Mas Jesus respondeu: “Vocês não sabem o que estão pedindo. Vocês podem beber o cálice que eu vou beber?” Eles disseram: “Podemos”.
1. Introdução
A mãe pediu os dois melhores lugares, e a resposta de Jesus não vai a ela: vai aos filhos, no plural. Ele não nega o pedido — troca o objeto e pergunta se os dois podem beber o cálice que ele está a ponto de beber. Nos profetas esse cálice é serviço de Deus, e o que está dentro dele é, na maioria das vezes, ira. Os dois respondem “Podemos”, e Jesus não desmente a resposta. O versículo tem também um problema de cópias: o Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue no Novo Testamento) acrescenta aqui uma segunda pergunta, sobre batismo, que os códices mais antigos não trazem.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem enche o cálice e quem o recebe
Num banquete antigo, o convidado não servia a si mesmo. O vinho era misturado com água antes de circular, e a proporção era decisão de quem oferecia a casa; o copo chegava pronto à mão de quem bebia. É essa assimetria que faz a imagem funcionar: beber um cálice, na linguagem da época, não é escolher uma bebida — é receber o que outro serviu. Quando o servidor é Deus, o cálice nomeia a porção de alguém, o que lhe cabe e não o que ele quer.
O copo de vinho do condenado
Havia ainda um cálice bem concreto, que qualquer pessoa em Jerusalém saberia identificar: o que se dava a quem estava sendo levado para morrer.
O tratado Sanhedrin do Talmude Babilônico, na página 43a, registra a prática: ao homem conduzido à execução dava-se um grão de incenso num copo de vinho, para lhe confundir a mente e diminuir o sofrimento do medo. Mulheres de posição em Jerusalém costumavam doar e levar a bebida, e o texto discute em seguida se ela devia sair do bolso das doadoras ou do fundo público — concluindo pelo fundo público, com base no plural do mandamento de Provérbios 31:6, “Dê bebida forte a quem está perecendo, e vinho a quem tem a alma amargurada”.
O Talmude é compilação posterior, e essa prática vem numa tradição apresentada como antiga: isso a torna plausível para o primeiro século, sem provar que já era corrente. O que fica é a existência do costume — para quem ouviu a pergunta, “beber o cálice” tinha um referente material e sinistro.
A cláusula do batismo: o que os manuscritos dizem
Na forma que o Textus Receptus traz, a pergunta é mais longa do que a da tradução acima: “Vocês podem beber o cálice que eu vou beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?” A segunda metade é disputada, e o quadro das cópias é claro o suficiente para ser exposto sem rodeios.
Omitem a cláusula o Sinaítico e o Vaticano — os dois grandes códices gregos do século IV —, o Códice de Beza, os códices L, Z, Teta e 085, a família de manuscritos 1 e alguns minúsculos; praticamente toda a tradição latina, incluindo a Vulgata; as duas versões siríacas antigas, a Sinaítica e a Curetoniana; e o copta, nas formas saídica e médio-egípcia. Trazem a cláusula os códices C, W, X, Delta, Sigma e Fi, a família 13, os minúsculos 33, 579, 700 e 892 e a grande massa dos manuscritos bizantinos — de onde ela passou para o Textus Receptus —, três códices latinos antigos e as versões siríacas Peshita e Harclense.
Entre os autores cristãos antigos, Orígenes, Epifânio, Hilário, Jerônimo e Ambrósio citam o versículo sem a cláusula. Ela já havia sido retirada do texto impresso no século XVIII, décadas antes de os grandes códices estarem acessíveis: Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão, autor do primeiro aparato crítico sistemático do Novo Testamento) marcou-a como duvidosa, e Griesbach a excluiu nas duas edições que publicou.
A explicação corrente é a harmonização: em Marcos 10:38 a cláusula está sem disputa nenhuma, e um copista que conhecesse os dois evangelhos teria completado o mais curto pelo mais longo. Wieland Willker, no comentário textual dos evangelhos gregos que mantém em acesso livre, considera o caso resolvido nesse sentido. O peso dos manuscritos antigos é o que sustenta a forma curta; por argumento interno não é possível decidir.
3. Análise Teológica do Versículo
“Mas Jesus respondeu”
Quem falou foi a mãe. Quem ouve a resposta são os filhos.
A troca de interlocutor acontece dentro do diálogo, sem transição. No versículo 21 Jesus fala com uma pessoa só, e o texto o mostra na gramática: “O que você quer?”, no singular. Aqui a fala está no plural — “vocês não sabem”, “vocês podem” — e quem devolve a resposta são os filhos. A mãe não é dispensada em nenhum momento: ela abre o episódio no versículo 20 e sai dele aqui, sem uma linha de saída, e Mateus não costuma deixar entradas abertas desse jeito.
O efeito, para a leitura do versículo, é um só e é preciso: a repreensão é dirigida a quem não falou. Não interessa, para isto, decidir de quem partiu a iniciativa — o versículo 22 já trata os dois irmãos como os autores do requerimento, e é a eles que cobra a falta de entendimento. As leituras possíveis da divergência entre Mateus e Marcos quanto à boca que pediu estão expostas no estudo de Mateus 20:20.
Isso produz, de passagem, um dado sobre responsabilidade que o texto não comenta: quem consente que outro peça em seu nome responde pelo pedido como se o tivesse feito.
“Vocês não sabem o que estão pedindo”
Isto não é um “não”. É a informação de que eles estão pedindo às cegas — e, três palavras depois, Jesus segue negociando o pedido em vez de descartá-lo.
A frase é sobre conhecimento, e o que ela não diz pesa. Não diz que o pedido é indevido, nem que querer lugar é pecado, nem que eles agiram de má-fé. Diz que não entendem o objeto do próprio requerimento — e o versículo seguinte concede metade dele. Quem transforma esta frase em condenação da ambição está lendo o versículo 24, onde os dez se indignam, e não o 22.
Que espécie de ignorância é essa? A tradição aponta em três direções, e nenhuma exclui as outras.
Ignorância sobre a natureza do Reino: eles pedem cargo num reino que imaginam político, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) resume assim — não sabiam que o reino de Cristo é espiritual e não deste mundo.
Ignorância sobre o preço: Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) diz que eles não compreendiam o que o pedido envolvia, e Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) observa que não pareciam saber que os postos mais altos não se alcançam sem participação prévia naquele sofrimento. É a leitura que a pergunta seguinte sustenta.
Ignorância sobre a grandeza do que se pede: Crisóstomo, na Homilia 65 sobre Mateus, põe na boca de Jesus a exclamação — vocês não sabem o quanto é grande, o quanto excede até as potências do alto. Nessa direção o defeito do pedido não é ser ambicioso demais, é ser pequeno demais para o próprio objeto: eles pedem um trono como se pedissem um assento.
O que o versículo acrescenta, e que as três leituras pressupõem sem dizer, é isto: existe pedido sincero, insistente e bem articulado que o requerente não compreende. A falha não é de vontade nem de honestidade — é de conhecimento, e não se corrige por esforço de sinceridade.
“Vocês podem beber o cálice que eu vou beber?”
Jesus não explica o pedido. Oferece outra coisa, e a oferta é dura.
A imagem vem carregada. Em Israel o cálice servido pela mão de Deus é, na maioria esmagadora das ocorrências, o cálice do castigo: Jerusalém o bebe até a borra em Isaías 51:17, as nações são obrigadas a bebê-lo em Jeremias 25, e em Ezequiel 23:33 ele é chamado cálice de espanto e de desolação. O cálice bom existe — Salmo 16:5 e Salmo 116:13 —, mas quem ouvia a palavra numa pergunta sobre o futuro imediato de um condenado não pensaria em bênção.
Duas consequências. A primeira: Jesus aplica a si mesmo a imagem antes de aplicá-la a eles, e o evangelho não informa o que há dentro do cálice. A palavra só volta em Mateus 26:39, no Getsêmani, na boca dele e num pedido de sentido contrário — que o cálice passe. Entre a pergunta feita a dois homens e a oração feita sozinho não há linha de ligação escrita por Mateus; há a mesma palavra, duas vezes.
A segunda: a pergunta é sobre capacidade, não sobre disposição. Não é “vocês querem?”, é “vocês podem?”. Entre as duas está a distância que separa a boa vontade da força, e a pergunta pressupõe que a segunda não se deduz da primeira.
“Eles disseram: Podemos”
A resposta é de uma palavra, sem condição e sem pausa. E Jesus não a desmente.
É aqui que a leitura corrente do episódio tropeça. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) fala de um pedido irreflexivo, e a pregação costuma tratar o “Podemos” como bravata. Só que o versículo 23 responde: “De fato vocês beberão o meu cálice”. Seja o que for esse “Podemos”, o texto não o classifica como mentira.
Quatro capítulos adiante, os mesmos dois homens estão entre os discípulos que abandonam Jesus e fogem, em Mateus 26:56, e nenhum evangelho tenta conciliar as duas coisas. O modo honesto de manter as duas é este: o “Podemos” não é uma previsão sobre o próprio caráter, é um sim — e o que Jesus confirma em seguida é o cálice, não a coragem de quem responde. Usar a fuga para transformar o “Podemos” em erro é o que não se pode fazer, porque quem tinha autoridade para chamá-lo de erro estava ali e não o fez.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois que responderam “Podemos”
O versículo não os nomeia. Chama-os de “vocês” e de “eles”, e o leitor tem de voltar dois versículos para saber que são Tiago e João, filhos de Zebedeu.
Mateus 4:21-22 conta como entraram na história: estavam no barco com o pai, consertando redes, e deixaram o barco e o pai e o seguiram. Marcos 1:20 acrescenta que Zebedeu tinha empregados no barco, o que situa a família acima da linha da miséria — não eram jornaleiros como os da parábola que abre este capítulo, e sim gente de pequeno negócio próprio. A informação importa para ler o pedido: quem pede posto costuma ser quem já tem alguma coisa.
Onde a cena acontece
No caminho. O versículo 17 informa que estavam subindo para Jerusalém; o versículo 29 mostra o grupo saindo de Jericó. O pedido é feito, portanto, no trecho anterior a Jericó, no vale do Jordão, antes da subida final. É o único pedido de posto que os evangelhos registram feito durante uma viagem que Jesus já havia descrito como caminho para a própria execução.
O que veio imediatamente antes
Em Mateus 19:28 Jesus prometeu doze tronos aos que o seguiram, e é difícil não ler o pedido da mãe como tentativa de reservar, entre esses doze, os dois melhores. Crisóstomo faz exatamente essa ligação: eles ouviram falar de doze tronos e não entenderam o sentido do dito.
Cinco versículos antes deste, em Mateus 20:18-19, veio o anúncio mais detalhado da paixão em todo o evangelho, com os gentios e a crucificação nomeados. Entre esse anúncio e este pedido não há nada — nenhuma transição, nenhuma pausa, nenhum comentário.
5. Pontos de Ensino
Jesus responde ao pedido, e não à pessoa
Ele não discute a legitimidade de quem pediu, não repreende a mãe, não manda os filhos falarem por si. Trata o conteúdo do requerimento — vai ao objeto e deixa de lado a questão de quem tem direito de trazê-lo.
Não saber o que se pede não é o mesmo que pedir mal
O versículo abre uma categoria que a linguagem religiosa corrente não tem: o pedido honesto e ininteligível para quem o faz. Isso muda o que se deve fazer com ele — pedido mal-intencionado se corrige arrependendo-se; pedido incompreendido se corrige descobrindo o que ele era.
“Podemos” é resposta aceita
O evangelho não coloca a palavra deles no lugar da presunção. Quem lê o versículo procurando a lição de que se deve prometer menos vai ter de forçar o texto, porque o texto, no versículo seguinte, confirma a promessa.
O que o versículo não ensina
Ele não ensina que querer lugar é errado, nem que mãe não deve pedir pelos filhos, nem que ambição espiritual seja doença. Essas conclusões são possíveis a partir de outros trechos deste mesmo capítulo; nenhuma está aqui. O que está aqui é uma pergunta sobre capacidade e a resposta que ela recebeu.
6. Aspectos Filosóficos
“Vocês não sabem o que estão pedindo” é uma frase que, filosoficamente, não deveria poder ser dita. Ela afirma que existe diferença entre o que alguém pede e o que ele pensa estar pedindo — e que a diferença pode ser apontada de fora.
Boa parte da filosofia moral moderna trabalha com o pressuposto contrário. Nas teorias que definem o bem de uma pessoa como a satisfação das suas preferências — o quadro padrão da economia do bem-estar e de vertentes importantes do utilitarismo —, a preferência é a palavra final: se alguém quer X, X é o que ele quer, e não há instância a que recorrer para dizer que se enganou sobre o próprio querer. Pode-se dizer que errou nos meios, ou nos fatos; não se pode dizer o que Jesus diz aqui.
Spaemann: a felicidade não é um objeto que se possa pedir
É contra esse pressuposto que trabalha Robert Spaemann (1927-2018), filósofo alemão, em Felicidade e benevolência (Glück und Wohlwollen, 1989 — literalmente “felicidade e querer-bem”, um ensaio de ética).
A tese central do livro é que a felicidade não é uma finalidade entre outras e por isso não pode ser objeto direto de um projeto: ela não se acrescenta às coisas que a pessoa quer, é o que acontece a quem quer bem alguma coisa determinada. Daí decorre que todo desejo de ser feliz é formalmente vazio e precisa ser preenchido por um desejo concreto — e é no preenchimento que mora a possibilidade do erro. Quem quer ser feliz não se engana; quem imagina que a felicidade tem a forma de um assento à direita do rei pode estar profundamente enganado, sem que o desejo deixe de ser dele.
É a estrutura exata do versículo: o pedido da mãe não é criticado como mentira nem como capricho, e sim como descrição — eles preencheram um desejo real com um objeto errado.
Para sustentar isso, Spaemann precisa de algo que a linguagem das preferências não oferece, e é o assunto de Personas (Personen, 1996, com o subtítulo “ensaios sobre a diferença entre ‘algo’ e ‘alguém’”): uma pessoa não se reduz à lista das suas propriedades e dos seus estados. Se fosse apenas o conjunto dos seus estados, inclusive dos seus desejos, não haveria sujeito a quem o desejo pudesse estar mal dirigido — o desejo seria a pessoa. É porque há alguém por trás do desejo que o desejo pode errar de alvo e continuar sendo dele.
A objeção, que é séria
Dizer a alguém que ele não sabe o que quer é a porta de entrada clássica do paternalismo: quem detém a descrição verdadeira do bem do outro detém também a autorização para decidir por ele. Spaemann conhece a objeção, e a resposta que constrói é o segundo termo do título de 1989 — benevolência não é querer o bem para o outro, é querer o bem do outro como bem dele, o que só é possível se o outro permanecer o sujeito da própria vida. É defensável, e não é prova; o risco continua de pé.
A cena, pelo menos, evita a forma paternalista. Jesus não substitui o pedido por outro nem informa aos dois o que eles realmente queriam: faz uma pergunta e espera a resposta — e a resposta que recebe é aceita, não corrigida. Nada disso está escrito em Mateus, e é preciso dizê-lo: o evangelho não tem teoria da felicidade e não discute finalidade. O que ele tem é uma frase que pressupõe a distinção — e Spaemann serve para mostrar o quanto ela é estranha ao modo como hoje se fala de desejo.
7. Aplicações Práticas
Rezar por coisas que você não entende
O pedido que você faz com mais convicção é o candidato mais forte a ser um pedido que você não compreende. Convicção não é conhecimento do objeto — o pedido da mãe era firme, articulado e ajoelhado.
O que decorre disso não é rezar menos, nem rezar mais vago. É aceitar que o pedido possa voltar transformado. A cena mostra o padrão: o requerimento entra como assento e sai como cálice, e continua sendo resposta ao mesmo pedido.
Dizer “podemos” antes de saber
Há decisões que só se tomam assim. Ninguém assina um casamento, um filho, um cargo ou um tratamento sabendo o que aceitou; a informação completa chega depois, e quase sempre tarde. O versículo não condena esse tipo de sim — o evangelho o confirma no versículo seguinte. A aplicação, então, é sobre o que fazer depois: compromisso assumido às cegas não fica inválido por causa do que se descobre em seguida; ele passa a valer sobre o que se descobriu.
Um limite honesto
O cálice deste versículo não é uma dificuldade qualquer da vida: é a execução de um homem e a participação de outros nela. Transformar “beber o cálice” em sinônimo de paciência com o trânsito é o tipo de uso que, à custa de tornar o versículo aplicável, o torna inofensivo. O que se aproveita sem forçar é a estrutura — pedido que não se entende, pergunta que devolve o custo, sim dado antes da informação.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus sabia a resposta da pergunta que fez?
O texto não diz, e dela depende o que a cena é. Se ele sabia que os dois beberiam o cálice, a pergunta é retórica e serve para arrancar deles um compromisso; se não sabia, é pergunta de verdade. O versículo 23 mostra que ele sabia o resultado, mas anunciar o que vai acontecer não é o mesmo que saber se eles teriam dito sim. Os evangelhos não trazem material para decidir, e as respostas que circulam vêm de doutrinas sobre o conhecimento de Cristo, não deste versículo.
Por que a mãe desaparece do episódio?
Mateus não diz que ela se retirou. Ela pede no versículo 20, é interpelada no 21, e a partir do 22 o diálogo é com os filhos; no 24 a irritação dos outros dez é contra os dois irmãos. O modo mais simples de descrever o que o texto faz é dizer que ela abre a cena e sai dela sem ser dispensada.
Se a cláusula sobre o batismo não é de Mateus, alguma coisa se perde?
Nenhuma doutrina, porque a frase está em Marcos 10:38 sem disputa. O que se perde é a palavra “batismo” aplicada por Jesus à própria morte dentro do primeiro evangelho — e, com ela, a imagem dupla: o cálice, que se bebe, e o mergulho, que submerge. É diferença de leitura, não de fé.
9. Conexão com Outros Textos
O cálice que Deus serve
Estas são as passagens que enchiam a palavra antes de Jesus usá-la. Em todas, o cálice sai da mão de Deus e entra na mão de quem não o escolheu.
Isaías 51:17 — “Desperta, desperta, levanta-te, Jerusalém, você que bebeu da mão do SENHOR o cálice do furor dele; bebeu até o fim o cálice que faz cambalear, e sugou a borra.”
A mais próxima da cena, porque nela se bebe o cálice até a borra. Cinco versículos depois, em Isaías 51:22, Deus anuncia que o tira da mão dela e não o dará mais a beber: o cálice pode ser retirado, e quem o retira é quem o serviu.
Jeremias 25:15 — “Porque assim me disse o SENHOR, o Deus de Israel: Tome da minha mão este cálice do vinho do furor e dê a beber a todas as nações às quais eu o envio.”
Aqui o cálice circula como numa mesa: um profeta o recebe e o serve, nação por nação, numa lista que ocupa o resto do capítulo. E em Jeremias 25:28 está a resposta prevista para quem se recusar a beber — “Certamente vocês beberão”. Ninguém devolve o cálice.
Salmo 75:8 — “Porque na mão do SENHOR há um cálice de vinho que espuma, cheio de mistura; e dele ele serve. Todos os ímpios da terra beberão até a borra.”
O salmo acrescenta a mistura: o vinho não é puro, e quem mistura é quem serve. Em Ezequiel 23:33 o cálice é de espanto e de desolação, e em Lamentações 4:21 e Habacuque 2:16 ele chega a quem estava por fora — Edom, o opressor. A imagem tem movimento próprio: passa de mão em mão e não deixa ninguém de lado.
O cálice bom, que também existe
Salmo 16:5 — “O SENHOR é a porção da minha herança e do meu cálice; és tu que sustentas a minha sorte.”
Salmo 116:13 — “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do SENHOR.”
Contraprova indispensável, e é desonesto omiti-la: a palavra não significa castigo por natureza. Significa o que cabe a alguém, e o conteúdo depende de quem serve. O que se pode afirmar é que, numa conversa sobre o que estava a ponto de acontecer a Jesus, a associação mais provável não era a do Salmo 116.
O mesmo cálice, dito por ele
Mateus 26:39 — “Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: ‘Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres’.”
A palavra é a mesma e a posição se inverte: quem aqui pergunta se os outros podem beber é lá quem pede para não beber. Mateus não comenta a inversão, e a repete em Mateus 26:42.
Mateus 26:27 — “Em seguida, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu a eles, dizendo: ‘Bebam dele todos vocês’.”
Na última ceia o cálice deixa de ser pergunta e vira gesto: ele o entrega e manda beber. É a única vez, em Mateus, em que o cálice passa da mão dele para a mão dos discípulos — e os dois deste versículo estão à mesa.
Onde os dois evangelhos divergem
Marcos 10:38 — “Jesus lhes disse: ‘Vocês não sabem o que estão pedindo. Vocês podem beber o cálice que eu bebo, ou ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?’”
Em Marcos o pedido é feito pelos próprios irmãos, no versículo 35; o cálice está no presente; e a cláusula sobre o batismo não é disputada por nenhum manuscrito. As três diferenças estão no mesmo par de versículos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas Jesus respondeu: “Vocês não sabem o que estão pedindo. Vocês podem beber o cálice que eu vou beber?” Eles disseram: “Podemos”.
Texto grego
ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν· Οὐκ οἴδατε τί αἰτεῖσθε· δύνασθε πιεῖν τὸ ποτήριον ὃ ἐγὼ μέλλω πίνειν; Λέγουσιν αὐτῷ· Δυνάμεθα.
Transliteração
apokritheis de ho Iēsous eipen· Ouk oidate ti aiteisthe· dynasthe piein to potērion ho egō mellō pinein? Legousin autō· Dynametha.
Uma nota textual
O grego acima está na forma curta, a mesma da tradução portuguesa. O Textus Receptus, que a ABC segue no Novo Testamento, acrescenta aqui uma segunda pergunta: ἢ τὸ βάπτισμα ὃ ἐγὼ βαπτίζομαι βαπτισθῆναι — ē to baptisma ho egō baptizomai baptisthēnai, “ou ser batizados com o batismo com que eu sou batizado”. A conjunção é ἤ, “ou”, e não “e”, apesar de a maior parte das traduções clássicas escrever “e”.
O quadro dos manuscritos está no item 2. Gramaticalmente, a cláusula combina dois tempos: βαπτίζομαι (baptizomai) é presente passivo — “estou sendo batizado”, processo já em curso —, enquanto βαπτισθῆναι (baptisthēnai) é infinitivo aoristo passivo, que apresenta o ato deles como um todo. Ele já está dentro; eles são perguntados se podem entrar. O mesmo uso reaparece em Lucas 12:50, onde Jesus fala de um batismo que ainda tem de receber — o que mostra que a aplicação da palavra à própria morte não é exclusiva de Marcos, nem depende deste versículo.
Análise palavra por palavra
Οὐκ οἴδατε — ouk oidate, “vocês não sabem”.
O verbo é oida, saber. A forma é de perfeito, mas funciona como presente: não se trata de “vocês não souberam”, e sim do estado atual de quem não tem a informação. A segunda pessoa do plural é o dado que o item 3 discute; a gramática apenas registra que a fala se dirige a mais de uma pessoa, enquanto no versículo 21 se dirigia a uma só.
τί αἰτεῖσθε — ti aiteisthe, “o que vocês pedem”.
Pergunta indireta: o “o que” é o objeto do não saber. Aiteō é pedir, requerer, e a forma está na voz média, que em grego indica ação feita no próprio interesse — “pedem para vocês mesmos”. O Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) chama a atenção para a voz média, e a observação merece um freio — no grego do primeiro século essa distinção já estava desgastada. O que continua de pé é a comparação com o versículo 20, onde o pedido da mãe é descrito com a forma ativa.
δύνασθε — dynasthe, “vocês podem”.
De dynamai, ter força para, ser capaz de. Meyer entende que aqui se trata de capacidade moral, e não física — leitura razoável, embora o verbo, por si, não faça essa distinção.
πιεῖν — piein, “beber”. Infinitivo aoristo de pinō. O aoristo apresenta a ação como um bloco, sem se demorar na duração: não é “ir bebendo”, é beber, do começo ao fim.
τὸ ποτήριον — to potērion, “o cálice”.
Derivado da mesma raiz de pinō, com a terminação que em grego formava diminutivos: originalmente “vasinho de beber”. Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, do século III antes da era comum) é a palavra que traduz o hebraico kos, “copo, taça” — e é por esse caminho que a carga profética da imagem chega ao grego dos evangelhos.
No Novo Testamento ela aparece cerca de trinta vezes, sempre como objeto concreto ou como a porção que cabe a alguém. Em Mateus, no Textus Receptus, são oito ocorrências: Mateus 10:42, este versículo e o seguinte, Mateus 23:25 e 23:26, Mateus 26:27 e Mateus 26:39 e 26:42. As edições críticas contam sete, porque em Mateus 26:42 leem a frase sem a palavra.
ὃ ἐγὼ μέλλω πίνειν — ho egō mellō pinein, “que eu estou a ponto de beber”.
O pronome ἐγώ (egō, “eu”) é dispensável, porque a desinência do verbo já informa a pessoa; quando o grego o escreve, é para marcar contraste. Aqui separa o cálice dele do cálice de qualquer outro.
Mellō com infinitivo é a construção da iminência: estar a ponto de. É hábito de estilo de Mateus, que a usa em Mateus 2:13, Mateus 16:27, Mateus 17:12, Mateus 17:22, neste versículo e em Mateus 24:6. Marcos 10:38, no lugar correspondente, escreve o presente simples, ὃ ἐγὼ πίνω, “que eu bebo”. E o infinitivo governado por mellō é presente, de duração, ao passo que o oferecido a eles é aoristo — diferença que pode ser apenas de uso, sem intenção teológica.
Δυνάμεθα — dynametha, “podemos”. Uma palavra: o mesmo verbo da pergunta, na primeira pessoa do plural, sem nada acrescentado — nem “senhor”, nem “com a tua ajuda”, nem qualquer ressalva. Em grego, como em português, a resposta é tão curta quanto parece.
11. Conclusão
Do que foi exposto, três conclusões se sustentam.
A primeira é que o pedido mais firme pode ter objeto desconhecido de quem pede, e que isso não é falha moral. Uma mãe ajoelhada, um requerimento preciso, dois filhos que confirmam — e a informação de que nenhum dos três sabe o que está sobre a mesa. Não é possível, depois disto, tratar clareza de intenção como garantia de clareza de objeto.
A segunda é que a resposta de Jesus troca o objeto do pedido sem descartar o pedido. Ele não nega, não repreende para encerrar, não manda os três voltarem quando souberem o que querem: substitui o assento pelo cálice e devolve a pergunta. O método do episódio é renomear o que se pede, e não recusar quem pede — e uma leitura deste versículo como condenação da ambição contraria o procedimento que o próprio versículo adota.
A terceira é que o “Podemos” fica de pé. O evangelho não o anula, nem quando os mesmos dois homens fogem na noite da prisão. Segue-se que a palavra dada em ignorância obriga sobre o que se descobre depois, e que o valor de um compromisso, neste texto, não depende de o comprometido ter avaliado corretamente as próprias forças.
Resta o que o versículo não permite concluir: ele não diz o que há dentro do cálice, não diz se a pergunta era retórica e não diz por que a mãe sai de cena. Quanto à cláusula sobre o batismo, a forma curta tem o apoio dos manuscritos mais antigos, a forma longa tem o da massa bizantina e do texto impresso que a ABC segue, e em Marcos 10:38 a frase não é disputada por ninguém — a dúvida é sobre quem escreveu, não sobre o que foi dito.













