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Mateus 14:24

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 41 min de leitura·👁 10 acessos
O barco já estava a muitos estádios da terra, castigado pelas ondas, porque o vento era contrário.
Barco pequeno sacudido por ondas altas no meio do lago, à noite, com homens remando encharcados.

Estudo


O barco já estava a muitos estádios da terra, castigado pelas ondas, porque o vento era contrário.

1. Introdução

Enquanto ele orava no monte, o barco apanhava.

Estava a muitos estádios da terra, castigado pelas ondas, porque o vento era contrário.

O verbo grego traduzido por castigado é forte: designa tormento, tortura.

E eles estavam ali porque foram obrigados a ir.

2. Contexto Histórico e Cultural

A distância

O texto mede em estádios — unidade grega equivalente a cerca de 185 metros.

João, no paralelo, especifica: cerca de vinte e cinco ou trinta estádios, ou seja, algo entre quatro e seis quilômetros.

Estavam no meio do lago, longe das duas margens.

O verbo do sofrimento

O termo grego designa atormentar, torturar.

É a mesma raiz usada em Mateus para o tormento de doentes e, em outros textos, para tortura judicial.

Não é palavra de inconveniente. É de sofrimento.

O vento contrário

O mar da Galileia é conhecido por tempestades repentinas. Fica abaixo do nível do mar, cercado de colinas, e o ar frio que desce dos montes produz rajadas violentas sobre a água.

Vários dos discípulos eram pescadores daquele lago. Conheciam o fenômeno.

Onde eles estavam

Vale ligar ao versículo 22: eles foram obrigados a embarcar.

Não estavam ali por escolha, nem por descuido, nem por desobediência.

Estavam exatamente onde lhes mandaram estar.

3. Análise Teológica do Versículo

"O barco já estava a muitos estádios da terra"

O versículo abre com uma medida de distância, e a medida vale um exame, porque ela situa a cena com precisão maior do que parece.

O stádion era a unidade grega de comprimento, equivalente a cerca de cento e oitenta e cinco metros. A palavra designava também a pista de corrida com esse comprimento — e é daí que vem o nosso "estádio".

Mateus diz apenas "muitos". O evangelho de João é mais específico: vinte e cinco ou trinta estádios, o que dá entre quatro e meio e cinco quilômetros e meio.

Convém pôr isso no mapa. O lago da Galileia tem cerca de vinte e um quilômetros de comprimento e uns doze de largura no ponto mais largo. Cinco quilômetros a partir da margem, numa travessia, é aproximadamente o meio do caminho.

Ou seja: estavam no ponto de máximo afastamento das duas margens. Longe demais para voltar com facilidade, longe demais para chegar.

Vale registrar aqui uma nota de crítica textual, com a transparência que o assunto merece.

Parte dos manuscritos gregos não traz "a muitos estádios da terra". Traz outra formulação: "estava no meio do mar".

São duas leituras antigas, e a diferença de sentido é pequena — as duas colocam o barco longe da margem. Registro a variante porque a honestidade textual é parte do trabalho, e porque o leitor tem o direito de saber quando o texto que lê tem alternativa documentada.

O verbo da frase é apeîchen, imperfeito de um verbo que significa estar distante, afastado. O imperfeito indica situação em curso: ao longo daquelas horas, o barco estava longe.

Por que aquele lago produz tempestades

Convém explicar a geografia, porque sem ela a cena parece exagero literário e ela não é.

O lago da Galileia fica num vale profundo. A superfície da água está a cerca de duzentos metros abaixo do nível do mar — é uma das massas de água doce mais baixas do planeta.

Em volta dele, o terreno sobe rapidamente. A leste, o planalto do Golã atinge várias centenas de metros. A oeste e ao norte, colinas altas cercam a bacia.

O resultado é uma armadilha meteorológica bem conhecida. Durante o dia, o ar no fundo da bacia esquenta; nas alturas, permanece frio. Quando o ar frio das encostas desce pelos vales estreitos, ele entra na depressão com velocidade e produz rajadas violentas em pouco tempo.

Tempestades ali sobem depressa, sem aviso longo, e podem levantar ondas altas num lago pequeno.

Registro que essa descrição vem da geografia e da meteorologia da região, e não do texto — Mateus não explica nada disso. O que ele diz é que o vento era contrário.

Vale ainda uma observação sobre quem estava no barco. Pelo menos quatro daqueles homens eram pescadores profissionais daquele lago. Conheciam as correntes, os ventos e o comportamento da água melhor do que qualquer pessoa.

Não se trata, portanto, de gente inexperiente em pânico diante do desconhecido. Trata-se de profissionais em dificuldade no próprio local de trabalho — o que torna a situação mais séria, e não menos.

"castigado pelas ondas"

Aqui está a palavra do versículo, e ela é forte de um modo que a tradução tem dificuldade de conservar.

O grego é basanizómenon, particípio presente passivo de basanízō.

A origem é a peça mais interessante. O substantivo básanos designava, na origem, uma pedra escura e dura — a pedra de toque — usada por ourives e cambistas para verificar a pureza do ouro.

O método era simples e engenhoso: riscava-se o metal na pedra, e a cor do traço deixado revelava a liga. Ouro puro deixa uma marca; ouro misturado deixa outra.

Daí a palavra passou a significar, por extensão, "prova", "teste", "exame que revela o que a coisa é".

E daí houve um segundo deslizamento, e ele é sombrio.

No direito ateniense, o testemunho de um escravo só era admitido em juízo se obtido sob tortura. O procedimento tinha nome técnico, e o nome era esse mesmo: básanos. Considerava-se que a dor era o método de verificação da verdade — a pedra de toque aplicada a seres humanos.

Assim, a palavra que designava o exame do ouro passou a designar o suplício judicial, e por fim o tormento em geral.

Vale ver onde ela aparece no Novo Testamento, porque a companhia mede a intensidade.

No capítulo 8 de Mateus, o centurião descreve o seu servo paralítico como horrivelmente atormentado. É esta palavra.

Ainda no capítulo 8, os endemoninhados de Gadara perguntam se ele veio atormentá-los antes do tempo. Mesma raiz.

No capítulo 18, o senhor entrega o servo implacável aos atormentadores — e o substantivo é derivado do mesmo verbo.

No Apocalipse, a palavra descreve o tormento dos condenados.

Ou seja: o vocábulo pertence ao campo do sofrimento agudo, da dor infligida.

Agora convém marcar um limite, porque aqui se erra com frequência.

É tentador ligar as duas pontas e dizer que o barco estava "sendo testado como se testa o ouro", tirando daí uma lição sobre provações que revelam o caráter.

Essa leitura vai longe demais. No grego do primeiro século, o sentido de tormento já havia praticamente eclipsado o sentido original de teste. Quem ouvia a palavra pensava em sofrimento, não em ourivesaria.

Registro a etimologia porque ela é verdadeira e interessante, e registro que não é possível afirmar que o autor tivesse o sentido antigo em vista. Provavelmente não tinha.

Quem é atormentado, o barco ou os homens

Há um detalhe gramatical aqui que vale ouro, e ele é fácil de perder.

Em Mateus, o particípio concorda com o barco. Gramaticalmente, quem está sendo atormentado é a embarcação.

Em Marcos, o mesmo verbo aparece na mesma cena — e concorda com os discípulos. Ali está escrito que ele os viu atormentados ao remar.

Ou seja: os dois evangelistas usam a mesma palavra e a aplicam a coisas diferentes. Um descreve um barco castigado; o outro, homens castigados.

A observação não é decorativa. A versão de Mateus mantém a câmera longe: vê-se uma embarcação sendo batida no meio da água. A versão de Marcos entra no barco e mostra o esforço dos remadores.

Registro que essa diferença é de foco narrativo, e que ela não implica contradição alguma — um barco castigado pelas ondas e homens exaustos remando são a mesma cena vista de dois pontos.

"pelas ondas"

O substantivo é kŷma, onda, vaga. Está ligado à ideia de inchaço, de algo que se avoluma — a mesma raiz de palavras que descrevem o que se enche e cresce.

A preposição que o acompanha marca o agente da voz passiva. Quem atormenta são as ondas: elas são o sujeito ativo da violência.

Vale conhecer o peso dessa palavra na Bíblia grega, porque ela raramente é apenas meteorologia.

Um salmo descreve o afogamento espiritual: um abismo chama outro abismo, e todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim.

Outro salmo diz que a ira de Deus pesa sobre o suplicante e que ele o aflige com todas as suas ondas.

E a oração de Jonas, do ventre do peixe, repete quase a mesma frase: todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima de mim.

Em todos esses casos, a onda é imagem do que submerge, do que passa por cima, do que não se pode enfrentar de pé.

Registro que Mateus não cita nenhum desses textos e que "ondas", numa cena de tempestade em lago, é a palavra óbvia. A observação é sobre o campo em que o termo se move na literatura de Israel, e não sobre alusão.

"porque o vento era contrário"

O adjetivo é enantíos — oposto, de frente, adverso. A formação é transparente: significa literalmente "posto contra".

Vale ver os outros usos, porque o adjetivo não é apenas náutico.

Nos Atos dos Apóstolos, na viagem de Paulo, ele aparece em sentido técnico de navegação: navegaram sob Chipre porque os ventos eram contrários.

Mas aparece também em sentido moral e político. Paulo confessa ter agido em muitas coisas contra o nome de Jesus. Numa carta, ele descreve certos adversários como contrários a todos os homens. Noutra, fala do documento de dívida que era contrário a nós.

Ou seja: a palavra serve para o vento e para a oposição deliberada. Registro a amplitude do termo sem construir tese: no contexto de uma travessia noturna, o sentido é o náutico, e não há indício de outro.

A construção verbal merece nota. O grego usa o imperfeito — "o vento era contrário" —, tempo que indica estado permanente ao longo do período. Não foi uma rajada: foi a condição da noite inteira.

Vale, por fim, uma observação sobre a partícula que abre a oração. O grego traz gár, "porque" — é uma explicação oferecida pelo narrador.

Ele não se limita a descrever a cena: informa a causa. O barco não avançava porque o vento vinha de frente.

Estavam ali por obediência

Chegamos ao ponto teologicamente mais denso deste versículo, e ele depende inteiramente do que foi narrado duas linhas antes.

Aqueles homens não estavam no meio do lago por decisão própria. Não erraram a rota, não desobedeceram, não escolheram mal a hora.

Eles foram forçados a embarcar. O versículo 22 usa um verbo de coação, e o próprio verbo implica que houve resistência.

Ou seja: o barco está exatamente onde foi mandado estar, no horário em que foi mandado partir, seguindo instrução expressa.

E é ali que a tempestade os pega.

Vale enunciar a consequência com todas as letras, porque ela desmonta uma teologia muito difundida.

Existe uma equação corrente na pregação: se você está passando por dificuldade, examine o seu pecado, porque a dificuldade é sinal de que algo está errado entre você e Deus. Prosperidade indica aprovação; sofrimento indica desvio.

Este versículo não cabe nessa equação. A obediência é o que os colocou na tempestade.

Agora convém ser honesto, porque a Bíblia não fala com uma voz só sobre isso, e fingir que fala seria fazer o mesmo tipo de seleção que se está criticando.

Há textos que sustentam, sim, uma ligação entre conduta e resultado. O Deuteronômio apresenta um esquema explícito de bênçãos para a obediência e maldições para a desobediência. Vários provérbios operam nessa chave.

E há um caso de tempestade que confirma a regra: Jonas foge da ordem recebida, embarca na direção contrária, e a tempestade que se levanta é apresentada pelo próprio relato como consequência da fuga. Ele mesmo reconhece isso e diz aos marinheiros que o lancem ao mar.

Duas tempestades, portanto, com causas opostas. Numa, o homem está fugindo do que lhe foi mandado. Na outra, os homens estão cumprindo o que lhes foi mandado.

E há textos que atacam frontalmente a equação. O livro de Jó existe basicamente para demolir a tese de que sofrimento indica culpa: os amigos a defendem durante trinta capítulos, e o fim do livro diz que eles não falaram o que era reto.

No evangelho de João, diante do cego de nascença, os discípulos perguntam quem pecou — ele ou os pais. A resposta descarta as duas alternativas.

E no evangelho de Lucas, comentando uma tragédia com dezoito mortos numa queda de torre, ele pergunta se aquelas pessoas eram mais culpadas que as outras, e responde que não.

Registro, portanto, o quadro completo. A Escritura contém material dos dois lados, e a leitura que transforma dificuldade em diagnóstico espiritual está escolhendo um conjunto de textos e silenciando outro.

O que este versículo acrescenta é uma peça específica e clara: obedecer não protege da tempestade. Estar no lugar certo, na hora certa, por ordem expressa, não impede que o vento venha de frente.

A segunda tempestade do evangelho

Vale, para fechar, comparar esta cena com a outra travessia difícil que Mateus já narrou.

No capítulo 8, os discípulos entram num barco com ele. Levanta-se uma tempestade grande, as ondas cobrem a embarcação, e ele está dormindo. Eles o acordam, ele repreende os ventos, e faz-se grande bonança.

Compare-se com a situação de agora.

Lá, ele estava no barco. Aqui, não está — ficou no monte.

Lá, havia a quem recorrer, ainda que dormindo. Aqui, não há.

Lá, a solução veio em poucos versículos. Aqui, a dificuldade se arrasta por horas, e o socorro só chega na última vigília da noite.

Ou seja: a segunda dificuldade é mais dura que a primeira, e vem depois dela.

Vale registrar o que isso desfaz. Existe a suposição de que a experiência resolve — que quem já passou por uma tempestade e viu como termina enfrenta a próxima com tranquilidade.

O texto não sustenta isso. Os mesmos homens que viram o mar se acalmar no capítulo 8 estão aqui, exaustos, e no versículo 26 gritarão de pavor.

Registro a observação como leitura da sequência narrativa. Mateus não faz o comentário — apenas coloca as duas cenas no mesmo evangelho e deixa a comparação disponível.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos — no meio do lago, sem conseguir avançar; estão onde foram mandados.

O barco — castigado pelas ondas; o verbo grego designa tormento.

O vento contrário — fenômeno comum no mar da Galileia, conhecido dos pescadores.

A distância — muitos estádios; João especifica entre quatro e seis quilômetros.

Jesus — ausente da cena; está no monte, orando.

O evento — a travessia que não avança, enquanto ele ora em outro lugar.

5. Pontos de Ensino

O verbo é de tortura. Não é inconveniente, é sofrimento.

Estavam no meio do lago. Entre quatro e seis quilômetros, segundo João.

O vento contrário desfazia o avanço. Remar não resolvia.

Eles conheciam aquele lago. Vários eram pescadores dali.

Estavam onde mandaram. Foram obrigados a embarcar.

Ele estava orando. As duas cenas acontecem ao mesmo tempo.

Eles estavam ali por obediência. Foram forçados a embarcar; o barco está exatamente onde foi mandado estar.

Obedecer não protege da tempestade. A equação "dificuldade indica pecado" não cabe nesta cena.

A Bíblia contém material dos dois lados. Deuteronômio e Jonas de um lado; Jó, o cego de nascença e a torre de Siloé do outro.

A palavra do tormento vem da pedra de toque. Do exame do ouro passou à tortura judicial e daí ao sofrimento em geral.

Mateus atormenta o barco; Marcos, os homens. O mesmo verbo, com concordância diferente — duas câmeras, uma cena.

O lago fica duzentos metros abaixo do nível do mar. O ar frio que desce das alturas produz rajadas violentas em pouco tempo.

Havia pescadores profissionais a bordo. Não era inexperiência: era gente da casa em dificuldade no próprio ofício.

6. Aspectos Filosóficos

Obedecer e ir parar na tempestade

Vale começar pela ligação com o versículo 22, porque ela muda a leitura da cena.

Aqueles homens não estavam no meio do lago por escolha própria. Não decidiram atravessar à noite, não ignoraram um aviso, não erraram a rota.

Foram obrigados a embarcar.

Ou seja: estavam exatamente onde lhes mandaram estar, fazendo exatamente o que lhes mandaram fazer.

E apanharam.

Vale registrar isso com clareza, porque contraria uma lógica muito difundida — a de que dificuldade indica erro, e que quem está no lugar certo não enfrenta tempestade.

O texto mostra o contrário. A obediência os colocou ali.

A palavra do sofrimento

Convém examinar o verbo, porque as traduções costumam suavizá-lo.

O grego usa o termo que significa atormentar, torturar, submeter a tormento.

É a mesma raiz que Mateus emprega no capítulo 8 para descrever um paralítico que sofre terrivelmente, e que aparece em outros textos com o sentido de tortura judicial.

Não é palavra de desconforto. É de dor.

Vale imaginar a situação concreta. Um barco de pesca, provavelmente com pouco mais de sete ou oito metros, no meio de um lago, à noite, com vento forte e ondas batendo de frente.

Água entrando. Frio. Escuro. Horas de remo sem sair do lugar.

O verbo é adequado.

O lago e o vento

Vale uma nota geográfica, porque ela explica o fenômeno.

O mar da Galileia não é mar: é um lago de água doce, com cerca de vinte e um quilômetros de comprimento por treze de largura.

Fica a mais de duzentos metros abaixo do nível do mar, cercado por colinas.

Essa configuração produz um efeito conhecido: o ar frio que desce das encostas encontra o ar quente sobre a água e gera rajadas violentas, muitas vezes sem aviso.

Pescadores locais conheciam o padrão. Vários dos discípulos eram exatamente isso — Pedro, André, Tiago e João pescavam naquele lago.

Ou seja: os homens naquele barco eram profissionais.

Vale reter o dado, porque ele muda a avaliação do medo que virá no versículo 26. Quando um pescador experiente se apavora numa água que ele conhece, a situação é séria.

Duas cenas ao mesmo tempo

Convém notar a estrutura narrativa, porque ela é deliberada.

O versículo 23 deixou Jesus sozinho no monte, orando.

O versículo 24 mostra o barco sendo castigado.

As duas coisas acontecem simultaneamente, e o texto as coloca lado a lado sem estabelecer relação.

Não diz que ele orava por eles. Não diz que sabia da tempestade. Não diz que a permitiu.

Registra as duas cenas.

Vale reter o efeito para quem lê: enquanto eles apanhavam, ele estava em outro lugar — e o leitor sabe disso, mas eles não.

Do ponto de vista dos discípulos, naquele momento, não havia ninguém.

Sobre o texto

Uma nota técnica, com a devida transparência.

Há variação entre os manuscritos neste versículo. Alguns trazem a expressão "muitos estádios da terra"; outros trazem "estava no meio do mar".

As duas leituras dizem substancialmente a mesma coisa — o barco estava longe da margem.

Registro a variante porque ela existe, e porque quem compara traduções encontra a diferença.

Nenhuma das duas altera o sentido do episódio.

O que a cena prepara

Uma última observação.

Este versículo estabelece a impossibilidade.

Vento contrário significa que remar não resolvia. Cada avanço era desfeito. Marcos acrescenta que eles se fatigavam a remar.

Não havia como chegar por esforço próprio.

Vale notar que essa é a mesma estrutura do bloco anterior: uma situação sem saída pelos meios disponíveis.

Lá, cinco pães para milhares. Aqui, remos contra o vento.

O evangelista não estabelece a comparação. Mas os dois blocos deste capítulo têm o mesmo formato — e, nos dois, a solução vem de fora do barco.

Duas tempestades no mesmo evangelho

Vale comparar esta cena com a de Mateus 8, porque as diferenças são instrutivas.

Lá, os discípulos também enfrentam tempestade no mesmo lago. A diferença é que Jesus está no barco, dormindo.

Eles o acordam, ele repreende o vento, e o mar se acalma. Depois pergunta por que tiveram medo.

Aqui, ele não está no barco. Está a quilômetros de distância, num monte.

Vale reter o contraste, porque ele muda a natureza do problema.

Na primeira tempestade, o recurso estava disponível e adormecido — bastava acordá-lo.

Nesta, não há recurso nenhum dentro do barco.

O evangelista não estabelece a comparação. Mas quem lê o evangelho em ordem encontra as duas cenas, e a segunda é mais difícil que a primeira.

Quanto tempo eles ficaram assim

Uma observação sobre a duração, que o texto permite calcular.

Eles embarcaram ao anoitecer, segundo o versículo 22.

O versículo 25 dirá que Jesus veio a eles na quarta vigília — o último turno da noite, entre aproximadamente três e seis da manhã.

Ou seja: passaram a noite inteira naquilo.

Horas de remo contra o vento, no escuro, sem avançar.

Vale registrar isso, porque a leitura corrida do capítulo dá a impressão de que a caminhada sobre a água veio logo em seguida.

Não veio. Veio de madrugada, depois de a noite inteira ter passado.

Duas tempestades com causas opostas

Vale colocar lado a lado dois relatos de tempestade que a Bíblia guarda, porque a comparação obriga a pensar melhor.

Num deles, um homem recebe uma ordem, embarca na direção contrária para fugir dela, e a tempestade que se levanta é apresentada pelo próprio texto como consequência da fuga. Ele reconhece isso e diz aos marinheiros que o lancem ao mar.

No outro — este —, doze homens recebem uma ordem, cumprem-na contra a própria vontade, e a tempestade os pega no meio do caminho.

Mesma imagem, causas invertidas.

Vale extrair disso o que se pode e não mais do que isso. Não se conclui que tempestades nunca sejam consequência, porque um dos relatos diz expressamente que aquela era. Também não se conclui que sejam sempre inocentes, pelo mesmo motivo.

O que se conclui é que a situação, sozinha, não informa a causa. Estar em dificuldade não diz nada sobre por que se está.

É conclusão modesta e é justamente o que falta na maior parte das leituras devocionais, que preferem uma regra a uma distinção.

A pedra de toque, e por que não usá-la aqui

Convém tratar de uma tentação interpretativa, porque ela é atraente e vale mostrar por que não se deve ceder.

A palavra que descreve o estado do barco vem, na origem, do nome de uma pedra usada para testar ouro. A tentação é evidente: dizer que a dificuldade testa e revela, como a pedra revelava a liga do metal.

A imagem é boa. O problema é que ela não está no texto.

No grego do primeiro século, aquele termo já significava tormento, e apenas isso. O sentido antigo de exame havia sido eclipsado pela associação com o suplício judicial, e quem ouvia a palavra pensava em dor.

Vale enunciar o princípio geral, porque ele vale para toda leitura bíblica: a origem de uma palavra não é o seu significado. Palavras carregam história e usam apenas uma parte dela.

Quem constrói doutrina sobre etimologia acaba pregando o dicionário antigo em vez do texto.

Registro, portanto, a etimologia como informação verdadeira e interessante, e registro que não é possível afirmar que o autor a tivesse em vista. Provavelmente não tinha.

O que a experiência não resolve

Uma observação sobre a sequência dentro do próprio evangelho.

Aqueles homens já haviam passado por uma tempestade naquele mesmo lago, no capítulo 8. Viram as ondas cobrirem o barco e viram o mar se acalmar.

Seria razoável esperar que a segunda vez fosse mais fácil.

Não é o que o texto mostra. Dois versículos adiante, os mesmos homens gritarão de pavor.

Vale examinar por que a experiência anterior não os protegeu, e há um dado concreto: na primeira vez, ele estava no barco. Havia a quem recorrer, ainda que dormindo.

Desta vez, não está. E a diferença não é de intensidade da tempestade: é de recurso disponível.

Registro a observação como leitura da sequência. O texto não a formula, e ela sai de comparar as duas cenas.

Convém acrescentar a consequência prática, que é sóbria: já ter atravessado uma dificuldade não é garantia de calma na seguinte, sobretudo quando as condições mudaram. Quem se cobra por isso está se cobrando por não ser outra pessoa.

7. Aplicações Práticas

Estar no lugar certo não protege da tempestade

Aqueles homens não estavam no meio do lago por escolha. Não decidiram atravessar à noite, não ignoraram aviso, não erraram a rota — foram obrigados a embarcar. Estavam exatamente onde lhes mandaram estar, fazendo exatamente o que lhes mandaram fazer. E apanharam.

Isso contraria uma lógica muito difundida: a de que dificuldade indica erro.

Se você está passando por um período duro, não conclua automaticamente que saiu do caminho. Às vezes foi a obediência que colocou você ali — e procurar um pecado que explique a dificuldade é perder tempo e ganhar culpa.

Chame o sofrimento pelo nome

O grego usa o verbo que significa atormentar, torturar — a mesma raiz que Mateus emprega para um paralítico que sofre terrivelmente, e que aparece em outros textos com sentido de tortura judicial. As traduções costumam suavizar.

Não é palavra de desconforto. É de dor.

Vale ao falar da própria situação ou da de alguém: usar a palavra certa. Chamar de "fase difícil" o que é sofrimento real atrapalha quem está dentro — porque a pessoa passa a achar que está exagerando por sentir o que sente.

Experiência não elimina o medo

Pedro, André, Tiago e João eram pescadores daquele lago. Conheciam o padrão de vento que desce das colinas e produz rajadas sem aviso — o mar da Galileia fica mais de duzentos metros abaixo do nível do mar, cercado de encostas.

Eram profissionais. E quando um profissional se apavora na água que conhece, a situação é séria.

Não desqualifique o próprio medo dizendo que você já passou por coisa pior ou que domina o assunto. Experiência ajuda a agir, e não impede de sentir — e reconhecer isso é o que evita paralisar por vergonha.

Você não vê o que está acontecendo em outro lugar

O versículo 23 deixou Jesus sozinho no monte; o 24 mostra o barco sendo castigado. As duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e o texto não estabelece relação — não diz que ele orava por eles nem que sabia da tempestade.

O leitor sabe que ele está lá. Eles não. Do ponto de vista deles, naquele momento, não havia ninguém.

Guarde isso para as horas em que você se sentir sozinho numa dificuldade. A sua percepção de abandono é informação sobre o seu ângulo de visão, não sobre o que existe fora dele.

Reconheça quando o esforço não resolve

Vento contrário significa que remar não adiantava: cada avanço era desfeito. Marcos acrescenta que eles se fatigavam a remar. Não havia como chegar por esforço próprio.

É a mesma estrutura do bloco anterior — cinco pães para milhares, remos contra o vento. Nos dois casos, a solução veio de fora do barco.

Há situações em que insistir é a pior estratégia, porque consome o que você tem sem mover nada. Saber distinguir o problema que cede ao esforço do que não cede é uma das habilidades mais úteis que existem.

Registre as variantes do texto

Há variação entre os manuscritos aqui: alguns trazem "muitos estádios da terra", outros "estava no meio do mar". As duas leituras dizem substancialmente a mesma coisa, e nenhuma altera o sentido do episódio.

Quem compara traduções encontra a diferença sozinho.

Vale como postura: mencionar as variantes conhecidas em vez de escondê-las. Quem descobre por conta própria que existe uma diferença não mencionada conclui — com razão — que outras podem ter sido omitidas.

A segunda dificuldade costuma ser mais difícil

Em Mateus 8, os discípulos enfrentam tempestade no mesmo lago — com Jesus no barco, dormindo. Bastava acordá-lo. Aqui ele não está: está a quilômetros, num monte. Na primeira, o recurso estava disponível e adormecido; nesta, não há recurso nenhum dentro do barco.

Quem lê o evangelho em ordem encontra as duas cenas, e a segunda é mais dura.

Vale quando você enfrenta de novo algo que já superou antes. Se está mais difícil, não é necessariamente porque você regrediu — pode ser porque as condições mudaram, e a saída anterior não está mais disponível.

Conte quanto tempo a coisa durou

Eles embarcaram ao anoitecer. O versículo 25 dirá que Jesus veio na quarta vigília — o último turno da noite, entre aproximadamente três e seis da manhã. Passaram a noite inteira remando contra o vento, no escuro, sem avançar.

A leitura corrida dá a impressão de que o socorro veio logo. Não veio: veio de madrugada.

Isso importa para quem está esperando alguma coisa. As histórias que a gente ouve comprimem o tempo, e a compressão faz a nossa espera parecer excessiva. Quase sempre não é — só está sendo vivida em tempo real.

A situação não informa a causa

A Bíblia guarda dois relatos de tempestade com causas invertidas. Num, um homem foge da ordem recebida, embarca na direção contrária, e o texto apresenta a tempestade como consequência — ele mesmo reconhece isso. No outro, doze homens cumprem a ordem recebida contra a própria vontade, e a tempestade os pega no caminho.

Não se conclui daí que tempestades nunca sejam consequência, nem que sejam sempre inocentes. Conclui-se que a dificuldade, sozinha, não diz por que ela veio.

Vale desmontar o reflexo de perguntar "o que eu fiz de errado?" toda vez que algo dá errado. Às vezes a pergunta é procedente e às vezes é pura autoacusação. Faça o exame, e aceite a possibilidade de que a resposta seja "nada" — que é uma resposta legítima, e a mais difícil de aceitar.

Não construa doutrina sobre etimologia

A palavra que descreve o barco vem do nome de uma pedra usada para testar ouro, e a tentação de dizer que a dificuldade "testa e revela" é grande. O problema é que, no grego do primeiro século, aquele termo já significava tormento e apenas isso.

A origem de uma palavra não é o seu significado. Palavras carregam história e usam só uma parte dela.

Isso vale toda vez que você ouvir uma pregação que começa por "no grego original, esta palavra vem de...". A informação pode ser verdadeira e ainda assim irrelevante para o sentido da frase. Pergunte sempre se o autor usava a palavra naquele sentido, e não apenas se a palavra já teve aquele sentido um dia.

Ter atravessado uma vez não garante calma na seguinte

Aqueles homens já haviam passado por uma tempestade naquele mesmo lago e visto o mar se acalmar. Seria razoável esperar que a segunda vez fosse mais fácil — e dois versículos adiante eles gritarão de pavor.

A diferença não está na intensidade do vento: está no recurso disponível. Na primeira vez, havia alguém no barco a quem recorrer, ainda que dormindo. Desta vez, não.

Vale como alívio de uma cobrança comum. Se você já superou algo parecido e mesmo assim está com medo agora, provavelmente as condições mudaram. Cobrar-se por não reagir com a serenidade da outra vez é cobrar-se por não ser outra pessoa, em outra situação.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Onde exatamente estavam?

No meio do lago. O texto mede em estádios, unidade equivalente a cerca de 185 metros; João, no paralelo, especifica vinte e cinco ou trinta estádios — algo entre quatro e seis quilômetros. Longe das duas margens.

O que significa "castigado"?

O grego usa o verbo de atormentar, torturar. É a mesma raiz que Mateus emprega no capítulo 8 para um paralítico que sofre terrivelmente, e que aparece em outros textos com sentido de tortura judicial. Não é palavra de desconforto; é de dor.

Por que o vento era tão forte?

O mar da Galileia é um lago de água doce, com cerca de vinte e um quilômetros de comprimento, situado mais de duzentos metros abaixo do nível do mar e cercado por colinas. O ar frio que desce das encostas encontra o ar quente sobre a água e gera rajadas violentas, muitas vezes sem aviso.

Eles conheciam aquelas condições?

Sim. Pedro, André, Tiago e João pescavam naquele lago. Eram profissionais, e conheciam o padrão — o que torna mais significativo o pavor que virá no versículo 26.

Eles estavam ali por erro?

Não. Foram obrigados a embarcar no versículo 22. Não decidiram atravessar à noite, não ignoraram aviso, não erraram a rota — estavam exatamente onde lhes mandaram estar. A obediência os colocou ali.

Há divergência entre os manuscritos aqui?

Há. Alguns trazem "muitos estádios da terra", outros "estava no meio do mar". As duas leituras dizem substancialmente a mesma coisa — o barco estava longe da margem — e nenhuma altera o sentido do episódio.

Onde exatamente estava o barco?

Mateus diz apenas "muitos estádios" da terra. Como o estádio equivale a cerca de cento e oitenta e cinco metros, e João especifica vinte e cinco ou trinta, a distância seria de quatro e meio a cinco quilômetros e meio. Num lago com uns doze quilômetros de largura no ponto mais largo, isso é aproximadamente o meio do caminho — longe demais para voltar com facilidade e longe demais para chegar.

Há variação nos manuscritos deste versículo?

Há. Parte deles não traz "a muitos estádios da terra", e sim "estava no meio do mar". São duas leituras antigas e a diferença de sentido é pequena: as duas colocam o barco longe da margem. Registro a variante porque a transparência textual é parte do trabalho.

Por que aquele lago tem tempestades tão súbitas?

Pela geografia. A superfície da água está cerca de duzentos metros abaixo do nível do mar, e o terreno em volta sobe depressa — planalto a leste, colinas altas ao norte e a oeste. O ar quente do fundo da bacia e o ar frio das alturas produzem uma armadilha conhecida: quando o frio desce pelos vales estreitos, entra na depressão com velocidade e levanta ondas altas rapidamente. Nada disso está no texto, que apenas informa que o vento era contrário.

De onde vem a palavra traduzida por "castigado"?

Do substantivo que designava a pedra de toque — pedra escura em que ourives riscavam o metal para verificar, pela cor do traço, a pureza do ouro. Daí veio o sentido de prova, e daí um segundo deslizamento: no direito ateniense o testemunho de escravo só era admitido sob tortura, e o procedimento tinha esse nome. A palavra acabou significando tormento em geral.

Então o barco estava "sendo testado como o ouro"?

Provavelmente não. No grego do primeiro século, o sentido de tormento já havia eclipsado o de exame, e quem ouvia a palavra pensava em sofrimento. Vale o princípio geral: a origem de uma palavra não é o seu significado. Registro a etimologia como informação verdadeira e marco que não é possível afirmar que o autor a tivesse em vista.

Quem estava sendo atormentado, o barco ou os discípulos?

Em Mateus, gramaticalmente, o barco: o particípio concorda com a embarcação. Em Marcos, o mesmo verbo concorda com os discípulos, vistos atormentados ao remar. Não há contradição — é a mesma cena de dois pontos de observação, um mais distante e outro dentro do barco.

A tempestade era castigo por alguma falta?

Não, e o próprio capítulo impede essa leitura: eles foram forçados a embarcar, e o barco está onde foi mandado estar. Convém, porém, não inverter a regra e afirmar que dificuldade nunca é consequência — a tempestade de Jonas é apresentada expressamente como resultado de uma fuga. O que se pode dizer é que a situação, sozinha, não informa a causa.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 14:22E logo constrangeu os seus discípulos a entrar no barco.

A ordem que os colocou exatamente ali.

João 6:19E, tendo navegado uns vinte e cinco ou trinta estádios.

A distância especificada no paralelo.

Marcos 6:48E vendo que se fatigavam muito a remar, porque o vento lhes era contrário.

O esforço inútil, registrado no paralelo.

Mateus 8:6O meu criado jaz em casa paralítico, e horrivelmente atormentado.

O mesmo verbo, aplicado ao sofrimento de um doente.

Mateus 8:24E eis que no mar se levantou uma tempestade tão grande que o barco era coberto pelas ondas.

Outra tempestade no mesmo lago, seis capítulos antes.

Salmo 107:25-27Pois ele manda, e se levanta o vento tempestuoso... e toda a sua sabedoria se esgota.

A descrição da mesma experiência na literatura de Israel.

Jonas 1:4,12Mas o Senhor mandou ao mar um grande vento... E ele lhes disse: Levantai-me, e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará; porque eu sei que por minha causa vos sobreveio esta grande tempestade.

A tempestade que o próprio relato apresenta como consequência de uma fuga — o caso oposto ao deste versículo.

Salmo 42:7Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim.

A onda como imagem do que submerge, na linguagem dos salmos.

Jonas 2:3Todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima de mim.

A mesma imagem, repetida na oração feita do fundo do mar.

Jó 42:7A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não falastes de mim o que era reto.

O veredicto sobre quem defendeu, por trinta capítulos, que sofrimento indica culpa.

João 9:2-3Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais.

A pergunta feita diretamente, e as duas alternativas descartadas.

Lucas 13:4-5E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo.

A recusa expressa de ler tragédia como medida de culpa.

Mateus 8:24-26E eis que no mar se levantou uma tempestade, tanto que o barco era coberto pelas ondas; ele, porém, estava dormindo... Então, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e seguiu-se uma grande bonança.

A primeira travessia difícil, em que ele estava a bordo — e resolvida em poucos versículos.

Marcos 6:48E viu que se fatigavam muito a remar, porque o vento lhes era contrário.

O mesmo verbo grego, aplicado aos homens em vez do barco.

Atos 27:4E, partindo dali, fomos navegando abaixo de Chipre, porquanto os ventos eram contrários.

O mesmo adjetivo em sentido náutico, numa outra viagem por mar.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

O barco já estava a muitos estádios da terra, castigado pelas ondas, porque o vento era contrário.

Texto grego

τὸ δὲ πλοῖον ἤδη σταδίους πολλοὺς ἀπὸ τῆς γῆς ἀπεῖχεν, βασανιζόμενον ὑπὸ τῶν κυμάτων, ἦν γὰρ ἐναντίος ὁ ἄνεμος

Transliteração

tò dè ploîon ḗdē stadíous polloùs apò tēs gēs apeîchen, basanizómenon hypò tōn kymátōn, ēn gàr enantíos ho ánemos

Palavra por palavra

σταδίους πολλοὺς (stadíous polloùs) — "muitos estádios"

O stádion era a unidade grega de distância, correspondente a cerca de 185 metros.

É a mesma palavra que designava a pista de corrida — daí o nosso "estádio".

Vale registrar a variante textual: parte dos manuscritos traz, em lugar dessa expressão, a frase "estava no meio do mar". O sentido geral não muda.

ἀπεῖχεν (apeîchen) — "distava"

Imperfeito do verbo estar distante, afastado.

O imperfeito indica situação em curso: estava, ao longo daquele tempo, distante.

βασανιζόμενον (basanizómenon) — "sendo atormentado"

Aqui está a palavra do versículo.

O verbo basanízō vem de básanos, que originalmente designava a pedra de toque usada para testar ouro.

Do teste do metal, o termo passou ao teste por tortura — o interrogatório sob suplício —, e daí ao sentido geral de atormentar.

Aparece em Mateus 8:6, para o paralítico horrivelmente atormentado, e em Apocalipse para o tormento.

Note-se que o particípio está na voz passiva e no presente: o barco estava sendo atormentado, continuamente.

Vale registrar: o objeto do tormento, gramaticalmente, é o barco. Não os homens. A construção personifica a embarcação.

ὑπὸ τῶν κυμάτων (hypò tōn kymátōn) — "pelas ondas"

A preposição marca o agente da passiva. Quem atormenta são as ondas.

ἐναντίος ὁ ἄνεμος (enantíos ho ánemos) — "contrário o vento"

O adjetivo significa oposto, adverso, de frente. É a raiz de palavras como "antagônico" por outro caminho.

O substantivo designa o vento — e é a raiz de "anemômetro".

A construção com o verbo no imperfeito indica estado permanente durante o episódio: o vento era contrário.

Nota — a pedra de toque

Vale fechar com a etimologia do verbo, porque ela é curiosa e ilumina o campo semântico.

Básanos era, na origem, a pedra escura usada por ourives para testar a pureza do ouro. Riscava-se o metal na pedra e examinava-se a marca deixada.

A palavra passou a designar, por extensão, qualquer prova rigorosa — e depois, especificamente, o interrogatório sob tortura, que era o método antigo de "testar" a verdade de um depoimento.

Daí chegou ao sentido de tormento em geral.

Não convém construir teologia sobre etimologia — o uso corrente da palavra no primeiro século já era simplesmente atormentar, e o evangelista provavelmente não tinha a pedra de toque em mente.

Mas vale registrar que a mesma palavra que descreve o barco sacudido pelas ondas carregava, em sua história, a ideia de algo submetido a teste.

E vale registrar também o que a gramática faz: o barco é o objeto do tormento, e os homens dentro dele não são mencionados.

Eles aparecerão no versículo 26 — gritando.

Nota — a mesma palavra em Marcos, com outra concordância

Vale registrar um detalhe gramatical que separa os dois relatos e que não implica contradição.

Em Mateus, o particípio basanizómenon está no gênero neutro e concorda com ploîon, barco. Quem é atormentado, gramaticalmente, é a embarcação.

Em Marcos, o mesmo verbo aparece na mesma cena, no acusativo masculino plural, concordando com os discípulos: ele os viu atormentados ao remar.

A diferença é de foco narrativo. Um evangelista mantém a câmera longe e mostra um casco sendo batido; o outro entra no barco e mostra o esforço dos remadores.

Nota — básanos no julgamento ateniense

Convém completar a história da palavra, porque o segundo deslizamento de sentido é o que explica o uso do primeiro século.

Do exame do ouro na pedra, o termo passou a designar "prova" em geral. E, no direito ateniense, havia uma regra dura: o testemunho de um escravo só era admitido em juízo se obtido sob tortura.

O procedimento tinha esse nome. Considerava-se a dor um método de verificação — a pedra de toque aplicada a pessoas.

Daí o sentido de suplício, e daí o de tormento em geral, que é o corrente no Novo Testamento.

Registro que essa é a razão pela qual não se deve traduzir a palavra por "testado" nesta passagem.

Nota — kŷma na Bíblia grega

O substantivo kŷma designa a onda, a vaga, e está ligado à ideia de inchaço, do que se avoluma.

Na versão grega do Antigo Testamento, ele raramente é apenas meteorologia. Aparece na descrição do afogamento espiritual dos salmos — todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim — e na oração de Jonas, com quase a mesma frase.

Em todos esses casos, a onda é imagem do que submerge e do que não se enfrenta de pé.

Registro que Mateus não cita nenhum desses textos, e que "ondas", numa tempestade em lago, é a palavra óbvia.

Nota — a partícula explicativa

A última oração começa com gár, partícula que introduz explicação: "porque".

Vale notar que o narrador não se limita a descrever. Ele informa a causa do que está acontecendo — o barco não avança porque o vento vem de frente.

E o verbo dessa oração está no imperfeito: o vento era contrário, ao longo de todo o período. Não se trata de uma rajada, e sim da condição da noite inteira.

11. Conclusão

Uma frase de descrição técnica guarda o problema teológico mais sério deste capítulo, e ele depende inteiramente do que foi narrado duas linhas antes. Aqueles homens não estavam no meio do lago por escolha própria: foram forçados a embarcar, e o verbo empregado no versículo 22 é de coação, implicando resistência. O barco está exatamente onde foi mandado estar, na hora em que foi mandado partir. E é ali que a tempestade os alcança.

Isso não cabe numa equação muito repetida em púlpito, segundo a qual dificuldade é sinal de que algo está errado entre a pessoa e Deus — prosperidade indicando aprovação, sofrimento indicando desvio. Aqui, a obediência é o que os colocou dentro da tempestade.

Honestidade exige, porém, não fingir que a Bíblia fala com uma voz só. Há textos que ligam conduta e resultado: o Deuteronômio apresenta um esquema explícito de bênçãos e maldições, e vários provérbios operam nessa chave. E há uma tempestade que confirma a regra — a de Jonas, levantada, segundo o próprio relato, porque ele fugia da ordem recebida, o que ele mesmo reconhece diante dos marinheiros. Duas tempestades com causas opostas, portanto: numa, um homem foge do que lhe foi mandado; na outra, doze homens cumprem o que lhes foi mandado. Do outro lado pesam Jó, cujo livro existe basicamente para demolir a tese de que sofrimento indica culpa, e as duas cenas dos evangelhos em que a pergunta sobre a culpa é feita diretamente — o cego de nascença e a torre que caiu sobre dezoito pessoas — e recebe resposta negativa nas duas vezes. Quem transforma dificuldade em diagnóstico espiritual está escolhendo um conjunto de textos e silenciando outro.

A palavra que descreve o estado do barco é das mais fortes da língua. O verbo vem do substantivo que designava a pedra de toque — a pedra escura em que ourives riscavam o metal para verificar, pela cor do traço, a pureza do ouro. Daí veio o sentido de prova, e daí um segundo deslizamento, sombrio: no direito ateniense, o testemunho de escravo só era admitido sob tortura, e o procedimento tinha esse nome, como se a dor fosse a pedra de toque aplicada a gente. No Novo Testamento, a palavra descreve o servo do centurião horrivelmente atormentado, o medo dos endemoninhados de serem atormentados antes do tempo, e o tormento dos condenados no Apocalipse. Convém, por isso, segurar a tentação de dizer que o barco estava "sendo testado como se testa o ouro": no grego do primeiro século o sentido de tormento já havia eclipsado o de exame, e quem ouvia a palavra pensava em sofrimento.

Um detalhe gramatical fino separa os dois relatos. Em Mateus, o particípio concorda com o barco — quem é atormentado é a embarcação. Em Marcos, o mesmo verbo concorda com os discípulos, que são vistos atormentados ao remar. Um evangelista mantém a câmera longe e mostra um casco sendo batido no meio da água; o outro entra no barco e mostra o esforço dos remadores. Não há contradição: é a mesma cena de dois pontos de observação.

Vale ainda situar a geografia, porque sem ela a cena parece exagero e não é. A superfície daquele lago está cerca de duzentos metros abaixo do nível do mar, e o terreno em volta sobe depressa — o planalto a leste, colinas altas ao norte e a oeste. O ar quente do fundo da bacia e o ar frio das alturas produzem uma armadilha meteorológica conhecida: quando o frio desce pelos vales estreitos, entra na depressão com velocidade e levanta ondas altas em pouco tempo. Nada disso está no texto, que se limita a informar que o vento era contrário — e informa com o verbo no imperfeito, indicando não uma rajada, mas a condição da noite inteira. Convém lembrar, por fim, quem estava dentro do barco: pelo menos quatro pescadores profissionais daquele lago, gente que conhecia aquelas águas melhor do que ninguém. Não era inexperiência diante do desconhecido — era gente da casa em dificuldade no próprio ofício, o que agrava a cena em vez de aliviá-la.

Uma última comparação, disponível dentro do mesmo evangelho. No capítulo 8 houve outra travessia difícil: tempestade grande, ondas cobrindo o barco, e ele dormindo a bordo. Acordaram-no, ele repreendeu o vento, fez-se bonança. Agora, ele não está no barco; não há a quem recorrer; e a dificuldade se arrasta por horas, com o socorro chegando só na última vigília. A segunda é mais dura que a primeira, e vem depois dela — o que desfaz a suposição de que experiência resolve. Os mesmos homens que viram o mar se acalmar naquele capítulo estão aqui, exaustos, e daqui a dois versículos gritarão de pavor.

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Mateus 14:24

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