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Mateus 13:58

✍️ Por Alberto Adriano·10 de agosto de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 23 acessos
E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.
Estrada de terra saindo de uma aldeia de pedra da Galileia ao entardecer, com portão simples aberto e oliveiras nas laterais, sob luz baixa e melancólica.

Estudo


E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.

1. Introdução

O capítulo 13 de Mateus começa com uma multidão. É tanta gente na beira do lago que Jesus precisa entrar num barco e falar de lá. Dali ele conta sete parábolas sobre o Reino dos Céus. O capítulo termina de um jeito muito diferente: sem multidão, sem barco, sem entusiasmo, com uma frase curta e seca: "E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles."

O "ali" é Nazaré, a cidade onde ele cresceu. Quem o recusou não eram inimigos declarados: eram vizinhos, gente que o vira crescer e sabia o nome da mãe dele, os nomes dos irmãos, a profissão do pai. Esse conhecimento é que virou obstáculo.

Este é o último versículo do capítulo e funciona como um fecho deliberado. O que as parábolas descreveram em imagens — a semente que cai em terreno duro, o ensino que revela para uns e fica velado para outros — aparece aqui em carne e osso. A rejeição em Nazaré é a demonstração viva do que elas anunciaram.

Há um segundo motivo para o versículo merecer atenção: ele guarda uma das diferenças mais discutidas entre os evangelhos. Marcos, na mesma cena, escreve que Jesus não pôde fazer ali nenhum milagre; Mateus escreve que ele não fez muitos. Pequena no número de letras, enorme no significado. Vamos tratá-la de frente, sem malabarismo e sem usá-la para desmerecer o texto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Nazaré era um povoado pequeno da Galileia, encravado numa encosta, sem importância política nem religiosa. As escavações arqueológicas sugerem algumas centenas de pessoas, vivendo de agricultura e trabalho manual. Não há menção a Nazaré no Antigo Testamento, nem em Flávio Josefo, nem no Talmude antigo: era uma aldeia anônima, à sombra de Séforis.

Numa aldeia desse tamanho, a identidade não era escolhida: era herdada. Você era o filho de fulano, da família tal, do ofício tal. Os versículos anteriores (Mateus 13:54-56) registram essa reação: "Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria, e os irmãos dele Tiago, José, Simão e Judas?" As perguntas não são curiosidade: são a maneira de a aldeia recolocar Jesus no lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

Havia também a questão da honra, que naquela cultura era um bem coletivo e limitado: quando alguém subia, a posição de todos os outros se mexia. Um filho de carpinteiro que volta ensinando na sinagoga e curando doentes não era orgulho automático, e sim ameaça à ordem conhecida. Daí o provérbio que Jesus cita: um profeta não tem honra na própria terra.

Um dado de composição literária fecha o quadro. A maioria dos estudiosos entende que o Evangelho de Marcos foi escrito primeiro, por volta dos anos 65 a 70, e que Mateus, escrito entre os anos 80 e 90, usou Marcos como uma das fontes dele. Grau de certeza: alto, embora não seja consenso absoluto — há uma corrente minoritária que defende a prioridade de Mateus. Esse dado é decisivo para o item 6.

3. Análise Teológica

"E não fez ali muitos milagres,"

Nesta frase, "ele" se refere a Jesus Cristo, que é retratado ao longo dos evangelhos realizando numerosos milagres como sinais da autoridade divina e da compaixão dele. O lugar, "ali", refere-se a Nazaré, a cidade natal de Jesus, conforme indicado antes no capítulo. A falta de milagres em Nazaré é significativa porque contrasta com outras regiões onde Jesus realizou muitos sinais e maravilhas. Isso sugere uma situação singular em Nazaré, onde a familiaridade das pessoas com Jesus como morador local pode ter contribuído para o ceticismo delas. Os milagres de Jesus frequentemente serviam para confirmar os ensinos dele e revelar a identidade dele como o Messias, cumprindo profecias do Antigo Testamento tais como Isaías 35:5-6, que fala da vinda do Messias que realizará curas milagrosas.

"por causa da incredulidade deles."

O termo "incredulidade" destaca um tema recorrente nos evangelhos, no qual a fé é um pré-requisito para experimentar a plenitude do poder e das bênçãos de Jesus. No contexto cultural e histórico do judaísmo do primeiro século, crer em Jesus como o Messias era um afastamento radical das expectativas tradicionais de um líder político ou militar. As pessoas de Nazaré, tendo conhecido Jesus desde a juventude dele, tiveram dificuldade de conciliar a criação comum dele com as afirmações e as obras extraordinárias dele. Essa incredulidade não é meramente dúvida intelectual, mas uma resistência espiritual mais profunda a aceitar a autoridade e a missão de Jesus. A conexão com outras escrituras, tais como Hebreus 11:6, ressalta a importância da fé para agradar a Deus e receber as promessas dele. A incredulidade em Nazaré serve como exemplo de advertência de como a familiaridade e as noções preconcebidas podem impedir a percepção espiritual e a receptividade à obra de Deus.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. Jesus Cristo — A figura central desta passagem. Jesus é o Filho de Deus, realizando milagres e ensinando sobre o Reino dos Céus. O ministério dele é marcado por sinais e maravilhas, que servem para autenticar a autoridade divina e a mensagem dele.

2. Nazaré — A cidade natal de Jesus, onde ele cresceu. Apesar da familiaridade dele com as pessoas, elas tiveram dificuldade de aceitar a natureza e a autoridade divina dele, o que levou a uma falta de fé.

3. A incredulidade — A atitude predominante entre as pessoas de Nazaré, que impediu Jesus de realizar muitos milagres. É um tema significativo, que destaca a importância da fé no recebimento das obras de Deus.

5. Pontos de Ensino

O poder da fé — A fé é um componente decisivo para experimentar a plenitude do poder e das bênçãos de Deus. Sem fé, até mesmo a presença do próprio Jesus teve o impacto dela limitado.

A familiaridade gera desprezo — Às vezes, os que estão mais próximos de nós são os que têm mais dificuldade de enxergar a obra de Deus em nossa vida. Isso exige perseverança e a compreensão de que a rejeição pode fazer parte do caminho cristão.

As consequências da incredulidade — A incredulidade não apenas limita o que Deus faz em nossa vida: revela um coração fechado à verdade e à graça dele.

A importância da honra e do respeito — Reconhecer e honrar a obra de Deus nos outros, especialmente naqueles que nos são familiares, é essencial.

Milagres e fé — Embora os milagres possam fortalecer a fé, eles não a substituem. A fé verdadeira crê no poder e na presença de Deus mesmo quando os milagres não são visíveis.

Uma observação nossa: dizer que a fé é decisiva não é dizer que a quantidade de fé mede o quanto Deus pode agir. Voltaremos a isso no item 6.

6. Aspectos Filosóficos — a diferença entre Mateus e Marcos e a questão da incredulidade que limita

Primeira parte: o que cada evangelho escreveu. Mateus 13:58, na nossa tradução do Textus Receptus: "E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles." Marcos 6:5-6, na mesma cena: "E não pôde fazer ali nenhum milagre, a não ser que, impondo as mãos sobre uns poucos enfermos, os curou. E admirou-se da incredulidade deles."

Leia as duas frases lado a lado, devagar. Marcos diz que Jesus não pôde; Mateus diz que ele não fez. Marcos diz nenhum milagre, com uma exceção que ele mesmo abre em seguida; Mateus diz não muitos. E Marcos acrescenta um detalhe que Mateus não repete: Jesus se admirou com a incredulidade daquela gente. Não é questão de tradução: no grego, Marcos usa o verbo dynamai, "poder, ser capaz de", e Mateus usa poieō, "fazer". Uma frase fala de capacidade; a outra, de decisão.

Segunda parte: como os estudiosos explicam. A explicação mais aceita é direta: Mateus, escrevendo depois e tendo Marcos diante dele como fonte, reescreveu a frase. A formulação de Marcos podia sugerir uma limitação no poder de Jesus, e isso incomodava. Mateus a substituiu por outra, que transfere tudo do campo da capacidade para o campo da escolha — e o espanto de Jesus sumiu.

Grau de certeza: alto quanto ao fato de que as duas frases dizem coisas diferentes — qualquer leitor verifica sozinho. Alto quanto à existência do padrão, porque Mateus faz ajustes semelhantes em outros pontos onde depende de Marcos. Médio a alto quanto à intenção de suavizar aqui, porque intenção de autor é sempre inferência, e não observação.

Terceira parte: o que isso significa — e o que não significa. Duas saídas fáceis estão disponíveis, e ambas são desonestas. A primeira é dissolver a diferença, dizendo que "no fundo os dois estão dizendo a mesma coisa". Não estão: um escolheu um verbo de capacidade e o outro um verbo de ação. A segunda é usar a diferença como prova de que o texto é inventado. Também não: duas testemunhas que descrevem o mesmo acontecimento com palavras diferentes provam que são duas testemunhas, e não uma cópia carbonada. Marcos preservou uma versão constrangedora, que nenhum autor inventaria para promover o próprio herói, e o autor seguinte sentiu necessidade de arredondá-la — sinal de memória antiga e resistente.

É isto que este site chama de invólucro humano: Mateus é um autor, com uma comunidade e um jeito próprio de contar, e trabalha o material que recebe. Não é escândalo nem defeito. E a verdade espiritual da cena — que a recusa de um coração fecha uma porta que Deus respeita — atravessa as duas versões intacta.

Quarta parte: a incredulidade limita a ação de Deus? Há duas leituras sérias. A primeira: nos evangelhos, o milagre pressupõe relação. Ele quase nunca aparece como demonstração de força diante de uma plateia hostil; aparece quando alguém procura, pede, toca, desce um paralítico pelo telhado. Onde não há abertura, não há gesto — não porque falte poder, mas porque falta aquilo a que o poder responde. A incredulidade fechou a porta pelo lado de dentro, e Deus não arromba.

A segunda: Jesus escolheu não fazer, porque aquele não era o momento nem aquele o modo. Sinais diante de gente decidida a não crer viram espetáculo, e espetáculo não converte ninguém — as narrativas mostram pessoas que viram sinais e continuaram onde estavam. O silêncio em Nazaré seria uma forma dura de respeito pela liberdade daquela gente. Não vamos escolher entre as duas à força: Mateus inclina para a segunda, Marcos para a primeira, e ambas conservam o mesmo núcleo — alguma coisa acontece na relação entre a disposição humana e a ação divina, e é real.

Quinta parte: o que este versículo não autoriza. Existe uma leitura popular que precisa ser recusada: a de que, se você tiver fé suficiente, Deus age; e que, se Deus não agiu, a sua fé foi pequena. Ela é abusiva por três motivos. Primeiro, inverte a direção do texto: o versículo descreve uma cidade que recusou ativamente reconhecer quem estava diante dela, e isso não é o mesmo que a pessoa doente que reza com o coração dividido e mesmo assim continua rezando. Segundo, transforma a fé em moeda: se a fé é a quantidade que compra o resultado, Deus vira uma máquina que aceita o pagamento certo — o oposto da graça. Terceiro, é cruel, porque põe a culpa do sofrimento nas costas de quem já sofre. Paulo pediu três vezes para ser livre do espinho na carne e não foi (2 Coríntios 12:7-9), e ninguém o acusa de fé pequena.

Sexta parte: "não muitos" não é "nenhum". Mateus escreve que ele não fez muitos milagres. Marcos, mesmo dizendo que não pôde fazer nenhum, registra em seguida que ele curou uns poucos enfermos impondo as mãos sobre eles. Mesmo na aldeia que o recusou, alguns foram curados. A obra ampla parou; a misericórdia, não. Isso impede a leitura dura — "onde não há fé, Deus nada faz" — e a ingênua — "a fé não faz diferença nenhuma". A porta ficou entreaberta: passou pouca gente, mas passou.

7. Aplicações Práticas

1. Cuidado com o que você já acha que sabe sobre as pessoas. O erro de Nazaré não foi ignorância, e sim excesso de informação antiga. Vale perguntar: eu estou olhando para esta pessoa ou para a versão dela que guardei há dez anos?

2. Rejeição perto de casa não significa que você errou o caminho. Jesus foi recusado pelos que o conheciam desde criança. Se acontece com você, conclua no máximo que a proximidade tem esse efeito.

3. Não use a fé como explicação para o sofrimento dos outros. Diante de uma perda ou de uma doença, a pior coisa que se pode dizer é que faltou fé. Não consola e não é o que o texto ensina.

4. Reveja o que você chama de dúvida. Há diferença entre a dúvida honesta de quem procura e a recusa de quem já decidiu não ver. A primeira convive bem com a fé; a segunda aconteceu em Nazaré.

5. Aceite que Deus respeita a sua recusa. Jesus não forçou Nazaré nem fez um sinal irresistível. Foi embora. A liberdade humana de dizer não é levada a sério — ao mesmo tempo um sinal de respeito e um risco real.

6. Trate as diferenças entre os evangelhos com adultez. Descobrir que Mateus e Marcos escrevem diferente não precisa abalar ninguém: precisa mudar o jeito de ler, com atenção ao autor e ao que ele quis destacar.

7. Não meça a ação de Deus pelo volume. A frase diz "não muitos", e ainda assim alguns foram curados. Quem só reconhece o grande perde o que é discreto.

8. Perguntas e Respostas

1. De que maneira a incredulidade das pessoas de Nazaré serve como advertência para nós na nossa própria caminhada de fé?

Serve porque mostra que o obstáculo mais eficaz não é a distância, e sim a familiaridade mal administrada. Aquela gente teve acesso direto a Jesus e não aproveitou nada, porque já tinha uma explicação pronta para ele. Quem acha que já entendeu alguém para de olhar — e quem parou de olhar não vê o que acontece na frente dele.

2. De que modos a familiaridade com Jesus ou com o Evangelho pode levar à falta de reverência ou de fé na nossa vida?

Pela repetição sem atenção. Textos ouvidos centenas de vezes viram ruído de fundo; rituais de décadas viram automatismo. Não é hipocrisia, é desgaste. O antídoto é trabalhoso: parar num trecho pequeno, ler devagar, aceitar não entender de imediato.

3. Como podemos cultivar um coração de fé aberto a experimentar o poder e os milagres de Deus hoje?

Começando por corrigir a pergunta. Cultivar fé não é acumular intensidade emocional até destravar um resultado: é manter a relação viva, continuar pedindo, honesto sobre a dúvida, presente mesmo quando nada responde. Nos evangelhos, quem recebeu não foi quem tinha mais convicção, e sim quem continuou se aproximando — como o pai que disse "creio; ajuda a minha incredulidade" (Marcos 9:24).

4. Que passos práticos podemos dar para honrar e reconhecer a obra de Deus na vida das pessoas ao nosso redor, especialmente daquelas que conhecemos bem?

Três. Dizer em voz alta o que se percebe de bom, porque reconhecimento não dito não chega a ninguém. Perguntar em vez de supor. E resistir ao impulso de reduzir o outro à origem dele — "ele é só o filho do carpinteiro" foi o erro de Nazaré.

5. Como outras escrituras, tais como Hebreus 11:6, reforçam a mensagem de Mateus 13:58 sobre a necessidade da fé?

Hebreus 11:6 diz que sem fé é impossível agradar a Deus, e que quem se aproxima dele precisa crer que ele existe e recompensa os que o buscam. Note o verbo: buscar. Hebreus fala de direção, não de intensidade. O que faltou em Nazaré foi a busca, não a dose: ninguém ali procurava nada, estavam ocupados em provar que já sabiam quem ele era.

9. Conexão com Outros Textos

Marcos 6:1-6 — A passagem paralela enfatiza o espanto das pessoas diante da sabedoria e dos milagres de Jesus, e ainda assim a rejeição delas por causa da familiaridade e da incredulidade. "E não pôde fazer ali nenhum milagre, a não ser que, impondo as mãos sobre uns poucos enfermos, os curou."

Hebreus 11:6 — Este versículo ressalta a necessidade da fé para agradar a Deus, ligando-se à ideia de que a incredulidade limita a experiência do poder dele. "Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam."

João 4:44 — Jesus menciona que um profeta não tem honra na própria terra, o que se relaciona com a rejeição em Nazaré. "Porque o mesmo Jesus testificou que um profeta não tem honra na sua própria pátria."

Acrescentamos três textos que a tradição de estudo reúne aqui.

Lucas 4:25-29 — A versão de Lucas é a mais dura das três: "E, na sinagoga, ao ouvirem estas coisas, todos se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade."

Romanos 11:20 — Paulo trata do mesmo problema ao falar dos ramos cortados da oliveira: "Bem; por incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé; não te ensoberbeças, mas teme." A palavra que ele usa é a mesma de Mateus, apistia.

Hebreus 3:12-19 — O autor usa a geração do deserto, que viu sinais por quarenta anos e não entrou no descanso prometido: "E vemos que não puderam entrar por causa da incredulidade." Milagre visto de perto não produz fé automaticamente.

10. Original Grego e Análise

Texto grego (Textus Receptus de Stephanus, 1550): καὶ οὐκ ἐποίησεν ἐκεῖ δυνάμεις πολλὰς διὰ τὴν ἀπιστίαν αὐτῶν

Transliteração: kai ouk epoiēsen ekei dynameis pollas dia tēn apistian autōn

Palavra por palavra:

καὶ (kai) — "e". Conjunção que liga a frase ao que veio antes. οὐκ (ouk) — "não". Advérbio de negação usado com o indicativo: nega um fato, e não uma possibilidade.

ἐποίησεν (epoiēsen) — "fez". Verbo poieō, "fazer", no aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular. O aoristo aponta para o ato como um todo, encerrado. ἐκεῖ (ekei) — "ali". Advérbio de lugar, apontando para Nazaré.

δυνάμεις (dynameis) — "milagres". Plural de dynamis, literalmente "poder, força". Nos evangelhos designa o milagre pelo ângulo do poder que o produz, e não pelo espanto que causa. É a raiz que deu, em português, "dínamo". πολλὰς (pollas) — "muitos". Adjetivo no acusativo feminino plural, concordando com dynameis: é esta palavra que faz toda a diferença, transformando uma negação absoluta numa negação parcial.

διὰ (dia) — "por causa de". Preposição que, com acusativo, indica causa, e não instrumento. τὴν (tēn) — artigo definido no acusativo feminino singular; o grego traz "a incredulidade deles": não é genérica, e sim aquela, identificada.

ἀπιστίαν (apistian) — "incredulidade". Substantivo apistia, do prefixo negativo a- mais pistis, "fé, confiança": literalmente, "ausência de confiança". Não descreve um erro de raciocínio, e sim a recusa de confiar. Alguém pode estar convencido de que Deus existe e ainda assim viver em apistia. αὐτῶν (autōn) — "deles". Pronome pessoal no genitivo masculino plural, que atribui essa incredulidade a um grupo determinado.

A comparação decisiva: ouk epoiēsen e ouk edynato

Marcos 6:5 começa assim: καὶ οὐκ ἠδύνατο ἐκεῖ οὐδεμίαν δύναμιν ποιῆσαιkai ouk edynato ekei oudemian dynamin poiēsai, "e não podia fazer ali nenhum ato de poder". Mateus nega o ato; Marcos nega a capacidade. Em Marcos, além disso, o verbo dynamai e o substantivo dynamis são da mesma raiz, e a frase soa como um jogo de palavras que a tradução esconde: "não podia fazer nenhum poder". Mateus desfaz o jogo ao trocar o verbo.

Repare também na negação do objeto: Marcos usa oudemian, "nenhuma", no singular, negação total; Mateus usa pollas, "muitas", no plural, negação parcial. E o tempo muda — Marcos no imperfeito (edynato, estado contínuo), Mateus no aoristo (epoiēsen, ato encerrado). Nada disso é acidente de cópia: o texto de Mateus é estável em todas as famílias de manuscritos. A diferença vem dos autores. Grau de certeza: muito alto.

11. Conclusão

O capítulo 13 de Mateus é uma unidade fechada, e este versículo é a chave que tranca a porta. Ele começou com Jesus dentro de um barco, empurrado para a água pelo tamanho da multidão. Sete parábolas depois, termina numa aldeia pequena, cercado de gente que o conhecia desde menino e não quis saber. Do auge do interesse popular ao fracasso doméstico, no mesmo capítulo, de propósito.

A primeira parábola, a do semeador, dividiu o mundo em quatro solos: o caminho endurecido onde a semente nem entra, o pedregoso onde ela brota e seca, o meio dos espinhos que a sufocam, e a terra boa que dá fruto. Nazaré é o primeiro solo, com nome e endereço. A palavra chegou, foi ouvida na sinagoga, causou espanto — e não entrou. Bateu no chão batido e ficou por cima.

No meio do capítulo, quando os discípulos perguntaram por que ele falava por parábolas, Jesus respondeu com uma frase difícil: a eles era dado conhecer os mistérios do Reino, aos outros não, porque veem e não veem, ouvem e não entendem. A parábola revela e vela ao mesmo tempo. Nazaré é a prova disso funcionando: as mesmas palavras, a mesma voz, dois resultados opostos, conforme o chão em que caem.

O joio e o trigo crescendo juntos, o grão de mostarda que vira árvore, o fermento escondido na massa, o tesouro no campo, a pérola, a rede que apanha de tudo: essas imagens dizem que o Reino não chega com estardalhaço nem convence pela força. Começa pequeno, trabalha escondido, exige que alguém reconheça o valor e venda o que tem para comprar. Um Reino assim pode ser recusado. Nazaré recusou.

E é aqui que a diferença entre Mateus e Marcos ganha o sentido pleno dela. Marcos registrou o constrangimento cru: ele não pôde. Mateus reescreveu: ele não fez. A decisão de um autor humano está diante dos nossos olhos, verificável — não é motivo de escândalo, e sim de leitura mais atenta. Debaixo das duas formulações permanece a mesma cena: um homem sai da cidade onde cresceu, deixando para trás quem não quis receber o que ele tinha para dar.

O que salva o capítulo de terminar no escuro é o "não muitos". A obra grande não aconteceu, mas umas mãos foram impostas sobre uns poucos ombros, e essas pessoas voltaram para casa curadas, no meio de uma cidade que não acreditava em nada daquilo.

Fica, no fim, a imagem da estrada de terra saindo da aldeia. Jesus não derrubou a porta de Nazaré nem fez um sinal grande o bastante para vencer a teimosia coletiva. Ele foi embora, e a liberdade daquela gente foi respeitada até o fim — inclusive a de perder a maior oportunidade que a aldeia teria.

O capítulo 13 abriu com uma multidão na praia e fechou com uma estrada vazia. As sete parábolas explicaram por quê.

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