Nem subirás por degraus ao meu altar, para que a tua nudez não seja descoberta sobre ele.’”
1. Introdução
A primeira seção do Código da Aliança termina no corpo de quem se aproxima do altar: nada de degraus, para que a nudez não seja descoberta. A regra supõe um homem comum, de túnica, sem roupa de baixo, subindo ao altar para sacrificar. Mais tarde a Torá dará aos sacerdotes calções de linho (Êxodo 28:42), e a pergunta é se uma regra tornou a outra desnecessária. O templo resolveu com uma rampa; o altar que Ezequiel vê em visão tem degraus. E a Mekhilta tirou daqui uma lição que não fala de pedra: se as pedras do altar merecem esse respeito, quanto mais o próximo, feito à imagem de Deus.
2. Contexto Histórico e Cultural
A roupa de um israelita
O homem comum de Israel vestia uma túnica, de lã ou de linho, que ia até os joelhos ou até os tornozelos, presa por um cinto, e por cima um manto, que de noite servia de coberta. Não havia roupa de baixo no uso comum. Quem subia degraus altos, ou se abaixava sobre um altar elevado, ficava exposto a quem estava embaixo. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XIX) diz isso com todas as letras: as roupas daquelas terras eram soltas e se abriam com facilidade.
Os calções só aparecem na Torá como peça do sacerdote. Êxodo 28:42-43 manda fazer para Arão e os seus filhos “calções de linho para cobrir a carne da nudez”, da cintura às coxas, e acrescenta uma sanção: eles os usarão ao entrar na tenda e ao se aproximar do altar, “para que não levem culpa e morram”. Levítico 6:10 repete a peça no rito de recolher as cinzas do altar, e Ezequiel 44:18 a exige dos sacerdotes do templo futuro. É roupa de ofício, não de rua.
A nudez no culto dos vizinhos
A regra tem um pano de fundo. Em placas votivas de pedra calcária da Suméria, de meados do terceiro milênio a.C., aparecem sacerdotes completamente nus derramando libações diante de um deus sentado ou de um templo. A nudez, ali, fazia parte da pureza do oficiante. Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e rabino, 1138-1204), no Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 45), dá a esta lei uma razão polêmica: o culto de Baal-Peor, a divindade moabita de Números 25, se fazia descobrindo o corpo diante dela. A Mishná (tratado Sanhedrin 7:6) cita “quem se descobre diante de Baal-Peor” como a forma própria de culto daquele deus. Se a informação descreve um costume real ou uma caricatura rabínica, é discutido; mas mostra que a tradição leu a lei do altar como fronteira contra um tipo de culto.
A rampa do templo
Um altar baixo não precisa de subida. O do tabernáculo tinha três côvados de altura, perto de um metro e meio (Êxodo 27:1). O altar de bronze de Salomão, segundo 2 Crônicas 4:1, tinha dez côvados, uns cinco metros. A Mishná, no tratado Middot, capítulo 3, seção 3, descreve como se subia ao altar do segundo templo: por uma rampa no lado sul, de trinta e dois côvados de comprimento por dezesseis de largura, com uma pequena abertura lateral onde se deixavam as aves oferecidas que tinham sido invalidadas. Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII) explica a rampa por este versículo: era tão longa para vencer a altura com inclinação suave. E acrescenta que espalhavam sal sobre ela para os sacerdotes, descalços, não escorregarem.
Uma rampa no monte Ebal
Entre 1982 e 1989, o arqueólogo israelense Adam Zertal escavou no alto do monte Ebal, perto de Siquém, uma estrutura retangular de pedras brutas de cerca de nove por sete metros, cheia por dentro de camadas de terra, pedras, cinza e ossos de animais queimados — ovelhas, cabras e bois jovens, e gamos —, datada do século XII a.C. A subida até o topo não era por degraus, mas por uma rampa. Zertal a identificou com o altar que Josué construiu no Ebal (Josué 8:30-31). Outros arqueólogos a leram como torre de vigia ou casa de fazenda, e a identificação continua em disputa. Se for um altar, é um altar de pedras não lavradas com rampa: as duas leis deste trecho do Êxodo num só objeto.
3. Análise Teológica do Versículo
“Nem subirás por degraus ao meu altar”
Pela primeira vez o texto diz “o meu altar”. Até aqui eram “um altar de terra”, “um altar de pedras”; agora o altar tem dono. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) tira daí o alcance da lei: ela vale para todos os altares feitos para o SENHOR, de terra, de pedra ou de bronze.
A Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), tratado Bachodesh, seção 11, tira daqui a regra prática: “façam uma rampa para o altar”. E pergunta: o versículo fala de subir; e descer? A resposta vem do fim do versículo: o critério não é subir nem descer, é cobrir. Qualquer movimento que descubra está proibido. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) descreve a rampa com uma palavra do francês antigo que ele usava para explicar o hebraico aos leitores do seu tempo: não pode ter échelons, “escalões”; tem de ser lisa e inclinada.
Ibn Ezra registra uma leitura que rejeita com humor. Um certo Ben Zuta lia a palavra “degraus” como se viesse da raiz de “infidelidade” — “não subirás com infidelidade ao meu altar”. Ibn Ezra mostra que as letras não permitem isso e fecha: Ben Zuta quis subir pela escada da sabedoria com as suas tolices, “e a nudez dele ficou descoberta sobre ela”.
Quem é o “tu” que sobe? A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) responde: o israelita comum, que sacrifica com a roupa de todo dia, o mesmo “tu” dos dois versículos anteriores. Os Targuns atribuídos a Jônatas e o de Jerusalém (paráfrases aramaicas da Torá) respondem diferente: “vocês, sacerdotes, filhos de Arão”. A diferença decide como se lê o resto.
“para que a tua nudez não seja descoberta sobre ele”
O que exatamente se quer evitar? A tradição deu quatro respostas.
Primeira resposta: o que se vê de baixo. É a leitura literal. Com túnica solta e sem roupa de baixo, quem sobe degraus altos expõe o corpo a quem está ao pé do altar. A lei protege o pudor do ofertante e a dignidade do culto. É a leitura de Benson, de Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX) e da Bíblia de Genebra (a tradução inglesa comentada dos protestantes exilados em Genebra, de 1560), que fala da roupa que se levanta quando a pessoa se abaixa.
Segunda resposta: o passo largo. Rabi Ishmael, na Mekhilta, nota que esta leitura literal tem um problema: a Torá vai mandar fazer calções de linho para os sacerdotes (Êxodo 28:42), e com eles nada fica descoberto. Para que, então, a regra? Ele responde: para que os sacerdotes não deem passos largos, mas andem com o calcanhar junto ao dedo do outro pé. Rashi desenvolve: o degrau obriga a abrir as pernas, e isso, mesmo de calções, está perto o bastante de descobrir a nudez para receber o nome dela. O que se proíbe é o gesto desrespeitoso, não só a exposição.
Terceira resposta: uma regra de um tempo, substituída por outra. A Cambridge Bible e o Ellicott (comentário inglês do século XIX) leem as duas leis como etapas. Enquanto qualquer israelita sacrificava, com a roupa comum, a solução era não haver degraus. Quando o sacrifício passou a ser reservado aos sacerdotes, e estes ganharam calções, os altares altos e as subidas puderam voltar — o de Salomão, de dez côvados, e o de Ezequiel, que tem degraus explícitos (Ezequiel 43:17). O Pulpit Commentary vai mais longe e duvida até da rampa, que considera ficção tardia. Nessa leitura, o versículo é anterior aos calções de Êxodo 28, e a pergunta sobre o anacronismo se desfaz: não há anacronismo, há sucessão.
Quarta resposta: uma fronteira contra outros cultos. Maimônides lê a lei como recusa do culto em que o corpo era descoberto diante do deus. Poole (Matthew Poole, comentarista puritano inglês do século XVII) diz o mesmo de modo genérico: Deus quis mostrar a sua aversão à impudência comum nas festas dos pagãos.
As quatro respostas não se excluem por completo. A primeira é a mais simples e explica por que a lei está aqui, junto às regras para o altar do israelita comum; a segunda e a terceira são tentativas de conciliar este versículo com Êxodo 28, uma dentro da Torá, outra na história; a quarta é uma razão de fundo que o texto não enuncia.
A pedra e o próximo
A Mekhilta fecha a seção com um argumento do menor para o maior que Rashi repete quase palavra por palavra. As pedras do altar não têm consciência do bem e do mal, não sentem a ofensa. Mesmo assim, porque servem a um propósito, a Torá proibiu tratá-las com desrespeito. Então o seu próximo, que foi criado à imagem daquele que falou e o mundo passou a existir, e que sente a ofensa — quanto mais não se deve tratá-lo com desrespeito.
O argumento muda o centro do versículo. A lei, que parecia falar do pudor de quem sobe, passa a falar da dignidade de quem está diante de nós. E a posição do versículo dá força à leitura: ele é o último da lei do altar, e a primeira lei que vem depois, em Êxodo 21:2, trata do escravo hebreu. A passagem do altar para a pessoa, que a Mekhilta faz por argumento, o próprio código faz pela ordem. A ligação pela ordem é observação deste estudo; a Mekhilta não a menciona.
Há ainda um eco que o leitor do Gênesis ouve. A nudez descoberta é o que aparece logo depois da desobediência no Éden (Gênesis 3:7), e o primeiro gesto de Deus depois do julgamento é vestir o homem e a mulher (Gênesis 3:21). O altar é o lugar em que o homem volta a se aproximar de Deus, e a lei exige que ele chegue coberto. O Êxodo não faz a ligação, e a palavra hebraica do Éden é outra. A aproximação é de tema, não de vocabulário, e não vai além disso.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O altar
Agora chamado “o meu altar”. O mesmo dos dois versículos anteriores, de terra ou de pedras brutas, e, pela leitura de Ibn Ezra, todo altar feito para o SENHOR.
Os degraus
A escada de subida, proibida. Na prática do templo, substituída por uma rampa lisa de trinta e dois côvados no lado sul do altar.
Quem sobe
O “tu” do versículo: para a leitura histórica, o israelita comum, de túnica, que oferece o próprio sacrifício; para os Targuns e a tradição rabínica, os sacerdotes.
Os sacerdotes e os calções
Arão e os seus filhos, a quem Êxodo 28:42-43 manda dar calções de linho para cobrir o corpo ao servir no altar. Não existem ainda como classe neste ponto do Êxodo; serão instituídos nos capítulos 28 e 29.
O altar de Ezequiel
O altar do templo que o profeta Ezequiel vê em visão, no exílio da Babilônia, no século VI a.C. Tem medidas detalhadas, vários patamares e “degraus voltados para o oriente” (Ezequiel 43:13-17). É o caso mais claro, dentro da Bíblia, de um altar com degraus.
O próximo
Não está no versículo; entra pela leitura da Mekhilta, como o ser humano “criado à imagem daquele que falou e o mundo passou a existir”, a quem se deve mais respeito do que às pedras do altar.
5. Pontos de Ensino
1. A lei do altar termina no corpo. Depois de tratar do material, a primeira seção do código trata de como a pessoa se move diante do lugar de culto.
2. A regra protege a dignidade, não só o pudor. Na leitura da Mekhilta e de Rashi, o problema não é apenas o que se vê, mas o gesto: o passo largo é inadequado ao lugar.
3. A Bíblia guarda soluções diferentes para o mesmo problema. Este versículo proíbe degraus; Êxodo 28 dá calções aos sacerdotes; Ezequiel desenha um altar com degraus. A leitura honesta mostra a sucessão em vez de esconder a diferença.
4. O respeito devido às coisas sagradas serve de medida para o respeito devido às pessoas. O argumento da Mekhilta, das pedras para o próximo, é a conclusão rabínica da lei do altar.
5. O culto de Israel se define também contra o culto dos vizinhos. Onde outros oficiavam nus, a lei de Israel exige que quem se aproxima do altar esteja coberto.
6. Aspectos Filosóficos
O que é a nudez: um estado do corpo ou uma relação entre o corpo e a roupa? A pergunta parece ociosa até que se repara num detalhe do versículo. Ninguém, nele, tira a roupa. A nudez aparece pelo movimento: a pessoa está vestida e, ao subir, fica descoberta. O problema não é estar nu; é passar de um estado ao outro sem querer.
Mario Perniola (1941-2018), filósofo italiano da estética, professor na Universidade de Roma Tor Vergata, escreveu em 1989 um ensaio intitulado “Entre o vestido e a nudez”, que se tornou referência sobre o tema. A tese é que o Ocidente herdou duas maneiras opostas de pensar o corpo descoberto. Na Grécia clássica, a nudez tem valor positivo: o atleta nu, a estátua nua, o corpo como forma perfeita que não precisa de nada por cima. A roupa, nessa tradição, é acréscimo e às vezes disfarce.
Na tradição hebraica, e depois na cristã, segundo Perniola, a nudez não tem valor próprio. O ser humano é pensado vestido. A dignidade, a glória e a honra são descritas como vestes, e a nudez aparece quase sempre como perda — o que resta quando a veste foi tirada. Por isso, nessa tradição, o que interessa não é nem o corpo nu nem o corpo vestido, mas o que Perniola chama de trânsito: o movimento entre os dois, o momento em que algo se descobre ou se cobre. É nesse trânsito que mora o sentido, e também o perigo.
O versículo parece escrito para ilustrar a tese. Não há nele condenação do corpo, nem discurso sobre o desejo. Há uma escada, um homem vestido e um movimento que o descobre. A lei não manda tirar a roupa nem cobrir mais o corpo; manda mudar a arquitetura, para que o movimento de subir não produza o trânsito involuntário. A solução da Mekhilta, andar com o calcanhar junto ao dedo, vai na mesma direção: não é a roupa que se ajusta, é o passo.
E o contraste com a Grécia, que Perniola faz em geral, tem aqui um caso concreto. Os grandes altares gregos tinham escadarias monumentais, e as festas religiosas gregas incluíam competições de atletas nus em honra dos deuses. O altar de Israel, sem degraus e sem nudez, é o oposto arquitetônico e ritual desse modelo.
Perniola, em livros posteriores como O sex appeal do inorgânico (1994), levou a reflexão para outro lado, falando de uma sensibilidade que trata o próprio corpo como uma coisa, como um tecido. Esse desenvolvimento não ajuda a ler o versículo. O ensaio de 1989, sim. E é preciso marcar o limite: Perniola descreve tendências culturais de longa duração, não comenta o Êxodo, e a sua oposição entre Grécia e Israel é um esquema que simplifica as duas — os profetas também usam a nudez como imagem forte, e os gregos também cobriam os corpos nos seus templos. A aproximação é útil por apontar onde está o centro da lei: não no corpo, mas no movimento.
7. Aplicações Práticas
A relação real deste versículo com a vida comum está em duas coisas que ele junta: o lugar e o corpo. O versículo supõe que o modo de se mover e de se apresentar num lugar de culto faz parte do culto. Isso não é exigência de luxo — o mesmo código manda fazer o altar de terra —, é exigência de cuidado. Quem prepara um espaço para que outros se aproximem dele sem constrangimento, quem pensa na rampa em vez do degrau, está fazendo o que este versículo descreve.
A leitura da Mekhilta dá à lei um alcance que qualquer pessoa reconhece: o respeito que se tem por objetos considerados sagrados é uma medida do respeito que se deve às pessoas. Quem trata com cuidado as pedras e trata com descaso o próximo inverteu a ordem que a Mekhilta tira daqui. O argumento é rabínico, não está na letra do versículo, mas foi a conclusão que os mestres julgaram necessária para fechar a lei do altar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O altar de Ezequiel, com degraus, desobedece a esta lei?
À letra, sim: Ezequiel 43:17 descreve degraus voltados para o oriente. As explicações seguem dois caminhos. Um é dizer que a regra deste versículo valia para um tempo em que leigos sacrificavam sem roupa apropriada, e que no templo de Ezequiel os sacerdotes usam calções de linho (Ezequiel 44:18), o que resolve o problema que a lei queria evitar. O outro é dizer que a visão de Ezequiel não é planta de construção, e que a tradição rabínica, quando construiu o segundo templo, seguiu esta lei e fez uma rampa. Não há consenso, e as duas respostas admitem que a diferença existe.
Por que a lei dos calções, em Êxodo 28, ameaça de morte, e esta não?
Esta lei não traz sanção nenhuma; a de Êxodo 28:43 diz que os sacerdotes que servirem sem calções “levarão culpa e morrerão”. A diferença combina com a leitura da Cambridge Bible: aqui a regra é para o israelita comum, e é de decoro; lá, para o sacerdote no exercício do ofício, e é de santidade. O texto não explica a diferença.
A estrutura do monte Ebal é o altar de Josué?
Não é possível decidir. A data, as pedras brutas, os ossos de animais e a rampa combinam com um altar; a falta de outros elementos de culto e a semelhança com construções agrícolas e militares fazem outros arqueólogos duvidarem. O debate continua aberto desde os anos 1980.
Mulheres subiam ao altar?
O texto fala a um “tu” masculino, e todos os casos de sacrifício leigo narrados nos livros históricos são de homens. A Mishná não prevê mulheres no serviço do altar. O versículo não trata da questão, e não se pode afirmar nada a partir dele.
9. Conexão com Outros Textos
Os calções dos sacerdotes
Êxodo 28:42-43 — “Faça-lhes também calções de linho para cobrir a carne da nudez; irão da cintura até as coxas. Arão e seus filhos os usarão quando entrarem na tenda do encontro ou quando se aproximarem do altar para servir no santuário, para que não levem culpa e morram.”
A solução sacerdotal para o problema que este versículo resolve com a arquitetura.
Levítico 6:10 — “O sacerdote vestirá a sua túnica de linho e porá os calções de linho sobre o corpo; e tirará a cinza do holocausto que o fogo consumiu sobre o altar.”
Os altares altos
2 Crônicas 4:1 — “Fez também um altar de bronze de vinte côvados de comprimento, vinte de largura e dez de altura.”
Um altar de cinco metros não se alcança sem subida.
Ezequiel 43:17 — “O patamar terá catorze côvados de comprimento e catorze de largura, nos seus quatro lados… e os seus degraus estarão voltados para o oriente.”
Ezequiel 44:18 — “Terão turbantes de linho na cabeça e calções de linho sobre os quadris; não se cingirão com nada que os faça suar.”
Degraus e calções no mesmo templo visionário.
A nudez descoberta e coberta
Gênesis 9:23 — “Então Sem e Jafé pegaram uma capa, puseram-na sobre os ombros de ambos e, andando de costas, cobriram a nudez do seu pai; como estavam voltados para trás, não viram a nudez do seu pai.”
A mesma palavra hebraica, e o mesmo cuidado de não expor.
Gênesis 3:21 — “E o SENHOR Deus fez para o homem e para a sua mulher túnicas de pele, e os vestiu.”
O primeiro gesto de cobrir, feito por Deus.
A exposição diante do santuário
2 Samuel 6:20 — “Mical, filha de Saul, saiu ao encontro de Davi e disse: ‘Como se honrou hoje o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas dos seus servos, como sem pudor se descobre um homem qualquer!’”
Davi dança diante da arca vestido só com uma túnica de linho, e Mical usa o mesmo verbo de “descobrir” deste versículo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Nem subirás por degraus ao meu altar, para que a tua nudez não seja descoberta sobre ele.’”
Texto hebraico
וְלֹא־תַעֲלֶה בְמַעֲלֹת עַל־מִזְבְּחִי אֲשֶׁר לֹא־תִגָּלֶה עֶרְוָתְךָ עָלָיו׃
Transliteração
ve-lo-ta'aleh ve-ma'alot al-mizbechi, asher lo-tiggaleh ervatkha alav.
Na Bíblia hebraica, este é o versículo 23, o último do capítulo.
Análise palavra por palavra
וְלֹא־תַעֲלֶה — ve-lo-ta'aleh, “e não subirás”.
O verbo alah, “subir”, no imperfeito, segunda pessoa do singular, com a negação da proibição permanente. É o verbo da subida ao monte (Êxodo 19:3, “Moisés subiu a Deus”) e o verbo de que vem olah, o “holocausto” de Êxodo 20:24, a oferta que sobe.
בְמַעֲלֹת — ve-ma'alot, “por degraus”.
Ma'alot, plural de ma'alah, “degrau”, da mesma raiz alah. A frase hebraica repete a raiz: “não subirás por subidas”. O versículo proíbe uma forma de subir usando duas palavras da subida. Ma'alah é também a palavra dos “cânticos dos degraus”, os títulos dos Salmos 120 a 134, cantados, segundo a tradição, por peregrinos que subiam a Jerusalém; e é a palavra dos “degraus” do relógio de sol de Acaz (2 Reis 20:9-11). Ibn Ezra a defende contra quem a lia como “infidelidade”, mostrando que as letras não permitem.
עַל־מִזְבְּחִי — al-mizbechi, “ao meu altar”.
Mizbeach com o sufixo de primeira pessoa: a primeira vez no código em que o altar é chamado “meu”. Ônquelos, a tradução aramaica oficial da Torá, mantém “o meu altar”; o Targum atribuído a Jônatas acrescenta que a subida deve ser feita “por pontes”, isto é, por rampas.
אֲשֶׁר לֹא־תִגָּלֶה — asher lo-tiggaleh, “para que não seja descoberta”.
Asher, que costuma ser “que” ou “o qual”, aqui introduz a finalidade: “de modo que não”. Tiggaleh é o verbo galah no Nifal (a forma passiva do verbo hebraico), imperfeito: “seja descoberta”. A raiz galah tem dois campos de sentido que o hebraico mantém juntos: “descobrir”, “revelar”, e “ir para o exílio” — a terra que fica descoberta dos seus habitantes. Aqui o sentido é o primeiro. É o verbo de Levítico 18, em que “descobrir a nudez” é o eufemismo para a relação sexual proibida; neste versículo, ele está no sentido literal, sem nenhuma conotação sexual.
עֶרְוָתְךָ — ervatkha, “a tua nudez”.
Ervah, “nudez”, com o sufixo “tua”. É a palavra do corpo descoberto, a mesma da nudez de Noé, coberta pelos filhos (Gênesis 9:22-23). O seu alcance no resto da Bíblia, até a “nudez da terra” que os espiões viriam ver, está no estudo de Gênesis 42:9.
עָלָיו — alav, “sobre ele”.
Sufixo masculino: “sobre ele”, o altar. No versículo anterior, o pronome era feminino e voltava para a pedra; aqui volta para o altar inteiro. A pedra pode ser profanada pelo ferro; o altar é o lugar diante do qual o corpo não deve ser exposto. O capítulo termina nesta palavra, e com ela termina a primeira seção do código.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a lei do altar inclui a pessoa que se aproxima dele. O código não se contenta em regular o material; regula a arquitetura da subida para que o corpo de quem sacrifica não seja exposto. O cuidado com o lugar se estende ao cuidado com quem o usa.
A segunda é que a Bíblia registra soluções sucessivas para o mesmo problema e não as harmoniza por conta própria. Sem degraus aqui; calções para os sacerdotes em Êxodo 28; degraus de novo no altar de Ezequiel. A Mekhilta concilia dentro da Torá; a leitura histórica vê etapas. As duas reconhecem a diferença.
A terceira é que a tradição rabínica encerrou a primeira lei do código com uma conclusão sobre pessoas, não sobre pedras. Se o altar inanimado merece não ser tratado com desrespeito, o próximo, criado à imagem de Deus, merece mais — e a lei seguinte do Êxodo, a do escravo hebreu, começa justamente pelo próximo mais vulnerável.













