Se me fizeres um altar de pedras, não o construirás de pedra lavrada; porque, se levantares sobre ela a tua espada, tu a profanarás.
1. Introdução
A lei do altar ganha uma segunda forma: se for de pedras, as pedras não podem ser lavradas, porque o instrumento que as corta profana o altar. O texto chama esse instrumento de “a tua espada”, e é nessa palavra que a tradição apoiou a leitura mais conhecida do versículo — o ferro encurta a vida, o altar a prolonga, e um não deve se levantar sobre o outro. Outros leram aqui uma cerca contra imagens esculpidas, ou o respeito pela pedra como saiu da mão de Deus. A arqueologia achou um altar de pedra lavrada em Berseba, desmontado e enterrado numa parede. E o “se” do começo, que parece deixar a escolha livre, a Mekhilta lê como obrigação.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como o templo cumpria a lei
A Mishná (a compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Middot (“Medidas”), capítulo 3, seção 4, descreve como se obtinham as pedras do altar do templo de Jerusalém. Vinham do vale de Bet Kerem. Cavava-se até a terra virgem, onde ninguém tinha trabalhado, e de lá se tiravam pedras inteiras, “sobre as quais não se tinha levantado ferro”. O ferro desqualificava a pedra só por tocá-la; qualquer outro dano também a desqualificava, mas só a pedra danificada, não o altar todo. O altar era caiado duas vezes por ano, na Páscoa e na festa das Cabanas, e o reboco não era aplicado com colher de ferro, “para que não tocasse e desqualificasse”. Rabi Judá, o compilador da Mishná, acrescenta que o caiavam toda sexta-feira, com um pano, por causa das manchas de sangue.
O mesmo cuidado aparece numa cena do século II a.C. Quando Judas Macabeu retomou o templo profanado pelos selêucidas, em 164 a.C., os sacerdotes desmontaram o altar contaminado e, segundo o Primeiro Livro dos Macabeus, “tomaram pedras inteiras, conforme a lei, e construíram um altar novo, igual ao anterior” (1 Macabeus 4:47). O que fizeram com as pedras velhas está no estudo de Mateus 21:11. O que importa aqui é a expressão “conforme a lei”: a regra deste versículo, junto com a de Deuteronômio 27:5-6, era a norma viva da reconstrução.
O altar lavrado de Berseba
A arqueologia mostra que a lei nem sempre foi cumprida. Em 1973, a expedição de Yohanan Aharoni (arqueólogo israelense) em Tel Berseba, no sul de Judá, encontrou vários blocos grandes de arenito reaproveitados na parede de um armazém do século VIII a.C. Eram blocos cortados e alisados — pedra lavrada, exatamente o que este versículo proíbe. Três deles tinham na quina uma saliência em forma de chifre. Montados de novo, formaram um altar de chifres de cerca de um metro e sessenta de altura, quase três côvados. Num dos blocos havia uma serpente gravada.
Aharoni e Ze'ev Herzog (que continuou as escavações) leram o achado como sinal da reforma de Ezequias, que, segundo 2 Reis 18:4 e 18:22, removeu os altares fora de Jerusalém: o altar teria sido desmontado e as pedras usadas como material de obra. A datação e a interpretação são discutidas. Mas o objeto existe, e é um altar de Judá que violava a lei do Êxodo em dois pontos — a pedra lavrada e, por ser alto, provavelmente a subida por degraus do versículo seguinte.
Pedra lavrada era pedra de rei
Há um dado de fundo que explica o peso social da pedra lavrada. Na Idade do Ferro, a cantaria — blocos cortados em formato regular e assentados sem argamassa — era técnica de construção de Estado. Aparece nos palácios e nas portas de Samaria e de Megido, nas obras atribuídas aos reis do norte do século IX a.C., e exigia pedreira, cortadores especializados e trabalho forçado. O relato de Salomão fala de oitenta mil cortadores de pedra nas montanhas e de pedras “grandes e preciosas” lavradas para os alicerces do templo (1 Reis 5:15-17). Uma família não fazia cantaria; um rei fazia. O altar de pedras brutas, ao contrário, podia ser levantado por qualquer um com as próprias mãos.
3. Análise Teológica do Versículo
“Se me fizeres um altar de pedras”
O “se” parece deixar a escolha ao construtor: altar de terra, ou, se ele preferir, de pedras. Rabi Ishmael, na Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), tratado Bachodesh, seção 11, ensina que todo “se” da Torá indica algo opcional, com três exceções, e esta é uma delas. O altar de pedras é obrigatório, porque Deuteronômio 27:6 manda: “de pedras inteiras edificarás o altar do SENHOR”. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) conclui que aqui “se” vale por “quando”: quando fizeres o altar de pedras, não o faças de pedra lavrada.
A mesma Mekhilta, logo adiante, guarda uma liberdade: o “se” ensina que quem quiser fazer o altar de pedras pode, e quem quiser fazer de tijolos também pode. E argumenta do maior para o menor: se no altar, o objeto mais importante, se admite variar o material, quanto mais nos outros objetos do culto.
Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) lê o “se” no tempo: se chegar o tempo em que vocês forem dignos de herdar a terra e me fizerem um altar de pedras, tenham cuidado para não usar pedra lavrada, pensando em tornar a obra mais bonita. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) dá a mesma ordem com nomes: agora, no deserto, altar de terra; ao entrar na terra, o altar de pedras do monte Ebal, sobre o qual a lei inteira seria escrita (Deuteronômio 27:1-8; Josué 8:30-32).
“não o construirás de pedras lavradas”
Por que a pedra não pode ser cortada? O versículo dará a sua razão na frase seguinte, mas os comentaristas propuseram outras, e elas se agrupam em três.
Primeira: para não haver imagem. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) explica que os artesãos que trabalham pedra com ferramenta de metal costumam gravar nela figuras — deles mesmos ou dos seus deuses. Sem ferramenta, não há gravação. Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e rabino de Córdova e do Cairo, 1138-1204), no Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 45), dá uma razão parecida: os idólatras do seu tempo construíam altares de pedra lavrada, e a lei quis afastar Israel do costume deles. O Pulpit Commentary e Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX) vão na mesma direção. Ibn Ezra faz a objeção decisiva contra essa leitura: o tabernáculo e o templo de Salomão estavam cheios de querubins e de figuras entalhadas (1 Reis 6:29-32), em lugares mais santos que o altar; por que proibir figuras justamente ali?
Segunda: para que a pedra fique como Deus a fez. O Ellicott (comentário inglês do século XIX) diz que a natureza, obra de Deus, é pura, e o homem a contamina ao tocá-la. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) preferem dizer que o altar deve representar o solo da terra sem alteração humana. Isaac Arama (rabino espanhol do século XV), citado por Gill, acrescenta uma razão moral: a mão do artesão se afasta das pedras do altar para que ninguém atribua à obra humana o bem que se recebe ali. A Cambridge Bible registra uma hipótese histórica, de Wilhelm Nowack (biblista alemão do século XIX): a regra seria o resto de uma crença antiga em que a pedra era morada de uma divindade, e cortá-la a expulsaria. E a própria Cambridge observa que essa não é, evidentemente, a crença que move a lei no Êxodo.
Terceira: por causa das lascas. Ibn Ezra, que começa dizendo que não se deve buscar razões para os mandamentos, arrisca uma: ao cortar as pedras, sobram lascas, e as lascas de um altar consagrado iriam parar no lixo, ou seriam recolhidas para altares de ídolos. É a mesma lógica da sobra de sacrifício que não pode apodrecer.
“porque, se levantares sobre ela a tua espada”
O versículo não diz “ferramenta”; diz “a tua espada”. A palavra cobre qualquer lâmina, e o seu uso para a faca e o cinzel está no estudo de Gênesis 22:10. O que importa aqui é que o texto escolheu a palavra da guerra para o instrumento do pedreiro, e a tradição não deixou a escolha passar.
Rabi Shimon ben Elazar, na Mekhilta, tira daí a leitura mais conhecida do versículo: “O ferro foi criado para encurtar os dias do homem, e o altar foi criado para prolongá-los. Não convém que o que encurta seja levantado sobre o que prolonga.” A Mishná repete a frase no tratado Middot. O altar, que serve para a expiação, é o lugar onde a vida é devolvida; o ferro, de que se fazem espadas, é o metal da morte. Os dois não se tocam.
Rabban Yochanan ben Zakai, na mesma passagem, lê as “pedras inteiras” de Deuteronômio 27:6 — em hebraico shelemot — como pedras “de paz”, da mesma raiz de shalom. As pedras do altar fazem a paz entre Israel e o Pai que está no céu. E argumenta do menor para o maior: se pedras que não veem, não ouvem e não falam não podem ser tocadas pelo ferro porque fazem a paz, quanto mais quem faz a paz entre marido e mulher, entre uma cidade e outra, entre um povo e outro, não será atingido pelo mal.
Nachmânides leva a leitura para outro lado. Ele lembra que toda ferramenta de ferro com gume se chama “espada” — e cita a espada de dois gumes de Eúde (Juízes 3:16), a lâmina afiada de Ezequiel 5:1, as machadinhas que derrubam torres em Ezequiel 26:9. Depois dá a sua razão: a espada é a destruidora do mundo, e é a herança de Esaú, a quem se disse “você viverá pela sua espada” (Gênesis 27:40). O que é de Esaú não entra na casa de Deus. E observa que no tabernáculo não havia ferro: até as estacas, que seriam melhores de ferro, eram de bronze (Êxodo 27:19).
Rashi e Ônquelos, a tradução aramaica oficial da Torá, leem a conjunção de outro jeito: não “porque”, mas “para que não” — “para que não levantes sobre ela a tua espada”. A diferença é pequena e muda a frase de explicação em advertência.
“tu a profanarás”
Profanar é tirar alguma coisa da condição de separada e devolvê-la ao uso comum. O ferro não suja o altar, no sentido de manchar; ele o torna comum. A Cambridge Bible registra um dado de gramática que muda a leitura: no hebraico, o pronome deste final é feminino, e “altar” é masculino. O que é profanado não é o altar; é a pedra. A Mekhilta chega à mesma conclusão por outro caminho: Rabi Natan ensina que, se duas pedras tocadas pelo ferro forem postas no altar, só elas ficam inválidas, não o altar inteiro. A Mishná diz o mesmo. A profanação é da pedra, uma por uma.
O versículo dá a razão em termos de profanação e para aí. Ele não explica por que o corte profana. As explicações acima — a imagem, a natureza, as lascas, a vida e a morte, a paz, Esaú — são leituras; a mais antiga e a que tem mais apoio na própria letra, por causa da palavra “espada”, é a da Mekhilta.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O altar de pedras
A segunda forma do altar autorizada pelo código, depois do altar de terra. Pedras do campo, inteiras, empilhadas e encaixadas sem corte. É mais durável do que o de terra e, por isso, mais próprio de um povo assentado do que de um povo em marcha.
As pedras
Pedras como se acham no chão ou na encosta, sem marca de ferramenta. Na prática do templo, segundo a Mishná, tiradas de terra virgem no vale de Bet Kerem. São elas, e não o altar como conjunto, o objeto que o ferro profana.
A espada
O nome que o texto dá à ferramenta de cortar pedra. Na Idade do Ferro, o metal de que se faziam o cinzel do pedreiro e a arma do soldado era o mesmo.
O construtor
O “tu” do versículo, o mesmo que no versículo anterior levantava o altar de terra. Não é um especialista: a lei supõe alguém que empilha pedras com as mãos.
Os altares que cumprem a lei
O altar do monte Ebal, construído por Josué ao entrar na terra, “de pedras inteiras, sobre as quais ninguém tinha levantado ferro” (Josué 8:31). O altar de Elias no Carmelo, feito de doze pedras, uma por tribo (1 Reis 18:31-32). O altar de Judas Macabeu, de pedras inteiras, em 164 a.C.
O altar que a viola
O altar de chifres de Tel Berseba, de pedra lavrada, encontrado desmontado numa parede do século VIII a.C.
5. Pontos de Ensino
1. O instrumento conta. O versículo não proíbe só um tipo de altar; proíbe que um certo instrumento toque um certo objeto. A forma do objeto final importa menos do que aquilo que passou por ele.
2. A ferramenta é chamada de espada. Ao dar ao cinzel o nome da arma, o texto liga o trabalho da pedra à violência, e foi essa ligação que a Mekhilta desenvolveu: o metal que encurta a vida não se levanta sobre o lugar que a prolonga.
3. O que se profana é a pedra. A lei trata cada pedra como portadora da santidade do altar, e por isso a falta também é contada pedra por pedra.
4. A lei protege o altar da técnica de prestígio. Pedra lavrada era obra de reis, de pedreiras e de trabalho forçado; pedra bruta, obra de qualquer família. O altar fica no alcance de todos.
5. Há uma distância documentada entre a lei e a prática. O altar de Berseba mostra que em Judá se fizeram altares de pedra lavrada, e a reforma que o desmontou mostra que alguém, em algum momento, os considerou ilegítimos.
6. Aspectos Filosóficos
Uma ferramenta é neutra? A resposta de senso comum é que sim: o martelo serve para construir e para ferir, e tudo depende de quem o usa. O versículo responde que não. Ele não proíbe que se use mal o cinzel no altar; proíbe que o cinzel toque o altar, porque o cinzel é, pelo nome, uma espada.
Langdon Winner, cientista político norte-americano nascido em 1944, escreveu em 1980 um dos ensaios mais citados da filosofia da tecnologia, com uma pergunta por título: “Artefatos têm política?”. A tese é que sim, de dois modos. No primeiro, um objeto técnico é desenhado de uma forma que decide, sem discussão pública, quem terá acesso a quê. O exemplo que o tornou famoso são os viadutos baixos das avenidas que levavam às praias de Long Island, em Nova York, construídos sob a direção de Robert Moses: baixos demais para os ônibus passarem, eles teriam afastado das praias quem não tinha carro, isto é, os pobres e boa parte da população negra. O exemplo foi contestado depois por outros pesquisadores, e Winner o manteve como ilustração do tipo de efeito que queria descrever.
No segundo modo, certas tecnologias exigem, ou combinam fortemente com, certos arranjos de poder. Uma usina nuclear, diz Winner, não pode ser administrada por uma assembleia de bairro; ela supõe hierarquia, segredo e controle centralizado. Escolher a tecnologia já é, em parte, escolher a forma de governo que virá junto.
Lido com Winner, o versículo trata o cinzel nos dois sentidos. No primeiro: a cantaria era técnica de Estado, de pedreiras e de cortadores contratados ou forçados. Proibir a pedra lavrada no altar é desenhar o altar de modo que qualquer família possa construí-lo sem depender de um rei. É uma decisão sobre quem tem acesso ao lugar do sacrifício, embutida numa regra de material. No segundo sentido: o ferro, na Idade do Ferro, não era só metal de ferramenta; era a base de uma nova forma de guerra. A lâmina de ferro trazia consigo o exército, a forja, o monopólio do ferreiro — a Bíblia lembra que os filisteus não deixavam haver ferreiros em Israel para que os hebreus não fizessem espadas (1 Samuel 13:19). Chamar o cinzel de espada é reconhecer que a ferramenta e a arma vêm do mesmo sistema.
A frase da Mekhilta, “o ferro foi criado para encurtar os dias do homem”, é, nesse vocabulário, uma teoria da política dos artefatos dita mil e oitocentos anos antes de Winner: o ferro não é neutro; ele tem uma vocação, e essa vocação é incompatível com a do altar. Winner não diria que um objeto tem vocação moral; diria que tem efeitos políticos previsíveis. A diferença é real, e a aproximação é deste estudo, não dele. Mas os dois recusam a mesma ideia: a de que uma coisa é só aquilo para que a usamos.
Há um limite a marcar. O próprio templo de Jerusalém foi construído com pedra lavrada, e a Mekhilta o admite: no santuário pode, no altar não. A lei não rejeita a técnica do Estado em toda parte; recusa-a num ponto só, o lugar em que o sangue do sacrifício toca a pedra. É uma política de exceção, não uma recusa da técnica.
7. Aplicações Práticas
A relação mais direta deste versículo com a vida comum está na pergunta que ele obriga a fazer sobre os meios. O que se usa para construir alguma coisa passa a fazer parte dela. Um acordo de paz obtido por ameaça carrega a ameaça; uma reconciliação feita com humilhação carrega a humilhação. O versículo não formula esse princípio, mas a leitura da Mekhilta o tira dele com precisão: o instrumento que encurta a vida não serve para levantar o lugar que a prolonga.
A leitura de Rabban Yochanan ben Zakai aponta para quem faz o trabalho de reconciliar — entre cônjuges, vizinhos, grupos em conflito. Ele não promete a essa pessoa nenhuma recompensa específica; diz apenas que, se pedras que reconciliam foram poupadas do ferro, quem reconcilia não será esquecido. É uma das poucas leituras rabínicas do código que se dirigem diretamente a um papel social, e o papel é o de mediador da paz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o ferro profana, como Salomão construiu o templo?
A Mekhilta responde com uma distinção: a proibição vale para o altar, não para o santuário. No santuário e no Santo dos Santos, as pedras podiam ser lavradas. E quando 1 Reis 6:7 diz que na construção do templo não se ouviu martelo nem ferramenta de ferro, a Mekhilta explica que as pedras eram cortadas fora, na pedreira, e chegavam prontas: dentro, não se ouvia o ferro; fora, sim.
E o altar de bronze do tabernáculo, feito com ferramentas?
A lei deste versículo trata do altar de pedras. O altar do tabernáculo era de madeira de acácia revestida de bronze (Êxodo 27:1-2), e nenhum texto o submete a esta regra. O que Nachmânides observa é que no tabernáculo não havia ferro, nem nas estacas; o bronze era o metal do santuário.
A razão da lei é evitar imagens ou evitar a violência?
As duas leituras têm defensores antigos. A primeira tem a seu favor o contexto: o versículo vem logo depois da proibição dos deuses de prata e de ouro. A segunda tem a seu favor a palavra escolhida pelo próprio texto, “espada”. Ibn Ezra lembra que não se deve procurar a razão dos mandamentos, e não é possível decidir com certeza qual era a intenção original.
Por que o altar de Elias tinha exatamente doze pedras?
O texto de 1 Reis 18:31 dá a razão: uma pedra por tribo de Israel, num tempo em que o reino estava dividido em dois. O altar de pedras brutas, ali, é também uma declaração política: no reino do norte, Elias reconstrói um altar que representa as doze tribos.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma lei no Deuteronômio e em Josué
Deuteronômio 27:5-6 — “Ali edificarás um altar ao SENHOR, teu Deus, altar de pedras, sobre as quais não levantarás ferro. De pedras inteiras edificarás o altar do SENHOR, teu Deus.”
O Deuteronômio troca “espada” por “ferro” e acrescenta “inteiras”. É desta palavra que Rabban Yochanan ben Zakai tira as pedras “de paz”.
Josué 8:31 — “Como Moisés, servo do SENHOR, ordenara aos filhos de Israel, conforme está escrito no livro da lei de Moisés: um altar de pedras inteiras, sobre as quais ninguém tinha levantado ferro.”
O cumprimento no monte Ebal.
O templo e as pedras preparadas fora
1 Reis 6:7 — “O templo, quando foi edificado, foi construído com pedras já preparadas na pedreira; nem martelo, nem machado, nem nenhuma ferramenta de ferro se ouviu no templo enquanto era edificado.”
O versículo que a Mekhilta concilia com esta lei.
O altar de pedras brutas fora de Jerusalém
1 Reis 18:31-32 — “Elias tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó… e com aquelas pedras edificou um altar em nome do SENHOR.”
A espada e a vida
Gênesis 27:40 — “Você viverá pela sua espada e servirá ao seu irmão. Mas, quando você se rebelar, sacudirá o jugo dele do seu pescoço.”
O versículo que Nachmânides usa para chamar a espada de herança de Esaú.
Isaías 2:4 — “Eles transformarão as suas espadas em arados e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.”
A espada levantada (no hebraico, com outro verbo) volta como imagem da guerra que acabará — e o ferro dela vira ferramenta de lavoura, no mesmo oráculo em que os povos sobem ao monte do templo.
A reconstrução segundo a lei
1 Macabeus 4:47 — “Tomaram pedras inteiras, conforme a lei, e construíram um altar novo, igual ao anterior.”
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se me fizeres um altar de pedras, não o construirás de pedra lavrada; porque, se levantares sobre ela a tua espada, tu a profanarás.
Texto hebraico
וְאִם־מִזְבַּח אֲבָנִים תַּעֲשֶׂה־לִּי לֹא־תִבְנֶה אֶתְהֶן גָּזִית כִּי חַרְבְּךָ הֵנַפְתָּ עָלֶיהָ וַתְּחַלְלֶהָ׃
Transliteração
ve-im-mizbach avanim ta'aseh-li, lo-tivneh ethen gazit; ki charbekha henafta aleha va-techalleleha.
Na Bíblia hebraica, este é o versículo 22 do capítulo.
Análise palavra por palavra
וְאִם־מִזְבַּח אֲבָנִים — ve-im-mizbach avanim, “e se um altar de pedras”.
Im, “se”, a partícula condicional que Rabi Ishmael lê aqui como “quando”. Avanim, plural de even, “pedra”. A construção é paralela à do versículo anterior: lá mizbach adamah, “altar de terra”; aqui mizbach avanim, “altar de pedras”.
לֹא־תִבְנֶה אֶתְהֶן גָּזִית — lo-tivneh ethen gazit, “não as construirás lavradas”.
Tivneh, do verbo banah, “construir”, no imperfeito, segunda pessoa do singular, com a negação. Ethen é o marcador de objeto com o sufixo feminino plural: “elas”, isto é, as pedras. O hebraico diz literalmente “não as construirás lavradas”: o objeto do verbo não é o altar, são as pedras. Ibn Ezra observa a construção e a explica como abreviação de “não construirás com elas obra lavrada”.
Gazit é a pedra cortada, de cantaria. Ibn Ezra a liga à raiz g-z-z, “cortar”, a mesma do tosquiador de ovelhas (Gênesis 38:12) e do verbo de Salmo 90:10, em que a vida “passa depressa”, cortada. Ônquelos traduz gazit por pesilan, palavra aramaica da mesma família de pesel, a “imagem esculpida” de Êxodo 20:4. O tradutor aproxima a pedra lavrada da imagem talhada, e com isso favorece a leitura de que a lei protege contra figuras.
כִּי חַרְבְּךָ — ki charbekha, “porque a tua espada”.
Ki é a conjunção mais comum do hebraico, que pode ser “porque”, “que”, “quando” e, em alguns contextos, “para que não”. Rashi a lê neste último sentido, e Ônquelos traduz por dilma, “para que não”. Charbekha é cherev, “espada”, a palavra comum para lâmina, com o sufixo “tua”. O paralelo de Deuteronômio 27:5 diz barzel, “ferro”.
הֵנַפְתָּ עָלֶיהָ — henafta aleha, “levantaste sobre ela”.
Henafta é o verbo nuf no Hifil (a forma do hebraico que dá ao verbo sentido de causar), perfeito, segunda pessoa do singular: “agitaste”, “brandiste”, “moveste para cima e para baixo”. É o verbo de quem maneja a ferramenta sobre a pedra. É também, em outro contexto, o verbo de um gesto ritual: a tenufah, a oferta “movida” diante do SENHOR, que o sacerdote agita nas mãos (Êxodo 29:24; Levítico 23:11). O gesto que consagra uma oferta, feito com a espada sobre a pedra, a profana. Em Deuteronômio 23:25, o mesmo verbo proíbe passar a foice na seara do vizinho.
Aleha, “sobre ela”, tem sufixo feminino. “Altar” é masculino; “pedra” e “pedra lavrada” são femininas. O pronome volta para a pedra, como nota a Cambridge Bible.
וַתְּחַלְלֶהָ — va-techalleleha, “e a profanaste”.
O verbo chalal no Piel (a forma intensiva do verbo hebraico): “profanar”, “tornar comum”. De novo com sufixo feminino: o que é profanado é a pedra. Os usos da raiz para o santuário, o sábado e o nome de Deus estão no estudo de Gênesis 49:4. Aqui, ela é o resultado imediato do gesto: o perfeito descreve o ato como já consumado no momento em que a lâmina se levanta.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a lei do altar se preocupa com o caminho, não só com o resultado. Um altar de pedra lavrada pode ter a mesma forma e servir ao mesmo culto que um de pedra bruta; o que o desqualifica é o instrumento que passou por ele. A santidade, aqui, é afetada pela história do objeto.
A segunda é que o texto, ao chamar a ferramenta de espada, deu à tradição o material para a sua leitura mais duradoura: o altar está do lado da vida e o ferro do lado da morte. A Mekhilta e a Mishná não inventaram a oposição; desenvolveram uma palavra que o versículo pôs ali.
A terceira é que a lei mantinha o altar ao alcance de qualquer israelita e fora do circuito da técnica do Estado. Que essa intenção tenha sido violada — o altar lavrado de Berseba o prova — não a anula; mostra que ela foi, em algum momento, uma escolha contra uma prática real.













