Análise palavra por palavra
מִזְבַּח אֲדָמָה — mizbach adamah, “altar de terra”.
Mizbach é mizbeach, “altar”, na forma ligada ao termo seguinte. O substantivo vem do verbo zavach, “sacrificar”, com o prefixo de lugar mi-: “o lugar onde se sacrifica”. A formação da palavra está no estudo de Gênesis 26:25. Aqui, a raiz aparece duas vezes na mesma frase: o mizbach e, logo depois, ve-zavachta, “e sacrificarás”. O altar é nomeado pelo que se faz nele.
Adamah é a terra cultivável, o solo, o chão vermelho que se lavra — distinto de erets, a terra como território ou como o mundo. É a palavra de Gênesis 2:7 (o homem formado do pó da adamah) e de Gênesis 4:2 (Caim, “lavrador da adamah”). O altar é feito do material do campo.
תַּעֲשֶׂה־לִּי — ta'aseh-li, “farás para mim”.
O verbo asah, “fazer”, no imperfeito, segunda pessoa do singular. É o mesmo verbo dos dois “não façam” do versículo anterior, agora sem negação e no singular. O código passa do plural proibido ao singular ordenado com o mesmo verbo.
וְזָבַחְתָּ עָלָיו — ve-zavachta alav, “e sacrificarás sobre ele”.
Zavach, “abater em sacrifício”, no perfeito com o “e” que dá valor de futuro e de ordem. Alav, “sobre ele”: a preposição que a Mekhilta discute se quer dizer “em cima” ou “junto”. Ônquelos, a tradução aramaica oficial da Torá, resolve a questão traduzindo por “junto dele”.
אֶת־עֹלֹתֶיךָ וְאֶת־שְׁלָמֶיךָ — et-olotekha ve-et-shelamekha, “os teus holocaustos e os teus sacrifícios de paz”.
Olah, “holocausto”, vem do verbo alah, “subir”: a oferta que sobe, inteira, ao altar e em fumaça. Shelamim é da raiz sh-l-m, a de shalom, “paz”, “inteireza”. Ônquelos a traduz por “as tuas ofertas santas”.
אֶת־צֹאנְךָ וְאֶת־בְּקָרֶךָ — et-tsonkha ve-et-beqarekha, “as tuas ovelhas e os teus bois”.
Tson é o rebanho miúdo, ovelhas e cabras juntas; baqar, o gado grande. Rashi lê a dupla como explicação da anterior: os holocaustos e os sacrifícios de paz que vêm do teu rebanho e do teu gado.
בְּכָל־הַמָּקוֹם — be-khol-ha-maqom, “em todo lugar”.
Kol, “todo”, e ha-maqom, “o lugar”, com artigo. Em Deuteronômio 12:13, a proibição usa a mesma expressão sem o artigo — be-khol maqom, “em qualquer lugar que vires”. A expressão é praticamente a mesma; o sentido das duas leis é oposto.
אֲשֶׁר אַזְכִּיר אֶת־שְׁמִי — asher azkir et-shemi, “onde eu fizer lembrar o meu nome”.
Azkir é o verbo zakhar, “lembrar”, no Hifil (a forma do hebraico que dá ao verbo sentido de causar): “fazer lembrar”, “fazer mencionar”. O sujeito é Deus, em primeira pessoa. O mesmo Hifil volta no fim do código, com sinal invertido: “o nome de outros deuses não farão lembrar” (Êxodo 23:13). O código abre e fecha com a mesma forma verbal, uma vez para o nome que deve ser lembrado e outra para os nomes que não devem.
Três versões antigas mexem nesta frase. O Pentateuco Samaritano, segundo os estudiosos de crítica textual, põe o verbo no passado, “fiz lembrar”. A Septuaginta traduz “onde eu der nome ao meu nome”, com o verbo grego de nomear. E Ônquelos troca a imagem inteira: “em todo lugar onde eu fizer repousar a minha presença, ali enviarei a minha bênção a ti”. O tradutor aramaico evita dizer que Deus “vem”, como evita em outros lugares dizer que ele “desce”, e põe a bênção como coisa enviada.
אָבוֹא אֵלֶיךָ וּבֵרַכְתִּיךָ — avo elekha u-verakhtikha, “virei a ti e te abençoarei”.
Avo, “virei”, do verbo bo, “vir, entrar”, no imperfeito, primeira pessoa. Elekha, “a ti”, singular. U-verakhtikha, “e te abençoarei”, do verbo berakh no Piel, com o sufixo de segunda pessoa do singular. O versículo termina com dois verbos de Deus e dois “ti”: a promessa é feita a cada um, e é desse singular que Rabi Eliezer ben Yaakov tira a presença de Deus junto de uma pessoa só.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a lei de Israel começa o culto pelo mínimo. Depois de proibir os deuses de metal precioso, ela manda levantar um altar do material mais pobre, sem dar a nenhum sacerdote a exclusividade do sacrifício. Templo, sacerdócio e santuário vêm depois e não apagam esse começo: o Talmude e Ônquelos ainda precisam explicar o “em todo lugar”.
A segunda é que o lugar do culto, nesta lei, não é sagrado por natureza. Ele se torna apto porque Deus fez lembrar ali o seu nome. A iniciativa é de Deus, o marco é humano e mínimo, e o encontro se dá porque Deus vem — não porque o lugar o prenda.
A terceira é que o versículo foi forte o bastante para servir a projetos opostos. O historiador encontrou nele os muitos altares de antes de Josias; o Talmude, o templo único e o Nome restrito; a Mekhilta, a presença de Deus junto de quem lembra o nome sozinho; os samaritanos, um lugar já escolhido. Quem quer saber o que “em todo lugar” significava originalmente precisa reconhecer que o texto, sozinho, não decide.













