“Estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei. Eles o condenarão à morte
1. Introdução
A frase começa como um grito de peregrino e termina como uma pauta de tribunal.
“Estamos subindo para Jerusalém” era o que se dizia nas estradas das festas, em primeira pessoa do plural, para chamar os outros a andar. Jesus usa essa abertura e enche o resto com nomes de autoridades e com um veredito. O versículo traz quatro coisas que o estudo desdobra: o “nós” do começo e o “ele” do meio, a entrega que agora tem destinatário nomeado, a lista de dois grupos onde antes havia três, e o verbo escolhido — condenar, que é ato de juízo e não de execução.
2. Contexto Histórico e Cultural
“Subamos” era chamado, não relatório
A forma verbal da peregrinação, nos textos hebraicos, costuma vir na primeira pessoa do plural e com força de convite. Isaías 2:3 põe na boca dos povos: “Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó.” Miqueias 4:2 repete a frase quase palavra por palavra. E a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) verte essa frase de Isaías com o mesmo verbo grego que Mateus usa aqui: deute kai anabōmen, “vinde e subamos”.
O Salmo 122, que está entre os quinze “cânticos das subidas”, começa pelo mesmo movimento de fala: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do SENHOR.” Alguém convoca; o outro responde alegrando-se. A fórmula pressupõe dois lados — quem chama e quem atende.
É esse formato que Mateus 20:18 conserva na abertura. O “eis” e o “subimos” não descrevem uma viagem de fora; eles põem o falante dentro do grupo que sobe, do mesmo modo que o convite das procissões. O que muda é o que vem depois da vírgula.
Quem podia matar na Judeia
O versículo distribui dois atos entre dois sujeitos: um grupo condena, e outros — no versículo 19 — executam. Essa divisão corresponde ao arranjo documentado para a província.
Quando Roma anexou o território de Arquelau, em 6 d.C., Josefo (historiador judeu do primeiro século) registra que o primeiro governador enviado, Copônio, da ordem dos cavaleiros, recebeu de César a autoridade que ia “até matar” — isto é, o poder de aplicar a pena capital (Guerra dos Judeus 2.117). O dado é preciso e é do lado romano: a competência para executar estava na mão do governador, e chegou junto com o cargo.
Quanto ao que o conselho de Jerusalém conservava, a discussão é antiga e não está resolvida; ela está exposta no estudo de Mateus 16:21. O que basta notar aqui é que o versículo não afirma nada sobre essa disputa: ele apenas separa quem julga de quem mata, e a separação é o arranjo que as fontes romanas descrevem.
O que era “condenar à morte” num tribunal judeu
A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) descreve o processo capital no tratado Sanhedrin, e o desenho é de um tribunal construído para não condenar.
Causas de dinheiro eram julgadas por três juízes; causas de morte, por vinte e três. Numa causa de morte os argumentos tinham de começar pela absolvição, a maioria de um voto bastava para absolver mas eram necessários dois para condenar, o veredito só podia ser concluído de dia, a discussão começava pelos juízes mais novos, e qualquer pessoa presente podia argumentar a favor da absolvição — pela condenação, só os juízes (Mishná Sanhedrin 4:1-2).
Duas ressalvas são obrigatórias. A primeira: esse texto foi organizado quase dois séculos depois dos fatos, e há debate sério sobre quanto dele descreve prática real do primeiro século e quanto é reconstrução ideal de uma corte que já não existia. A segunda: é justamente por causa dessa régua que os relatos do julgamento de Jesus produziram uma bibliografia inteira, já que uma sessão noturna com condenação no mesmo dia viola vários dos itens acima. Nada disso está decidido.
O aproveitável para este versículo é outro, e é seguro: “condenar à morte” nomeia um procedimento, com forma, contagem e prazos. Não é linchamento. Quando Jesus diz que eles o condenarão, está dizendo que a coisa vai ter a aparência de justiça.
3. Análise Teológica do Versículo
“Estamos subindo para Jerusalém”
O verbo está na primeira pessoa do plural, e é a única vez, nos três anúncios, que isso acontece. Em Mateus 16:21 quem precisava ir a Jerusalém era ele; em Mateus 17:22 o sujeito era “o Filho do homem”. Aqui o sujeito é “nós”.
E o versículo não fica no “nós”. Ele muda de pessoa no meio: a primeira metade é plural e em primeira pessoa — subimos; a segunda é singular e em terceira — o Filho do homem será entregue. Ele começa a frase dentro do grupo e acaba falando de si como de um terceiro. Nenhuma tradução consegue esconder essa dobra, porque ela está na conjugação.
Duas leituras do “nós” são defensáveis. Primeira leitura: é descrição de viagem, sem carga nenhuma — eles estavam subindo juntos, e ele diz o óbvio para situar o que vem depois. Segunda leitura: o plural inclui os doze numa subida cujo preço será pago por um, e é isso que a mudança de pessoa marca — o caminho é de todos, o que acontece no fim é dele. O capítulo dá apoio à segunda, porque no versículo 22 a pergunta “vocês podem beber o cálice que eu vou beber?” faz exatamente essa distinção, e no versículo 23 ela é confirmada em parte e negada em parte. Ainda assim, o texto não decide, e a primeira leitura não é descartável.
O que se pode afirmar com segurança é o efeito sobre o leitor da época. Quem ouvia “eis, subimos para Jerusalém” ouvia o início de um chamado de festa (item 2). A frase abre com o vocabulário da procissão e vira, na metade, a pauta de um processo criminal.
“e o Filho do homem será entregue”
A entrega voltou, e agora com endereço. No segundo anúncio ela era “nas mãos dos homens”, sem nome — o campo inteiro da palavra está desenvolvido no estudo de Mateus 17:22. Aqui há dois grupos nomeados, no caso gramatical de quem recebe.
O ganho de um anúncio para o outro não é de violência: é de precisão. O segundo dizia que haveria uma entrega e não dizia a quem; o terceiro diz a quem, e diz também que esse primeiro destinatário não é o último — porque o versículo 19 repete o verbo com outro destinatário. A entrega passou a ser uma cadeia, com duas estações.
E quem entrega continua fora da frase. A forma verbal é passiva, sem agente, exatamente como no segundo anúncio. O terceiro anúncio, que ganhou nomes em quase tudo, não ganhou o nome de quem faz a primeira entrega.
“aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei”
A lista encurtou. Em Mateus 16:21 eram três grupos — anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; aqui são dois, e os anciãos saíram. Os “mestres da lei” deste versículo e os “escribas” daquele são a mesma palavra grega, traduzida de dois modos pela ABC.
Há um dado que complica a leitura devocional da lista, e é melhor pôr na mesa. Quando Mateus narra a paixão, a dupla que age nunca é esta. São “os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo” que se reúnem em Mateus 26:3, que mandam a multidão armada em Mateus 26:47, que decidem entregá-lo em Mateus 27:1, que o acusam diante de Pilatos em Mateus 27:12 e que convencem a multidão em Mateus 27:20. Os escribas aparecem, sim, mas em outras combinações: com os anciãos na casa de Caifás, em Mateus 26:57, e ao pé da cruz, zombando, em Mateus 27:41.
Por que o anúncio nomeia uma dupla e a narrativa executa com outra? Três leituras.
Primeira leitura: as listas são fórmulas herdadas, e Mateus as varia sem intenção, do mesmo modo que varia a ordem dos nomes nas listas dos doze. É a explicação mais econômica.
Segunda leitura: a dupla do anúncio é a dupla da competência técnica. Um tribunal precisa de quem tenha poder e de quem saiba conduzir processo — os chefes dos sacerdotes controlavam a instituição, os escribas sabiam a lei. Anunciar um julgamento nomeando esses dois é anunciar a forma jurídica do que vai acontecer, e não a composição exata da sala.
Terceira leitura: o anúncio não é transcrição, e a diferença é real. Quem espera que uma predição no evangelho case nome por nome com a narrativa vai encontrar aqui uma folga. A leitura é incômoda e é honesta; ela não decide nada contra o texto, mas registra que a precisão do terceiro anúncio é grande e não é total.
Não é possível decidir entre as três. A segunda explica melhor a escolha dos grupos; a primeira explica melhor a variação; a terceira é a que o leitor precisa ter à mão para não inventar um encaixe que o texto não dá.
“Eles o condenarão à morte”
O verbo é de sentença, não de golpe. E ele é raro em Mateus: aparece quatro vezes no evangelho inteiro.
Duas dessas vezes estão juntas, em Mateus 12:41-42, e apontam na direção contrária desta. Ali os homens de Nínive e a rainha do Sul — estrangeiros, os dois — se levantarão em juízo e condenarão “esta geração”. A terceira é aqui. A quarta é Mateus 27:3, na forma passiva, quando Judas vê “que Jesus fora condenado”. Quer dizer: em Mateus, o mesmo verbo põe pagãos na cadeira de juiz sobre Israel, põe as autoridades de Israel na cadeira de juiz sobre o Filho do homem, e registra o veredito cumprido pelos olhos do traidor. É um fato de vocabulário, e vale como tal: o evangelho não constrói nenhum argumento sobre a coincidência.
Falta o que a frase não diz, e é a parte mais importante dela. Ela não diz que eles o matarão. O primeiro anúncio dizia “ser morto”, no passivo e sem agente; o segundo dizia “eles o matarão”, com os homens por sujeito; este tira o ato de matar das mãos que condenam e o passa para o versículo seguinte, com outro sujeito.
Dois excessos de leitura precisam ser recusados aqui, e os dois têm história. O primeiro é usar a frase para dizer que as autoridades de Jerusalém não têm responsabilidade, porque não foram elas que executaram — o versículo lhes atribui a condenação, que é um ato deliberado. O segundo, e muito mais grave, é usar a frase para imputar a um povo inteiro, e às suas gerações seguintes, o que o texto atribui a um grupo de dirigentes nomeados. O versículo fala de chefes dos sacerdotes e mestres da lei em Jerusalém, na semana de uma Páscoa. Alargar isso é acrescentar ao texto, e o acréscimo custou séculos de sangue.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os chefes dos sacerdotes
Quem eram esses homens e por que Mateus fala deles no plural está no estudo de Mateus 16:21. O percurso deles a partir deste ponto é o seguinte: são eles que Judas procura, por iniciativa própria, em Mateus 26:14; que pagam as trinta moedas e depois se recusam a pôr o dinheiro no tesouro, chamando-o de “preço de sangue”, em Mateus 27:6; que acusam diante do governador em Mateus 27:12; e que, em Mateus 27:41, ficam ao pé da cruz zombando. O grupo que este versículo nomeia é o único que aparece em todas as etapas da paixão, do primeiro contato com Judas até a guarda do sepulcro em Mateus 27:62.
Os mestres da lei
São os escribas: especialistas na lei escrita e na tradição, que copiavam textos, ensinavam, redigiam documentos e sabiam conduzir um processo. A ABC os chama de “escribas” em Mateus 16:21 e de “mestres da lei” aqui — a palavra grega é uma só, e as duas traduções circulam em português.
Na narrativa da paixão eles não aparecem como parceiros dos chefes dos sacerdotes. Aparecem reunidos com os anciãos na casa de Caifás, em Mateus 26:57, e zombando na cruz, em Mateus 27:41.
Os anciãos, que não estão na lista
Estavam em Mateus 16:21 e estarão em toda a narrativa da paixão. Neste versículo, não. É a única ausência nominal do anúncio mais detalhado dos três.
O Filho do homem
O título e a sua origem em Daniel 7:13 foram analisados no estudo de Mateus 16:13. Aqui ele funciona como terceira pessoa dentro de uma frase que começou na primeira do plural.
5. Pontos de Ensino
O convite e a notícia vêm na mesma frase
Ele não separa a boa parte da má. A abertura é de festa, o meio é de tribunal, e as duas coisas estão no mesmo período, dirigidas às mesmas pessoas. Quem precisa dar uma notícia dura costuma fazer o contrário: prepara o terreno, cria clima, adia. Aqui a moldura alegre não serve de amortecedor — serve de contraste.
Há um “nós” que não reparte o custo
Subir era de todos; ser entregue era de um. O versículo instala essa diferença sem explicá-la, e o resto do capítulo a trabalha: no versículo 22 dois discípulos descobrem que não sabiam o que estavam pedindo. Andar junto com alguém não significa carregar o que ele carrega, e confundir as duas coisas é o erro que os filhos de Zebedeu vão cometer três versículos adiante.
A injustiça sabe usar formulário
“Condenar à morte” é linguagem de processo: o que vai acontecer com ele terá juízes, sessão e sentença — e será injusto. A aparência de justiça é um dos instrumentos da injustiça, não o seu oposto.
6. Aspectos Filosóficos
Um homem sabe o nome do tribunal que o vai condenar, diz esse nome em voz alta e continua andando na direção dele. A pergunta filosófica que isso levanta não é sobre coragem. É sobre o que acontece a um ato quando quem o pratica já conhece o resultado: ele continua sendo uma decisão, ou virou apenas o cumprimento de um roteiro?
Emmanuel Mounier (1905-1950) montou a sua filosofia em volta dessa pergunta. Francês, católico, fundou em 1932 a revista Esprit (“Espírito”) e recusou a carreira universitária para trabalhar dentro das brigas do seu tempo — a crise de 1929, o fascismo, a guerra, a Resistência, a prisão em 1942. A corrente que ele batizou chama-se personalismo, e o nome da obra em que a expôs é Le personnalisme (“O personalismo”, 1949). Mais cedo, em 1945, publicou L'affrontement chrétien (“O enfrentamento cristão”).
Duas peças da obra dele servem diretamente a este versículo.
A primeira é o que Mounier chamou de engagement (“engajamento”, em francês — o compromisso assumido com uma causa e pago com a própria vida). Para ele, a pessoa não existe primeiro e se compromete depois: ela se constitui no ato de se comprometer. Um sujeito que se guarda intacto, que examina as opções e nunca entra em nenhuma, não está preservando a sua liberdade — está deixando de ser pessoa. E o compromisso compromisso que conta é o que se assume sabendo o risco: Mounier insistia que o engajamento temporal exige assumir riscos sem parar, e que fazê-lo com lucidez é a condição de não se dissolver na causa.
A segunda é a fórmula que resume o clima da obra dele: optimisme tragique, “otimismo trágico”. Mounier não negava que a vida se apresenta como trágica e difícil; sustentava que se pode ainda acreditar no homem apesar disso. As duas palavras não se cancelam, e é por não se cancelarem que a expressão é útil. Quem é só trágico desiste; quem é só otimista não vê. O otimismo trágico é a posição de quem vê e não desiste.
Aplicado à frase, o resultado é este. “Estamos subindo” é um ato, não uma previsão. Se o versículo dissesse apenas “o Filho do homem será entregue”, teríamos um oráculo; o sujeito da frase seria o destino. Mas a frase começa com um verbo de movimento na primeira pessoa do plural — alguém está subindo, e está subindo agora. O conhecimento do fim não retira a ação: ele a qualifica. É a diferença, na linguagem de Mounier, entre sofrer a história e entrar nela.
O limite
Mounier é um pensador do século XX, e ler o versículo com as categorias dele é leitura nossa, não algo que o texto afirme. Duas ressalvas. A primeira: Mateus não discute liberdade nem decisão neste ponto; ele registra uma fala. A segunda, mais séria: o vocabulário do engajamento pode fazer a cena parecer heroica, e o próprio evangelho recusa esse tom mais adiante — em Mateus 26:39, no Getsêmani, o mesmo homem pede que aquilo não aconteça. Uma filosofia do compromisso lúcido ilumina o versículo 18; ela não dá conta do jardim.
7. Aplicações Práticas
Dizer o nome de quem vai fazer o dano
Ele não diz “coisas ruins vão acontecer”. Diz quem, e diz o quê. Em qualquer conversa difícil — dentro de uma família, de uma empresa, de uma igreja — essa é a diferença entre avisar e alarmar. O aviso vago produz medo sem objeto; o aviso nomeado permite que o ouvinte se organize. O versículo mostra a segunda forma, que é mais dura de falar e mais útil de ouvir.
Quem decide em grupo tem de olhar o mérito, não só o rito
Isso tem uso imediato para quem participa de conselho, comissão, diretoria ou júri. O tribunal descrito na Mishná foi desenhado com todas as travas imagináveis contra a condenação apressada — número de juízes, ordem dos argumentos, prazo entre sessões — e não impediu o que o versículo anuncia. Cumprir o procedimento é necessário e não basta; a pergunta sobre o mérito da decisão não é substituída por nenhuma formalidade bem executada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que ele diz “subimos” e não “eu subo”?
Porque os dois eram verdade e ele escolheu o que inclui. Estavam todos na estrada, e a forma de primeira pessoa do plural era o modo consagrado de falar de uma subida às festas. A pergunta que fica sem resposta segura é se o plural carrega mais do que isso — se ele já antecipa que aquele caminho seria dos doze também. O capítulo sugere que sim, no versículo 22, mas o texto deste versículo não afirma.
Se o conselho não podia executar, por que ele diz que eles o condenarão à morte?
Porque condenar e executar são atos diferentes, e o versículo os atribui a sujeitos diferentes. A sentença é deles; a execução é do versículo 19. É exatamente essa distinção que dá à frase a precisão que os dois anúncios anteriores não tinham.
A lista de autoridades confere com a narrativa da paixão?
Não de modo exato, e é melhor saber disso. O anúncio nomeia chefes dos sacerdotes e escribas; na paixão, quem age como dupla são os chefes dos sacerdotes e os anciãos. Os escribas aparecem em outras combinações. Há explicações razoáveis — fórmula variável, escolha pela competência jurídica dos dois grupos — e há a possibilidade de que a predição simplesmente não seja transcrição. O texto não resolve.
Este versículo culpa os judeus pela morte de Jesus?
Não. Ele nomeia dois grupos de dirigentes em Jerusalém, e atribui a eles um ato específico: a condenação. Quem estende isso a um povo e às suas gerações posteriores está acrescentando ao texto — e o acréscimo tem uma história documentada de perseguições. Vale lembrar também o que a própria cena mostra: quem sobe a estrada, quem ouve o anúncio, quem é condenado e quem chora no fim são todos judeus.
9. Conexão com Outros Textos
A fórmula da subida
Isaías 2:3 — “E muitos povos irão e dirão: ‘Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó; ele nos ensinará os seus caminhos, e andaremos nas suas veredas.’”
Miqueias 4:2 — “E muitas nações irão e dirão: ‘Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó; ele nos ensinará os seus caminhos, e andaremos nas suas veredas.’”
A mesma frase em dois profetas, e nos dois em primeira pessoa do plural. Na versão grega do Antigo Testamento ela usa o verbo deste versículo.
Salmo 122:1 — “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do SENHOR.”
Um dos quinze cânticos das subidas. A alegria está na resposta a um chamado.
Os outros dois anúncios, para comparação
Mateus 16:21 — “Daquele momento em diante, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia.”
Mateus 17:22 — “Enquanto eles andavam pela Galileia, Jesus lhes disse: ‘O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens.’”
O primeiro tem três grupos e a morte no passivo; o segundo tem a entrega sem destinatário. Este tem dois grupos, a entrega com destinatário nomeado e a morte como sentença.
A dupla que age na paixão
Mateus 26:3 — “Então os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás,”
Mateus 27:1 — “Ao amanhecer, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o condenarem à morte.”
A mesma decisão que este versículo anuncia, executada por uma dupla diferente da anunciada.
Mateus 26:57 — “Os que prenderam Jesus o levaram a Caifás, o sumo sacerdote, onde se haviam reunido os mestres da lei e os anciãos.”
Mateus 27:41 — “Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes, com os escribas e os anciãos, zombavam dele, dizendo:”
Onde os escribas de fato aparecem: na casa do sumo sacerdote e ao pé da cruz.
O verbo “condenar” nos outros lugares de Mateus
Mateus 12:41 — “Os homens de Nínive se levantarão em juízo com esta geração e a condenarão, porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e eis que aqui está alguém maior do que Jonas.”
Mateus 12:42 — “A rainha do Sul se levantará em juízo com esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e eis que aqui está alguém maior do que Salomão.”
Nas duas, quem condena é estrangeiro e quem é condenado é “esta geração”.
Mateus 27:3 — “Então Judas, que o havia traído, ao ver que Jesus fora condenado, tomado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos,”
A quarta e última ocorrência: o veredito anunciado aqui, registrado como fato, pelos olhos de quem o entregou.
O paralelo em Marcos
Marcos 10:33 — “Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas; e eles o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios.”
Marcos traz a mesma abertura, os mesmos dois grupos e o mesmo verbo de sentença. A frase é praticamente idêntica, e a diferença entre os dois evangelhos estará no versículo seguinte.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei. Eles o condenarão à morte
Texto grego
Ἰδού, ἀναβαίνομεν εἰς Ἱεροσόλυμα, καὶ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου παραδοθήσεται τοῖς ἀρχιερεῦσι καὶ γραμματεῦσι· καὶ κατακρινοῦσιν αὐτὸν θανάτῳ,
Transliteração
Idou, anabainomen eis Hierosolyma, kai ho huios tou anthrōpou paradothēsetai tois archiereusi kai grammateusi; kai katakrinousin auton thanatō,
Uma diferença entre as edições
O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue), o texto bizantino e Westcott-Hort trazem katakrinousin auton thanatō, com “morte” no caso de quem recebe a ação indireta: condenarão a ele com morte. Nestle 1904 e Tischendorf trazem eis thanaton, com preposição: condenarão a ele para a morte. O sentido é o mesmo, e nenhuma tradução em português consegue marcar a diferença. É variante de construção, não de conteúdo.
Análise palavra por palavra
Ἰδού — idou, “eis”. Na origem é uma forma de imperativo do verbo de ver, “olhe”; no grego dos evangelhos já funciona como partícula que chama atenção para o que vem em seguida. Ela é abundante na Septuaginta, onde traduz a partícula hebraica de apresentação, e Mateus a usa com frequência muito maior que os outros evangelistas.
ἀναβαίνομεν — anabainomen, “subimos, estamos subindo”. Presente do indicativo, primeira pessoa do plural, de anabainō. O verbo e o seu uso técnico para a peregrinação estão no estudo de Mateus 20:17, item 10. O que é próprio deste versículo é a forma: indicativo presente, não exortação. As fórmulas do Antigo Testamento que se parecem com esta trazem a forma de convite — anabōmen na Septuaginta de Isaías 2:3, “subamos”, que é chamado. Aqui a forma é a de quem constata: já estamos subindo. A diferença é de uma letra em grego e de sentido inteiro: um convoca, o outro informa.
εἰς Ἱεροσόλυμα — eis Hierosolyma, “para Jerusalém”. Repetição literal do versículo anterior, com o mesmo nome na mesma forma. Os dois versículos dizem a mesma coisa duas vezes: uma na voz de quem conta, outra na voz dele.
ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου — ho huios tou anthrōpou, “o Filho do homem”. Analisado no estudo de Mateus 16:13, item 10. Note-se apenas a posição: é sujeito de uma oração em terceira pessoa, dentro de uma frase cuja primeira oração estava na primeira do plural.
παραδοθήσεται — paradothēsetai, “será entregue”. Futuro passivo de paradidōmi, “dar ao lado, passar às mãos de alguém”. O campo semântico da palavra, as suas ocorrências e a discussão sobre quem entrega estão no estudo de Mateus 17:22, item 10. Aqui a novidade é sintática: em Mateus 17:22 o verbo vinha seguido de eis cheiras anthrōpōn, “para mãos de homens”, expressão de movimento e sem nomes; aqui vem seguido de dois substantivos no caso do destinatário. A entrega ganhou endereço.
τοῖς ἀρχιερεῦσι — tois archiereusi, “aos chefes dos sacerdotes”. Plural de archiereus, composto de archē (“chefia, princípio”) e hiereus (“sacerdote”). Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII) observa que o plural era a denominação comum na época, e não um erro de quem escrevia: designava uma classe, não um indivíduo.
καὶ γραμματεῦσι — kai grammateusi, “e aos escribas”. Plural de grammateus, derivado de gramma, “letra, coisa escrita”. Literalmente é “o homem das letras”: nos papiros do Egito a palavra designa o escrivão, o funcionário que redige. A ABC traduz “mestres da lei” neste versículo e “escribas” em Mateus 16:21 — as duas formas correm em português, e a primeira diz o ofício, a segunda a palavra.
Repare que os dois substantivos vêm sem artigo no segundo caso, ligados por um único tois inicial. Em grego isso costuma aproximar os dois grupos e apresentá-los como um conjunto, e não como duas partes separadas — o que casa com a leitura de que a dupla nomeia a composição de um tribunal.
κατακρινοῦσιν — katakrinousin, “condenarão”. Futuro ativo de katakrinō, composto de kata (“contra, para baixo”) e krinō (“julgar, separar, decidir”). O simples krinō é julgar, sem resultado definido; o composto com kata traz o resultado dentro da palavra: julgar contra. De krinō vêm, em português, “crítica”, “critério” e “crise”.
Em Mateus o verbo ocorre quatro vezes: Mateus 12:41, Mateus 12:42, este versículo e Mateus 27:3. Fora de Mateus, o Novo Testamento o usa sobretudo em Paulo, em contextos de juízo divino, como em Romanos 8:3 e 8:34.
αὐτὸν θανάτῳ — auton thanatō, “a ele, com morte”. Thanatos é morte; dela vêm “eutanásia” e “tanatologia”. A construção com o caso do complemento indireto para indicar a pena é normal no grego jurídico: condena-se alguém a algo. O grego não precisa de preposição, e é por isso que uma parte das edições a acrescentou.
11. Conclusão
Quatro conclusões se tiram do versículo.
A primeira é que o terceiro anúncio foi construído sobre uma fórmula de peregrinação. A abertura é a de um chamado de festa, com o verbo da subida na primeira pessoa do plural, e é dentro dessa moldura que entram os nomes do tribunal. Não há transição: o convite e a pauta do processo ocupam a mesma frase.
A segunda é que a frase muda de pessoa gramatical no meio, e que a mudança carrega o assunto do capítulo. Começa em “nós” e termina em “ele”. A subida é de todos; o que acontece no fim dela é de um. Quatro versículos adiante, dois discípulos mostrarão que não entenderam essa distinção.
A terceira é que o avanço deste anúncio sobre os anteriores é de precisão jurídica, e não de ênfase. A entrega ganhou destinatário; a morte passou a ser dita como sentença; e o ato de matar foi retirado de quem julga. O que os três anúncios juntos mostram não é uma notícia repetida com mais força, e sim uma informação sendo completada por partes.
A quarta é que a precisão do anúncio, por grande que seja, tem uma folga. A dupla nomeada aqui não é a dupla que age na narrativa da paixão, e não é possível decidir por quê. Registrar a folga é mais honesto do que forçar o encaixe — e é o mesmo cuidado que impede ler a frase como acusação a um povo, quando ela nomeia dirigentes por função, numa cidade, num ano.













