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Mateus 13:57

✍️ Por Alberto Adriano·10 de agosto de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 30 acessos
E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: “Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra e na sua própria casa.”
Jesus visto de costas, de túnica clara e manto vermelho, saindo pela porta de uma sinagoga de pedra para a rua ensolarada de Nazaré, enquanto homens de braços cruzados o observam do interior com expressão fechada.

Estudo


E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: “Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra e na sua própria casa.”

1. Introdução

Mateus 13:57 registra o desfecho de uma cena curta e desconfortável. Jesus voltou para a região onde cresceu, entrou na sinagoga e ensinou. As pessoas ouviram, ficaram impressionadas com a sabedoria e com os relatos dos milagres, e então começaram a fazer contas: não é este o filho do carpinteiro? A mãe dele não se chama Maria? Os irmãos não moram aqui? As irmãs não estão entre nós? A conclusão delas veio no versículo 57: "E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: 'Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra e na sua própria casa.'"

Este estudo trabalha com a premissa que orienta o site A Bíblia Comentada: a Bíblia contém a Palavra de Deus, e ela chega até nós dentro de um invólucro humano. Há autores com objetivos próprios, contextos sociais bem definidos, séculos de cópia manual e escolhas de tradução. Reconhecer isso não diminui o texto. Ao contrário: permite ver com mais clareza onde está a verdade espiritual e onde está a moldura histórica que a carrega.

Neste versículo há quatro pontos que merecem atenção. O primeiro é a palavra grega traduzida por "escandalizados", que é da mesma família de skandalon, a armadilha, a pedra em que o pé tropeça. O segundo é a expressão "e na sua própria casa", que inclui a família de Jesus na lista dos que não creram. O terceiro é o fato de que o ditado sobre o profeta sem honra circulava na Antiguidade fora dos evangelhos, o que sugere que Jesus aplicou a si um provérbio já conhecido. O quarto é um detalhe que Mateus preserva: eles se escandalizaram por causa dele, e não do ensino. Vamos tratar de cada um com o grau de certeza declarado.

2. Contexto Histórico e Cultural

Nazaré era um povoado pequeno na Galileia. As estimativas arqueológicas falam em algo entre duzentas e quatrocentas pessoas no primeiro século, com casas de pedra, cisternas, prensas de azeite e túmulos escavados na rocha. O grau de certeza aqui é alto quanto ao tamanho modesto do lugar, e moderado quanto aos números exatos, porque escavações urbanas na Nazaré moderna são limitadas.

Num povoado desse tamanho, todo mundo conhecia todo mundo desde criança. E a sociedade mediterrânea antiga funcionava com uma moeda social chamada honra. A honra não era um sentimento interno, e sim uma avaliação pública: o valor que a comunidade atribuía a uma pessoa. Havia a honra recebida por nascimento, ligada à família, ao ofício e à posição, e havia a honra conquistada em disputas públicas de reputação. O oposto disso era a vergonha, a perda do lugar reconhecido no grupo.

É aqui que a cena de Nazaré ganha peso. Jesus tinha uma honra atribuída pelo nascimento: filho do carpinteiro, irmão de Tiago, José, Simão e Judas, membro de uma família comum. Quando ele passou a ensinar com autoridade na sinagoga, estava reivindicando uma honra muito acima daquela que o povoado havia registrado para ele. Para os vizinhos, aquilo soava como quebra de regra social. A pergunta deles, no versículo 55, não é curiosidade inocente. É um lembrete público do lugar de onde ele veio, uma tentativa de recolocá-lo na posição que o grupo lhe reservava.

Há ainda a questão do lugar do profeta em Israel. O profeta era o mensageiro que falava em nome de Deus, muitas vezes contra as autoridades e contra a própria comunidade. As narrativas antigas registram esse padrão com frequência. Jeremias sofreu ameaça de morte vinda dos homens de Anatote, o seu povoado natal, segundo Jeremias 11:21. Elias fugiu do próprio reino. Amós foi mandado embora de Betel. A rejeição do profeta pela sua própria gente já era um roteiro conhecido quando Mateus escreveu.

Um último dado de contexto: a sinagoga do primeiro século não era um templo. Era o lugar de reunião da aldeia, onde se lia a Torá e onde qualquer homem adulto reconhecido podia ser convidado a comentar o texto. O convite feito a Jesus mostra que, no começo, havia abertura. O que veio depois mostra o que aconteceu quando a abertura esbarrou na memória do povoado.

3. Análise Teológica

Esta seção traz, na íntegra e frase a frase, a análise da Study Bible do Bible Hub, traduzida para o português.

"E ficaram ofendidos por causa dele."

Esta frase destaca a reação das pessoas na cidade natal de Jesus, Nazaré. Apesar de terem testemunhado a sua sabedoria e as suas obras milagrosas, elas foram incapazes de conciliar isso com a familiaridade que tinham com ele como o filho de um carpinteiro local. Isso reflete uma tendência humana comum de subestimar aquilo que é familiar. A palavra grega para "ofensa" aqui é skandalizo, que implica uma pedra de tropeço ou uma causa de rejeição. Esta reação cumpre a profecia de Isaías 53:3, onde o Messias é descrito como "desprezado e rejeitado pelos homens".

"Mas Jesus lhes disse,"

A resposta de Jesus à ofensa deles é ao mesmo tempo uma repreensão e um momento de ensino. As suas palavras são dirigidas diretamente à descrença e ao ceticismo daqueles que deveriam ter sido os mais solidários. Este momento é um ponto de virada no seu ministério, pois marca uma mudança do foco no ministério local para uma missão mais ampla.

"Somente na sua cidade natal e na sua própria casa é que um profeta fica sem honra."

Esta afirmação ressalta um tema bíblico recorrente, no qual os profetas são com frequência rejeitados pelo seu próprio povo. Os exemplos incluem José, que foi vendido como escravo pelos seus irmãos, e Jeremias, que enfrentou oposição da sua própria comunidade. Jesus se identifica com a tradição profética, enfatizando o seu papel como profeta. Esta frase também antecipa a rejeição mais ampla que ele enfrentaria por parte do povo judeu, como se vê em João 1:11: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam". A menção à "casa" sugere que até mesmo aqueles que lhe eram mais próximos, incluindo a sua família, tiveram dificuldade em aceitar a sua missão divina, como se vê antes em Mateus 12:46-50. Esta rejeição faz parte do motivo do servo sofredor, que é central para a compreensão da missão e do sacrifício de Jesus.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. Jesus — a figura central desta passagem. Jesus está ensinando na sua cidade natal e enfrenta a rejeição daqueles que são familiarizados com ele.

2. Cidade natal — refere-se a Nazaré, onde Jesus cresceu. As pessoas daqui estão céticas quanto à sua autoridade e aos seus ensinos.

3. Profeta — um mensageiro de Deus, com frequência enfrentando rejeição e perseguição. Jesus se identifica com este papel.

4. Casa — representa a família imediata de Jesus e a comunidade próxima, que têm dificuldade em aceitar a sua missão divina.

5. Ofensa — a reação das pessoas diante de Jesus, indicando a descrença e a rejeição da mensagem dele.

5. Pontos de Ensino

O desafio da familiaridade — a familiaridade pode gerar desprezo, tornando difícil para as pessoas reconhecerem o divino dentro do que é comum. Precisamos nos guardar de descartar a obra de Deus em ambientes familiares.

O custo do ministério profético — ser um mensageiro de Deus com frequência envolve enfrentar rejeição e incompreensão, até mesmo por parte daqueles que estão mais próximos de nós. Devemos estar preparados para esta realidade nas nossas próprias vidas.

A fé além do que se vê — a fé verdadeira exige enxergar além da superfície e reconhecer a obra de Deus, mesmo quando ela vem por meio de fontes familiares ou inesperadas.

Honra e respeito — somos chamados a honrar e a respeitar aqueles que trazem a mensagem de Deus, independentemente da origem deles ou da familiaridade que temos com eles.

Perseverança na rejeição — o exemplo de Jesus nos ensina a perseverar na nossa missão, mesmo diante da rejeição. A nossa identidade e o nosso propósito estão enraizados no chamado de Deus, e não na aprovação humana.

6. Aspectos Filosóficos

O detalhe mais afiado do versículo está numa preposição. O grego diz que eles se escandalizavam en autō, isto é, "nele", "por causa dele". Não diz que se escandalizaram com a doutrina, com a interpretação da Torá ou com alguma afirmação específica do sermão. O objeto do tropeço é a pessoa.

Essa distinção é importante e vale ser desenvolvida. Existe um tipo de desacordo que é honesto: alguém ouve um argumento, examina, discorda e apresenta razões. Esse desacordo é discutível, porque está no plano das ideias. O que aconteceu em Nazaré foi outra coisa. Ninguém no relato de Mateus refuta o que Jesus ensinou. Ninguém diz que a leitura dele estava errada. Eles reconhecem a sabedoria e admitem os milagres. E mesmo assim rejeitam. O motivo declarado é a biografia dele: o pai, a mãe, os irmãos, as irmãs, o endereço.

Filosoficamente, isso é um erro de método bastante conhecido. Julgar uma afirmação pela origem de quem fala, e não pelo conteúdo do que é dito, é trocar a pergunta "isto é verdade?" pela pergunta "quem é você para dizer isto?". A segunda pergunta é social, não é intelectual. Ela protege a hierarquia do grupo, e dispensa quem julga de examinar qualquer coisa.

Há também um aspecto mais profundo. A familiaridade cria uma imagem mental fixa da pessoa, montada com os dados antigos. Quando a pessoa real passa a não caber mais nessa imagem, a mente tem duas saídas: atualizar a imagem ou rejeitar a pessoa. Atualizar custa caro, porque obriga a revisar tudo o que se construiu em cima da imagem antiga, inclusive a própria posição relativa dentro do grupo. Rejeitar é barato, e Nazaré escolheu o barato.

Existe ainda uma ironia amarga na cena. A proximidade deveria ser vantagem. Eles conviveram com Jesus por décadas, viram o caráter dele de perto, tiveram acesso que ninguém em Jerusalém teve. Essa vantagem virou obstáculo. O que deveria fundamentar a confiança virou a razão da recusa. É por isso que a imagem da pedra de tropeço encaixa tão bem: a pedra não está no caminho de quem está longe, está no caminho de quem anda ali todos os dias.

7. Aplicações Práticas

1. Separe a mensagem do mensageiro. Quando alguém disser algo verdadeiro, a verdade não muda porque a pessoa é o seu vizinho, o seu irmão mais novo ou um antigo colega. Faça a pergunta certa: isto é verdade? Deixe a origem para depois.

2. Revise as imagens antigas que você guarda das pessoas. Alguém da sua convivência mudou nos últimos anos e você continua tratando essa pessoa pelo que ela era. Vale conferir, com honestidade, se a sua imagem ainda corresponde à realidade.

3. Espere resistência justamente de onde você espera apoio. Isso não é pessimismo, é preparo. Quem se prepara para essa possibilidade não se desmonta quando ela acontece e não desiste do chamado por causa dela.

4. Não confunda rejeição com veredito final. A família de Jesus não creu no começo e depois creu. As posições das pessoas mudam. Continue firme e continue disponível.

5. Preste atenção em como você reage quando é contrariado. Se a sua primeira reação é lembrar quem é a pessoa que discordou, em vez de examinar o que ela disse, você está repetindo o gesto de Nazaré.

6. Honre quem trabalha perto de você. O reconhecimento costuma ir para quem está longe e para quem chega de fora. Diga em voz alta o valor do trabalho de quem está ao seu lado todos os dias.

7. Quando a porta fechar, ande. Jesus não ficou discutindo em Nazaré. Segundo Mateus 13:58, ele fez poucos milagres ali por causa da incredulidade, e seguiu adiante. Insistir onde não há abertura consome o tempo que outro lugar aproveitaria.

8. Perguntas e Respostas

1. Como a reação da cidade natal de Jesus reflete a nossa própria tendência de descartar a obra de Deus em ambientes familiares?

Nazaré tinha todos os dados na mão: a sabedoria do ensino, os relatos dos milagres e décadas de convivência com o caráter de Jesus. Mesmo assim, o povoado usou o que sabia para fechar a porta, e não para abri-la. Nós fazemos o mesmo quando tratamos o que é próximo como automaticamente menor. Um conselho de casa vale menos do que o mesmo conselho num livro. Um trabalho feito pelo colega de sala vale menos do que o trabalho de um desconhecido com título. O critério deixou de ser o conteúdo e passou a ser a distância.

2. De que maneiras podemos garantir que honramos e respeitamos aqueles que trazem a mensagem de Deus, mesmo quando são pessoas conhecidas nossas?

De maneira bem prática: ouvindo até o fim antes de responder, avaliando o argumento pelo que ele diz, dizendo em voz alta o que reconhecemos de bom, e evitando o gesto de lembrar publicamente a origem de alguém como forma de reduzir o que essa pessoa acabou de falar. Honra, no sentido bíblico, é dar peso. É aceitar que aquela pessoa pode estar certa e que isso pode custar a nós uma mudança.

3. Como cultivar uma fé que enxerga além do comum e reconhece a presença e a obra de Deus na nossa vida?

Começa por aceitar que Deus trabalha dentro do comum. O relato de Nazaré só é escandaloso porque o povoado esperava que o extraordinário viesse embrulhado em algo extraordinário. Uma fé que enxerga é uma fé que examina antes de descartar, que separa um tempo para olhar de novo o que já virou paisagem, e que aceita ser surpreendida pelo lugar de onde a resposta vem.

4. Quais passos práticos podemos dar para perseverar no nosso chamado, mesmo diante da rejeição ou da incompreensão?

Primeiro, definir a fonte da própria identidade. Se ela vem da aprovação do grupo, a rejeição destrói. Se vem do chamado, a rejeição dói, mas não destrói. Segundo, manter um pequeno círculo de pessoas com quem se pode falar com franqueza. Terceiro, distinguir a crítica útil da recusa social, porque a primeira corrige e a segunda apenas pressiona. Quarto, seguir andando, como Jesus fez, sem transformar o lugar da recusa no centro da sua história.

5. Como a experiência de outros profetas, como Jeremias e Isaías, ajuda a entender os desafios que Jesus enfrentou e os que nós podemos enfrentar hoje?

Ela mostra que o caso de Nazaré não foi um acidente. Jeremias ouviu ameaça de morte vinda dos homens de Anatote, a sua própria terra, segundo Jeremias 11:21. Isaías 53:3 descreve o servo como desprezado e rejeitado. Quando Jesus cita o ditado do profeta sem honra, ele coloca a si mesmo dentro dessa linha e, ao mesmo tempo, oferece uma chave de leitura: a rejeição pelos seus não é prova de que a mensagem é falsa. Às vezes, é justamente o contrário.

9. Conexão com Outros Textos

João 1:11 — este versículo destaca o tema de Jesus ser rejeitado pelo seu próprio povo, de modo semelhante à rejeição que ele enfrenta na sua cidade natal. "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam."

Lucas 4:24 — esta passagem é paralela a Mateus 13:57, onde Jesus repete o princípio de que um profeta fica sem honra na sua própria terra. "E disse: Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra."

Marcos 6:4 — outro relato do ensino de Jesus em Nazaré, enfatizando a descrença daqueles que o conheciam. "E Jesus lhes dizia: Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra, entre os seus parentes e na sua própria casa."

Jeremias 11:21 — o profeta Jeremias também enfrentou rejeição do seu próprio povo, ilustrando uma experiência comum aos mensageiros de Deus. "Assim diz o SENHOR acerca dos homens de Anatote, que procuram a tua vida, dizendo: Não profetizes em nome do SENHOR, para que não morras pelas nossas mãos."

Isaías 53:3 — esta profecia fala do Messias desprezado e rejeitado, o que se cumpre na experiência de Jesus. "Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum."

Além dessas ligações trazidas pela Study Bible, o próprio capítulo 13 de Mateus prepara o terreno. No verbo do versículo 57 aparece a mesma raiz do substantivo skandalon, usado em Mateus 13:41, quando o Filho do Homem manda recolher do seu reino todos os escândalos, isto é, tudo o que faz tropeçar. O capítulo começa falando de tropeço como algo que se remove e termina com o próprio Jesus na função de pedra em que a aldeia tropeça.

Essa imagem vem de Isaías 8:14, onde o SENHOR é descrito como santuário, mas também como "pedra de tropeço e rocha de ofensa às duas casas de Israel". O Novo Testamento retoma o texto duas vezes de forma explícita. Em Romanos 9:33, Paulo cita a pedra de tropeço para explicar por que Israel não alcançou a justiça que buscava. Em 1 Pedro 2:8, a mesma pedra aparece como "pedra de tropeço e rocha de escândalo" para os que não creem, e como pedra angular para os que creem. A leitura é coerente: a mesma pedra sustenta ou derruba, dependendo da postura de quem chega até ela.

10. O Original Grego e a Sua Análise

Texto grego (Textus Receptus, Stephanus 1550): καὶ ἐσκανδαλίζοντο ἐν αὐτῷ. ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς, Οὐκ ἔστιν προφήτης ἄτιμος εἰ μὴ ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ καὶ ἐν τῇ οἰκίᾳ αὑτοῦ.

Transliteração: kai eskandalizonto en autō. ho de Iēsous eipen autois, Ouk estin prophētēs atimos ei mē en tē patridi autou kai en tē oikia autou.

Palavra por palavra:

kai (καὶ) — "e", conjunção.
eskandalizonto (ἐσκανδαλίζοντο) — "ficavam escandalizados", verbo no imperfeito, voz média ou passiva, terceira pessoa do plural.
en (ἐν) — "em", preposição.
autō (αὐτῷ) — "nele", pronome no caso dativo.
ho (ὁ) — artigo definido masculino.
de (δὲ) — "mas", conjunção.
Iēsous (Ἰησοῦς) — "Jesus", substantivo no nominativo.
eipen (εἶπεν) — "disse", verbo no aoristo do indicativo ativo.
autois (αὐτοῖς) — "a eles", pronome no dativo plural.
Ouk (Οὐκ) — "não", advérbio de negação.
estin (ἔστιν) — "é", verbo no presente do indicativo.
prophētēs (προφήτης) — "profeta", substantivo no nominativo.
atimos (ἄτιμος) — "sem honra", adjetivo no nominativo.
ei mē (εἰ μὴ) — "senão", "a não ser".
en tē patridi autou (ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ) — "na terra dele".
kai (καὶ) — "e".
en tē oikia autou (ἐν τῇ οἰκίᾳ αὑτοῦ) — "na casa dele".

Destaque 1: eskandalizonto. O verbo é skandalizō, formado a partir do substantivo skandalon. Na língua comum, skandalon designava a peça móvel da armadilha, o gatilho em que o animal esbarra e que faz a armadilha fechar. Daí o sentido se ampliou para qualquer obstáculo em que se tropeça. Traduzir por "escandalizados" é correto, mas a palavra portuguesa hoje sugere indignação moral, algo próximo de "ficar chocado". O grego é mais físico e mais duro: eles esbarraram nele e caíram. A forma verbal está no imperfeito, tempo que indica ação contínua ou repetida no passado. Não foi um instante de irritação. Foi um estado que se manteve enquanto ele esteve ali.

Destaque 2: atimos. É a palavra timē, "honra", "valor", "preço", com o prefixo de negação a. Literalmente: "sem valor atribuído", "não honrado". No sistema social descrito na segunda seção, atimos não descreve um sentimento ferido, e sim a posição pública de alguém a quem a comunidade recusou reconhecimento. É um termo de peso social, não emocional.

Destaque 3: patridi. Vem de patris, palavra ligada a patēr, "pai". Significa a terra dos pais, o lugar de origem da família. Pode designar a cidade natal ou a região natal. A tradução "sua própria terra" preserva melhor essa raiz do que "sua cidade", porque a palavra grega aponta para a linhagem, e não apenas para o endereço. E é exatamente essa a ferida da cena: a terra dos pais dele foi o lugar que recusou reconhecê-lo.

Uma nota textual, com o grau de certeza declarado. Há uma pequena diferença entre as famílias de manuscritos. O Textus Receptus e o Texto Majoritário trazem en tē patridi autou, "na terra dele". Os textos críticos modernos, como Nestle e Westcott-Hort, trazem apenas en tē patridi, sem o pronome. A diferença não altera o sentido, porque a frase seguinte já diz "na casa dele". Trata-se de uma variação menor, do tipo mais comum na transmissão manual, e o grau de certeza de que o sentido permanece o mesmo é alto. A nossa tradução segue o Textus Receptus e mantém "na sua própria terra".

O ditado fora dos evangelhos. Formas semelhantes do provérbio aparecem em outras fontes antigas. O Evangelho de Tomé, texto do segundo século que não faz parte do cânon, traz no dito 31 uma versão próxima: nenhum profeta é aceito na sua própria aldeia. Um fragmento grego encontrado em Oxirrinco, no Egito, registra formulação semelhante. E autores gregos da Antiguidade registram a ideia geral de que o sábio é mal recebido entre os seus. Diante disso, a hipótese mais razoável é que Jesus não inventou a frase: ele pegou um provérbio corrente e o aplicou a si mesmo. O grau de certeza é moderado, porque não há como provar a direção exata da influência, e parte dessas fontes é posterior aos evangelhos. O que a comparação mostra com segurança é que a frase soava, para quem ouvia, como um dito conhecido, e não como uma novidade.

11. Conclusão

Mateus 13:57 é curto e diz muito. Os vizinhos de Jesus não refutaram nada do que ele ensinou. Admitiram a sabedoria, admitiram os milagres e mesmo assim tropeçaram, porque o problema deles não era o conteúdo, era a pessoa. Alguém que eles conheciam desde criança não podia ocupar aquele lugar. A resposta de Jesus não os ataca: apenas nomeia o padrão. Todo profeta tem honra, menos onde nasceu e menos dentro de casa.

A frase "na sua própria casa" precisa ser lida com honestidade, porque ela inclui a família. Mateus registra isso, Marcos registra também, e João 7:5 diz abertamente que nem os irmãos dele criam nele. Não vale suavizar esse dado nem transformá-lo em drama. É informação do texto, e ela torna a cena mais humana e mais crível.

Mas a história não termina aí, e isso também é honesto dizer. Tiago, irmão de Jesus, aparece depois como líder da igreja em Jerusalém, presidindo a reunião de Atos 15 e sendo chamado por Paulo de "irmão do Senhor" em Gálatas 1:19. E em 1 Coríntios 15:7 Paulo registra uma aparição do ressuscitado a Tiago. Quem não creu no começo aparece depois no centro. A rejeição inicial da família foi real, e a mudança posterior também foi.

Fica então a imagem que atravessa toda a Escritura: a pedra. Em Isaías 8:14 ela é santuário e tropeço ao mesmo tempo. Em Romanos 9:33 e em 1 Pedro 2:8 ela reaparece, ainda com as duas faces. A pedra não muda. O que muda é a posição de quem chega até ela. Em Nazaré, um povoado inteiro esbarrou e caiu. Anos depois, um dos irmãos que estavam ali se apoiou na mesma pedra e ficou de pé.

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