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Mateus 14:25

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 39 min de leitura·👁 8 acessos
Na quarta vigília da noite, Jesus foi até eles, andando sobre o mar.
Figura de um homem caminhando sobre a água escura à noite, com um barco iluminado ao longe.

Estudo


Na quarta vigília da noite, Jesus foi até eles, andando sobre o mar.

1. Introdução

A hora importa tanto quanto o fato.

Foi na quarta vigília — o último turno da noite, entre mais ou menos três e seis da manhã.

Ou seja: eles passaram a noite inteira remando contra o vento antes de qualquer coisa acontecer.

E então ele veio, andando sobre o mar.

2. Contexto Histórico e Cultural

A quarta vigília

Os romanos dividiam a noite em quatro turnos de guarda, de três horas cada.

A quarta ia aproximadamente das três às seis da manhã — a última parte da noite, a mais escura e a mais fria.

Vale reter a conta: eles embarcaram ao anoitecer, no versículo 22. Passaram-se, portanto, entre seis e nove horas.

O sistema de contagem

A divisão em quatro vigílias era romana. Os judeus tradicionalmente dividiam a noite em três.

Mateus usa o sistema romano — o que é coerente com um evangelho escrito num mundo sob domínio de Roma.

Andando sobre o mar

O texto diz simplesmente isso, sem adjetivo, sem exclamação, sem descrição.

Não há registro de como aquilo era visto, de brilho, de solenidade.

Ele veio a eles, caminhando sobre a água.

Um eco antigo

Caminhar sobre o mar é, na literatura de Israel, atributo divino.

Jó fala de Deus que anda sobre as alturas do mar. Os salmos falam de caminho no meio das águas.

Vale registrar a ressonância — e registrar que Mateus não cita nenhum desses textos aqui.

3. Análise Teológica do Versículo

"Na quarta vigília da noite"

A expressão parece uma simples marcação de hora, e traz dentro dela duas informações que valem exame.

Comece-se pela contagem. Dizer "quarta vigília" pressupõe que a noite esteja dividida em quatro partes — e essa divisão não é a de Israel.

O sistema hebraico dividia a noite em três turnos de guarda. O livro dos Juízes menciona a vigília do meio, quando Gideão ataca o acampamento midianita; as Lamentações falam do princípio das vigílias; e o Êxodo situa na vigília da manhã o momento em que o Senhor olhou para o exército egípcio.

Três turnos, portanto, de aproximadamente quatro horas cada, cobrindo o período do pôr do sol ao amanhecer.

O sistema romano era outro: quatro turnos de cerca de três horas. Grosso modo, das seis da tarde às nove, das nove à meia-noite, da meia-noite às três, e das três às seis da manhã.

O evangelho de Marcos chega a nomear os quatro turnos, ao falar do senhor que volta: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, ou pela manhã.

Ou seja: ao dizer "quarta vigília", este versículo está contando pelo relógio romano, e não pelo judaico.

Vale registrar o que se pode extrair disso e o que não se pode.

Parte dos estudiosos vê aí um indício sobre o público do evangelho — leitores familiarizados com a divisão administrativa e militar do império, e não apenas com a tradição judaica.

É leitura possível e é discutida. Convém lembrar que a Galileia estava sob domínio romano havia décadas, que a divisão em quatro vigílias circulava, e que usar o sistema corrente não implica escrever para estrangeiros.

Registro a hipótese sem apoiá-la nem descartá-la.

O que a expressão estabelece com segurança é a hora: entre as três e as seis da madrugada. A parte mais escura e mais fria da noite, e a última antes do amanhecer.

A conta das horas

Convém fazer a aritmética, porque ela muda a leitura da cena.

Os discípulos embarcaram logo depois da refeição, ao anoitecer — o versículo 22 diz "logo em seguida", sem intervalo.

Se partiram por volta das seis ou sete da tarde, e ele chega na quarta vigília, passaram-se entre oito e onze horas.

Some-se a isso o dia inteiro que precedeu: a travessia da manhã, a multidão na margem, as curas, a distribuição de comida a milhares de pessoas, o recolhimento dos cestos.

Aqueles homens estavam acordados e trabalhando havia quase vinte e quatro horas, e as últimas nove foram remando contra o vento.

Vale registrar que o texto não menciona nada disso. Ele diz apenas "na quarta vigília", e deixa a conta por conta de quem lê.

E vale registrar também o que a conta revela sobre a demora. Não foi um socorro imediato. Houve uma noite inteira de esforço antes que qualquer coisa acontecesse.

O texto não explica a demora. Não diz que ele esperou, não diz que houve propósito, não diz que era necessário. Simplesmente informa a hora.

A palavra que também significa prisão

Aqui está uma coincidência de vocabulário que atravessa o capítulo, e ela é notável.

O substantivo grego traduzido por "vigília" é phylakḗ.

A palavra vem do verbo phylássō, guardar, vigiar, proteger. E ela cobre um campo amplo: o ato de guardar, o turno de guarda, o corpo de guardas — e também o lugar onde se guardam pessoas, isto é, a prisão.

Repare agora onde essa mesma palavra já apareceu neste capítulo.

No versículo 3, está escrito que Herodes prendeu João, acorrentou-o e o colocou na phylakḗ.

No versículo 10, está escrito que mandou decapitá-lo na phylakḗ.

Ou seja: na primeira metade do capítulo, um homem morre numa phylakḗ. Na segunda metade, homens são socorridos numa phylakḗ.

Convém marcar o limite com clareza, porque a observação é bonita e pode ser mal usada.

O duplo sentido dessa palavra é padrão em grego, e não há nada de extraordinário em ela aparecer nos dois sentidos num mesmo texto. É como usar "guarda" em português para o turno e para o guarda-roupa: não indica jogo do autor.

Não é possível afirmar que o evangelista tenha construído a repetição. O que se pode afirmar é que a coincidência existe, que é visível a quem lê em grego, e que o português a apaga por completo, porque traduz uma ocorrência por "prisão" e outra por "vigília".

Registro o dado, portanto, como dado — e a leitura que dele se faça, como leitura.

"Jesus foi até eles"

O verbo é ēlthen, aoristo de érchomai, vir. E o sintagma seguinte é pròs autoús, "em direção a eles".

É frase simples, e o que ela tem de notável é o que falta em volta dela.

Ninguém chamou.

Em todo o relato, não há registro de oração, de pedido, de grito por socorro. Os discípulos não invocam ninguém — o texto não menciona uma única palavra dita por eles durante a noite.

Vale comparar com a outra tempestade, no capítulo 8. Lá, eles o acordam com um pedido explícito: Senhor, salva-nos, que perecemos.

Aqui, nada disso. Ele simplesmente vem.

Registro isso como observação sobre o que o texto contém, e não como tese sobre o que se passou na cabeça deles. É possível que tenham orado sem que o evangelista registrasse. O que se pode afirmar é que o relato apresenta a iniciativa como inteiramente dele.

"andando sobre o mar"

Duas palavras aqui pedem exame, e a segunda vale um bom trecho.

A primeira é o particípio peripatōn, de peripatéō — andar, caminhar, deslocar-se a pé. É verbo comum, e está no presente, indicando ação em curso: vinha caminhando.

Vale notar que não há nada de espetacular no verbo. Não é "voar", não é "deslizar", não é "pairar". É o verbo de quem anda na rua.

A segunda é thálassa, mar. E aqui há um detalhe importante.

Aquilo não é mar. É um lago de água doce, com uns vinte quilômetros de comprimento, alimentado pelo Jordão.

O grego tem palavra própria para isso: límnē, lago. E o evangelho de Lucas, com precisão, usa exatamente essa palavra ao falar do lugar — o lago de Genesaré.

Mateus, Marcos e João, porém, chamam aquilo de thálassa, mar.

A razão mais provável é o hebraico. Em hebraico, a palavra yam serve tanto para o mar quanto para grandes massas de água doce, e a designação corrente daquele lugar era "o mar da Galileia".

Ou seja: chamar o lago de mar é um traço de linguagem judaica, e Lucas — que escreve com grego mais cuidado e para leitores de fora — corrige para "lago".

Registro que essa explicação é a mais aceita e que a diferença entre os evangelhos é dado observável.

E vale acrescentar o que a escolha carrega. A palavra thálassa é a que a versão grega do Antigo Testamento usa para o mar da criação, o mar que se abre no êxodo, o mar dos salmos. Ao usá-la, o texto coloca a cena dentro daquele vocabulário — quer isso tenha sido buscado ou não.

Um versículo do livro de Jó

Chegamos ao material mais denso deste versículo, e ele está num livro de poesia.

No capítulo 9 de Jó, no meio de um discurso sobre a impossibilidade de contender com Deus, há uma descrição do poder divino. O texto hebraico diz que ele estende os céus sozinho e pisa sobre as alturas do mar.

Agora observe-se como isso ficou na versão grega — a que circulava no mundo em que o evangelho foi escrito.

Ali está: aquele que sozinho estendeu o céu e caminha sobre o mar como sobre chão firme.

O verbo é peripatéō. A preposição é epí. O substantivo é thálassa.

São exatamente as três palavras deste versículo.

Convém deixar claro o que isso significa e o que não significa.

Não significa que Mateus esteja citando Jó. Não há fórmula de citação, não há "para que se cumprisse", não há sinal algum de referência — o que é notável, porque este evangelho cita o Antigo Testamento com frequência e método.

Também não significa que a coincidência seja fabricada pelo comentarista. As três palavras estão nos dois textos, e "andar sobre o mar" não tem tantas maneiras de ser dito em grego.

Registro os dois lados e não decido: não é possível determinar se havia intenção. O que se pode afirmar é que o leitor formado na Bíblia grega encontrava, ao ler esta frase, a frase de Jó.

E há um detalhe adicional que torna a coincidência mais interessante.

Poucos versículos depois, no mesmo capítulo de Jó, está escrito: eis que ele passa por mim, e eu não o vejo; segue adiante, e eu não o percebo.

Ora, o evangelho de Marcos, ao narrar esta mesma cena, acrescenta uma informação que Mateus não traz: que ele queria passar adiante deles.

A frase de Marcos é estranha e sempre incomodou os leitores — por que passaria adiante, se veio até eles?

A explicação mais forte é que "passar adiante" é fórmula de manifestação divina no Antigo Testamento. Quando Moisés pede para ver a glória, a resposta é que ela passará enquanto ele estiver na fenda da rocha. Quando Elias está na caverna do Horebe, é dito que o Senhor passaria, e então vêm o vento, o terremoto, o fogo e a voz suave.

Ou seja: passar adiante não é ir embora. É a forma pela qual uma presença se mostra.

Registro com todo o cuidado o estatuto disso. Essa frase está em Marcos, e não em Mateus. Mateus omite o "passar adiante" por completo.

Quem quiser ler a cena com essa camada precisa ir ao outro evangelho — e vale saber que está fazendo isso.

O mar e o que ele representava

Convém situar brevemente por que caminhar sobre aquela água é mais do que uma proeza física, sem repetir aqui o que o comentário do versículo seguinte desenvolve em detalhe.

Na literatura de Israel, o mar não é paisagem: é o que precisou ser contido. Um salmo diz que Deus domina o ímpeto do mar e aquieta as ondas quando se levantam. Outro diz que o caminho de Deus foi no mar, e as suas veredas nas grandes águas, e as suas pegadas não foram conhecidas. E o discurso final de Jó pergunta quem fechou o mar com portas e lhe fixou o limite.

Israel, além disso, não era povo de navegação. Não desenvolveu marinha, não teve porto de relevo, e a sua memória fundadora sobre o mar é a de uma água que precisou abrir-se para dar passagem a pé.

Com esse repertório, uma figura humana em pé sobre a superfície da água não é apenas alguém violando a física. É alguém na posição que os textos reservam a um só.

Registro que Mateus não faz nenhum desses comentários. Ele escreve a frase e segue.

A economia da descrição

Vale fechar observando o modo como o versículo está escrito, porque a contenção é notável.

Não há adjetivo. Não há advérbio de espanto. Não há descrição da aparência dele, da luz, do efeito sobre a água, da reação de quem via.

Uma frase de nove palavras em grego informa a hora, o movimento e o meio.

Compare-se com o modo como esse tipo de cena é narrado em outras literaturas antigas, onde prodígios costumam vir acompanhados de sinais no céu, tremores e comentários do narrador sobre a magnitude do feito.

Aqui, nada. O extraordinário é dito com o vocabulário do trivial: alguém veio caminhando.

Registro que essa observação é sobre o efeito do texto, e que a intenção do autor não é acessível. O que se pode afirmar é que a reação — o pavor, o grito, a palavra "fantasma" — fica inteiramente por conta dos discípulos, no versículo seguinte, e não do narrador.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — vai até eles caminhando sobre a água; a iniciativa é dele.

Os discípulos — no barco há horas, sem terem chamado por ninguém.

A quarta vigília — último turno da noite, entre cerca de três e seis da manhã.

O sistema romano — divisão da noite em quatro turnos; os judeus usavam três.

O mar — o lago da Galileia, agitado pelo vento contrário.

O evento — a aproximação, narrada sem nenhum adjetivo.

5. Pontos de Ensino

Passou a noite inteira. Embarcaram ao anoitecer; ele vem de madrugada.

A quarta vigília é o último turno. Entre três e seis da manhã.

O sistema é romano. Os judeus dividiam a noite em três.

A iniciativa é dele. Ninguém chamou.

O texto não descreve o fenômeno. Nenhum adjetivo, nenhum brilho.

Andar sobre o mar é atributo divino em Jó e nos salmos. Mateus não cita.

A contagem é romana, não judaica. Israel dividia a noite em três vigílias; quatro turnos de três horas é o sistema do império.

A conta dá quase um dia inteiro de trabalho. Embarcaram ao anoitecer, e a quarta vigília vai das três às seis da madrugada.

"Vigília" é a mesma palavra de "prisão". Nos versículos 3 e 10 ela aparece traduzida assim — o português apaga a coincidência.

Ninguém chamou. Não há registro de oração nem de pedido; na tempestade do capítulo 8, eles pedem com todas as letras.

Aquilo não é mar, e sim um lago. Lucas usa a palavra grega correta; os outros três preferem "mar", como o hebraico permitia.

Jó 9:8, em grego, tem as mesmas três palavras. Mesmo verbo, mesma preposição, mesmo substantivo — sem que Mateus cite o livro.

O "passar adiante" está em Marcos. E é fórmula de manifestação divina, usada com Moisés e com Elias.

6. Aspectos Filosóficos

A conta da noite

Vale começar pela hora, porque ela é o dado mais desconfortável do versículo.

Os discípulos embarcaram ao anoitecer, segundo o versículo 22.

Este versículo situa a aproximação na quarta vigília — o último turno da noite romana, entre aproximadamente três e seis da manhã.

A conta é simples e dura: passaram-se entre seis e nove horas.

Seis a nove horas de vento contrário, remo inútil, escuro, frio e água entrando.

Vale insistir nisso porque a leitura corrida do capítulo produz a impressão oposta. Lemos o versículo 24 e o 25 em sequência, e parece que o socorro veio logo.

Não veio. Veio no fim da noite.

E o texto não explica a demora. Não diz que era necessário, que estava provando alguma coisa, que havia um propósito naquelas horas.

Registra a hora e segue.

Por que o sistema romano

Convém explicar a divisão, porque ela informa mais do que parece.

Os judeus, tradicionalmente, dividiam a noite em três vigílias.

Os romanos usavam quatro, de aproximadamente três horas cada: do pôr do sol às nove, das nove à meia-noite, da meia-noite às três, e das três ao amanhecer.

Mateus usa a contagem romana.

Não é dado teológico. É indicação de que o evangelho foi escrito e lido num mundo em que o sistema romano era o corrente — o que é coerente com tudo o mais que se sabe sobre a época.

Vale registrar como exemplo de algo útil: detalhes aparentemente neutros de um texto antigo informam sobre o ambiente em que foi produzido.

Ninguém chamou

Uma observação sobre a iniciativa.

O texto não registra que os discípulos tenham orado, gritado por socorro ou pedido ajuda.

Compare-se com a tempestade de Mateus 8, em que eles acordam Jesus dizendo que estão perecendo.

Aqui, nada.

Provavelmente porque não havia a quem pedir — ele estava a quilômetros, e eles sabiam.

Ou seja: a aproximação não é resposta a um pedido. É movimento espontâneo.

Vale registrar isso sem transformar em doutrina — o texto não formula nenhuma tese sobre socorro sem pedido. Mas o dado narrativo está lá.

A economia da descrição

Convém notar como o evangelista descreve o inexplicável.

Um homem caminha sobre a superfície de um lago agitado, de madrugada, durante uma tempestade.

O texto usa quatro palavras: andando sobre o mar.

Não há adjetivo. Não há descrição de como a água se comportava, de luz, de aparência, de solenidade.

É a mesma contenção que vimos no versículo 19, quando a multiplicação não foi descrita.

Vale reter o padrão deste capítulo: o evangelista detalha logística, hora e distância, e é seco justamente nos pontos em que um relato interessado em impressionar seria detalhado.

Um eco que o texto não cita

Convém registrar uma ressonância conhecida, marcando o que é leitura.

Na literatura de Israel, caminhar sobre as águas é atributo divino.

Jó fala de Deus que estende os céus sozinho e anda sobre as alturas do mar. Um salmo fala do caminho dele no mar e das veredas nas águas profundas. Outro descreve Deus que domina a soberba do mar.

A imagem do mar como força indomável, sujeita apenas a Deus, atravessa o Antigo Testamento.

Quem conhecia esses textos e visse um homem caminhando sobre a água faria a associação.

Vale registrar, porém, que Mateus não cita nenhuma dessas passagens aqui — o que é notável num evangelho que cita profecias com frequência.

A associação existe para quem tem o repertório. O texto não a faz.

E o versículo 33 mostrará que os discípulos, no fim, chegaram a uma conclusão nessa direção — mas por conta própria, e depois de tudo ter acontecido.

A palavra que serviu para a cela

Vale registrar uma coincidência de vocabulário que o português apaga.

A palavra grega traduzida aqui por vigília é phylakḗ.

É exatamente a mesma que aparece nos versículos 3 e 10 deste capítulo — ali com o sentido de prisão, a cela onde João foi mantido e morto.

A palavra vem do verbo guardar, vigiar. Designa tanto o lugar onde se guarda um preso quanto o turno de quem faz a guarda noturna.

Ou seja: na primeira metade do capítulo, alguém morreu numa phylakḗ. Na segunda, alguém é socorrido numa phylakḗ.

Convém não construir teologia sobre isso. São dois sentidos correntes da mesma palavra, e o evangelista não comenta.

Registro porque quem lê no grego percebe, e porque é o tipo de coincidência que a tradução necessariamente esconde.

O que Marcos acrescenta

Uma observação sobre a diferença entre os relatos.

Marcos, no paralelo, informa algo que Mateus omite: que Jesus os viu se afadigando ao remar.

Ou seja, segundo Marcos, ele estava vendo do monte o que acontecia no lago.

Mateus não diz isso. Simplesmente registra que ele veio.

Vale registrar a diferença sem harmonizá-la à força. O detalhe de Marcos, se levado a sério, mudaria a leitura da demora — significaria que ele observou durante horas antes de agir.

Como Mateus não registra, o ponto pertence propriamente ao comentário de Marcos.

O relógio de quem conta

Vale observar uma coisa pequena que o versículo revela sobre o próprio evangelho.

A noite podia ser dividida de dois modos naquele mundo. O modo judaico, com três turnos de guarda, aparece no livro dos Juízes, nas Lamentações e no Êxodo. O modo romano, com quatro turnos de três horas, era o do exército e da administração imperial.

Este versículo conta pelo segundo.

Não é dado espetacular, e é informativo. Textos antigos revelam o mundo de quem os escreveu em detalhes assim — nas unidades de medida, nas moedas citadas, nos costumes pressupostos.

Vale medir o alcance da observação, porém. A Galileia estava sob domínio romano havia décadas, e usar o relógio corrente não implica escrever para estrangeiros. É discutido, e não é possível decidir a partir de uma frase.

O que fica é o método: reparar em como um texto conta as horas, mede as distâncias e nomeia as coisas é um dos caminhos mais seguros para saber de onde ele fala.

Socorro sem pedido

Convém isolar o que o versículo tem de silencioso, porque a ausência é significativa.

Não há oração registrada. Não há pedido. Não há grito. Durante toda a noite, o texto não atribui uma única palavra àqueles homens.

E, ainda assim, alguém vem.

Isso põe em questão um modo bastante difundido de entender a relação com Deus, segundo o qual a ajuda é resposta a um pedido bem formulado — como se houvesse um mecanismo de requerimento e deferimento.

Vale ser cuidadoso aqui, porque a Bíblia contém material abundante sobre pedir, insistir e clamar. Não se está negando isso.

O que se observa é que esta cena não funciona assim. E que registrar exceções à regra faz parte de ler honestamente.

Registro também o limite da observação: é possível que tenham orado sem que o evangelista escrevesse. O que se afirma é o que o relato apresenta — iniciativa inteiramente de fora.

O que uma frase curta faz

Vale pensar em como o narrador escolhe descrever o momento mais improvável do capítulo.

Ele dispõe de recursos. Poderia descrever a aparência, a luz, o efeito sobre a água, o silêncio que se fez, a reação de quem via.

Usa nove palavras e nenhum adjetivo.

Há uma consequência interessante nisso. Ao não qualificar a cena, o narrador deixa a avaliação inteiramente por conta dos personagens — e a avaliação deles, no versículo seguinte, será o pavor e a palavra "fantasma".

Ou seja: o texto não informa ao leitor como reagir. Mostra o fato e mostra a reação de quem estava lá, e as duas coisas ficam separadas.

Vale registrar que isso é observação sobre o efeito da narrativa, e não sobre a intenção do autor, que não é acessível. Mas o efeito é real, e ele distingue este relato de boa parte da literatura de prodígios da mesma época.

7. Aplicações Práticas

Conte as horas antes de julgar a demora

Eles embarcaram ao anoitecer e ele veio na quarta vigília — o último turno da noite, entre cerca de três e seis da manhã. Foram seis a nove horas de vento contrário, remo inútil, escuro e água entrando.

A leitura corrida do capítulo produz a impressão oposta: lemos o versículo 24 e o 25 em sequência e parece que o socorro veio logo. Não veio.

Guarde isso quando comparar a sua espera com histórias que você ouve. Os relatos comprimem o tempo, e a compressão faz a demora alheia parecer curta e a sua parecer excessiva.

A demora não vem com explicação

O texto não justifica as horas. Não diz que eram necessárias, que estavam provando alguma coisa, que havia propósito naquilo. Registra a hora e segue.

É uma ausência incômoda, e é o que está escrito.

Se você está esperando algo há tempo demais, resista a construir explicações para a demora. Elas costumam ser invenções que depois você mesmo abandona — e, enquanto duram, transformam a espera em culpa.

Socorro sem pedido também acontece

O texto não registra que os discípulos tenham orado, gritado por socorro ou pedido ajuda. Compare com a tempestade de Mateus 8, em que eles acordam Jesus dizendo que estão perecendo. Aqui, nada — provavelmente porque não havia a quem pedir, já que ele estava a quilômetros e eles sabiam.

A aproximação não é resposta a um pedido. É movimento espontâneo.

Vale sem transformar em doutrina, porque o texto não formula tese. Mas se você não consegue nem pedir, isso não é pré-requisito que ficou faltando.

Repare no que um relato descreve e no que ele resume

Um homem caminha sobre a superfície de um lago agitado, de madrugada, durante uma tempestade. O texto usa quatro palavras: andando sobre o mar. Nenhum adjetivo, nenhuma descrição de luz ou aparência.

É a mesma contenção do versículo 19, em que a multiplicação não foi descrita. O evangelista detalha logística, hora e distância — e é seco justamente onde um relato interessado em impressionar seria detalhado.

Use isso como critério ao avaliar qualquer relato. Onde o narrador gasta as palavras diz muito sobre o que ele está tentando fazer com você.

Detalhes neutros informam o contexto

Os judeus dividiam a noite em três vigílias; os romanos, em quatro. Mateus usa a contagem romana — dado que não é teológico e indica o mundo em que o evangelho foi escrito e lido.

É informação de ambiente, obtida de um detalhe que parece irrelevante.

Vale ao ler qualquer documento antigo ou de outra cultura: os detalhes que o autor considerou óbvios demais para explicar são justamente os que revelam onde ele estava.

Deixe a conclusão vir de quem viveu

Na literatura de Israel, caminhar sobre as águas é atributo divino — Jó fala de Deus que anda sobre as alturas do mar. Quem conhecia esses textos faria a associação. E Mateus não cita nenhum deles aqui, num evangelho que cita profecias com frequência.

O versículo 33 mostrará que os discípulos chegaram a uma conclusão nessa direção — por conta própria, e depois de tudo ter acontecido.

Ao ensinar alguém, resista a entregar a conclusão pronta. Mostre e espere. O que a pessoa formula sozinha fica; o que você formula por ela, ela repete até esquecer.

Traduções perdem coincidências que estão no original

A palavra traduzida por vigília é phylakḗ — exatamente a mesma dos versículos 3 e 10, ali com o sentido de prisão, a cela onde João foi mantido e morto. Ela vem do verbo guardar, e designa tanto o lugar onde se guarda um preso quanto o turno de quem faz a guarda noturna.

Na primeira metade do capítulo alguém morreu numa phylakḗ; na segunda, alguém é socorrido numa. São dois sentidos correntes, e o evangelista não comenta.

Vale saber que toda tradução esconde coisas assim, inevitavelmente. Não é motivo para desconfiar da sua Bíblia — é motivo para consultar mais de uma versão quando algo parecer estranho, e para não construir doutrina em cima de uma palavra portuguesa isolada.

Não harmonize relatos à força

Marcos informa algo que Mateus omite: que Jesus os viu se afadigando ao remar. Se levado a sério, esse detalhe mudaria a leitura da demora — significaria que ele observou durante horas antes de agir. Mateus simplesmente registra que ele veio.

Como Mateus não registra, o ponto pertence ao comentário de Marcos.

Ao juntar versões de qualquer história — testemunhos, relatórios, memórias de família — resista ao impulso de costurar tudo numa versão só. Deixe as diferenças visíveis. A costura apressada quase sempre apaga o detalhe mais informativo.

Repare em como um texto conta as horas

A noite podia ser dividida de dois modos naquele mundo: o judaico, com três turnos de guarda, e o romano, com quatro turnos de três horas. Este versículo conta pelo segundo.

Não é um dado espetacular, e é informativo. Textos antigos revelam o mundo de quem os escreveu em detalhes assim — unidades de medida, moedas citadas, costumes pressupostos.

Vale como método de leitura, e serve para qualquer documento que você precise avaliar: repare em como ele mede, conta e nomeia as coisas. É um dos caminhos mais seguros para saber de onde alguém fala — e costuma ser mais confiável do que aquilo que a pessoa declara sobre si mesma.

Nem toda ajuda é resposta a pedido

Não há oração registrada nesta noite. Nem pedido, nem grito. Durante horas, o texto não atribui uma única palavra àqueles homens — e ainda assim alguém vem.

Isso põe em questão o entendimento de que a ajuda funciona como requerimento e deferimento. Não se está negando o valor de pedir, sobre o que a Bíblia tem material abundante; está-se registrando que esta cena não funciona assim.

Guarde a exceção para quando você estiver sem palavras. Há períodos em que a pessoa não consegue formular pedido nenhum, e a conclusão automática de que por isso nada acontecerá não se sustenta neste texto. Estar sem conseguir pedir é uma situação, e não um veredicto.

Descreva o fato e deixe a avaliação para depois

O narrador tinha recursos para carregar a cena: aparência, luz, efeito sobre a água, silêncio, reação de quem via. Usou nove palavras e nenhum adjetivo.

A consequência é que ele não informa ao leitor como reagir. Mostra o fato, mostra a reação de quem estava lá, e mantém as duas coisas separadas.

Vale copiar isso quando você precisar relatar algo importante — um problema no trabalho, um conflito de família, uma notícia difícil. Diga primeiro o que aconteceu, sem adjetivo. A avaliação virá, e ela é mais confiável quando não vem embutida na descrição.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Que horas eram?

Entre aproximadamente três e seis da manhã. Os romanos dividiam a noite em quatro turnos de guarda de cerca de três horas, e a quarta vigília era a última — a parte mais escura e mais fria.

Quanto tempo eles ficaram na tempestade?

Entre seis e nove horas. Embarcaram ao anoitecer, segundo o versículo 22. A leitura corrida do capítulo dá a impressão de que o socorro veio logo; veio no fim da noite.

O texto explica a demora?

Não. Não diz que as horas eram necessárias, que provavam alguma coisa ou que havia propósito nelas. Registra a hora e segue.

Por que Mateus usa a contagem romana?

Os judeus tradicionalmente dividiam a noite em três vigílias; os romanos, em quatro. O uso do sistema romano não é dado teológico — indica o mundo em que o evangelho foi escrito e lido.

Os discípulos pediram socorro?

O texto não registra oração, grito por ajuda ou pedido. Compare com a tempestade de Mateus 8, em que eles acordam Jesus dizendo que estão perecendo. Aqui, nada — provavelmente porque não havia a quem pedir. A aproximação não é resposta a um pedido.

Andar sobre as águas tem paralelo no Antigo Testamento?

Tem. Jó fala de Deus que anda sobre as alturas do mar, e os salmos falam do caminho dele no mar e das veredas nas águas profundas. A associação existiria para quem tivesse o repertório — mas Mateus não cita nenhuma dessas passagens aqui, o que é notável num evangelho que cita profecias com frequência.

Que horas eram, exatamente?

Entre as três e as seis da madrugada. A quarta vigília pressupõe a noite dividida em quatro turnos de cerca de três horas, começando ao pôr do sol — divisão romana. O sistema judaico usava três turnos, e aparece no ataque de Gideão, nas Lamentações e no episódio do mar Vermelho.

O uso do sistema romano diz algo sobre o evangelho?

Parte dos estudiosos vê nisso indício sobre o público do texto — leitores familiarizados com a divisão administrativa e militar do império. É leitura possível e discutida: a Galileia estava sob domínio romano havia décadas, e usar o relógio corrente não implica escrever para estrangeiros. Não é possível decidir a partir de uma frase.

Quanto tempo eles ficaram naquilo?

Embarcaram logo depois da refeição, sem intervalo, ao anoitecer. Se partiram por volta das seis ou sete da tarde, passaram-se entre oito e onze horas remando contra o vento — e antes disso houve o dia inteiro, com a travessia da manhã, a multidão, as curas e a distribuição de comida a milhares. O texto não menciona nada disso: informa a hora e deixa a conta por conta de quem lê.

Por que a palavra "vigília" é interessante aqui?

Porque é a mesma palavra que aparece nos versículos 3 e 10 traduzida por "prisão". O termo vem do verbo guardar e cobre tanto o turno de guarda quanto o lugar onde se guardam pessoas. Na primeira metade do capítulo alguém morre numa dessas; na segunda, alguém é socorrido numa. Convém a ressalva: o duplo sentido é padrão em grego e não indica jogo do autor.

Aquilo era mar mesmo?

Não. É um lago de água doce, com uns vinte quilômetros de comprimento, alimentado pelo Jordão. O grego tem palavra própria para lago, e Lucas a usa com precisão. Mateus, Marcos e João preferem "mar", provavelmente porque em hebraico a mesma palavra cobre as duas coisas e a designação corrente era "o mar da Galileia".

Qual é a relação com o livro de Jó?

No capítulo 9 de Jó, um discurso sobre o poder divino diz que ele estende os céus sozinho e pisa sobre as alturas do mar. A versão grega traduz isso com o mesmo verbo, a mesma preposição e o mesmo substantivo deste versículo. Mateus não cita Jó — não há fórmula de citação nem sinal de referência —, e a coincidência também não é invenção de comentarista. Não é possível determinar se havia intenção.

Por que Marcos diz que ele queria passar adiante deles?

A frase é estranha e sempre incomodou os leitores. A explicação mais forte é que "passar adiante" é fórmula de manifestação divina no Antigo Testamento: a glória passa enquanto Moisés está na fenda da rocha, e o Senhor passa diante de Elias na caverna do Horebe. Vale registrar que essa frase está em Marcos e não em Mateus, que a omite por completo.

9. Conexão com Outros Textos

Jó 9:8O que sozinho estende os céus, e anda sobre os altos do mar.

O atributo divino que a cena evoca, sem ser citado.

Salmo 77:19O teu caminho é no mar, e as tuas veredas nas grandes águas.

A mesma imagem na literatura de Israel.

Salmo 89:9Tu dominas o ímpeto do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as fazes aquietar.

O domínio sobre o mar como prerrogativa de Deus.

Mateus 14:22E logo constrangeu os seus discípulos a entrar no barco.

O embarque ao anoitecer, que permite calcular a duração da noite.

Marcos 6:48E, perto da quarta vigília da noite, aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.

O paralelo, com um detalhe que Mateus omite.

Mateus 8:25E os seus discípulos, aproximando-se, o despertaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos.

A tempestade anterior, em que houve pedido.

Jó 9:8O que sozinho estende os céus, e anda sobre as alturas do mar.

Na versão grega, com o mesmo verbo, a mesma preposição e o mesmo substantivo que aparecem aqui.

Jó 9:11Eis que ele passa por diante de mim, e não o vejo; e torna a passar perante mim, e não o sinto.

Poucos versículos adiante, no mesmo discurso — e a frase que ilumina o "passar adiante" de Marcos.

Marcos 6:48E, perto da quarta vigília da noite, aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar adiante deles.

O detalhe que Mateus não traz, e que exige o pano de fundo das teofanias para fazer sentido.

Êxodo 33:22E acontecerá que, quando a minha glória passar, pôr-te-ei numa fenda da penha.

"Passar" como forma de manifestação divina, e não como afastamento.

1 Reis 19:11E ele disse: Sai para fora, e põe-te neste monte perante o Senhor. E eis que passava o Senhor.

A mesma fórmula, na cena de Elias no Horebe.

Juízes 7:19Chegou pois Gideão... ao princípio da vigília do meio, havendo-se acabado de pôr as guardas.

O sistema judaico de três vigílias, que este versículo não usa.

Marcos 13:35Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã.

Os quatro turnos romanos, nomeados um a um.

Mateus 14:3Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o maniatado e encerrado no cárcere.

A mesma palavra grega que aqui se traduz por "vigília", ali traduzida por "cárcere".

Salmo 77:19O teu caminho é no mar, e as tuas veredas nas grandes águas, e os teus passos não são conhecidos.

O caminho no mar como imagem do agir divino, na linguagem dos salmos.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Na quarta vigília da noite, Jesus foi até eles, andando sobre o mar.

Texto grego

τετάρτῃ δὲ φυλακῇ τῆς νυκτὸς ἦλθεν πρὸς αὐτοὺς περιπατῶν ἐπὶ τὴν θάλασσαν

Transliteração

tetártē dè phylakē tēs nyktòs ēlthen pròs autoùs peripatōn epì tḕn thálassan

Palavra por palavra

τετάρτῃ φυλακῇ (tetártē phylakē) — "na quarta vigília"

O substantivo phylakḗ é o mesmo que apareceu no versículo 3 e no 10, ali com o sentido de prisão.

A palavra vem do verbo guardar, vigiar — e designa tanto o lugar onde se guarda um preso quanto o turno de quem faz a guarda noturna.

Vale registrar a coincidência: a mesma palavra que designou a cela de João designa aqui o turno da noite.

Na primeira metade do capítulo, alguém morreu numa phylakḗ. Na segunda, alguém é socorrido numa phylakḗ.

O evangelista não comenta. É a mesma palavra, em dois sentidos correntes.

τῆς νυκτὸς (tēs nyktòs) — "da noite"

Genitivo. Especifica que a vigília é noturna.

ἦλθεν πρὸς αὐτοὺς (ēlthen pròs autoùs) — "veio a eles"

Aoristo do verbo vir, com a preposição de direção.

O movimento é dele em direção a eles.

περιπατῶν (peripatōn) — "andando"

Particípio presente do verbo peripatéō — literalmente, andar em volta, caminhar.

O presente do particípio indica ação em curso: ele vinha caminhando.

É um verbo comum, usado para o andar cotidiano. Não há nele nada de extraordinário.

O extraordinário está apenas na preposição seguinte.

ἐπὶ τὴν θάλασσαν (epì tḕn thálassan) — "sobre o mar"

A preposição com acusativo indica movimento sobre uma superfície.

Vale registrar uma discussão antiga: a mesma preposição pode, em outros contextos, significar "junto a", "à beira de".

Alguns propuseram, por isso, que a cena descreveria alguém caminhando pela margem.

A proposta não se sustenta bem. O barco estava a quilômetros da terra segundo o versículo 24; os discípulos ficaram apavorados e pensaram ver um fantasma; e Pedro pede para ir até ele sobre as águas, usando construção inequívoca.

Registro a leitura porque ela circula, e registro por que não convence.

Nota — o verbo mais comum da língua

Vale fechar observando a escolha do verbo.

Mateus poderia ter usado um termo extraordinário. O grego tinha palavras para deslizar, pairar, mover-se sobrenaturalmente.

Usou peripatéō — o verbo de andar, o mesmo que se usaria para descrever alguém atravessando a rua.

E ele reaparece três vezes no episódio: aqui, no versículo 26 quando os discípulos o veem andando, e no 29 quando Pedro anda.

O mesmo verbo cotidiano, três vezes, para a coisa menos cotidiana do capítulo.

Toda a força da cena está numa preposição de duas letras: epí, sobre.

O evangelista não gasta uma sílaba além disso.

Nota — phylakḗ, guarda e cárcere

Vale registrar o campo da palavra, porque o português a separa em duas e o grego usa uma só.

Phylakḗ vem do verbo phylássō, guardar, vigiar, proteger. Cobre o ato de guardar, o turno de guarda, o corpo de guardas e o lugar onde se guardam pessoas — isto é, a prisão.

No versículo 3 deste capítulo, ela aparece traduzida por cárcere: João é encerrado numa phylakḗ. No versículo 10, é ali que ele é decapitado.

Aqui, no versículo 25, a mesma palavra designa o turno da noite.

Registro o limite: o duplo sentido é padrão em grego, e não é possível afirmar que o evangelista tenha construído a repetição. O que se pode dizer é que ela existe e que a tradução a apaga.

Nota — thálassa para um lago

O substantivo thálassa significa mar. E aquilo é um lago de água doce alimentado pelo Jordão.

O grego dispõe da palavra límnē para lago, e Lucas a emprega ao falar do lugar.

Mateus, Marcos e João preferem thálassa. A explicação mais aceita é o substrato hebraico: a palavra yam serve tanto para o mar quanto para grandes massas de água doce, e a designação corrente daquele lugar era "o mar da Galileia".

Vale acrescentar o que a escolha carrega: thálassa é a palavra da versão grega do Antigo Testamento para o mar da criação, o mar do êxodo e o mar dos salmos.

Nota — peripatéō, um verbo comum

O particípio peripatōn vem de peripatéō, andar, caminhar, deslocar-se a pé.

Está no presente, indicando ação em curso: vinha caminhando.

Vale reparar em que o verbo não tem nada de espetacular. Não é voar, deslizar nem pairar. É o verbo de quem anda na rua — e a frase inteira, com nove palavras, não traz um único adjetivo.

Nota — as três palavras de Jó 9:8

Convém pôr as duas frases lado a lado.

A versão grega de Jó traz: aquele que sozinho estendeu o céu e caminha sobre o mar como sobre chão firme. O verbo é peripatéō, a preposição é epí, o substantivo é thálassa.

Este versículo traz: peripatōn epì tḕn thálassan.

São as mesmas três palavras. Registro que Mateus não cita Jó — não há fórmula de citação nem sinal de referência — e que "andar sobre o mar" não tem muitas maneiras de ser dito em grego. Não é possível decidir se houve intenção.

11. Conclusão

Uma frase de nove palavras em grego informa a hora, o movimento e o meio, e não gasta um único adjetivo. Não há descrição de luz, de aparência, de efeito sobre a água, de espanto. Compare-se com o modo como prodígios eram narrados em outras literaturas antigas, com sinais no céu e comentários do narrador sobre a grandeza do feito, e a contenção salta aos olhos. O extraordinário é dito aqui com o vocabulário do trivial: alguém veio caminhando.

A marcação de hora carrega duas informações. A primeira é a contagem: falar em quarta vigília pressupõe a noite dividida em quatro turnos, e essa não é a divisão de Israel, que trabalhava com três — a vigília do meio aparece no ataque de Gideão, a vigília da manhã no episódio do mar Vermelho. Quatro turnos de cerca de três horas é o sistema romano, e Marcos chega a nomeá-los: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, pela manhã. Parte dos estudiosos vê nisso indício sobre o público do evangelho; convém lembrar que a Galileia estava sob domínio romano havia décadas e que usar o sistema corrente não implica escrever para estrangeiros. A hipótese é discutida e registro sem decidir.

A segunda informação é a aritmética, e ela muda a leitura. Eles embarcaram logo depois da refeição, sem intervalo, ao anoitecer; a quarta vigília vai das três às seis da madrugada. São entre oito e onze horas de remo contra o vento — e antes disso houve o dia inteiro, com a travessia da manhã, a multidão na margem, as curas e a distribuição de comida a milhares de pessoas. Aqueles homens estavam acordados e trabalhando havia quase um dia inteiro. O texto não menciona nada disso: informa a hora e deixa a conta por conta de quem lê. E não explica a demora — não diz que houve espera, propósito ou necessidade.

Há ainda uma coincidência de vocabulário que o português apaga por completo. O substantivo traduzido por "vigília" vem do verbo guardar, e cobre tanto o turno de guarda quanto o lugar onde se guardam pessoas — a prisão. É a mesma palavra que aparece nos versículos 3 e 10, onde as traduções escrevem "prisão": ali João é acorrentado e ali é decapitado. Na primeira metade do capítulo, alguém morre numa dessas; na segunda, alguém é socorrido numa. Convém a ressalva: o duplo sentido é padrão em grego e não indica jogo do autor, como "guarda" em português serve para o turno e para o móvel. Não é possível afirmar que a repetição tenha sido construída — o que se pode dizer é que ela existe e é visível a quem lê no original.

Sobre a chegada, o notável é o que falta em volta. Ninguém chamou. Em todo o relato não há registro de oração, pedido ou grito por socorro, e o texto não menciona uma única palavra dita pelos discípulos durante a noite. Vale a comparação com a tempestade do capítulo 8, em que eles o acordam pedindo salvação com todas as letras. Aqui, ele simplesmente vem. É possível que tenham orado sem que o evangelista registrasse; o que se afirma é que o relato apresenta a iniciativa como inteiramente dele.

A frase "andando sobre o mar" traz duas escolhas de vocabulário que merecem nota. A primeira é o verbo, que é banal — o verbo de quem anda na rua, e não um verbo de voar, deslizar ou pairar. A segunda é o substantivo: aquilo não é mar, e sim um lago de água doce alimentado pelo Jordão. O grego tem palavra própria para lago, e Lucas a usa com precisão. Mateus, Marcos e João preferem "mar", provavelmente porque em hebraico a mesma palavra cobre as duas coisas e a designação corrente do lugar era "o mar da Galileia". Lucas, escrevendo grego mais cuidado, corrige.

Resta o material mais denso, que está num livro de poesia. No capítulo 9 de Jó, um discurso sobre a impossibilidade de contender com Deus diz que ele estende os céus sozinho e pisa sobre as alturas do mar — e a versão grega traduz isso com o mesmo verbo, a mesma preposição e o mesmo substantivo que aparecem neste versículo. Mateus não cita Jó: não há fórmula de citação nem sinal de referência, o que é notável num evangelho que cita o Antigo Testamento com método. Tampouco a coincidência é fabricada, porque "andar sobre o mar" não tem tantas maneiras de ser dito em grego. Registro os dois lados e não decido. E acrescento um detalhe: poucos versículos depois, o mesmo capítulo de Jó diz que ele passa e não é visto, segue adiante e não é percebido — e é justamente Marcos, não Mateus, quem escreve que ele queria passar adiante deles, frase estranha que se ilumina quando se lembra que "passar adiante" é fórmula de manifestação divina, usada com Moisés na fenda da rocha e com Elias na caverna do Horebe. Essa camada está no outro evangelho, e vale saber disso ao usá-la.

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