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Mateus 17:1

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 65 acessos
Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto.
Três homens seguindo Jesus por uma trilha pedregosa na encosta de um monte alto, com a planície ficando para trás.

Estudo


Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto.

1. Introdução

Este versículo abre a cena da transfiguração, e não conta nada do que acontece nela. Ele arma o palco: quando, quem e onde.

O primeiro ponto é o tempo. "Seis dias depois" é uma marcação rara em Mateus, que costuma ligar os episódios com um "então" ou um "naquele tempo". Aqui o texto conta os dias, e Lucas, contando a mesma cena, fala em "cerca de oito".

O segundo é o grupo. Jesus não sobe com os doze. Leva três, e os três nomeados reaparecem juntos, neste evangelho, em uma única outra cena.

O terceiro é o lugar. Um monte alto, sem nome. A tradição cristã deu nome a ele séculos depois, e a geografia discorda da tradição.

O versículo vem logo depois da promessa de que "alguns dos que estão aqui" veriam o Filho do homem vindo em seu Reino. A discussão sobre se a transfiguração cumpre essa promessa pertence ao estudo de Mateus 16:28, e não se reabre aqui. O que é deste versículo é o que ele mesmo diz.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os evangelhos não dizem qual é o monte

Mateus, Marcos e Lucas contam a cena, e nenhum dos três dá nome ao lugar. A segunda carta de Pedro, que menciona o episódio em 2 Pedro 1:18, chama-o de "o monte santo" — também sem nome.

O silêncio é notável num evangelho que acabou de nomear Cesareia de Filipe. E ele abriu espaço para dezessete séculos de propostas.

A tradição do Tabor

O monte Tabor fica na Baixa Galileia, cerca de dezoito quilômetros a oeste do mar da Galileia. Não é alto — tem uns 580 metros de altitude —, mas se destaca porque se ergue isolado, em forma de cúpula, cerca de quatrocentos metros acima da planície de Jezreel. Visto de longe, parece maior do que é.

A identificação com a transfiguração aparece no século IV. Cirilo de Jerusalém (bispo da cidade por volta de 350, autor de catequeses para os que iam ser batizados) dá o Tabor como lugar da cena. Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim, que viveu em Belém) repete a identificação nas cartas e conta que a romana Paula, sua discípula, subiu ao monte na peregrinação que fez à Terra Santa. Há um fragmento mais antigo, atribuído a Orígenes (teólogo de Alexandria do século III), que também citaria o Tabor, mas a atribuição é discutida.

Da tradição nasceram as construções. Um peregrino anônimo que partiu de Piacenza, na Itália, por volta de 570, descreve três igrejas no alto do monte, em memória das três tendas que Pedro propôs. A basílica que o visitante encontra hoje é franciscana e foi inaugurada em 1924.

Um detalhe curioso: o Salmo 89:12 põe os dois candidatos na mesma linha — "o Tabor e o Hermom cantam de alegria ao teu nome". A disputa, de certo modo, já estava num verso.

O que pesa contra o Tabor

Há três objeções, e elas são antigas.

A primeira é que o alto do Tabor era ocupado. Políbio (historiador grego do século II a.C.) conta que o rei Antíoco III tomou a fortaleza do monte, que ele chama de Atabírio, em 218 a.C. E Flávio Josefo, que comandou a defesa da Galileia na revolta contra Roma, escreve na Guerra dos Judeus que mandou cercar o cume com um muro em quarenta dias, no ano 67. Um topo com fortaleza ou povoado não combina com o "sozinhos" do versículo. Não se sabe, porém, se havia gente morando ali por volta do ano 30, e a objeção depende disso.

A segunda é de altura. O Tabor chama atenção pela forma, não pela altitude, e "monte alto" é descrição estranha para ele.

A terceira é de itinerário. A cena anterior se passa na região de Cesareia de Filipe, no extremo norte. Mateus só volta a falar da Galileia em Mateus 17:22, e Marcos 9:30 diz que, depois do episódio, eles "atravessaram a Galileia" — o que sugere que vinham de fora dela.

O Hermom

A proposta moderna mais comum é o Hermom, a montanha a cujo pé fica Cesareia de Filipe. A localização da cidade, a altitude e a neve estão no estudo de Mateus 16:13, e não se repetem aqui.

O Hermom resolve as três objeções: fica perto da cena anterior, é de fato alto e tem encostas desabitadas. Contra ele pesa a própria altura — ninguém sobe e desce um cume daquele porte com facilidade, e a proposta costuma supor uma encosta, não o topo — e o que se passa ao pé do monte depois: Marcos 9:14 fala de mestres da lei discutindo com os discípulos, cena mais provável em região judaica do que no território de maioria não judaica em torno de Cesareia.

Uma terceira proposta

Há quem proponha o monte Meron, o ponto mais alto da Galileia, com cerca de 1.200 metros. É uma solução de meio-termo: mais alto que o Tabor, mais perto das aldeias judaicas que o Hermom. Não tem tradição antiga a favor.

O limite

Não é possível decidir. A tradição do Tabor é antiga, mas vem três séculos depois da cena. O argumento geográfico favorece o Hermom, mas é argumento, não registro. E o texto, que poderia ter resolvido a questão com uma palavra, preferiu não a escrever.

3. Análise Teológica do Versículo

"Seis dias depois"

A marcação chama a atenção porque Mateus quase nunca conta dias entre um episódio e outro. Ele liga as cenas com "então", "naquele tempo", "saindo dali". Fora da narrativa da paixão, onde as datas se acumulam, uma ligação tão exata é rara.

O efeito é colar esta cena à anterior. O que aconteceu seis dias antes foi o primeiro anúncio da morte, a repreensão de Pedro, as condições para seguir Jesus e a promessa de Mateus 16:28. Mateus não quer que o leitor chegue ao monte esquecido disso.

Lucas 9:28 diz "cerca de oito dias depois destas palavras". As harmonizações são conhecidas: Lucas contaria o dia de partida e o de chegada; ou "oito dias" seria o modo corrente de dizer "uma semana". As duas são plausíveis, e nenhuma é demonstrável. O que a diferença mostra com segurança é que Lucas não dava ao número o peso que Mateus e Marcos dão.

Por que seis? Há três leituras.

A primeira aponta para o Sinai. Êxodo 24:16 diz que a glória do SENHOR pousou sobre o monte e a nuvem o cobriu por seis dias; no sétimo, Deus chamou Moisés do meio da nuvem. Na cena de Mateus também haverá monte, Moisés, nuvem e voz. É a leitura com mais apoio, porque o paralelo não depende de um detalhe só. A nuvem é assunto do versículo 5.

A segunda lê o número como simples memória do intervalo, sem simbolismo. É a leitura mais econômica, e explica por que Lucas o arredonda sem prejuízo.

A terceira liga os seis dias ao calendário das festas de outono, e é tratada no versículo 4, onde entra a festa das Tendas.

Mateus não explica o número. Qualquer das três é leitura de quem comenta.

"Jesus levou consigo"

O verbo é o de tomar alguém e levá-lo junto, sob a própria condução. Mateus o usa para José levando Maria e o menino, nas fugas e na volta do Egito, e o usará para o Getsêmani, quando Jesus leva de novo três discípulos.

E há um uso que salta aos olhos: em Mateus 4:8, o diabo "o levou a um monte muito alto" e lhe mostrou os reinos do mundo e a glória deles. Os dois montes altos do evangelho têm, portanto, a mesma estrutura — alguém conduz, sobe-se, e algo é mostrado. No primeiro, a glória oferecida vinha do adversário; no segundo, quem conduz é Jesus. Mateus não comenta a simetria, e ela pode ser coincidência de vocabulário. Mas o leitor que conhece o capítulo 4 tende a senti-la.

"Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago"

Três nomes, e nenhuma explicação para a escolha.

Em Mateus, esse trio aparece separado do grupo em só mais uma cena: o Getsêmani, em Mateus 26:37, onde o texto diz "Pedro e os dois filhos de Zebedeu". Marcos traz o trio também na casa de Jairo, mas Mateus, ao contar a mesma cura, não o menciona. O resultado, neste evangelho, é um par de cenas: os mesmos três veem o rosto de Jesus brilhar num monte e o veem prostrado de angústia no outro. Mateus não faz a ligação por escrito; ele a faz com os nomes.

Por que esses três? O texto não diz, e as respostas propostas são reconstruções. Pedro acabara de receber o nome de pedra e, logo depois, de ser chamado de tropeço. Tiago e João são os filhos de Zebedeu cuja mãe, em Mateus 20:20-23, pedirá para eles os lugares à direita e à esquerda — e a quem Jesus perguntará se podem beber o cálice. É plausível que o grupo reúna quem mais queria proximidade, e é igualmente plausível que reúna quem mais precisaria ver. Nenhuma das duas está no texto.

Um detalhe menor: João é identificado pelo irmão, e não o contrário. Nas listas dos evangelhos, Tiago costuma vir antes, e é provável que fosse o mais velho. A fama posterior de João não aparece aqui.

O que foi feito dos três depois — a morte de Tiago e as tradições sobre Pedro e João — está no estudo de Mateus 16:28.

"e os conduziu, sozinhos"

A expressão "à parte" é a mesma que Mateus usa quando Jesus se retira sozinho; o conjunto das ocorrências está no estudo de Mateus 14:13.

O que ela faz aqui é excluir. Nove discípulos ficam embaixo, e o capítulo vai mostrá-los no versículo 16, diante de um menino que não conseguiram curar. O texto põe lado a lado os três que viram e os nove que falharam, e não diz que uma coisa tem a ver com a outra.

Há ainda uma leitura que os comentaristas antigos gostavam de lembrar: três é o número de testemunhas que a lei de Israel exige para confirmar um fato, em Deuteronômio 19:15 ("pelo depoimento de duas ou três testemunhas"). É leitura possível, e o próprio evangelho usa a regra em Mateus 18:16. Mas Mateus não a cita aqui.

"a um monte alto"

O monte não tem nome, e a discussão sobre qual seria está no item 2. O papel dos montes no evangelho de Mateus — o sermão, a cena final, os retiros — foi tratado no estudo de Mateus 14:23.

O que é próprio deste versículo é o adjetivo. "Alto" não acrescenta informação geográfica útil; acrescenta distância. E os dois homens que vão aparecer no versículo 3 tiveram, cada um, o seu encontro com Deus num monte: Moisés no Sinai, Elias no Horebe. O leitor judeu que ouve "monte alto" já espera alguma coisa.

O que o versículo não diz

Não diz para que subiram. Lucas 9:28 diz que Jesus subiu "para orar"; Mateus não dá motivo. Não diz se os três sabiam o que ia acontecer. E não diz nada sobre os seis dias — o que se falou, onde estiveram, o que pensaram depois da repreensão a Pedro. O texto conta o intervalo e o deixa vazio.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

É ele quem toma a iniciativa: leva, conduz, escolhe. Nos versículos seguintes, a iniciativa passa para outros — para quem o transfigura, para os que aparecem, para Pedro, para a voz — e só volta a ele no versículo 7.

Pedro

Simão, filho de Jonas, pescador de Cafarnaum. Seis dias antes, foi chamado de bem-aventurado e, logo em seguida, de Satanás, em Mateus 16:17-23. É ele quem vai falar no versículo 4.

Tiago, filho de Zebedeu

Pescador do mar da Galileia, chamado junto com o irmão em Mateus 4:21-22, quando consertavam as redes no barco do pai. Aparece em terceiro lugar na lista dos doze, em Mateus 10:2. Não deve ser confundido com Tiago, filho de Alfeu, nem com Tiago, irmão de Jesus.

João, irmão de Tiago

O outro filho de Zebedeu. Neste evangelho ele não fala sozinho em nenhuma cena; a tradição que o liga ao quarto evangelho e às cartas com o seu nome é posterior, e a autoria desses textos é discutida.

Os nove que ficaram

O versículo não os nomeia, mas eles existem na cena. André, irmão de Pedro, está entre eles — o que mostra que a escolha não seguiu a ordem de chamado nem o parentesco. Reaparecem em Mateus 17:16.

O lugar

Um monte não identificado. As propostas — Tabor, Hermom e Meron — estão no item 2. O ponto de partida é a região de Cesareia de Filipe, descrita no estudo de Mateus 16:13.

O acontecimento, nos três evangelhos

Marcos 9:2 conta a subida com as mesmas informações de Mateus: seis dias, os três, o monte alto, a sós. Lucas 9:28 muda o intervalo para "cerca de oito dias" e acrescenta o motivo da subida, a oração. João não conta a transfiguração.

Fora dos evangelhos, a única menção do Novo Testamento é 2 Pedro 1:16-18, em que o autor se apresenta como testemunha do que aconteceu no monte. O uso que essa carta faz do episódio foi tratado no estudo de Mateus 16:28.

5. Pontos de Ensino

A revelação vem colada ao anúncio da cruz

Mateus não deixa a cena do monte flutuar solta. Os "seis dias" a amarram à conversa sobre sofrimento, morte e renúncia. Quem lê o monte sem o capítulo anterior lê outra coisa.

A escolha não é explicada

Três sobem, nove ficam. O texto não justifica a seleção, não elogia os escolhidos e não censura os que ficaram. Toda tentativa de transformar a escolha em mérito é acréscimo de quem lê.

O lugar importa menos do que o que aconteceu nele

O evangelho que nomeia Cesareia de Filipe, Cafarnaum e Betsaida deixa este monte sem nome. A devoção posterior fixou o lugar e construiu igrejas nele. O texto não pediu isso.

O que se sabe da cena vem de poucos

O relato depende de três testemunhas, e o versículo 9 vai mandar que elas se calem por um tempo. A tradição cristã inteira recebeu o episódio pela boca de quem estava lá — e o texto não esconde que eram só três.

6. Aspectos Filosóficos

A experiência de poucos e a fé de muitos

O versículo levanta uma questão antiga no pensamento sobre religião: o que vale, para quem não estava lá, o que só alguns viram?

Há duas posições clássicas. Uma sustenta que o testemunho de gente confiável é fonte legítima de conhecimento — a maior parte do que qualquer pessoa sabe sobre o mundo vem de relato alheio, não de observação própria. A outra sustenta que um acontecimento extraordinário exige mais do que testemunho, e que três pessoas de um mesmo grupo, falando anos depois, são pouco para sustentar algo fora do comum.

O texto não entra nessa discussão, mas se coloca dentro dela sem disfarce. Ele não diz que a multidão viu. Diz que três viram, e que o resto soube por eles. Quem escreve assim não está tentando fabricar uma prova ampla; está registrando uma testemunha estreita.

Há uma segunda questão, mais incômoda: a da escolha. Se a revelação é dada a alguns e não a outros, em que isso difere de um privilégio? O versículo não responde, e o capítulo, ao mostrar os nove falhando no vale, deixa a pergunta mais aguda, não menos.

7. Aplicações Práticas

Quem não subiu também faz parte da história

Os nove não foram expulsos de nada. Ficaram embaixo, e o capítulo continua com eles. Em grupos de trabalho, de família ou de igreja, sempre há momentos em que alguns são chamados e outros não. O texto não trata os que ficam como menores, e quem lidera pode aprender com essa discrição: escolher sem humilhar e sem explicar mais do que se sabe.

Não transformar proximidade em hierarquia

Tiago e João vão pedir, três capítulos adiante, os lugares de honra. Ter estado perto numa hora importante não deu a eles direito a nada, e Jesus vai dizer isso. Quem já foi escolhido para algo especial faz bem em lembrar que a escolha não vira título.

Onde a aplicação não vai

O versículo não ensina a buscar experiências de monte, nem a procurar lugares santos. Ele conta uma subida que não foi pedida por quem subiu.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jesus não levou os doze?

O texto não diz. O que se pode observar é que o evangelho não trata a escolha como segredo constrangedor nem como honra a comentar: registra e segue. As explicações que falam em maturidade, fé maior ou preparação para liderança são leituras, e nenhuma se apoia numa frase de Mateus.

O que aconteceu nos seis dias?

Nada é contado. Mateus passa da última frase de Mateus 16:28 direto para a subida. A pregação às vezes preenche o intervalo com a tristeza dos discípulos ou com a reconciliação de Pedro — tudo isso é invenção piedosa, por mais plausível que pareça.

Faz diferença saber qual é o monte?

Para a leitura do texto, pouca. Para a história da devoção, muita: o Tabor recebeu igrejas, peregrinos e uma festa, e a identificação moldou a imagem que gerações fizeram da cena. Mas quem visita o Tabor hoje visita a tradição, e não um lugar comprovado.

Os outros discípulos ficaram sabendo?

Não durante a vida de Jesus, se a ordem do versículo 9 foi obedecida. O texto não registra quando os três contaram, nem como os outros receberam a notícia.

9. Conexão com Outros Textos

Os paralelos

Marcos 9:2 — "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou, só eles, a um monte alto, à parte. E foi transfigurado diante deles."

A mesma marcação de tempo e o mesmo grupo. Mateus segue Marcos de perto neste versículo.

Lucas 9:28 — "Cerca de oito dias depois destas palavras, tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte para orar."

O intervalo arredondado, o motivo da subida e uma ordem diferente dos nomes: João antes de Tiago.

O Sinai

Êxodo 24:16 — "A glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias. No sétimo dia, o SENHOR chamou Moisés do meio da nuvem."

A leitura mais apoiada para os "seis dias".

Êxodo 24:1 — "Depois disse a Moisés: Suba ao SENHOR, você, Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel; e adorem de longe."

Também no Sinai sobe um grupo nomeado de três, além de Moisés. O paralelo é lembrado com frequência, e não se deve forçar: ali há ainda setenta anciãos.

Os outros montes altos e o outro trio

Mateus 4:8 — "Novamente o diabo o levou a um monte muito alto, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles,"

O outro "monte alto" do evangelho, com o mesmo verbo de conduzir.

Mateus 26:37 — "Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se profundamente."

A única outra cena em que Mateus separa os três.

Os dois montes do salmo

Salmo 89:12 — "O norte e o sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom cantam de alegria ao teu nome."

Os dois candidatos à cena, lado a lado, muitos séculos antes dela.

O testemunho posterior

2 Pedro 1:18 — "Nós mesmos ouvimos essa voz vinda do céu, quando estávamos com ele no monte santo."

O monte é chamado de santo, e continua sem nome.

Deuteronômio 19:15 — "Uma só testemunha não bastará contra alguém em qualquer culpa ou pecado; pelo depoimento de duas ou três testemunhas o fato será confirmado."

A regra que alguns comentaristas leem por trás do número de discípulos. Mateus não a cita aqui.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto.

Texto grego

Καὶ μεθ᾽ ἡμέρας ἓξ παραλαμβάνει ὁ Ἰησοῦς τὸν Πέτρον καὶ Ἰάκωβον καὶ Ἰωάννην τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ, καὶ ἀναφέρει αὐτοὺς εἰς ὄρος ὑψηλὸν κατ᾽ ἰδίαν.

Transliteração

Kai meth' hēmeras hex paralambanei ho Iēsous ton Petron kai Iakōbon kai Iōannēn ton adelphon autou, kai anapherei autous eis oros hypsēlon kat' idian.

Análise palavra por palavra

Καὶ μεθ᾽ ἡμέρας ἕξ — kai meth' hēmeras hex, "e depois de seis dias".

A preposição meta, com o acusativo, indica tempo posterior: depois de. É a construção normal para intervalos, e não carrega nuance. O número vem por último, o que em grego dá a ele certo destaque, mas a ordem é comum e não se deve exagerar o efeito.

O "e" inicial liga a frase à anterior, sem pausa. No texto corrido, esta oração segue imediatamente o fim de Mateus 16:28.

παραλαμβάνει — paralambanei, "toma consigo", "leva consigo".

Verbo composto de para (junto, ao lado) e lambanō (tomar, receber). O sentido é tomar alguém para junto de si, geralmente para conduzi-lo a algum lugar.

A forma é o presente, embora a narrativa esteja no passado. É o chamado presente histórico: o grego usa o tempo presente para narrar um fato passado e dar-lhe vivacidade, como o português faz em "e então ele chega e diz". Marcos o usa com frequência; Mateus costuma trocá-lo pelo passado, e aqui o conservou — nos dois verbos da frase.

Em Mateus o verbo aparece para José, que "tomou" Maria (Mateus 1:24) e "tomou" o menino e a mãe (Mateus 2:14, 21); para o diabo, que "levou" Jesus à cidade santa e ao monte muito alto (Mateus 4:5, 8); e para o Getsêmani (Mateus 26:37). O ponto comum é a condução: quem toma é quem decide o caminho.

τὸν Πέτρον καὶ Ἰάκωβον καὶ Ἰωάννην — ton Petron kai Iakōbon kai Iōannēn, "Pedro, Tiago e João".

Um único artigo antecede os três nomes. Em grego, um artigo que governa uma série costuma apresentá-la como um conjunto. É detalhe gramatical pequeno, e combina com o que o versículo faz: tratar os três como um grupo definido.

τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ — ton adelphon autou, "o irmão dele".

O pronome se refere a Tiago, o nome imediatamente anterior. A tradução ABC desfaz a ambiguidade do português escrevendo "irmão de Tiago", já que "seu irmão" poderia ser lido como irmão de Jesus ou de Pedro.

καὶ ἀναφέρει αὐτούς — kai anapherei autous, "e os leva para cima".

Verbo composto de ana (para cima) e pherō (levar, carregar). O sentido básico é físico: conduzir para o alto.

O verbo tem uma segunda vida. Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita antes de Cristo), ele é a palavra técnica para "oferecer em sacrifício", porque a oferta subia ao altar. É o verbo de Gênesis 22:2 na versão grega — "ofereça-o ali em holocausto sobre um dos montes" — e o de Tiago 2:21, quando fala de Abraão "oferecendo" Isaque sobre o altar. Hebreus 7:27 o usa para os sacrifícios dos sacerdotes.

Isso não quer dizer que Mateus pense em sacrifício aqui. O uso simples de "levar para cima" está bem documentado, e a subida a um monte o explica sem mais nada. Registra-se o outro uso porque ele existe, e porque a coincidência com Gênesis 22 — um pai, um monte, um filho amado — já foi notada por outros caminhos, no estudo de Gênesis 22:16. A ligação intencional é hipótese.

εἰς ὄρος ὑψηλόν — eis oros hypsēlon, "a um monte alto".

Oros é monte, montanha, região elevada. Hypsēlos é alto, elevado — e, em sentido figurado, soberbo, altivo.

Não há artigo: é "um" monte, não "o" monte. O texto não o apresenta como lugar conhecido. Em Mateus 4:8, o monte da tentação é oros hypsēlon lian, "monte alto demais", com um advérbio de intensidade. Aqui o adjetivo vem sem reforço.

κατ᾽ ἰδίαν — kat' idian, "à parte", "em particular".

Expressão idiomática, analisada no estudo de Mateus 14:23. Na ordem grega ela fecha a frase, depois do monte, e pode qualificar tanto a subida ("levou-os à parte") quanto o grupo ("só eles"). A tradução ABC optou pela segunda, com "sozinhos".

11. Conclusão

O versículo não traz nenhum acontecimento extraordinário, e ainda assim decide a leitura do que vem.

A primeira conclusão é sobre o tempo. Mateus conta os dias, coisa que quase não faz, e com isso impede que a cena do monte seja lida separada do anúncio da morte. A glória que vai aparecer foi mostrada a quem, seis dias antes, ouviu falar de cruz.

A segunda é sobre o grupo. Os três que sobem são os mesmos que o evangelho levará ao Getsêmani. Mateus não comenta a ligação, mas a constrói com os nomes, e isso basta para que as duas cenas se expliquem uma pela outra.

A terceira é sobre o lugar. O texto não quis dar nome ao monte, e a disputa entre Tabor e Hermom mostra que o silêncio não foi preenchido por nenhum dado seguro. O que se tem é tradição de um lado e argumento do outro.

A quarta é sobre o que falta. Não se sabe o motivo da subida em Mateus, nem o critério da escolha, nem o que se passou nos seis dias. Quem narra o intervalo, o motivo ou a escolha está escrevendo por conta própria.

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