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Mateus 21:11

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 16 acessos
E as multidões respondiam: “Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia.”
Peregrinos galileus empoeirados da estrada, com ramos nas mãos, explicando a moradores de Jerusalém que se aproximam desconfiados quem é o homem que vem montado no meio do cortejo.

Estudo


E as multidões respondiam: “Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia.”

1. Introdução

A cidade perguntou quem era, e quem responde são os que vieram com ele pela estrada.

A resposta tem três partes — um nome, um título e uma origem — e nenhuma delas é a que a mesma multidão gritava minutos antes: em vez de “Filho de Davi”, “profeta”; em vez de Belém, onde Mateus o fez nascer, Nazaré da Galileia.

O título que a multidão escolhe acompanhará Jesus pelo resto do capítulo e será a razão pela qual as autoridades não ousam prendê-lo. E a origem que ela declara é a que, dias depois, servirá para apontar o dedo a Pedro no pátio do sumo sacerdote.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um profeta esperado, não só lembrado

No tempo de Jesus, chamar alguém de profeta não era só compará-lo com Isaías ou Jeremias. Havia, em alguns círculos, a espera de um profeta futuro, que viria resolver o que ninguém tinha autoridade para resolver.

O Primeiro Livro dos Macabeus (história da revolta judaica do século II a.C., presente na Bíblia católica e ausente da protestante) mostra essa espera em dois episódios. Quando Judas Macabeu retomou o templo profanado pelos sírios, em 164 a.C., os sacerdotes desmontaram o altar contaminado e não sabiam o que fazer com as pedras. Guardaram-nas num lugar do monte do templo “até que viesse um profeta que decidisse a respeito delas” (1 Macabeus 4:46). Anos depois, o povo aceitou Simão como chefe e sumo sacerdote “para sempre, até que surja um profeta digno de fé” (1 Macabeus 14:41). Nas duas vezes, a decisão sobre o templo e sobre o poder fica suspensa à espera de um profeta.

Entre os manuscritos do mar Morto, um pequeno texto conhecido como Testimonia (“Testemunhos”, catalogado como 4Q175) reúne quatro citações das Escrituras numa só folha. A primeira junta duas passagens do Deuteronômio — a aprovação de Deus ao pedido do povo no Sinai (5:28-29) e, colada a ela, a promessa de 18:18-19: “do meio dos seus irmãos levantarei para eles um profeta semelhante a ti”. A segunda fala de uma estrela que sairá de Jacó (Números 24:15-17); a terceira, da bênção de Levi, a tribo dos sacerdotes (Deuteronômio 33:8-11); a última é uma maldição sobre quem reconstruir Jericó (Josué 6:26), aplicada a um inimigo do grupo. A folha mostra que, para aquele grupo, o profeta como Moisés era uma figura própria, ao lado do rei e do sacerdote esperados, e não um nome para o mesmo personagem.

Isso muda o peso da resposta da multidão. Dizer “o profeta” não era necessariamente dizer menos do que “Filho de Davi”: podia ser dizer outra coisa, igualmente carregada de expectativa.

Os profetas populares do século I

Ao lado da figura esperada, havia homens concretos que o povo chamava de profetas. Richard Horsley e John Hanson, no livro Bandidos, profetas e messias (1985), distinguiram dois tipos, e Rebecca Gray, num estudo de 1993 sobre as figuras proféticas da Judeia no fim do Segundo Templo, refinou o quadro. Uns eram profetas de palavra: anunciavam desgraça ou juízo, quase sempre sobre a cidade e o templo. Outros eram profetas de ação: reuniam multidões, levavam-nas ao deserto ou ao Jordão e prometiam um sinal de libertação, à maneira de Moisés e de Josué.

Para as autoridades, os dois tipos eram problema. O segundo, sobretudo, terminava quase sempre em repressão armada. O livro de Atos guarda a memória de um deles na boca de um oficial romano, que pergunta a Paulo se ele não é “o egípcio que há algum tempo provocou uma revolta e levou ao deserto quatro mil homens” (Atos 21:38).

Era nessa categoria que uma multidão de peregrinos, numa cidade cheia na véspera da Páscoa, punha Jesus. O título tinha prestígio e tinha risco.

A Galileia vista de Jerusalém

A origem também falava. A Galileia era a região do norte, governada por Herodes Antipas, separada da Judeia pela Samaria, e para muitos moradores da capital era província. Mateus deixa ouvir isso no fim do evangelho: no pátio do sumo sacerdote, os que estão ali reconhecem Pedro porque “o seu modo de falar o denuncia” (Mateus 26:73). Galileu se reconhecia pela boca.

O Talmude de Jerusalém (a compilação de discussões rabínicas feita na terra de Israel, fechada por volta do ano 400) conserva uma frase atribuída a Rabã Yohanan ben Zakai, o mestre que depois do ano 70 reorganizou o judaísmo. Ele teria passado dezoito anos em Arav, uma aldeia da Galileia, e em todo esse tempo só lhe levaram duas questões de lei para decidir. Ao sair, teria dito: “Galileia, Galileia, você odeia a Torá” (Talmude de Jerusalém, Shabat 16:8).

A frase precisa ser lida com cuidado. Foi registrada séculos depois, e serve a uma escola que se via como guardiã do ensino. O historiador irlandês Sean Freyne, no estudo clássico A Galileia de Alexandre Magno a Adriano (1980), mostrou o outro lado: os galileus subiam ao templo, pagavam as suas contribuições e eram, à sua maneira, leais a Jerusalém. O preconceito existia; o retrato de uma Galileia sem religião é exagero da própria fonte que o registra.

Havia profetas da Galileia?

No Evangelho de João, os fariseus encerram uma discussão sobre Jesus dizendo a Nicodemos: “examine, e verá que da Galileia não surge profeta” (João 7:52). A objeção era fraca, e qualquer leitor das Escrituras podia responder. Jonas, filho de Amitai, era de Gate-Héfer (2 Reis 14:25), aldeia da tribo de Zebulom que ficava a poucos quilômetros de Nazaré. Jerônimo (o tradutor da Vulgata, a Bíblia latina, no fim do século IV), que morava na terra de Israel, registra no prefácio ao comentário sobre Jonas que em Gate-Héfer, a duas milhas de Séforis, ainda se mostrava o túmulo do profeta.

E a tradição rabínica, num dito atribuído a Rabi Eliezer no Talmude Babilônico, afirmava o contrário dos fariseus de João: “não há tribo em Israel da qual não tenham saído profetas” (Sucá 27b).

3. Análise Teológica do Versículo

“E as multidões respondiam”

Quem responde não é a cidade. São “as multidões” — as mesmas que, no versículo 9, iam à frente de Jesus e o seguiam pela estrada. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, comentarista alemão do século XIX) observa que eram, na maior parte, galileus, e que a resposta tem “consciência galileia”: é a voz de quem conhecia Jesus da sua terra.

Mateus mantém os dois grupos separados com cuidado. A cidade pergunta; as multidões respondem. E daqui até o fim do capítulo as multidões ficam do lado de Jesus: os chefes dos sacerdotes não respondem à pergunta sobre João porque “tememos a multidão” (Mateus 21:26), e no último versículo não o prendem porque “tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta” (Mateus 21:46). O versículo 11 é a base dessa proteção. O que a multidão diz aqui é o que impede, por alguns dias, a prisão.

A forma do verbo indica repetição: a resposta foi dada muitas vezes, de grupo em grupo, enquanto a pergunta corria pela cidade.

“Este é o profeta Jesus”

O que mais chama a atenção é o título que falta. Minutos antes, a mesma multidão gritava “Hosana ao Filho de Davi!”. Agora, diante da cidade, diz “profeta”. Por que a troca?

Primeira leitura: é prudência. Dentro dos muros, com a guarnição romana ao lado do templo e as autoridades por perto, “Filho de Davi” soava a rei, e rei era assunto de Roma. “Profeta” era título religioso, respeitado e menos perigoso. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) já lia assim: a multidão apresentava Jesus de um modo que não dava pretexto para prendê-lo como sedicioso.

Segunda leitura: é o que a multidão de fato pensava. Na rua, em festa, ela cantou o título de Davi; perguntada a sério, disse o que achava. E Mateus mostra, em mais de um lugar, que a opinião popular sobre Jesus parava no profeta. Em Mateus 16:14, as pessoas diziam que ele era João Batista, Elias, Jeremias “ou algum dos profetas”. A confissão que vai além disso, em Mateus 16:16, é de Pedro, e Jesus a atribui a uma revelação. Nessa leitura, o versículo marca a distância entre o entusiasmo da multidão e o que o evangelho afirma.

Terceira leitura: “o profeta” é um título maior do que parece. O artigo — “o profeta”, e não “um profeta” — pode apontar para a figura prometida em Deuteronômio 18:15-18, o profeta semelhante a Moisés que o povo esperava. No Evangelho de João, depois da multiplicação dos pães, o povo diz: “este é verdadeiramente o Profeta que devia vir ao mundo” (João 6:14). Mateus nunca usa esse título por extenso, mas constrói com insistência a figura de Jesus como novo Moisés: o menino salvo do massacre de um rei, a subida ao monte para dar a Lei. Meyer pensa o contrário: “o profeta” seria só “o conhecido profeta”, aquele de quem todos falavam.

As três leituras têm apoio. Não é possível decidir entre elas, e talvez nem seja preciso: a multidão pode ter escolhido a palavra por prudência e, ao escolhê-la, ter dito mais do que sabia.

O título que pesa em Jerusalém

Há uma ironia que o leitor de Mateus percebe e a multidão talvez não. Apresentar alguém como profeta justamente em Jerusalém é apresentá-lo à cidade sobre a qual o próprio Jesus vai dizer: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!” (Mateus 23:37). A frase da multidão é uma homenagem; dentro da cidade, é também uma sentença em suspenso.

Jesus não recusa o título. Em Nazaré, ele mesmo se pôs na fila dos profetas: “Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra” (Mateus 13:57). A multidão diz em Jerusalém o que Nazaré não quis dizer.

E há o limite. A frase sobre Jerusalém que mata os profetas é de Jesus, com a força de quem lamenta, e tem raízes nas próprias Escrituras de Israel (2 Crônicas 24:20-22, Jeremias 26:20-23, Neemias 9:26). Ela não autoriza ler aqui uma cidade predestinada à recusa; a cidade, no versículo anterior, ainda estava perguntando.

“de Nazaré da Galileia”

A identificação pela origem era o modo comum de distinguir pessoas de mesmo nome, e “Jesus” era nome frequente. O Expositor's Greek Testament (comentário inglês ao texto grego, publicado entre 1897 e 1910) observa que a resposta é completa como uma ficha: nome, lugar e função.

Mas a origem declarada traz um problema que Mateus conhece. Ele dedicou o capítulo 2 inteiro a mostrar que Jesus nasceu em Belém, como o profeta tinha dito sobre o Messias (Mateus 2:5-6), e só foi parar em Nazaré por causa de Arquelau. A multidão não sabe disso, ou não diz. Para quem estava em Jerusalém, “de Nazaré da Galileia” era exatamente o tipo de origem que desqualificava um candidato a Messias. No Evangelho de João, a objeção aparece com todas as letras: “Por acaso o Cristo vem da Galileia? A Escritura não diz que o Cristo vem da descendência de Davi e de Belém?” (João 7:41-42).

A resposta da multidão, portanto, reforça o “profeta” e enfraquece o “Filho de Davi”. Um profeta podia vir de qualquer aldeia; um rei davídico precisava de Belém. Quem ouvia a resposta inteira recebia um galileu com fama de profeta — não um pretendente ao trono.

Os rótulos que voltam no fim

As duas palavras da origem, Nazaré e Galileia, reaparecem separadas na noite da prisão. No pátio do sumo sacerdote, uma criada diz a Pedro: “Você também estava com Jesus, o galileu” (Mateus 26:69); outra, junto ao portão: “Este também estava com Jesus, o nazareno” (Mateus 26:71). O que aqui era identificação de honra, dita por uma multidão que protegia Jesus, vira ali identificação de acusação, dita por empregadas de quem o prendeu. As mesmas palavras mudaram de função em poucos dias.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

As multidões — os peregrinos que acompanhavam Jesus desde Jericó e que, no versículo 9, iam à frente e atrás dele. Eram em boa parte galileus. Em Mateus, “as multidões” são um personagem coletivo constante: seguem Jesus, se admiram do seu ensino (Mateus 7:28), são alimentadas por ele (Mateus 14:19; 15:36) e, até o fim deste capítulo, o protegem.

Jesus — identificado por nome, título e origem. É a primeira vez em Mateus que alguém lhe dá publicamente o título de profeta.

Lugares

Nazaré — a aldeia da Galileia onde Jesus cresceu, depois da volta do Egito (Mateus 2:23). Mateus a nomeia poucas vezes, e quase sempre com tensão: é ali que Jesus é rejeitado (Mateus 13:54-58).

A Galileia — a região do norte, governada no tempo de Jesus por Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande. É o cenário de quase todo o ministério em Mateus, desde Mateus 4:12-16, onde a citação de Isaías a chama de “Galileia dos gentios”.

Eventos

A identificação pública de Jesus em Jerusalém — o primeiro título dado a ele dentro da cidade. É ele que explica o medo das autoridades em Mateus 21:46.

5. Pontos de Ensino

O que se diz em público depende de onde se está

Na estrada, “Filho de Davi”; na cidade, “profeta”. O texto mostra, sem julgar, que as palavras sobre Jesus mudam conforme o lugar e quem escuta. Isso vale como dado para entender a semana inteira: cada grupo fala de Jesus com o vocabulário que o seu lugar permite.

A proteção do povo é real e frágil

A opinião da multidão protege Jesus até o fim do capítulo. Mateus mostra ao mesmo tempo que essa proteção depende de um título e de um humor coletivo — e que ambos podem mudar.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe frente a frente duas coisas que a filosofia política estudou juntas: um grupo de gente do interior, ligado por laços fortes, e uma grande cidade que não conhece o homem que esse grupo traz. E põe no meio um título religioso — profeta. A pergunta que fica é antiga: o que sustenta, na prática, um movimento religioso que chega à capital?

Ibn Khaldun e a força dos laços de grupo

Ibn Khaldun (1332-1406), historiador e jurista nascido em Túnis, escreveu como introdução à sua história universal um livro que ficou mais famoso do que a obra que introduzia: a Muqaddimah (“Introdução”, conhecida em português também como Os Prolegômenos). Ali ele tenta explicar por que dinastias surgem, crescem e caem, e a peça central da explicação é uma palavra árabe: ‘asabiyya, que se traduz por “espírito de grupo”, “solidariedade de clã” — a coesão que faz um grupo agir como um só corpo.

Para Ibn Khaldun, essa coesão nasce sobretudo entre os povos do campo e do deserto, onde a vida dura e o parentesco obrigam cada um a depender dos outros. Nas cidades grandes, com o conforto, a proteção das muralhas e a dependência de governantes, ela se dissolve. A história, no seu esquema, é um ciclo: grupos coesos da periferia conquistam as cidades, instalam-se, perdem a coesão em três ou quatro gerações e são substituídos por outro grupo vindo de fora.

A religião precisa de um grupo

O ponto que interessa a este versículo está num capítulo da Muqaddimah sobre a pregação religiosa. Ibn Khaldun sustenta que uma propaganda religiosa não se realiza sem espírito de grupo, porque toda empresa que mobiliza muita gente exige uma força coletiva que a sustente. E cita uma tradição atribuída ao profeta do Islã: Deus não enviou nenhum profeta que não tivesse a proteção do seu povo.

Ele tira daí uma consequência dura. Muitos homens piedosos, diz, levantaram-se contra governantes injustos para corrigir os costumes, apoiados só na justiça da causa, sem grupo que os protegesse — e pereceram. Para Ibn Khaldun, não é que a causa estivesse errada; é que a verdade sozinha não move as cidades.

O que isso ilumina no versículo

A cena de Mateus parece desenhada para essa análise. Quem chega é um grupo do interior, de galileus, unido pela viagem, pela origem comum e pela fé num mestre da sua terra. Quem recebe é a capital, que não sabe quem ele é. E a resposta dada à cidade é, ao mesmo tempo, um título religioso e uma declaração de pertencimento: “o profeta, o de Nazaré da Galileia” — o nosso.

O resto do capítulo confirma o diagnóstico. Enquanto as multidões o têm por profeta, as autoridades não o prendem (Mateus 21:46). O título funciona como escudo enquanto houver grupo para sustentá-lo.

Onde a análise falha

Aqui a comparação mostra o seu limite, e o limite é instrutivo. O espírito de grupo dos peregrinos era de festa, não de clã. Durava o tempo de uma Páscoa. Na lógica de Ibn Khaldun, Jesus é exatamente o tipo de homem que ele descreve como destinado a perecer: alguém que entra na capital e enfrenta o templo apoiado numa coesão passageira.

E é isso que acontece. Só que o evangelho não conta a história como derrota. A comunidade que vai nascer depois da cruz não é um clã nem uma tribo, e não se sustenta por parentesco. Ibn Khaldun explica muito bem por que a proteção das multidões se desfaz em poucos dias. O que a sua teoria não explica — e o evangelho afirma — é que o movimento sobreviva justamente à perda do grupo que o protegia.

7. Aplicações Práticas

Responder com o que se sabe, e saber que é pouco

A multidão respondeu com o que tinha: um nome, um título, uma terra. Não era tudo, mas era honesto. Quando alguém pergunta “quem é Jesus para você?”, a resposta verdadeira e parcial vale mais do que a fórmula completa repetida sem convicção. E quem responde assim tem diante de si o caminho de aprender mais.

Não usar a origem de alguém como argumento

“De Nazaré da Galileia” foi dito com orgulho e ouvido com desconfiança. O preconceito contra o lugar de onde alguém vem — o interior, a periferia, o sotaque — continua a funcionar como atalho para desqualificar. O versículo mostra que esse atalho foi usado contra o próprio Jesus.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. As multidões que chamaram Jesus de profeta são as mesmas que, dias depois, pediram a sua morte?

A pregação costuma dizer que sim — “a mesma multidão que gritou hosana gritou crucifica-o” —, mas Mateus não diz isso. As multidões deste versículo são peregrinos que vinham com Jesus; diante de Pilatos, Mateus fala da multidão reunida no pátio do governador, e diz que os chefes dos sacerdotes e os anciãos “convenceram a multidão” (Mateus 27:20). Se eram as mesmas pessoas, em parte ou em nada, o texto não permite decidir. A frase de efeito simplifica, e a simplificação foi usada por séculos para atribuir a morte de Jesus a um povo inteiro, o que o próprio relato não sustenta.

2. Por que Mateus não corrige a multidão, se para ele Jesus é mais do que profeta?

Porque a resposta não é falsa, e porque ela tem função na narrativa: é o título “profeta” que segura as autoridades até o fim do capítulo. Mateus deixa a resposta como está e conta, nos capítulos seguintes, o que ela não alcança. A correção vem pela história, não por um comentário.

3. O que aconteceu com o título “profeta” na fé cristã posterior?

Ele foi ficando em segundo plano, mas não desapareceu. Grupos de cristãos de origem judaica nos primeiros séculos fizeram do “verdadeiro profeta” o título central de Jesus, como mostram os escritos atribuídos a Clemente de Roma conhecidos como Pseudoclementinas. A teologia da Reforma, com Calvino (João Calvino, reformador francês do século XVI), organizou a obra de Cristo em três funções — profeta, sacerdote e rei —, e Bengel lê este capítulo nessa ordem: Jesus reconhecido primeiro como profeta, depois como sacerdote e rei. E o islã, seis séculos depois de Jesus, ficou justamente com o título que a multidão deu aqui: para o Alcorão, Jesus é profeta.

4. A multidão sabia que Jesus tinha nascido em Belém?

O texto não diz. Nada nos evangelhos sugere que o nascimento em Belém fosse conhecido do público durante o ministério; no Evangelho de João, a objeção “o Cristo vem de Belém” é feita sem que ninguém a responda com essa informação (João 7:41-43). Para a multidão, Jesus era de Nazaré, porque foi lá que ele cresceu.

9. Conexão com Outros Textos

O profeta prometido

Deuteronômio 18:15 — “O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, dentre os teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás.”

A promessa por trás de “o profeta” com artigo.

João 6:14 — “Vendo o sinal que Jesus tinha feito, as pessoas diziam: ‘Este é verdadeiramente o Profeta que devia vir ao mundo.’”

A mesma identificação, com o título por extenso, depois da multiplicação dos pães.

1 Macabeus 4:46 — “E guardaram as pedras no monte do templo, num lugar conveniente, até que viesse um profeta que decidisse a respeito delas.”

Uma decisão sobre o templo suspensa à espera de um profeta.

O título na boca do povo

Mateus 21:46 — “E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta.”

O efeito do versículo 11, no fim do capítulo.

Mateus 16:14 — “Eles responderam: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou algum dos profetas.’”

A opinião popular, antes da entrada em Jerusalém, já parava no profeta.

Lucas 24:19 — “Ele lhes perguntou: ‘Que coisas?’ Eles responderam: ‘O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo.’”

Depois da cruz, os discípulos de Emaús repetem quase a fórmula das multidões: nome, origem, profeta.

Jesus e o destino dos profetas

Mateus 13:57 — “E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: ‘Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra e na sua própria casa.’”

Mateus 23:37 — “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas não quiseste!”

Em Nazaré, o profeta sem honra; em Jerusalém, a cidade dos profetas mortos.

A Galileia e Nazaré

João 7:52 — “Eles responderam: ‘Você também é da Galileia? Examine, e verá que da Galileia não surge profeta.’”

2 Reis 14:25 — “Ele restabeleceu as fronteiras de Israel, desde a entrada de Hamate até o mar da Arabá, conforme a palavra do SENHOR, Deus de Israel, falada por meio do seu servo Jonas, filho de Amitai, o profeta, que era de Gate-Héfer.”

A objeção dos fariseus de João e a resposta que as próprias Escrituras davam.

Mateus 26:69 — “Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse: ‘Você também estava com Jesus, o galileu’.”

Mateus 26:71 — “Ao dirigir-se para o portão, outra criada o viu e disse aos que ali estavam: ‘Este também estava com Jesus, o nazareno’.”

Os dois rótulos da origem, agora como acusação.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E as multidões respondiam: “Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia.”

Texto grego (Textus Receptus)

Οἱ δὲ ὄχλοι ἔλεγον, Οὗτός ἐστιν Ἰησοῦς ὁ προφήτης, ὁ ἀπὸ Ναζαρὲθ τῆς Γαλιλαίας.

Transliteração

Hoi de ochloi elegon, Houtos estin Iēsous ho prophētēs, ho apo Nazareth tēs Galilaias.

A ordem das palavras: Textus Receptus × texto crítico

Este versículo tem uma diferença entre as edições, pequena e real. O Textus Receptus (Scrivener 1894 e Estienne 1550) e o texto bizantino trazem Iēsous ho prophētēs, “Jesus, o profeta” — o nome primeiro, o título depois. As edições críticas (Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle, SBL) trazem ho prophētēs Iēsous, “o profeta Jesus” — o título primeiro.

A diferença não é só de estilo. Com o título na frente, “o profeta” soa como cargo: o Profeta, que se chama Jesus. Com o nome na frente, “o profeta” soa como identificação: Jesus — aquele, o profeta —, de Nazaré. A primeira ordem favorece a leitura de “o profeta” como a figura esperada; a segunda, a leitura de Meyer, “o conhecido profeta”.

A ABC segue a ordem do Textus Receptus, que adota no Novo Testamento: “Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia”.

Análise palavra por palavra

Οἱ δὲ ὄχλοι — hoi de ochloi, “e as multidões”. Nominativo plural de ochlos, “multidão”, com artigo. A partícula de marca a troca de sujeito: a cidade perguntou, as multidões respondem.

O plural é típico de Mateus, que fala de “as multidões” muito mais do que Marcos. O artigo retoma as do versículo 9 — “as multidões que iam à frente e as que o seguiam” —: são as mesmas, não uma multidão nova.

ἔλεγον — elegon, “diziam”. Imperfeito do indicativo ativo de legō. O imperfeito apresenta a ação em curso ou repetida: iam dizendo, respondiam a um e a outro. A ABC traduz bem por “respondiam”.

Οὗτός ἐστιν — houtos estin, “este é”. O mesmo demonstrativo da pergunta do versículo 10 (“quem é este?”), agora na resposta. A pergunta e a resposta se encaixam palavra por palavra: tis estin houtos — houtos estin.

Ἰησοῦς — Iēsous, “Jesus”. Forma grega do hebraico Yehoshua ou da forma abreviada Yeshua, “o SENHOR salva”, o nome de Josué. Era nome comum entre os judeus do século I, e por isso precisava de complemento — daí a origem acrescentada no fim.

ὁ προφήτης — ho prophētēs, “o profeta”. Substantivo masculino com artigo.

A palavra grega é formada de pro- (“diante”, “em lugar de”, “antes”) e da raiz de phēmi (“dizer”): o que fala em nome de outro, ou fala diante do público. A ideia de prever o futuro veio depois e não é a principal. Na Septuaginta, é a tradução normal do hebraico navi.

Em Mateus, a palavra é frequente, e quase sempre designa os profetas das Escrituras, sobretudo nas fórmulas de cumprimento. Neste mesmo capítulo ela aparece no versículo 4: “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta” — Zacarias. Sete versículos depois, a mesma palavra, com o mesmo artigo, é aplicada ao homem que montava o jumentinho anunciado por aquele profeta. O capítulo põe lado a lado o profeta que anunciou a entrada e o profeta que entra.

O artigo é o ponto de disputa (o item 3 expõe as leituras). Gramaticalmente, ele pode ser de identificação — “o profeta de quem vocês ouviram falar” — ou de categoria única — “o Profeta”. O grego não decide.

ὁ ἀπὸ Ναζαρὲθ — ho apo Nazareth, “o de Nazaré”, “aquele que é de Nazaré”. O artigo ho repetido transforma a expressão de lugar num segundo identificador: não “profeta que vem de Nazaré”, mas “o de Nazaré”, quase um sobrenome. Era o modo comum de distinguir homônimos: Maria, a de Magdala; José, o de Arimateia.

A preposição apo indica procedência, não nascimento: diz de onde a pessoa é conhecida, não onde nasceu. É por isso que Mateus pode dizer, sem contradição interna, que Jesus nasceu em Belém e é “de Nazaré”.

A grafia do nome da aldeia oscila nos manuscritos e nas edições. Mateus a nomeia três vezes: em Mateus 2:23 e 4:13 e aqui. As formas que aparecem são Nazaret, Nazareth e Nazara; neste versículo, Scrivener imprime Nazareth e Estienne, Nazaret. A variação é só de escrita e não altera o sentido.

τῆς Γαλιλαίας — tēs Galilaias, “da Galileia”. Genitivo de Galilaia, com artigo, indicando a região a que a aldeia pertence. O nome vem do hebraico galil, “círculo”, “distrito” — abreviação da expressão de Isaías 8:23, “Galileia das nações”, literalmente “o distrito dos povos”.

A especificação era necessária em Jerusalém. Para quem morava na capital, Nazaré não dizia nada; “da Galileia” situava o homem — e o classificava.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que a identidade de Jesus, na entrada em Jerusalém, é dita por gente de fora e no vocabulário de fora. A capital não forma a sua própria opinião: recebe a que os galileus trouxeram da sua terra, com um título de profeta e um endereço de província.

Conclui-se também que a escolha das palavras foi decisiva para o que veio depois. Ao chamar Jesus de profeta e de galileu, as multidões lhe deram uma identidade que a cidade podia aceitar sem alarme — e que, por isso mesmo, o protegeu durante alguns dias. A proteção durou o tempo que durou a multidão.

E conclui-se, por fim, que o evangelho não esconde a origem humilde de Jesus nem a suaviza: deixa que ela seja dita com orgulho por uns e ouvida com desconfiança por outros, e não toma o partido de quem a usa como argumento.

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