Daquele momento em diante, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia.
1. Introdução
Aqui o evangelho vira de lado.
Até este ponto, Jesus é quem cura, alimenta, responde e anda sobre a água. A partir daqui ele passa a ser aquele a quem as coisas acontecem — e o texto avisa antes de contar. Quatro pontos organizam a leitura.
O primeiro é a expressão que abre o versículo. A fórmula inteira — "daquele momento em diante Jesus começou" — aparece só mais uma vez em Mateus, e é no início da pregação, em Mateus 4:17. Duas ocorrências, duas viradas.
O segundo é o verbo "precisava". É a palavra mais carregada da frase e a mais discreta: afirma uma necessidade sem dizer quem a impõe. O item 10 examina que espécie de necessidade é essa.
O terceiro é a lista dos adversários — anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas. Não são três grupos avulsos: juntos, formam o tribunal supremo de Israel. A condenação virá da instituição inteira.
O quarto é o fim da frase. Ele anuncia a morte e a ressurreição na mesma respiração, e a reação do versículo seguinte responde só à primeira metade.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era "ir a Jerusalém"
A frase tem peso geográfico e peso político.
A cena se passa em Cesareia de Filipe, no extremo norte, junto às nascentes do Jordão. Jerusalém fica a mais de cento e cinquenta quilômetros dali, ao sul, e a cerca de setecentos e cinquenta metros de altitude. Por isso, no vocabulário judaico, nunca se "vai" a Jerusalém: sobe-se. O próprio Mateus escreverá "subindo para Jerusalém" em Mateus 20:17.
Politicamente, era o único lugar onde a decisão sobre ele podia ser tomada. Ali estavam o templo, o sumo sacerdote, o conselho e, nas festas, o prefeito romano, que subia da costa com tropas porque multidão em festa religiosa era risco de motim. Para quem vinha reunindo gente no norte, ir a Jerusalém era entrar no campo do adversário na hora mais tensa do calendário.
A cidade que matava profetas
Essa tradição já estava formada, e não é invenção cristã.
Jeremias foi preso, jogado numa cisterna e ameaçado de morte na cidade. Zacarias, filho do sacerdote Joiada, foi apedrejado no pátio do templo, segundo 2 Crônicas 24:20-22.
"Profeta morto em Jerusalém" era, portanto, categoria disponível, e Lucas 13:33 a transformará em regra amarga. Isso importa para medir o anúncio: ele não soa absurdo aos ouvidos de quem escuta. O absurdo, para eles, está na outra parte.
O que se esperava do ungido
Aqui está o choque real do versículo, e a pregação costuma suavizá-lo.
As expectativas messiânicas do primeiro século não eram uniformes: havia variantes sacerdotais, régias e proféticas. Mas nenhuma delas, nos escritos que sobreviveram, previa um ungido derrotado, julgado pelo próprio povo e executado.
O documento mais claro é o Salmo de Salomão 17, escrito provavelmente em meados do século I a.C. e não incluído na Bíblia — os Salmos de Salomão são um conjunto de dezoito poemas judaicos conservados em grego. Ali se pede a Deus um filho de Davi que quebre os governantes injustos e purifique Jerusalém dos estrangeiros. É um libertador que vence.
O poema do servo que sofre, em Isaías 52:13-53:12, existia e era lido. Mas não há texto judaico anterior ao cristianismo que o aplique ao ungido de modo inequívoco; é discutido, e há quem sustente o contrário com base em fragmentos de leitura difícil achados em Qumran. A figura rabínica de um "Messias filho de José", que morre em combate, só aparece em fontes bem posteriores, e usá-la como pano de fundo do primeiro século é anacronismo.
Conclusão plausível: ao juntar "ungido" e "ser morto", a frase junta o que o vocabulário religioso da época mantinha separado.
Como se contavam os dias
"No terceiro dia" não significa setenta e duas horas.
A contagem judaica era inclusiva: o dia em que algo acontece já conta como primeiro. Sexta-feira à tarde é o primeiro, o sábado é o segundo, o domingo de manhã é o terceiro — e o intervalo real fica em torno de trinta e seis horas.
É o que permite a Marcos 8:31 escrever "depois de três dias" onde Mateus escreve "no terceiro dia", sem contradição.
3. Análise Teológica do Versículo
"Daquele momento em diante"
A frase é um marco, e Mateus a usa com parcimônia.
A fórmula completa — "daquele momento em diante Jesus começou" — aparece exatamente duas vezes. A primeira é Mateus 4:17: "daquele momento em diante Jesus começou a pregar e a dizer: arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo". A segunda é aqui.
As duas marcam começos, e os dois começos são opostos em clima. Um abre a proclamação do Reino; o outro abre o caminho da morte.
Há quem veja aí a dobradiça de uma estrutura em três partes, tratada no item 10. Sem precisar de reconstrução nenhuma, porém, já se pode afirmar o essencial: o texto avisa que algo mudou de regime naquele ponto, e o ponto é logo depois da confissão de Pedro.
"Jesus começou a mostrar aos seus discípulos"
Três detalhes se acumulam nessa oração curta.
O primeiro é "começou". Não é uma frase dita uma vez: é a abertura de uma insistência. Mateus registrará o mesmo anúncio outras duas vezes, em Mateus 17:22-23 e em Mateus 20:17-19, cada vez com um detalhe a mais.
O segundo é o verbo escolhido. Não é pregar, não é ensinar, não é contar uma parábola: é mostrar, apontar, pôr diante dos olhos. Ele não está tentando convencê-los de uma tese — está exibindo um trajeto.
O terceiro é "aos seus discípulos". Só a eles: se a identidade não devia ser divulgada, o destino muito menos.
"que precisava"
Esta é a palavra que sustenta a frase inteira, e ela é impessoal.
O texto não diz quem impõe. Não escreve "o Pai determinou", não escreve "a Escritura obriga", não escreve "a política não deixa saída". Diz apenas que era necessário, e deixa o agente fora da frase. A análise da palavra está no item 10.
O que interessa aqui é o efeito da omissão. Ao não nomear a fonte, o versículo mantém abertas ao mesmo tempo leituras que costumam ser tratadas como excludentes: o plano divino, o cumprimento dos textos proféticos e a consequência prática de quem entra em Jerusalém dizendo o que ele dizia. Elas não se anulam.
E há uma tensão que o próprio capítulo instala. Se era necessário, o que Pedro faz no versículo seguinte é tentar impedir o inevitável — e a dureza da resposta, no versículo 23, mostra que a necessidade não tornava a proposta inofensiva. Necessário, no vocabulário do versículo, não significa automático.
"ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas"
Repare na inversão de posição gramatical, porque ela é a chave do trecho.
Até aqui, Jesus é sujeito de verbos ativos: cura, ensina, expulsa, multiplica, caminha, responde. A partir deste ponto, os verbos principais o têm como objeto: sofrer o que lhe fazem, ser morto, ser levantado. A única ação que resta ativa é a primeira — ir. O que ele faz é caminhar para o lugar onde as coisas serão feitas com ele.
"Sofrer muitas coisas" é expressão aberta, que não se resume à execução: cobre o processo, a acusação, o abandono, a zombaria. A morte vem depois, como item separado. Sofrer e morrer não são a mesma coisa no versículo.
"por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas"
A lista é informação política, e traz duas surpresas.
A primeira é que ela nomeia o conselho, e não inimigos avulsos. Os três grupos são os componentes do sinédrio, o tribunal supremo. Dizer que sofrerá "por parte" deles é dizer que a condenação virá com forma jurídica e com a chancela da instituição — não de uma turba nem de um partido religioso irritado.
A segunda é quem não está na lista. Os fariseus dominaram a abertura deste capítulo, em Mateus 16:1-12, e são os adversários mais constantes do evangelho. Aqui não aparecem, e não aparecerão de modo relevante na narrativa da paixão, em que Mateus fala quase sempre em "chefes dos sacerdotes e anciãos do povo".
Há explicação plausível: fariseus eram força de sinagoga e de opinião, não de tribunal. Quem podia prender, julgar e entregar aos romanos era a aristocracia do templo. A oposição que discute e a oposição que decide são pessoas diferentes. É leitura, e não afirmação do texto — Mateus apenas troca os nomes e segue.
"ser morto"
A escolha da expressão é brutal e deliberada. Não está escrito "entregar a vida", nem "padecer a morte", nem qualquer fórmula que suavize. Está escrito ser morto: alguém o mata. É a linguagem do homicídio, não a da doação.
Vale notar o que ainda não é dito. Mateus não escreve aqui "crucificado" — essa palavra só entra no terceiro anúncio, em Mateus 20:19. Uma coisa é anunciar a morte; outra é anunciar aquela morte específica.
"e ressuscitar no terceiro dia"
A metade que ninguém ouviu.
Este é um dos dados mais desconcertantes da passagem. A frase termina em ressurreição, e a reação imediata, no versículo 22, ignora completamente essa parte: Pedro reage à morte como se a frase tivesse acabado ali.
Não é distração de um homem só. Marcos 9:10 registra, na descida do monte da transfiguração, antes mesmo do segundo anúncio, que os discípulos discutiam entre si o que seria "ressuscitar dos mortos".
Duas leituras se apresentam, e as duas têm apoio. A primeira é que não creram: a notícia da morte foi tão pesada que anulou o resto.
A segunda explica melhor o "discutiam o que seria". Ressurreição, para um judeu formado na expectativa farisaica, era acontecimento coletivo do fim dos tempos, não retorno individual de uma pessoa no domingo seguinte. João 11:24 mostra Marta dizendo exatamente isso: "sei que ele há de ressuscitar na ressurreição, no último dia". Ouvir "ressuscitarei no terceiro dia" dentro dessa moldura é ouvir algo que não encaixa em lugar nenhum.
Se a segunda estiver certa, o problema não foi falta de fé. Foi falta de categoria: eles não tinham onde guardar a informação.
O texto não decide entre as duas. Registra a fala completa e, em seguida, uma reação que trata só da primeira metade.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os anciãos
Eram os leigos de peso — chefes das famílias mais influentes de Jerusalém, proprietários, gente de posição herdada. Não eram sacerdotes nem especialistas em lei: representavam no conselho a aristocracia laica, próxima dos saduceus em classe e em interesses.
Chama a atenção que Mateus os coloque em primeiro lugar, já que na narrativa da paixão ele quase sempre nomeia antes os chefes dos sacerdotes. Marcos 8:31 e Lucas 9:22 trazem a mesma ordem deste versículo, o que indica fórmula recebida e não escolha de Mateus.
Os chefes dos sacerdotes
O plural levanta uma pergunta legítima: sumo sacerdote não era um só? Era, no exercício do cargo. Mas o plural grego cobre um grupo mais amplo: o sumo sacerdote em função, os que já haviam ocupado o cargo e continuavam influentes — Anás é o caso conhecido, deposto pelos romanos e ainda decisivo décadas depois —, os chefes das vinte e quatro turmas sacerdotais e os altos funcionários do templo.
Era o grupo com poder real: controlava o templo, a maior instituição econômica da Judeia, e mantinha a relação de trabalho com o poder romano.
Os escribas
Especialistas na lei escrita e na tradição: copiavam, ensinavam, redigiam documentos e decidiam questões legais. Não formavam um partido — havia escribas de orientação farisaica e escribas ligados ao círculo sacerdotal —, e o termo descreve uma profissão, não uma corrente. Em matéria de tribunal, eram os que sabiam conduzir um processo: sem eles, o conselho tinha autoridade e não tinha técnica.
O sinédrio
O conselho supremo de Jerusalém, com setenta e um membros segundo a tradição, presidido pelo sumo sacerdote. Reunia-se, conforme fontes rabínicas, numa sala dentro do complexo do templo, e tratava das questões religiosas, civis e criminais mais graves.
Há uma discussão antiga e não resolvida sobre se ele podia executar pena de morte no período romano. João 18:31 põe na boca das autoridades a frase "a nós não nos é lícito matar ninguém"; por outro lado, Atos 7 relata o apedrejamento de Estêvão, e Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século) registra a execução de Tiago, irmão de Jesus, num intervalo entre governadores. Não há consenso. O que importa para a leitura do versículo é seguro: a morte anunciada passa por um processo institucional.
Jerusalém
Capital religiosa e sede do templo. É a primeira vez que Mateus a nomeia como destino de Jesus; até aqui ela aparecera como origem de delegações que vinham inspecioná-lo, e em Mateus 15:1 escribas e fariseus chegam "de Jerusalém".
Onde a cena acontece
Ainda na região de Cesareia de Filipe, onde Pedro fez a confissão no versículo 13 deste capítulo. O lugar foi descrito ali e não se repete aqui.
Vale reter o contraste: o anúncio da morte em Jerusalém é feito no ponto mais distante de Jerusalém a que Jesus chega em todo o evangelho.
5. Pontos de Ensino
O anúncio vem depois do reconhecimento, não antes
A ordem dos acontecimentos é pedagógica, e o texto a marca com a expressão temporal do começo.
Enquanto não sabiam quem ele era, a informação sobre o destino teria sido apenas notícia ruim. Depois da confissão, ela passa a ser conteúdo da identidade confessada: o ungido é este que vai morrer.
Isso desmonta um modo comum de apresentar a fé, que separa aceitar Jesus de entender o que isso implica como se fossem etapas independentes. No texto, a segunda vem colada na primeira e a redefine.
Saber o fim muda a leitura do meio
O evangelho entrega o desfecho no meio do livro. Daqui em diante não há suspense sobre o resultado; há sobre o caminho.
A escolha tem consequência: ela tira do leitor a possibilidade de tratar a cruz como acidente, como plano que deu errado ou como emboscada bem-sucedida.
Necessário não é o mesmo que fácil
O versículo afirma uma necessidade e, dois versículos adiante, mostra a dureza da reação a quem tentou desviá-la.
Se a coisa fosse automática, a tentativa de Pedro seria irrelevante e a resposta poderia ser branda. Não é o que acontece. O Getsêmani, em Mateus 26:39, mostrará a mesma tensão com todas as letras.
A oposição muda de endereço
Até aqui, os adversários eram fariseus e saduceus da Galileia. A partir deste versículo, o alvo declarado é o conselho de Jerusalém, e muda a natureza do conflito: de disputa sobre interpretação da lei para processo com poder de matar. A mudança é anunciada antes de acontecer — nada, na cena, já indica isso.
6. Aspectos Filosóficos
Se era necessário, ainda era livre?
O versículo cria um problema que ele mesmo não resolve. Afirma que Jesus precisava ir, sofrer e morrer — e ao mesmo tempo o apresenta caminhando por vontade própria, sem que ninguém o arraste.
Necessidade e liberdade se excluem? Baruch de Espinosa (filósofo holandês do século XVII, de família judaica portuguesa, expulso da comunidade de Amsterdã) construiu quase toda a Ética — obra publicada em 1677, escrita em latim e organizada como um tratado de geometria, com definições, axiomas e teoremas — para sustentar que não.
O que Espinosa sustenta
A tese central é que nada no universo é contingente: tudo o que existe segue da natureza de Deus com a mesma necessidade com que da natureza do triângulo segue que seus ângulos somam dois retos.
O passo decisivo está na definição de liberdade, e é contraintuitivo. Para Espinosa, o contrário de livre não é necessário — é coagido. Livre é aquilo que existe apenas pela necessidade da própria natureza e age determinado por si mesmo; coagido é aquilo que outro determina.
Agir por necessidade interna, portanto, é o próprio conceito de liberdade.
Ele nega, em seguida, o que a maioria chama de livre-arbítrio: a ideia de uma vontade que escolhe sem ser determinada é ilusão nascida da ignorância das causas. Numa carta a um correspondente, propõe a imagem que ficou famosa — uma pedra lançada no ar, se tivesse consciência, acreditaria estar voando por decisão própria. Sabe que se move; ignora o que a move.
E o remédio que oferece não é escapar da necessidade, e sim compreendê-la: a liberdade humana cresce à medida que a pessoa entende as causas que a determinam.
Onde os dois se encontram
O texto não diz que Jesus foi obrigado. Diz que era necessário — e mantém "ir" como ação dele. Nos termos da Ética, isso não é contradição: é a descrição de um ato que decorre daquilo que o agente é, e que por isso mesmo é necessário e livre ao mesmo tempo.
Há um segundo ponto de contato, mais fino. Se a liberdade cresce com o conhecimento das causas, então a cena seguinte é exemplar: Pedro tenta impedir aquilo cuja necessidade ele não enxerga. Quem enxerga, caminha; quem não enxerga, protesta.
Onde a aproximação não vale
É preciso marcar o limite, porque aqui ele é grande. A necessidade de Espinosa é impessoal e sem finalidade. O Deus dele é a própria natureza, não age por propósitos e não visa a nada — o apêndice da primeira parte da Ética é dedicado a demolir a ideia de que as coisas existam para algum fim. A necessidade do versículo é o oposto: é finalidade pura, existe porque algo deve ser alcançado.
E há uma segunda, quase irônica. Espinosa escreve, na quarta parte da Ética, que o homem livre em nada pensa menos do que na morte, e que sua sabedoria é meditação sobre a vida. O versículo mostra alguém cuja liberdade se exerce justamente em olhar para a própria morte e caminhar em direção a ela. São modelos inversos de vida sábia.
Fica a distinção conceitual: necessário e coagido não são sinônimos. Ela não está no versículo — é leitura do comentarista, oferecida para desfazer o mal-entendido de que "tinha de acontecer" signifique "ele não teve escolha".
7. Aplicações Práticas
Dizer a verdade difícil na hora em que ela pode ser recebida
O texto marca um momento: "daquele momento em diante". Antes dele, o assunto não foi tratado.
Isso não é omissão nem falta de coragem. É reconhecimento de que a mesma informação, entregue cedo demais, produz efeito contrário ao pretendido, e de que existe um ponto a partir do qual ela passa a fazer sentido.
Vale para o diagnóstico que um médico segura até a família chegar, para a conversa sobre a separação que os pais adiam até o filho ter idade de entender, para o problema grave da empresa. O critério não é o conforto de quem fala; é a capacidade de recepção de quem ouve. E há o limite óbvio: esperar o momento certo vira desculpa fácil para nunca falar.
Dar a notícia inteira, mesmo sabendo que só metade será ouvida
A frase termina em ressurreição, e a reação registrada trata só da morte.
Quem comunica algo pesado conhece o fenômeno. A parte ruim ocupa toda a atenção, o resto passa, e a tentação é adaptar a mensagem: omitir, adoçar, guardar para depois.
O texto mostra o contrário. A informação completa é dada, mesmo com a certeza de que não será processada agora — e fica disponível para quando fizer sentido. Vale dizer inteiro, e vale repetir: Mateus registra o anúncio três vezes, o que sugere que a primeira não bastava.
Verificar o que a pessoa ouviu, e não o que se disse
A cena expõe uma distância entre a fala e a escuta que não depende de má vontade. Pedro não estava distraído: ouviu com cuidado e ainda assim reteve metade, porque a outra metade não tinha onde encaixar no que ele já sabia.
O método que decorre disso é simples e pouco praticado: pedir que a outra pessoa repita o que entendeu, em vez de perguntar se entendeu. A pergunta "ficou claro?" quase sempre recebe um sim.
Sobre usar a palavra "necessário" na própria vida
O versículo não autoriza ninguém a tratar o próprio sofrimento como parte de um plano determinado. A necessidade de que ele fala é específica, dita por quem estava dentro dela, sobre um caminho concreto. Estendê-la a qualquer dor é operação de quem faz a extensão, não do texto.
O que se pode reter é mais modesto: existem coisas que só se atravessam indo até o fim, e desviar não resolve. Distinguir essas da dor evitável é trabalho que o versículo não faz por ninguém.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A previsão foi escrita depois do fato?
A pergunta é inevitável em qualquer leitura séria, e merece ser tratada de frente.
A favor: os detalhes são precisos — a cidade, os três grupos, a morte, o terceiro dia —, e uma comunidade que já conhecia o desfecho teria motivo para dar ao anúncio a forma exata do que aconteceu.
Contra: se o objetivo fosse construir uma previsão perfeita, alguns detalhes seriam outros. O anúncio não menciona a crucificação nem os romanos, que foram quem executou. E a cena seguinte é constrangedora para a comunidade que a transmitiu: o líder mais importante recebe o pior insulto do evangelho. Material embaraçoso raramente é inventado.
Não é possível decidir. As duas posições têm apoio real e a discussão continua aberta.
Por que Deus precisaria dessa morte?
O versículo não responde, e é importante notar que nem sequer levanta a questão.
Não há aqui explicação de mecanismo: nada sobre resgate, substituição, sacrifício ou satisfação. Todas as teorias sobre o sentido daquela morte são construídas a partir de outros textos, principalmente das cartas de Paulo e da carta aos Hebreus.
Quem quiser saber o que este versículo afirma encontrará apenas isto: que era necessário. O porquê não está escrito.
Jesus soube disso desde o começo ou soube naquele momento?
O texto marca o começo do anúncio, não o começo do conhecimento — e a distinção é fácil de perder. Há indícios anteriores: em Mateus 9:15 ele fala do noivo que será tirado, e em Mateus 12:40 do sinal de Jonas. São referências veladas, e há debate sobre quanto se pode extrair delas. Sobre o que se passava antes, o texto não diz.
9. Conexão com Outros Textos
A outra ocorrência da fórmula
Mateus 4:17 — "Daquele momento em diante Jesus começou a pregar e a dizer: Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo."
Ali começa a proclamação; aqui começa o caminho para a morte. Mesma arquitetura, conteúdos opostos.
Os outros dois anúncios
Mateus 17:22-23 — "O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado. E os discípulos ficaram muito tristes."
O segundo acrescenta "entregue" e registra a reação: tristeza, não mais protesto.
Mateus 20:18-19 — "Estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará."
O terceiro é o mais detalhado, e o único que nomeia a crucificação e os estrangeiros. A progressão mostra informação sendo acrescentada aos poucos.
O paralelo em Marcos
Marcos 8:31 — "E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, e fosse rejeitado pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas, e fosse morto, e depois de três dias ressuscitasse."
Quatro diferenças numa frase só: "ensinar" no lugar de "mostrar", o acréscimo de "rejeitado", "depois de três dias" e "o Filho do homem" onde Mateus diz o nome.
A mesma necessidade em outras bocas
Lucas 13:33 — "Importa caminhar hoje, amanhã e no dia seguinte; porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém."
A mesma palavra da necessidade, aplicada à cidade, com ironia amarga sobre uma tradição de assassinatos.
Lucas 24:26 — "Porventura não era necessário que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória?"
A pergunta feita no caminho de Emaús, depois do fato, com o mesmo verbo. É a interpretação que o próprio Novo Testamento dá à necessidade que este versículo apenas afirma.
O terceiro dia
Oseias 6:2 — "Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele."
O texto do Antigo Testamento mais próximo da fórmula. Ali a promessa é coletiva, e há discussão sobre se e quando passou a ser lida em chave individual.
João 11:24 — "Marta lhe disse: Eu sei que ele há de ressuscitar na ressurreição, no último dia."
A moldura mental disponível: acontecimento do fim, e coletivo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Daquele momento em diante, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia.
Texto grego
Ἀπὸ τότε ἤρξατο ὁ Ἰησοῦς δεικνύειν τοῖς μαθηταῖς αὐτοῦ ὅτι δεῖ αὐτὸν εἰς Ἱεροσόλυμα ἀπελθεῖν καὶ πολλὰ παθεῖν ἀπὸ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἀρχιερέων καὶ γραμματέων καὶ ἀποκτανθῆναι καὶ τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ ἐγερθῆναι.
Transliteração
Apo tote ērxato ho Iēsous deiknyein tois mathētais autou hoti dei auton eis Hierosolyma apelthein kai polla pathein apo tōn presbyterōn kai archiereōn kai grammateōn kai apoktanthēnai kai tē tritē hēmera egerthēnai.
Uma diferença entre manuscritos
Parte importante da tradição manuscrita traz, no lugar de "Jesus", a forma Iēsous Christos — "Jesus Cristo". Se o título for original, Mateus estaria escrevendo "Jesus Cristo" logo no versículo seguinte àquele em que Pedro o reconheceu como Cristo, confirmando o reconhecimento no instante em que corrige o conteúdo dele; se for acréscimo, algum copista fez a mesma ligação e a deixou explícita. É discutido, e não é possível decidir.
Análise palavra por palavra
Ἀπὸ τότε — apo tote, "a partir de então". Preposição de origem mais advérbio de tempo.
A expressão ocorre três vezes em Mateus: aqui, em Mateus 4:17 e em Mateus 26:16, onde marca o momento em que Judas passa a procurar oportunidade de entregá-lo. Mas a fórmula longa — apo tote ērxato ho Iēsous, "a partir de então Jesus começou" — ocorre só duas vezes: Mateus 4:17 e este versículo. É essa raridade que sustenta a leitura moderna de que Mateus estruturou o livro em três partes usando a expressão como articulação.
ἤρξατο — ērxato, "começou". Aoristo médio de archō, cuja voz ativa significa "governar, ser chefe" — a raiz de "arquiteto" e de "monarquia" — e cuja voz média significa "começar".
O sentido é o de início de uma ação que se prolonga. E o mesmo verbo, na mesma forma, reaparece no versículo seguinte aplicado a Pedro, que "começou a repreendê-lo". A simetria se registra aqui; o que ela significa pertence ao versículo 22.
δεικνύειν — deiknyein, "mostrar, apontar, exibir". Infinitivo presente de deiknymi.
O verbo é do campo da demonstração visual, não do discurso: mostra-se um objeto, um lugar, um caminho.
Uma ocorrência ajuda a sentir o peso. Em Mateus 4:8, na cena do deserto, o diabo "mostra" a Jesus todos os reinos do mundo e a glória deles — é o mesmo verbo, e o objeto mostrado é exatamente aquilo que este versículo substitui por outro trajeto.
ὅτι δεῖ — hoti dei, "que é necessário". Dei é verbo impessoal, sempre na terceira pessoa do singular, derivado de deō, "atar, amarrar, prender".
Esta é a palavra central do versículo, e a origem já diz muito: o necessário é aquilo que está amarrado, que não se solta.
A forma impessoal é decisiva. O grego não diz "Deus determina que ele vá", nem "a profecia obriga", nem "as circunstâncias impõem". Diz apenas: é necessário. O agente fica fora da frase, e essa ausência não é descuido — é a natureza do verbo.
O termo aparece cerca de cem vezes no Novo Testamento, e os léxicos costumam distribuir seus usos em espécies distintas de necessidade. Há a que decorre de como as coisas são, como em João 3:30 ("é necessário que ele cresça e que eu diminua"); a que a situação concreta impõe, como em Mateus 26:35; a do dever legal ou moral, como em Mateus 23:23; a do meio indispensável para se chegar a um fim; e aquela que os comentaristas chamam de necessidade divina, decorrente do propósito de Deus e da Escritura.
Qual delas vale aqui? A resposta mais comum entre os comentaristas é a última, e é bem fundamentada: Lucas 24:26 e Lucas 24:46 explicitam essa leitura usando o mesmo verbo. Mas a frase, sozinha, comporta mais de uma — a necessidade das circunstâncias também se sustenta, já que alguém que entra em Jerusalém dizendo e fazendo o que ele dizia e fazia seria morto, e isso é constatação política. Não é possível decidir a partir da palavra: o verbo cobre todas essas espécies, e Mateus não especificou.
εἰς Ἱεροσόλυμα ἀπελθεῖν — eis Hierosolyma apelthein, "ir a Jerusalém".
O nome da cidade aparece em duas formas no Novo Testamento. Hierosolyma é a grega, adaptada à língua, e é a que Mateus usa quase sempre; Ierousalēm é a transliteração direta do hebraico, mais solene, e Mateus a reserva para um único momento — o lamento de Mateus 23:37, sobre a cidade que mata os profetas.
Apelthein é composto de apo, "para longe de", mais erchomai, "ir". Traz a ideia de partir de onde se está, e não só a de chegar. Ele sai da Galileia.
πολλὰ παθεῖν — polla pathein, "sofrer muitas coisas". Infinitivo aoristo de paschō.
Paschō é a raiz de "paixão" no sentido religioso da palavra. Seu significado básico não é sofrer, e sim ser afetado, receber uma ação vinda de fora — o oposto exato de agir. É o contrário de poieō, "fazer", e no grego clássico podia aplicar-se tanto ao bem quanto ao mal recebido.
Daí que a frase inteira monte uma gramática: o único verbo ativo é ir; todos os demais colocam Jesus na posição de quem recebe. O plural polla, "muitas coisas", mantém o conteúdo indefinido — a morte vem depois, em item próprio.
ἀπὸ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἀρχιερέων καὶ γραμματέων — apo tōn presbyterōn kai archiereōn kai grammateōn, "por parte dos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas".
Como já acontecera na abertura deste capítulo, em Mateus 16:1, um único artigo governa a lista inteira. Aqui o efeito é ainda mais claro: os três não são grupos justapostos, mas as partes de um corpo só.
Presbyteros é o comparativo de presbys, "velho": literalmente "o mais velho", palavra que passou do sentido de idade ao de função e chegou ao português como "presbítero". Archiereus junta archē, "chefia", a hiereus, "sacerdote". Grammateus vem de gramma, "letra, escrito" — o homem das letras, que sabe manejar textos legais, e traduz o hebraico sofer ("escriba", o especialista na lei escrita).
ἀποκτανθῆναι — apoktanthēnai, "ser morto". Infinitivo aoristo passivo de apokteinō, "matar".
O verbo é o comum e cru para tirar a vida de alguém, sem nuance sacrificial. Não há aqui vocabulário de oferta, de holocausto ou de resgate: é a palavra que se usaria para um assassinato. E a voz passiva mantém o padrão da frase — ele não morre, é morto.
τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ ἐγερθῆναι — tē tritē hēmera egerthēnai, "no terceiro dia ser levantado". Infinitivo aoristo passivo de egeirō.
Aqui há um detalhe que a tradução portuguesa apaga.
Egeirō significa "acordar, despertar, levantar" — é o verbo de quem se levanta da cama ou de quem levanta outro do chão, e aparece em Mateus 8:25, quando os discípulos acordam Jesus na tempestade.
E a forma é passiva: literalmente, "ser levantado". Quem levanta não é nomeado, mas o Novo Testamento é consistente em atribuir a ação a Deus — Atos 2:24 e Romanos 4:24 dizem isso de modo direto.
Ou seja: onde o português diz "ressuscitar", como se fosse ação do próprio, o grego diz "ser levantado", mantendo Jesus na mesma posição gramatical em que está desde o meio da frase. A passividade atravessa até o fim.
Marcos 8:31 usa aqui outro verbo, anistēmi, de sentido próximo e voz ativa. A diferença é discutida e provavelmente pequena, mas em Mateus a forma passiva é constante nos três anúncios.
11. Conclusão
O versículo é a dobradiça do evangelho, e dele decorrem cinco conclusões.
A primeira é que a mudança é estrutural, e não de assunto. A fórmula que abre a frase só havia sido usada uma vez, para dar início à pregação do Reino; empregá-la de novo significa que o texto entende este ponto como um segundo começo, cujo conteúdo é o inverso do primeiro.
A segunda diz respeito à forma da necessidade afirmada. O verbo empregado é impessoal e não nomeia quem obriga, de modo que o texto sustenta ao mesmo tempo a leitura do plano divino, a do cumprimento das Escrituras e a da consequência política inevitável. Disso decorre que qualquer leitura que escolha uma delas e descarte as outras acrescenta ao versículo uma precisão que ele não tem.
A terceira é gramatical e tem efeito teológico. Depois do verbo "ir", tudo o que se diz dele o coloca na posição de quem recebe a ação: sofre, é morto, é levantado. O caminho de Jerusalém é descrito como a passagem de agente a paciente, e o único ato que permanece dele é o de entrar nesse caminho.
A quarta é sobre quem condena. Ao listar os três grupos do tribunal supremo, o versículo anuncia não uma emboscada, mas um processo com a chancela da instituição religiosa de Israel — e registra, sem comentar, a ausência dos fariseus, que saem de cena quando o assunto passa a ser poder de julgar.
A quinta se tira do contraste entre o que foi dito e o que foi ouvido: a dificuldade dos discípulos tem chance de não ser falta de fé, e sim falta de moldura, já que ressurreição era, no vocabulário disponível a eles, acontecimento coletivo do último dia. Não é possível decidir entre essa explicação e a mais simples, a de que não acreditaram — o texto registra o efeito e cala sobre a causa.
Fica em aberto, e é honesto que fique, a razão pela qual essa morte seria necessária. O versículo afirma a necessidade e não oferece mecanismo nenhum que a explique.













