Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e, prostrando-se, fez-lhe um pedido.
1. Introdução
Jesus acabou de dizer que vai ser entregue, açoitado e crucificado. A cena seguinte é uma mãe de joelhos pedindo um favor.
Quem pede, em Mateus, é a mãe de Tiago e João; em Marcos 10:35 são os dois filhos que falam por si. A divergência entre os dois evangelhos é um dado do texto e este estudo a trata como dado.
Ela se prostra antes de dizer o que quer, e o que diz é indefinido: o grego registra que ela pedia “alguma coisa”. O pedido em branco vem primeiro; o conteúdo, só depois da pergunta de Jesus.
Três pontos organizam o versículo: a boca que fala, o gesto que antecede as palavras e o pedido que se recusa a ter objeto.
2. Contexto Histórico e Cultural
A mãe do rei tinha lugar oficial na corte de Judá
Em Judá, a mulher com posição institucional ao lado do rei não era a esposa — era a mãe.
O hebraico tem uma palavra para o posto: gevirah (“grande senhora”, o título da rainha-mãe na corte de Judá), explicada no estudo de Gênesis 27:29. O retrato mais completo do que ela significava na prática está em 1 Reis 2:19: Bate-Seba vai falar com Salomão, o rei se levanta para recebê-la, inclina-se diante dela, manda pôr uma cadeira para a mãe do rei, e ela se senta à direita dele. Quatro atos de protocolo num só versículo.
Era um posto, e podia ser tirado: 1 Reis 15:13 registra que o rei Asa removeu a própria avó Maacá “para que não fosse rainha”, e o hebraico diz literalmente que a tirou de ser gevirah. Jeremias 13:18 trata o rei e a rainha-mãe como um par a quem se dirige a mesma ordem, e as listas dos reis de Judá registram o nome da mãe de cada rei, informação que não aparece com essa regularidade para nenhum outro parente. O alcance real do cargo é discutido — Zafrira Ben-Barak, em 1991, defendeu que era função definida; Niels-Erik Andreasen, em 1983, que era sobretudo conselheira e intercessora —, e as duas leituras concordam num ponto verificável: a mãe do rei tinha acesso, e acesso é o que uma petição precisa.
O pedido que passa pela mãe, e o que ele custou
1 Reis 2 conta a história inteira de um pedido feito por intermédio de uma mãe, e o desfecho é sangrento.
Adonias, irmão mais velho de Salomão, quer casar-se com Abisague, que havia sido dada a Davi na velhice. Ele não procura o rei: procura Bate-Seba, com o argumento do acesso — “fala ao rei Salomão, porque ele não te recusará”, em 1 Reis 2:17. Ela vai, senta-se à direita do trono e diz que tem uma pequena petição, e Salomão responde com a fórmula da concessão antecipada: “Pede, minha mãe, porque não te farei virar o rosto”, em 1 Reis 2:20.
Ela pede. E o rei, que prometera não recusar, recusa, porque entende o pedido como lance pela sucessão: casar-se com a mulher do rei morto era reivindicar o que havia sido dele. Naquele mesmo dia Adonias é executado, em 1 Reis 2:25.
Três elementos desse episódio reaparecem aqui: o pedido feito por uma mãe em nome de um filho, o pedido anunciado antes de ser formulado, e o objeto que é posição e não coisa. Dependência literária entre os dois textos não é demonstrável; o que se pode afirmar é que o procedimento era conhecido e tinha antecedente célebre na história dos reis de Israel.
A casa de Zebedeu
A família não era pobre, e isso muda a leitura da cena. Marcos 1:20 diz que Tiago e João deixaram o pai “no barco com os empregados” — mão de obra contratada, e não miséria. A mãe deles reaparece em Mateus 27:55-56, entre as mulheres que haviam seguido Jesus desde a Galileia “para o servir”, e Lucas 8:3 descreve esse círculo com um detalhe econômico: mulheres que serviam o grupo “com os seus bens”. Pelo que o texto permite reconstruir, ela pertencia ao grupo que se deslocava com Jesus e o sustentava, e é isso que explica a naturalidade com que se aproxima.
3. Análise Teológica do Versículo
“Então”
A palavra cola esta cena na anterior, e a anterior é o anúncio da crucificação. A conjunção não obriga a sequência imediata, mas a colagem produz efeito: antes vem a lista mais detalhada de humilhações que Jesus faz sobre si mesmo em todo o evangelho, em Mateus 20:17-19, e depois vem um pedido de precedência. Mateus não comenta a emenda e não registra reprovação nenhuma.
“aproximou-se de Jesus com seus filhos”
Os dois estão presentes. O versículo diz isso antes de dizer o que a mãe fez.
É o detalhe que a leitura apressada perde. Mateus não conta uma cena em que uma mãe age pelas costas dos filhos; conta uma cena em que três pessoas se aproximam e uma delas fala. O texto não diz que Tiago e João ficaram calados — diz que estavam lá. E dois versículos depois a resposta de Jesus é dirigida a eles, no plural: “Vocês não sabem o que estão pedindo”, em Mateus 20:22. Qualquer leitura da divergência entre Mateus e Marcos tem de dar conta desses dois fatos, a três linhas de distância no mesmo evangelho: pede uma, respondem dois.
A divergência com Marcos 10:35
Marcos 10:35 conta a mesma cena sem mãe nenhuma: “Aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.” Os filhos falam por si, e a mãe não é mencionada em momento nenhum do episódio.
Por que os dois evangelhos divergem sobre quem abre a boca? Há quatro respostas em campo, discutidas desde o século IV.
Primeira leitura: Mateus está protegendo os discípulos. A mãe seria um para-choque — passando o pedido para ela, o evangelho alivia a ambição dos dois apóstolos. O custo é alto: Mateus conserva a pergunta “quem é o maior no Reino dos céus?”, em Mateus 18:1, a conta que Pedro apresenta em Mateus 19:27, e, nas linhas seguintes a esta, a indignação dos outros dez. Um evangelho que quisesse proteger os dois irmãos tinha muito mais o que cortar, e não cortou.
Segunda leitura: Mateus preserva uma tradição distinta. As duas formas do episódio seriam versões de uma mesma memória, nenhuma derivada da outra, e a de Mateus conservaria um detalhe que a de Marcos perdeu. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) diz isso com alguma surpresa: por uma vez Mateus é mais concreto e mais fiel ao detalhe do que Marcos. Uma versão que acrescenta uma personagem sem função teológica aparente não é o tipo de coisa que se inventa. O custo é contrariar a descrição corrente da relação entre os dois evangelhos, na qual Mateus é o texto posterior.
Terceira leitura: as duas coisas aconteceram. É a harmonização antiga, e a formulação mais clara é de João Crisóstomo (arcebispo de Constantinopla, século IV), na Homília 65 sobre Mateus: é provável que as duas coisas tenham sido feitas, e os filhos levaram a mãe consigo para tornar o pedido mais forte. Ele acrescenta um motivo — por vergonha, puseram a mãe à frente — e registra que a aproximação foi feita à parte dos outros discípulos. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) resolve pela mesma via com uma imagem que ficou: a mãe é a boca, e os filhos são os autores. É a leitura que melhor explica o plural do versículo 22, e o seu custo é acrescentar o que nenhum dos dois evangelhos diz.
Quarta leitura: o pedido é dela. Lido sozinho, o versículo de Mateus descreve uma mulher que toma a iniciativa, e Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XVIII) admite a possibilidade em termos duros: não é improvável que fosse uma mulher ambiciosa e desejasse ver os filhos honrados. A leitura respeita Mateus ao pé da letra, e não explica o plural da resposta nem por que os dez se indignam com os dois irmãos e não com ela.
Não é possível decidir entre as quatro. O que as duas versões têm em comum é quase tudo — o conteúdo do pedido, os dois nomes, o formato do pedido em branco, a resposta sobre o cálice e a indignação dos dez —, e divergem sobre uma coisa só: a boca. Fazer a divergência desaparecer, para um lado ou para o outro, custa mais caro do que deixá-la de pé.
“e, prostrando-se”
O gesto vem antes das palavras: ela se ajoelha primeiro e pede depois, e quem se prostra antes de falar já colocou a conversa num regime. O que é próprio deste versículo é a combinação. O gesto é de corte, é assim que se faz diante de um rei; e o pedido que vem em seguida é de corte também, dois assentos junto ao trono. Ela trata Jesus como rei no corpo antes de tratá-lo como rei na fala, e Mateus registra as duas coisas sem separar uma da outra. Se ela tinha em mente adoração no sentido pleno, o texto não informa. O verbo grego serve, em Mateus, tanto para atos de culto quanto para reverências civis, e o conjunto das ocorrências está no estudo de Mateus 15:25.
“fez-lhe um pedido”
O grego é mais estranho do que a tradução: ela pedia alguma coisa a ele. O objeto é indefinido, e só a pergunta de Jesus, no versículo seguinte, a obriga a dizer o quê.
Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII, autor de um comentário conciso ao Novo Testamento) observa que ela pediu algo indefinidamente, como fazem os que sabiam que uma recusa não seria injusta — quem pede assim já conta com o não e prefere não expor o pedido antes de ter garantia. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz que ela tentou obter de Jesus a promessa antes de formular o pedido.
Marcos conserva a mesma estrutura, na boca dos filhos: “queremos que nos faças o que te pedirmos”. É o dado mais forte a favor de que os dois evangelhos narram um só acontecimento — o que sobrevive intacto não é a identidade de quem fala, é o formato: primeiro o sim, depois o objeto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A mãe — e a discussão sobre o nome dela
Mateus nunca a nomeia. Ela aparece duas vezes no evangelho, e nas duas é “a mãe dos filhos de Zebedeu”: aqui e em Mateus 27:56, entre as mulheres que olhavam a crucificação de longe.
O nome sai de uma comparação. Mateus 27:56 lista junto à cruz Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu; Marcos 15:40 lista, no mesmo lugar, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago o menor e de José, e Salomé. As duas primeiras coincidem; a terceira, na hipótese mais simples, é a mesma pessoa com o nome dito, e Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chegam a essa conclusão por esse caminho. É inferência: depende de supor que as duas listas são da mesma cena e têm a mesma ordem, e nenhum evangelho diz “a mãe dos filhos de Zebedeu, cujo nome era Salomé”.
Esta Salomé não é a de Mateus 14, a filha de Herodias que dança e pede a cabeça de João Batista. O nome era comum na Judeia do período e as duas mulheres não têm relação nenhuma entre si.
A hipótese de que fosse irmã de Maria
João 19:25 diz que junto à cruz estavam “sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena”. A frase é ambígua: pode listar três mulheres, e então “a irmã de sua mãe” seria a própria Maria de Clopas; ou quatro, e então a irmã de Maria fica sem nome. Quem lê quatro tende a identificá-la com a Salomé de Marcos — e o resultado é que a mãe de Tiago e João seria irmã da mãe de Jesus, e os dois apóstolos, primos dele.
Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) registra essa leitura, que explicaria bem o pedido: um parente pedindo posição de parente. Mas a construção não permite decidir quantas mulheres são, e nenhum evangelho chama Tiago e João de parentes de Jesus em outro lugar.
Zebedeu, Tiago e João
O pai aparece uma vez e nunca mais: Mateus 4:21 o mostra no barco com os dois filhos, e Mateus 4:22 registra que eles deixaram o barco e o pai. Depois disso o nome dele só volta como sobrenome, e se estava vivo nesta cena o texto não diz.
Os dois irmãos estão na lista dos doze em Mateus 10:2, sobem ao monte em Mateus 17:1 e são levados ao Getsêmani em Mateus 26:37, onde Mateus volta a chamá-los “os dois filhos de Zebedeu” — a mesma designação por parentesco que usa para a mãe. Marcos 3:17 registra que Jesus lhes deu um apelido, “filhos do trovão”, e não explica por quê; Lucas 9:54 conta que propuseram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia da Samaria. Ligar esses dados ao pedido deste versículo é reconstrução, não leitura.
Atos 12:2 registra, em nove palavras, que o rei Herodes Agripa “matou à espada Tiago, irmão de João” — o primeiro dos doze a morrer violentamente. Sobre João, o Novo Testamento diz apenas que era tido como uma das colunas da comunidade de Jerusalém, em Gálatas 2:9.
Onde a cena acontece
No caminho. Mateus 20:17 diz que Jesus estava subindo para Jerusalém e Mateus 20:29 mostra o grupo saindo de Jericó: a conversa acontece na estrada do vale do Jordão para a cidade, mais de mil metros de subida a pé, com a Páscoa próxima. Não é uma audiência marcada: é alguém que acelera o passo, alcança quem vai à frente e se ajoelha na estrada.
5. Pontos de Ensino
Quem ama pede pelo outro, e o pedido não fica melhor por isso
A mãe não pede nada para si. Isso a torna simpática e não torna o pedido acertado.
É uma das poucas cenas do evangelho em que o desinteresse de quem pede não melhora o que se pede. Ela está de joelhos por outros, e ainda assim o que sai da boca dela será respondido com “vocês não sabem o que estão pedindo”. Um pedido pode ser inteiramente generoso quanto ao beneficiário e inteiramente equivocado quanto ao objeto.
O gesto certo não garante o conteúdo certo
Ela faz tudo direito — aproxima-se, ajoelha-se, fala com deferência, reconhece autoridade — e pede o que não deveria.
Mateus registra as duas coisas na mesma frase, sem escolher entre elas. Não há indício de fingimento na cena, e nada autoriza tratá-la como hipócrita. A reverência era real e o pedido era enviesado, e as duas coisas couberam na mesma pessoa no mesmo minuto.
A mesma mulher está na cruz
Ela pede os dois melhores lugares e reaparece em Mateus 27:56, olhando de longe.
Mateus não comenta nada ao trazê-la de volta, e usa nas duas cenas a mesma designação exata. Quem lê o evangelho inteiro encontra essa mulher duas vezes: uma pedindo posição, outra presente quando não havia posição nenhuma a receber. Ela não desapareceu depois da recusa, e é esse o dado mais generoso que o texto guarda a respeito dela.
6. Aspectos Filosóficos
O problema
Uma mãe pede exatamente o que os filhos querem. Cuidar de alguém significa pedir o que ele quer — ou pedir o que ele precisa?
Neste versículo as duas coisas se separam por completo: a mãe pede o que eles querem, e dois versículos depois a resposta trata o pedido como desinformado. O comentário abaixo é acréscimo — Mateus narra e não teoriza sobre cuidado.
A ética do cuidado: o ponto de partida não é a regra, é a relação
Nel Noddings (filósofa e educadora norte-americana, 1929-2022) construiu, em Caring (“Cuidar”, 1984), uma moral que não começa por princípio nenhum. Começa por duas pessoas: a unidade básica da vida moral não é o indivíduo que decide, e sim o par de quem cuida e quem é cuidado.
Dentro desse acontecimento, o movimento que interessa nesta cena é o que ela chama de deslocamento motivacional: quem cuida passa a ter como motivo próprio o projeto do outro. Não age em nome dele — age movido pelo que ele quer.
É uma descrição exata do que a mãe de Tiago e João faz aqui. Ela se põe de joelhos por uma ambição que não é dela; o que pede não lhe traz nada, e ela pede com o próprio corpo, arriscando o próprio embaraço diante do grupo.
O problema que Noddings enfrentou de frente
Se o motivo de quem cuida é o projeto do outro, o que acontece quando o projeto do outro é ruim?
Ela tratou disso em Starting at Home (“Começar em casa”, 2002). Há necessidades expressas e necessidades inferidas: a expressa é a que o próprio interessado diz ter, por palavras ou por comportamento; a inferida é a que outra pessoa atribui a ele. A posição dela é firme nos dois sentidos. Toda relação de cuidado tem de começar pela necessidade expressa, porque começar pela inferida é o modo mais rápido de tratar alguém como objeto. E não se pode parar na expressa, porque o interessado pode estar errado sobre si mesmo. O que fica não é uma regra, e sim um procedimento: negociar entre o que o outro pede e o que se julga que ele precisa, ouvindo o pedido antes de julgar.
Com essa grade a cena fica nítida. A mãe cumpre a primeira metade: trata a ambição dos filhos como necessidade expressa e a leva a sério o suficiente para se ajoelhar por ela. O que não faz é a segunda — não pergunta, não pesa, não distingue o que eles querem do que lhes serviria. Transporta o pedido intacto. E a resposta do versículo 22 faz precisamente a operação que faltou: o lugar da negociação, na cena, é ocupado por outra pessoa.
O limite
A discussão mais geral sobre moral imparcial contra lealdade aos próprios está no estudo de Mateus 15:24, e as categorias de Noddings, que são do século XX, servem para nomear o que a cena mostra, não para atribuir ao evangelho uma teoria do cuidado.
E há um dado que impede a leitura fácil em qualquer direção: Jesus não repreende a mãe. Não diz que ela não devia ter pedido, não comenta a parcialidade dela — responde no plural, aos filhos, e continua a viagem. Quem quiser usar a cena para condenar o amor parcial vai ter de fazê-lo sem apoio no versículo.
7. Aplicações Práticas
Quem pede por alguém pede o que ele quer
É o que a cena mostra, e acontece toda semana fora dela.
Um pai que fala com o professor, um amigo que indica alguém para uma vaga, um irmão que intercede numa briga de família: quem intercede carrega um pedido que não formulou, e carregá-lo intacto parece sinal de lealdade. O que a cena acrescenta é a pergunta que a mãe não fez. Ela não perguntou aos filhos por que queriam aquilo, nem se era possível, nem o que aconteceria com os outros dez se o pedido fosse atendido. Quem intercede tem duas obrigações e não uma: levar o pedido e olhar o pedido. A segunda é a que se esquece.
Não amarre o sim antes de dizer o pedido
“Você me promete uma coisa?” é o começo mais desonesto que uma conversa pode ter — não porque quem fala esteja mentindo, mas porque o formato pede ao outro que decida sem informação.
A cena mostra os dois lados: de um lado a mulher que pede sem objeto, do outro alguém que não se compromete e devolve uma pergunta. Devolver a pergunta é a resposta correta para esse tipo de abordagem, e serve para negociação de trabalho, conversa de família e tudo mais.
Reverência não é argumento
Ela se ajoelhou, e o gesto não deu razão ao pedido. A deferência de quem pede é frequentemente confundida com mérito do pedido, e essa confusão é a porta de entrada de decisões ruins em igrejas, em empresas e em qualquer lugar onde alguém tenha o poder de conceder: quanto mais respeitosa a abordagem, mais difícil examinar o conteúdo com frieza.
O pedido de um é a recusa de outro
Dois lugares para dois filhos são dois lugares que dez pessoas não terão, e o versículo 24 registra que eles perceberam.
Isso vale em toda situação em que o que se pede é posição e não coisa: promoção, precedência, reconhecimento, tempo de atenção de alguém. Antes de pedir, saiba se o seu pedido pode ser atendido sem custo para terceiros — não porque pedir seja errado, e sim porque o outro tipo cria um conflito que você vai ter de administrar depois, mesmo se for atendido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus repreendeu a mãe?
Não. O texto não registra nenhuma palavra dirigida a ela depois que ela fala.
Isso é notável, e quase todo comentário devocional passa por cima. Jesus faz uma pergunta a ela no versículo 21, ouve a resposta e, no versículo 22, dirige-se aos filhos no plural: a mãe sai da cena sem censura, sem elogio e sem resposta — e os dez, no versículo 24, se indignam com os dois irmãos, não com ela.
Duas leituras são defensáveis. Primeira: o silêncio confirma que o pedido era dos filhos, e a resposta foi ao endereço certo. Segunda: o silêncio é apenas a economia do relato, que não registra tudo o que foi dito. Não é possível decidir.
A prostração dela foi adoração?
O mesmo verbo grego, em Mateus, cobre atos de culto e reverências inteiramente civis, e por isso o gesto sozinho não prova nada — o conjunto das ocorrências está no estudo de Mateus 15:25.
O contexto acrescenta uma pista, não uma prova. Quem se ajoelha para pedir os dois lugares junto ao trono está tratando quem ouve como rei, o que é mais do que respeito por um mestre e menos do que a confissão de Mateus 14:33. A cena não permite ir além disso.
O que essa cena revela sobre o que o grupo esperava de Jerusalém?
Revela que esperavam um governo, e a expectativa não morreu ali. Atos 1:6 registra que, depois da cruz e depois da ressurreição, ainda perguntavam se era naquele momento que o reino seria restaurado a Israel; Lucas 22:24 registra uma discussão sobre quem entre eles parecia ser o maior, na última refeição. A expectativa política atravessa os evangelhos sem ser desmentida de uma vez por todas, e é honesto registrar isso em vez de tratar este versículo como mal-entendido isolado.
9. Conexão com Outros Textos
A outra versão da mesma cena
Marcos 10:35 — “E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.” A mãe não aparece, e o pedido em branco está na boca dos filhos.
O pedido feito por intermédio da mãe do rei
1 Reis 2:17 — “E ele disse: Peço-te que fales ao rei Salomão, porque ele não te recusará, que me dê por mulher a Abisague, a sunamita.” Adonias não procura o rei: procura a mãe do rei, e o argumento é o do acesso.
1 Reis 2:19 — “Assim veio Bate-Seba ao rei Salomão, para lhe falar por Adonias; e o rei se levantou a encontrar-se com ela, e se inclinou diante dela; então se assentou no seu trono, e fez pôr uma cadeira para a mãe do rei, e ela se assentou à sua mão direita.” O protocolo inteiro num versículo.
1 Reis 2:20 — “Então disse ela: Só uma pequena petição te faço; não me rejeites. E o rei lhe disse: Pede, minha mãe, porque não te farei virar o rosto.” A concessão dada antes de o pedido ser dito — e, cinco versículos depois, a recusa e a execução de Adonias.
A mãe que se move pelo filho
Mateus 15:25 — “Ela, porém, veio e se prostrou diante dele, dizendo: ‘Senhor, socorre-me!’” A outra mãe do evangelho que se ajoelha por um filho. Aquele pedido foi atendido; este não será.
O que veio imediatamente antes
Mateus 20:19 — “e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará”. A frase anterior à cena. O “então” do versículo 20 a tem atrás de si.
Mateus 19:28 — “Em verdade digo a vocês que, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.” A promessa recente que dá ao pedido o seu conteúdo: se há doze tronos, há uma ordem entre eles.
A mesma mulher, no fim do evangelho
Mateus 27:55-56 — “Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; elas haviam seguido Jesus desde a Galileia, para o servir. Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” A segunda e última aparição dela, com a designação idêntica.
Mateus 20:32 — “Jesus parou, chamou-os e perguntou: ‘O que vocês querem que eu faça por vocês?’” Quase a mesma pergunta que ele faz à mãe, feita onze versículos depois a dois cegos à beira da estrada — com a diferença, que o estudo de lá examina, de que a dos cegos vem na forma longa. O paralelo é tratado no estudo de Mateus 20:32.
10. Original Grego e Análise
Nota inicial: no Novo Testamento o painel do original traz grego. O texto de base desta tradução é o Textus Receptus (“texto recebido”, em latim — a edição impressa do grego do Novo Testamento que se firmou no século XVI e serviu de base às traduções protestantes clássicas), na forma de Scrivener.
Texto em português
Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e, prostrando-se, fez-lhe um pedido.
Texto grego
Τότε προσῆλθεν αὐτῷ ἡ μήτηρ τῶν υἱῶν Ζεβεδαίου μετὰ τῶν υἱῶν αὐτῆς, προσκυνοῦσα καὶ αἰτοῦσά τι παρ’ αὐτοῦ.
Transliteração
Tote prosēlthen autō hē mētēr tōn huiōn Zebedaiou meta tōn huiōn autēs, proskynousa kai aitousa ti par’ autou.
Análise palavra por palavra
Τότε — tote, “então”. Advérbio de tempo, e uma das palavras favoritas de Mateus: cerca de noventa vezes, contra umas seis em Marcos.
προσῆλθεν — prosēlthen, “aproximou-se”. Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular, de proserchomai, de pros (“em direção a”) mais erchomai (“vir”). Em Mateus é o verbo quase técnico de quem se apresenta a Jesus para pedir, perguntar ou acusar, e sozinho não carrega reverência nem hostilidade.
ἡ μήτηρ τῶν υἱῶν Ζεβεδαίου — hē mētēr tōn huiōn Zebedaiou, “a mãe dos filhos de Zebedeu”. Nominativo com dois genitivos encaixados: a mãe dos filhos, os filhos de Zebedeu. A construção é pesada e havia duas saídas óbvias, “a mulher de Zebedeu” ou “a mãe de Tiago e João”; Mateus escolheu a que passa pelos filhos e pelo marido ao mesmo tempo, e a repete sem alteração em Mateus 27:56.
μετὰ τῶν υἱῶν αὐτῆς — meta tōn huiōn autēs, “com os filhos dela”. Preposição meta com genitivo, no sentido de acompanhamento.
Repare na redundância: os filhos acabaram de ser mencionados na designação da mãe, e a frase os menciona de novo para dizer que estavam presentes. Não é descuido de estilo — é informação, e sem ela a cena seria de uma mulher sozinha.
προσκυνοῦσα — proskynousa, “prostrando-se”. Particípio presente ativo, nominativo feminino singular, de proskyneō. A formação da palavra e a questão de saber quando o gesto é culto e quando é reverência civil estão no estudo de Mateus 15:25.
Próprio deste versículo é a forma. O particípio está no presente, que apresenta a ação como em curso, e vem antes do segundo particípio: ela está prostrada enquanto pede, e o pedido é dito do chão. Nas outras prostrações diante de Jesus em Mateus o verbo aparece no aoristo, que apresenta o gesto como ato concluído. Sobre o estado interior de quem se prostra nada se pode concluir: o tempo verbal não informa isso.
αἰτοῦσά — aitousa, “pedindo”. Particípio presente ativo, nominativo feminino singular, de aiteō, o verbo do pedido de quem está abaixo para quem está acima: o mendigo, o súdito, o filho. Distingue-se de erōtaō, o outro verbo grego de pedir, usado com mais frequência para pedidos de igual para igual e para perguntas. A tendência é clara nos léxicos, ainda que haja exceções, e é coerente com o gesto: quem se prostra não pergunta, pede.
O dado decisivo é comparativo. No versículo 22 a resposta de Jesus usa o mesmo verbo, na segunda pessoa do plural: “vocês não sabem o que estão pedindo”. O singular feminino do particípio aqui e o plural de lá são formas de uma só palavra, e é essa cadeia verbal que amarra a mãe aos filhos dentro do próprio texto de Mateus. A frase de Jesus não corrige um pedido novo: corrige este pedido, atribuindo-o a mais de uma pessoa. Quem sustenta que a mãe agiu por conta própria tem de explicar a troca de número dentro do mesmo verbo.
τι — ti, “alguma coisa”. Pronome indefinido, acusativo neutro singular, objeto do particípio anterior.
Uma palavra de uma sílaba, e ela carrega o achado do versículo: o objeto do pedido não é dito. É “pedindo algo”, com a mesma indeterminação que o português “uma coisa” tem na frase “me promete uma coisa?”.
παρ’ αὐτοῦ — par’ autou, “dele”, “da parte dele”. Preposição para com genitivo, elidida antes de vogal.
Aqui há uma diferença entre as edições do grego, pequena e real. O Textus Receptus, que a ABC segue, traz παρ’ αὐτοῦ; as edições críticas modernas trazem ἀπ’ αὐτοῦ, com a preposição apo. As duas se traduzem igual em português e nenhuma decisão doutrinária depende da escolha. A nuance, nos léxicos, é de proveniência: para com genitivo indica a origem de junto de alguém, a preposição do que se recebe da mão de uma pessoa.
11. Conclusão
Do que foi examinado, seguem-se três conclusões.
A divergência entre Mateus e Marcos é menor do que parece e não se resolve. Os dois evangelhos concordam sobre o conteúdo do pedido, os dois nomes, o formato do pedido em branco, a resposta e a briga que veio depois; divergem sobre quem abriu a boca. Cada uma das quatro explicações em campo explica bem uma parte e paga um preço em outra, e a operação intelectualmente barata, diante de um texto assim, é escolher a versão que agrada e chamar a outra de erro de cópia.
O gesto e o pedido são da mesma natureza, e por isso o gesto não redime o pedido. Ela se ajoelha como quem se ajoelha diante de um rei e pede o que se pede a um rei: não há contradição entre a postura e o conteúdo, há coerência. Daí decorre algo desagradável para a leitura devocional — reverência sincera e pedido equivocado não são estados de espírito opostos, e cabem na mesma pessoa no mesmo minuto. Mateus, que podia ter suprimido o episódio inteiro, prendeu-o ao anúncio da cruz e não acrescentou adjetivo nenhum.
Carregar o desejo de quem se ama não é examiná-lo. O pedido sem objeto é o único elemento que as duas versões preservam intacto, e ele fracassa na primeira linha seguinte, porque Jesus não se compromete: devolve uma pergunta. A metade que falta ao amor parcial — perguntar por que se quer aquilo, e a que custo — é feita nesta cena por outra pessoa, e não pela mãe que se ajoelhou.













