Depois de despedir a multidão, subiu sozinho ao monte para orar. Ao cair da noite, estava ali sozinho.
1. Introdução
Finalmente ele consegue.
Despediu a multidão, subiu ao monte e ficou sozinho para orar.
É o que ele tinha tentado no versículo 13, quando soube da morte de João e pegou um barco.
Levou o dia inteiro. Mas aconteceu.
2. Contexto Histórico e Cultural
O retiro adiado
Vale ligar este versículo ao 13.
Lá, ele se retirou para um lugar deserto, sozinho — e a multidão o alcançou.
Aqui, ele consegue.
Entre uma coisa e outra: um dia inteiro de curas, uma discussão com os discípulos, a alimentação de milhares e a dispersão da multidão.
O que ele queria de manhã acontece à noite.
"Sozinho", duas vezes
O texto repete a informação.
Subiu sozinho ao monte. E, ao cair da noite, estava ali sozinho.
A repetição enfatiza. O texto quer que o leitor registre o isolamento.
Para orar
É a primeira menção explícita de oração de Jesus em Mateus depois do batismo.
Marcos e Lucas registram outros momentos. Mateus é econômico nesse ponto.
Vale notar que o texto não diz o conteúdo. Não há registro do que ele orou.
O monte
Lugar elevado, à parte.
Em Mateus, o monte é cenário recorrente: o sermão, a transfiguração, a comissão final.
Aqui, é apenas onde ele fica sozinho.
3. Análise Teológica do Versículo
"Depois de despedir a multidão"
O particípio é de apolýō, e esta é a terceira vez que o verbo aparece no capítulo.
Vale registrar o percurso completo, porque ele se fecha aqui.
No versículo 15, os discípulos pediram que a multidão fosse despedida, e o pedido foi recusado. No versículo 22, ele mesmo dispensa a multidão. E aqui a ação é retomada em particípio, como pressuposto do que vem em seguida.
O que o verbo estabelece é o encerramento do dia público. Não há mais ninguém para atender.
Vale notar que o dispensar acontece agora sem qualquer discussão. No versículo 15 havia um debate sobre a conveniência; aqui, não há uma palavra. O ato que fora tema de conflito virou frase subordinada.
"subiu ao monte"
O verbo é anébē, aoristo de anabaínō, subir. E o substantivo vem com artigo: eis tò óros, "para o monte".
O artigo é curioso. Não se diz "para um monte", como se fosse qualquer elevação. Diz-se "o monte".
Convém não exagerar, porque em grego o artigo às vezes marca apenas aquilo que é conhecido do contexto — o monte que ficava ali, a encosta próxima. Não é possível decidir.
Mas vale conhecer o papel que os montes têm no evangelho de Mateus, porque ele é notável.
É num monte que ele se assenta para pronunciar o discurso mais longo do evangelho. É a um monte que sobe depois de curar multidões, no capítulo 15. É a um monte alto que leva três discípulos, no capítulo 17, para a cena da transfiguração. É no monte das Oliveiras que profere o discurso sobre o fim. E é num monte da Galileia, no último versículo do livro, que os onze se reúnem com ele.
Ou seja: os momentos decisivos deste evangelho acontecem em elevações.
Registro que Mateus não comenta esse padrão em lugar nenhum, e que o relevo da Galileia torna montes um cenário natural. A observação é do leitor, apoiada na distribuição das cenas.
E há o fundo do Antigo Testamento, que dá espessura à cena.
No Sinai, Moisés sobe ao monte e o povo permanece embaixo. Ele fica lá quarenta dias e quarenta noites, e desce com as tábuas.
No Horebe, Elias chega depois de uma vitória pública espetacular e de uma fuga desesperada. Ali, na boca da caverna, passa o vento que fende as montanhas, o terremoto e o fogo — e Deus não está em nenhum deles. Depois, uma voz suave e delicada.
Vale reparar na estrutura do episódio de Elias, porque ela se parece com a desta noite: um acontecimento público de grande porte, seguido de retirada solitária para um monte.
Registro o paralelo como leitura de estrutura. Mateus não cita nenhum dos dois textos aqui, e a semelhança é de situação, não de vocabulário.
"sozinho"
A expressão grega é kat' idían — literalmente "por conta própria", "à parte", "em particular".
E aqui está o dado mais preciso do versículo, aquele que amarra o capítulo inteiro.
Esta é exatamente a mesma expressão do versículo 13.
Lá está escrito que, ao ouvir a notícia da morte de João, ele se retirou de barco para um lugar deserto, kat' idían. Aqui, dez versículos depois, ele sobe ao monte kat' idían.
A frase que abriu o bloco reaparece no fim dele, palavra por palavra.
Vale medir o que aconteceu entre uma e outra. Ele saiu de barco procurando ficar só. Encontrou uma multidão. Curou os doentes. Discutiu com os discípulos sobre o jantar. Alimentou milhares. Viu recolherem doze cestos. Forçou os discípulos a embarcar. Dispensou a multidão.
E então, finalmente, conseguiu o que pretendia de manhã.
Registro que essa leitura não depende de nenhuma interpretação: depende apenas de notar que a mesma expressão grega aparece nos dois pontos. É dado do texto.
E há mais. A palavra "sozinho" aparece duas vezes neste versículo. Primeiro kat' idían, e depois mónos, no fim: "estava ali sozinho".
São dois termos diferentes para a mesma ideia, na mesma linha. O evangelista insiste.
"para orar"
O infinitivo é proseúxasthai, de proseúchomai — orar, dirigir-se a Deus. Está construído como infinitivo de finalidade: subiu a fim de orar.
Vale saber o quanto isso é raro neste evangelho.
Mateus registra Jesus retirando-se para orar em dois lugares apenas: aqui e no Getsêmani, no capítulo 26.
Fora esses, há a oração de agradecimento ao Pai no capítulo 11, há a menção de que impôs as mãos e orou pelas crianças no capítulo 19, e há o grito da cruz, que é citação de salmo.
A comparação com Lucas é instrutiva. Aquele evangelho registra Jesus orando o tempo todo: no batismo, depois de curar multidões, a noite inteira antes de escolher os doze, antes da pergunta sobre a sua identidade, na transfiguração, antes de ensinar o Pai-Nosso, no Getsêmani, na cruz por duas vezes.
Ou seja: a oração é tema estruturante em Lucas e é episódica em Mateus.
Registro isso como característica de cada evangelista, e não como contradição. Os autores selecionam, e a seleção é informação sobre o que cada um quis destacar.
E há aqui um silêncio que merece registro.
Mateus não diz o que ele orou.
Não há conteúdo, não há frase citada, não há resumo. Sabemos que subiu para orar e que ficou ali sozinho — e nada mais.
A diferença com o Getsêmani é gritante. Lá, o evangelista registra as palavras: passa de mim este cálice; todavia, não como eu quero, mas como tu queres. E registra que a oração foi repetida três vezes.
Aqui, silêncio absoluto.
Vale resistir à tentação de preencher. É comum ouvir que ele orou pelos discípulos no barco, ou que orou pelo luto de João, ou que pediu força. Nada disso está escrito.
O que se pode afirmar é o que o texto afirma: houve uma oração, ela era o objetivo da subida, e o conteúdo não foi registrado.
Uma dificuldade teológica que convém não esconder
Vale enfrentar, com honestidade, uma questão que este versículo levanta e que a pregação corrente costuma atravessar sem parar.
Se ele é divino, a quem ora? E por quê?
A pergunta não é provocação de cético. É uma dificuldade real, discutida seriamente por teólogos ao longo de séculos, e ela tem base nos próprios textos.
Os evangelhos apresentam alguém que ora, que pede, que agradece, que se dirige a outro chamando-o de Pai. No Getsêmani, pede que o cálice passe e submete a própria vontade a outra — o que pressupõe duas vontades distintas.
E há um dado textual que vale mencionar, com o cuidado devido. No capítulo 24, ao falar do dia e da hora do fim, o texto diz que ninguém sabe, nem os anjos do céu, senão somente o Pai. Em Marcos, a frase inclui expressamente "nem o Filho".
Em Mateus, essa inclusão é objeto de variação entre os manuscritos: alguns dos mais antigos a trazem, e a tradição textual em que se baseia a nossa tradução não a traz.
Registro a variante como variante, sem usá-la para fabricar tese. O que ela mostra é que a questão incomodava já entre copistas antigos.
Quanto à resposta, convém ser transparente sobre o estatuto dela.
A formulação clássica do cristianismo — duas naturezas numa só pessoa, cada uma com a sua vontade — é uma construção teológica posterior, elaborada em concílios dos séculos quarto e quinto para responder exatamente a esse tipo de dificuldade.
Ela é coerente e resolve muita coisa. Mas é preciso dizer que ela não está formulada no Novo Testamento. Os evangelhos narram; não explicam.
Vale marcar o grau de certeza com precisão. Não é possível resolver a questão pelo texto deste versículo, que apenas informa que houve oração. Quem afirma que a cena prova humanidade pura está indo longe demais; quem afirma que a oração era encenação pedagógica está indo longe na direção oposta, e sem apoio no texto.
O que este versículo dá é a cena: um homem, sozinho, num monte, à noite, orando — e um evangelista que não explica nada disso.
"Ao cair da noite, estava ali sozinho"
A expressão grega para o cair da noite é a mesma do versículo 15 — literalmente "tendo-se feito tarde".
É a segunda vez que ela aparece no capítulo, e vale a observação: o versículo 15 já dizia que estava tarde, e desde então aconteceram a organização da multidão, a distribuição, o recolhimento das sobras, a contagem, o embarque forçado e a dispensa de milhares de pessoas.
Aquele "tarde" e este não podem ser o mesmo momento. Já se tratou dessa questão no comentário do versículo 15, e o resumo é que há duas leituras — a que apela para a distinção judaica entre duas tardes e a que atribui o fato a linguagem imprecisa — e que não é possível decidir.
Depois vem o verbo, e ele merece nota: ēn, imperfeito de "ser". O imperfeito, em grego, indica ação contínua ou estado prolongado.
Não é "ficou sozinho" como um instante. É "estava sozinho" como duração. Ele permaneceu ali.
Vale medir esse tempo com o que o texto informa adiante. No versículo 25, ele vem até os discípulos na quarta vigília da noite — ou seja, entre as três e as seis da madrugada.
Se ele subiu ao monte logo depois do anoitecer e desceu na última vigília, ficou sozinho por algo entre seis e nove horas.
Registro que a conta é aproximada, porque depende de quando exatamente começou. O que se pode afirmar é que o texto descreve uma noite inteira, e não um momento de recolhimento.
Duas cenas ao mesmo tempo
Vale observar o que a narrativa faz a partir deste versículo, porque é uma escolha de montagem.
A partir daqui, há duas situações acontecendo simultaneamente.
Num lugar, um homem sozinho num monte, orando. No outro, doze homens num barco, no meio do lago, sendo castigados pelas ondas.
O leitor vê as duas. Os personagens de cada cena não veem a outra.
Marcos acrescenta um detalhe que Mateus não traz: que ele os viu, do alto, remando com dificuldade.
Mateus omite isso. Na versão que estamos lendo, não há informação sobre o que ele sabia ou via. Há apenas as duas cenas, lado a lado, e um versículo — o 25 — que as junta.
Registro a diferença porque ela muda a leitura. Com o detalhe de Marcos, a demora tem explicação: ele viu e esperou. Sem ele, a demora fica sem comentário.
E convém não importar a explicação sem avisar, porque o efeito da versão de Mateus depende justamente de ela não estar ali.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus — sobe ao monte e ora sozinho; o retiro que tentara pela manhã.
A multidão — despedida, sai de cena.
Os discípulos — já estão no lago, longe.
O monte — lugar elevado e à parte; cenário recorrente em Mateus.
A repetição de "sozinho" — aparece duas vezes no mesmo versículo.
O evento — o retiro conseguido, no fim de um dia que começou com uma morte.
5. Pontos de Ensino
Ele conseguiu, à noite. O que tinha tentado de manhã.
"Sozinho" aparece duas vezes. O texto insiste no isolamento.
Levou o dia inteiro. Curas, discussão, milhares alimentados, dispersão.
O conteúdo da oração não é dito. Só que ele orou.
É a primeira oração registrada em Mateus depois do batismo.
O dia começou com uma morte. E terminou num monte, em silêncio.
A expressão "sozinho" é a mesma do versículo 13. Palavra por palavra: o retiro pretendido de manhã acontece à noite.
A solidão é dita duas vezes na mesma linha. Dois termos gregos diferentes para a mesma ideia — o evangelista insiste.
Mateus registra só duas retiradas para orar. Esta e o Getsêmani. Em Lucas, a oração é tema constante.
O conteúdo da oração não é dito. No Getsêmani as palavras estão registradas; aqui, nada. Convém não preencher.
O verbo final é imperfeito. Indica duração: ele permaneceu ali, provavelmente entre seis e nove horas.
O texto passa a correr em duas frentes. Um homem no monte e doze no meio do lago, cada grupo sem ver o outro.
Marcos diz que ele os viu; Mateus não. Sem esse detalhe, a demora do socorro fica sem explicação nenhuma.
6. Aspectos Filosóficos
Um dia inteiro para conseguir
Vale ler este versículo junto com o 13, porque eles emolduram o dia.
No versículo 13, Jesus soube da morte de João e se retirou de barco para um lugar deserto, sozinho.
Não conseguiu. A multidão chegou antes.
Entre aquele momento e este, aconteceu tudo: as curas, a discussão com os discípulos, a alimentação de milhares, o recolhimento das sobras, a dispersão da multidão, o embarque forçado.
Só depois de tudo isso ele sobe ao monte.
Vale medir o intervalo. O versículo 13 acontece de manhã ou no início do dia; o 15 já é o entardecer; este é noite fechada.
Ou seja: entre o momento em que ele quis ficar sozinho e o momento em que conseguiu, passou-se um dia inteiro de trabalho pesado.
Registro isso porque é o dado mais humano do capítulo. A necessidade não foi negada nem substituída por atividade. Foi adiada — e cumprida.
A palavra repetida
Convém notar a insistência do texto.
Ele subiu sozinho ao monte. E, ao cair da noite, estava ali sozinho.
A informação é a mesma, dada duas vezes em duas linhas.
Isso não é descuido de estilo. A repetição, na narrativa bíblica, marca ênfase.
O texto quer que o leitor perceba: ele está só.
Vale contrastar com o resto do capítulo. Desde o versículo 13, ele esteve cercado — multidões, doentes, discípulos, milhares de pessoas sentadas na grama.
Agora, ninguém.
Uma oração sem conteúdo registrado
Vale registrar o que o texto não conta.
Ele foi orar. E o evangelho não diz uma palavra sobre o que orou.
Não há citação, não há resumo, não há indicação de tema.
Compare-se com o Getsêmani, em Mateus 26, onde as palavras da oração são registradas.
Aqui, nada.
Vale considerar o que isso preserva. Aquele foi o dia em que ele soube que João tinha sido decapitado, tentou ficar só, não conseguiu, atendeu milhares, e finalmente subiu sozinho.
O que ele disse ali fica entre ele e Deus.
O texto registra que aconteceu e não conta o quê. É uma discrição que vale notar.
O luto que não é mencionado
Uma observação sobre o capítulo inteiro.
A morte de João é a causa declarada do movimento no versículo 13.
Depois disso, o assunto desaparece.
Não há registro de Jesus falando sobre João, lamentando, comentando com os discípulos, explicando o sentido daquilo.
Só três capítulos adiante, em Mateus 17, ele dirá que Elias já veio e fizeram com ele o que quiseram.
Vale notar onde este versículo está nesse silêncio.
É o único momento do capítulo em que ele está sozinho, e é justamente o momento cujo conteúdo o texto não revela.
Não convém afirmar que ele estava orando sobre João — o texto não diz.
Mas a estrutura do capítulo coloca o luto na abertura e o silêncio no fim, e o leitor faz a ligação.
O que vem depois
Uma última observação, sobre a função narrativa.
Este versículo estabelece a distância.
Ele está no monte. Eles estão no meio do lago. Entre os dois, água e escuro.
O versículo 24 mostrará o barco sendo castigado pelas ondas. O 25, ele caminhando sobre o mar.
Ou seja: a oração no monte e a tempestade no lago acontecem simultaneamente.
O texto não estabelece relação entre as duas coisas. Não diz que ele orava por eles, não diz que sabia da tempestade.
Registra as duas cenas em sequência, e deixa o leitor com elas.
Onde Mateus registra oração
Vale mapear o hábito, porque Mateus é mais econômico que os outros evangelhos nesse ponto.
Lucas registra Jesus orando com frequência — antes do batismo, antes de escolher os doze, antes da confissão de Pedro, na transfiguração.
Mateus menciona muito menos.
Neste evangelho, as ocasiões principais são esta, aqui no monte, e o Getsemâni, no capítulo 26.
Vale notar o que as duas têm em comum: as duas acontecem à noite, as duas acontecem depois de algo pesado, e nas duas ele está separado dos discípulos.
A diferença é que, no Getsemâni, o texto registra as palavras. Aqui, não.
Um dia longo
Uma observação sobre a extensão do que este capítulo cobre.
Do versículo 13 ao 33, tudo acontece em pouco mais de vinte e quatro horas.
A notícia da morte, a travessia de barco, as curas, a discussão sobre a comida, a alimentação de milhares, a dispersão, a subida ao monte, a noite de oração, a tempestade, a caminhada sobre a água e o desembarque.
Vale medir. É um dia de trabalho contínuo, uma noite sem dormir, e uma manhã que começa com uma travessia.
O texto não comenta o cansaço em momento nenhum.
Registro porque é o tipo de coisa que a leitura devocional apaga, e que faz diferença para entender a cena.
A pergunta que a cena levanta
Convém tratar de uma dificuldade que este versículo produz e que quase nunca é enunciada no púlpito.
A quem ele ora, e por quê?
A pergunta não é ataque. É problema teológico antigo, discutido a sério durante séculos, e ele nasce dos próprios textos.
Os evangelhos apresentam alguém que pede, agradece, se dirige a outro chamando-o de Pai e, no Getsêmani, submete a própria vontade a outra vontade — o que pressupõe que sejam duas.
A resposta clássica do cristianismo é conhecida: duas naturezas numa só pessoa, cada uma com a sua vontade. É construção coerente, e é preciso ser transparente sobre a origem dela — foi elaborada em concílios dos séculos quarto e quinto, justamente para responder a esse tipo de dificuldade.
Ou seja: a formulação não está no Novo Testamento. Os evangelhos narram a cena e não a explicam.
Vale enunciar o limite. Deste versículo não se decide nada: ele informa que houve oração e cala sobre tudo o mais. Quem o usa para provar humanidade pura afirma demais; quem trata a oração como encenação didática afirma demais na direção oposta, e sem apoio no texto.
O que é uma oração sem conteúdo registrado
Vale reparar no tipo de informação que o versículo dá e no que ele recusa dar.
Sabe-se o lugar, a companhia, a duração e a finalidade. Não se sabe uma única palavra do que foi dito.
Isso é notável porque o mesmo evangelho, num momento parecido, registra as palavras — e as registra com precisão, incluindo a repetição.
Convém resistir a preencher, e vale explicar por quê.
Quando se atribui um conteúdo à oração, transforma-se a cena em episódio com propósito conhecido. Ela deixa de ser um homem sozinho no escuro e passa a ser um homem sozinho no escuro fazendo alguma coisa que entendemos.
A diferença não é pequena. O texto, como está, descreve uma ausência de horas sobre a qual nada se sabe.
Registro que essa observação é sobre o efeito do relato, e não sobre a intenção do autor, que não é acessível.
Duas coisas ao mesmo tempo
Uma observação sobre a montagem da narrativa, porque a partir daqui ela muda de estrutura.
Até este ponto, o capítulo seguia uma linha só. Agora há duas.
De um lado, alguém sozinho num alto, em silêncio, pelo tempo que dura uma noite. Do outro, um barco em dificuldade, com homens exaustos remando contra o vento.
O leitor enxerga as duas. Os personagens de cada cena não enxergam a outra.
Vale reparar no que essa montagem produz. Ela cria, para quem lê, uma informação que ninguém dentro da história tem — e é justamente essa assimetria que dá peso ao versículo 25, quando as duas linhas se encontram.
Vale também reparar no que Mateus recusou. Marcos escreve que ele os viu, do alto, remando com dificuldade. Com essa frase, o silêncio das horas seguintes ganha explicação: houve observação e houve espera.
Mateus não escreve isso, e o resultado é diferente. Na versão dele, não se sabe se ele viu, se sabia, se esperou de propósito.
Registro que essa lacuna costuma ser preenchida com o material do outro evangelho, e que vale saber quando se está fazendo isso.
7. Aplicações Práticas
Adiar não é abandonar
No versículo 13 ele tentou ficar sozinho e não conseguiu. Entre aquele momento e este aconteceu tudo — curas, discussão, milhares alimentados, dispersão, embarque. Só depois de tudo isso ele sobe ao monte.
A necessidade não foi negada nem substituída por atividade. Foi adiada, e cumprida.
Se você precisou empurrar um cuidado seu porque o dia cobrou, tudo bem — desde que haja uma hora marcada. A diferença entre adiar e abandonar é exatamente essa: uma tem data, a outra não.
Procure ficar sozinho depois, não só antes
O dia inteiro foi cercado: multidões, doentes, discípulos, milhares sentados na grama. O texto repete a palavra "sozinho" duas vezes em duas linhas, marcando ênfase.
E o retiro veio depois do esforço, não antes.
Costumamos buscar silêncio para nos preparar e dispensá-lo quando o trabalho acaba, porque aí "já passou". O silêncio depois é o que processa o que aconteceu — e é justamente o que a gente mais corta.
Nem toda oração precisa ser contada
Ele foi orar, e o evangelho não diz uma palavra sobre o que orou. Nem citação, nem resumo, nem tema. Compare com o Getsêmani, onde as palavras são registradas — aqui, nada.
O que ele disse ali fica entre ele e Deus.
Vale como permissão: você não deve explicação a ninguém sobre o conteúdo do que reza. O impulso de relatar experiências espirituais é forte, e algumas se preservam melhor caladas.
O silêncio sobre a dor não significa que ela passou
A morte de João é a causa declarada do movimento no versículo 13, e depois disso o assunto desaparece do capítulo. Não há registro de Jesus falando sobre ele, lamentando, explicando.
E o único momento em que ele está sozinho é justamente aquele cujo conteúdo o texto não revela. Não convém afirmar que ele orava sobre João — o texto não diz. Mas a estrutura coloca o luto na abertura e o silêncio no fim.
Quando alguém para de falar de uma perda, não conclua que superou. Frequentemente significa apenas que a conversa mudou de lugar.
Duas coisas acontecem ao mesmo tempo
Ele está no monte; eles estão no meio do lago. Entre os dois, água e escuro. A oração e a tempestade acontecem simultaneamente — e o texto não estabelece relação entre as duas coisas, não diz que ele orava por eles nem que sabia da tempestade.
Registra as duas cenas em sequência e deixa o leitor com elas.
Vale lembrar quando você estiver no meio de uma dificuldade e se sentir esquecido: o fato de não ver ninguém não é informação sobre o que está acontecendo em outro lugar. É informação sobre o que você consegue ver de onde está.
Suba enquanto ainda dá
Ele podia ter ido dormir. Tinha acabado um dia começado com uma notícia de morte e terminado alimentando milhares — cansaço não faltava.
Subiu.
Quando o dia acaba exausto, a decisão mais fácil é desabar. Se houver algo que você sabe que precisa fazer sozinho — rezar, pensar, escrever, chorar —, faça antes de deitar. O sono leva embora a oportunidade, e amanhã o dia cobra de novo.
Oração e crise andam juntas
Mateus é econômico ao registrar orações. Neste evangelho as ocasiões principais são esta, no monte, e o Getsêmani. As duas acontecem à noite, as duas depois de algo pesado, e nas duas ele está separado dos discípulos — a diferença é que lá o texto registra as palavras e aqui não.
O padrão é claro: retiro depois do peso, e sozinho.
Se você reza apenas quando aperta, isso não desqualifica a oração. Mas repare no padrão inverso, que ajuda mais: quem tem o hábito antes da crise não precisa construir a prática no pior momento.
Meça o cansaço real das cenas que você lê
Do versículo 13 ao 33, tudo acontece em pouco mais de vinte e quatro horas: a notícia da morte, a travessia, as curas, a alimentação de milhares, a dispersão, a subida ao monte, a noite de oração, a tempestade, a caminhada sobre a água. Um dia de trabalho contínuo, uma noite sem dormir, e uma manhã que começa com uma travessia.
O texto não comenta o cansaço em momento nenhum.
A leitura devocional apaga isso, e o esquecimento nos leva a comparar a nossa exaustão com uma versão idealizada. Ao ler qualquer relato, refaça o relógio: quantas horas aquilo levou de fato?
Não tema as perguntas difíceis da própria fé
A quem ele ora, e por quê? A pergunta não é ataque, é problema teológico antigo, discutido a sério durante séculos, e nasce dos próprios textos — de alguém que pede, agradece e submete a própria vontade a outra.
A resposta clássica do cristianismo existe e é coerente, e é honesto dizer que foi elaborada depois, em concílios dos séculos quarto e quinto. Os evangelhos narram e não explicam.
Vale a postura: uma fé que só se sustenta enquanto ninguém pergunta não está sustentada, está protegida. Encare a dificuldade, conheça as respostas propostas, saiba de onde vieram e admita o que continua em aberto. Isso é mais sólido do que qualquer certeza mantida por desinformação.
Deixe as horas vazias serem vazias
Sabe-se o lugar, a companhia, a duração e a finalidade da oração. Não se sabe uma única palavra do que foi dito — e o mesmo evangelho, num momento parecido, registra as palavras com precisão.
Quando se atribui conteúdo à oração, a cena deixa de ser um homem sozinho no escuro e passa a ser um homem sozinho no escuro fazendo algo que compreendemos. A diferença não é pequena.
Isso vale para a sua própria vida de oração. Nem todo tempo diante de Deus precisa render frase, conclusão ou decisão. Há horas que não produzem relatório, e a ausência de resultado narrável não significa que nada aconteceu.
Você não sabe o que está acontecendo do outro lado
A partir deste versículo o relato corre em duas frentes: alguém sozinho num alto, em silêncio, e um barco em dificuldade com homens exaustos remando contra o vento. O leitor enxerga as duas cenas; os personagens de cada uma não enxergam a outra.
Marcos acrescenta que ele os viu do alto. Mateus não escreve isso, e na versão dele não se sabe se viu, se sabia, se esperou de propósito.
Guarde a assimetria quando estiver na sua tempestade particular: você está dentro de uma das cenas e não tem acesso à outra. Isso não garante que exista alguém olhando — garante apenas que a sua informação é parcial, e que conclusões definitivas tiradas de dentro do barco costumam envelhecer mal.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Este é o retiro que ele tentou no versículo 13?
Sim. Lá ele se retirou de barco para um lugar deserto, sozinho, e a multidão chegou antes. Entre aquele momento e este aconteceu tudo — curas, discussão com os discípulos, alimentação de milhares, dispersão, embarque forçado. O que ele queria de manhã acontece à noite.
Por que o texto repete "sozinho"?
Porque é ênfase. Ele subiu sozinho ao monte e, ao cair da noite, estava ali sozinho — a mesma informação em duas linhas. A repetição, na narrativa bíblica, marca o que o autor quer que se registre. E contrasta com o resto do capítulo, em que ele esteve cercado o tempo todo.
O que ele orou?
O evangelho não diz. Não há citação, resumo nem indicação de tema — diferentemente do Getsêmani, em Mateus 26, onde as palavras da oração são registradas. Aqui o texto registra que aconteceu e não conta o quê.
Ele estava orando sobre a morte de João?
Não convém afirmar, porque o texto não diz. O que se pode notar é a estrutura: a morte de João é a causa declarada do movimento no versículo 13, o assunto desaparece do capítulo, e o único momento em que ele está sozinho é justamente aquele cujo conteúdo não é revelado.
Onde estavam os discípulos?
No meio do lago, já longe — ele os obrigara a partir no versículo anterior. A oração no monte e a tempestade que virá acontecem simultaneamente, e o texto não estabelece relação entre as duas coisas.
Por que o monte?
Lugar elevado e à parte. Em Mateus, o monte é cenário recorrente — o sermão, a transfiguração, a comissão final. Aqui, é simplesmente onde ele consegue ficar sozinho.
Qual é a ligação deste versículo com o versículo 13?
É literal. A expressão grega traduzida por "sozinho" aqui é exatamente a mesma que aparece no versículo 13, onde ele se retira de barco para um lugar deserto. A frase que abriu o bloco reaparece no fim dele, palavra por palavra — o retiro pretendido de manhã acontece à noite.
Por que o texto diz "o monte" e não "um monte"?
O grego traz artigo. Convém não exagerar, porque o artigo pode marcar apenas o que é conhecido do contexto, e o relevo da Galileia faz de encostas um cenário banal. Vale conhecer o padrão, porém: neste evangelho, o discurso mais longo, a transfiguração, o discurso sobre o fim e a cena final do livro acontecem todos em elevações.
Com que frequência Mateus mostra Jesus orando?
Pouquíssimas vezes. Retiradas para orar, apenas duas: esta e o Getsêmani. Em Lucas é diferente — ali ele ora no batismo, depois das curas, a noite inteira antes de escolher os doze, na transfiguração e na cruz por duas vezes. A oração é tema estruturante num evangelho e episódica no outro.
O que ele orou naquela noite?
O texto não diz. Nem uma frase, nem um resumo, nem uma indicação. A diferença em relação ao Getsêmani é grande, porque lá as palavras estão registradas. Convém resistir ao hábito de preencher: é comum ouvir que orou pelos discípulos no barco ou pelo luto de João, e nada disso está escrito.
Se ele é divino, por que ora?
A pergunta é problema teológico antigo e sério, com base nos próprios textos — os evangelhos mostram alguém que pede, agradece e submete a própria vontade a outra, o que pressupõe duas. A resposta clássica, com duas naturezas numa só pessoa, é construção posterior, elaborada em concílios dos séculos quarto e quinto. Ela é coerente e não está formulada no Novo Testamento. Deste versículo não se decide nada.
Quanto tempo ele ficou ali?
O verbo final está no imperfeito, que indica estado prolongado — não um instante, e sim uma permanência. Como o versículo 25 informa que ele vai até os discípulos na última vigília da noite, entre as três e as seis da madrugada, a conta aproximada dá algo entre seis e nove horas.
Ele sabia que os discípulos estavam em apuros?
Em Mateus, não se diz. Marcos acrescenta que ele os viu, do alto, remando com dificuldade — e, com essa frase, a demora ganha explicação. Mateus omite o detalhe, e o efeito da versão dele depende justamente disso: não há informação sobre o que ele viu, soube ou esperou.
9. Conexão com Outros Textos
Mateus 14:13 — Retirou-se dali num barco, para um lugar deserto, apartado.
A tentativa de manhã, que este versículo finalmente cumpre.
Marcos 1:35 — E, levantando-se muito de madrugada... retirou-se a um lugar deserto, e ali orava.
O mesmo padrão de retiro para oração.
Lucas 5:16 — Ele, porém, retirava-se para os desertos, e ali orava.
O hábito registrado como recorrente.
Mateus 26:36-39 — Assentai-vos aqui, enquanto vou ali orar... e, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto.
A outra oração no evangelho, esta com o conteúdo registrado.
Mateus 17:12 — Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram... assim também o Filho do homem há de padecer.
A única interpretação que o evangelho oferece sobre a morte de João, três capítulos adiante.
Mateus 5:1 — E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte.
O monte como cenário recorrente no evangelho.
Mateus 14:13 — Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco, para um lugar deserto, à parte.
A mesma expressão grega para "à parte" que aparece aqui — o retiro pretendido de manhã, cumprido à noite.
Êxodo 24:15-18 — E, subindo Moisés ao monte, a nuvem cobriu o monte... E esteve Moisés no monte quarenta dias e quarenta noites.
O padrão antigo: o homem sobe e o povo permanece embaixo.
1 Reis 19:11-12 — E eis que passava um grande e forte vento... porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto... e depois do fogo uma voz mansa e delicada.
Elias no monte depois de um triunfo público e de uma fuga — a mesma estrutura de situação.
Mateus 26:36-39 — Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse aos discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar... Pai meu, se é possível, passa de mim este cálice.
A outra retirada para orar registrada por Mateus — e ali as palavras estão escritas.
Lucas 6:12 — E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus.
O mesmo tipo de cena, no evangelho que faz da oração um tema constante.
Marcos 6:48 — E viu que se fatigavam muito a remar, porque o vento lhes era contrário.
O detalhe que Mateus não traz, e que muda a leitura da demora.
Mateus 28:16 — E os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado.
O último monte do evangelho, no seu último episódio.
Salmo 121:1 — Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
O monte como lugar associado ao socorro, na linguagem dos salmos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Depois de despedir a multidão, subiu sozinho ao monte para orar. Ao cair da noite, estava ali sozinho.
Texto grego
καὶ ἀπολύσας τοὺς ὄχλους ἀνέβη εἰς τὸ ὄρος κατ᾽ ἰδίαν προσεύξασθαι. ὀψίας δὲ γενομένης μόνος ἦν ἐκεῖ
Transliteração
kaì apolýsas toùs óchlous anébē eis tò óros kat' idían proseúxasthai. opsías dè genoménēs mónos ēn ekeî
Palavra por palavra
ἀπολύσας (apolýsas) — "tendo despedido"
Particípio do verbo que apareceu no versículo 15 e no 22.
Terceira e última ocorrência no capítulo. O arco se fecha: eles propuseram despedir, ele despediu.
ἀνέβη εἰς τὸ ὄρος (anébē eis tò óros) — "subiu ao monte"
O verbo de subir, e o substantivo que designa monte, montanha, região elevada.
Em Mateus, o monte aparece em momentos-chave: o sermão, a transfiguração, o discurso escatológico, a comissão final.
κατ᾽ ἰδίαν (kat’ idían) — "à parte"
Expressão idiomática para privadamente, em separado.
É exatamente a mesma construção usada no versículo 13, quando ele se retirou para o lugar deserto.
A repetição é significativa: o que ele buscou naquele momento é o que obtém agora.
προσεύξασθαι (proseúxasthai) — "para orar"
Infinitivo do verbo proseúchomai, orar. O infinitivo indica finalidade: subiu para orar.
ὀψίας γενομένης (opsías genoménēs) — "tendo chegado a tarde"
Genitivo absoluto, a mesma construção do versículo 15.
Vale notar que a expressão aparece duas vezes no capítulo, marcando dois momentos distintos do mesmo fim de dia.
Alguns entendem que a segunda ocorrência indica a noite já entrada, e não o entardecer.
μόνος ἦν ἐκεῖ (mónos ēn ekeî) — "sozinho estava ali"
O adjetivo mónos significa só, sozinho, único. É a raiz de palavras como monge e monopólio.
Vale notar a construção: um verbo de estado — estava — e não de ação.
O versículo termina com uma descrição de permanência: ele estava ali, só.
Nota — as duas solidões do versículo
Vale fechar observando que o versículo diz a mesma coisa duas vezes, com palavras diferentes.
Primeiro, kat' idían — à parte, em separado. É a expressão que descreve a intenção: ele subiu para ficar à parte.
Depois, mónos — sozinho. É o adjetivo que descreve o estado alcançado.
Uma palavra marca o propósito; a outra, o resultado.
E entre as duas está o verbo da oração.
Vale comparar com o versículo 13, onde apenas a primeira expressão aparece — ele se retirou kat' idían, e a multidão o alcançou.
Lá houve intenção sem resultado. Aqui há os dois.
O evangelista não comenta. Usa a mesma expressão nas duas cenas e acrescenta, na segunda, o adjetivo que confirma que desta vez funcionou.
Nota — kat' idían, a expressão que volta
Vale isolar as duas palavras que amarram o capítulo.
Kat' idían significa literalmente "por conta própria", "à parte", "em particular". É a fórmula que os evangelhos usam para o afastamento deliberado.
Ela aparece no versículo 13, quando ele se retira de barco depois da notícia da execução de João. E reaparece aqui, no versículo 23, quando sobe ao monte.
A repetição é literal, e é dado do texto — não depende de interpretação nenhuma.
Vale acrescentar que a solidão é dita duas vezes nesta única linha: primeiro com essa expressão, depois com o adjetivo mónos, no fim do versículo.
Nota — o imperfeito do último verbo
A frase final é mónos ēn ekeî: "sozinho estava ali".
O verbo está no imperfeito, tempo que em grego indica ação contínua ou estado prolongado, e não um ponto no tempo.
A diferença é relevante. Não se trata de um instante de recolhimento: trata-se de uma permanência.
Cruzando com o versículo 25, que situa a vinda dele na quarta vigília — entre as três e as seis da madrugada —, a conta aproximada dá algo entre seis e nove horas.
Registro que o cálculo é aproximado, porque depende de quando exatamente a subida começou.
Nota — o infinitivo de finalidade
O infinitivo proseúxasthai está construído como infinitivo de finalidade: subiu a fim de orar.
Ou seja, a oração não é apresentada como algo que aconteceu por acaso durante a subida. É o motivo da subida.
E é justamente sobre esse motivo que o texto não diz mais nada: informa a finalidade e não informa o conteúdo.
Nota — o artigo diante de "monte"
O grego traz eis tò óros, com artigo definido: "para o monte".
Em grego, o artigo pode marcar aquilo que é conhecido do contexto — o monte que ficava ali, a encosta próxima ao lugar. Não é possível decidir se há algo mais.
Vale conhecer, ainda assim, a distribuição das cenas de monte neste evangelho: o discurso do capítulo 5, a subida do capítulo 15, a transfiguração do capítulo 17, o discurso do capítulo 24 e a reunião final do capítulo 28.
Registro que Mateus não comenta esse padrão, e que o relevo da Galileia torna montes um cenário natural.
11. Conclusão
Há uma expressão grega neste versículo que amarra o capítulo inteiro, e ela passa despercebida em português. Quando o texto diz que ele subiu ao monte "sozinho", emprega exatamente as mesmas duas palavras que aparecem no versículo 13, onde se lê que, ao saber da execução de João, ele se retirou de barco para um lugar deserto, à parte. A frase que abriu o bloco reaparece no fim dele, palavra por palavra.
Vale medir o que coube entre uma e outra. Ele saiu procurando ficar só. Encontrou uma multidão esperando na margem. Atendeu os doentes. Discutiu com os discípulos sobre o jantar. Alimentou milhares de pessoas. Viu recolherem doze cestos de sobras. Forçou os doze a embarcar. Dispensou todo mundo. E então, finalmente, conseguiu o que pretendia desde a manhã. O retiro não foi cancelado — foi adiado por um dia inteiro. E a insistência do evangelista é visível: a solidão é dita duas vezes na mesma linha, com duas palavras diferentes.
Sobre o lugar, o grego traz artigo: não "um monte", mas "o monte". Convém não exagerar, porque o artigo pode marcar apenas o que é conhecido do contexto, e o relevo da Galileia faz de encostas um cenário banal. Ainda assim, vale conhecer o padrão: neste evangelho, o discurso mais longo é pronunciado num monte, a transfiguração acontece num monte alto, o discurso sobre o fim é dito no monte das Oliveiras, e o último versículo do livro reúne os onze num monte da Galileia. E há o fundo antigo — Moisés que sobe enquanto o povo fica embaixo, Elias que chega ao Horebe depois de um triunfo público espetacular e de uma fuga. A semelhança com a cena de Elias é de situação, e não de vocabulário: acontecimento de grande porte, seguido de retirada solitária.
O que se registra a seguir é raro em Mateus. Este evangelho mostra Jesus retirando-se para orar em dois lugares apenas: aqui e no Getsêmani. A comparação com Lucas mede a diferença — lá ele ora no batismo, depois das curas, a noite inteira antes de escolher os doze, na transfiguração, na cruz por duas vezes. A oração é tema estruturante num evangelho e episódica no outro, e a seleção de cada autor é informação sobre o que ele quis destacar.
E há o silêncio. Não se diz o que ele orou. Nem uma frase, nem um resumo, nem uma indicação. A diferença em relação ao Getsêmani é gritante, porque lá as palavras estão registradas e a repetição também. Aqui não há nada, e convém resistir ao hábito de preencher: é comum ouvir que orou pelos discípulos no barco, pelo luto de João, por força para o que vinha — e nada disso está escrito.
Uma dificuldade teológica atravessa a cena e não deve ser escondida: se ele é divino, a quem ora, e por quê. A pergunta não é provocação de cético — é problema sério, com base nos próprios textos, já que os evangelhos apresentam alguém que pede, agradece e submete a própria vontade a outra, o que pressupõe duas vontades. A resposta clássica do cristianismo, com duas naturezas numa só pessoa, é construção teológica posterior, elaborada em concílios dos séculos quarto e quinto justamente para enfrentar esse tipo de questão. Ela é coerente e não está formulada no Novo Testamento: os evangelhos narram, e não explicam. Deste versículo não se resolve nada — quem o usa para provar humanidade pura vai longe demais, e quem trata a oração como encenação pedagógica vai longe na direção oposta e sem apoio no texto.
Resta o tempo, que o verbo final marca. O grego usa o imperfeito, que indica estado prolongado: não é "ficou sozinho" como instante, é "estava sozinho" como duração. E o versículo 25 informa que ele vem até os discípulos na última vigília da noite, entre as três e as seis da madrugada. A conta é aproximada e depende de quando exatamente começou, mas descreve algo entre seis e nove horas de solidão — uma noite inteira, e não um momento de recolhimento. A partir daqui, aliás, o relato passa a correr em duas frentes: um homem sozinho no alto e doze homens sendo castigados pelas ondas, cada grupo sem ver o outro. Marcos acrescenta que ele os viu, do alto, remando com dificuldade. Mateus não. Sem esse detalhe, a demora do socorro fica sem explicação — e o efeito da versão que estamos lendo depende exatamente de ela não estar ali.













